Centro Nobel da Paz, Oslo

O Centro Nobel da Paz, no coração de Oslo.

Alfred Nobel foi um empresário, inventor e cientista sueco que acumulou uma fortuna considerável ao longo da sua vida de 63 anos. Para lá dos bens materiais, como dinheiro, títulos e imóveis, Alfred possuía igualmente bens que ultrapassavam o puro valor material; o seu amor pela literatura1 compelia-o a comprar muitos livros, pelo que possuía uma biblioteca vasta e valiosa. Parece que Alfred Nobel era um indivíduo empreendedor e confiante, mas simultaneamente reservado e tímido; de acordo com as suas próprias palavras, “misantropo e idealista”. É consensual que tinha um feitio difícil e não se sabe se por isso mesmo, ou por excesso de trabalho, nunca teve vontade ou oportunidade de constituir família. Alfred não teve filhos e não deixou herdeiros diretos.

Em 27 de novembro de 1895, um ano e 13 dias antes de morrer, Alfred Nobel assinou, em Paris, o último testamento. Logo após a sua morte, um número considerável de pessoas, familiares e amigos, aguardavam ansiosamente por conhecerem o teor desse documento, uma vez que todos tinham consciência de que era possuidor de uma das maiores fortunas mundiais privadas. Para grande desapontamento de muitos deles, declarava o seguinte na sua última vontade:

A totalidade do meu património remanescente realizável será alienada da seguinte forma: o capital, investido em títulos seguros pelos meus testamenteiros, constituirá um fundo, cujos juros serão atribuídos anualmente a título de prémio àqueles que, durante o ano anterior, terão conferido o maior benefício à humanidade. Os juros serão divididos em cinco partes iguais, a serem repartidos da seguinte forma: uma parte à pessoa que tiver feito a descoberta ou invenção mais importante no campo da física; uma parte à pessoa que tiver feito a descoberta ou invenção química mais importante; uma parte para a pessoa que tiver feito a descoberta mais importante no domínio da fisiologia ou medicina; uma parte à pessoa que no campo da literatura tenha produzido a obra mais destacada de tendência idealista; e uma parte à pessoa que tiver feito mais ou melhor trabalho pela fraternidade entre as nações e pela abolição ou redução dos exércitos permanentes e pela formação e difusão de congressos de paz. Os prémios de física e química serão concedidos pela Academia Sueca de Ciências; para trabalhos fisiológicos ou médicos pelo Instituto Caroline, em Estocolmo; para a literatura pela Academia em Estocolmo, e para os defensores da paz por um comité de cinco pessoas a serem selecionadas pelo parlamento norueguês. É meu desejo expresso que na atribuição dos prémios não seja dada qualquer consideração a filiações nacionais de qualquer tipo, para que o mais digno receba o prémio, seja escandinavo ou não.2

Alguns dos familiares de Alfred Nobel solicitaram a invalidade do testamento e nessa luta conseguiram o apoio de rei Oscar II, que considerou “fantasiosas” as pretensões de Alfred. Além destes, também muitos conservadores desejavam impedir a realização do testamento, considerado “antipatriótico”, uma vez que os prémios deveriam ter sido reservados para os suecos. Só após longas e difíceis negociações, que envolveram o governo, os executores Ragnar Sohlman e Rudolf Lilljequist conseguiram desatar os nós jurídicos envolvidos. Finalmente, em 29 de junho de 1900, os estatutos da recém criada Fundação Nobel foram aprovados pelo relutante rei Oscar II; e em 10 de dezembro de 1901 foram concedidos em Estocolmo e Oslo os primeiros prémios Nobel.3

O que teria levado um cientista e inventor da dinamite a uma decisão tão altruísta em favor da espécie humana, ao expressar a sua vontade de que fossem premiados anualmente os mais destacados no benefício da humanidade, incluindo quem “fez mais ou melhor para promover a comunhão entre as nações, a abolição ou redução de exércitos permanentes e o estabelecimento e promoção de congressos de paz”? Os biógrafos indicam que por trás dos ideais pacifistas de Alfred Nobel estava uma mulher. Não uma mulher com quem ele tivesse uma relação amorosa, mas uma amiga com quem se correspondeu durante anos e que, sendo ela própria pacifista, teve uma forte influência sobre o empreendedor sueco. Essa mulher chamava-se Bertha von Sutnner4 e, curiosamente, conheceu Nobel ao responder a um anúncio de jornal de “um senhor muito culto, rico e idoso, morando em Paris, que deseja encontrar uma senhora também de idade madura, familiarizada com idiomas, como secretária”.5

Não se conhece exatamente a razão pela qual Alfred Nobel optou, no seu testamento, pela criação de um comité, designado pelo parlamento norueguês (Storting), para a atribuição do prémio da paz. Trata-se de um facto e não adianta muito especular sobre ele. No entanto, Geir Lundestad, ex-secretário do Comité Nobel Norueguês e diretor do Instituto Nobel, resume no seu artigo O Prémio Nobel da Paz, 1901-2000, as suposições mais frequentes e melhor fundamentadas: Nobel, que escreveu o testamento no Clube Sueco-Norueguês de Paris, pode ter sido influenciado pelo facto de que, até 1905, a Noruega ter estado em união com a Suécia; ele pode também ter considerado a Noruega um país mais orientado para a paz e mais democrático que a Suécia; finalmente, Nobel pode ter sido influenciado pela sua admiração pela ficção norueguesa, particularmente por Bjornstjerne Bjornson, conhecido ativista da paz na década de 1890; ou pode ter sido uma combinação destes três fatores.6

A verdade é que os noruegueses levaram essa incumbência muito a sério, e o Nobel da Paz é um prémio com significado e importância muito especiais. Em Oslo há dois locais onde podemos perceber isto, e nós visitámos ambos na nossa mais recente visita. Falamos do Instituto Nobel Norueguês e do Centro Nobel da Paz. O primeiro é onde trabalham os membros do Comité Nobel Norueguês7 e o seu secretariado; o segundo é um museu onde podemos percorrer, através da exposições ali patentes, partes das vidas e dos pensamentos quer de Alfred Nobel, quer dos muitos laureados com o Nobel da Paz, com destaque lógico para os últimos ganhadores8: uma ala do museu estava no momento da nossa visita dedicada aos laureados com o Nobel da Paz de 2021, o russo Dmitry Moratov e a filipina Maria Ressa.

Dmitry Moratov e Maria Ressa são jornalistas e ambos vivem em países onde não há liberdade de imprensa. Tal como outros colegas, arriscam a vida por exercerem uma profissão incómoda para o poder. O caso russo é mais grave que o filipino e, além disso, tem relação direta com a guerra que Vladimir Putin decidiu fazer à Ucrânia. É por isso que, nesta ala do museu, o enfoque está todo na falta de liberdade que se vive na Rússia, onde vigora um regime autocrático que piorou muito ao longo dos últimos vinte anos. Há uma relação inequívoca entre paz e liberdade, e os responsáveis pela exposição quiseram realçá-la, conduzindo o visitante a uma importante conclusão: não pode haver paz onde não há liberdade. Este é o primeiro ponto a considerar em relação à paz.

O segundo ponto, que também tem relação direta com a atual guerra iniciada por Putin, tem a ver com a grave ameaça que representam para a humanidade as armas nucleares. Cabe aqui dizer que em 2017 a ICAN – International Campaign to Abolish Nuclear Weapons (Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares), uma organização fundada em 2007 em Melbourne, na Austrália, ganhou o Prémio Nobel da Paz de 2017. A ICAN é uma organização global, composta por mais de 600 ONGs, com presença em 108 países. Por razões óbvias, é natural que o Comité Norueguês do Nobel e o Centro do Nobel da Paz dediquem uma especialíssima atenção à verdadeira espada de Dâmocles que pende sobre a cabeça de todos os seres humanos — as armas nucleares.

Em 7 de junho de 2017, após uma década de intensos trabalhos da ICAN e seus parceiros, a maioria das nações do mundo adotou um acordo global histórico para proibir as armas nucleares conhecido oficialmente como Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares9. Entrou em vigor em 22 de janeiro de 2021. No sítio da organização, numa página cujo título é Porquê um banimento?, a ICAN explica porque se bate não apenas pela proibição, mas pelo banimento completo das armas nucleares: As armas nucleares são as armas mais desumanas e indiscriminadas jamais criadas. Têm consequências humanitárias e ambientais catastróficas que se estendem por décadas e atravessam gerações; geram medo e desconfiança entre as nações, já que alguns governos podem ameaçar destruir cidades inteiras num piscar de olhos; o alto custo da sua produção, manutenção e modernização desvia fundos públicos da saúde, educação, socorro em desastres e outros serviços vitais. Proibir essas armas imorais e desumanas sob a lei internacional foi um passo crítico no caminho para exterminá-las, antes que elas acabem connosco.10

A guerra infligida à Ucrânia é uma das maiores calamidades deste século, bem como a chantagem nuclear de Putin. Trata-se de uma ameaça muito séria à paz na Europa e no mundo. Nas bibliotecas e livrarias que visitámos na Noruega, as obras destacadas são todas sobre os temas do momento: a Ucrânia, a Rússia, as relações internacionais e, sobretudo, Putin. As cores da bandeira ucraniana são visíveis nas cidades da Noruega (e da Dinamarca). O apoio do povo norueguês à Ucrânia e à liberdade sente-se não apenas no Centro Nobel da Paz e no Instituto Nobel Norueguês, mas, podemos constatá-lo, um pouco por todo o lado.

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Fontes:

  • nobelpeacecenter.org
  • nobelprize.org
  • Biblioteca do Instituto Nobel Norueguês
  • Centro Nobel da Paz
  • icanw.org

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Notas:

1 Alfred Nobel escreveu poemas durante juventude.

2 nobelpeacecenter.org.

3 Embora a maioria das pessoas pense que existem 6 diferentes prémios Nobel, a área da Economia não foi, como vimos, contemplada no testamento de Alfred Nobel. Só em 1968 o Banco da Suécia instituiu o “Prémio de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel”. A atribuição deste prémio segue todos os critérios de atribuição dos prémios Nobel, por isso é muitas vezes confundido e considerado como tal, mas é, na realidade, um prémio similar, mas diferente à sua criação e ao seu financiamento.

4 Bertha von Suttner era escritora e ela própria ganhou o Nobel da Paz em 1902.

5 nobelpeacecenter.org.

6 nobelprize.org

7 Como se disse, os cinco membros do comité são designados pelo parlamento. Embora sejam normalmente políticos, não podem estar na política ativa, isto é, não podem ser deputados ou membros do governo.

8 Podemos dividir as exposições do museu em quatro partes: o historial do Nobel da Paz; a vida de Alfred Nobel (passamos por uma réplica do interior da casa onde morreu, em San Remo, na Riviera Italiana); os laureados; os últimos contemplados com o Nobel da Paz. Há também, como em quase todos os museus, uma loja onde se podem comprar artigos alusivos ao Nobel da Paz.

9 O teor do tratado, em português, pode ser consultado em: https://d3n8a8pro7vhmx.cloudfront.net/tectodevms/pages/2417/attachments/original/1571248142/Portugues.pdf?1571248142

10 https://www.icanw.org/why_a_ban

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O marxismo e a guerra de Putin

O marxismo é uma religião e, tal como outras religiões, tem várias correntes — leninista, estalinista, trotskista, etc.

Quem não é da nossa religião é nosso inimigo, e é por isso que, onde vigora a religião, a perseguição aos hereges é efetiva e implacável.

As diversas seitas marxistas divergem entre si em vários pontos, mas o que as une é a convergência na identificação do principal inimigo — o maldito Ocidente e o seu modo de vida liberal e capitalista.

Assim, qualquer luta contra o Grande Satã é também a nossa luta, não importa que monstro tenhamos de engolir.

Putin? É apenas mais um.

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Notas breves sobre a Guerra

Foto retirada de https://veja.abril.com.br/mundo/como-a-economia-mundial-sente-os-efeitos-do-ataque-de-putin-a-ucrania/.

1- Ao contrário do que aconteceu no Iraque de triste memória, desta vez os americanos e os ingleses tinham razão. Houve mesmo invasão em larga escala.

2- Como é possível que, depois da Chechénia, do novichok, das execuções, das invasões, da Síria, dos ciberataques, só agora tanta gente no Ocidente tenha percebido quem é, realmente, Putin? E quantos séculos de subjugação tornaram possível que tantos russos não vejam, ou não queiram, ou não possam ver?

3- O povo ucraniano abandonado à sua sorte – que triste sorte! E como fica a nossa consciência nisto? É deprimente.

4- A decisão da Alemanha de abandonar precocemente a energia nuclear foi um erro. Sob vários pontos de vista, um erro crasso.

5- Só em tempo de guerra é lembrado o valor da paz. De resto, esse velho sonho de Kant que deveria constituir a base das relações internacionais – tem pouco eco na agenda das forças políticas mundiais. Urge o desarmamento nuclear. Precisam-se novos Churchill e Eisenhower.

6- Quando distinguimos entre ditaduras e ditadores, quando uns nos são mais simpáticos que outros, deveríamos perceber que algo de errado se passa connosco. Não há ditaduras nem ditadores suaves.

7- A verdadeira dicotomia não é entre esquerda e direita, isso é anacrónico. A verdadeira dicotomia é entre democracia (como a entendemos no Ocidente, a chamada “democracia liberal”) — onde podemos ter a esperança de nos vermos livres de políticos indesejáveis por meios pacíficos — e tirania — onde os ditadores como Putin só podem ser travados com derramamento de sangue.

8- O nacionalismo é uma das piores doenças do nosso tempo.

9- Haverá algum comunista em Portugal que sinta vergonha pela posição do PCP sobre esta guerra? Claro que não. Se sentisse teria de deixar de ser comunista. Teria de apostatar. O comunismo é uma religião.

10- O posicionamento ideológico que procura, se não justificar, pelo menos relativizar a agressão de Putin é revoltante. Quase tanto quanto a própria guerra.

11- Glória ao povo ucraniano! Glória a Navalny e aos russos que se manifestam em Moscovo, S. Petersburgo e outras cidades contra esta guerra, que tem um responsável máximo — o déspota Putin!

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Progresso ou degenerescência

A evolução das ideias é semelhante à evolução das espécies. Umas ramificam-se, outras morrem, outras renascem quando se pensava que já estavam extintas. Quando um homem quer difundir as suas ideias, a primeira coisa que faz é fundar uma escola. O pioneiro desta estratégia — que se revelou até hoje incrivelmente bem sucedida — foi Platão, quando criou a sua célebre Academia. Desde aí, as escolas vêm florescendo, dentro das ciências ditas “humanas”, na Filosofia, na Sociologia, na própria Economia, e a sua influência estende-se, talvez surpreendentemente para os mais distraídos, até às ciências ditas “naturais”. (Há sempre quem lute pela integridade da Ciência e essa luta é, enquanto espécie, a nossa maior esperança).

Quase todos nós somos, hoje, mesmo sem o sabermos, discípulos de uma ou outra escola. O homem é um animal religioso, precisa de acreditar em algo, e, nesse sentido, as ideologias transmitidas pelas escolas sociológicas são as religiões modernas, tanto mais fervorosas quanto mais radicais. As ideologias podem ser enquadradas em dois grandes grupos. Os indivíduos que pertencem ao primeiro grupo acreditam que vivemos no melhor mundo de sempre; os membros do segundo grupo, sob forte influência da ideia platónica de degenerescência, acreditam que o mundo corre para o abismo e que, portanto, é urgente salvá-lo. Os do primeiro grupo acreditam mais nas instituições do que nos líderes; os do segundo grupo acreditam em líderes messiânicos que conduzirão as massas — há demasiado tempo encerradas na caverna — à descoberta da verdade.

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Vamos a votos

Reflexão eleitoral à mesa do café: o bom rumo de um país é uma navegação à bolina; bordos cerrados para mais rapidamente atingirmos o destino. Quatro, oito, doze ou mais anos no mesmo sentido ou, ao invés, uma mudança de rumo estão dependentes das decisões do eleitorado flutuante, que é quem comanda efetivamente o nosso navio.

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Varela radical

Foto de Varela retirada do sítio esquerdaonline.com.br. Sempre rodeada de livros, procura vincar a sua faceta intelectual. Entretanto, os livros que ela própria publica baseiam-se em trabalho de pesquisa feito por jovens bolseiros1, que se queixam de um “inferno laboral”(aqui).

Raquel Varela, paga por todos nós, continua em grande forma a debitar asneiras nas rádio e televisão públicas. Como tal é possível, não sei. Mas sei que isto revela muito daquilo que somos. A última tirada de Varela — que costuma deixar os companheiros de painel meio aparvalhados com os seus dislates — foi no programa de ontem, “O Último Apaga a Luz”, quando pronunciou, com naturalidade, que a economia é “ideológica”. Varela tinha obviamente como alvo o sistema económico em que vivemos, dito capitalista, esse sistema maldito que ela tanto deplora. Nenhum dos interlocutores lhe respondeu. Mas o que algum deles lhe poderia ter dito é que, sim, o homem é um animal potencialmente ideológico e, nesse sentido, tudo o que é humano está impregnado de ideologia. Acresce, porém, que a economia é também uma ciência e, tal como em outras ciências, mais ou menos influenciadas pela ideologia, há coisas estabelecidas. Por exemplo, em astronomia, pensava-se até certa altura que o sol rodava em torno da Terra, mas hoje sabe-se que é a Terra que roda em torno do sol; em biologia, pensava-se que havia uns homúnculos dentro do sémen humano, mas hoje sabe-se que são os genes que detêm e transmitem as instruções para a construção de tudo o que é vivo; em física, pensava-se que o átomo era o último constituinte da matéria, mas hoje sabe-se que há inúmeras partículas elementares dentro do próprio átomo, não sendo este, portanto, indivisível. E por aí fora.

Ora, também em economia, se chegou a pensar que a eliminação do lucro (ou, para usar uma linguagem marxista, a eliminação da “mais valia”) traria progresso, paz, prosperidade e igualdade ao mundo, mas hoje sabe-se que as atividades económicas lucrativas é que proporcionam progresso, bem-estar, desenvolvimento e, quando combinadas com políticas sociais adequadas, as sociedades mais felizes e mais igualitárias de que temos conhecimento. Pelo contrário, as sociedades que procuraram eliminar o lucro sempre trouxeram miséria, sofrimento, um pequeno grupo de privilegiados no poder e o restante povo oprimido.

Isto é histórico, e a história é a melhor ferramenta que temos para avaliar as ideologias. Supostamente, uma “historiadora”, como Raquel Varela, deveria sabê-lo. Mas, ao contrário, ela deturpa a própria história, porque, projetando em outros a sua personalidade dogmática (a projeção é uma marcada característica psicológica dos demagogos), é ela quem está completamente condicionada pela ideologia.

Por fim, deveriam dizer-lhe ainda que sim, é bem possível, como vimos, que a nossa ideologia ou, num sentido mais lato, as nossas ideias, inclusive as económicas, nos influenciem. É por isso que devemos estar sempre vigilantes e atentos relativamente aos factos, e nos interroguemos, a cada passo, sobre em que medida a nossa perspetiva está limitada pela nossa matriz ideológica. Esta é a atitude dos moderados e tolerantes, pois sabem que são influenciáveis, cometem erros e não são infalíveis. Mas não é nada disso que se passa com a radical Varela, inflada de certezas, paga pelos contribuintes para continuar a dizer alarvidades. E são alarvidades e não meros disparates, porque a sociedade que Raquel Varela preconiza, como todas as outras onde foi tentado o socialismo radical, é um tipo de sociedade onde não existe liberdade, onde, a despeito da propaganda, homens e mulheres que se opõem ao regime sofrem as agruras costumeiras, tão costumeiras como o seu destino, que é o de raramente sobreviverem para as contarem.

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Notas:

1 A este propósito, lembrei-me, e fui rever o que escreveu Richard Dawkins no prefácio à edição de 1989 de “O Gene Egoísta”: “tomei recentemente conhecimento de um facto desagradável: existem cientistas influentes com o costume de colocarem os seus nomes em publicações em cuja composição não desempenharam qualquer papel. Aparentemente, alguns cientistas de categoria mais elevada reivindicam autoria conjunta de artigos em que a sua contribuição se resumiu ao espaço de bancada, aos fundos de investigação e à revisão do manuscrito. Pelo que sei, podem ter-se construído reputações científicas inteiramente baseadas no trabalho de estagiários e de colegas! Não sei o que se poderá fazer para combater esta desonestidade”. (Richard Dawkins, “O Gene Egoísta”, Gradiva, Lisboa, 2021, p. 29).

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Os liberais

Alguns liberais famosos: Mises, Hayek, Smith, Kant, Popper e Llosa. (montagem nossa a partir de imagens retiradas da Wikipédia).

Quem foram os maiores inimigos da realeza e da Igreja, no tempo em que alguns homens (e também algumas mulheres) lutavam pela separação de poderes? Quem foram os inimigos dos absolutistas em Portugal e na Europa? Quem foram os representantes e símbolo da burguesia mercantil que Marx tanto detestava? Quem uniu, na Alemanha, socialistas, conservadores e nacionalistas num ódio-comum que viria a culminar na criação do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores, mais conhecido por Partido Nazi (Partido Nazista, para os amigos brasileiros)? Quem era o alvo a abater, em Itália, pelo Partido Nacional Fascista, de Mussolini, com o apoio da Igreja? Quais são os regimes que o assassino Putin abomina e procura armadilhar? E já agora, quem são, apesar de tão poucos ainda, os arqui-inimigos de Francisco Louçã, Ricardo Paes Mamede, João Teixeira Lopes e outros elementos das Esquerda e Direita sectárias, hoje, em Portugal?

A resposta comum a todas estas perguntas é simples: os liberais.

Por estas e outras razões de peso, é nosso dever repudiar esses abomináveis amantes da liberdade e do constitucionalismo — os detestáveis liberais.

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Ps. Algum tempo após a escrita deste pequeno artigo, deparámos com uma entrevista ao “Expresso” (12/05/2023) concedida pelo “filósofo” ultranacionalista russo, Aleksandr Dugin, alegadamente, mentor de Putin, e, adivinhem, quem são os seres mais detestáveis para este original cultor, simultaneamente, da Rússia, do eurasianismo e da multipolaridade? Esses mesmos, claro, os liberais! Sensivelmente na mesma altura (abril de 2023), Boaventura de Sousa Santos, acusado de assédio sexual por várias mulheres, disse o seguinte: “O objetivo é lançar lama sobre quem se distingue e luta por um mundo melhor. O neoliberalismo está a roubar a alma da solidariedade e da coesão social e a criar subjetividades que canalizam os seus ressentimentos para acusações de que sabem não poder haver contraditório eficaz”.

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O Grande Capital

O Liechtenstein em primeiro plano e, ao fundo, separada pelo Reno, a Suíça. O homem ordena, em seu benefício, a natureza.

Depois de uma viagem de 5,935 quilómetros pela Europa, regressámos a Portugal. Do Liechtenstein e da Suíça para baixo, a paisagem vai mudando, e com ela a organização, o ordenamento e a própria condição das estradas por onde circulamos. França, Espanha e, finalmente, Portugal, sempre a descer no mapa e na qualidade. Regressámos ao país por Vila Real de Santo António e seguimos pela Nacional 125. Nas bermas da rodovia acumulam-se o mato, o lixo e a desordem.

Mas, para lá da paisagem, algo que constatámos na Suíça e que contrasta flagrantemente com o que se passa em Portugal, é a descentralização. O que se tem passado em Portugal com a apelidada “bazuca” seria impensável na Suíça, um país que é, ele próprio, uma bazuca. António Costa (e Silva), o estratega, amigo de António Costa, o primeiro-ministro, foi encarregado de elaborar um plano para identificar as principais áreas onde aplicar os muitos milhões que a União Europeia vai entregar a Portugal. Isto é realmente o cúmulo do provincianismo — acreditar em indivíduos omniscientes — algo que jamais aconteceria na Suíça, talvez o país mais descentralizado do planeta. Em Portugal, pelo contrário, tudo passa pelos indivíduos providenciais, adstritos aos gabinetes ministeriais em Lisboa. O resto é paisagem, praticamente abandonada.

É a este abandono que se devem os grandes incêndios que deflagram regularmente em Portugal, muito mais do que aos “grandes interesses económicos” tão propalados pelos ideólogos de uma esquerda anacrónica, que tem no nosso país uma representatividade exacerbada, quando comparada com o que se passa na Europa civilizada.

Mas o arqui-inimigo da esquerda marxista é uma entidade abstrata chamada “Grande Capital”, um papão repetidamente agitado pelos discursos de Jerónimo de Sousa, um beato bem-intencionado dessa igreja laica que é o Partido Comunista Português. Já os suíços, pelo contrário, não têm medo nenhum do “Grande Capital”, convivem pacificamente com ele todos os dias. Falar-se do “Grande Capital” num país cronicamente depauperado como Portugal é ridículo, risível, de facto, uma anedota que se contaria com agrado, não fora a vergonha por haver tantos compatriotas que nela acreditam.

Algo que seria igualmente impensável na Suíça é o protagonismo que se dá em Portugal a tantos e tantos comentadores. Somos, de facto, um país de palradores. Um caso paradigmático é o de Raquel Varela, uma ideóloga lunática, supostamente historiadora, com amplo espaço mediático na rádio e televisão públicas, ou seja, paga por todos nós. As ideologias radicais estão confinadas na Suíça (e nos outros países socialmente avançados) à academia, onde alguns excêntricos, de resto, com uma credibilidade muitíssimo superior à de Varela, se dedicam ao seu estudo, não à sua divulgação. Acontece assim porque seria inútil propagandear algo que uma população culta e educada reconhece como anacrónico e irrealista.

Portugal, pelo contrário, mantém-se um país de teóricos e críticos, e não surpreende, portanto, que se mantenha um país crítico.

O endividamento crónico da terceira república portuguesa, fruto de opções marcadamente ideológicas, contrárias à racionalidade económica, hipoteca, de forma trágica, a vida das novas gerações.

Como diria o outro, “é a economia, estúpido!”

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Um ano de pandemia – entre a esperança e o desespero

Passou apenas um ano desde que diagnosticaram o primeiro caso de covid-19 em Portugal mas parece que já passaram cinco. As pessoas estão cansadas desta vida tão estranha. E, o pior de tudo, estão desesperadas por não saberem quando podem regressar à sua vida normal.

A incerteza e a impossibilidade de planeamento afetam-nos profundamente, habituados que estamos a viver em sociedades altamente organizadas.

Por outro lado, as notícias e as declarações contraditórias também não diminuem a incerteza. As pessoas temem pelo futuro, sobretudo aquelas que trabalhavam em serviços ligados à restauração, ao turismo, em estabelecimentos comerciais, em geral; e todas as que estão ameaçadas pelo desemprego, pelas insolvências, pelas perdas de rendimentos e de património, enfim, pela ruína. A questão que todos colocam é a seguinte. Quando poderemos voltar em pleno às nossas atividades?

A resposta, infelizmente, ninguém sabe, pois depende de vários fatores.

O mais importante deles prende-se com a possibilidade de variantes mais graves do corona vírus surgirem, sobretudo alguma variante que as atuais vacinas não consigam cobrir em termos de eficácia. É uma possibilidade terrível, mas está no horizonte. Já se provou que a chamada “variante brasileira”, por exemplo, é mais contagiosa e mais agressiva. E há quem fale, cada vez mais, no fechamento efetivo das fronteiras, pois já não conseguiremos controlar a pandemia apenas com confinamentos seletivos.

Entretanto, os especialistas de bancada multiplicam-se. Sabemos pouco (ou, pelo menos, não o suficiente) sobre o vírus, mas talvez por isso mesmo, ninguém se coíbe de dar palpites.

Isto conduz-nos a algo interessante. O cientista estuda, testa, reflete e, mesmo quando tem a convicção de um determinado resultado, fica na dúvida, pois sabe que pode ter-se esquecido de algum pormenor importante. O que ele mais deseja é publicar os resultados que obteve junto dos seus pares, para aferir se são credíveis ou não. Já o leigo não precisa de nada disso. Basta-lhe ter um palpite, e como sempre tem um para qualquer coisa, por vezes acerta. É assim que muitos se julgam tão ou mais inteligentes que os cientistas, chegando mesmo a negar a ciência.

No entanto, é a ciência que salva vidas; é a ciência que permite esta civilização, apesar de tudo, fantástica que temos; e é à ciência que devemos este feito espantoso de termos milhões de vacinas disponíveis menos de um ano depois do aparecimento dos primeiros casos de covid-19.

A ciência não é infalível e o seu campo de ação está sempre a aumentar, pelo que os problemas científicos nunca diminuirão, antes crescerão sempre. Mas a ciência é o conhecimento mais verdadeiro que existe e o seu método de tentativa e erro é também o mais racional. Os cientistas sabem que erram, mas é por estarem conscientes disso que podemos confiar no seu trabalho.

Se aparecerem novas estirpes, imunes às atuais vacinas, resta-nos a esperança de que os cientistas consigam adaptar as vacinas já existentes a essas novas variantes do vírus antes que produzam demasiado estrago. Caso contrário, o desespero que já se apoderou de alguns de nós irá, por um período que nos parecerá sempre demasiado longo, prevalecer.

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Patria y Vida

Este vídeo beneficia de letra, música, interpretações e realização excecionais.

Em 1964, no final de um discurso célebre nas Nações Unidas, Che Guevara proferiu uma frase que se tornaria até hoje a palavra de ordem do regime cubano: “Patria o Muerte!” Cinquenta e sete anos depois, no início de 2021, um grupo de artistas cubanos lançou uma canção, cujo título não poderia afastar-se mais daquela célebre frase de Che: “Patria y Vida!”

O vídeo desta canção, menos de duas semanas após o seu lançamento, tem já mais de dois milhões e meio de visualizações no youtube. E, claro, a reação em Cuba foi imediata. Os órgãos do regime apressaram-se a denegrir o tema. Na televisão, o jovem apresentador Lázaro Manuel Alonso deixou claro que “Patria y Vida” não é uma expressão original, fora já usada por Fidel em 23 de dezembro de 1999, perante uma plateia estudantil. Por seu turno, o governo cubano promoveu uma campanha denominada “Morrer pela Pátria é Viver”, apelando aos cubanos para que cantassem e aplaudissem o seu hino nacional no dia 18 de fevereiro às 21:00, como resposta a “Patria y Vida”, que membros do governo classificaram de “trapaceira e cobarde” e os seus autores de “ratos” e “mercenários”.1

Tudo isso não impediu que este tema se tornasse viral em Cuba. Os depoimentos de vários jovens entrevistados em Havana pela agência Reuters, bem como inúmeros vídeos publicados nas redes sociais, provam-no. “Patria y Vida” transformou-se num símbolo da resistência ao regime, e o vídeo da canção foi profusamente divulgado nas redes sociais. A checa Dita Charanzová, vice-presidente do Parlamento Europeu, publicou-o na sua conta do Twitter, acompanhado das seguintes palavras: “Para que todo o mundo tome consciência da realidade cubana”.

Dita Charanzová é uma cidadã do mundo livre, atenta ao que se passa no mundo oprimido. No entanto, muitos dos nossos concidadãos ainda olham com simpatia ou indulgência para a ditadura cubana, talvez por a considerarem mais suave que outras ditaduras. Che Guevara e Fidel Castro são vistos como heróis de uma revolução que libertou o povo do jugo de Fulgêncio Batista, no primeiro dia de 1959. Mas o que talvez não saibam é que rapidamente Fidel Castro passou a governar baseando-se nos “ódio, poder e dinheiro”, tal como nos diz a insuspeita neurocirurgiã cubana Hilda Molina, que conviveu durante muitos anos com o próprio Fidel (foi pedida em casamento por ele). Hilda considera que Fidel era um “psicopata”2. De resto, os testemunhos sobre o ditador são inúmeros e estão acessíveis, basta procurá-los.

Mas não é suficiente ir de férias para Varadero, falar com os empregados dos hotéis, visitar os locais preparados (muitas vezes exclusivos) para os turistas e daí extrair um retrato de Cuba. É preciso contatar os cubanos comuns, aqueles que circulam pelas ruas e habitam nas casas degradadas de Havana; falar com eles, ganhar a sua confiança, perceber como vivem e, sobretudo, saber o que pensam, para se ter uma ideia mais precisa do que se passa no país.

(Há cinco anos e meio estivemos em Cuba. O relato sobre essa visita foi publicado neste blogue e pode ser lido aqui.)

Finalmente, o que importa perceber é que em decorrência de qualquer ditadura revolucionária em nome do povo há sempre um contraste abismal entre o ditador e esse mesmo povo: o primeiro vive sempre no luxo e na sumptuosidade; o segundo vive sempre na opressão e na miséria. Fidel Castro, por exemplo, esse grande Comandante de Cuba durante meio século, vivia sumptuosamente. Tinha uma ilha privada, inúmeros imóveis e uma fortuna imensa, calculada em dólares e não em pesos cubanos, proveniente de, na prática, ser dono das maiores empresas estatais cubanas e mentor de esquemas sofisticados de narcotráfico.3

A regra que determina a relação entre ditador e povo é válida para todas as ditaduras revolucionárias e, deste ponto de vista, não há gradação entre elas; não há — nunca houve até hoje na história humana — ditaduras revolucionárias suaves.

Os cubanos merecem a Liberdade.

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1 https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-56135900?fbclid=IwAR03nbvrpA-ae59hdFy90cRPa-8SGk3u1GBuBn77eHPWGkYdbcKSbyfoXyg

2 Ver entrevista a Hilda Molina aqui.

3 Juan Reinaldo Sánchez, A Face Oculta de Fidel Castro, Planeta, Lisboa, 2015.

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