Desonestidade e Moralismo

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Pureza, moralista assumido da esquerda caviar.

José Manuel Pureza escreveu um artigo de opinião no último semanário”Expresso”. O título: “A Esquerda, a Política e a Moralidade”. O conteúdo: nós, os de esquerda temos moral, ao contrário deles, os da direita, seres amorais, frios, pragmáticos, maquiavélicos e “sem alma”. Pureza elabora esta brilhante dicotomia a partir das críticas que os direitistas (“engajados” ou “não assumidos”) fizeram a Robles, o especulador imobiliário que prega contra a especulação; e também a partir de um comentário do primeiro-ministro, quando este foi entrevistado há uma semana pelo “Expresso”. Em nenhum momento dessa entrevista o primeiro-ministro defende o pragmatismo (ou, claro, o amoralismo) mas isso não impede Pureza de extrair as premissas que lhe convêm das (supostas) entrelinhas da entrevista (lendo o que não está lá) para concluir do modo que igualmente lhe convém: com um “juízo crítico, eticamente fundamentado”. E não se coíbe de considerar uma “construção habilidosa” esta frase do primeiro-ministro, sobre Robles: “Não imagino que quem prega com tanta virulência a moral política cometesse pecadilhos”. “Construção habilidosa”, mas também “ironia sobranceira” e “maniqueísmo  moralista primário”. Assim reage Pureza (como o apelido lhe assenta bem!) a uma frase  quase inócua do seu colega de geringonça. Ou seja, Pureza projeta no primeiro-ministro a sua flagrante desonestidade intelectual; e não percebe que a crítica ao moralismo dos dirigentes do Bloco, independentemente de vir da direita ou da esquerda (sim, também veio da esquerda e igualmente de quem não é, e recusa – por muito que os Purezas deste mundo o empurrem – ser de esquerda ou de direita), é precisamente porque o moralismo (e não a moral) contém (tal como no comportamento de Robles e no artigo de Pureza – apenas dois casos entre muitos) essa componente de desonestidade. Ele não percebe, mas a maioria dos portugueses, que não são estúpidos, sabe-o bem: a moral e a ética não se apregoam, praticam-se, e não são privilégio de nenhuma organização, grande ou pequena, política ou não.

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Foto retirada de: http://www.expresso.sapo.pt