De Roma a Durban

Uma viagem pode ser mais ou menos interessante, sendo que o mais ou menos, depende, em larga medida, de ti. Indaga, observa, busca, reflete.

O Êxtase de Santa Teresa.
  • Embora já tivéssemos estado várias vezes em Roma, nunca tínhamos entrado na belíssima igreja de Santa Maria da Vitória. Em trânsito para Civitavecchia, pouco mais deu para ver. O objetivo era admirar a escultura de Bernini, O Êxtase de Santa Teresa, que é, de facto, sublime. Esta zona, bem próxima da Praça da República e da estação ferroviária Termini, contém várias igrejas e basílicas, pelo que, nas curtas duas horas que estivemos na cidade, pudemos ainda visitar a igreja de São Bernardo (San Bernardo Alle Terme) e a Basílica de Santa Maria dos Anjos e dos Mártires (Santa Maria degli Angeli e dei Martiri), ambas arquitetonicamente grandiosas.
  • Em Civitavecchia comemos uma pizza simples (Margheritta), mas excelente. Vinha a ferver e, a acompanhá-la, uma cerveja gelada. Era sexta-feira à noite, e as praças e bares da cidade estavam bastante movimentados. Civitavecchia é uma cidade interessante, com boa qualidade de vida e muito turismo. No dia seguinte, sábado, embarcámos no MSC Orchestra, que nos acolheria na longa viagem até Durban, na África do Sul.
  • Chania, em Creta, não frustrou as nossas expectativas. A zona do porto veneziano é a mais charmosa da cidade: uma baía onde o mar praticamente beija as casas — quase todas restaurantes com esplanadas, onde se come bons peixe e marisco — e, por trás, ruelas coloridas e casas com sacadas floridas (vimos umas, de madeira, muito interessantes), onde uma mesa e duas cadeiras convidam a desfrutar… a dois. Claro que Chania vive sobretudo do turismo que, mesmo nesta altura do ano, face ao clima favorável, é intenso. Mas, se aqui a temperatura estava muito agradável, ela iria subir ainda, à medida que nos deslocávamos para sudeste, em direção ao Canal do Suez.
  • Agora mesmo vi passar uma ave, um passarinho isolado, que cruzou o navio de bombordo para estibordo. Não era uma gaivota, nem um atobá ou um albatroz, era muito mais pequeno. Haverá alguma espécie de aves que possa viver saltitando de navio em navio? Talvez pudesse haver. Num navio sempre há comida, espaço para dormir e provavelmente algum lugar seguro para construir um ninho.
Descansando um pouco em Chania, Creta.
  • Mediterrâneo, o centro da Terra, foi aqui que tudo começou. Devido ao seu posicionamento, o clima, aqui, é excecional, com pequenas amostras espalhadas um pouco pelo globo: pequenas partes da Austrália, da Califórnia, da África do Sul e do Chile. O clima, naturalmente, está ligado ao que o solo dá, ou, melhor dizendo, é o solo que se liga ao clima. Por isso a região mediterrânica é tão privilegiada. Aqui encontramos os cereais indicados para produzir o melhor pão, as videiras e oliveiras que originam os melhores vinhos e óleos; e muitos outros frutos típicos, como o figo, o limão e a laranja, a romã, a alfarroba e o tomate. Da melhor agricultura nasce a melhor gastronomia, mas este clima também influencia os animais que habitam terra e mar. Entre eles, homens e mulheres do mais belo que podemos encontrar e que construíram aqui, no Mediterrâneo, as formas mais elevadas de cultura. A propósito: Daniel Zafrani, um artista-mimo israelita, cria sketches plenos de humor, originalidade e beleza. Vimo-lo atuar no navio e tivemos o privilégio de falar com ele, e observar que, além de criativo, é também muito simpático e humilde. Uma pessoa luminosa.
  • O Canal do Suez é daquelas obras de engenharia universais (Agostinho da Silva escreveu um artigo interessante sobre o construtor francês do canal). Os navios seguem em comboio num único sentido de cada vez, por isso é normal esperar-se horas pelo comboio que vem em sentido contrário ao nosso. Rebocadores e pilotos são necessários em todo o percurso e a velocidade é forçosamente lenta. A meio-caminho há um lago enorme, onde se espera de novo por outro comboio. Normalmente não se consegur percorrer o canal em menos de 24 horas. Do navio podemos ver muitas obras, barcos que cruzam o canal transportando viaturas e pessoas, uma ou outra ponte, linhas de caminhos de ferro, postos de controlo, campos e cidades inteiras.
Canal do Suez.

Saindo do canal, entramos diretamente no Mar Vermelho. O nosso navio não continuou para sul, antes virou à esquerda e subiu pelo Golfo de Aqaba, fazendo um “V”. O golfo é estreito, sendo visíveis, de qualquer ponto, as duas margens — à esquerda o Egito, à direita a Arábia Saudita — até chegarmos ao fim, ou um pouco antes, onde já avistamos lá ao fundo as duas cidades lado-a-lado — Eilat e Aqaba. Agora já é Israel em vez de Egito, e Jordânia em vez de Arábia Saudita. As duas cidades estão rodeadas de montanhas de calhaus e areia, onde não há vegetação. Dá para perceber que não chove. O próprio ar é quente e seco, dificilmente aqui haverá um inverno verdadeiro. De facto, a uma semana de novembro, ainda é verão. Nas praias veem-se pessoas a desfrutar da água morna, a 26 graus. Ambas as cidades vivem do turismo associado às atividades náuticas, sobretudo Eilat, uma vez que Aqaba é, além de destino de mar, um excelente ponto de acesso a Petra, Património Mundial pela UNESCO. Há uma notória diferença entre as praias de Eilat e as de Aqaba, as primeiras com excelentes infraestruturas, com pessoas de fatos de banho como se vê nos nossos países, enquanto em Aqaba as mulheres ficam na areia da praia todas cobertas a ver os filhos e os maridos desfrutando na água. Muitos dos homens têm o tronco coberto enquanto tomam banhos de mar.

  • Apesar das diferenças culturais, Aqaba e Eilat são praticamente iguais do ponto de vista natural, verdadeiras cidades gémeas. Como vimos, ambas se situam na enorme baía formada no final do golfo de Aqaba e, além disso, ambas estão rodeadas por desertos; ambas dão acesso ao Mar Morto, partilhado por Jordânia e Israel; e, claro, ambas estão sujeitas ao mesmo tipo de clima. Estas semelhanças naturais deverão ter alguma influência sobre a boa convivência que parece existir, mas o fator decisivo é o acordo de paz celebrado nos anos 90 entre os dois países, que vem sendo escrupulosamente cumprido até os dias de hoje. A Jordânia tem-se mostrado, inequivocamente, o vizinho mais fiável de Israel.
Passeando ao anoitecer pelo porto de Eilat, Israel.
  • Que a Jordânia é, entre os países árabes, um estado tolerante, nós já tínhamos constatado numa anterior visita. Mas que os países árabes fossem, em geral, tolerantes e os melhores onde se viver, isso nunca nos passou pela cabeça. Pois foi o que nos disse o chefe da Igreja Ortodoxa de Aqaba (Igreja de São Nicolau), Samih “Basilious” Al-Marji, uma igreja que, segundo Samih, acolhe quinze fiéis. Encontrámos este padre almoçando numa rua de Aqaba. Reparando que o observávamos, ele próprio encetou uma conversa connosco, perguntando de onde éramos. Quando soube que eu era português referiu-se a Fátima com grande simpatia. Disse-nos que tinha um filho que vivia nos Estados Unidos e que ele próprio poderia lá viver, mas que a Jordânia era um país melhor para se morar e que os países árabes eram os mais tolerantes. Disse que a sua igreja estava sempre aberta, jamais a fechava. Ficou visivelmente satisfeito quando lhe pedimos para tirar uma foto com a Fla, dizendo que ela era muito bonita e tanto eu quanto ele tínhamos muita sorte em estar ali com ela. Antes de nos despedirmos fez questão de nos abençoar com o sinal da cruz.
  • Um dos livros que trouxe para a viagem foi Astrofísica para Gente com Pressa, de Neil de Grasse Tyson, um autor que desconhecia. O livro está dividido em 12 capítulos, adaptados (2017) de ensaios publicados na revista Natural History. É um livro com poucas páginas, sintético, que se lê muito bem. Há uns tempos que não lia um livro sobre astrofísica e foi bom retomar o tema. É notória a admiração do autor por Einstein. Embora isto seja tudo menos invulgar, não deixou de ser um motivo de simpatia para quem, como eu, é igualmente um admirador confesso do grande físico alemão. Apesar da incrível intuição, ou imaginação (o autor deste livro vai mais por aqui), ou inteligência, ou de tudo isso junto, que caracterizava Einstein, este nunca achou, ou sequer sugeriu, que a sua teoria da relatividade fosse a palavra final. Popper admirava muitíssimo a humildade de Einstein. Ambos estavam convencidos de que Einstein tinha razão no confronto que manteve durante grande parte da sua vida com os cientistas aderentes à chamada “interpretação de Copenhaga”, segundo a qual a realidade quântica depende do ponto de vista do observador, ou seja, não é independente de quem a observa. Deus não joga aos dados, a célebre frase de Einstein foi dita em reação a essa interpretação de Copenhaga, Popper foi dos poucos que sempre concordou com Einstein, mas a mecânica quântica funciona e Einstein é geralmente considerado perdedor nesse confronto com Bohr e seus seguidores.
Fla com Samih “Basilious” Al-Marji.

Isto não é dito no livro, mas é algo bem conhecido e considerado pela quase totalidade dos cientistas como ponto assente. Mas talvez a história ainda venha a dar razão a Einstein e a quem com ele concorda, como Popper e eu. A principal objeção de Popper à mecânica quântica, no que toca ao aspeto conceptual e teórico, é a pretensão dos seus autores de que ela é uma teoria definitiva e inquestionável — atitude contrária à de Popper em relação à ciência. Mas se a história nesta questão específica ainda não abonou em favor de Einstein, já o fez em relação a outra questão específica em que se pensava que Einstein se teria enganado (ele próprio, com a sua proverbial humildade, admitiu que errara), mas que agora, com novos dados proporcionados pela tecnologia, tudo indica, veio a verificar-se que Einstein tinha razão.

Esta questão tem a ver com a “constante cosmológica”, ou lambda, uma força oposta à da gravidade que preservava aquilo em que Einstein e a maioria dos físicos da sua época acreditavam — um universo estático. E voltamos ao livro. Tyson faz uma cronologia dos acontecimentos. Em 1916, Einstein publica a Relatividade Geral (RG), incluindo nas suas equações um termo, que apelidou de “constante cosmológica”, representado pela letra maiúscula grega “Λ” — o lambda. Em 1929, treze anos depois, Edwin P. Hubble, um astrofísico norte-americano, descobriu que o universo não era estático, tendo reunido provas convincentes de que as galáxias mais distantes da Via Láctea se afastam desta mais rapidamente (para tentarmos perceber como isto acontece podemos imaginar a expansão de um balão) do que as que lhe estão próximas.

Quando Einstein tomou conhecimento de que o universo estaria em expansão, descartou o lambda, presumindo o seu valor como zero, e chamou à “constante cosmológica” o “maior erro” da sua vida. No entanto, o lambda nunca foi completamente esquecido, ciclicamente voltava à baila. Até que, em 2011, três cientistas foram galardoados com o Prémio Nobel da Física por um trabalho que remonta a 1998 e reabilita o lambda de Einstein. Estes cientistas — Saul Perlmutter, de Berkeley, Brian Schmidt, de Camberra, e Adam Riess, de Maryland — descobriram que o Universo se expande mais rapidamente do que se pensava e que essa “força”, que supera o indicado pela velocidade de recessão, só faz sentido se regressarmos à “constante cosmológica” de Einstein, que prevê uma energia escura responsável por 68% de toda a massa-energia do Universo. Como? Vejamos o que nos diz Tyson.

O contacto com o mar, dentro de um navio seguro, é relaxante.

A forma do nosso Universo a quatro dimensões provém da relação entre a quantidade de matéria e energia que existe no Cosmos e a velocidade a que o Cosmos se está a expandir. Uma medida matemática conveniente para isso é o ómega: Ω, mais uma letra maiúscula grega com um papel bem importante no Cosmos. Se tomarmos a densidade de matéria-energia do Universo e a dividirmos pela densidade matéria-energia necessária para quase travar a expansão (conhecida por “densidade crítica”), obtemos ómega. Uma vez que tanto a massa quanto a energia fazem distorcer, ou curvar, o espaço-tempo, ómega revela-nos a forma do Cosmos. Se ómega é menor do que 1, a massa-energia real situa-se abaixo do valor crítico e o Universo expande-se para sempre em todos os sentidos, tomando a forma de uma sela, onde divergem linhas inicialmente paralelas. Se ómega for igual a 1, o Universo expande-se para sempre, mas não completamente. Nesse caso, a forma é plana, preservando todas as formas geométricas que aprendemos na escola sobre linhas paralelas. Se ómega exceder 1, as linhas paralelas convergem e o Universo curva sobre si próprio, acabando por voltar a entrar em colapso na bola de fogo de onde veio (…)

Entretanto, a partir de 1979, o físico norte-americano do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Alan H. Guth, juntamente com outos colegas, avançou um ajustamento para a teoria do Big Bang que esclarecia alguns problemas de um universo tão suavemente cheio de matéria e energia como o nosso. Um subproduto fundamental desta atualização do Big Bang foi o facto de considerar o valor de 1 para ómega. Não metade. Não dois. não um milhão. Um. (…)

Havia, no entanto, um outro pequeno problema: a atualização previa três vezes mais massa-energia do que a encontrada pelos observadores. Teimosamente, os teóricos afirmaram que os observadores simplesmente não estavam procurando como deve ser. No final das contas, só a matéria visível não representava mais do que 5% da densidade crítica. E a misteriosa matéria escura? Também a acrescentaram. Ninguém sabia o que era e ainda não sabemos o que é, mas contribuiu seguramente para os totais. Daí, obtemos cinco ou seis vezes mais matéria escura do que matéria visível. Mas ainda é muito pouco. Os observadores estavam perdidos e os teóricos respondiam: “continuem a procurar”. Ambos os campos tinham a certeza de que o outro estava errado — até à descoberta da energia escura. Esse componente único, quando adicionado à matéria comum, à energia comum e à matéria escura, fez subir a densidade de massa-energia do Universo para o nível crítico. Satisfazendo quer observadores quer teóricos (…)

Então, que coisa era aquela? Ninguém sabe. A resposta mais próxima que alguém conseguiu foi presumir que a energia escura é um efeito quântico — onde o vácuo do espaço, em vez de ser vazio, na verdade fervilha de partículas e das suas parceiras de antimatéria. Aparecem e desaparecem em pares e não duram tempo suficiente para serem medidas (…) Sim, estamos um bocadinho perdidos. Mas não abjetamente perdidos. A energia escura não anda à deriva, sem uma única teoria em que se ancorar. A energia escura habita um dos portos mais seguros que podemos imaginar: as equações da relatividade geral de Einstein. É a constante cosmológica. É o lambda. O que quer que seja a energia escura, já sabemos como a medir e como calcular os seus efeitos sobre o passado, o presente e o futuro do Cosmos. Sem dúvida que a maior asneira de Einstein foi ter declarado que o lambda fora a sua maior asneira.1

Mar Vermelho: a foto comprova a justeza do nome.
  • Pois bem, para um grande admirador de Popper, como eu, é gratificante constatar a atualidade do génio de Einstein e do seu espantoso legado. Popper e Einstein são dois dos maiores pensadores do século XX e de toda a história da humanidade, e viam a realidade de ângulos diferentes, mas complementares. Popper estudou (sobre) as implicações filosóficas da relatividade geral de EInstein e procurou, inclusive, que a sua filosofia influenciasse a física einsteiniana nos dois breves encontros que aconteceram entre ambos nos Estados unidos. A admiração de Popper por Einstein era evidente. E tudo indica que Einstein também admirasse Popper. Pela minha parte, admiro ambos.
  • A maioria da matéria-energia não é, portanto, diretamente visível, mas apenas detetável, pois está abaixo ou acima do espetro visível, nos espetro dos infravermelhos ou ultravioletas.2 Tudo tem que ver com ondas que preenchem o espetro eletromagnético e as suas frequências (descobertas por Hertz), no fundo, com tudo o que vibre, incluindo o som. Quem fala em frequência pode falar igualmente em comprimento de onda, uma vez que são interdependentes, ou seja, para a mesma velocidade, se aumentarmos a frequência diminui o comprimento e vice-versa. A fórmula é simples: velocidade = comprimento x frequência.
  • Só no século XIX, muito depois dos primeiros telescópios, é que se começaram a construir equipamentos para detetar a luz invisível ao olho nu. Os primeiros foram os radiotelescópios, que têm de ser muito grandes, uma vez que detetam comprimentos de onda igualmente grandes. O maior radiotelescópio do mundo foi construído na China, na província de Guizhou, e tem uma superfície superior a trinta campos de futebol. Outra classe de radiotelescópios são os interferómetros, constituídos por conjuntos idênticos de antenas de prato ligados eletronicamente, cobrindo grandes áreas. O que tem a resolução mais elevada estende-se por oito mil quilómetros, entre o Havai e as Ilhas Virgens, com antenas de 25 metros. Chama-se Very Long Baseline Array.

Por seu turno, na banda das microondas temos on ALMA (Atacama Large Millimeter Array), com 66 antenas, instalado nas montanhas dos Andes, no norte do Chile. Já na outra onda do espetro eletromagnético, temos as ondas ultracurtas e de alta frequência dos raios gama, medidas por picómetros. Estes são instrumentos sofisticadíssimos de um metro de comprimento. Assim, hoje me dia há telescópios (nome genérico dado a todos estes aparelhos) de todos os tipos, que nos permitem detetar os comprimentos e frequência de ondas que cobrem todo o espetro eletromgnético. Uns estão localizados na Terra, mas a maioria no espaço, permitindo aos astrofísicos explorar o Universo.

  • Entretanto, enquanto decorria esta incursão pela Astrofísica, fomos nos deslocando para Sul. Descemos rapidamente pelo golfo de Aqaba, mas demorámos dois dias a percorrer o Mar Vermelho. Que mar curioso, estreito e comprido. Não fui pesquisar, mas palpita-me que tenha bem mais de mil quilómetros de comprimento. As águas estão calmíssimas e a temperatura do ar é cálida à noite e inclemente durante o dia. No entanto, é nesta zona de calmaria que atuam grupos de piratas, sobretudo somalis. Há precauções que foram tomadas no nosso navio. Alertas azul, amarelo e vermelho. Pessoal de segurança especializado segue a bordo. As luzes são reduzidas à noite.
Uma noite, no Golfo de Aden, chegámos ao camarote e deparámos com este “miminho” em cima da cama…
  • Mas já saímos do Mar Vermelho e nada aconteceu. A probabilidade de algo acontecer é, aliás, muito baixa. O nosso navio não é fácil de assaltar e os piratas não são parvos. Claro que a zona de pirataria não se resume ao Mar Vermelho, é muito maior, e aqui no golfo de Aden ainda estamos dentro dela. E o mesmo quando entrarmos no Oceano Índico. A pirataria, aliás, pode ocorrer em qualquer mar do mundo, é uma daquelas práticas antigas que persistem. Mas ninguém aqui dentro parece preocupado, e nós também não.
  • Quem nunca fez um cruzeiro não faz ideia, ou faz uma ideia errada, do que se passa dentro de um navio Para começar, dentro de um navio de cruzeiro coexistem pessoas de múltiplas nacionalidades. Isso é a primeira coisa boa. Conviver com gente de diferentes raças e culturas torna-nos mais abertos e tolerantes. Depois, é preciso perceber que há sempre coisas a acontecerem no navio que, tal como uma cidade famosa, nunca dorme. Há sempre alguém da tripulação, a todo o momento, a trabalhar para nós, passageiros. A nossa vida a bordo está, por isso, muito facilitada. Na nossa cabina, a cama é grande, o colchão confortável; os lençóis são de algodão de excelente qualidade; as toalhas de banho são trocadas todos os dias; a cabina é limpa, aspirada e arrumada duas vezes por dia, de manhã e à noite. Quanto à comida a bordo, bom, é difícil até falar. O buffet está aberto 20 horas por dia, só encerra entre as 2 e as 6 am. Os horários das refeições são alargados, há sempre algo para comer. Quem quiser comida menos saudável — como cachorros, pizzas, hamburgueres, batatas fritas e uma panóplia enorme de doces — tem tudo isso disponível; e quem quiser algo mais saudável — como todo o tipo de saladas, frutas, ovos de todas as formas e feitios, sopas diferentes a cada 12 horas, arroz integral, leguminosas, etc — também o encontra em abundância. E todos os tipos de pastas, charcutaria, queijos, carnes e peixes. Uma fartura. Come o que quiser, quando quiser, e já está tudo pago à partida. Tem ainda direito a café e chás e, se comprar o cruzeiro nos Estados Unidos (ou através de uma agência online sediada nos Estados Unidos, como foi o nosso caso), tem direito também a água engarrafada, sem pagar mais nada por isso. Apenas se pagam bebidas alcoólicas, refrigerantes e outras bebidas que não água.

Em geral todos os navios de cruzeiro têm vários restaurantes,3 havendo lugar marcado num deles para o jantar, e o passageiro opta por tomar a sua refeição no restaurante ou no buffet. Estão também disponíveis vários bares, alguns temáticos, a maioria com música ao vivo, onde se pode “beber um copo”, dançar, participar em eventos organizados pela equipa de animação, etc. Há espaços dedicados aos adolescentes — salão de jogos, salas de convívio, discotecas — e às crianças, havendo a possibilidade dos pais a deixarem ao cuidado da equipa especializada para o efeito durante várias horas por dia. Há piscinas e jacuzzis (embora não sejam a nossa praia). Há o ginásio, modernamente equipado, spa, salão de massagens, sauna, cabeleireiro, etc, etc. Há boutiques de roupa e lojas onde se podem comprar óculos, relógios, perfumes, jóias, entre vários outros produtos. Há atividades diversas para se participar todos os dias, algumas bem interessantes. Todos os dias há dois espetáculos no Teatro — uma enorme sala com capacidade para muitas centenas de pessoas — com equipas residentes ou artistas convidados. Nós também não sabíamos, nem sequer imaginávamos: alguns destes espetáculos são de grande qualidade, mesmo! Tudo é realizado com extremo profissionalismo. É verdade que nem todos os cruzeiros são propriamente espetaculares, mas se se souber escolher,4 uma viagem de cruzeiro pode ser uma experiência fantástica.

… e, claro, aproveitámo-lo com boa vontade e bastante prazer.
  • Fim da manhã e eis que uma voz anuncia em várias línguas: ” Bom dia senhores passageiros, vamos dar-lhes algumas informações sobre as condições de navegação. Hoje é o dia 28 de outubro de 2019 e são, neste momento e neste local, 11 horas e 35 minutos. O céu está limpo e a temperatura do ar é de 31 graus celsius, a mesma da água do mar que neste local tem cerca de 500 metros de profundidade. A humidade é de 71% e a pressão atmosférica de 1012 milibares. As ondas são de Leste com força 3 e o vento de força 4. Navegamos a uma velocidade de 19 nós e estamos a 647 milhas de Salalah”.

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  • Hoje faz anos a minha filha, Rita, e não posso dar-lhe os parabéns. Espero fazê-lo amanhã em Salalah. E hoje, também, acordámos com um mar cavado, de ondas largas — o equivalente às ondas de rádio no espetro eletromagnético. Descobrimos um espaço no último deck (superior) do navio, à popa, que funciona como discoteca à noite, mas que durante o dia tem muitos lugares disponíveis onde podemos sentar-nos, colocar as pernas em cima das mesas baixas, ler e apreciar o mar. E hoje vou começar a ler um novo livro, de um autor igualmente novo para mim, mas de quem a Fla gosta muito, Andrew Solomon. O título em português deste livro é Longe da Árvore. Vamos a isso.
  • O funcionário mais simpático do MSC Orchestra é do Zimbabwé, tem 28 anos e chama-se Jabulani (palavra que, segundo o próprio, quer dizer “felicidade”).
  • Ainda o navio não tinha acostado a Salalah e já tínhamos observado uma coisa: o seu porto é moderno e movimentado, plenamente marítimo, pelo que deve ser de águas profundas. Foram levadas a cabo intervenções de relevo e outras estão em curso, como se pode ver pela imensa maquinaria em laboração. Um enorme quebra-mar foi construído, permitindo a estabilização dos navios. O terminal de contentores é bastante grande — um retângulo comprido perpendicular ao mar, construído de raíz, o que permite a acostagem de navios de um lado e do outro. Quando chegámos estavam três grandes navios carregados de contentores neste cais, mas reparámos que havia, pelo menos, espaço para outros três. Havia também um terminal de granéis com navios a laborar. Noutro cais estava um navio de cruzeiros da Aida Cruises, mas podiam estar dois ou três. O porto faz um grande círculo com uma única saída e está a ser objeto de obras de vulto no seu interior. Esta é outra vantagem de andar de navio — podemos perceber o que se passa num porto. E, uma vez que mais de 80% do comércio mundial se faz por via marítima, isso permite-nos ter uma ideia do que se passa numa dada região (o hinterland do porto), se tivermos olhos suficientemente experimentados. Uma vez que já estivemos na capital de Omã, Muscate, e no porto vizinho de Muttrah, podemos dizer, sem grande margem de erro, que o grande porto de entrada de mercadorias é Salalah, o qual fica fora da cidade, uns 10 quilómetros para Oeste.
Pormenor de Salalah, Omã.

Sobre a cidade propriamente dita não haverá muito a dizer. Prevalece a cor creme dos edifícios sem telhado, calor abrasador (um paquistanês do Punjab disse-nos que Agosto é o melhor mês, quando chove e fica tudo verde), muito comércio no Centro e as omnipresentes mesquitas. À semelhança dos Emirados Árabes ou do Qatar, também em Omã o mais interessante para ver fica fora das cidades.

  • Dr. Steven Kopits, do hospital Johns Hopkins. Quero ver o rosto dele, preciso ver o rosto dele. E gostava também de conhecer o rosto de Betty Adelson. As redes sociais, tantas vezes diabolizadas (quase sempre com razão), são uma ajuda tremenda para pessoas que se afastam dos padrões comuns, com identidade horizontal. Tudo isto vem a propósito do livro que comecei a ler — Longe da Árvore — e será retomada mais à frente.
  • Hoje é 31 de outubro e vai haver, logo à noite, a festa do Halloween. Vamos a caminho de Malé, numa rota sudeste e, pela primeira vez, apanhámos um mar ligeiramente picado. (Os termos que uso aqui para caracterizar o estado do mar são meus e só em alguns casos coincidirão com os termos técnicos). Lá fora está vento, mas nós estamos confortavelmente instalados no local do costume, no último deck do navio, desfrutando de uma vista invejável sobre o mar. As ondas e o vento vêm de sudoeste.

Antes que me esqueça, quero registar algo, ainda a propósito do livro que estou a ler, Longe da Árvore. Sou daqueles que acham que o mundo está melhor e que nunca existiu uma sociedade tão justa quanto a nossa, apesar dos inúmeros problemas. (É claro que me refiro às sociedades democráticas do tipo “ocidental”). Dada a longevidade (considerável, em muitos casos) das democracias, pode parecer que já quase tudo foi alcançado e que nos últimos anos praticamente não se avançou. Ora, isto não é verdade, bem pelo contrário, e Longe da Árvore comprova-o. A integração de crianças com deficiências na sociedade, bem como a denúncia de instituições onde muitas dessas crianças eram simplesmente despejadas e maltratadas, tem sido muitíssimo maior nos últimos anos. Este é um dado incontornável que, só por si, mostra como, para uma parte significativa da humanidade, o mundo está muito melhor.

  • A palavra “deficiência” quer apenas dizer que não se é eficiente.
  • O behaviorismo — ao colocar um ênfase extremo na educação — ajudou à integração das crianças deficientes, em oposição ao eugenismo.
  • Relativamente ao autismo, há uma luta feroz entre os defensores da neurodiversidade e os que são antivacinas.
  • Jae Davis. Kit Armstrong.
Malé, Maldivas.
  • A República das Maldivas é um arquipélago constituído por 1190 pequenas ilhas, agrupadas em 28 atóis naturais. Destas ilhas, duzentas são permanentemente habitadas, e apenas umas poucas têm um comprimento superior a dois quilómetros. O território atinge quase 750 kms de norte a sul e cobre uma área total de cerca de 90.000 kms2 . As grandes massas de terra mais próximas são a Índia, a 480 kms e o Sri Lanka, a 650 kms. As Maldivas já eram habitadas quando, no século XVI, foram governadas pelos portugueses, a partir de Goa. Em 1752, houve um período de influência “malabari” (muçulmanos vindos da Índia) de apenas três meses. E em 1887 as Maldivas tornaram-se um Protetorado Britânico. No entanto, durante este período, não se registou presença britânica em Malé e o governo das Maldivas pelos seus sultões continuou até ao final de 1952. A primeira república foi implantada em 1 de janeiro de 1953. Esta administração, no entanto, teve vida curta e o sultanato regressou em 1954, acabando por ser abolido em 1968 com a formação da segunda república. A independência face aos britânicos ocorrera entretanto em 1965. Embora sem qualquer subordinação constitucional à rainha, as Maldivas tornaram-se membro da Commonwealth em 1984.5

O que impressiona quando se chega a Malé e se entra em contacto com a população local — um dos aglomerados mais concentrados do mundo, com 400.000 habitantes — é a sua consistência cultural. A população é 100% muçulmana; não se encontra uma bebida alcoólica em nenhum restaurante (embora nos tivessem dito que se arranja álcool e outras substâncias clandestinamente); mulheres, homens e crianças tomam banho de mar com o corpo coberto, mesmo aos estrangeiros não é permitido tomar banho em biquini ou em tronco nu, em Malé. Claro que nos resorts espalhados pelas outras ilhas os estrangeiros podem banhar-se como fazem nos seus países, caso contrário os maldivianos perderiam as indispensáveis receitas do turismo.

Apesar da rigidez cultural, imposta pela religião, os habitantes são, em geral, extremamente simpáticos e solícitos. Alguns falam inglês, mas a maioria não. Visitámos os mercados de peixe e de fruta, bem como toda uma secção de peixes secos, conservados em sal, dispostos em prateleiras como se fossem tábuas de madeira. Há uma abundância enorme de um tipo de atum, pequeno, que pode ser vendido inteiro ou em filé, depois de lhe retirarem a pele, a cabeça e a espinha central com uma destreza impressionante, em segundos.

Com Jabulani, na pequena lancha que nos transportou de Malé para o MSC Orchestra.

As mulheres andam cobertas da cabeça aos pés sob o intenso calor. A cultura cria uma barreira entre a natureza e as pessoas. Mas ninguém parece incomodar-se com isso. São os estrangeiros (e, bom, claro, alguns habitantes locais privilegiados) que vêm desfrutar destas águas maravilhosas, límpidas e cálidas,6 das areias finíssimas, dos passeios marítimos e aéreos. As Maldivas são, de facto, um dos paraísos terrestres e, a avaliar pelo movimento dos aviões no aeroporto de Malé, há muitas pessoas a descobri-lo, incluindo chineses, com o seu faro natural e o seu capital financeiro. A novíssima ponte — inaugurada há um ano — construída entre a ilha de Hulhumale, onde fica o aeroporto internacional, e a capital Malé, foi financiada pelos chineses: 50% a fundo perdido e 50% para amortizar em suaves prestações anuais.

  • Oceano Índico. Há vários dias que navegamos nestas águas tão familiares aos portugueses seiscentistas. Ao que parece, eles foram os primeiros europeus a definir rotas e a assentar praças no Índico. Os adversários mais temíveis, no que toca ao domínio comercial da região, eram os árabes.
  • À meia-noite, entre 4 e 5 de novembro, cruzámos a linha do Equador e já estamos no Hemisfério Sul. Temos visto muitos peixes voadores pelo caminho. E terminei o livro que comecei a ler há seis dias, Longe da Árvore (mais de mil páginas). O título remete para um provérbio alemão que diz “a maçã nunca cai longe da árvore”, o que quer dizer que os filhos nunca se afastam muito do que são os pais. Esta ligação entre pais e filhos transmite aos últimos a chamada “identidade vertical”, embora haja casos excecionais em que prevalece a identidade de grupo, a chamada “identidade horizontal” — longe da árvore, portanto.

Claro que nada disto é a preto e branco, e algumas vezes as duas identidades podem coincidir; por outro lado, todas as identidades são diferentes (como o próprio conceito indica, obviamente), pois dependem de múltiplos fatores, também diferentes. Andrew Solomon estudou dez grupos, que destacou em cada um dos dez capítulos do livro: surdos, anões, síndrome de Down, deficiências, autismo, esquizofrenia, prodígios, violação, crime, transgéneros — aos quais acrescentou um primeiro capítulo sobre “Filhos” e um último intitulado “Pais”.

Baía de Beau Vallon, em Mahé, Seychelles.

Eu diria que há três dimensões, interligadas, neste livro: informativa, formativa e ética. A primeira faz, digamos assim, um ponto da situação sobre os desenvolvimentos que ocorrem dentro de cada grupo — o antes, o agora e o que se pode esperar no futuro — ilustrados com casos reais (centenas deles) que Solomon pesquisou, às vezes in loco, durante mais de uma década. A segunda mostra-nos como, mesmo em casos em que os próprios pais, à partida, pensam não suportar (sobretudo deficiências graves, autismo, esquizofrenia, violação e crime), o amor quase sempre acaba por vencer, através da aceitação da pessoa (filho ou filha) tal como ela é. A terceira coloca a questão dos limites. Passou-se rapidamente, e ainda bem, de uma época em que muitas destas pessoas excecionais eram descartadas pela sociedade (colocadas em instituições ou mesmo mortas), há uns meros trinta anos, para a época atual, em que as crianças que nascem com futuras identidades horizontais, veem reconhecido o seu direito a uma vida digna por parte do Estado e das famílias, perspetivando-se já um futuro em que os filhos poderão ter características de alguns destes grupos, escolhidas pelos pais. Surdos podem querer ter filhos surdos, anões podem querer ter filhos anões, rejeitando qualquer tipo de tratamento.

Alguns destes grupos constituem-se já como subculturas, como é o caso das comunidades surdas e gay, por exemplo, e o mesmo pode acontecer com portadores do síndrome de Down e outros, cujos pais, por razões diversas, não consideram que os seus filhos tenham qualquer patologia. Daí não estarem interessados numa cura, assumindo para os filhos uma identidade própria, que em nome da diversidade, se deve perpetuar. Até que ponto isto é legítimo e saudável constitui apenas uma questão entre muitas controversas que os desenvolvimentos científicos, técnicos e sociais vieram colocar na ordem do dia. No último capítulo, “Pais”, Solomon aborda a sua própria experiência enquanto progenitor, descrevendo o seu trajeto de pai homossexual, mostrando-nos o quanto o exemplo de tantos outros pais, que aceitaram as identidades horizontais dos filhos, foi importante para ele, inspirando-o e mostrando-lhe que só há um caminho justo, entre a rejeição e a idolatria — a via do amor.

A mais badalada praia de Mahé — Beau Vallon.
  • Seychelles. Só o nome já faz sonhar. As diferenças com as Maldivas são significativas, mesmo que as magníficas águas sejam semelhantes. Enquanto as Maldivas são constituídas por muitas ilhas pequenas, as Seychelles são constituídas por quatro ilhas grandes — Mahé, La Digue, Silhouette e Traslin — e umas cem ilhas pequenas; enquanto as Maldivas são planas (e correm um risco enorme de inundação se as águas do mar subirem devido ao aquecimento global), as Seychelles são montanhosas, com vegetação densa; enquanto as Maldivas são 100% muçulmanas, as Seychelles têm diversidade religiosa; enquanto nas Maldivas muitas pessoas não falavam inglês, nas Seychelles toda a gente fala inglês, além do crioulo. Tudo faz muita diferença em desfavor das Maldivas.

Estivemos dois dias nas Seychelles e a nossa estadia resumiu-se à ilha principal, Mahé, onde se situa a capital, Port Victoria. Alugámos um carro e percorremos toda a ilha. No primeiro dia fomos para Norte, até à praia mais famosa (e, provavelmente a maior) de Mahé, Beau Vallon, muito frequentada por turistas. Às quartas-feiras ocorre aqui uma feira, com música, comidas e bebidas locais e venda de artesanato. Depois do pôr do sol, que observámos de uma praia vizinha, junto a uma aldeia de pescadores, regressámos pela mesma estrada a Port Victoria. As estradas nas Seychelles são estreitas e algumas particularmente perigosas, com curvas apertadas, sem proteção e sem bermas. Acresce que os condutores, sobretudo dos autocarros, também não ajudam. Não estando habituados a estas condições e sendo a primeira vez que conduzíamos com o volante à direita, tivemos alguma dificuldade em adaptar-nos e passámos por alguns calafrios.

No segundo dia em Mahé acordámos às cinco da manhã e apanhámos a estrada que sai de Port Victoria para a costa oeste da ilha, atravessando o maciço central. No topo há um lugar onde se encontram as ruínas de uma antiga missão, chamada Venn’s Town,7 e um lindo miradouro, onde a rainha Isabel II esteve a tomar chá e a apreciar as vistas, em 1972. Depois, percorremos toda a costa oeste, de norte para sul, parando em algumas praias. Já na metade sul da ilha, fizemos um desvio, saindo da estrada principal para visitarmos mais uma praia. Seguimos a indicação da placa que anuncia “Anse du Soleil”. A partir de um certo ponto a descida para a praia é íngreme, mas pode levar-se o carro até lá ao fundo. O estacionamento é que é extremamente reduzido, pelo que, na maioria das vezes o carro terá que ficar um pouco longe da praia. Nós fomos os primeiros a chegar, por isso não tivemos esse problema. Ficámos encantados com a Anse Soleil. A praia é muito bonita, a areia muito branca e fina, o mar transparente. Banhámo-nos, tiramos fotos, e concordámos em como aquela era uma das praias mais belas em que já tínhamos estado.8

Anse Louis, na costa oeste da ilha de Mahé.

Voltámos à estrada, circundando a ilha, até atingirmos a costa leste, menos recortada e mais batida, com algumas boas praias para os surfistas. Seguimos pela estrada paralela ao aeroporto e, pouco depois, estávamos em Port Victoria. Tivemos tempo para entregar o carro e ainda dar uma volta a pé pela cidade. Aqui, os artigos para turistas são caros. A t-shirt mais barata que encontrámos custava o equivalente a 27 euros; um pequeno livro sobre a História da Seychelles, 30 euros. Enfim, nada de surpreendente. Falámos um pouco com um habitante local que conduz pessoas em passeios às outras ilhas e nos forneceu algumas informações interessantes. Perguntámos-lhe se ele sabia quem, antes dos conhecidos períodos francês e britânico, tinha passado pelas ilhas, e ele respondeu: “piratas”. E os portugueses não passaram por aqui? “Sim, sim, o Vasco da Gama também passou por cá mas os portugueses nunca se estabeleceram aqui.”

Estávamos no fim da época das chuvas, que dura até dezembro, e quando o nosso navio largou de Port Victoria, às seis da tarde, não pudemos tirar as fotos da cidade que havíamos planeado fazer ao pôr do sol, como despedida. O poente estava carregado de nuvens escuras. Esse brusco cerrar de pano aliviou de alguma forma a nossa nostalgia.

  • Primeiro dia no mar, depois das Seychelles. Acordámos com o mar agitado, picado, e um vento de frente para o navio bastante forte. A tripulação distribuiu sacos para o enjoo. A nossa rota é agora sudeste, em direção às Maurícias. E eu vou começar a ler o meu terceiro livro de viagem,9 uma releitura de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Machado é um dos meus dois escritores brasileiros favoritos, em parceria com o grande João Guimarães Rosa.

Hoje é sexta-feira, 8 de novembro de 2019.

  • Ainda antes de chegar às Maurícias, em dois dias, portanto, acabei de ler o Dom Casmurro. Será que Machado não esclareceu em vida o que pretendeu mostrar-nos através dos ciúmes de Bentinho? Ou preferiu adensar o mistério? Talvez nem uma coisa nem outra. A mim parece-me evidente que ele quis mostrar como uma mente perturbada pode criar uma realidade paralela. E fá-lo magistralmente, de acordo com o extraordinário escritor que é.
Parque Chamarel, Maurícia.

Ficámos dois dias na ilha principal das Maurícias, uma ilha com 1865 km2 e 330 kms de linha costeira, desabitada até 1505, quando aqui chegaram os portugueses. Alugámos um carro, continuámos a conduzir pela esquerda e, em ambos os dias que aqui estivemos, viajámos para Sul. No primeiro, fomos até à praia Flic en Flac, ao Parque Chamarel e terminámos na magnífica praia Le Morne, no sopé do Monte Brabant, Património Mundial pela UNESCO.

No segundo dia fomos até à cratera do extinto vulcão Trou aux Cerfs, de onde se avista praticamente toda a ilha, ao Grand Bassin e às Rochester Falls. Depois de entregarmos o carro, tivemos tempo ainda para passear pela capital, Port Louis. De tudo isto, do que é que gostamos mais? Da praia Le Morne10, sem dúvida. O pôr do sol, ali, foi magnífico.

Pareceu-nos interessante a diversidade cultural da Maurícia, com praticantes de várias religiões a conviverem pacificamente. Quando aqui estivemos, tinham ocorrido há poucos dias eleições legislativas. Uma senhora de uma banca de jornais e um cliente informaram-nos que o rosto que aparecia na capa de todos os jornais era o do primeiro-ministro, reeleito para um segundo mandato. Perguntámos se o partido dele é de esquerda ou de direita e informaram-nos que nas Maurícias só há dois partidos, o do governo e o da oposição, e que nenhum é de esquerda ou de direita. Então são partidos étnicos ou religiosos? Garantiram-nos que “não”. Ficamos sem perceber como se formaram os principais partidos desta república parlamentar e com vontade de esclarecer esta questão.

  • A dimensão das ilhas que visitamos vem sempre aumentando ao longo da nossa viagem, reparámos agora. Malé, Mahé, Maurícia e Reunião, aonde chegámos hoje. Considerando a posição geográfica, Malé e Mahé estão à mesma distância do Equador, embora a primeira no Hemisfério Norte e a segunda no Hemisfério Sul. Não resistimos à tentação de fazer uma comparação entre ambas. Pois agora o mesmo acontece em relação às Maurícias e à ilha francesa de Reunião.11
No topo do Maïdo. Ao fundo, a costa ocidental de Reunião e as melhores praias da ilha. (Foto de Fla)

Nesta ilha de dimensão considerável, altas montanhas (a mais alta acima dos 3 mil metros) e vulcões ativos, estivemos apenas dez horas, oito das quais com um carro alugado. Como seria de esperar, dado estarmos numa região de França, o ordenamento do território alterou-se significativamente: melhores estradas, melhores edifícios, melhor sinalização, mais riqueza evidente. Depois, a ilha é de uma beleza natural deslumbrante. Pudemos verificar isso do topo do Maïdo — integrado no Parque Nacional de Reunião, Património Mundial pela UNESCO — a 2100 metros de altitude, observando para leste os “três circos” (assim denominados, suponho, devido à sua forma) — Mafate, Salazie e Cilaos — e, do lado oeste, lá bem no fundo, uma porção enorme de costa, orlada por um risco branco — as ondas a baterem no recife de coral — deixando as praias protegidas da rebentação. (Por cima das praias viam-se algumas nuvens brancas, esparsas, bem abaixo de nós).

Foi numa dessas praias, Saline-les-Bains,12 que nos banhámos depois de descermos do Maïdo, por estradas secundárias e sinuosas, via Trois Bassins, fazendo um pequeno desvio para encontrarmos um caminho de tamarindos que a Fla queria ver. A praia, uma das mais badaladas da ilha, é, de facto, belíssima, com a água incrivelmente transparente e de temperatura excelente. A poucos metros da linha de água, ao longo da praia, árvores altas, que não são coqueiros, fornecem sombra refrescante, natural e gratuita. Não soubemos identificá-las. A parte mais profunda das suas raízes está cravada na areia mas a parte superior está a descoberto, provavelmente pela erosão provocada pelo vento, e serve para acomodar os pertences dos banhistas.

Depois da praia passámos por Saint Paul e fomos aos Egrets Les Bassin, onde très cascatas. Tivemos tempo de ver apenas uma.13 A água no lago onde a cascata cai é limpíssima e convida a um banho, mas, mais uma vez, não tivemos tempo. Quando entregámos o carro em La Possession, onde acostou o navio, a Fla reparou que tínhamos feito 150 quilómetros exatos. Apesar do tempo escasso, estávamos muito satisfeitos com a nossa experiência, e um pouco cansados. Tudo o que vimos superou as expectativas e podemos dizer que, se tivéssemos de escolher entre Maurícia e Reunião, a nossa escolha recaíria, sem hesitação, pela última. Reunião deve ser um local fantástico para se viver.

Os portugueses, ao que parece, foram os primeiros europeus a encontrar estas ilhas. À ilha de Reunião — atualmente um dos mais remotos territórios da União Europeia — deram-lhe o nome de Santa Apolónia, mas não a povoaram. Aproveitaram os franceses, que tomaram posse da ilha em 1642. Hoje é mais um départment francês.

A magnífica praia de Salines-les-Bains.
  • Como já referimos, conhecemos um rapaz no navio, um empregado de mesa, chamado Jabulani Gwamuri. Tem 28 anos, é do Zimbabwé e é muito simpático. Ele adora ir a terra “apanhar ar” e procura sempre turnos de trabalho que lho permitam, mesmo que para isso tenha de trabalhar mais horas. Vimo-lo em Malé e também na Maurícia. Foi aqui que nos anunciou que “hoje à noite” (“hoje” é o dia em que o navio esteve em Reunião) haveria um espetáculo no Teatro em que os protagonistas seriam membros da tripulação, e que ele iria atuar. Prometemos-lhe que iríamos assistir e assim o fizemos. Levámos a câmara fotográfica para registarmos a atuação de Jabulani e fazermos-lhe uma surpresa. Quando chegámos procurámos um lugar apropriado, na segunda fila da plateia, e acabámos também por fotografar a atuação de outros “artistas”. Levei a minha lente 1:8 de 50 mm (eu sei que não é nenhum suprassumo, mas faz-se o que se pode), e as fotos ficaram, realmente, muito boas.

O Teatro encheu e o espetáculo acabou por ser surpreendente, com quatro ou cinco cantores e cantoras a destacarem-se pela excelência das interpretações. Jabulani foi o quinto ou sexto a entrar em palco, interpretou uma canção hip-hop e, apesar de nervoso, não desiludiu. Não conseguimos referir-nos a todos, mas, como dissemos, houve excelentes interpretações. Lembramo-nos de um rapaz do Camboja e outro da Indonésia que estiveram muito bem.

Até que entrou em palco um marinheiro, condutor de lanchas, corpulento, mais largo que o Pavarotti mas com menos barriga, que começou a interpretar New York, New York. Infelizmente, logo na segunda frase, esqueceu-se da letra. A música continuou enquanto ele passava a mão pelo rosto, procurando desesperadamente lembrar-se das palavras; baixou a cabeça e voltou as costas ao público, curvado, envergonhado. Depois, enquanto grande parte do público cantava em vez dele, incentivando-o, e a música continuava, olhou para a entrada dos bastidores e abriu os braços, desesperado, implorando socorro. Foi quando um colega que já tinha atuado entrou em palco e começou a cantar, conseguindo que o nosso “Pavarotti” retomasse, quase no final, a canção, terminando-a com o público, carinhoso, a aplaudi-lo fortemente. Ainda isto acontecia e eis que se ouvem os primeiros acordes de Nessun Dorma. O condutor de lanchas encetou a interpretação com uma belíssima voz de tenor e arrancou aplausos entusiásticos do público, que continuava a animá-lo; a meio da atuação notámos que se enganou na letra e teve uma ligeiríssima hesitação, mas conseguiu superar rapidamente e seguir em frente; depois, já na parte final, arrancou da caixa torácica um vozeirão incrível, arrebatador, que fez todo o teatro erguer-se em apoteose. Ouviam-se gritos enquanto toda a gente aplaudia, de pé; e o gigante Pavarotti parecia um menino.

Muito simpática e bonita, Nomonde Mdalose é dona de uma voz fabulosa. Que encontre em breve o palco que o seu talento merece – o mundo!

A penúltima atuação foi de uma jovem sul-africana que trabalhava no balcão da Receção do navio, com uma voz incrível. Como, logo desde o início, percebemos que a sua atuação era extraordinária, desatámos a fotografá-la. Tudo se conjugou para que as fotos ficassem belíssimas — os movimentos, a roupa, a expressão — e ficaram. Foi, sem dúvida, uma das melhores atuações da noite, a par da do Pavarotti. Houve ainda tempo para ver e ouvir uma excelente cantora e entertainer peruana, após o que subiram ao palco todos os intérpretes da noite para um último aplauso. Foi realmente emocionante.

  • No dia seguinte, editamos as fotos de Jabulani e da cantora sul-africana, e decidimos levá-as no computador para que ambos as vissem. Fomos à receção e Nomonde Mdalose estava lá a trabalhar. Enquanto pedíamos uma impressão da fatura das nossas despesas no navio, demos-lhe os parabéns pela atuação do dia anterior e, virando o ecrã do computador, que pousáramos em cima do balcão, para ela dissemos-lhe que tínhamos tirado umas fotos — e mostrámos-lhas em tela grande. A minha capacidade descritiva é insuficiente para transcrever em palavras a sua alegria. Disse-nos que não tinha uma única foto cantando, e agradeceu-nos muitíssimo. Entregámos-lhe um cartão SD com 18 fotos que ela depois copiou e guardou.

À noite, após o jantar, pegámos no computador e fomos procurar Jabulani. Encontrámo-lo trabalhando nos bares exteriores do deck 13 e, quando antevimos uma oportunidade, chamámo-lo e começámos a mostrar-lhe as fotos. Ficou louco. That’s me!?, perguntava, Ohohoh! Amazing! Perguntou se podia mostrar as fotos aos colegas e, perante o nosso óbvio assentimento, chamou-os. Estava visivelmente feliz e orgulhoso, e isso deixou-nos também radiantes. Quando o deixámos, ainda se desfazia em mil agradecimentos…

Começo da última noite a bordo. O final de um cruzeiro memorável.

Ficámos muito contentes por termos proporcionado estes momentos de felicidade a estas pessoas. A apresentadora do espetáculo de ontem — uma jovem poliglota que está à frente do departamento de excursões — referiu, antes de chamar todos ao palco para a ovação final, que é preciso coragem para sair da zona de conforto e enfrentar uma audiência de milhares de pessoas; que isso é ainda mais difícil quando se está longe de casa, da família e dos amigos; e que a única coisa que compensava essa ausência era todos os que trabalhavam a bordo serem eles próprios membros de uma outra família, não menos verdadeira, porque real, a “família-tripulação”. Lembrei-me da “identidade horizontal” de Solomon. E pensei que, assim como o talento que vemos em todo o lado, e bem expresso neste espetáculo, também os sentimentos, anseios e esperanças humanos não têm nacionalidade, são universais. Um navio, com a sua diversidade identitária, tal como, em menor escala, uma grande orquestra sinfónica, mostra-nos como o ser humano é um só, independentemente do local onde nasceu ou vive.

  • E cá estamos a dois dias de navegação do destino final deste cruzeiro — Durban. Ontem e hoje choveu o tempo todo, o mar esteve agitado, o vento forte. Passámos muito perto do extremo sul de Madagáscar.
  • Último dia de navegação. De manhã passámos abaixo do canal de Moçambique, e o tempo melhorou gradualmente. Entretanto, disseram-nos que a SAA (Southern African Airways) está em greve, pelo que muitos voos foram cancelados. Embora os nossos voos não sejam através dessa companhia, estamos um pouco apreensivos, com receio de sermos afetados. Mas não adianta stressar.
No Jardim Municipal Tunduru, Maputo.
  • Quando chegámos a Durban o tempo estava nublado. Depois de uma enorme fila para o controlo de passaportes, apanhámos um shutlle para o aeroporto por 10€/pessoa. Talvez por ser sábado, não tivemos dificuldade em atravessar a cidade. O nosso cruzeiro terminara, mas ainda não a nossa viagem. Antes do regresso a casa, ainda havia Moçambique e Eswatini, que trataremos noutro artigo. Saímos de Civitavecchia no dia 19 de outubro; hoje é o dia 16 de novembro. A nossa viagem por mar durou 29 dias. Daqui a uma semana estaremos em casa.
Na estrada, em Eswatini.

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Notas:

1 “Astrofísica para Gente com Pressa”, Neil deGrasse Tyson, Gradiva, Lisboa, 2017, 1ª ed., pp. 77-81.

2 Para lá dos infravermelhos, as microondas e as ondas de rádio; e para lá dos ultravioletas, os raios-x e os raios gama.

3 Alguns com cozinheiros premiados com estrelas Michelin, como são os casos de Harald Hohlfarht, alemão, com três estrelas e Ramón Freixa, espanhol, com duas estrelas.

4 Há que ter em conta preço, navio, companhia, itinerário e vendedor.

5 Fonte: “Mysticism in the Maldives”, Ali Hussein, Novelty Printers, Malé, 1991.

6 Águas plenas de golfinhos alegres que nos dão as boas-vindas, como aconteceu aquando da chegada do nosso navio.

7 Em tributo a Henry Venn, secretário da Missão entre 1841 e 1873.

8 A Anse Soleil faz parte da nossa lista de praias mais belas do mundo (aqui).

9 Também trouxe na bagagem dois livros sobre fotografia, mas não posso dizer que os li, pois são sobretudo livros de “consulta”, não propriamente de leitura.

10 Também a Le Morne faz parte da nossa lista de praias mais belas do mundo (ver nota 8).

11 Até porque as ilhas Reunião, Maurícias e Rodrigues pertencem ao mesmo arquipélago — o Arquipélago de Mascarenhas. (Os nomes denunciam a presença portuguesa).

12 Mais uma da nossa lista (nota 8).

13 A mais bela e espetacular cascata de Reunião é a do Vale de Langevin.

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Zadar, Kotor e San Marino

Panorâmica de Zadar, uma típica cidade de veraneio na costa do Adriático, quase em frente a Pula, outra cidade costeira croata, que visitámos há quarenta anos.
Durante a nossa estada em Zadar decorreu na cidade o Festival de Atum, Sushi e Vinho. A inauguração deu-se no Palácio Cedulin, com a atuação da soprano Nela Saricem e a exposição dos trabalhos fotográficos (sobre a pesca do atum no Adriático) de Danijel Kolega, que amavelmente se deixou fotografar com Flávia.
A sinuosidade da costa faz com que a passagem do Adriático até Kotor se faça através de um autêntico lago, sem ondulação, onde é possível nadar, mergulhar, velejar, remar, entre outras atividades, na maior tranquilidade.
As montanhas que cercam todo este espaço que separa Kotor (e outras localidades vizinhas) do mar, contribuem para um cenário idílico de rara beleza, que deslumbra à primeira vista.
Em dias límpidos é possível vislumbrar-se alguns pontos na margem Leste do Adriático, a mais de cem quilómetros de distância, de onde, dizem, chegou o fundador deste pequeno Estado. Isto acontece porque San Marino fica no topo do monte Titano (de onde tirámos esta foto), sobre a cidade italiana de Rimini, cerca de 750 metros acima do nível do mar.
A praça da Liberdade, na Cittá. Surpreendentemente, San Marino conseguiu manter a independência ao longo de milhares de anos, sendo considerado o Estado nacional mais antigo do mundo. O centro histórico de San Marino e o Monte Titano foram inscritos como Património Mundial da UNESCO “graças ao seu testemunho de continuidade de uma república livre desde a Idade Média”.

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Macau

O colégio da Madre de Deus e a igreja da Assunção de Nossa Senhora (anexa), em Macau, foram abandonados pelos jesuítas no século XVIII, após a ilegalização da Companhia de Jesus, sob forte influência do Marquês de Pombal. Em 1835, um violento incêndio deixou apenas de pé a bela fachada (“fachada retábulo”, de acordo com o gosto europeu da época) daquela que foi, em tempos, uma das maiores igrejas do Extremo Oriente. Do colégio, um importante refúgio para os jesuítas fugidos da perseguição japonesa, quase nada sobreviveu. Eis as “Ruínas de São Paulo”.
A designação (“Ruínas de São Paulo”) ficou a dever-se ao hábito que as pessoas adquiriram de chamar ao conjunto (colégio e igreja) Colégio de São Paulo porque era conhecida a particular devoção dos padres jesuítas por este santo. O nome manteve-se até hoje. Na colina adjacente, de onde tirámos esta foto, encontra-se a Fortaleza do Monte, construída no século XVII, dentro da qual foi criado recentemente o Museu de Macau. Este conjunto constitui o núcleo histórico classificado pela UNESCO, desde 15 de julho de 2005, como Património Mundial, e é a maior atração turística do território.
Apesar da presença portuguesa ser bem visível por aqui, quase não se ouve falar português em Macau. Apenas entre a pequena comunidade lusa (os números oficiais são contraditórios, mas no local disseram-nos que os portugueses são cerca de 30 mil) ou quando lemos em voz alta os nomes das ruas, alguns, de resto, bastante curiosos e interessantes. Não é crível que um viajante luso possa ficar indiferente, tão longe de casa, ao Pátio da Eterna Felicidade.
Nem pode o viajante ficar indiferente perante a Misericórdia de Macau, uma das mais antigas do mundo, com mais de 450 anos, ainda em atividade. A fachada principal está virada para o Largo do Senado (só acessível a quem circule a pé sobre a calçada portuguesa), no qual se encontra um belo fontanário circular. O edifício está incluído no Conjunto dos Monumentos Históricos de Macau, Património Mundial da UNESCO, desde 2005.
Não admira, porém, que a Misericórdia se mantenha em atividade. Macau é pobre e isso é visível a olho nu. Essa pobreza contrasta com o imenso dinheiro que circula pelos vários casinos do território. “El Chapo”, um conhecido traficante mexicano recentemente condenado a prisão perpétua, gostava de ir (no seu jacto privado) jogar a Macau e, a avaliar pela ligação que os chineses têm ao jogo, o futuro dos casinos parece longamente assegurado.

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Comportamento

Robert Sapolsky.

O que nos induz a um determinado comportamento, sobretudo em situações-limite, como a de “matar ou morrer”? Aquilo que fazemos num momento, por exemplo, apertar um gatilho, tem causas complexas que remontam de frações de segundo a milhares de anos. As causas imediatas são as que se relacionam com a anatomia cerebral de cada indivíduo e as mais remotas prendem-se com a forma como evoluímos enquanto espécie. Pelo meio temos as hormonas, o ambiente na infância (sobretudo) e ao longo da vida, a cultura em que estamos inseridos. Tudo depende do contexto. Temos predisposição genética e ambiental para agir de determinado modo, mas é em última análise o contexto (o momento), que inclui todas as varáveis citadas acima e outras, que potencia ou não essa forma de agir.

O livre-arbítrio é algo muito difícil de conceber dado que todos somos condicionados pelo contexto, sempre. De acordo com a perspetiva de Sapolsky, é provável que daqui a quinhentos anos os nossos descendentes achem as condenações que fazemos de certos comportamentos tão estúpidas quanto nós achamos hoje as que se faziam há quinhentos anos; por exemplo, de pessoas com epilepsia que se dizia estarem possuídas pelo demónio. Ou seja, é possível, e até previsível, que no futuro as pessoas não sejam consideradas culpadas por comportamentos que agora consideramos repulsivos, monstruosos ou repugnantes. Esse desafio já se coloca hoje nos sistemas judiciais mais evoluídos.

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A nossa edição:

Robert M. Sapolsky, Comportamento, Temas e Debates, Círculo de Leitores, Lisboa, 1ª edição, 2018.

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Autor da foto: L.A. Cicero, em
https://news.stanford.edu/2017/05/08/biologist-robert-sapolsky-takes-human-behavior-free-will/

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A Teoria da Mais-Valia, de Marx, descrita por Popper.

A teoria do valor de Marx, normalmente considerada por marxistas e antimarxistas como uma pedra angular do credo marxista, é, em minha opinião, uma das suas partes bastante irrelevantes; na verdade, a única razão porque a vou abordar, em vez de passar imediatamente à secção seguinte, reside no facto de ser geralmente considerada importante e de eu não poder defender as razões da minha divergência em relação a essa opinião sem discutir a teoria. Desejo, porém, tornar desde já claro que, ao sustentar que a teoria do valor constitui uma parte redundante do marxismo, mais do que atacar Marx, estou a defendê-lo. Não restam dúvidas de que as inúmeras críticas que mostraram ser a teoria do valor muito deficiente em si mesma estão perfeitamente certas, no essencial. Mas, mesmo que estivessem erradas, a posição do marxismo só seria reforçada se se pudesse demonstrar que as suas decisivas doutrinas histórico-políticas podem ser desenvolvidas com inteira independência dessa teoria tão controversa.

A ideia da chamada teoria do valor-trabalho, adaptada por Marx para os seus fins, a partir de sugestões que encontrou nos seus predecessores (remete especialmente para Adam Smith e David Ricardo), é bastante simples. Se precisarmos de um carpinteiro, temos de lhe pagar à hora. Se lhe perguntarmos porque é que determinada obra é mais cara do que outra, ele indicará que implica mais trabalho. Para além do trabalho, teremos naturalmente de pagar a madeira. Mas se examinarmos a questão mais a fundo, veremos que estamos a pagar, indiretamente, o trabalho incluído no florestamento, derrubamento, transporte, serração, etc. Esta observação sugere a teoria geral de que temos de pagar uma obra, ou qualquer produto que possamos comprar, numa proporção aproximada do montante de trabalho nele contido, isto é, do número de horas de trabalho necessárias à sua produção.

Digo “aproximada” porque os preços reais flutuam. Mas há, ou pelo menos parece haver, sempre algo de mais estável por trás desses preços, uma espécie de preço médio em torno do qual os preços efetivos oscilam, chamado “valor de troca” ou, em suma, o valor da coisa. Utilizando esta ideia geral, Marx definiu o valor de um artigo como o número médio de horas de trabalho necessárias à sua produção (ou à sua reprodução).

A ideia imediata, a da teoria da mais-valia é, por assim dizer, igualmente simples. Também foi adotada por Marx dos seus predecessores. (Assevera Engels – talvez erradamente, mas irei seguir a sua exposição do assunto – que a principal fonte de Marx foi Ricardo). A teoria da mais-valia é uma tentativa, dentro dos limites da teoria do valor-trabalho, de resposta à pergunta: “Como obtém o capitalista o seu lucro?” Se admitirmos que os artigos produzidos na sua fábrica são vendidos no mercado pelo seu valor verdadeiro, isto é, de acordo com o número de horas de trabalho necessárias à sua produção, então o único modo pelo qual o capitalista poderá obter lucro será pagando aos operários menos do que o valor integral do produto destes. Assim, os salários auferidos pelo trabalhador representam um valor que não é igual ao número de horas que ele trabalhou. E, assim, podemos dividir o seu dia de trabalho em duas partes, as horas que ele gastou, na produção do valor equivalente ao seu salário, e as horas que ele gastou para produzir um valor para o capitalista. E, de forma correspondente, podemos dividir o valor total produzido pelo trabalhador em duas partes, o valor equivalente ao seu salário e o remanescente, que é chamado mais-valia. É desta mais-valia que se apropria o capitalista, constituindo a única base do seu lucro.

Até aqui, a história é bastante simples. Mas surge então uma dificuldade teórica. Toda a teoria do valor foi introduzida para explicar os preços reais pelos quais todos os artigos são trocados; admite-se ainda que o capitalista é capaz de obter no mercado o valor integral do seu produto, isto é, um preço correspondente ao número total de horas despendidas nele. Mas afigura-se que o operário não obtém o preço integral do artigo que vende ao capitalista no mercado de trabalho. Como se ele fosse defraudado, ou roubado; em todo o caso, como se não fosse pago de acordo com a lei geral aceite pela teoria do valor, designadamente a de que todos os preços efetivamente pagos são, pelo menos numa primeira aproximação, determinados pelo valor do artigo. (Diz Engels que o problema foi compreendido pelos economistas pertencentes ao que Marx chama a “escola de Ricardo” e assevera que a sua incapacidade de o resolver determinou o fracasso dessa escola). Surgiu então o que parecia ser uma solução bastante evidente dessa dificuldade. O capitalista possui um monopólio dos meios de produção, e este poder económico superior pode ser usado para induzir o trabalhador a um acordo que viola a lei do valor. Mas esta solução (que considero uma descrição bastante plausível da situação) destrói por completo a teoria do valor-trabalho na medida em que se verifica que certos preços, nomeadamente os salários, não correspondem aos respetivos valores, nem sequer numa primeira aproximação. E isto abre a possibilidade de ser igualmente válido em relação a outros preços, por motivos semelhantes.

Tal era a situação quando Marx entrou em cena para salvar da destruição a teoria do valor-trabalho. Através de outra ideia simples, mas brilhante, conseguiu mostrar que a teoria da mais-valia não só era compatível com a teoria do valor-trabalho como também podia ser rigorosamente deduzida desta. Para chegarmos a essa dedução, bastará apenas perguntarmo-nos: qual é, precisamente, a mercadoria que o trabalhador vende ao capitalista? A resposta de Marx é: não são as suas horas de trabalho, mas toda a sua força de trabalho. O que o capitalista compra ou aluga no mercado de trabalho é a força de trabalho do operário. Admitamos, como hipótese, que essa mercadoria é vendida pelo seu verdadeiro valor. Qual é o seu valor? De acordo com a definição de valor, o valor da força de trabalho é o número médio de horas de trabalho necessárias à sua produção ou reprodução. Ora isto, claramente, não é mais do que o número de horas necessárias para produzir os meios de subsistência do trabalhador (e da sua família).

Marx chegou, desse modo, ao seguinte resultado: o verdadeiro valor da força total de trabalho do operário é igual às horas de trabalho necessárias à produção dos seus meios de subsistência. A força de trabalho é vendida ao capitalista por esse preço. Se o trabalhador conseguir trabalhar mais do que isso, então o seu trabalho excedente pertence ao comprador ou alugador da sua força. Quanto maior for a produtividade do trabalho, isto é, quanto mais um operário for capaz de produzir por hora, tanto menos horas serão necessárias para a produção da sua subsistência e tanto mais horas sobram para a sua exploração. Isto mostra que a base da exploração capitalista é uma alta produtividade de trabalho. Se o trabalhador não pudesse produzir por dia mais do que o correspondente às suas necessidades diárias, então a exploração seria impossível sem violar a lei do valor.; só seria possível através da vigarice, do roubo ou do assassínio. Mas, uma vez que a produtividade do trabalho, em virtude da introdução das máquinas, aumentou tanto que um homem pode produzir muito mais que o correspondente às suas necessidades, a exploração capitalista torna-se possível. E é possível, mesmo numa sociedade capitalista “ideal”, no sentido em que todas as mercadorias, incluindo a força de trabalho, são compradas e vendidas pelo seu valor real. Numa tal sociedade, a injustiça da exploração não reside no facto de o trabalhador não receber um “preço justo” pela sua força de trabalho e sim no facto de ser tão pobre que é forçado a vender a sua força de trabalho, enquanto o capitalista é suficientemente rico para comprar força de trabalho em grandes quantidades e daí retirar lucro.

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A nossa edição:

Karl Popper, A Sociedade Aberta e seus Inimigos, vol. II, Editora Fragmentos, 1993, Lisboa, pp. 167-69.

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Foto retirada de http://www.telegraph.co.uk.

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Sou um Equilibrista

Sou um equilibrista. Costumo dizer até — meio a brincar, mas muito a sério — que nada demonstra melhor a importância do equilíbrio do que um bom vinho.
Mas não é apenas no vinho (ou no circo) que o equilíbrio é importante. Um intelecto desequilibrado pode ser a causa de atos desastrosos, sobretudo quando cometidos por pessoas altamente inteligentes, sendo lícito concluir, de acordo com a experiência, que a estupidez não é provocada apenas pela carência de inteligência, mas igualmente pelo seu excesso.
Pode parecer paradoxal, mas acontece demasiadas vezes: as pessoas super-inteligentes são as que cometem os atos mais hediondos e estúpidos. 
Senão vejamos.

O atirador da torre do Texas, Charles Whitman, que matou 16 pessoas depois de ter assassinado a mulher e a mãe, tinha um QI na faixa dos 1% mais inteligentes; Ted Kaczynski, um matemático misantropo que se dedicou a colocar bombas em universidades e aviões durante anos a fio, era considerado um super-génio e tinha um QI surreal de 167; mas quem realmente rebentou com a escala foi Rodney Alcala, um assassino em série, que alcançou um QI de 170; Hitler e Estaline eram decerto pessoas inteligentes (e, igualmente, manipuladores — seriam também psicopatas?) e o mesmo poderíamos dizer de personalidades tão distintas quanto Ceausescu, Pinochet, Castro, Meinhof ou Breivik.

Muitos defendem que não há uma correlação positiva entre inteligência e psicopatia, e que a inteligência não é a principal responsável destes comportamentos destrutivos. No entanto, estudos recentes revelam que as pessoas com QI mais elevado têm mais probabilidade de desenvolverem doenças mentais dopaminérgicas (provocadas por excesso de dopamina). Em suma, alguma deficiência numa zona do cérebro, antiga (na amígdala, por exemplo) ou recente (no córtex pré-frontal, por hipótese), entre outros aspetos (hormonais, ambientais, psicológicas, etc) são frequentemente causas interligadas que justificam um desequilíbrio comportamental. Isto prova que a inteligência per si é fria, e é necessário que todas as regiões do cérebro que com ela interagem funcionem equilibradamente para haver um comportamento saudável.

Por fim, acontece também que a inteligência desmedida (aquela que rebenta com a escala e já é menos inteligência e mais loucura) leva alguns indivíduos a convencerem-se de que descobriram “a verdade”. A partir desse momento, o que possa causar horror ao cidadão comum não passa de uma consequência dessa descoberta, que, evidentemente, não afeta o génio iluminado nem, amiúde, os seus seguidores.

Sim, a super- inteligência, tal como o excessivo grau alcoólico de um vinho, embriaga. E todos sabemos como há pessoas com muito mau vinho.

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Reformulando:

Podes estar convencido que és um inteligente acima da média. E, se reparares, à tua volta, em círculos cada vez mais largos, é bem provável que a maioria pense como tu. O cerne da questão, porém, não consiste nessa impossibilidade estatística (de facto, não é possível a maioria estar acima da média) mas na tua convicção: com ela já pisaste, pelo menos com um pé, o terreno lúbrico da estupidez.

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Vietname

Imagem da cidade de Da Nang, Vietname.1

O Vietname é um país ainda muito marcado pelo colonialismo e pela guerra2, mesmo que para as novas gerações esses tempos façam já parte da história . À semelhança da China (embora as comparações com a China não sejam muito bem recebidas no Vietname), o seu regime de partido único vem abrindo a economia do país à iniciativa privada. Essa abertura tem permitido o investimento estrangeiro, o incremento do turismo e a criação de mais infraestruturas, num país onde ainda falta quase tudo. Isto proporcionará, em princípio, a criação de empregos, o aumento do consumo e do poder de compra3, em suma, uma melhoria significativa na vida dos (cerca de 95 milhões) de vietnamitas.

Porém, a abertura económica será sempre insuficiente, se não conduzir à abertura política. E abertura política implica um sistema educativo livre, sem condicionamento ideológico. Como em todas as sociedades, também no Vietname a batalha do bem-estar social começa na Educação.

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1 Foto de Fla.

2 As consequências da guerra foram terríveis e ainda se sentem hoje. Os americanos lançaram quatro vezes mais bombas sobre território vietnamita do que todas as bombas lançadas durante a II Guerra Mundial. Os efeitos são, ainda hoje, devastadores, com vastas regiões envenenadas com a dioxina TCDD presente nos milhões de litros de agente laranja lançados dos aviões norte-americanos.

3 Do PIB per capita.

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Reinventar o Estado Social – A Experiência Sueca

mauricio rojas
Mauricio Rojas nasceu no Chile em 1950 e residiu na Suécia (entre 1974 e 2008), aonde chegou como exilado político. Foi deputado no parlamento sueco e integrou a Comissão Constitucional, sendo também porta-voz do Partido Liberal sobre matérias de emigração e integração. Desde finais de 2008 vive em Madrid. É diretor do Observatório de Imigração e Cooperação para o Desenvolvimento da Universidade Rei Juan Carlos.

O presente artigo não é, nem pretende ser, uma análise crítica ao livro de Mauricio Rojas, cujo título partilha. Trata-se apenas de uma divulgação deste, o qual, por seu turno, é uma descrição (supostamente) factual da transição sueca, iniciada nos anos 1990,  para um novo modelo social. Dado que este novo modelo é largamente desconhecido da maioria das pessoas (que se refere ao “modelo sueco” desconhecendo esta transição), achamos por bem divulgá-lo. Para tal resumimos o livro de Rojas, traduzindo livremente (e por isso assumindo a responsabilidade por alguma falha), do original em castelhano (tanto quanto sabemos não há tradução em português), adaptando-o ao nosso artigo.  Esperamos com este trabalho contribuir para um melhor conhecimento do novo estado social sueco e das razões que forçaram a Suécia a abandonar o seu, ainda hoje, famoso modelo do passado. Vejamos o que nos conta Mauricio Rojas.

Um pouco de história 

Até à década de 60, a Suécia caracterizou-se pela pequena dimensão do Estado e pela baixa carga tributária, menor que a dos Estados Unidos,  do Reino Unido, da Alemanha e da França. No entanto, num curto espaço de tempo, ou seja, nos anos 70, a carga tributária sueca era já maior do que a de qualquer dos países referidos e correspondia a cerca de 40% do PIB. Outro dado interessante é que, até meados do século XX (mais precisamente entre 1870 e 1950), entre os países desenvolvidos, apenas o PIB da Suíça cresceu mais que o da Suécia1; pelo contrário, entre 1950 e 1973, apenas o Reino Unido teve um crescimento inferior ao sueco; e de 1973 a 1998, apenas a Suíça. Durante aquele período (de 1870 a 1950), o Estado sueco teve um papel importantíssimo, construindo caminhos de ferro, criando as chamadas “escolas do povo”, que garantiam a escolaridade a praticamente todas as crianças do país, e simultaneamente instituições que protegiam a liberdade individual e a propriedade, que exigiam o cumprimento dos contratos e mantinham o Estado de Direito.

Desta pujante economia retirariam os governantes sociais democratas os frutos que lhes permitiram criar o seu modelo de estado de bem-estar social quando chegaram ao poder na Suécia, em 1932. Até à década de 60 manteve-se uma clara delimitação de funções entre empresas privadas e Estado, em que este respeitava a liberdade empresarial na indústria, no comércio e no setor financeiro enquanto o empresariado respeitava e mesmo apoiava uma certa expansão estatal e, consequentemente, um certo controlo social-democrata das áreas de bem-estar social. Este “modelo sueco” foi elogiado por Roosevelt, em 1936, nos seguintes termos: ” Na Suécia há uma família real, um governo socialista e um sistema capitalista trabalhando em conjunto da maneira mais feliz que poderíamos imaginar”.

Estes primeiros governos eram protagonizados por líderes oriundos do operariado industrial, que tinham uma visão moderada da social-democracia. Os líderes posteriores, porém, eram oriundos da classe média e, o que não deixa de ser curioso mas concordante com o que se passa um pouco por todo o lado, eram muito mais radicais. Em vez da socialização das fábricas e outros meios de produção, o novo modelo buscava socializar os resultados da produção através de impostos cada vez mais altos sobre o rendimento e o consumo, algo que viria a atingir o auge nas décadas de 70 e 80.

A Suécia foi também o país onde durante mais tempo – de 1935 a 1975 – estiveram em vigor leis sobre esterilização forçada. Neste período foram esterilizadas 62.888 pessoas, quase todas mulheres de baixa condição social. Os motivos mais apontados eram “débil mental”, “imbecil”, “frouxa”, “anti-social”, “misturada racialmente” e “sangue cigano”. Este radicalismo cresceu paulatinamente, levando ao abandono do tradicional folkhemmet2, com o qual se buscava um mínimo de dignidade e apoio social para todos, passando, nas décadas posteriores ao fim da II Guerra Mundial, à formação do grande Estado benfeitor sueco. Em três décadas apenas, a Suécia passou de uma situação em que era um dos países desenvolvidos com impostos mais baixos a outra muito distinta em que superou todos os outros países neste terreno.

De facto, em 1990 a Suécia tinha impostos 54,1% mais elevados do que a média da OCDE e 93% acima dos Estados Unidos. Por seu turno, a despesa pública passou de 31% do PIB em 1960 para 60% em 1980, período em que triplicou o emprego público. As promessas de segurança económica e social tinham sido enormemente ampliadas, comprometendo-se o Estado a assegurar um alto nível de proteção face a uma eventual perda de rendimentos, fosse esta devido a doença ou desemprego. Finalmente, chegou-se ao ponto de assegurar a todos os cidadãos um alto nível de vida, independentemente da sua contribuição para o bem-comum.

Com a ascensão de Olof Palme à liderança do partido social-democrata, em 1969, destruiu-se o que ainda restava da folkhem de Per Albin Hansson, e do compromisso por parte do Estado de não se imiscuir na gestão empresarial do setor privado sueco. Foi então que se colocou unilateralmente o poder do Estado do lado dos grandes sindicatos, abrindo as portas a reivindicações salariais desmedidas, que afetaram muito seriamente as indústrias suecas e deram origem, em 1976, a uma inflação de 10%, algo que não acontecia desde 1951. Entretanto, enquanto o emprego público crescia, acontecia precisamente o contrário no setor privado. Entre 1965 e 1985 foram reduzidos 274.000 postos de trabalho no setor privado, enquanto o emprego público se expandia em mais de 850.000 postos de trabalho. Isto foi absolutamente insólito e não encontra paralelo em nenhum outro país desenvolvido. Os problemas de eficiência típicos das economias planificadas começaram a fazer-se sentir e os suecos foram ultrapassados pela larga maioria dos países desenvolvidos, quando, 30 anos antes, apenas os Estados Unidos tinham um PIB per capita superior3.

Para alimentar o Estado todo-poderoso os impostos subiram a níveis asfixiantes, chegando a 56,2% do PIB em 19894. Num contexto destes a progressividade tributária é necessariamente muito reduzida, assim como a margem para aumentar ainda mais os impostos5. Isto foi muito problemático e implicou que o Estado de bem-estar sueco dependesse constantemente de uma conjuntura de pleno emprego e, estruturalmente, de uma relação demográfica favorável para manter um rácio ótimo entre população ativa e passiva. Por outro lado, este modelo económico causou enormes dificuldades à criação de emprego, se o compararmos aos de economias com impostos mais baixos.

As duas consequências mais importantes retiradas deste modelo sueco foram as seguintes. Ao nível económico, uma diminuição clara do PIB per capita (que desceu continuamente entre 1975 e 1995) e, ao nível social, um monopólio estatal sobre a organização dos serviços básicos de educação, saúde e assistência social, que limitou a liberdade de escolha dos indivíduos. Esta orientação política conduziu à criação de uma verdadeira volkgemeinscaft5, ou seja, uma sociedade baseada na homogeneidade dos seus elementos.

A mudança

A crise deste estado benfeitor e o início do seu abandono progressivo deu-se na década de 90. A isso conduziram fatores económicos, sociais, políticos e ideológicos. Comecemos pela economia, certamente o elemento catalisador da mudança. Em meados dos anos 70 tornou-se evidente que a Suécia tinha entrado num ciclo de crescimento lento, perdendo competitividade face às economias mais desenvolvidas. Novos competidores industriais e os aumentos de salários desmedidos só agravaram a situação. Estas dificuldades ajudam a explicar a derrota histórica da social-democracia nas eleições de 1976, a primeira do pós-guerra. Mas seria em 1990 que todo o sistema se desmoronaria, quando, após alguns anos de especulação financeira e imobiliária, se desencadeou a mais grave crise económica do país, desde os anos 30.

Nos anos seguintes, tudo piorou. De 1991 a 1993 o produto per capita caiu mais de 6%, e entre 1990 e 1994 perderam-se mais de meio milhão de empregos. A consequência imediata foi uma crise fiscal de enorme magnitude, face aos subsídios que tiveram de ser pagos e à quebra de receitas derivada do menor número de trabalhadores no ativo. Nestas condições era inevitável o endividamento do Estado, pelo que o montante da dívida pública duplicou em apenas quatro anos. Tudo isto abalou a confiança na economia sueca e a coroa foi alvo de especulação financeira, obrigando o Banco Nacional a subir a taxa de juro em 500% e a abandonar a política de câmbio fixo.

A Suécia foi então obrigada a apertar o cinto, reduzindo salários e diminuindo o número de funcionários públicos. Alguns serviços públicos passaram a ser geridos por privados. O setor industrial exportador deu uma preciosa ajuda, aproveitando a forte depreciação da coroa desde o abandono, em 18 de novembro de 1992, do câmbio fixo. Isto permitiu que as exportações duplicassem nos cinco anos seguintes, que o excedente comercial praticamente quadriplicasse entre 1992 e 1997 e que, na segunda metade da década de 90, se conseguisse um superavit fiscal e uma redução da dívida pública. O obreiro desta mudança foi o social-democrata Göran Persson, primeiro como Ministro das Finanças (1994) e depois como Chefe do Governo (1996).

Os gastos públicos foram reduzidos em mais de 70 milhões de coroas e a crise sueca fez com que muitos cidadãos refletissem sobre o Estado de bem-estar. Ao fim e ao cabo o impensável acontecera: a sociedade igualitária, niveladora e controladora que prometia a estabilidade ilimitada, embora à custa da completa ausência de liberdade de escolha dos cidadãos, colapsara.

O desmantelamento do Estado benfeitor foi iniciado pelo líder do Partido Moderado, Carl Bildt, que governou a Suécia entre outubro de 1991 e o mesmo mês de 1994. Quando após o mandato de Bildt, os sociais-democratas regressaram ao poder, continuaram e até aprofundaram as suas reformas. E, quando, em 1996, os sociais-democratas foram de novo derrotados, a Suécia apresentava já finanças públicas sólidas, alto nível de crescimento e um Estado social muito diferente do Estado benfeitor de 1990. Foi sobre esta base que, em outubro de 2006, o novo líder conservador Fredrik Reinfeldt pôde aprofundar ainda mais as reformas anteriores. Abandonara-se definitivamente o modelo de economia fechado e planificado e criara-se um sistema de bem-estar misto, baseado na participação e na colaboração de três atores distintos: o estado, as empresas e os cidadãos.

Todo o processo se iniciou após a diminuição do número de funcionários públicos e a acumulação de privilégios, sobretudo no que toca à inamovibilidade  dos cargos. Este privilégio só se mantém hoje em dia na Suécia para um número muito limitado de funcionários públicos, nomeadamente os juízes, não se estendendo à grande massa de trabalhadores das áreas do bem-estar social. Isto foi possível porque o movimento operário, que tem um peso histórico na Suécia, nunca esteve disposto a dar ao setor da classe média e do funcionalismo privilégios ou direitos particulares. De qualquer forma, estas medidas constituíram (e constituem para qualquer país que queira seguir o exemplo sueco) uma condição sine qua non para o êxito da reforma.

Outro facto que importa conhecer para compreender esta reforma é o caráter profundamente descentralizado do estado sueco, composto por três níveis: O Estado Central, as Administrações Provinciais e as Municipalidades. O estado cuida das tarefas gerais do Reino, como a defesa, a justiça, a função policial, a educação superior e uma série de entidades nacionais com diferentes tarefas. As vinte e duas administrações provinciais têm a seu cargo a saúde, os transportes e outras funções relacionadas com as infraestruturas. As municipalidades têm a seu cargo uma ampla gama de funções sociais, como a educação pré-escolar, básica e secundária, o cuidado a idosos e descapacitados, assim como uma série de outros serviços básicos. Estes três níveis gozam de ampla autonomia e têm o direito de cobrar impostos nas respetivas jurisdições, sendo que, nos casos das administrações provincial e municipal, recebem ainda transferências da Administração Central.

Educação

A primeira medida adotada em 1992 pelo governo de Carl Bildt e que hoje rege toda a educação pré-escolar, básica e secundária do país foi o “vale para a  educação básica”. Este é pago com fundos tributários e permite aos pais escolherem a escola dos seus filhos, seja pública ou privada. Foram criados também “vales de bem-estar” pagos pelos municípios, dirigidos a crianças em idade pré-escolar e aos cidadãos idosos.  O Estado perdeu o monopólio da prestação dos serviços sociais, mas ganhou uma relevância muito maior no papel de regulação e controlo. Isto pode parecer paradoxal, mas é uma parte importante do processo de abertura ao setor empresarial. Na verdade, ao contrário do que geralmente se crê, um mercado livre é muito mais regulado – por normas de direito privado e de direito público – que um sistema planificado de monopólio estatal que, por natureza, detesta os controlos e não gosta da transparência nas suas atividades.

No que toca especificamente à educação, o domínio onde o monopólio estatal era mais evidente (em 1990, 99% das escolas eram públicas), já existiam, no ano letivo 2006-07, 599 escolas básicas e 300 escolas secundárias independentes, cobrindo um total de 135.000 alunos, nove vezes mais do que no início da reforma, em 1992-93. A cada ano que passa, a Superintendência de Escolas recebe mais pedidos de criação de escolas independentes. São três, as principais razões para o êxito da reforma educativa: 1- a procura por pais e alunos de alternativas pedagógicas mais ajustadas às suas preferências; 2- o problema da disciplina, que é muito sério nas escolas públicas; 3- a qualidade no ensino.

Esta última razão é talvez a mais importante como mostram os pais dos alunos das escolas independentes, que se manifestam mais satisfeitos que os pais dos alunos das escolas municipais em itens como “disciplina”, “material pedagógico”, “apoio a alunos com dificuldades”, “transmissão de valores”, “fortalecimento da auto-estima” e “consideração de necessidades individuais”, de acordo com um amplo inquérito de 2006. Acresce ainda que o número de alunos por turma é menor nas escolas independentes onde, seja qual for a forma de medi-los, os resultados escolares são claramente superiores. O rendimento escolar de alunos provenientes de grupos socialmente mais vulneráveis – como sejam os filhos de imigrantes – é também melhor nas escolas independentes, onde o nível de reprovação é cerca de metade do das escolas municipais.

A normativa legal fundamental para o funcionamento das escolas independentes é definida pelo capítulo 9 da Lei Escolar da Suécia, que estabelece a responsabilidade fiscal (diretamente assumida pelos municípios) de assegurar a igualdade de condições de financiamento entre escolas públicas e escolas independentes. Tanto no ensino básico quanto no ensino secundário, a escolaridade é gratuita, coberta totalmente pelo vale escolar.

Atendendo a que a Lei Escolar proíbe as escolas de qualquer cobrança extra, muitos perguntar-se-ão por que alguns consórcios privados, que têm objetivos lucrativos, são proprietários de algumas escolas independentes. A razão é simples: porque são mais eficientes que os funcionários das escolas públicas, as quais, através dos seus custos, servem de indicador para o montante do vale escolar. Este valor pecuniário é efetivamente alto. O custo médio de um educando sueco do nível básico supera em 28% a média dos países da OCDE, em 34% a Finlândia (vizinho da Suécia que exibe resultados escolares muito superiores aos suecos) e em 50% a Espanha. Existe, pois, uma larga margem para ganhos de eficiência, que muitas escolas independentes têm capitalizado. Isto provoca, por vezes, reações adversas de alguma opinião pública que não quer admitir o lucro numa atividade publicamente financiada. No entanto, quando se torna evidente que eliminar o lucro da iniciativa privada no setor não implicaria nem uma coroa de poupança quer ao setor público quer aos contribuintes, a polémica acalma.

Apesar destas reformas, a escola sueca ainda apresenta importantes desafios. A política escolar anterior deteriorou seriamente tanto os conteúdos educativos como a ordem e a disciplina necessárias para levar a cabo o ensino efetivo às crianças e jovens, além de desvalorizar os controlos dos conhecimentos adquiridos, como sejam as notas e os exames. As políticas educativas atuais procuram inverter a situação. Assim, depois de décadas de flumskola (“escola da frivolidade”) está a voltar-se aceleradamente ao ideal clássico da bildningsskola, ou seja, a escola da formação e do conhecimento. Dela dependerá, em grande parte, o futuro da Suécia.

Saúde

A saúde, a educação e a assistência a idosos formam os grandes eixos de todo o estado social. Os gastos totais em saúde eram em 2006 de 239.000 mil milhões de coroas, cerca de 8,4% do PIB da Suécia. 84% deste montante era dinheiro público. Entre os países da OCDE, apenas o Reino Unido, a Eslováquia, a República Checa e o Luxemburgo superaram essa percentagem. Existe hoje, no setor da saúde sueco, uma ampla aceitação tanto do princípio da soberania do consumidor, que tende a converter-se num sistema de liberdade nacional quanto à escolha de cuidados médicos e hospitalares, como da participação do setor empresarial enquanto fornecedor de serviços dentro do sistema de saúde fiscalmente financiado.

A reforma do sistema público de saúde passou por três fases, desde o sistema planificado tradicional até formas mais abertas à competência e livre decisão dos cidadãos. A primeira iniciou-se nos anos 80 e começou por separar procura e produção dentro do sistema de produção público, e a criação de uma espécie de mercado interno com preços e faturação entre diversas unidades do sistema. No início dos anos 90 o governo de Carl Bildt eliminou as barreiras que impediam ou dificultavam a subcontratação dentro do setor da saúde, começando assim o processo de licitação de vários serviços assim como a privatização de ambulatórios, centros médicos e, inclusive, grandes hospitais. Atualmente7 ocorre uma terceira fase, onde o foco se coloca na criação de um mecanismo semelhante ao do “vale escolar”, com liberdade de estabelecimento de alternativas médicas e liberdade plena do utente para escolher a entidade prestadora de serviços.

O sistema de “licitações” (contratos de concessão do serviço público a privados) teve como principal objetivo baixar os custos da prestação dos serviços, respeitando critérios de quantidade, qualidade e uma eventual cobrança direta, ainda que parcial, ao utente. Este sistema – regulado pela lei sueca mas também pela União Europeia – não altera as condições básicas da planificação clássica e não aumenta a capacidade de escolha dos cidadãos. Foi usado na primeira fase da reforma, sobretudo devido à necessidade de se imporem medidas de austeridade. No entanto, constatou-se que a falta de alternativas, deteriorava a qualidade dos serviços e uma forma de controlar essa qualidade seria dar aos cidadãos uma maior liberdade de escolha.

Isto foi conseguido dando aos cidadãos a possibilidade de escolher entre os vários prestadores e, de forma mais ampla e plena, através dos vales de saúde e da criação livre de prestadores de serviços de saúde. Como vimos, a saúde é um setor sob responsabilidade dos governos provinciais, pelo que a implementação das reformas não é uniforme, dependendo muito das características demográficas de cada província. Estocolmo é uma das regiões onde as reformas estão mais adiantadas. O valor do vale de saúde é equivalente ao custo médio em saúde primária dos habitantes da província respetiva.

Os prestadores não podem selecionar quem busque os seus serviços, evitando-se, com esta imposição, a descriminação dos utentes de mais alto risco. O centro médico deve cobrir os custos efetivos dos cuidados aos seus utentes, o que gera – e este é um dos aspetos mais positivos de um sistema destes – fortes incentivos para que os prestadores de serviços de saúde invistam em medidas preventivas já que a sua margem de lucro dependerá em grande parte da baixa utilização dos serviços especializados, mais caros, por parte dos pacientes que escolham aquele centro médico específico. Ao mesmo tempo, os utentes podem mudar de centro médico quatro vezes por ano no caso da província de Halland e quando queiram, no caso da província de Estocolmo.

Acresce, ainda, que esta plena liberdade de escolha foi acompanhada pela elaboração de “guias de saúde” que dão aos cidadãos ampla informação sobre os rendimentos e características dos centros de saúde, assegurando, assim, uma escolha informada. Existem vários hospitais, além de um privado e outro a caminho de sê-lo, que prestam, mediante concessão, cuidados mais especializados. O paciente tem liberdade de escolher o hospital que prefere, embora o sistema de listas de espera possa distribuir os pacientes por outros hospitais. Quanto aos cuidados de emergência, o utente escolhe com toda a liberdade o hospital, e o serviço é pago por um fundo flexível do orçamento da administração provincial.

Entre as consequências mais notáveis do processo de abertura do setor de responsabilidade pública à iniciativa privada está o rápido surgimento de grandes empresas em todos aqueles itens onde antes só existiam atores públicos. O caso da empresa Capio AB é emblemático8. Este consórcio está hoje9 presente em nove países e dá emprego a 16.500 profissionais, atendendo 3 milhões de pessoas/ano. A receita bruta em 2006 era cerca de 1.500 milhões de euros. Este é o exemplo mais destacado de um novo tipo de empresa transnacional sueca, surgido da transformação do seu velho Estado benfeitor e destinado a continuar o êxito internacional das suas indústrias clássicas.

A assistência à terceira idade (a partir dos 65 anos) foi também alvo de reformas muito semelhantes às que foram realizadas na saúde e na educação, com a criação de vales municipais que garantem à iniciativa privada a possibilidade de prestação de serviços. O município de Nacka nos arredores de Estocolmo tem sido pioneiro neste tipo de reformas e o seu sistema de bem-estar, aberto à iniciativa privada, cobre as seguintes áreas: creches; educação básica e secundária; cuidados infantis; educação para adultos e ensino do idioma sueco a imigrantes; aconselhamento familiar; terapia familiar; lares para incapacitados e pessoas com necessidades especiais; serviços ao domicílio para maiores de 65 anos; centros de atividades para a velhice; lares da terceira idade; serviços clínicos.

Pensões

A sustentabilidade do sistema de pensões depende da relação entre população ativa e passiva e é o grande atoleiro de quase todos os países desenvolvidos. Vejamos o caso da Suécia, onde se reformou o sistema de pensões criando um sistema misto de repartição e capitalização, acompanhado de uma engenhosa construção que alarga e torna mais sólida a base financeira do sistema, ao mesmo tempo que liga o montante efetivo das pensões quer ao crescimento económico, quer à situação demográfica. De realçar que esta reforma foi possível graças ao acordo entre o centro-direita e os sociais-democratas, no tempo de Carl Bildt. A reforma mostrou-se absolutamente necessária, face à insustentabilidade do velho sistema, incapaz de resolver os problemas criados pelo aumento do número de reformados e da esperança de vida da população. Outro grande problema era que o antigo modelo social-democrata se baseava em benefícios fixos calculados generosamente a partir da média dos 15 anos de salários mais altos do reformado, valor reajustado automaticamente de acordo com o índice de aumento dos preços.

O atual sistema de pensões e de proteção económica à velhice vigente na Suécia tem três grandes componentes: 1- acesso subsidiado ou, em certos casos, gratuito a uma série de serviços (transportes, serviços domiciliários, cuidados médicos, lares, adaptação das habitações a necessidades especiais, etc.) e bens (medicamentos, em particular); 2- pensão mínima de velhice e outras ajudas, nomeadamente às despesas dos pagamentos das casas, assegurando a todos os cidadãos que não têm outros meios, ou quando os mesmos são insuficientes, uma vida decente mesmo que modesta; 3- o sistema de pensões propriamente dito, baseado nas contribuições realizadas durante a vida laboral dos cidadãos.

A reforma das pensões baseou-se na criação de dois sistemas complementares. O primeiro capta a maior parte dos descontos obrigatórios dos trabalhadores, que é o equivalente a 16 unidades percentuais do total da quotização, que é 18,5% do salário bruto. Estes descontos são recebidos pela Caixa de Seguros (Försäkringskassan) que depois de fazer os pagamentos das pensões correspondentes, deposita os eventuais excedentes em fundos de pensões, que os investem em carteiras de valores. As 2,5 unidades percentuais que sobram dos descontos obrigatórios formam a base da assim chamada “pensão de prémio” (premie pension) e vão para contas individuais de cada trabalhador, que decide, com toda a liberdade, em que fundo as deposita, entre um total de mais de 700 alternativas autorizadas10. O rendimento desta parte individualizada do sistema de pensões está totalmente dependente da rentabilidade dos fundos de investimento escolhidos. Os valores aforrados podem ser transformados, a partir dos 61 anos, a idade mínima da reforma, numa pensão vitalícia fixa ou ser mantidos como fundos de valores.

O eixo do novo sistema corrente de pensões administrado pelo estado é a sua separação do restante orçamento fiscal. A ideia é criar um sistema autónomo protegido de qualquer uso dos descontos para outra finalidade fiscal. A Caixa de Seguros administra o sistema recebendo diretamente os descontos e efetuando os pagamentos correspondentes, que se reajustam anualmente de acordo com o desenvolvimento médio do nível dos salários. Se se gerar um excedente, o que sobra não passa para o orçamento fiscal corrente, antes entra num sistema coletivo de capitalização formado por cinco grandes fundos de pensões que, com ampla independência, os investem em todo o tipo de valores no mercado nacional e internacional sem mais limitações ou propósito do que a busca de uma sólida rentabilidade a longo prazo.

Estes fundos de capitalização coletiva formam uma reserva eventualmente necessária em caso de défice do sistema. Em nenhum caso é permitido que um défice seja coberto por meios suplementares do orçamento ou por um aumento dos descontos. Uma das ideias centrais do sistema é que as gerações futuras não assumam o peso de um sistema deficitário, protegendo-as, assim, de uma pressão tributária crescente. No caso dos pagamentos superarem as receitas do sistema mais os recursos dos fundos de capitalização, ativa-se o que se apelida de “travão” do sistema que, reduzindo o valor das pensões pagas, restabelece o equilíbrio.

Todo o sistema se baseia na manutenção de um equilíbrio a longo prazo entre receitas e despesas através de uma fórmula simples que divide os descontos previstos mais o fundo de capitalização (que formam a base total de recursos ou o “haver” do sistema) pelos gastos previsíveis com o pagamento das pensões (o “deve” ou dívida total do sistema). Esta fórmula, que se calcula todos os anos, estabelece a viabilidade global do sistema e, em caso de défice, dá o sinal para ativação do “travão”. Isto acontece quando o resultado da divisão, chamado “coeficiente de equilíbrio” (balanstalet), é inferior a 1, o que simplesmente significa que o “deve” do sistema é superior ao “haver”. Nesse caso reduz-se o montante do “deve” (o direito a pensões futuras) multiplicando-o pelo coeficiente de equilíbrio que ao ser menor que 1 reduzirá esse montante restabelecendo assim o equilíbrio.

Eis a fórmula para calcular o coeficiente de equilíbrio e o cálculo real (em milhares de milhões de coroas) que, a partir da mesma, a Caixa de Seguros fez em 2006.

Coeficiente de equilíbrio = descontos futuros+fundos coletivos de capitalização/ pensões futuras

1,0149= 5.945+858/6.703

Este resultado indica, em concreto, que o balanço a longo prazo é positivo, com um excedente de 100.000 milhões de coroas. É por isso que o resultado da divisão é maior que 1. Isto significa que o travão não deve ativar-se e que, portanto, as pensões podem continuar a ser reajustadas automaticamente de acordo com o aumento médio dos salários. Esta fórmula tem, entre outras, a grande vantagem de gerar um equilíbrio que tem em consideração as mudanças futuras na base demográfica do sistema, o que se torna necessário para poder avaliar o “deve” e o “haver” do mesmo a longo prazo. O valor da pensão individual que se recebe é determinado pelos descontos efetivos realizados durante toda a vida laboral que dão direito aos assim chamados “direitos de pensão” que, no momento da reforma, se dividem pelos anos restantes de expectativa média de vida vigente nesse ano para o grupo ou escalão de idade a que pertence o reformado.

Vejamos um exemplo para tornar tudo isto mais claro. Sven Svensson trabalhou durante 40 anos ganhando um salário bruto anual médio de 214.000 coroas, o que dá um desconto anual (16%) de 32.000 coroas. O total acumulado durante os 40 anos será então de 1,28 milhões de coroas ao qual há que somar os aumentos gerados pelo reajuste anual médio dos salários. Suponhamos que este foi em média de 2% ao ano. Isto dá um aumento total dos descontos de Sven de 653.863 coroas, o que eleva o seu fundo de direitos de pensão a 1.932.863 coroas no momento de reformar-se aos 65 anos. É sobre esta base que se calcula a pensão de Sven. Agora falta só dividir este montante pelos anos restantes de vida, que correspondem à expectativa média para as pessoas que, tal como Sven, tenham nesse momento 65 anos. Digamos que esse número seja de 18,3 anos, Ora bem, para evitar uma quebra demasiado brusca de rendimento introduziu-se no sistema uma modificação deste número ao adiantar parte dos aumentos esperados, de acordo com a variação média dos salários.

Sendo o valor desses aumentos futuros desconhecido, a lei estabelece uma percentagem hipotética para esse reajuste na ordem de 1,6%. Assim, feitos todos os cálculos pertinentes, o resultado da divisão é 124.701 coroas anuais de pensão para Sven (sem este ajuste o valor seria apenas de 103.621 coroas). Ora bem, este valor alterar-se-á ano após ano, de acordo com o desenvolvimento médio dos salários, ao qual se deduzirá o 1,6% anual já adiantado. Entre as grandes vantagens deste sistema está o forte incentivo para que se adie a reforma. Assim, continuando com o exemplo de Sven, se este só se reformar aos 70 anos, o divisor que determina o valor da sua pensão, não seria 18,3 mas 13,3 (que é o que resta da expectativa média de vida), o que, feitos os cálculos, daria uma pensão de 170.000 coroas, ou seja, 36% superior.

O Estado facilitador

O novo sistema de pensões é ainda demasiado recente para ser devidamente avaliado. No entanto, 72 cenários projetados referem a solidez do mesmo. De momento não se prevê qualquer situação em que seja necessário usar o “travão” do sistema. Durante os cinco anos de pleno funcionamento geraram-se sempre excedentes no balanço entre contribuições e pagamento corrente de pensões o que, somado ao rendimento do fundo de pensões, proporcionou o aumento de capital dos mesmos ou, o que vai dar ao mesmo, ao incremento do plafond de estabilidade. Estes fundos coletivos de capitalização investiram o seu “haver” numa diversidade de valores, maioritariamente em ações. A sua rentabilidade tem variado, por isso, de acordo com as variações das bolsas de valores mas, em média, foi claramente superior ao crescimento da economia sueca e à subida de salários no país.

O Banco Mundial é uma das várias organizações que têm elogiado o novo sistema sueco, aconselhando a sua aplicação noutros países, o que já é uma realidade, com alguma alterações, no caso da Letónia. As características deste sistema são o resultado de uma combinação de elementos de sistemas muito díspares, compatibilizando alternativas que frequentemente são vistas como antagónicas. Trata-se, em suma, de um bom exemplo do pragmatismo renovador que a Suécia buscava para um novo modelo social.

As reformas levadas a cabo desde os anos 90 transformaram a Suécia num país muito diferente do que era antes. Um estudo da OCDE, de fevereiro de 2007, resume assim a sua avaliação sobre a economia sueca: “a Suécia pode regozijar-se pelo excelente desenvolvimento macroeconómico com altas taxas de crescimento, baixo desemprego e expectativas inflacionárias estáveis. As reformas empreendidas ainda durante os anos 90 estão dando frutos em termos de crescimento, produtividade e PIB”. Esta nova Suécia está muito mais próxima da sua tradicional busca pelo middle way, o caminho intermédio que a tornou mundialmente conhecida e do qual se afastou quando se converteu num país extremista, relativamente à expansão e ambição do Estado.

Em termos muito simples podemos classificar os estados sociais existentes num plano cujos extremos contrapostos são o modelo minimalista e o modelo maximalista. Ao primeiro chamaremos “estado subsidiário”, o qual pode ser exemplificado pelo estado de bem-estar dos Estados Unidos. Ao segundo chamaremos “estado benfeitor” e o seu exemplo paradigmático é a Suécia do período anterior à crise dos anos 90. O middle way, ou “estado facilitador”, combina certas características daqueles modelos contrapostos, formando uma espécie de modelo misto. A transição da Suécia para este novo modelo deu-se a uma velocidade surpreendente, o que, entre outras coisas, explica porque internacionalmente se continua a falar de um “modelo sueco” que só existe nos livros de História.

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Notas:

1 Fonte: A. Madisson (2001).

2 “Casa comum”.

3 Fonte: U.S. Department of Labour (2006).

4 Em 1959 era de 25%.

5 Este problema clássico explica, por exemplo, que o sistema tributário dos Estados Unidos fosse muito mais progressivo que o sueco. E também por que a Suécia tinha os impostos mais altos do mundo sobre os salários baixos, o que dificultava enormemente a criação de empregos.

6 “Comunidade nacional”.

7 Não esquecer que o texto original de Rojas é de 2008.

8 http://www.capio.com.

9 Mais uma vez recordamos que o texto original de Rojas é de 2008.

10 Caso o trabalhador em questão não queira exercer o seu direito de escolher esses fundos de capitalização, isto será feito por um fundo de colocação de capitais da administração Pública.

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A nossa edição:

Mauricio Rojas, Reinventar el Estado del Bienestar (La Experiencia de Suecia), Gota a Gota Ediciones, Madrid, 2014 (edição digital da obra impressa em 2008).

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Foto retirada de: alchetron.com.

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Exatamente um mês depois de publicarmos este artigo saiu no youtube um interessantíssimo documentário de Johan Norberg sobre a realidade sueca que aqui deixamos à consideração dos nossos leitores. Estão disponíveis legendas em português (do Brasil).

A realidade sueca escapa, em muitos aspetos, à visão tradicional que se tem da Suécia no estrangeiro.

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José Manuel Pureza: desonestidade e moralismo

pureza1
Pureza, um moralista assumido da esquerda caviar.

José Manuel Pureza escreveu um artigo de opinião no último semanário”Expresso”. O título: “A Esquerda, a Política e a Moralidade”. O conteúdo: nós, os de esquerda temos moral, ao contrário deles, os da direita, seres amorais, frios, pragmáticos, maquiavélicos e “sem alma”. Pureza elabora esta brilhante dicotomia a partir das críticas que os direitistas (“engajados” ou “não assumidos”) fizeram a Robles, o especulador imobiliário que prega contra a especulação; e também a partir de um comentário do primeiro-ministro, quando este foi entrevistado há uma semana pelo “Expresso”. Em nenhum momento dessa entrevista o primeiro-ministro defende o pragmatismo (ou, claro, o amoralismo) mas isso não impede Pureza de extrair as premissas que lhe convêm das (supostas) entrelinhas da entrevista (lendo o que não está lá) para concluir do modo que igualmente lhe convém: com um “juízo crítico, eticamente fundamentado”. E não se coíbe de considerar uma “construção habilidosa” esta frase do primeiro-ministro, sobre Robles: “Não imagino que quem prega com tanta virulência a moral política cometesse pecadilhos”. “Construção habilidosa”, mas também “ironia sobranceira” e “maniqueísmo  moralista primário”. Assim reage Pureza (como o apelido lhe assenta bem!) a uma frase  quase inócua do seu colega de geringonça. Ou seja, Pureza projeta no primeiro-ministro a sua flagrante desonestidade intelectual, o seu palavreado tonitruante e vazio; e não percebe que a crítica ao moralismo dos dirigentes do Bloco, independentemente de vir da Direita ou da Esquerda (sim, também veio da Esquerda e igualmente de quem não é, e recusa – por muito que os Purezas deste mundo o empurrem – ser de esquerda ou de direita), é precisamente porque o moralismo (e não a moral) contém (tal como no comportamento de Robles e no artigo de Pureza – apenas dois casos entre muitos) essa componente de desonestidade. Ele não percebe, mas a maioria dos portugueses, que não são estúpidos, sabe-o bem: a moral e a ética não se apregoam, praticam-se, e não são privilégio de nenhuma organização, grande ou pequena, política ou não.

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Foto retirada de: http://www.expresso.sapo.pt.

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Colombo, Sri Lanka

A iconografia dos templos hindus é muito interessante, como se comprova pela fachada do Sri Kailasanathar Swamy Devasthanam, em Colombo. Hinduístas (12,6%) budistas (70,2%),  muçulmanos (9,7%) e cristãos (7,4%) convivem pacificamente. Os principais conflitos no Sri Lanka são de origem étnica e não religiosa.

O Sri Lanka é um país bastante influenciado pela proximidade à Índia, de onde chegaram os primeiros habitantes da ilha. No século XIV uma dinastia do Sul da Índia formou um governo tamil no Nordeste do território, antes da chegada dos portugueses, que dominaram o comércio nas zonas costeiras, no início do XVI. Depois vieram os holandeses (século XVII) e mais tarde os ingleses (século XVIII), que, à época, formavam já o maior império mundial de sempre. Na altura a ilha era conhecida como Ceilão e, embora independente desde 1948, apenas lhe mudaram o nome para Sri Lanka em 1972.

Interior do templo budista Gangaramaya. Belíssimo.

Depois disso, as crescentes tensões entre a maioria singalesa e a minoria tamil culminaram numa guerra civil, que se iniciou em julho de 1983 e durou mais de um quarto de século. Negociações intermediadas pela Noruega conduziram a um cessar-fogo em 2001, mas a guerra nunca verdadeiramente terminou e ganharia nova força, em 2006, até os tamis serem derrotados, em maio de 2009. Os governantes pós-conflito, primeiro o presidente Mahinda Rajapaksa e depois o presidente Maithripala Sirisena e o primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe (o Sri Lanka tem um regime semi-presidencialista), procuraram desenvolver o país, criando infraestruturas (sobretudo com financiamento chinês), e aprofundar a democracia, respeitando os direitos humanos e promovendo a reconciliação nacional.

No templo Sri Ponnambalam Vanesar Kovil.

De acordo com dados governamentais, cerca de 900.000 pessoas deslocadas devido ao conflito interno, estavam realojadas em outubro de 2017 (o total de habitantes do Sri Lanka ronda os 22 milhões e meio). A reconciliação nacional parece bem encaminhada. O desenvolvimento do país passa também pelo combate à corrupção (um dos principais problemas), pelo potenciamento da excelente localização geográfica (sobretudo para o comércio marítimo) e pelo incremento do turismo, como pudemos comprovar durante a nossa curta estadia.

O nosso motorista junto da viatura em que percorremos Colombo.

Resta dizer que, a par da corrupção, um dos principais problemas do Sri Lanka é a degradação ambiental: as atividades de mineração provocam a erosão de zonas costeiras; e o saneamento básico é ainda incipiente, o que, em conjunto com os resíduos industriais, provoca a poluição dos recursos de água potável. Uma boa forma de conhecer Colombo, a capital, é alugando um tuk-tuk, pelo preço médio de 10 dólares/hora. O motorista levá-lo(a)-á aos locais mais interessantes (o que durará, no máximo, 4/5 horas). Isto, claro, contribuirá ainda mais para a poluição da cidade, que, como também foi notório durante a nossa estadia, é bastante elevada. Porém, passear a pé durante o dia em Colombo é pouco recomendável – o calor é muito difícil de suportar.

A cidade de Colombo vista do mar.

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