Talvez a maioria não saiba, quando ouve Chico Buarque interpretando-a, que esta canção não foi feita por ele. Muitos menos imaginarão que a melodia em causa tem a bonita idade de 65 anos, ou seja, foi composta em 1947! O autor desta valsinha – que foi a sua primeira composição – chamava-se Severino Dias de Oliveira, mas ficou mundialmente conhecido como Sivuca. A letra, sim, é da autoria de Chico Buarque e, segundo o próprio, baseia-se numa conversa de crianças. Chico, na época (1976), compunha algumas canções infantis, e parece ter sido influenciado por esse facto.
Fica o registo desta canção interpretada precisamente por Sivuca e Chico Buarque. Curiosidade: A técnica de Sivuca é tão boa no violão, que, logo após o início, Chico se concentra apenas na interpretação vocal…
Dizem que o triângulo é a figura geométrica perfeita. Está na base das pirâmides, da Santíssima Trindade, do mistério das Bermudas, do fogo, da fertilidade… Mas a prova final do poder simbólico de um triunvirato, embora não necessária, foi-nos dada por Alexandre O’ Neill, Alain Oulman e Amália Rodrigues, em forma de palavras, música e voz.
Alexandre O’ Neill
Não há muito mais a dizer. O poema é lindo, a composição brilhante e a voz de Amália sublime – impossível de imitar ou comparar. Eu costumo dizer que a voz de Amália é como a velocidade da luz – absoluta; e não é preciso ser português ou amante do fado para o constatar.
Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa no desenho que fizesse, nesse céu onde o olhar é uma asa que não voa, esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro, dos sete mares andarilho, fosse quem sabe o primeiro a contar-me o que inventasse, se um olhar de novo brilho no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida as aves todas do céu, me dessem na despedida o teu olhar derradeiro, esse olhar que era só teu, amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração no meu peito morreria, meu amor na tua mão, nessa mão onde perfeito bateu o meu coração.
Esta canção, originalmente interpretada por Del Shannon, ficou mundialmente conhecida por fazer parte do genérico da série televisiva “Crime Story”.
Criada por Gustave Reininger e Chuck Adamson, a série tinha como produtor executivo Michael Mann e contava com a participação de Dennis Farina, no papel do detetive Mike Torello. Existem várias versões do tema “Runaway”, inclusive uma dos Beach Boys, quase todas com mais de 20, 30 ou 40 anos. Ultimamente saiu uma nova versão (penso que em 2007) interpretada pelos Queen e Paul Rodgers.
Há canções que nasceram para ser recriadas de tempos a tempos. Esta é uma delas.
Kissin é um dos meus pianistas preferidos. Tive a sorte de o ver atuar há tempos na Gulbenkian, num recital memorável, quando ele deveria andar pelos seus 30 anos. Ainda hoje, com 41, Evgeny Kissin, moscovita de origem judaica, mantém a sua expressão de adolescente.
O episódio que quero relatar passou-se em 1988 e trata de um daqueles encontros felizes e raros que acontecem uma vez na vida. Neste caso, na vida de duas pessoas — Evgeny Kissin e Herbert Von Karajan. Se a elas juntarmos, através do seu famoso e arrebatador concerto nº1 para piano e orquestra, Tchaikovsky, teremos o encontro de três génios. Kissin com 17 anos, Karajan no fim da vida (um anos antes) e Tchaikovsky, presente com sua música.
Para nosso deleite, esse episódio foi gravado, e aqui fica o registo do 1º andamento, sendo que podem encontrar, na mesma fonte, todo o concerto e ainda uma reportagem sobre este encontro feliz. Nessa reportagem, Kissin recorda o momento em que, após o concerto, quando sua mãe se aproximou, Karajan afirmou, apontando para ele:
– Genius.
Poderíamos ainda alargar esta onda de felicidade à excecional Filarmónica de Berlim. Como se sabe, esta orquestra foi talhada durante 35 anos pela batuta implacável de Herbert Von Karajan. Depois, seguiram-se Claudio Abbado e o diretor atual, Sir Simon Rattle (eleito pelos membros da própria orquestra), maestros que tive o prazer de ver atuar ao vivo.
A edição original é de 2009, pela Penguin Books, Grã-Bretanha, e a edição que temos em mãos é de 2012, Companhia das Letras, Brasil.
Nesta categoria (“Livros”), a nossa ideia é mais de divulgação do que de crítica. Entretanto, eis a nossa síntese de “A Ideia de Justiça” em seis linhas-mestras.
1- A ideia de justiça deve ser sobretudo uma prática;
2- Os comportamentos são mais importantes do que instituições e regras;
3- A uma estrutura “transcendental” devemos opor uma estrutura comparativa;
4- A uma perspetiva paroquial devemos opor uma visão universalista;
5- O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é mais importante que o PIB (Produto Interno Bruto) para o desenvolvimento de um país;
6- É muito importante trabalhar as “capacidades” – em vez de basearmos a realização do indivíduo no rendimento, devemos baseá-la na perspetiva de lhe proporcionar autonomia, para que ele tenha oportunidade e liberdade de optar por empreendimentos que o realizem enquanto ser humano e não apenas enquanto assalariado/consumidor.
Além disto (o livro é todo baseado em dicotomias, que revelam duas visões opostas sobre a justiça), os exemplos históricos mencionados por Sen são muito interessantes, sobretudo a abordagem à cultura oriental, nomeadamente a indiana, de onde Amartya Sen é oriundo. Estamos de acordo com Sen – pouco importa ter leis muito avançadas se não tivermos pessoas educadas e esclarecidas para as pôr em prática. A ação (praxis) é que importa ou, por outras (e nossas) palavras, mais vale minimizar efetivamente a injustiça, do que maximizar uma justiça que fica apenas no papel.
E daqui partima para uma crítica simples, que é, afinal, apenas um reparo. É que sobre este assunto – acho nós- é impossível ignorar um filósofo como Karl Popper. (É curioso notar que Amartya Sen refere ter sido primeiro matemático, depois físico, economista e, por último, filósofo). O tema da justiça é caríssimo, como não poderia deixar de ser, a Popper. Não interessa agora para o caso o que este autor pensa sobre o assunto, mas, pode dizer-se, está, substancialmente, em linha com a visão de Sen.
Neste livro, Sen cita cerca de 700 autores (além de 450 nos “Agradecimentos”), mas nem uma única vez Popper. No meio de tanta erudição, será Popper um filósofo desconhecido? Ou, sendo conhecido, apenas desprezado?
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A nossa edição:
Amartya Sen, A Ideia de Justiça, Editora Companhia das Letras, 1ª edição, São Paulo, 2012.
Alguns dos meus amigos de infância ainda se devem lembrar dele. E talvez haja algum que se lembre de quem lhe colocou a alcunha — Doutor Maluco — não sei se por ser diferente de todos os comuns mortais conhecidos no bairro, se pela figura eminente e misteriosa.
Passava pela Rua dos Remédios com ar altivo, ele que, de facto, era alto, distinto; fato preto, boina preta, sapatos pretos que riscavam o ar, impecavelmente engraxados.
(O negro contrastando com a alvura da pele).
Passava depressa, direito, flutuando — sempre pelo meio da rua, jamais sobre o passeio.
– “Então ó Doutor Maluco!”
E o Doutor Maluco — eu nunca soube o verdadeiro nome dele — continuava imperturbável o seu caminho, olhando em frente, por cima de todos, jamais baixando os olhos ou a cabeça, o rosto correctíssimo, impenetrável e sereno.
Lembro-me que numa tarde de Carnaval alguém lhe acertou com um ovo. O Doutor estancou, sacudiu a boina, limpou-a com um lenço alvíssimo que tirou duma algibeira, e sem enfado, sem olhar para nós ou para alguém, retomou seu caminho.
O tempo passou e nós teríamos, talvez, uns 18 anos quando um dia o encontrámos, no Largo da Graça. Vimo-lo à distância, e logo o Rui exclamou, “olha o Doutor Maluco!”
O Chico, que também ia connosco e sempre se saía com tiradas surpreendentes, sem mais, perguntou:
– Sr Doutor, o que é um homem que injeta heroína?
A resposta saiu pronta, natural, suave, como lhe houvessem perguntado as horas — e foi a única vez que ouvi a sua voz:
– É um herói.
Nunca mais vi o Doutor Maluco, que seguiu, olhando por cima dos transeuntes.
Cinco anos depois, o Rui e o Chico morreram, vítimas da heroína. Jovens, belos e audazes — como os heróis.
Face à classificação de há 5 meses (29/05/2012), releva o seguinte: entrada directa, para o 5º lugar, de Passos Coelho; manutenção firme nos dois primeiros lugares de Cavaco e Louçã; subidas de Relvas ao terceiro posto e Portas ao quarto; saída de Pacheco Pereira.
Livro de Edith Hamilton (1867-1963), publicado em 1942. A versão portuguesa que tenho em mãos é de 1983, 3ª edição, publicada pela Dom Quixote.
Pode pensar-se, à primeira vista, que se trata de um livro antigo, mas é preciso ter em conta que os temas tratados datam de há mais de três mil anos até, sensivelmente, ao século II da nossa era.
Em primeiro lugar, releva desde logo, após a leitura deste belíssimo livro, a contribuição que os gregos – esse povo hoje tão massacrado – deram para que a humanidade encarasse o mundo e as divindades de uma forma simultaneamente mais racional, bela, pacífica, natural, rica e até divertida. Com os gregos, os deuses foram humanizados. Tinham qualidades e defeitos como nós. Zeus, por exemplo, o principal deus do Olimpo, era bastante mulherengo e Hera, sua mulher, vingava-se castigando as mulheres por quem Zeus se apaixonava. Os gregos racionalizaram o mundo!
A própria representação física dos deuses se baseava no que era observável, por exemplo, nos jogos: os corpos ágeis e harmoniosos dos jovens em competição. O escultor sentia que a sua imaginação não poderia conceber algo mais belo – e assim esculpiu a estátua de Apolo. O escritor, por seu turno, visualizou o deus como “um jovem na idade em que se é mais belo” (Homero). “Os artistas e poetas gregos compreenderam quão esplêndido, escorreito, rápido e forte o homem podia ser. O homem era a realização da sua busca de beleza. Toda a arte e todo o pensamento da Grécia se concentraram no ser humano”.
Esta moldagem dos deuses à imagem humana contrasta absolutamente com a abordagem anterior, onde os deuses não tinham qualquer semelhança com os seres do mundo real. No Egito ou na Mesopotâmia, os deuses eram representados como figuras inumanas, ferozes, colossais, aterradoras. Algo radicalmente diferente de qualquer estátua grega de um deus, perfeita e natural.
Em segundo lugar, pois claro, os mitos. Não há mitologia sem eles nem há mitos sem heróis. Perseu, Teseu, Hércules, Aquiles, Odisseu e Eneias são os mais conhecidos. No livro são narrados, pela autora, todos os mitos mais importantes e outros secundários, obviamente, citando as fontes e baseando-se nelas – fontes que mais não são do que os escritos dos grandes poetas gregos e romanos da Antiguidade, embora Hamilton aborde também, no capítulo final, a mitologia nórdica. Como é óbvio, não cabe aqui uma transcrição dos mitos. Mas deixarei, no final, o mito sobre a criação do mundo e da humanidade. Entretanto, apenas mais dois apontamentos, quiçá, úteis, o primeiro sobre os principais deuses e o segundo sobre os principais escritores clássicos.
Os deuses viviam no Olimpo. A localização do Olimpo é incerta, mas sabe-se que tinha um portão de nuvens e que era guardado pelas quatro estações do ano. Para lá dele os deuses comiam, bebiam, davam grandes festins e viviam na paz e felicidade absolutas. Os doze olimpianos constituíam uma família divina. Eram eles:
1) Zeus (Júpiter), era o chefe; depois, seus dois irmãos, 2) Posídon (Neptuno) e 3) Hades, também chamado Plutão; 4) Héstia (Véstia), irmã dos três; 5) Hera (Juno), mulher de Zeus e 6) Ares (Marte), filho de ambos; os filhos de Zeus: 7) Atena (Minerva); 8) Apolo; 9) Afrodite (Vénus); 10) Hermes (Mercúrio) e 11) Artemisa (Diana); e, finalmente, o filho de Hera, 12) Hefesto (Vulcano), referido, por vezes, como sendo também filho de Zeus.
Os principais escritores clássicos gregos foram Homero (séc X a.C.), que escreveu a Íliada” e a “Odisseia”; Hesíodo (séc. VIII a.C.), que escreveu “Os Trabalhos e os Dias” e “Teogonia”; Píndaro (séc. VI a.C.); Ésquilo, Sófocles e Eurípedes (os 3 poetas trágicos, que terão vivido por volta do séc. V a.C.); Heródoto (primeiro historiador da Europa, que foi ainda contemporâneo de Platão); ApolóniodeRodes, Teócrito, Bíon e Mosco (séc. III a.C., são designados poetas alexandrinos, dado que o centro da literatura grega se transferira para Alexandria); Apolodoro, Luciano e Pansânias (já nos séculos I e II da nossa era).
Os escritores gregos foram os melhores guias para o conhecimento da mitologia, dado que acreditavam no que escreviam. Já para os romanos, os mitos eram algo muito remoto, meras sombras. Mesmo assim, aqui fica o nome dos dois mais importantes. Todos eles viveram um pouco antes ou um pouco depois de Cristo. O mais relevante de todos eles foi Virgílio, que deu vida às personagens mitológicas como ninguém conseguira desde os tragediógrafos gregos e outro que merece referência é Horácio.
A CRIAÇÃO DO MUNDO E DA HUMANIDADE
Hesíodo (séc. VIII a. C.) é a autoridade máxima quanto a mitos relativos à origem do universo. Este mito conta também com uma pequena colaboração de Ésquilo (séc. V a. C.)
No princípio era o Caos, o abismo vasto e imenso mergulhado na escuridão de breu. A noite era filha do Caos, tal como Érebo, a profundidade impenetrável onde a morte habita. Em todo o Universo não havia mais nada, tudo era escuro, vazio, silencioso, infinito. E foi então que a Noite depôs um ovo trazido pelo vento, e da escuridão e da morte nasceu o Amor,e com ele a ordem e a beleza, que começaram a abolir a confusão cega.
O Amor deu origem à Luz e ao seu companheiro, o Dia radioso – e então surgiu a Terra e logo também o Céu. Os primeiros seres com uma certa aparência de vida foram os monstros filhos da Mãe Terra (Gea) e do Pai Céu (Urano). Tinham a força avassaladora do sismo, do furacão e do vulcão. Três deles tinham uma força descomunal, cada um com cem mãos e cinquenta cabeças. A outros três foi dado o nome de Cíclopes (olhos-rodas) porque cada um tinha no meio da testa um enorme olho redondo, como uma roda. Por fim surgiram os Titãs, em número considerável; não eram porém inferiores aos seres que os tinham precedido, nem em dimensões nem em força, apenas não se dedicavam à destruição por prazer e alguns até eram benéficos: na verdade, um deles salvaria a humanidade da destruição que a ameaçava.
O Céu odiava os seres que tinham cem mãos e cinquenta cabeças, embora fossem seus filhos, e quando eles nasceram prendeu-os num lugar secreto, no interior da terra. Aos Cíclopes e aos Titãs, porém, deixou-os em liberdade. A Terra enraivecida com os maus tratos que ele dava aos outros filhos apelou para que estes a ajudassem. Só um deles, o titã Crono, teve a audácia de o fazer. Esperou que o pai aparecesse e feriu-o terrivelmente. Os Gigantes, a quarta raça de monstros, brotaram do seu sangue, bem como as Erínias, que estavam encarregadas de perseguir e punir os pecadores. Chamavam-lhes “aquelas que caminham na escuridão”; tinham um aspeto horrível: em vez de cabelo serpentes contorcidas e os olhos derramavam lágrimas de sangue. Todos os monstros acabaram por ser afastados da Terra, com exceção das Erínias – enquanto houvesse pecado no mundo elas não poderiam ser banidas da Terra.
Desde esses tempos imemoriais e durante eras incontáveis, Crono (Saturno, para os romanos) foi senhor do Universo, com a rainha-irmã Reia (Ops, em latim). Um dos seus filhos, porém, o futuro senhor dos céus e da Terra – Zeus – revoltou-se também contra a autoridade paterna; tinha boas razões para o fazer, pois Crono, sabendo que um dos filhos o havia de destronar, pensou opor-se ao destino, engolindo-os a todos à medida que iam nascendo. Mas quando Zeus nasceu, o sexto filho de Reia, ela conseguiu levá-lo em segredo para Creta e dar ao marido um pedregulho enorme, envolto em faixas e em cueiros, que ele engoliu imediatamente, supondo tratar-se do filho. Mais tarde Zeus, com a ajuda da avó, a Terra, forçou o pai a vomitar a pedra juntamente com os outros cinco filhos.
Seguiu-se uma guerra terrível entre Crono, auxiliado pelos seus irmão titãs, e Zeus, secundado pelos seus cinco irmãos e irmãs – uma guerra que quase aniquilou o Universo. Os Titãs foram vencidos, em parte porque Zeus libertou da prisão os monstros de cem mãos, que lutaram a seu lado com as suas armas irresistíveis – o trovão, o raio e o sismo – e, por outro lado, porque um dos filhos do titã Japeto, que se chamava Prometeu e era muito sábio, tomou o seu partido. Zeus castigou terrivelmente seus inimigos, amarrando-os com duros grilhões sob a Terra, no Tártaro. Atlas, irmão de Prometeu, teve ainda pior castigo. Foi condenado a suportar às costas para sempre o peso do mundo e a abóbada do Céu.
Mas a vitória de Zeus não fora ainda definitiva. A Terra gerou ainda o seu último rebento e também o mais terrível – Tífon, um monstro chamejante de cem cabeças. Mas Zeus já tinha por essa altura, sob seu domínio o trovão e o raio, que se tornaram as suas armas, pois ninguém mais se servia delas, e derrotou Tífon. Posteriormente, foi efetuada ainda outra tentativa para derrubar Zeus – a revolta dos Gigantes. Mas os deuses eram já muito fortes e além disso contavam com a ajuda de Hércules, um dos filhos de Zeus. Os Gigantes foram derrotados, resvalaram ululantes para o Tártaro e a vitória dos poderes radiosos do Céu sobre as forças brutais da Terra foi total e definitiva. Zeus e seus irmãos e irmãs ficaram a governar, senhores de tudo e de todos.
O mundo, liberto de monstros, estava pronto a acolher a humanidade. A Terra era agora um local pacífico. Em seu redor corria o grande rio Oceano, nunca perturbado por qualquer vento ou tempestade. Nas margens do Oceano ficava também a morada dos mortos bem-aventurados. Aqueles que em vida se mantivessem puros de todos os pecados viriam para esta região quando deixassem a Terra. Tudo estava determinado. Era tempo de o homem ser criado.
A tarefa foi confiada pelos deuses a Prometeu, o titã que tomara o partido de Zeus, durante a guerra com os Titãs, e a seu irmão Epimeteu. Prometeu, cujo nome significa “previsão”, era muito prudente, mais ainda que os próprios deuses, mas Epimeteu, que significa “ideia que surge depois da ação”, era um cabeça no ar, que seguia invariavelmente o primeiro impulso e só depois mudava de ideias. Assim aconteceu neste caso. Antes de criar o homem, concedeu aos animais todos os melhores dons – a força e a rapidez, a coragem e a astúcia arguta, os pelos e as penas, as asas e as conchas, entre outros – de tal modo que nada restou para o ser humano, que se viu assim sem quaisquer meios de proteção ou atributos que os equiparassem aos irracionais. Só mais tarde, como sempre, Epimeteu se arrependeu e foi pedir auxílio ao irmão. Prometeu, então, ponderou com cuidado como tornar a humanidade superior. Dotou o homem com forma mais nobre que os outros animais, com a verticalidade própria dos deuses; depois, foi ao Céu, junto do Sol, onde acendeu uma tocha que trouxe para a Terra, ficando o fogo a ser para o homem um meio de proteção incomparavelmente melhor, relativamente aos outros animais.
Durante um longo período, por toda a feliz idade de Oiro, com certeza, só existiram homens à superfície da Terra, não havia mulheres. Zeus criou-as apenas respondendo com o seu rancor a todos os cuidados que Prometeu tivera para com o homem. Prometeu não se limitara a roubar o fogo para o dar ao homem; proporcionara-lhe também o modo de ele ficar sempre com a melhor parte de todo o animal sacrificado, deixando a pior para os deuses. Matara e desmanchara um boi enorme e metera dentro da pele a melhor carne, disfarçando tudo, depois, com um montão de tripas por cima. Ao lado desse colocara outro volume com todos os ossos empilhados astutamente e cobertos de gordura reluzente e pediu, então, a Zeus que escolhesse um deles. Zeus preferiu o segundo, mas ao ver os ossos dispostos ardilosamente, enfureceu-se. A verdade é que já fizera a sua escolha e não podia voltar atrás.
O Pai dos homens e dos deuses não se podia conformar com tamanha desconsideração e jurou vingar-se, primeiro na humanidade e depois em Prometeu. Zeus criou então algo de muito perigoso, algo que deleitava os olhos pela suavidade e pela beleza, com o aspeto de uma donzela tímida a quem todos os deuses concederam dons: vestes prateadas e um véu todo bordado, uma autêntica maravilha, belas grinaldas de frescas flores e uma coroa de oiro. A donzela irradiava beleza. Chamaram-na Pandora, que significa “a dávida de todos”; depois de terminada esta bela calamidade, Zeus mostrou-a a todos e, ao contemplarem-na, tanto os deuses como os homens ficaram extasiados. É dela – a primeira mulher – que descendem todas as mulheres, que são a desgraça dos homens e têm a tendência para praticar o mal.
Uma outra versão sobre o aparecimento de Pandora diz-nos que a fonte originária de todas as desgraças não foi propriamente a sua natureza perversa, mas apenas a sua curiosidade. Os deuses ter-lhe-iam oferecido também uma caixa em que haviam guardado algo de altamente nocivo, proibindo-a de a abrir. Depois mandaram Pandora para junto de Epitemeu, que a aceitou de bom grado, embora Prometeu o tivesse prevenido para que nunca aceitasse nada da parte de Zeus. Só depois de a ter recebido, porém, quando esse ser perigoso, a mulher, já lhe pertencia, é que ele compreendeu o conselho do irmão, pois Pandora, como todas as mulheres, tinha uma curiosidade incontível – tinha de saber o que estava dentro da caixa e, um dia, levantou a tampa. Da caixa brotaram, em torrentes, inúmeras pragas, tristezas e males para a humanidade. Aterrorizada, Pandora apressou-se a fechar a caixa – mas infelizmente já era tarde de mais. Apesar de tudo, algo de bom lá ficou dentro – a Esperança – o único bem que o cofre continha entre tantos males, e esse ainda hoje continua a ser o único conforto da humanidade nos momentos de infortúnio.
Depois de ter castigado os homens com essa dávida, a atenção de Zeus concentrou-se sobre o grande pecador. O novo senhor dos deuses tinha uma grande dívida de gratidão para com Prometeu, por este o ter auxiliado na luta contra os Titãs, mas Zeus tinha-se esquecido por completo. Mandou os seus criados Força e Violência capturar Prometeu e levá-lo para o Cáucaso. Prenderam-no a uma rocha proeminente e escarpada com cadeado adamantino que ninguém podia quebrar, longe de tudo e todos.
Não era apenas para o castigar que Zeus o submetia a essa tortura; a verdade é que tencionava também coagi-lo a desvendar um segredo da máxima importância para o senhor do Olimpo – Zeus sabia que o Destino, que preside à origem de tudo o que acontece, determinara que um dia ele havia de ter um filho que o destronaria e desalojaria os deuses do céu. Só Prometeu, contudo, estava de posse do nome da mulher que o daria à luz. Por isso, o Deus dos Deuses aproveitou esse momento em que sua vítima ali amarrada à rocha atingira o auge da agonia e mandou que o seu mensageiro Hermes fosse junto dele para o obrigar a falar. Mas Prometeu não cedeu. O seu corpo continuava amarrado mas seu espírito era livre. Todo aquele sofrimento era injusto, pois tinha consciência de que cumprira seu dever em relação a Zeus e que fizera bem em apiedar-se dos pobres mortais desamparados. Hermes voltou várias vezes, mas Prometeu manteve-se firme.
Passaram várias gerações até que, não se sabe bem como (isso não é explicado em lado nenhum) Prometeu foi libertado. Há uma estranha história sobre um centauro, Quíron, que embora imortal se dispôs a morrer por ele, desejo que lhe foi permitido realizar. Zeus parece que aceitou de bom grado a substituição da vítima. Outra narrativa conta que Hércules libertou Prometeu dos seus grilhões, com o consentimento de Zeus, embora não saibamos por que razão este terá mudado de ideias nem tão pouco se Prometeu, uma vez em liberdade, revelou ou não o segredo. No entanto, uma coisa é certa: fosse qual fosse o meio por que se reconciliaram, não foi Prometeu, com certeza, quem cedeu – o seu nome tem-se mantido, através dos tempos, desde a Grécia antiga aos nosso dias, como o símbolo de rebelde por excelência, que se insurge contra a injustiça e a autoridade do Poder.
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Foto retirada de avidreader25.blogspot.pt
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A nossa edição:
Edith Hamilton, A Mitologia, Dom Quixote, 3ª edição, Lisboa, 1983.
A sociobiologia é uma ciência com cada vez mais adeptos, embora também com muitos detratores. Foi fundada por Edward Osborne Wilson, mas a sua popularidade cresceu imenso com a publicação do livro “O Gene Egoísta”, de Richard Dawkins, em 1976. Lemos esse livro há uns longos anos, mas como o seu conteúdo é bastante polémico e, para muito boa gente, chocante, aqui ficam umas notas muito simples que descobrimos recentemente num caderninho.
Tese Fundamental de Dawkins: Toda a evolução tem por base um comportamento egoísta por parte do gene – a unidade básica de seleção natural ou “unidade de hereditariedade”. Assim, o indivíduo (qualquer organismo) deixa de ser a unidade de seleção natural, dado que os organismos nascem, vivem e morrem, e passa a ser o gene essa unidade, uma vez que o gene se perpetua, construindo organismos, que “usa” para passar de geração em geração.
1ª sub-tese: Todos os organismos vivos foram criados pelos genes. São autênticas “máquinas de sobrevivência”. Nesse sentido, nós, seres humanos, não passamos de “robots desajeitados”, se não pré-determinados, pelo menos pré-programados. Só existimos para preservação dos genes.
2ª sub-tese: Como já vimos da tese fundamental, a unidade básica (e prática) de seleção natural é o gene – “um fragmento de cromossoma suficientemente pequeno para durar muito tempo” – isto porque o gene reúne três condições essenciais: longevidade, fecundidade e fidelidade da cópia.
3ª sub-tese: O comportamento humano é comandado remotamente pelos genes. São estes que ditam a forma pela qual são construídas as “máquinas de sobrevivência” e os seus cérebros.
4ª sub-tese: Compartilhamos os nossos genes com os parentes mais próximos. Quanto maior for a proximidade, maior será a partilha. Comportamentos supostamente altruístas mais não são que comportamentos (egoístas) programados para a sobrevivência dos genes dentro de um certo grupo. Chama-se a isto “seleção de parentesco”. A própria dedicação aos filhos está aqui incluída.
5ª sub-tese: Para além da tentativa de perpetuação do gene egoísta, este tenta também diminuir as hipóteses dos genes rivais sobreviverem. Há uma verdadeira competição entre os genes. De acordo com Dawkins, isto pode observar-se abundantemente através do comportamento animal.
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A nossa edição:
Richard Dawkins, O Gene Egoísta, Editora Gradiva, 1ª edição, Lisboa. 1989.
Todos precisam de reconhecimento, mas nenhum génio sonha com a fama.
Quem já sentiu, como eu, essa sensação estranha de conhecer um “artista” — pintor, poeta, escritor, músico — que carece manifestamente de talento, mas que nos invade com sua obra, confiante, seguro de si, ostensivo na sua ânsia de reconhecimento e de sucesso? Claro que a auto-confiança é positiva e todos têm, afinal, o direito de exprimir e divulgar seus trabalhos da forma que melhor lhes aprouver. Mas nós? A nossa opinião, evidentemente subjetiva e eventualmente errada, deve ser emitida com sinceridade ou devemos fingir que aquele projeto é magnífico e incentivar o(a) nosso(a) artista a seguir em frente? Ou nem uma coisa nem outra — algo que, suspeito, seja o mais comum? Por que será que alguns verdadeiros talentos detestam a notoriedade e duvidam de si próprios enquanto outros de talento mais que duvidoso querem a fama e estão convencidos de conquistá-la? Fernando Pessoa, por exemplo, detestava ser conhecido, ele que foi um génio, e queria viver como alguém comum. Por outro lado, pessoas comuns querem ser génios famosos. Ele viveu infeliz, inseguro, solitário mas deixou-nos um tesouro. Outros vivem contentes, felizes e iludidos e deixam-nos algo que se resume a nada. O que será preferível: um tolo feliz ou um génio frustrado? Não sei. Mas acho curioso que se juntem neste filme trágico-cómico que é a vida, atores tão diversos e simultaneamente tão próximos nas contradições humanas. E, no meio disto, eu, que me empolgo com coisas insignificantes, pergunto a mim próprio quantas vezes fui, e quantas vezes serei ainda, ridículo e só encontro uma resposta: muitas, inúmeras, incontáveis vezes.