O Nacionalismo na ordem do dia. A visão de Popper

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A propósito do referendo que ainda não sabemos se se realizará ( nem como, se, de facto, se realizar) no próximo domingo na Catalunha, tem sido bastante discutido, nos últimos dias, o tema do nacionalismo. Vejamos alguns extratos do que Popper escreveu sobre o assunto, na década de quarenta do século passado, numa das suas obras mais importantes, A Sociedade Aberta e Seus Inimigos[1].

” (…) O nacionalismo faz apelo aos nossos instintos tribais, à paixão e ao preconceito, e ao desejo nostálgico de sermos libertados da tensão da responsabilidade individual, que tenta substituir por uma responsabilidade coletiva ou de grupo. É na linha dessas tendências que verificamos que as obras mais antigas sobre teoria política, mesmo a do Velho Oligarca, mas mais marcadamente as de Platão e Aristóteles, refletem conceções decididamente nacionalistas, já que tais obras foram escritas numa tentativa de combater a sociedade aberta e as novas ideias de imperialismo, cosmopolitismo e igualitarismo. Este primeiro desenvolvimento de uma teoria político-nacionalista é cerceado, porém, com Aristóteles. Com o império de Alexandre, o nacionalismo tribal genuíno desaparece para sempre da prática política e, durante muito tempo, da teoria política. A partir de Alexandre, todos os Estados civilizados da Europa e da Ásia foram impérios, abrangendo populações de origens infinitamente diversificadas. A civilização europeia e todas as unidades políticas nela integradas permaneceram internacionais, ou, mais precisamente, intertribais, desde então. (…) (Claro que os sentimentos tribais e paroquiais sempre foram fortes). Quando o nacionalismo ressurgiu há cem anos, foi justamente na região mais mesclada de todas as regiões profundamente mescladas da Europa, na Alemanha, e especialmente na Prússia, com uma população fortemente eslava. (Ignora-se que, há cerca de um século apenas, a Prússia, com a sua população então predominantemente eslava, não era considerada de modo algum um Estado alemão, embora os seus reis, que, na sua qualidade de príncipes de Brandenburgo, eram “Eleitores” do império Germânico, fossem considerados príncipes alemães. No Congresso de Viena, a Prússia foi registada como um “reino eslavo”; e, em 1830, Hegel ainda se referia a Brandenburgo e a Mecklenburgo, como sendo povoados por “eslavos germanizados”).

Por conseguinte, pouco tempo decorreu desde que o princípio do Estado nacional foi reintroduzido na teoria política. Apesar disso, ele é tão amplamente aceite nos nosso dias que é usualmente tomado como ponto assente, e muitas das vezes sem que se tenha consciência disso. Constitui agora, por assim dizer, um pressuposto implícito do pensamento político popular. É inclusivamente considerado por muitos como o postulado básico da ética política, especialmente desde o princípio, bem-intencionado mas não tão bem ponderado, de Wilson sobre a autodeterminação nacional. É difícil entender como é que alguém com um mínimo de conhecimentos da história europeia, das migrações e misturas de todas as espécies de tribos, das inúmeras vagas de povos vindos do seu habitat asiático original e que se disseminaram e entrecruzaram ao alcançar esse labirinto de penínsulas a que se chama continente europeu, como é que alguém com esses conhecimentos tenha podido alguma vez propor um princípio tão inaplicável. A explicação está em que Wilson, que era um democrata sincero (e também Masaryk, um dos maiores defensores da sociedade aberta), foi vítima de um movimento oriundo da filosofia política mais reacionária e servil jamais imposta à submissa e paciente humanidade. Foi vítima da sua formação nas teorias metafísico-políticas de Platão e Hegel e do movimento nacionalista baseado nelas.

O princípio do Estado nacional, isto é, a exigência política de que o território de cada Estado coincida com o território habitado por uma nação, não é de modo algum tão evidente em si mesmo como parece ser para tanta gente, nos dias de hoje. Mesmo que se soubesse o que se quer dizer quando se fala de nacionalidade, não é evidente, em absoluto, por que razão a nacionalidade deve ser aceite como uma categoria política fundamental, mais importante, por exemplo, do que a religião, ou o nascimento dentro de uma determinada região geográfica, ou a lealdade a uma dinastia, ou a um credo político como a democracia (que forma, poder-se-á dizer, o fator de união da Suíça multilingue). Mas enquanto a religião, o território ou um credo político podem ser mais ou menos claramente determinados, ninguém foi jamais capaz de explicar o que entende por nação, de modo que possa ser usado como base de prática política. (Evidentemente, se dissermos que uma nação é um certo número de pessoas que vivem ou nascem em determinado Estado, então tudo é claro; mas isso significaria renunciar ao princípio do Estado nacional, que exige que o Estado seja determinado pela nação, e não o inverso). Nenhuma das teorias que defendem que uma nação é unificada por uma origem comum, ou por uma história comum, é aceitável ou aplicável na prática. O princípio de Estado nacional não só é inaplicável como nunca foi claramente concebido. É um mito. É um sonho irracional, romântico e utópico, um sonho de naturalismo e de coletivismo tribal”.


[1] A Sociedade Aberta e seus Inimigos, Karl Popper, Editora Fragmentos, 1993, Lisboa, vol. II. pp. 53-55.


Foto retirada de http://www.telegraph.co.uk.

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