Fama

Quem já sentiu, como eu, essa sensação estranha de conhecer um artista – pintor, poeta, escritor, músico – que carece manifestamente de talento, mas que nos invade com sua “obra”, confiante, seguro de si, ostensivo na sua ânsia de reconhecimento e de sucesso?
Claro que a auto-confiança é positiva e todos têm, afinal, o direito de exprimir e divulgar seus trabalhos da forma que melhor lhes aprouver.

Mas nós? A nossa opinião, evidentemente subjetiva e eventualmente errada, deve ser emitida com sinceridade ou devemos fingir que aquele projeto é magnífico e incentivar o(a) nosso(a) artista a seguir em frente? Ou nem uma coisa nem outra – algo que, suspeito, seja o mais comum?
Por que será que alguns verdadeiros talentos detestam a notoriedade e duvidam de si próprios enquanto outros de talento mais que duvidoso querem a fama e estão convencidos de conquistá-la? Fernando Pessoa, por exemplo, detestava ser conhecido, ele que foi um génio, e queria viver como alguém comum. Por outro lado, pessoas comuns querem ser génios famosos.
Ele viveu infeliz, inseguro, solitário mas deixou-nos um tesouro. Outros vivem contentes, felizes e iludidos e deixam-nos algo que se resume a nada.
O que será preferível: um tolo feliz ou um génio frustrado?
Não sei. Mas acho curioso que se juntem neste filme trágico-cómico que é a vida, atores tão diversos e simultaneamente tão próximos nas contradições humanas.
E, no meio disto, eu, que me empolgo com coisas insignificantes, pergunto a mim próprio quantas vezes fui, e quantas vezes serei ainda, ridículo e só encontro uma resposta: muitas, inúmeras, incontáveis vezes.