Em Busca de um Mundo Melhor

Sócrates, Kant e Popper – uma linha filosófica claramente definível, oposta a todas as outras.

O primeiro livro que li de Karl Popper, no início dos anos 90, foi Em Busca de um Mundo Melhor[1]. O seu conteúdo é muito diversificado e inclui palestras, artigos, transmissões radiofónicas e até uma carta. Documentos produzidos ao longo de trinta anos. A recolha e seleção do material foi do próprio Popper[2], e podemos dizer, sem grande margem de erro, com o intuito de abranger, tanto quanto possível, todas as áreas do seu pensamento.

E que áreas são essas? Bom, Popper interessou-se pelas ciências naturais, sobretudo Física, Química, Biologia e Cosmologia[3], disciplinas em que foi inovador, mas também pelas ciências sociais, particularmente pela Sociologia, campo em que produziu, além de A Pobreza do Historicismo, a obra talvez mais odiada pelos inimigos da liberdade e, para mim, o livro de não-ficção mais importante do século XX: A Sociedade Aberta e Seus Inimigos[4]. Na base do pensamento de Popper encontramos profundas convicções éticas, como mostrou Mariano Artigas em As Raízes Éticas da Epistemologia de Karl Popper[5], sendo, por isso, notório o seu comprometimento com a Ética; e, como um não-positivista, tantas vezes auto-declarado mas nem sempre atendido, Popper não desmerecia a Metafísica como fonte de possibilidades de conhecimento. Podemos ver, assim, que a sua doutrina responde cabalmente às célebres quatro perguntas de Kant[6].

Regressemos ao livro e ao primeiro capítulo que se intitula Conhecimento e Formação da Realidade – Em Busca de um Mundo Melhor. O seu conteúdo resume-se à transcrição de uma palestra proferida em Alpabach, uma pequena vila da província de Tirol, na Áustria[7], e é apenas sobre ele que nos vamos debruçar. Todos os que estão familiarizados com a obra de Karl Popper conhecem a sua divisão do Real em “mundo 1”, “mundo 2” e “mundo 3”. O mundo 1 é o da realidade física, de tudo o que existe na Terra e fora dela, vivo ou inanimado, é o mundo material, incluindo o universo, seus mecanismos e forças; o mundo 2 é o da consciência, das experiências humanas, da nossa interação com o mundo 1; e o mundo 3 é o das realizações do mundo 2, as produções da mente humana: livros, sinfonias, esculturas, automóveis, escovas de dentes, poemas, enfim, aquilo a que poderíamos chamar “cultura”.

Enquanto elementos físicos do mundo 3, essas produções humanas passam também a pertencer ao mundo 1, o mundo das coisas materiais[8]. Vemos, assim, que os três mundos estão não apenas interligados, mas também, por vezes, sobrepostos, embora perfeitamente distinguíveis. Além disso, os três mundos têm uma ordenação temporal, daí a clara numeração em 1, 2 e 3: de acordo com o conhecimento científico atual[9], podemos afirmar que a parte inanimada do mundo 1 é, de longe, a mais antiga; que depois vem a parte animada do mundo 1 e, quase simultaneamente, o mundo 2, o mundo das experiências; e que só depois, com a chegada do homem, aparece o mundo 3, o mundo dos produtos mentais e da cultura.

Popper liga os três mundos à história da Filosofia. De facto, há filósofos que afirmam existir exclusivamente o mundo 1 – os materialistas – enquanto outros acreditam existir apenas o mundo 2 – os idealistas – e existem ainda os que acreditam nos mundos 1 e 2, os chamados dualistas. Ele vai mais longe, e afirma que não apenas o mundo 1 e o mundo 2 são reais, mas também é real – e deveras importante – o mundo 3, a última etapa (até agora) da evolução.

E porque é tão importante o mundo 3, segundo Popper? Porque uma das mais significativas produções humanas é a formulação de teorias científicas, as quais, ao estarem disponíveis no mundo 3, são suscetíveis de crítica; e esta crítica pode conduzir a teorias científicas concorrentes. A formulação de teorias só é possível porque os seres humanos, num determinado momento da sua caminhada sobre a Terra adquiriram a capacidade de comunicar através de um tipo de linguagem único, diferente da linguagem dos outros animais. Popper denomina esse tipo de linguagem de argumentativa[10].

Isto pode parecer relativamente banal, mas é relevante pelo seguinte: todo o conhecimento avança através do velhinho método de tentativa e erro, sendo que, durante um longo período evolutivo, errar significava quase sempre perder a própria vida; porém, na atual fase evolutiva, temos a felicidade de podermos deixar as teorias científicas morrer, em vez de nós. É por isso que este é igualmente o estádio que reúne as condições para que a paz entre os homens seja possível (podemos substituir armas por argumentos), evoluindo de acordo com o impulso natural de qualquer organismo, “desde a amiba a Einstein”, que é o de melhorar a sua condição.

Assim, Karl Popper aceita a teoria da evolução de Darwin apenas em parte. Enquanto o darwinismo, em larga medida sob a influência de Malthus, coloca os seres vivos sobre forte pressão do ambiente que os rodeia – uma força de fora para dentro – Popper considera que todos os seres vivos estão constante e ativamente procurando melhores nichos ecológicos – uma força de dentro para fora – transformando-se, recriando-se, para melhor captarem e utilizarem o que precisam da natureza. Em busca de um mundo melhor[11].

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Notas:

[1] Esse livro era uma edição (portuguesa) da editora Fragmentos, publicado em 1992, que já não possuo. Emprestei-o e não mo devolveram. Recentemente quis comprar um novo exemplar, procurei-o, e verifiquei que o livro está esgotado, não apenas em Portugal, mas também em Espanha e até no Brasil. A solução foi mandá-lo vir do Reino Unido, através da Fruugo. É com base nessa edição inglesa que escrevemos este artigo.

[2) Em 1989.

[3] Nas palavras do próprio Popper, “toda a ciência é cosmologia”.

[4] Popper conta-nos, na sua auto-biografia, que este livro nasceu de apontamentos e reflexões acumulados durante um certo tempo. Esses textos multiplicaram-se de tal forma, que levaram Popper a pensar numa obra, que acabaria por ser “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos” (em dois volumes), escrita na Nova Zelândia e publicada em 1945.

[5] Tradução nossa do artigo, aqui:https://ilovealfama.com/2017/07/13/as-raizes-eticas-da-epistemologia-de-karl-popper/

[6] “O que posso saber?”, “O que devo fazer?”, “O que me é permitido esperar?”, “O que é o homem?”. Através destas 4 perguntas, Kant abarca todas as áreas clássicas da Filosofia.

[7]: A palestra contém as marcas inconfundíveis de Popper: rigor, clareza, elegância e, sempre que a oportunidade surge, uma pitadinha de humor.

[8] De notar que um poema ou uma música são coisas imateriais enquanto estiverem apenas na nossa cabeça, mas passam a algo físico quando forem transcritas para o papel ou quando forem declamadas ou tocadas (as ondas sonoras pertencem, como é óbvio, ao mundo 1).

[9] Conhecimento que, para Popper, é sempre conjetural.

[10] De acordo com Popper, existem quatro tipos de linguagem: da mais básica para a mais complexa, 1) expressiva e 2) comunicativa, comuns aos outros animais e ao homem; 3) descritiva e 4) argumentativa, exclusivamente humanas.

[11] Esta ideia de Popper baseia-se na “seleção orgânica”, assim denominada originalmente por Lloyd Morgan, Baldwin e outros, mas que teria sido apresentada muito antes, sem essa denominação, pelo geólogo escocês James Hutton. Isto quer dizer que os indivíduos (todos os seres vivos) fazem escolhas por iniciativa própria – por exemplo, a preferência por um novo alimento, por um novo método de caça ou por uma nova árvore onde fazer o ninho. Cada novo comportamento pode ser visto como a seleção de um novo nicho ecológico. Assim, o animal e a sua descendência ficam expostos a um novo ambiente, logo, a uma nova pressão seletiva que guia o desenvolvimento genético dos indivíduos para se adaptarem ao novo ambiente.

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Foto retirada de https://www.stuff.co.nz/national/christchurch-shooting/111390530/dont-tolerate-the-intolerant-wrote-philosopher-karl-popper-during-his-stay-in-nz