Como conheci Popper

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Estávamos no início da década de noventa e eu abandonara há dois ou três anos o curso de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa. Não que não gostasse de filosofia, pelo contrário, frequentei o curso por gosto, influenciado por um excelente professor dessa disciplina, no 12º ano, um tipo ainda muito novo, na casa dos vinte, que dava aulas livres aos sábados sobre música clássica, e que, quando havia ópera no São Carlos, aparecia na escola dentro de um elegante smoking.


Mas as disciplinas na faculdade não me diziam grande coisa. Tínhamos um sacerdote em Filosofia da Religião, José Trindade Santos em Filosofia Antiga, e José Barata-Moura, ainda hoje um conhecido e inflexível marxista, em Filosofia do Conhecimento. Resumindo: absorvi doses absurdas de Platão, Aristóteles, Hegel e Marx, autores com os quais não me identificava, aborreci-me e vim embora.


Entretanto, o “bichinho” da filosofia continuava cá e continuei lendo. Gostava sobretudo de Kant e foi nessa época que li A Crítica da Razão Pura, mas também alguns diálogos platónicos (aprendi a separar os primeiros, onde aparecia o verdadeiro espírito socrático, dos posteriores, em que Platão usou Sócrates para divulgar as suas ideias reacionárias) e várias obras de outros autores.

Até que conheci Popper1.


Lembro-me perfeitamente: entrei na Livraria Portugal (hoje um café junto ao elevador de Santa Justa) e comprei o livro Em Busca de Um Mundo Melhor. Aquilo foi uma revelação para mim. Desde então, li (e reli) mais de vinte obras de Popper, edições portuguesas e estrangeiras, tudo o que foi possível adquirir.


Com o advento da internet, encomendei pela Amazon a sua autobiografia, Unended Quest (que não fora ainda editada em Portugal), e encontrei outras coisas interessantes – entrevistas, documentários, artigos – como é o caso do seguinte (e excelente) ensaio, onde se mostra como a epistemologia de Popper assenta em profundas raízes éticas (é minha intenção traduzi-lo em breve para português). http://www3.nd.edu/Departments/Maritain/ti/artigas.htm.

Com Popper aprendi a importância da crítica, mas sobretudo da autocrítica. Aprendi que uma teoria só é científica se for refutável. Aquilo que é certo, indiscutível e irrefutável não é ciência (isto Popper descobriu ainda muito cedo através de experiências com pseudociências, como a Psicanálise e o Marxismo, experiências que moldaram para sempre o seu pensamento). Então, o papel dos cientistas é o de criticarem as teorias vigentes (que não passam, afinal, de hipóteses não-contraditadas), para ver se encontram falhas, e as melhorarem – ou criarem teorias novas. É assim que progride a Ciência. Esse método (o velhinho método de tentativa e erro) é válido para qualquer ciência, incluindo ciências humanas, como a Sociologia – e é por isso que Popper prefere as reformas (aquilo que ele chamou de “engenharia social parcelar”) às visões utópicas, holísticas e historicistas da sociedade. Precisamente porque estas visões radicais, conceptualmente, não são criticáveis: os dogmas são crenças, acreditamos neles ou não, mas não podemos melhorá-los.


A partir de certo ponto, comecei a aplicar o método popperiano ao próprio Popper. Comecei a criticá-lo e a procurar falhas no seu sistema. Houve vários momentos em que pensei tê-las encontrado. Mas quando escavava um pouco mais, acabava por reconhecer que me enganara.
É por isso que mantenho a minha busca, não apenas sobre as propostas dele mas também de outros, sobretudo dos que mais admiro, pois é a estes que a nossa crítica deve ser dirigida, mais do que aos de quem discordamos.
Evidentemente, Popper não tinha a sabedoria no bolso. É ele quem nos diz: “aquilo que nos diferencia uns dos outros – os nossos conhecimentos individuais – é ínfimo em relação ao que nos une a todos – a nossa suprema ignorância”.

Esta afirmação é, para mim, uma norma. Procuro tê-la sempre presente na minha vida.


É pena que Popper seja tão mal conhecido. De facto, para a maioria esmagadora das pessoas, trata-se de um ilustre desconhecido, às vezes um nome que não é totalmente estranho (e há quem lembre uma frase perdida, um chavão – e quem faça muita, muita confusão, por exemplo, considerando-o um “ultraliberal”)2, mas pouco mais do que isso.

Alguns falam da sua obra, mas quase ninguém a lê3.


Por outro lado, não admira que a Academia portuguesa (e a brasileira) o ignorasse e ainda ignore. Um autor tão heterodoxo – que desmascara “monstros” como Heráclito, Platão, Aristóteles, Rousseau, Fichte, Hegel (o maior charlatão de todos4) Marx e Heidegger, só para citar os mais conhecidos, numa linha (crono)lógica que resume o pior do pensamento ocidental, não pode ser amado por instituições dirigidas por gente com mente formatada. Os amores de Trindade dos Santos por Platão e de Barata-Moura por Marx são para toda a vida5. Como o próprio Popper referiu: As escolas (em particular as Universidades) mantiveram, desde sempre, certas caraterísticas do tribalismo. Contudo, não devemos pensar somente nos seus emblemas ou na velha fita da escola com todas as suas implicações sociais de casta, etc., mas igualmente no caráter patriarcal e autoritário de tantas delas. Não foi por acaso que Platão, ao fracassar na reinstauração do tribalismo, fundou uma escola; assim como não é por acaso que as escolas são frequentemente bastiões de reação e os professores ditadores em edição de bolso6.


Como é óbvio, Karl Popper está condenado a ser, durante ainda bastante tempo, talvez para sempre, uma personalidade incómoda. Foi um lutador incansável pela paz no mundo e pelo fim da violência entre os homens – para ele, os grandes objetivos da Filosofia Política. A sua Epistemologia é profundamente inovadora e, tal como demonstra Mariano Artigas7, baseia-se em profundas raízes éticas. Com a sua teimosia em virar as coisas de pernas para o ar fê-lo também na Biologia, considerando, ao contrário de Darwin, que a busca por novos nichos ecológicos (uma força de dentro para fora) se sobrepõe à pressão do ambiente (uma força de fora para dentro). Todos os seres vivos buscam ativamente um mundo melhor e nós temos a sorte de vivermos no único estádio evolutivo em que podemos deixar morrer as ideias que criamos em vez de nós próprios.

Além de tudo isto e muitíssimo mais, Popper foi também o maior humanista da História da Filosofia, o mais original, o mais fascinante.

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Notas:

1 Como se poderá constatar através do texto, não conheci Popper pessoalmente, mas apenas através dos seus livros. Infelizmente, só tive conhecimento da sua existência pouco tempo depois da sua vinda (em 1987) a Portugal.

2Para evitar mal entendidos, quero deixar bem claro que emprego sempre os termos “liberal”, “liberalismo”, etc., no sentido em que ainda são geralmente usados em Inglaterra (embora, talvez, não nos Estados Unidos). Com “liberal” não me refiro a um simpatizante de um qualquer partido político, mas simplesmente a um homem que valoriza a liberdade individual e está desperto para os perigos inerentes a todas as formas de poder e autoridade”. (Karl Popper, Conjecturas e Refutações, Almedina, Lisboa, 2003, p. 10).

3 Diz-nos Popper: “Nunca encontrei ninguém que houvesse reparado nessas duas linhas [“Posso estar enganado e tu certo, mas, pelo esforço, podemos aproximar-nos da verdade”], as quais, segundo eu pretendia, constituíam o meu credo moral – linhas que, em meu ver, excluiriam a possibilidade de uma interpretação dogmática do “racionalismo crítico””. (in O Mito do Contexto, Edições 70, Lisboa, 1999, p.16).

4 O termo “charlatão”, para caracterizar Hegel, foi pela primeira vez usado por Schopenhauer. A charlatanice ou desonestidade intelectual revela-se também pela linguagem deliberadamente obscura, dúbia, incompreensível. Veja-se este exemplo, retirado do parágrafo 302, da Filosofia da Natureza, de Hegel: ” O som é a mudança verificada na condição específica de segregação das partes materiais e na negação dessa condição; é meramente uma idealidade abstrata ou ideal, por assim dizer, dessa especificação. Mas esta mudança é, por consequência, em si mesma imediatamente a negação da subsistência material específica; o que é, portanto, a idealidade real da gravidade específica e da coesão, isto é, o calor. O aquecimento de corpos sonoros, assim como dos corpos percutidos ou friccionados, é a aparência de calor que surge concetualmente juntamente com o som”. Por esta pequena amostra, se pode ver que não é exagero classificar como uma “autêntica tortura” o estudo da filosofia hegeliana, nas faculdades.

5 As pessoas têm muita dificuldade em libertar-se daquilo que estudaram e daquilo em que acreditaram uma vida inteira, e não querem saber do que possa de alguma forma contrariar a visão que construíram ao longo desse processo. Os psicólogos explicarão muito melhor do que eu por que a mente humana tem enorme facilidade em acreditar naquilo que quer. Crer ou não crer, eis a questão.

6 nota 38, alínea 2, ao capítulo 10 da Sociedade Aberta e Seus Inimigos.

7 Um interessante trabalho de Mariano Artigas sobre este assunto, traduzido por mim, pode ler-se aqui.

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Foto retirada de: https://it.wikipedia.org/wiki/Karl_Popper

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Christopher Nupen

Documentário sobre Daniil Trifonov, um pianista que já ouvimos ao vivo, realizado por Christopher Nupen.

Christopher Nupen é um documentarista sul-africano que se dedicou a realizar (e produzir) filmes sobre músicos. Ele próprio quis ser músico, e teve aulas de guitarra clássica com Andres Segóvia, tal como John Williams (não o compositor americano, mas o guitarrista australiano), o mais famoso aluno do famosíssimo mestre.

Foi através de Williams que Nupen conheceu vários músicos importantes, como Daniel Barenboim, Jacqueline du Pré e Vladimir Ashkenazy, todos ainda muito jovens, pouco conhecidos, mas cheios de talento; tornou-se amigo deles e decidiu começar a gravar a música que tocavam, primeiro para a rádio e depois, convidado por Huw Wheldon, para a BBC Television.

Assim nasceu o seu primeiro filme, Double Concerto, com os pianistas Ashkenazy e Barenboim (gravado com as novas câmaras silenciosas de 16 mm, desenvolvidas nos anos sessenta), que logo venceu dois prémios internacionais (Praga e Monte Carlo). Mais tarde, em Cannes, Chris receberia também o prémio para o melhor DVD do ano (2005), com Jacqueline du Pré in Portrait, troféu que voltaria a conquistar em 2006, com We Want the Light, (título extraído de um poema escrito por uma menina de 12 anos, Eva Pickova, no campo de concentração de Theresienstadt), um documentário que explora a complexa relação entre judeus e música alemã.

Christopher Nupen estabeleceu com a maioria dos músicos uma relação de amizade, e isso permitiu-lhe realizar filmes profundamente biográficos e intimistas, e muito belos. 

Seria fastidioso citar todos os super-talentos retratados por este magnífico realizador. Podemos encontrá-los em DVDs que valem cada cêntimo que possamos gastar. A nonagésima quinta produção é sobre Daniil Trifonov, um jovem russo de 24 anos que Martha Argerich (ela também retratada num documentário de Nupen) considera o melhor pianista de sempre.

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Jacqueline du Pré

Concerto para violoncelo de Edward Elgar.

Jacqueline du Pré ganhou o seu primeiro violoncelo aos 4 anos de idade. A partir daí, passou a viver em dois mundos – aquele em que era uma criança como todas as outras e um outro em que só existiam ela e o seu violoncelo.
Com o tempo, Jacqueline tornou-se uma instrumentista fantástica, mas a sua carreira seria interrompida aos 28 anos, devido à esclerose múltipla que lhe haviam diagnosticado. As últimas atuações foram dramáticas. Conduzia com o olhar os próprios dedos, isentos de sensibilidade.
Jackie morreu em 1987, aos 42 anos.
É uma figura cativante, uma das maiores da história da música.

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Raquel e o povo

Raquel Varela ionline

Ao que parece, Raquel Varela é uma figura em voga neste triste Portugal de hoje (e de quase sempre). Num brilhante artigo publicado anteontem no seu blogue, ela fala-nos do povo português. O bom e o mau. Já ontem, no programa “Barca do Inferno”, que não costumo perder, Varela brindou-nos com mais uma de suas afirmações bombásticas. Disse ela, que o voto para as legislativas não é democrático; o que é democrático é o voto de braço no ar para as Comissões de Trabalhadores.
Nada disto é novo, e não me surpreende que alguma rapaziada na casa dos vinte anos simpatize com Raquel Varela. Mas espanta-me que gente da minha geração, com experiência de vida, possa suportar afirmações deste calibre. Afirmações que incluem adjetivos como cobarde para classificar o povo do 24 de Abril de 1974[1]. Afirmações que revelam um espírito arrogante e profundamente reacionário e que, sinceramente, são tão ofensivas (e estúpidas), que chega a ser surpreendente que não provoquem maior riso ou indignação. Varela despreza com asco quem não pensa como ela (rima e é verdade). Varela, que não era nascida ainda em 25 de Abril de 74, estudou, leu e pesquisou umas coisas: e convenceu-se de que descobriu a verdade. Isso confere-lhe a legitimidade de produzir os juízos morais, simplistas, tão típicos dos extremistas fanáticos, e que culminam, sempre, numa divisão entre bons e maus. Trata-se, é claro, do mais puro e velho maniqueísmo – tão velho quanto o povo animalesco e deformado que Varela detesta e que, se pudesse, não hesitaria em extirpar.

Como extirparia, sem dúvida, o que é piroso, suburbano, fabricado por alfaiates de segunda e o que é esculpido com falos desmesurados… deformando o povo e os seus (dela, evidentemente) heróis. Não é, de facto, difícil imaginar esta educadora da classe operária como líder de um Movimento da Mão Erguida. (Desde, é claro, que a mão se mantivesse longe dela). É, aliás, estarrecedor o papel de Varela enquanto garante dos íntegros valores socialistas e operários, como se pode observar no artigo Urge “Guilhotinar” os Traidores[2], onde apresenta uma listagem dos ditos cujos – traidores (fura-greves). Como futura (e, felizmente, apenas hipotética) líder do proletariado no poder, Varela seria precisa e coerente na sua divisão do mundo entre maus e bons – como demonstrou no programa “Prós & Contras”, em 20 de maio de 2013, investindo contra um jovem de 16 anos, Martim Neves, que acabara de lançar a sua própria marca de roupa, um crime, e mais uma expressão do mundo mau.

É esta ilustre representante da “esquerda caviar”, Varela, a própria, que gosta de jantar em restaurantes caros e mostrar as fotos (que retirou depois da polémica gerada) no Facebook, aonde não vão certamente os seus queridos operários do braço no ar, quem vem dando algum brilho a este Portugal acinzentado; é ela, ainda, com sua verve, quem nos dá a receita adequada para sairmos da crise em que nos encontramos – não negociando com os credores, não pagando o que devemos, e mantendo o total controlo público sobre o setor bancário e financeiro para evitar a fuga de capitais – uma receita mais que infalível para sairmos diretamente de uma situação difícil para a completa miséria, num contraste absoluto e cómico com a caracterização de Varela para “socialismo”: liberdade e abundância; e é ela, finalmente, quem acha que o Estado tem obrigação de cuidar do povo e garantir que este tenha acesso ao Estado Social que sustenta, aliás, em impostos (saúde, educação, segurança social), alimentação e roupas, e todo o kit de sobrevivência acima do mínimo, porque a produtividade hoje permite isso, permite o decente; e cuidar, claro, que as pessoas vivem em lugares dignos e confortáveis. Confuso? Sim e não, apenas um tanto mal escrito, mas ainda assim bastante claro: se o dinheiro não chegar para tudo, a gente pede emprestado de novo e depois não paga. Ou talvez nem precisemos, e consigamos o milagre de sermos auto-sustentáveis, e vivermos todos dignos e confortáveis, mesmo aqueles que não queiram…

Outros (alguns menos fanáticos e lunáticos que Raquel Varela, pelo menos aparentemente) fizeram promessas deste tipo, as quais resultaram, quando colocadas em prática pelo Poder, em segregação, fome e miséria, quando não em perseguição, tortura e morte. Mas é claro que essas tentativas de criar o paraíso falharam porque nenhuma delas era a verdadeira. Porque, como sempre justificam os extremistas, houve falhas humanas ou não estavam criadas as condições objetivas. Em Portugal, particularmente, não tivemos ainda a oportunidade de ver a classe operária no poder. Bem vistas as coisas, isso é perfeitamente compreensível, até porque, ao contrário do que acontece hoje, o povo bom (e mau) doutro tempo não teve a felicidade de ser contemporâneo de Varela.

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[1] http://raquelcardeiravarela.wordpress.com/2015/01/04/o-bom-e-o-mau-povo-portugues/

[2] (http://5dias.net/2012/01/19/urge-guilhotinar-os-traidores/

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foto: i online.

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José Saramago

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Saramago, como todos os radicais, era um pessimista militante que queria salvar o mundo.

Se fosse vivo, completaria hoje 92 anos o aclamado escritor português, vencedor do Nobel da Literatura de 1998, José Saramago. Muito apreciado, não apenas pelos livros que escreveu, mas também pelos ideais políticos, o pensamento de Saramago tem sido dissecado, em posts, nas redes sociais: as críticas ao sistema capitalista e à globalização; a defesa dos mais desfavorecidos; a denúncia das prepotências das grandes potências, sobretudo da grande potência EUA; a indignação perante as injustiças; a “guerra” contra a Igreja; a militância comunista; etc. Para além disto, que penso ser o mais conhecido, em larga medida devido à grande divulgação das ideias de Saramago pela comunicação social, existem também os livros que escreveu1. Sobre estes, a minha opinião não é certamente a mais credenciada, embora não reconheça em José Saramago o brilhantismo que, para mim, alcançaram escritores como Eça de Queirós, Aquilino Ribeiro, Machado de Assis ou Guimarães Rosa, só para referir nomes de prosadores de língua portuguesa. (Deixemos os poetas fora disto).

Saramago teve, porém, o mérito de criar temas e estilo, e soube desenvolvê-los. Trabalhou incansavelmente para isso. O seu virtuosismo resulta da disciplina e do trabalho árduo, minucioso, inventariado, obsessivo, não tanto do talento inato. Saramago viveu para construir um mito. A prova disto é a sua obra tardia, após o 55 anos, fruto de toda uma maturação. Não sou eu quem vai contestar o seu mérito, o seu valor artístico, o seu estatuto de eminente e consagrado escritor.

Porém, se a apreciação da obra é subjetiva, a par dela Saramago construiu uma imagem pessoal – a do homem político – essa sim, bem mais objetiva. E tenho para mim que não foi tanto o político que serviu a obra, mas muito mais a obra que serviu o político. Notoriamente, este usou o prestígio angariado com aquela em prol da construção do mito do lutador social. Do ponto de vista teórico, a luta de Saramago não foi contra uma qualquer visão da sociedade, contra uma ideologia específica. A luta de Saramago foi contra toda uma civilização – afinal, aquela na qual ele próprio nasceu, viveu e morreu.

Mas, afinal, em que baseava Saramago a sua luta? Supostamente numa moralidade superior: a sua. José foi um moralista, sem dúvida, um dos maiores do início deste século. Como a maior parte dos moralistas, porém, a sua moral era bastante duvidosa. Numa entrevista, justificou o saneamento de vinte e dois jornalistas, quando era diretor-adjunto do “Diário de Notícias”, como uma decisão coletiva, colegial, na qual não teve qualquer responsabilidade particular2. Não seria preciso procurarmos muito até encontrarmos alguém que assumisse toda a responsabilidade num caso semelhante – a responsabilidade que José Saramago enjeitou. Na verdade, muitos cidadãos comuns seriam capazes de o fazer. A posição rígida de Saramago e a sua incapacidade de reconhecer um erro, constituem uma prova de que a moralidade, de facto, não se apregoa, pratica-se. E quanto mais se apregoa, menos se pratica e vice-versa.

Pouco antes de escrever este artigo, assisti ao filme “José & Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes. Um filme interessante mas tristíssimo, na verdade, tétrico, que retrata a vida de um homem em seu estádio final – sem esperança, sem alegria, nas suas próprias palavras, “sem tempo” – um homem totalmente dependente de uma mulher. Isto sobrepõe-se, surpreendentemente, ao que seria expectável, até pelo título da película, e de que não se pode duvidar – o amor entre Pilar e José. Aquela foi – e continua a ser através da sua qualidade de Presidente3 da Fundação Saramago – a eterna secretária deste. Numa passagem do filme, antes ainda de ficar doente, Saramago conta que a mulher uma vez lhe perguntou o que deveria fazer no futuro, ao que ele respondeu, sem hesitar: “continuar-me”. Noutra, ainda, vê-se Pilar abrindo cartas, anunciando remetentes e assuntos a Saramago. Uma delas era do Dalai-Lama, que convidava o escritor para uma comissão de honra. Este comentou que não gostava do líder budista – e passou-se à carta seguinte.

Antes de Pilar, Saramago viveu com outras mulheres, como se sabe. Uma delas, Isabel da Nóbrega (ainda viva), era já escritora4 quando Saramago nem sequer se aventurara na ficção. Foi ela quem sugeriu o nome de Blimunda para a protagonista de Memorial do Convento5 e foi nela que o escritor se inspirou para a referida personagem. De tal forma que lhe dedicou a obra, escrevendo: “À Isabel, porque nada pede ou repete, porque tudo cria e renova”. Em edição posterior, porém, já separado da escritora, haveria de apagar a dedicatória, numa atitude estalinista, típica da sua personalidade.

Nada disto parece surpreendente, sobretudo se falamos de alguém que, além de não gostar do Dalai-Lama, era também um crítico severo da humanidade. Humanidade exemplarmente retratada, em suas contradições, na frase que o próprio Saramago produziu numa entrevista, em 2003, ao programa de televisão brasileiro, Roda Viva: “Sou capaz de perdoar, mas também sou capaz de um eterno rancor!”

Ao contrário da maioria dos meus concidadãos, não gosto do discurso político (e moral) de Saramago. Gostaria de citar alguns nomes de diversificadas personalidades contemporâneas de Saramago – Karl Popper, Nelson Mandela, Tenzin Gyatso, José Mujica, Jorge Mario Bergoglio, e (o portuguesíssimo e brasileiríssimo) Agostinho da Silva – cujos pensamento e ação estão nos antípodas do pessimismo de José Saramago. Admiro-as por uma razão bem simples: suas vidas inspiram os mais novos. E a transmissão de esperança e otimismo constitui, essa sim, uma obrigação moral – talvez a maior – que temos, todos, relativamente às gerações vindouras.

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Notas:

1 Eis a pequena lista dos (cinco) livros completos que li de Saramago. Memorial do Convento, História do Cerco de Lisboa, Viagem a Portugal, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Ensaio sobre a Cegueira.

2 Um discurso inflamado de Saramago, num plenário que antecedeu a votação sobre a expulsão dos vinte e dois trabalhadores, influenciou claramente o sentido de voto, dado o prestígio que o diretor-adjunto gozava; e, no dia da votação, o próprio Saramago votou pela expulsão.

3 Pilar del Rio rejeita o termo “presidente” e, tal como Dilma Rousseff, afirma-se “presidenta”.

4 Escritora cuja obra vale a pena revisitar. Publicou romances, contos, peças de teatro e crónicas diversas. O seu romance mais conhecido é Viver com os Outros, de 1964.

5 Saramago escolhera Mariana Amália.

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Foto retirada de http://blogs.ne10.uol.com.br/social1/2014/08/15/romance-incabado-de-saramago-sera-publicado-ainda-em-outubro/

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Salgueiro Maia

Salgueiro Maia

Quarenta anos! Há quarenta anos eu tinha dezasseis, quase dezassete. Vivi o dia 25 de abril intensamente, desde cedo, até ao anoitecer. Posso dizer, sem qualquer dúvida, que foi o dia mais extraordinário da minha vida. Lembro-me de ver Salgueiro Maia, embora na altura nem imaginasse quem era, no Terreiro do Paço e mais tarde no Largo do Carmo; lembro-me sobretudo da alegria espelhada nos rostos de todos – uma alegria que vinha de dentro e irradiava por fora, e que inundava as ruas de Lisboa como uma maré.
Hoje, quarenta anos depois, sinto orgulho de ser português, como não poderia deixar de orgulhar-se alguém que teve um compatriota chamado Salgueiro Maia. Se todo o povo necessita de um herói, nós não precisamos de ir muito longe para buscarmos o nosso. Ele é, de facto, o meu herói. (Aristides de Sousa Mendes, também).

Salgueiro Maia foi generoso, altruísta, corajoso, humilde e honesto. Retirou-se após nos devolver a Liberdade e morreu, quase ignorado, jovem e belo, como os heróis dos sonhos e da ficção.
Apesar de personagem idílica, quase irreal, Salgueiro Maia existiu mesmo. Pelo menos tanto quanto essa outra personalidade, esta de pesadelo, chamada Cavaco Silva. Este, Cavaco, que negou àquele, Maia, em 1989, uma pensão, “por serviços excecionais e relevantes”, mas que concederia, pelas mesmos motivos, em 1992, pensões a dois ex-inspetores da PIDE-DGS. Cavaco está nos antípodas de Salgueiro Maia. É egoísta, arrogante, presunçoso e conspirador. Temos, portanto, do melhor e do pior. E, se sinto um imenso orgulho por Salgueiro Maia, sinto também uma imensa vergonha por Cavaco Silva.
Além de Salgueiro Maia, não devemos esquecer os 240 homens da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, que o acompanharam até Lisboa, os militares que se lhes juntaram, o povo que esteve nas ruas e tornou o 25 de abril irreversível, e todos os que lutaram (e quantos morreram!) pela Liberdade.
Hoje, passados 40 anos, muitos criticam o estado a que o país chegou. Como diz o sábio povo, “casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão”. É importante, porém, salientar que Salgueiro Maia nunca manisfestou ser de Esquerda ou de Direita, nem nunca apontou um rumo para o país. Eis as suas palavras: “não precisamos de ter qualquer ação política, nem devemos, o Povo português é que tem de se entreter com isso”. Pois bem, não é o que temos feito – nos entretendo “com isso”? O que há, afinal, de errado com o pós 25 de abril? Em minha opinião, nada. Fizemos o que fizemos, somos o que somos. Continuamos, como é próprio dos países atrasados, a colocar a culpa nos outros. A desresponsabilizarmo-nos. Para a Direita a culpa é da Esquerda e para a Esquerda a culpa é da Direita. Certamente haverão mais do que culpas, responsabilidades em ambos os lados. E, certamente, caberão responsabilidades a cada um de nós e a todos, enquanto Povo.
Somos nós, Esquerda, Direita ou Centro quem continua a usar o Estado não como uma coisa de todos, mas como algo para nos servirmos, para encher os bolsos, a nós, aos nossos amigos, familiares e, sobretudo, aos nossos colegas de partido. E digo “sobretudo” porque são esses milhares e milhares de militantes partidários que preenchem os quadros do Estado (sem esquecer os seus satélites) e continuam a viver da mama, como, aliás, sempre fizeram, desde o 25 de abril de 1974. Os números, multiplicados, são astronómicos.
Salgueiro Maia não era de nenhum partido e eu estou com ele. Acho que mais do que partidos e ideologias, precisamos de homens como Salgueiro Maia dentro e fora dos partidos. Ele que recusou, por exemplo, ser Governador Civil de Santarém ou Chefe Militar da Presidência da República, que nunca se serviu do Estado em benefício próprio. É disso que precisamos. De mudar algo em nós. Mas esse 25 de abril, ao contrário do de 1974, não se faz num só dia.

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Aristides de Sousa Mendes

Passam hoje 60 anos sobre a morte de um homem grande – Aristides de Sousa Mendes, o beirão[1] que salvou a vida de 30.000 judeus durante a II Guerra Mundial. Com isso, foi proscrito pelo regime de Salazar[2] e passou a viver na miséria, numa pequena aldeia do centro-norte de Portugal, onde morreu em 3 de abril de 1954. Aristides representa bem o espírito humanitário que caracteriza, desde tempos imemoriais, o povo português. Pela sua coragem, humanidade e determinação, o Yad Vashem[3] reconheceu-o, a 18 de Outubro de 1966, como “Justo entre as Nações”. Jamais o esqueceremos.

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[1] Natural da Beira-Alta, província de Portugal, no interior-norte do país.

[2] Ditador que governou Portugal durante 36 anos (de 1932 a 1968), principal figura do chamado Estado-Novo.

[3] Memorial oficial de Israel para lembrar as vítimas judaicas do Holocausto.

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Vasco e Pacheco voltam ao ataque (ainda o Acordo Ortográfico)

pacheco & moura

Uma das características mais extraordinárias das mentes brilhantes é a sua incrível elasticidade. De tal forma, que, em alguns casos, distendem-se tanto que chegam a atingir o extremo oposto – a mais pura estupidez. Nestes casos mantêm-se fechadas, incapazes de ver o mundo à sua volta, empedernidas numa ideia fixa que lhes tolda o mais elementar raciocínio. Há vários exemplos históricos deste fenómeno. Porém, não citarei qualquer deles, porque nenhum se compara aos casos paradigmáticos de Pacheco Pereira e Vasco Graça Moura, ilustres intelectuais lusos, há anos em luta contra o Acordo Ortográfico de 1990.

Há poucos dias saíram mais duas pérolas destes vanguardistas do Desacordo – a primeira do Pacheco, no “Público”[1], depois a do Vasco, no “Diário de Notícias”[2].  É difícil comentar a crónica de Pacheco. A sua estratégia de dramatização atinge a histeria, com afirmações como: o acordo vai a par do crescimento facilitista da ignorância, da destruição da memória e da história (…) ninguém que saiba escrever em português o quer usar.

E eu pergunto: que argumento objetivo, claro, encerra a primeira frase, lançada para o ar com palavras sonantes, destinadas a impressionar os mais incautos? Estarei eu, neste momento, ao escrever este artigo, a destruir a memória e a história? E a segunda – é fruto da arrogância, do desespero, ou de ambos em simultâneo?

No seu desvario, Pacheco Pereira chega mesmo a incluir o AO na gaveta das asneiras de Estado, junto com as PPP e os contratos swaps, e a escrever que a escrita viva se  recusa a usar o acordo e que este português pidgin, infantil e rudimentar, mais próximo da linguagem dos sms, nem sequer serve para aquilo que as línguas de contacto servem, comunicar.

Esta, confesso, nem eu esperava do Pacheco. É bem provável, seguindo o seu “argumento”, que ninguém entenda o que estou aqui a escrever…

Além disto, o artigo replica o habitual chorrilho de mentiras ou deturpação dos factos que muitos inimigos (sim, a ferocidade é de inimigos e não de adversários) do Acordo Ortográfico usam, por exemplo, quando se diz que os portugueses são os aplicantes solitários da ortografia do acordo ou que este obriga a escrita dos outros países a uma norma definida por alguns linguistas e professores de Lisboa e Coimbra. Ora, como se sabe, o AO não é aplicado apenas em Portugal e o mesmo foi discutido por representantes dos outros países lusófonos. Só assim, aliás, poderia ser um acordo.

Finalmente, PP remata o seu brilhante artigo manifestando horror pela palavra “aspeto”, dizendo que tem dificuldade em conceber que quem a escreve possa incentivar a criatividade em português ou de portugueses e promover a língua pela qualidade dos seus falantes e das suas obras.

Como se vê, nada preconceituoso…

Talvez o Pacheco não saiba, mas “aspeto” está mais próximo de “aspeito”, usado por Camões, no tempo em que a língua não tinha sido alvo ainda do fervor etimológico, tal como “respeito” e “leitor”, que escaparam até hoje das referências latinas “rescpectu” e “lector”, do que o “aspecto” dele. Nada de errado, portanto, a não ser o incómodo e a estranheza da mudança, algo que a maioria dos “desacordistas” considera intolerável.

(Esses incómodo e estranheza eram já bem conhecidos de Wittgenstein, que escreveu nas suas “Investigações Filosóficas”: Pensa no mal-estar que se sente quando a ortografia de uma palavra é alterada (…) Pensa que a imagem visual da palavra nos é, num grau semelhante, tão familiar como a auditiva.)[3].

Já o artigo de Vasco Graça Moura – esse todo-poderoso capataz daquele rancho onde estão inscritas, à entrada, as iniciais CCB – é sobre O ensino do português e o Acordo Ortográfico. A primeira parte é para saudar o novo programa de português do ensino secundário, aproveitando o ensejo, como não poderia deixar de ser, para atacar, na segunda parte, o Acordo Ortográfico. Mas não diz grande coisa. Limita-se a elogiar o artigo de Pacheco Pereira e a declarar, do alto da sua sapiência, que a crítica definitiva do Acordo Ortográfico, nos planos científico, jurídico, político e sociocultural, está feita há muito, pelo que nem sequer vale a pena retomá-la. Como se vê, uma frase bonita, ampla, grandiloquente, que parece dizer tudo, mas que, na realidade, diz nada.

A isto se resumem os artigos desses ilustres colunistas, ambos extremosos patriotas. Pena é que eles não apliquem a si próprios a máxima de Weber, a que Pacheco Pereira alude no seu artigo, defendendo que a mesma deveria ser inscrita a fogo (Pacheco é assim, não faz a coisa por menos) nas cabeças de todos os políticos: a maioria das suas acções[4] tem o resultado exactamente oposto às intenções…

É que a suposta defesa da Língua Portuguesa que eles advogam, em nome de um patriotismo balofo, seria, a concretizar-se, o princípio do fim do Português internacional que nós partilhamos hoje, sim, com o Acordo Ortográfico. Nós, os que acreditamos que o nosso espaço linguístico é muito mais vasto do que aquele que Pacheco Pereira designa no seu artigo por casa-mãe. O Português saiu de casa, constituiu família e emancipou-se. Chega a ser patético que Vasco e Pacheco não queiram aceitar isto.

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[1] http://www.publico.pt/cultura/noticia/acordo-ortografico-acabar-ja-com-este-erro-antes-que-fique-muito-caro-1620079.

[2] http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3644541.

[3] Ludwig Wittgenstein, Investigações Filosóficas, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1987, p. 295.

[4] Respeitou-se a grafia usada pelo autor, como é óbvio. E com isto reparo que num texto com quase novecentas palavras, apenas uma se escreve de forma diferente, usando a nova ortografia: ações. Até por aqui se vê como é absurdo o alarido criado pelos “desacordistas”.

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O melhor pastel de nata do mundo, depois do (ou, talvez, “com o”) pastel de Belém

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Serafim Cunha.

Não podíamos publicar melhor artigo para inaugurar 2014 do que este — exemplo feliz (e delicioso) da dinâmica cultural luso-brasileira — cujo protagonista é Serafim Cunha, 55 anos, no Brasil desde os dezasseis, onde casou e teve dois filhos.

Após mais de uma década de investigação, ele conseguiu produzir o melhor pastel de nata do mundo,  na cidade brasileira de Palhoça, em Santa Catarina, mesmo ao lado de Florianópolis.

Serafim tem, por enquanto, uma pequena produção, mas a tendência natural é que a mesma aumente, seja no que diz respeito aos pastéis de nata, seja em relação a cerca de uma dezena de outros bolos que fabrica, dado que o nível dos produtos é de primeiríssima qualidade.

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Os pasteis de nata de Serafim, já com açúcar em pó. Deliciosos.

Já tínhamos provado pastéis de nata no Brasil (lembro de uma casa em Porto Seguro, por exemplo), mas nada, nem aqui nem em Portugal, excetuando, naturalmente, os pastéis de Belém, se pode comparar ao sabor magnífico dos pastéis produzidos em Palhoça. De facto, este pastel é em tudo idêntico ao pastel de Belém, há apenas uma pequena diferença na massa, e é muito difícil dizer qual é o melhor.

Jamais imaginaríamos que uma réplica de tamanha qualidade pudesse ser encontrada a oito mil quilómetros de Lisboa, numa cidade desconhecida para a maioria dos portugueses. Tesouros como este enriquecem ainda mais o já vasto património cultural luso-brasileiro e merecem ser divulgados e conhecidos.

O espaço onde é fabricada esta iguaria situa-se no centro comercial Via Catarina Shopping e chama-se Ateliê Português.

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Nelson Mandela

Madiba.

Morreu, no último dia 5, Nelson Mandela. Como seria de esperar, um volume incomum de comentários e opiniões surgiu em todos os meios de comunicação social, após o seu desaparecimento. Tudo o que possa ser dito será, assim, recorrente. Arrisco, porém, o seguinte. Mandela figurará, como um grande vulto, na História da Humanidade por várias razões, mas, para mim, a razão maior da admiração generalizada de que é alvo resulta do facto de o próprio Nelson Mandela nunca se ter considerado um herói; considerava-se, pelo contrário, um ser falível, imperfeito, como outro qualquer. Sob este aspeto, pode ser comparado a outras personalidades, como Sócrates (o grego, evidentemente), Popper ou Einstein, todos homens que buscaram até o fim um caminho melhor, sem nunca terem a certeza de o ter encontrado, manifestando-se, nas suas dúvidas, falhanços e incertezas, tão humanos quanto nós. Com o seu exemplo, eles dão-nos força e alento para procurarmos nós próprios o nosso caminho e, não menos importante, dão-nos também a esperança de nos transformarmos, nessa busca, em seres humanos melhores. É por isto que Mandela — esse homem extraordinário que derrotou o ódio com o perdão, que nunca exigiu nada aos outros mas deu tudo de si próprio — foi e será amado pela generalidade dos que se debruçaram ou debruçarão sobre as suas vida e obra — por sempre se ter considerado, afinal, um de nós.

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Foto retirada de: https://almapreta.com/editorias/mama-africa/africa-do-sul-se-prepara-para-celebrar-o-centenario-de-nelson-mandela

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