O Grande Capital

O Liechtenstein em primeiro plano e, ao fundo, separada pelo Reno, a Suíça. O homem ordena, em seu benefício, a natureza.

Depois de uma viagem de 5,935 quilómetros pela Europa, regressámos a Portugal. Do Liechtenstein e da Suíça para baixo, a paisagem vai mudando, mas também a organização, o ordenamento e a própria condição das estradas por onde circulamos. França, Espanha e, finalmente, Portugal, sempre a descer no mapa e na qualidade. Entrámos por Vila Real de Santo António e seguimos pela Nacional 125. Nas bermas da rodovia acumulam-se o mato, o lixo e terras abandonadas à sua sorte. Que diferença!

Algo que constatámos na Suíça e que contrasta flagrantemente com o que se passa em Portugal, é a descentralização. O que se tem passado em Portugal com a chamada bazuca seria impensável na Suíça, um país que é, ele próprio, uma bazuca. António Costa, o estratega, amigo de António Costa, o primeiro-ministro, foi encarregado de elaborar um plano para identificar as principais áreas onde aplicar os muitos milhões que a União Europeia vai entregar a Portugal. Isto é realmente o cúmulo do provincianismo e o contrário do que recomenda a racionalidade económica, algo que jamais aconteceria na Suíça, talvez o país mais descentralizado do planeta. Em Portugal, pelo contrário, tudo passa pelos indivíduos providenciais, adstritos aos gabinetes ministeriais em Lisboa. O resto é paisagem, praticamente abandonada.

É a este abandono que se devem os grandes incêndios que deflagram regularmente em Portugal, muito mais do que às alterações climáticas tão propaladas pela ideologia de uma esquerda anacrónica, que tem no nosso país uma representatividade exacerbada, quando comparada com o que se passa na Europa mais desenvolvida.

Um dos arqui-inimigos desta esquerda é uma entidade abstrata chamada Grande Capital, um papão repetidamente agitado, por exemplo nos discursos de Jerónimo de Sousa, um beato bem-intencionado dessa igreja laica que é o Partido Comunista Português. Já os suíços, pelo contrário, não têm medo nenhum do Grande Capital, acordam e adormecem com ele todos os dias. Falar-se do Grande Capital num país cronicamente depauperado é ridículo, risível e uma anedota que se contaria com agrado, não fora a vergonha por haver tantos portugueses que nela acreditam.

Algo que seria igualmente impensável na Suíça é o protagonismo que se dá em Portugal a tantos e tantos comentadores. Somos um país de palradores, não de concretizadores. Um caso paradigmático é o de Raquel Varela, uma ideóloga lunática, supostamente historiadora, com amplo espaço mediático na rádio e televisão públicas, ou seja, paga por todos nós. Estas ideologias radicais estão confinadas, na Suíça e nos outros países desenvolvidos, à Academia, onde alguns excêntricos, de resto, com uma credibilidade muito superior à de Varela, se dedicam ao seu estudo, não à sua divulgação. Acontece assim porque seria inútil divulgar algo que uma população culta e educada reconhece como anacrónico e irrealista.

Portugal, pelo contrário, mantém-se um país de teóricos e críticos, e não surpreende, portanto, que se mantenha, também, um país crítico.

O endividamento crónico da terceira república portuguesa, fruto de opções marcadamente ideológicas, contrárias à racionalidade económica, hipoteca, de forma trágica, o futuro das novas gerações.

Como diria o outro, é a economia, estúpido!

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