Cavaco

Perguntava-me algumas vezes por que razão alguém apoiaria uma pessoa que a mim me parecia tão notoriamente inadequada para Chefe de Estado. Demorou algum tempo, porém, até eu perceber que essa questão está mal colocada. Haverá sempre alguém que goste de pessoas que nos parecem execráveis. A verdadeira questão não é essa. O importante é saber por que razão a Esquerda (e eu sou de Esquerda e nunca votei no Sr. Silva) não soube angariar um candidato que galvanizasse as pessoas, que as fizesse não optarem por Cavaco – pois é evidente que, se elas votaram em Cavaco, é porque não tinham alternativa melhor. E a resposta é só uma: a Esquerda, apesar de toda a propaganda, está-se nas tintas para o Povo. Esta afirmação pode constituir alguma surpresa, mas só para quem ande muito distraído. Desde o 25 de abril que a Esquerda coloca acima do Povo – de quem apregoa ser a principal e, mesmo, única defensora – a ideologia, a estratégia e a rigidez de princípios. Esta falta de flexibilidade é aproveitada, e bem, pela Direita, que se une, no essencial, quando é preciso, como aconteceu nas duas eleições de Cavaco Silva.

Outro grande problema da Esquerda mais conservadora (ou, se preferirem, ortodoxa) traduz-se na incapacidade de autocrítica. Evidentemente, não assume qualquer responsabilidade pelo desastre que Cavaco representa para o país. Essa incapacidade de autocrítica impede a Esquerda de melhorar, afasta-a do povo.

E o povo responde afastando-se dela.