Sobre a História

Não há uma história da humanidade, há apenas um número indeterminado de histórias de todo o tipo de aspetos da vida humana. E um deles é a história do poder político. Esta é elevada à categoria de história universal. Mas isto, a meu ver, constitui uma ofensa contra qualquer concepção decente de humanidade. É pouco melhor do que tratar a história das fraudes, ou do roubo, ou do envenenamento como sendo a história da humanidade, porquanto a história da política do poder nada mais é do que a história do crime internacional e dos assassínios em massa (incluindo, é verdade, algumas tentativas para os eliminar). Esta história é ensinada nas escolas e alguns dos maiores criminosos são exaltados como os seus heróis.
Mas não haverá de facto uma história universal, no sentido de uma história concreta da humanidade? Não pode haver. Deve ser esta a resposta de qualquer humanitário, creio eu, e especialmente a de qualquer cristão. Uma história concreta da humanidade, se a houvesse, teria de ser a história de todos os homens. Teria de ser a história de todas as esperanças, lutas e sofrimentos humanos. Porque não há homem algum que seja mais importante do que qualquer outro. E é evidente que essa história concreta não pode ser escrita. Teríamos de fazer abstrações, de selecionar, de deixar coisas de lado. Mas, desse modo, chegamos às histórias múltiplas; e, entre elas, à história do crime internacional e do assassínio em massa que tem sido propagandeada como a história da humanidade.
Mas porque foi escolhida a história do poder e, não, por exemplo, a da religião ou a da poesia? São diversas as razões. Uma é a de que o o poder nos afeta a todos e a poesia a apenas uns poucos. Outra é que os homens estão inclinados a adorar o poder. Mas é inquestionável que a adoração do poder é uma das piores espécies de idolatria humana, uma relíquia dos tempos de prisão, de servidão humana. O culto do poder nasceu do medo, uma emoção que é desprezada com razão. Uma terceira razão pela qual o poder político se converteu no cerne da “história” é que aqueles que detinham o poder queriam ser adorados e podiam impor os seus desejos. Muitos historiadores escreveram sob a supervisão de imperadores, de generais e de ditadores.

Karl Popper, A Sociedade Aberta e seus Inimigos.

(Tradução de João Carlos Espada).