Sardenha

Baunei, a nossa base na Sardenha.

A Sardenha é uma ilha espetacular, multifacetada, com praias magníficas, montanhas, rica gastronomia, bom vinho e uma cultura ancestral. Apesar de fazer parte da Itália, a Sardenha tem uma identidade própria, com uma história e uma língua singulares. Uma língua – o sardo – que se divide em dois dialetos principais: o logudorês, no centro-norte, e o campidanês, a sul, sendo que o primeiro tem ainda três variantes. Mas quanto a dialetos, pelo menos, existem mais três: na cidade de Alghero, no noroeste, fala-se catalão; em Carloforte e Calasseta, no extremo sudoeste, um dialeto originário da Ligúria; no norte, em La Madallena, Gallura, Sassari e na zona costeira de Anglona, fala-se gallura e sassarese, por influências italiana e toscana. Finalmente, claro, fala-se italiano, a língua oficial.

Esta diversidade linguística pressupõe, como seria de esperar, uma grande diversidade cultural. De facto, desde os tempos do Paleolítico que a Sardenha é visitada por humanos e desde o Neolítico antigo, há cerca de 6000 anos, que é permanentemente ocupada. Os primeiros homens que se fixaram em Gallura e na parte mais setentrional da ilha provinham provavelmente da península italiana, particularmente, da Etrúria; os que povoaram a parte central da Sardenha, em torno das lagoas de Cabras e Santa Justa, procediam da Península Ibérica, através das ilhas Baleares; e os que se instalaram na zona do Golfo de Cagliari eram oriundos de África. Mais tarde chegariam outros grupos, vindos da Anatólia e do Mar Egeu.

Assim, é justo dizer que a Sardenha nunca foi composta por um único povo, mas sim por muitos.

Recanto em Santa Maria Navarrese.

Estes povos mantiveram-se politicamente divididos, umas vezes confederados, outras vezes em guerra uns contra os outros. Ao princípio as tribos viviam em aldeias constituídas por casas circulares, de pedra com tetos de palha, e a partir de 1500 a. C. começaram a construir as aldeias junto a fortalezas posicionadas estrategicamente em zonas elevadas para melhor avistarem os inimigos. Estas fortalezas, de forma cónica, reforçadas e ampliadas com torres de vigia, chamavam-se nuraghes. Ainda se encontram hoje, na Sardenha, cerca de 7000.

Por volta do ano 1000 a. C., os fenícios começaram a visitar cada vez mais frequentemente as costas da Sardenha para se abrigarem durante a noite ou em ocasiões de mau tempo. Em 509 a. C., a expansão dos fenícios para o interior da ilha era já demasiado ameaçadora e profunda, provocando uma reação violenta dos sardos, que atacaram as cidades costeiras onde os fenícios se haviam instalado, obrigando-os a pedir ajuda a Cartago.

Punta Predalonga.

Foi então que os cartagineses ou púnicos, em distintas campanhas militares, venceram os sardos e conquistaram toda a Sardenha, exceto a parte montanhosa, mais tarde chamada de Barbaria ou Barbagia. Durante 271 anos, a esplêndida civilização cartaginesa confrontou-se com a fascinante civilização nurágica indígena. Porém, em 238 a. C., os cartagineses, derrotados pelos romanos na Primeira Guerra Púnica, foram obrigados a ceder a Sardenha, que se tornou uma província de Roma. A ocupação romana durou 694 anos e, apesar das lutas que frequentemente os sardos travavam, atingiu a própria Barbagia, acabando com a civilização nurágica. Os romanos impuseram assim, apesar da resistência, a língua e civilização latinas.

Em 456, quando o império romano se encontrava já em plena decadência, os vândalos de África ocuparam Caralis (Cagliari) e as demais cidades costeiras da Sardenha, mas em 534 os vândalos foram foram derrotados, perto de Cartago, pelas tropas do imperador Justiniano, e a Sardenha passou a ser bizantina. A ilha foi dividida em distritos e o cristianismo difundiu-se, exceto na Barbagia onde, em finais do ano 500, se formara um novo e efémero estado independente, com tradições religiosas e laicas sardo-pagãs, do qual Ospitone foi um dos soberanos. Os quatro distritos, chamados merèie, eram governados por um judex residente em Caralis.

Francisco passeando por Tortolì.

Desde 640 até 732 os árabes ocuparam o Norte de África, Espanha, Portugal e parte de França, e em 827 empreenderam a conquista da Sicília. A Sardenha permaneceu isolada e teve de defender-se por si mesma. Os ataques dos árabes começaram em 703 e tornaram-se mais ferozes com o decorrer do tempo. O judex provinciae, para melhor defender a ilha, delegou os seus próprios poderes civis e militares aos seus quatro lugar-tenentes das merèie de Cálari, Torres, Gallura e Arborea que, em 900, conseguiram a sua independência, tornando-se eles próprios judices (em sardo judikes, ou seja, reis) desses territórios.

Cada reino tinha fronteiras, parlamento, leis (Cartas de Logu), línguas nacionais, emblemas e símbolos estatais próprios; e cada um destes quatro estados – comummente chamados giudicati – era um reino não apenas soberano mas igualmente democrático, porque todas as importantes decisões nacionais não cabiam ao rei, mas aos representantes do povo reunidos num parlamento chamado Corona de Logu.

Cala Goloritzè.

Em 1297, o papa Bonifácio VIII, para resolver diplomaticamente a Guerra das Vésperas, que havia estalado em 1282 entre angevinos (reino de Nápoles) e aragoneses pela posse da Sicília, instituiu por motu proprio um “regnum Sardiniae et Corsicae” outorgando-o, como feudo, ao catalão Jaime II, “o Justo”, rei da coroa de Aragão (uma união real formada pelos reinos de Aragão e Valência, mais o Principado da Catalunha), prometendo-lhe o seu apoio, se este quisesse conquistar a Sardenha, em troca da Sicília.

Em 1323, Jaime II de Aragão aliou-se aos reis de Arborea e, ao cabo de uma campanha militar que durou cerca de um ano, conquistou os territórios da Cagliari e de Gallura bem como a cidade de Sassari formando um estado com o título e nome de reino de “Sardenha e Córsega”, incorporado posteriormente à coroa de Aragão, sob o governo de um lugar-tenente do rei, primeiro, governador-geral e depois vice-rei. As cidades de Cagliari, Iglesias e Sassari pagavam os seus tributos diretamente ao rei e, por essa razão, tinham o título de reais; por seu lado, as aldeias estavam sob o regime de feudo e portanto pagavam tributo aos barões locais.

Descansando um pouco em pleno Parque Nacional do Golfo de Orosei e do Gennargentu.

Em 1353 estalou a guerra entre o reino de Arborea, que pretendia reunir a ilha sob o seu domínio, e o reino de “Sardenha e Córsega”. Em 1354 os aragoneses apoderaram-se de Alghero, que se converteu numa cidade plenamente catalã e que mantém, ainda hoje as suas tradições ibéricas. Em 1355, Pedro IV de Aragão permitiu a criação no reino de “Sardenha e Córsega” de um parlamento com poder legislativo e de um Real Conselho de Justiça com poder judicial

Em 1409, Martinho I, o Jovem, rei da Sicília e herdeiro de Aragão, derrotou os sardos giudicali en Sanluri e conquistou definitivamente toda a Sardenha, morrendo pouco depois de malária, em Cagliari, sem deixar descendentes, tendo a sucessão da coroa de Aragão sido determinada pelo Compromisso de Caspe de 1412, passando assim para as mãos dos castelhanos. Em 1479 nasceu a coroa de Espanha, através da união pessoal entre Fernando II de Aragão e Isabel de Castela (chamados de “Reis Católicos”), que se haviam casado dez anos antes. E o reino da Sardenha (agora separado da Córsega, pois esta ilha nunca fora conquistada) tornou-se espanhol, com o símbolo statuale dos Quatro Mouros.

Conquistando a Barbagia, o coração da Sardenha.

Depois de fracassadas as expedições militares contra os muçulmanos em Tunes (1535) e Argel (1541), Carlos V fortaleceu as costas da Sardenha com uma série de torres-vigia para defender os seus territórios mediterrânicos das incursões corsárias dos berberes africanos. O reino da Sardenha permaneceu ibérico durante quase 400 anos, desde 1324 até 1720, absorvendo muitas tradições, costumes, expressões linguísticas e modos de viver espanhóis que se podem observar ainda hoje nos desfiles folclóricos de Santo Efísio, em Cagliari (1º de maio), da Cavalcata, em Sassari (penúltimo domingo de maio) e do Redentore, em Nuoro (29 de agosto).

Em 1708, devido à Guerra de Sucessão espanhola que opunha Filipe de Bourbon a Carlos da Áustria, o governo do reino da Sardenha passou para as mãos dos austríacos, que haviam desembarcado na ilha. Em 1717, o cardeal Alberoni, ministro de Filipe V de Espanha, voltou a ocupar a Sardenha. Em 1718, através do Tratado de Londres, o reino da Sardenha foi entregue aos duques de Saboia, príncipes do Piamonte que o juntaram, sob a forma federativa, aos seus estados continentais. O reino italianizou-se.

Um jantar memorável.

Em 1799, devido às guerras de Napoleão em Itália, os Saboia abandonaram Torino refugiando-se, durante uns 15 anos, em Cagliari, capital do reino. Em 1847, os sardos renunciaram espontaneamente à sua própria personalidade de Estado e fundiram-se com o Piamonte para terem, assim, um único parlamento, uma única magistratura e um único governo em Torino.

Em 1848 começaram as guerras independentistas para alcançar a unidade política da península italiana dirigidas pelos reis da Sardenha durante 13 anos. Em 17 de março de 1861 o Reino de Sardenha mudou o seu nome para Reino de Itália. Finalmente, em 1946, através de um referendo popular, o Estado italiano constituiu-se como República e, em 1948, a Sardenha garantiu uma autonomia especial, com as suas quatro províncias de Sassari (norte), Oristano (oeste), Nuoro (leste) e Cagliari (sul), as quais remarcam com alguma aproximação os quatro antigos e gloriosos estados giudicali.

Esta introdução histórica, talvez demasiado longa, tem como fonte o livro de Francesco Cesare Casula indicado no fim deste artigo.

Cale dei Gabbiani.

Tal como a história da Sardenha, também a nossa visita à ilha foi bastante atribulada. O nosso voo tinha uma escala em Barcelona, mas uma tempestade nesta cidade, nesse preciso dia, provocou atrasos em inúmeros voos, incluindo o nosso, fazendo com que milhares de pessoas perdessem os voos de ligação programados. Para complicar ainda mais as coisas, três das malas que transportávamos desapareceram, ficando três, dos cinco que viajávamos, sem muda de roupa. Finalmente, face ao elevado número de pessoas em situação idêntica à nossa, os hotéis em Barcelona estavam esgotados, pelo que nos levaram num autocarro para um hotel a uns 100 quilómetros de distância, já muito perto da fronteira com a França, aonde chegámos de madrugada, cansados e desiludidos. Passadas três horas tivemos de acordar (os que conseguiram dormir alguma coisa) para regressarmos ao aeroporto, desta vez num táxi que, dada a confusão gerada (as pessoas que foram no mesmo autocarro para o hotel tinham voos diversificados) tivemos de lutar para apanhar, pois havia outro grupo pretendente (os taxistas só sabiam o número de pessoas que vinham buscar, e a que hora, não tinham nenhuma indicação sobre a identidade dos passageiros). A nossa sorte foi que, em desespero – um de nós era uma criança de ano e meio que um dia antes de viajar tinha ficado doente – nos atirámos para dentro do táxi e nos recusámos a sair… E lá fomos para o aeroporto, sem dormir, sem roupa e sem a certeza de que apanharíamos o avião para Cagliari, pois a distância era longa e teríamos de atravessar a região de Barcelona para chegarmos ao aeroporto, e estava um trânsito monumental. Mas lá conseguimos. As três malas é que teimavam em não aparecer…

Francisco com os seus novos amigos – o cão de salvamento “Arturo” e Gianni Scanu – na Cale dei Gabbiani.

Chegámos assim à Sardenha um dia depois do previsto. O carro que tínhamos previamente alugado já não estava disponível. Tivemos que alugar outro carro, pagando o dobro e perdendo o valor total do aluguer do anterior veículo, que já tínhamos pago. Enfim, lá fomos no nosso carro novo em direção a Baunei, onde alugáramos alojamento, mas antes parámos em Cagliari para comprar alguma roupa, pois três de nós só tínhamos a que trazíamos vestida há muitas horas. Apesar de tudo, quando nos fizemos à estrada íamos animados, com a sensação de que o pior já teria passado. E tínhamos razão. Instalados na nossa casa de Baunei fizemos um spaguetti com carne para o jantar, acompanhado por um vinho branco da Sardenha, que nos souberam divinalmente.

No dia seguinte acordámos revigorados e fomos dar uma volta pelas redondezas. Descemos a Santa Maria Navarrese, uma pequena e agradável vila com porto de recreio, posto de turismo, praias, restaurantes e outros serviços, e visitámos a Punta Pedralonga, um local onde, como o nome indica, se formou uma enorme rocha, em forma de ponta de lança, apontada ao céu. À tarde deslocámo-nos a Tortolì, uma cidade maior, com muito comércio, onde aproveitámos para, com tempo, comprarmos mais alguma roupa que nos fazia falta. Dois dias após a nossa chega à Sardenha, as três malas continuavam sem aparecer.

São inúmeras as pequenas praias escavadas nas rochas do Golfo de Orosei.

Baunei, a pequena vila onde nos instalámos, fica no topo de uma montanha, mesmo ao lado do Parque Nacional do Golfo de Orosei e do Gennargentu, instituído em 30 de março de 1998. Gennargentu é um maciço que inclui vários picos, entre eles o mais alto da ilha – Punta la Marmora, 1834 metros acima do nível do mar. Aos pés desse alto maciço encontram-se algumas das praias mais bonitas da Europa. Estas praias são de difícil acesso, escavadas na rocha, mas isso, apesar de representar algum perigo, só as torna mais exclusivas e tentadoras. Cala Goloritzé é uma delas. Quem quer visitá-la por terra só pode fazê-lo a pé, caminhando por mais de 3 horas (ida e volta). Nós quisemos. E valeu a pena. Trata-se de uma praia pequena mas incrivelmente bonita, rodeada pela montanha escarpada, e por uma água azul-turquesa de agradável temperatura. Depois de descermos e subirmos por caminhos de pedra solta, carregando o Francisco, sentimos que o nosso terceiro dia na Sardenha estava mais que preenchido. Só restava regressar a Baunei, comer e… dormir.

No quarto dia da nossa estadia decidimos ir para Norte. Seguimos a SS 125, atravessámos o maciço, passámos por Urzulei (a zona da antiga Barbagia) e iniciámos a descida para Orosei. Aqui chegados fomos até à praia para darmos um mergulho e nos refrescarmos um pouco. Pouco tempo volvido reparámos num rapaz que, caminhando pela praia, envergava uma camisola do Sporting e, claro, fomos falar com ele. Para nossa surpresa era um irlandês, casado com uma sarda (dito assim tem a sua a sua piada…), e a camisola do Sporting tinha-lhe sido oferecida por um amigo conterrâneo que vivera em Lisboa. É comum acontecerem coincidências agradáveis a quem viaja, somos testemunhas disso, e este irlandês, por solidariedade clubística, que sempre ajuda, aconselhou-nos um restaurante, situado na montanha, para jantarmos.

Regressando da nossa visita por mar ao Golfo de Orosei.

Bom, na verdade não se trata apenas de um restaurante, mas mais de uma quinta de agroturismo que também serve refeições. Para obterem autorização de exercício de atividade, pelo menos 80% do que é servido no restaurante tem que ser produzido na quinta. Escusado será dizer que comemos e bebemos com plena satisfação. Regressámos a Baunei quando a noite já ia adiantada, debatendo sobre o que fazer no dia seguinte. Soubemos que em Santa Maria Navarrese faziam passeios marítimos e decidimos ir lá ver.

No dia seguinte, já no porto de recreio de Santa Maria Navarrese disseram-nos que poderíamos alugar uma embarcação a motor e passearmos pela costa por nossa conta, sem necessidade de guia. Pareceu-nos uma ótima ideia e, depois de comprarmos alguns mantimentos para a viagem, embarcámos em mais esta aventura. Com o embalar da ondulação, o Francisco adormeceu durante uma boa hora, ou mais. Fomos navegando junto à costa, observando as escarpas, as grutas, as pequenas praias, os diferentes tons do mar… Parámos em frente à praia da Cala Goloritzè, arriamos ferro e, um por um, fomos mergulhando no mar magnífico. O Francisco, por seu turno, continuava mergulhado no sono. Quando nos apeteceu, levantámos ferro e seguimos. Até que encontrámos uma praia com acesso pelo mar (o que é proibido na Cale Goloritzè), e decidimos ir até lá. O Diogo manobrou para que pudéssemos sair do barco, com o Francisco, em segurança, foi depois estacioná-lo onde é permitido, e veio a nado ter connosco.

Outro amigo sardo que aceitou posar connosco por troca com o colega que estava a tirar a fotografia.

A praia chama-se Cale dei Gabbiani (em tradução livre: praia das Gaivotas) e é, sem dúvida muito bonita, embora não tenha areia, antes calhaus provenientes das rochas. Depois de comermos travámos conhecimento com um senhor da Proteção Civil da Sardenha – Gianni Scanu – que se fazia acompanhar por um belo cão de salvamento, equipado a rigor, o Arturo. Estes cães, muito bem treinados, são extremamente dóceis, e o Francisco rapidamente fez amizade com o Arturo.

(Soubemos recentemente que uma das raças a que a Guarda Costeira italiana mais recorre é o cão d’água português, dada a extraordinária apetência destes cães para tarefas no mar. O próprio Gianni tem agora um cão d’água chamado Pancho. Estes cães são muito admirados pelos treinadores e instrutores da Escola Italiana de Cães de Salvamento. Um artigo sobre o cão d’água português pode ser lido no nosso blogue em https://ilovealfama.com/2013/10/08/cao-de-agua-portugues/).

Ao fim da tarde regressámos a Santa Maria Navarrese, inteiros, incluindo o barco. Apesar de o tempo não ter ajudado muito, fora um passeio memorável. Aquela zona da costa, junto ao maciço de Gennargentu, é de uma beleza singular. Tivemos o privilégio de visitar as suas praias, por terra e por mar. E por conta própria.

Ir a Itália e não comer pizza é como ir a Roma e não ver o papa. Na praia de Orrì.

A nossa estadia na Sardenha estava a chegar ao fim. No dia seguinte teríamos de rumar a Cagliari para os voos de regresso, desta vez via Madrid. Mas antes de terminarmos, queremos deixar uma palavra ao acolhedor povo de Baunei: o senhor do talho que já nos cumprimentava quando passávamos à sua porta; as moças do minimercado sempre atenciosas e disponíveis; as jovens da gelataria onde comprávamos os sorvetes com leite de cabra; e mesmo as velhinhas vestidas de preto que víamos nas ruas de Baunei. Sempre nos rodearam de simpatia.

Assim, no nosso último dia de viagem, às 11 da manhã, saímos da casa que durante seis dias (deveriam ter sido sete) habitáramos em Baunei. Não percorremos diretamente os 150 quilómetros até Cagliari, fizemos uma paragem em Tortolì para almoçarmos. Quando estávamos a chegar a Tortolì, recebemos uma chamada da dona da casa que alugáramos, dizendo que tinha à porta um funcionário de uma transportadora que nos queria entregar umas malas… As malas! No último dia na Sardenha, quando já nem sequer estávamos na morada indicada, chegaram as três malas perdidas! In extremis. Pedimos então ao senhor da transportadora que nos entregasse as malas em Tortolì. E assim se fez. Metidas todas as malas no carro, lá rumámos à capital da Sardenha para apanharmos o avião de regresso, desta vez sem peripécias de maior.

Cagliari vista do avião na hora da despedida.

A Sardenha é uma ilha fantástica e só conhecemos uma parte muito pequena dela, ainda que uma belíssima parte. Ficou a vontade de voltarmos. Veremos se se concretizará um dia. Até lá ficam as recordações de uma viagem cujo registo aqui realizado tem mais de ano e meio de atraso. A nossa estadia na Sardenha deu-se entre 12 e 17 de junho de 2019, iniciando-se um dia depois do previsto.

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A nossa edição:

Francesco Cesare Casula, Carlo Delfino, Historia de Cerdeña, Sassari, 2000.

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Maldivas, Malé

Crepúsculo no Oceano Índico.

A República das Maldivas é um arquipélago composto por 1.190 pequenas ilhas agrupadas em 26 grupos ou atóis. Estes atóis formam uma longa e estreita cadeia com cerca de 750 quilómetros (de norte para sul, ou vice versa) no Oceano Índico, cobrindo uma área total de cerca de 90.000 quilómetros quadrados. As massas terrestres mais próxima são o cabo Comorim, no extremo sul da Índia, 480 quilómetros a nordeste; e o Sri Lanka, um pouquinho mais para leste, a 650 quilómetros. A capital é Malé, uma ilha muito pequena, com menos de 2 quilómetros de comprimento e de largura, totalmente plana – como, aliás, todas as outras ilhas, cuja altura máxima não ultrapassa os 2,5 metros – onde se concentram, além de edifícios, veículos, embarcações, a maior parte dos 500.000 habitantes das Maldivas. Uma ponte construída pelos chineses liga Malé à ilha vizinha de Hulmumale, a única com espaço para albergar um aeroporto – o internacional de Velana.

Malé, uma cidade incrível, plana, demasiado exposta ao mar. Uma onda gigante pode literalmente varrê-la do mapa.

Os turistas que visitam as Maldivas raramente ficam em Malé; alguma embarcação rápida (para os hotéis mais perto) ou hidroavião (para os atóis mais longínquos) levá-los-á a um dos resorts, mais ou menos exclusivos, onde podem desfrutar de alguns dias paradisíacos com o mar sempre aos pés. Nós, pelo contrário, não saímos de Malé. Caminhámos por toda a cidade, falámos com as pessoas, visitámos os mercados, as docas, os restaurantes (onde não se pode beber álcool), as lojas, algumas pequenas livrarias (sempre buscamos um livro local) e os edifícios públicos. Tudo fica perto de tudo, alcançável depois de alguns minutos a pé.

Os maldívios autogovernaram-se durante a maior parte do tempo histórico, excetuando um breve período no século XVI em que foram governados pelos portugueses a partir de Goa. Em 1752, houve também um período de apenas 3 meses de regência “malabari”. Em 1887, as Maldivas tornaram-se um protetorado britânico, mas não houve nunca presença física dos britânicos em Malé, que continuou a ser dirigida pelos seus próprios sultões até ao fim de 1952. No dia 1 de janeiro de de 1953 formou-se a primeira república, que teve vida curta, regressando as Maldivas ao sultanato em 1954. Por sua vez, o sultanato foi abolido em 1968 com a formação da segunda república. A independência foi alcançada em 1965. Apesar de não dever lealdade à rainha, em 1984 as Maldivas tornaram-se membro da Comunidade Britânica (British Commonwealth).

Zona central de Malé.

A sociedade maldívia é profundamente muçulmana. Avisos afixados em diversos locais apelam aos turistas para respeitarem as tradições locais. Por exemplo, as mulheres não podem usar bikini e ninguém pode estar de tronco nu nas pequenas praias da capital. Por outro lado, as atrações arquitetónicas são escassas ou nulas. Assim, se quiser ir às Maldivas, escolha um resort de acordo com a sua bolsa, desfrute das águas magníficas do Índico, da paz de uma pequena ilha que por alguns dias é de apenas de uns quantos sortudos, entre os quais você – e relaxe. É do turismo que as Maldivas vivem. Aqui só o peixe não é importado.

Há, porém, um lado preocupante neste paraíso. Um aumento da temperatura global e a consequente subida das águas pode submergir estas magníficas ilhas praticamente planas, que os maldívios terão de abandonar. Um segundo perigo ainda mais preocupante é a possibilidade de algum tsunami as varrer, não dando tempo aos habitantes de abandoná-las. O tsunami de 26 de dezembro de 2004 provocou ondas de até 1,5 metros de altura, mas é possível que ocorra um tsunami maior e, claro, muito mais devastador. O nosso conceito de paraíso não contempla tamanha fragilidade.

A nossa visita às Maldivas foi curta. Ficámos apenas na sala de visitas – Malé.

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A nossa edição:

Ali Hussain, Mysticism in the Maldives, Novelty Publication, Malé, 1991.

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A ressurreição, por Gustav Mahler

Mahler trabalhou na sua Segunda Sinfonia entre 1888 e 1894, e reviu-a em 1903.

Em dia de Páscoa deixamos um apontamento dessa magnífica obra mahleriana, a sinfonia nº 2, “Ressurreição” (em que, tal como nas sinfonias 3 e 4 – as chamadas Sinfonias Wunderhorn – intervem a voz humana), registado em Leipzig, Alemanha, no ano de 2011. O maestro é o carismático italiano Riccardo Chailly, que tivemos a felicidade de ver ao vivo noutras ocasiões. Páscoa Feliz!

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Veneza

Chegámos a Veneza ao anoitecer, mas a cidade é bonita a qualquer hora.

Veneza é uma daquelas cidades que todos querem conhecer: famosa, monumental, romântica, uma potência marítima mundial na Idade Média e no Renascimento, cuja riqueza se pode observar hoje através dos belos palácios, catedrais, pontes e outros emblemáticos edifícios da cidade. Quando lá chegamos – refiro-me à ilha principal, cortada pelo Grande Canal – só podemos circular de barco ou a pé. Veneza parece uma cidade flutuante, e de certa maneira é-o: foi construída em cima de plataformas de pedra colocadas sobre estacas de madeira cravadas no fundo da lagoa. Um trabalho engenhoso que requer muita manutenção. É difícil evitar a erosão que assola estas ilhas, provocada sobretudo pela invernia, mas também pelo intenso tráfego marítimo. As embarcações são variadas, desde as carreiras de transporte de passageiros, os cruzeiros turísticos e os táxis, passando pelas ambulâncias, a recolha de lixo e os funerais, até todo o tipo de abastecimentos; tudo é realizado com o recurso a embarcações. Veneza é, pois, seja onde for que o visitante já tenha estado, uma cidade única, inigualável, de uma beleza vibrante e quase surreal.

Praça de São Marcos e a basílica homónima.

Trata-se também de uma cidade frágil. Há sempre o receio que a chuva e as marés se associem para a inundarem, e essa condição delicada sente-se quando a visitamos. Veneza é feminina.

Chegámos já de noite ao nosso hotel e só no dia seguinte iniciámos as deambulações pela cidade que visitáramos há quarenta anos, no longínquo ano de 1979. Começámos por uma caminhada até à Praça de São Marcos. Aqui se impõe a basílica homónima e, ao lado, o Palácio Ducal, que podem e devem ser visitados. A longa varanda da basílica é um local privilegiado para observar a praça, as suas esplanadas e o formigueiro de transeuntes caminhando em todas as direções. A Basílica de São Marcos é provavelmente o edifício mais simbólico de Veneza e também um dos mais antigos. Embora a sua configuração atual seja relativamente recente, a construção realizou-se por fases ao longo de muitos séculos. Visitámos primeiro a igreja e depois, subindo uma escadaria exterior, à direita do portão principal, o museu.

A bela quadrilha do evangelista, no Museu da Basílica de São Marcos, situado no piso superior.

O resto do dia passámo-lo a fazer o que de melhor se pode em Veneza: percorrer as ruas sinuosas e estreitas, cruzar os canais por pontes de variadíssimos tamanhos e estilos, observar as gôndolas, governadas por hábeis barqueiros de camisolas listadas, azuis (ou vermelhas) e brancas, onde casais abraçados se reclinam para trás, para melhor observarem as belas fachadas dos edifícios da cidade. Como seria de esperar, parámos algumas vezes para provar as comidas rápidas e típicas de Itália – pasta e pizza – e apreciar o trânsito do Grande Canal, numa das tantas esplanadas espalhadas pelos cais, que aqui também são ruas.

No dia seguinte apanhámos um vaporetto para Burano, uma pequena ilha a cerca de uma hora de distância.

Ao que dizem, as casas típicas de Burano são repintadas a cada dois anos.

A principal atração deste burgo são as típicas casas coloridas e as suas rendas merletto. Durante a nossa visita o tempo esteve quase sempre escuro, com chuva frequente, o que não nos permitiu presenciar todo o esplendor do colorido das fachadas que se duplicam nos espelhos de água, que são os canais. As principais atividades económicas entre os cerca de 3 mil habitantes da ilha são, pois, o turismo, o artesanato (sobretudo renda) e a pesca. O que se deve fazer por aqui é, como seria expectável, calcorrear o que se puder. Foi o que fizemos. No final da visita a Burano, antes de nos dirigirmos ao cais de embarque para regressarmos a Veneza, retemperámos forças num dos cafés/restaurantes da praça central – Piazza Baldassare Galuppi – cujo nome celebra um ilustre compositor italiano, filho da terra.

O Grande Canal.

Chegados a Veneza caminhámos um bom par de quilómetros até ao hotel, desfrutando das vistas magníficas e do ambiente romântico do anoitecer. Esta seria a nossa última noite em Veneza e, embora o tempo não fosse o mais convidativo, despedimo-nos com um jantar na rua, junto ao rio Cannaregio, de frente para a formosa Ponte delle Guglie.

No dia seguinte regressámos a Portugal.

Ponte de Rialto. Ao lado (edifício ocre) situa-se o magnífico Hotel Rialto.

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Um ano de pandemia – entre a esperança e o desespero

Passou apenas um ano desde que diagnosticaram o primeiro caso de covid-19 em Portugal mas parece que já passaram cinco. As pessoas estão cansadas desta vida tão estranha. E, o pior de tudo, estão desesperadas por não saberem quando podem regressar à sua vida normal.

A incerteza e a impossibilidade de planeamento afetam-nos profundamente, habituados que estamos a viver em sociedades altamente organizadas.

Por outro lado, as notícias e as declarações contraditórias também não diminuem a incerteza. As pessoas temem pelo futuro, sobretudo aquelas que trabalhavam em serviços ligados à restauração, ao turismo, em estabelecimentos comerciais, em geral; e todas as que estão ameaçadas pelo desemprego, pelas insolvências, pelas perdas de rendimentos e de património, enfim, pela ruína. A questão que todos colocam é a seguinte. Quando poderemos voltar em pleno às nossas atividades?

A resposta, infelizmente, ninguém sabe, pois depende de vários fatores.

O mais importante deles prende-se com a possibilidade de variantes mais graves do corona vírus surgirem, sobretudo alguma variante que as atuais vacinas não consigam cobrir em termos de eficácia. É uma possibilidade terrível, mas está no horizonte. Já se provou que a chamada “variante brasileira”, por exemplo, é mais contagiosa e mais agressiva. E há quem fale, cada vez mais, no fechamento efetivo das fronteiras, pois já não conseguiremos controlar a pandemia apenas com confinamentos seletivos.

Entretanto, os especialistas de bancada multiplicam-se. Sabemos pouco (ou, pelo menos, não o suficiente) sobre o vírus, mas talvez por isso mesmo, ninguém se coíbe de dar palpites.

Isto conduz-nos a algo interessante. O cientista estuda, testa, reflete e, mesmo quando tem a convicção de um determinado resultado, fica na dúvida, pois sabe que pode ter-se esquecido de algum pormenor importante. O que ele mais deseja é publicar os resultados que obteve junto dos seus pares, para aferir se são credíveis ou não. Já o leigo não precisa de nada disso. Basta-lhe ter um palpite, e como sempre tem um para qualquer coisa, por vezes acerta. É assim que muitos se julgam tão ou mais inteligentes que os cientistas, chegando mesmo a negar a ciência.

No entanto, é a ciência que salva vidas; é a ciência que permite esta civilização, apesar de tudo, fantástica que temos; e é à ciência que devemos este feito espantoso de termos milhões de vacinas disponíveis menos de um ano depois do aparecimento dos primeiros casos de covid-19.

A ciência não é infalível e o seu campo de ação está sempre a aumentar, pelo que os problemas científicos nunca diminuirão, antes crescerão sempre. Mas a ciência é o conhecimento mais verdadeiro que existe e o seu método de tentativa e erro é também o mais racional. Os cientistas sabem que erram, mas é por estarem conscientes disso que podemos confiar no seu trabalho.

Se aparecerem novas estirpes, imunes às atuais vacinas, resta-nos a esperança de que os cientistas consigam adaptar as vacinas já existentes a essas novas variantes do vírus antes que produzam demasiado estrago. Caso contrário, o desespero que já se apoderou de alguns de nós irá, por um período que nos parecerá sempre demasiado longo, prevalecer.

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Patria y Vida

Este vídeo beneficia de letra, música, interpretações e realização excecionais.

Em 1964, no final de um discurso célebre nas Nações Unidas, Che Guevara proferiu uma frase que se tornaria até hoje a palavra de ordem do regime cubano: “Patria o Muerte!” Cinquenta e sete anos depois, no início de 2021, um grupo de artistas cubanos lançou uma canção, cujo título não poderia afastar-se mais daquela célebre frase de Che: “Patria y Vida!”

O vídeo desta canção, menos de duas semanas após o seu lançamento, tem já mais de dois milhões e meio de visualizações no youtube. E, claro, a reação em Cuba foi imediata. Os órgãos do regime apressaram-se a denegrir o tema. Na televisão, o jovem apresentador Lázaro Manuel Alonso deixou claro que “Patria y Vida” não é uma expressão original, fora já usada por Fidel em 23 de dezembro de 1999, perante uma plateia estudantil. Por seu turno, o governo cubano promoveu uma campanha denominada “Morrer pela Pátria é Viver”, apelando aos cubanos para que cantassem e aplaudissem o seu hino nacional no dia 18 de fevereiro às 21:00, como resposta a “Patria y Vida”, que membros do governo classificaram de “trapaceira e cobarde” e os seus autores de “ratos” e “mercenários”.1

Tudo isso não impediu que este tema se tornasse viral em Cuba. Os depoimentos de vários jovens entrevistados em Havana pela agência Reuters, bem como inúmeros vídeos publicados nas redes sociais, provam-no. “Patria y Vida” transformou-se num símbolo da resistência ao regime, e o vídeo da canção foi profusamente divulgado nas redes sociais. A checa Dita Charanzová, vice-presidente do Parlamento Europeu, publicou-o na sua conta do Twitter, acompanhado das seguintes palavras: “Para que todo o mundo tome consciência da realidade cubana”.

Dita Charanzová é uma cidadã do mundo livre, atenta ao que se passa no mundo oprimido. No entanto, muitos dos nossos concidadãos ainda olham com simpatia ou indulgência para a ditadura cubana, talvez por a considerarem mais suave que outras ditaduras. Che Guevara e Fidel Castro são vistos como heróis de uma revolução que libertou o povo do jugo de Fulgêncio Batista, no primeiro dia de 1959. Mas o que talvez não saibam é que rapidamente Fidel Castro passou a governar baseando-se nos “ódio, poder e dinheiro”, tal como nos diz a insuspeita neurocirurgiã cubana Hilda Molina, que conviveu durante muitos anos com o próprio Fidel (foi pedida em casamento por ele). Hilda considera que Fidel era um “psicopata”2. De resto, os testemunhos sobre o ditador são inúmeros e estão acessíveis, basta procurá-los.

Mas não é suficiente ir de férias para Varadero, falar com os empregados dos hotéis, visitar os locais preparados (muitas vezes exclusivos) para os turistas e daí extrair um retrato de Cuba. É preciso contatar os cubanos comuns, aqueles que circulam pelas ruas e habitam nas casas degradadas de Havana; falar com eles, ganhar a sua confiança, perceber como vivem e, sobretudo, saber o que pensam, para se ter uma ideia mais precisa do que se passa no país.

(Há cinco anos e meio estivemos em Cuba. O relato sobre essa visita foi publicado neste blogue e pode ser lido aqui.)

Finalmente, o que importa perceber é que em decorrência de qualquer ditadura revolucionária em nome do povo há sempre um contraste abismal entre o ditador e esse mesmo povo: o primeiro vive sempre no luxo e na sumptuosidade; o segundo vive sempre na opressão e na miséria. Fidel Castro, por exemplo, esse grande Comandante de Cuba durante meio século, vivia sumptuosamente. Tinha uma ilha privada, inúmeros imóveis e uma fortuna imensa, calculada em dólares e não em pesos cubanos, proveniente de, na prática, ser dono das maiores empresas estatais cubanas e mentor de esquemas sofisticados de narcotráfico.3

A regra que determina a relação entre ditador e povo é válida para todas as ditaduras revolucionárias e, deste ponto de vista, não há gradação entre elas; não há — nunca houve até hoje na história humana — ditaduras revolucionárias suaves.

Os cubanos merecem a Liberdade.

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1 https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-56135900?fbclid=IwAR03nbvrpA-ae59hdFy90cRPa-8SGk3u1GBuBn77eHPWGkYdbcKSbyfoXyg

2 Ver entrevista a Hilda Molina aqui.

3 Juan Reinaldo Sánchez, A Face Oculta de Fidel Castro, Planeta, Lisboa, 2015.

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Biblioteca Pessoal

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Amado, JorgeCapitães da AreiaC.ª das Letras, São Paulo2015/FL
Amado, JorgeA Morte e a Morte de Quincas Berro d’ ÁguaC.ª das Letras, São Paulo2015/FL
Amado, JorgeO País do CarnavalDom Quixote, Lisboa2016/FL
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Lispector, ClariceQuase de Verdade e outros ContosRocco, Rio de Janeiro2022/FL
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Lourenço, EduardoO Labirinto da SaudadeGradiva, Lisboa2020/I
Louro, SóniaAmália, o Romance da Sua VidaSaída de Emergência, Lisboa2012/B-FL
Louro, SóniaO Cônsul DesobedienteSaída de Emergência, Lisboa2015/B-FL
Lovelock, JamesGaia — Um Novo Olhar sobre a Vida na TerraEdições 70, Lisboa2020/C
Lovelock, JamesNovaceno — O Advento da Era da HiperinteligênciaEdições 70, Lisboa2020/C
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Rosa, João GuimarãesManuelzão e MiguilimNova Fronteira, Rio de Janeiro2001/FL
Rosa, João GuimarãesA Hora e Vez de Augusto MatragaNova Fronteira, Rio de Janeiro2013/FL
Rosa, João GuimarãesSagaranaNova Fronteira, Rio de Janeiro2012/FL
Rosa, João GuimarãesNoites do Sertão (Corpo de Baile)Nova Fronteira, Rio de Janeiro2016/FL
Rosa, João GuimarãesTutameia (Terceiras Estórias)Nova Fronteira, Rio de Janeiro2018/FL
Rosa, João GuimarãesFita Verde no CabeloGlobal, S. Paulo2022/FL
Rosa, João GuimarãesZooGlobal, S. Paulo2023/FL
Rosa, Tomás daIlha Morena – ContosNúcleo Cultural, Horta2003/FL
Rosenblatt, HelenaA História Esquecida do LiberalismoEdições 70, Lisboa2021/I
Ross, DavidAristótelesDom Quixote, Lisboa1987/F
Roth, PhilipThe Plot Against AmericaVintage, London2004/FNL
Roth, PhilipCasei com um ComunistaC.ª das Letras, São Paulo2014/FNL
Roth, PhilipA Mancha HumanaLeya, Alfragide2016/FNL
Rousseau, Jean JacquesDo Contrato SocialMartin Claret, São Paulo2000/I
Rousseau, Jean JacquesA Origem da Desigualdade entre os HomensLafonte, São Paulo2012/I
Rovelli, CarloSete Breves Lições de FísicaPenguin, Lisboa2014/C
Ruben AViagem para Delos e MyconosExpo 98 S. A., Lisboa1997/V
Rudenko, SergiiVolodymyr Zelensky – BiografiaCasa das Letras, Alfragide2022/B
Rulfo, JuanPedro PáramoCavalo de Ferro2017/FNL
Rushdie, SalmanThe Enchantress of FlorenceVintage, London2014/FNL
Russell, BertrandOs Problemas da FilosofiaArménio Amado, Coimbra1974/F
Rutherford,F./Ahlgren, AndrewCiência para TodosGradiva, Lisboa1995/C
Sabino, FernandoA Companheira de ViagemRecord, Rio de Janeiro2002/FL
Sabino, FernandoO Encontro MarcadoRecord, Rio de Janeiro2004/FL
Sacco, MarcelloMille per una NotteTuga Edizioni, Bracciano2020/FNL
Sagalés, Irene CordónOs primeiros impérios da históriaAtlântico Press, Lisboa2017/H
Sagan, CarlO Cérebro de BrocaGradiva, Lisboa1987/C
Salinger, J.D.The Catcher in the RyePenguin, New York2018/FNL
Sampaio, GustavoPorque Falha Portugal?Manuscrito, Queluz de Baixo2017/I
Sánchez, Juan ReinaldoA Face Oculta de Fidel CastroPlaneta, Lisboa2015/B
Sandel, Michael J.O Que o Dinheiro não CompraCivilização Brasileira, Rio de Janeiro2012/E
Santana, Maria JoséIlhas da RiaFFMS, Lisboa2021/I
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Santareno, BernardoNos Mares do Fim do MundoExpo 98 S. A., Lisboa1997/FL
Sant’ Elmo, RuiLaços de FamíliaExpo 98 S. A., Lisboa1997/FL
Santiago, SilvianoMachadoC.ª das Letras, São Paulo2017/B
Santo, Gabriel do EspíritoGrandes Batalhas da História de Portugal – VVerso da História, Vila do Conde2007/H
Santos, GervásioLeonardo de Carvalho Castello BrancoZoodíaco, Teresina2012/H
Santos, Henrique Pereira dosPortugal: Paisagem RuralFFMS, Lisboa2017/I
Santos, JoelFotografia – Luz, Exposição, Composição, EquipamentoCentro Atlântico, Famalicão2017/A
Santos, JoelFoto HDR Centro Atlântico, Famalicão2014/A
Santos, José RodriguesImortalGradiva, Lisboa2019/FL
Santos, José TrindadeAntes de SócratesGradiva, Lisboa1985/F
Santos, Luís555 Problemas de XadrezEditorial Caminho, Lisboa1996/I
Santos, Pedro MartaHeróis da História de PortugalGuerra e Paz Editores, Lisboa2011/B-H
Sapkota, Tanka & Sapkota, Anjali e AdarshaAs Nossas Receitas para Cozinhar em Família – IIIReverso, Lisboa2017/G
Sapolsky, Robert M.Comportamento – A biologia humana no nosso melhor e piorTemas e Debates, Lisboa2018/C
Saraiva, José HermanoHistória Concisa de PortugalEuropa-América, Mem Martins1978/H
Saramago, JoséMemorial do ConventoEditorial Caminho, Lisboa1983/FL
Saramago, JoséHistória do Cerco de LisboaEditorial Caminho, Lisboa1989/FL
Saramago, JoséViagem a PortugalEditorial Caminho, Lisboa1995/V
Saramago, JoséMoby Dick em LisboaExpo 98 S. A., Lisboa1996/FL
Saramago, JoséEnsaio Sobre a CegueiraPorto Editora, Lisboa2014/FL
Saramago, JoséO Ano da Morte de Ricardo ReisPorto Editora, Lisboa2016/FL
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Sartre, Jean-PaulO Ser e o NadaCírculo de Leitores, Lisboa1993/F
Sassmannshausen, KatjaNew ZealandKönemann, Paris2020/V
Satter, DavidQuanto Menos Soubermos, Melhor DormimosZigurate, Lisboa2022/I
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Schopenhauer, ArthurO Livre-ArbítrioNova Fronteira, Rio de Janeiro2012/F
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Seethaler, RobertUma Vida InteiraPorto Editora, Lisboa2019/FNL
Segalen, VictorOs Homens de Fala-NovaExpo 98 S. A., Lisboa1996/FNL
Seldes, BarryLeonard Bernstein Editorial Bizâncio, Lisboa2010/B
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SênecaSobre a Brevidade da VidaC.ª das Letras, São Paulo2017/F
Shafak, Elif10 Minutos e 38 Segundos Neste Mundo EstranhoPresença, Barcarena2020/FNL
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Silva, Susana Roteiros Republicanos – Ponta DelgadaQuidNovi, Lisboa2010/H
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Silva, AgostinhoVida ConversávelAssírio & Alvim, Lisboa1994/I
Silva, AgostinhoA Última ConversaEditorial Notícias, Lisboa1996/I
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Smith, AliPor AcasoC.ª das Letras, S. Paulo2006/FNL
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Snyder, TimothyDa LiberdadeD. Quixote, Lisboa2025/F
Snyder, TimothySobre a TiraniaRelógio D’Água, Lisboa2017/F
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Soares, Luísa DuclaO Segredo da FelicidadeCivilização, Porto2012/FL
Soares, MárioPortugal Amordaçado (7 vol.)Expresso, Lisboa2017/I
Sobral, LuísaNem Todas as Árvores Morrem de PéD. Quixote, Alfragide2025/FL
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Soljenitsyn, AleksandrArquipélago GulagCarambaia, S. Paulo2019/FNL
Solomon, AndrewO Demónio da Depressão – Um atlas da doençaQuetzal, Lisboa2016/C
Solomon, AndrewLonge da ÁrvoreQuetzal, Lisboa2017/I
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Solomon, AndrewLugares DistantesQuetzal, Lisboa2021/V
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Starnone, DomenicoLaçosTodavia, São Paulo2021/FNL
Starnone, DomenicoSegredosTodavia, São Paulo2021/FNL
Steinhardt, InácioRaízes dos Judeus em PortugalVega, Lisboa2012/H
Sterne, LaurenceA Vida e Opiniões de Tristram Shandy (2 vol.)Antígona, Lisboa1997/FNL
Stevenson, Robert LouisO Clube dos SuicidasVega, Lisboa1989/FNL
Stevenson, Robert LouisOs Homens AlegresExpo 98 S. A., Lisboa1997/FNL
Stevenson, Robert LouisA Ilha do TesouroRelógio D’ Água, Lisboa1995/FNL
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Suassuna, ArianoO Santo e a PorcaJosé Olympio, Rio de Janeiro2003/FL
Suassuna, ArianoAuto da CompadecidaNova Fronteira, Rio de Janeiro2012/FL
Tabucchi, AntonioA Mulher de Porto PimExpo 98 S. A., Lisboa1996/FNL
Talbot, DavidIrmãos KennedyGlaciar, Lisboa2018/B
Tanner, MichaelNietzscheEdições Loyola, São Paulo2004/F
Tavares, AntónioAdministração Pública PortuguesaFFMS, Lisboa2019/I
Tavares, Gonçalo M.JerusalémEditorial Caminho, Lisboa2011/FL
Tavares, Miguel SousaEquadorOficina do Livro, Cruz Quebrada2007/FL
Taylor, MarcoA História que Acaba BemMarco Taylor, Lisboa2020/FL
Tchekhov, AntonAs Três IrmãsNova Cultural, São Paulo2003/FNL
Tchekhov, AntonAs Três IrmãsAbril Cultura, São Paulo1976/FNL
Teixeira-Gomes M.Agosto AzulExpo 98 S. A., Lisboa1997/V
Telles, Lygia FagundesAntes do Baile VerdeC. ª das Letras2021/FL
Temin, Peter & Vines, DavidKeynes, Uma Teoria Útil à Economia MundialDom Quixote, Lisboa2015/E
Tenório, JefersonO Avesso da PeleC.ª das Letras, São Paulo2022/FL
Telles, Lygia FagundesOs Melhores ContosGlobal, São Paulo1988/FL
Theroux, PaulViagem por ÁfricaQuetzal, Lisboa2019/V
Theroux, PaulO Grande Bazar FerroviárioQuetzal, Lisboa2019/V
Thiong’O, Ngugi WaSonhos em Tempo de GuerraGlobo, Rio de Janeiro2015/FNL
Tinhorão, José RamosMúsica Popular – Um Tema em DebateEditora 34, São Paulo1997/A
Tirole, JeanEconomia do Bem ComumGuerra & Paz, Lisboa2018/E
Titiev, MischaIntrodução à Antropologia CulturalGulbenkian, Lisboa1992/C
Tokarczuk, OlgaSobre os Ossos dos MortosTodavia, São Paulo2021/FNL
Tokarczuk, OlgaCorrentesTodavia, São Paulo2021/FNL
Tokarczuk, Olga/ Concejo, JoannaUm Senhor NotávelBaião, S. Paulo2023/FNL
Tokarczuk, Olga/ Concejo, JoannaA Alma PerdidaTodavia, S. Paulo2024/FNL
Tolstói, LievGuerra e Paz (2 vols.)Cosac Naify, São Paulo2013/FNL
Tolstói, LievContos Completos (3 vols.)Cosac Naify, São Paulo2015/FNL
Tolstói, LievOs Três EremitasExpo 98, S. A., lisboa1997/FNL
Tolstói, LievAnna KariêninaC.ª das Letras, São Paulo2021/FNL
Torga, MiguelBichosCoimbra1995/FL
Torga, MiguelPortugalLeya, Alfragide2015/V
Towns, Brian Singer (edt.)Bíblia SagradaPaulus, Lisboa2015/I
Trasi, AmitaTodas as Cores do CéuHarper Collins, Rio de Janeiro2018/FNL
Travers, P.L.Mary PoppinsCosac Naify, São Paulo2014/FNL
Trevisan, DaltonCemitério de ElefantesRecord, Rio de Janeiro2009/FL
Tse, LaoTao Te King — Livro do Caminho e do Bom CaminharRelógio D’Água, Lisboa2010/F
Turguêniev, IvanPais e FilhosC.ª das Letras, S. Paulo2024/FNL
Tyson, Neil de GrasseAstrofísica para Gente com PressaGradiva, Lisboa2017/C
Ulítskaia, LiudmilaMeninasEditora 34, São Paulo2021/FNL
Umbral, FranciscoMortal e RosaCampo das Letras, Porto2003/FNL
Ungaretti, GiuseppeLições de Literatura no Brasil, 1937-1942Ática, São Paulo1996/I
Urbani, Maria Da VillaSt. Mark’s BasilicaEditions Kina, Italy2000/A
Vallejo, IreneO Infinito num JuncoBertrand, Lisboa2019/FNL
Varela, FagundesPoemasRecord, Rio de Janeiro1998/P
Várzea, VirgílioNúpcias MarinhasExpo 98 S. A., Lisboa1997/FL
Vasconcelos, JorgeA Energia em PortugalFFMS, Lisboa2019/I
Vaz, Júlio MachadoOlhos nos Olhos – histórias de sexo e de vidaDom Quixote, Lisboa2007/FL
Vegar, José (org.)Reportagem- uma antologiaAssírio & Alvim, Lisboa2001/I
Veiga, Carlos MargaçaGrandes Batalhas da História de Portugal IV Verso da História, Vila do Conde2007/H
Venâncio, FernandoAssim Nasceu Uma Língua Guerra & Paz, Lisboa.2019/I
Ventura, JorgeSempre mais AlémGuerra & Paz, Lisboa.2025/V
Ventura, Margarida GarcezGrandes Batalhas da História de Portugal IVerso da História, Vila do Conde2007/H
Vergeest, AukjeMeet Vincent Van GoghVan Gogh M., Amsterdam2020/A-B
Verde, CesárioO Livro do Cesário VerdeL & PM, Porto Alegre2003/P
Verga, GiovanniJuramentos de MarinheiroExpo 98 S. A., Lisboa1998/FNL
Verissimo, EricoO Tempo e o Vento (parte 3)- O Arquipélago (3 vol.)Globo, São Paulo2004/FL
Verissimo, EricoOlhai os Lírios do CampoC.ª das Letras, S. Paulo2005/FL
Verissimo, EricoIncidente em AntaresC.ª das Letras, S. Paulo2023/FL
Veríssimo, Luis FernandoAs Mentiras que os Homens ContamD. Quixote, Alfragide2016/FL
Verne, JúlioA Volta ao Mundo em 80 DiasPúblico, Porto2004/FNL
Verne, JúlioA Volta ao Mundo em 80 DiasHetzel2025/FNL
Vialatoux, JosephA Intenção FilosóficaAlmedina, Coimbra1979/F
Vicente, GilAuto da Barca do InfernoAlêtheia Editores, Lisboa2017/FL
Vicente, Pedro AntónioGrandes Batalhas da História de Portugal VIVerso da História, Vila do Conde2007/H
Vichot, Julio CubríaBreve História de CubaCapitán San Luis, Havana2014/H
Vieira, JoaquimJosé Saramago, Rota de VidaLivros Horizonte, Lisboa2018/B
Vieira, José LuandinoKapapaExpo 98 S. A., Lisboa1998/FL
Vieira, Marlene & Vieira, IsabelAs Nossa Receitas para Cozinhar em Família – IIReverso, Lisboa2017/G
Vieira, MayaraAbsolutamente CrônicaPenalux, São Paulo2017/I
Vieira, Padre AntónioSermão de Santo António aos PeixesExpo 98 S. A., Lisboa1997/I
Vieira, Padre AntónioEscritos Históricos e PolíticosMartins Fontes, São Paulo2002/I
Vieira, Padre AntónioSermões: Sexagésima/S. António aos Peixes/do MandatoAlêtheia Editores, Lisboa2017/I
Vila-Nova, MargaridaMargarida na AustráliaGuerra e Paz, Lisboa2007/V
Villada, Camila SosaO Parque das Irmãs MagníficasTusquets, S. Paulo2023/FNL
Villada, Camila SosaTese sobre uma DomesticaçãoC.ª das Letras, S. Paulo2024/FNL
Vilaró, Carlos PáezPosdata, AutobiografiaPrisa Ediciones, Montevideo2012/B
VirgílioEneidaNova Cultura, São Paulo2003/FNL
Volpe, Galvano DellaRousseau e Marx, a Liberdade IgualitáriaEdições 70, Lisboa1982/F
VoltaireTratado sobre a TolerânciaRelógio D’ Água, Lisboa2015/F
Wagner, JeanO Guia do Jazz – Iniciação à história e estética do JazzPergaminho, Lisboa1990/A
Walker, MatthewPorque Dormimos?Desassossego, Porto Salvo2019/C
Wallace, David FosterO Rei PálidoC.ª das Letras, S. Paulo2022/FNL
Ware, ChrisJimmy Corrigan, o Menino Mais Esperto do MundoQuadrinhos na Cia, São Paulo2009/FNL
Washington, IrvingA ViagemExpo98 S. A., Lisboa1997/V
Watson, James D.A Dupla HéliceGradiva, Lisboa1987/C
Wells, H. G.Uma Breve História do MundoL & PM, Porto Alegre2013/H
Welsh, FrankThe History of the WorldQuercus, London2011/H
Westad, Odd AnneA Guerra Fria — uma história do mundoTemas e Debates, Lisboa2018/H
Weyl, HermannSimetriaGradiva, Lisboa2017/C
Whitehead, ColsonOs Caminhos para a LiberdadeHarper Collins, Rio de Janeiro2017/FNL
Whitehead, ColsonReformatório NickelHarper Collins, Rio de Janeiro2021/FNL
Whiehead, ColsonNas Ruas de Sag HarborHarper Collins, Rio de Janeiro2025/FNL
Wilde, OscarO Retrato de Dorian GrayEstampa, Lisboa1995/FNL
Wilde, OscarO Pescador e a sua AlmaExpo 98 S. A., Lisboa1997/FNL
Wilde, OscarThe Picture of Dorian GrayEli Readers, Italy2010/FNL
Williams, RichardMiles Davis – The man in the green shirtBloomsbury, London1993/A
Wisnik, José MiguelVeneno Remédio – O Futebol e o BrasilC.ª das Letras, São Paulo2008/I
Wittgenstein, LudwigTratado Lógico-Filosófico/ Investigações FilosóficasGulbenkian. Lisboa1987/F
Wolf, MartinAs Mudanças e os ChoquesClube do Autor, Lisboa2014/E
Wolff, TobiasNo Exército do FaraóTeorema, Lisboa1997/FNL
Woolf, VirginiaOrlandoRelógio D’ Água, Lisboa1994/FNL
Woolf, VirginiaMrs. DallowayEuropa-América, Lisboa2007/FNL
Wrangham, RichardPegando Fogo – Por que cozinhar nos tornou humanosZahar, Rio de Janeiro2010/C
Wrangham, RichardGoodness ParadoxProfile Books, London2019/C
Wright, RichardFilho NativoC.ª das Letras, S. Paulo2024/FNL
Wulf, AndreaA Invenção da NaturezaTemas e Debates, Lisboa2016/B
Yanagihara, HanyaUma Vida PequenaRecord, Rio de Janeiro2025/FNL
Yekelchyk, SerhyUcrânia – O Que Toda a Gente Precisa de SaberEdições 70, Coimbra2022/H
Yesudian, SelvarajanIoga e SaúdeCultrix, São Paulo1987/I
Yimin, ZhouStamford Raffles, Founder of Modern SingaporeAsiapac Books, Singapore2002/B-H
Young, FernandaPosso Pedir Perdão, Só Não Posso Deixar de PecarLeYa, São Paulo2019, FL
Yousef, Mosab HassanFilho do HamasAlma dos Livros, Odivelas2024/H
Yourcenar, MargueriteMemórias de AdrianoUlisseia, Lisboa1997/FNL
Zambujal, Isabel & Pedro, MariaGrandes Compositores (6 volumes)Expresso, Lisboa2010/A
Zenith, RichardPessoa – Uma BiografiaQuetzal, Lisboa2022/B
Zizek, SlavojProblema no ParaísoZahar, Rio de Janeiro2015/I
Zmigrod, LeorO Cérebro IdeológicoD. Quixote, Alfragide.2025/C
Zúquete, AfonsoNobreza de Portugal – Os Reis (8 vol.)Alêtheia Editores, Lisboa2018/H
Zweig, StefanFernão de Magalhães – A Biografia (3 vol.)Alêtheia Editores, Lisboa2019/B-H
Classificação: A— Arte e Arquitetura; B— Biografias; C— Ciências; D— Dicionários e Gramáticas; E— Economia; F— Filosofia; FL— Ficção lusófona; FNL— Ficção Não Lusófona; G— Gastronomia; H— História, Política e Geopolítica; I— Interdisciplinares ou de difícil classificação (ensaios e temas diversos); P— Poesia; V— Viagens e Locais.

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Número de volumes da biblioteca, de Jorge e Fla, em 25/03/2026: 1211.

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Democracia e sistemas eleitorais

Esta foto rara de Karl Popper foi-nos gentilmente cedida pelo neozelandês Daniel Barnes.

A recente aprovação do orçamento para 2021, com mais de 300 alterações para garantir a viabilização do PCP, gerou uma justificada avalanche de críticas e voltou a colocar no debate político a velha questão da lei eleitoral e a necessidade urgente de alterá-la. Miguel Sousa Tavares escreveu no último “Expresso”: “Não existindo um partido ou uma coligação com maioria absoluta saída das urnas, entramos na tal zona pantanosa onde nada é certo e tudo é possível. Podemos votar no partido vencedor mas não ser ele a governar; ou pode ser ele a governar mas com um Orçamento que não é o seu mas sim o resultado de múltiplas alterações que alianças circunstanciais de sentidos políticos opostos lhe impuseram ou de que ele próprio teve de aceitar contra vontade”.

Este é um tema político muito importante, mas parece que ninguém, dentro do espetro partidário português está interessado em abordá-lo. O que lamentavelmente se constata é que os interesses partidários se sobrepõem ao supremo interesse nacional. Por ser este, como se vê, um tema muito atual, deixamos aqui a visão de Karl Popper sobre o assunto: uma abordagem racional a um problema complexo. O texto de Popper que vamos transcrever de seguida é, por sua vez, a transcrição de um artigo escrito, em 3 de agosto de 1987, na revista alemã Der Spiegel e posteriormente publicado no livro de Popper A Vida é Aprendizagem, uma coletânea de ensaios e palestras que, nas palavras do próprio Popper, “pode ser considerada uma continuação do livro In Search of a Better World” e cuja primeira edição, em Portugal, saiu no ano 2001 pelas Edições 70.

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Sobre a Teoria da democracia

O que mais me desperta interesse é o que diz respeito à natureza – e à ciência natural ou cosmologia. Depois de ter abando nado o marxismo em julho de 1919 apenas me interessava pela política e pela teoria política enquanto cidadão – e democrata. Mas os movimentos totalitários da Esquerda e da Direita que surgiram nos anos vinte e no início da década de trinta e, por fim, a tomada do poder por Hitler na Alemanha, forçaram-me a pensar seriamente na questão da democracia.

Embora o meu livro The Open Society anda Its Enemies nem uma só vez mencionasse Hitler e os nazis, foi escrito com a intenção de constituir o meu contributo para a guerra contra eles. É uma defesa teórica da democracia contra os ataques antigos e novos dos seus inimigos; foi publicado pela primeira vez em 1945 e desde então teve muitas reedições. Mas o que considero ser a sua ideia mais importante parece não ser muitas vezes bem entendido.

Como toda a gente sabe, etimologicamente “democracia” significa “governo do povo” ou “soberania popular”, contrapondo-se a “aristocracia” (governo pelos melhores ou mais notáveis) e “monarquia” (governo por um indivíduo). Mas o significado da palavra não nos ajuda muito. Pois o povo não governa em parte alguma; são sempre os governos que exercem o poder (e infelizmente também os burocratas e funcionários, que só com muita dificuldade podem ser responsabilizados, e mesmo assim nem sempre). Além disso, a Grã-Bretanha, a Dinamarca, a Noruega e a Suécia são monarquias mas também excelentes exemplos de democracia (talvez à exceção da Suécia, onde uma burocracia fiscal inimputável exerce poderes ditatoriais) – ao contrário da República Democrática Alemã, que infelizmente de democrática não tem nada.

Qual é a verdadeira questão?

Na realidade apenas existem duas formas de Estado: aqueles em que é possível livrarmo-nos de um governo sem derramamento de sangue e aqueles em que tal não é possível. É isto que importa – não o nome que se dá ao tipo de estado. Normalmente a primeira destas formas é denominada “democracia” e a segunda “ditadura” ou “tirania”. Mas não vale a pena discutirmos palavras (como a República “Democrática” Alemã). O que importa é se o governo pode ou não ser mudado sem um banho de sangue.

Existem inúmeras maneiras de substituir um governo. O melhor método é a ida às urnas: novas eleições ou um voto num parlamento já eleito podem deitar abaixo um governo. Isso é certamente importante. É portanto um erro colocar a ênfase (como tantos fizeram de Platão a Marx e mesmo posteriormente) na seguinte questão: “Quem deve governar? O povo (o proletariado) ou os mais capazes? Os (bons) trabalhadores ou os (pérfidos) capitalistas? A maioria ou a minoria? O partido da Esquerda, o partido da Direita ou o partido do Centro?” Todas estas são falsas questões. Pois não interessa quem manda desde que seja possível derrubar um governo sem derramamento de sangue. Qualquer governo passível de ser derrubado tem um forte incentivo para agir de um modo que agrade ao povo. E este incentivo perde-se se o governo souber que não pode ser expulso com essa facilidade.

Para demonstrar quão importante é na prática esta simples teoria da democracia, gostaria de aplicá-la à questão da representação proporcional. O facto de criticar aqui um sistema eleitoral enraizado na constituição da república testada e comprovada deve ser encarado como uma mera tentativa da minha parte de debater algo que raramente é debatido. As constituições não devem ser alteradas de ânimo leve, mas é bom discuti-las com espírito crítico, quanto mais não seja para nos conscencializarmos da sua importância.

As democracias da Europa Ocidental continental diferem substancialmente dos sistemas eleitorais do Reino Unido e dos Estados Unidos, que se baseiam no princípio da representação local. Na Grã-Bretanha cada círculo eleitoral envia como seu representante ao parlamento a pessoa que obteve maior número de votos. Oficialmente não é tido em consideração a que partido essa pessoa pertence, nem sequer se pertence a algum partido. O seu dever é representar os eleitores locais da melhor maneira que for capaz e de acordo com a sua consciência, quer essas pessoas pertençam ou não a qualquer partido. é evidente que existem partidos e estes desempenham um papel da maior importância na formação dos governos. Mas se um representante crê que é do interesse do seu círculo eleitoral (ou talvez da nação) votar contra o seu partido, ou mesmo sair dele, tem obrigação de proceder desse modo. Winston Churchill, o maior estadista do nosso século, nunca se limitou a cumprir ordens e de facto mudou duas vezes de partido. No continente a situação é bastante diversa. A proporcionalidade significa que cada partido obtém o número de lugares no parlamento – por exemplo no Bundestag – que representam mais fielmente os votos por ele obtidos em todo o país.

Assim, os partidos encontram-se enraizados nas leis fundamentais e os deputados individuais são escolhidos oficialmente para representar o seu partido. Deste modo, um deputado não pode em determinadas circunstâncias ter o dever de votar contra o seu partido. Na realidade tem uma obrigação moral para com o seu partido, pois foi escolhido para representá-lo e a mais ninguém. (Caso não consiga continuar a conciliar este facto com a sua consciência tem o dever moral de se demitir – mesmo que o seu círculo eleitoral o não deseje).

Obviamente que estou ciente de que é necessária a existência de partidos: ainda ninguém inventou um sistema democrático capaz de viver sem eles. Mas os partidos políticos não são totalmente satisfatórios. Por outro lado, as coisas não funcionam sem eles. As nossas democracias não são governos pelo povo, mas sim governos pelos partidos – ou seja, governos dos dirigentes partidários. Pois quanto maior é um partido menos unido e menos democrático é, e menor é também a influência dos que nele votaram na direção e no programa do partido. É um erro pensar-se que um parlamento eleito por representação proporcional reflete melhor o povo e os seus desejos. Não representa o povo e as opiniões deste, mas tão somente a influência que vários partidos (e propaganda partidária) tiveram no eleitorado no dia das eleições. E isso torna mais difícil que o ato eleitoral seja o que podia e deveria ser: um dia em que o povo julga a atividade do governo.

Logo, não existe uma teoria válida da soberania popular que requeira uma representação proporcional. Devemos portanto interrogar-nos de que modo a representação proporcional funciona na prática: primeiro na formação dos governos e em segundo lugar na questão de importância crucial que é o derrube destes.

  1. Quantos mais partidos existirem mais difícil se torna a formação de um governo. Sabemo-lo através da experiência, mas também é óbvio. Quando apenas existem dois partidos é fácil formar governo. Mas a representação proporcional faz que seja possível mesmo para os pequenos partidos obter uma enorme (muitas vezes decisiva) influência na formação de um governo e deste modo inclusive nas decisões do governo. Toda a gente concordará que tal é verdade e toda a gente sabe que a representação proporcional aumenta o número de partidos. Mas se considerarmos que a “essência” da democracia é a soberania popular, enquanto democratas temos de engolir estes problemas pois a proporcionalidade parece ser “essencial”.
  2. A representação proporcional, e portanto a multiplicidade de partidos, pode ter consequências ainda piores na importante questão do derrube do governo através do veredito popular, em novas eleições parlamentares. Em primeiro lugar, o povo sabe que existem muitos partidos e portanto dificilmente esperará que um deles alcance a maioria absoluta. Portanto, quando as coisas correm segundo o previsto, o veredito popular não foi de facto expresso contra nenhum dos partidos. Nenhum deles foi expulso, nenhum sofreu qualquer tipo de julgamento.

Em segundo lugar, não se espera que o dia das eleições seja um dia em que o povo julgue o governo. Por vezes pode ter sido um governo minoritário, forçado a fazer concessões e incapaz de realizar o que considerava ser o mais correto; ou pode ainda ter sido um governo de coligação, no qual nenhum dos partidos podia ser considerado completamente responsável.

Aos poucos, o povo habitua-se a não considerar nenhum dos partidos políticos, nem nenhum dos seus dirigentes, responsável pelas decisões tomadas pelo governo. O facto de um partido perder cinco ou dez por cento dos votos não é considerado por ninguém um veredito de culpa – ou pelo menos não o é pelos eleitores, não pelos que são governados. Apenas indica uma flutuação de popularidade momentãnea.

Em terceiro lugar, se a maioria dos eleitores quiser derrubar um governo maioritário poderá não ter a possibilidade de fazê-lo. Porque mesmo que um partido que tenha tido maioria absoluta até ao momento (e possa portanto ser responsabilizado) perca essa maioria, muito provavelmente continuará a ser o partido mais votado no sistema proporcional e portanto poderá formar um governo de coligação com um dos pequenos partidos. Neste caso, o dirigente do partido maior, que foi derrubado, continuará a governar contra a decisão da maioria, apoiando-se num pequeno partido que poderá estar bem longe de representar “a vontade do povo”. Além disso, esse pequeno partido poderá ainda derrubar o governo sem novas eleições, sem um novo mandato do eleitorado, e formar um novo governo de coligação com os outrora partidos da oposição – numa contradição grotesca com a ideia básica da representação proporcional, segundo a qual a influência de um partido deve corresponder ao número de votos obtidos.

Estes desfechos são frequentes e devemos esperá-los nos casos em que um grande número de partidos significa que os governos de coligação são a regra.

É verdade que podem passar-se casos semelhantes em países onde não existe a representação proporcional – no Reino Unido ou nos Estados Unidos, por exemplo. Mas nesses países desenvolveu-se uma tendência para a competição entre os dois maiores partidos.

Um sistema eleitoral que torne possível o sistema bipartidário é, a meu ver, a melhor forma de democracia. Porque conduz invariavelmente à autocrítica por parte dos partidos. Se um dos dois maiores partidos sofre uma derrota desastrosa nas urnas, por norma é levado a efetuar mudanças radicais no interior do partido. É o resultado da competição e da condenação inequívoca por parte do eleitorado, que não pode ser ignorada. Num sistema deste teor, portanto, de tempos a tempos os partidos são forçados a aprender com os seus próprios erros, ou então afundam-se. As minhas observações a respeito da representação proporcional não significam que eu aconselhe todas as democracias a abandoná-la. apenas pretendo dar um novo ímpeto ao debate. Pensar que a superioridade moral da representação proporcional pode ser uma conclusão lógica da ideia da democracia e que, por esta razão, o sistema continental é melhor, mais justo ou mais democrático do que o anglo-saxónico é um ponto de vista ingénuo que não resiste a uma análise aprofundada.

Resumindo: o argumento que a representação proporcional é mais democrática do que os sistemas britânico ou americano não é defensável, pois tem de reportar-se a uma teoria fora de moda sobre a democracia enquanto governo pelo povo (que se baseia na dita teoria da soberania do Estado). Esta teoria tem falhas morais e é inclusive insustentável. Foi ultrapassada pela teoria do poder de destituição por parte da maioria.

Este argumento moral adquire ainda maior importância do que o argumento prático de não serem necessários mais do que dois partidos em competição, totalmente responsáveis, para possibilitar aos eleitores o julgamento de um governo. A representação proporcional cria o perigo de o veredito da maioria expresso nas urnas, e consequentemente o efeito da derrota nos partidos, benéfico para a democracia, ser considerado um pormenor trivial. Para que exista um veredito claro por parte da maioria é importante que o partido da oposição seja o melhor e o mais forte possível. De outro modo, os eleitores são muitas vezes forçados a permitir que um governo mau continue a governar, pois têm razões para crer que “não há nada melhor”.

Será que a minha defesa do sistema bipartidário entra em conflito com a ideia de uma sociedade aberta? Não é a tolerância pluralista de muitos pontos de vista característica da sociedade aberta e da sua busca pela verdade? Não deveria este pluralismo ser expresso por uma multiplicidade de partidos? Como resposta, devo dizer que compete a um partido político ou formar um governo ou, na oposição, manter uma vigilância crítica sobre o trabalho do governo. Uma das coisas que deve ser criticamente observada é a tolerância do governo em relação às várias opiniões, ideologias e religiões (desde que estas sejam elas próprias tolerantes, pois as ideologias que pregam a intolerância perdem o direito a exigir serem toleradas). Muitas ideologias tentarão, com ou sem êxito, dominar um partido ou fundar outro. Portanto haverá, por um lado, um intercâmbio de opiniões, ideologias e religiões e, por outro, os principais partidos em competição.

Mas a ideia que a variedade de ideologias ou visões do mundo deveria ser refletida numa multiplicidade de partidos parece-me politicamente errada – e não só politicamente como também enquanto visão do mundo. Porque uma associação demasiado próxima com a política partidária dificilmente é compatível com a pureza de uma visão mundial.

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A nossa edição:

A Vida é Aprendizagem, Karl R. Popper, Edições 70, Lisboa, 2001.

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Portugal afunda

Nos últimos anos tem-nos salvado o mar, o clima, e os bons produtos que ambos proporcionam e podemos vender, sem grande esforço, através do turismo.

Vamos sendo consecutivamente ultrapassados por países que há poucos anos estavam muito atrás de nós no que toca ao PIB per capita em paridade de poder de compra. Em 2017 fomos ultrapassados pela Lituânia e pela Estónia e prevê-se que em 2021 sejamos ultrapassados pelas Hungria e Polónia, que se aproximam vertiginosamente da média europeia enquanto Portugal se afasta. Todos os países que se encontram atrás de nós (excetuando a Grécia) tiveram um crescimento médio positivo na última década (2011-2020), ao passo que Portugal teve um crescimento negativo (-0,3%). Acresce que estes países (Polónia, Hungria, Eslováquia, Roménia, Letónia, Croácia, Bulgária) têm melhores condições para crescer do que nós: estão menos endividados e, por isso, podem concretizar mais investimento público, são mais qualificados e (excetuando a Croácia) dependem menos do turismo.

Resumindo: em poucos anos estaremos na cauda da Europa a 27, talvez à frente, apenas, da Bulgária e da Grécia.

Fatalidade ou opções económicas desastrosas? O mundo não é a preto e branco e, de facto, há uma série de causas, algumas estruturais, que justificam o nosso atraso, mas a opção por políticas que favoreceram, nos últimos anos, o setor não-transacionável da economia, suportado pelo crédito fácil, bem como o aumento desmesurado da despesa pública, têm contribuído para o endividamento público e privado do país, o que, a par das elevada carga fiscal e ineficiência judicial, torna extremamente difícil o investimento e, consequentemente, a recuperação económica.

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Fontes:

Comissão Europeia, do Eurostat e WTTC.

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Eduardo Lourenço

Eduardo Lourenço foi um brilhante pensador. Mas nem todos os pensadores, ainda que brilhantes, são filósofos.

A Filosofia pode ser encarada de duas formas. Por um lado, desde que reflitamos sobre o mundo, o comportamento e a existência, todos nós somos filósofos. Por outro lado, existem pessoas que dedicam a vida a estudar essas e outras questões filosóficas e os problemas que levantam (mesmo que, como Wittgenstein, não acreditem em genuínos problemas filosóficos), procurando resolvê-los e ligá-los numa linha de pensamento coerente, isto é, numa doutrina, numa filosofia. Voluntária ou involuntariamente, profissionais ou amadores, estes são os verdadeiros filósofos.

Kant resumiu o objeto da Filosofia em quatro perguntas.

  • O que posso saber? (Epistemologia ou Filosofia do Conhecimento);
  • O que devo fazer? (Ética);
  • O que me é permitido esperar? (Metafísica);
  • O que é o Homem? (Antropologia Filosófica).

Respondeu ou procurou responder Eduardo Lourenço, através da sua obra, a uma ou mais que uma destas perguntas? Não, Eduardo Lourenço, na linha de muitos outros pensadores portugueses – como Teixeira de Pascoaes, António Sérgio, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva ou Teotónio Almeida, só para citar alguns – pensou sobre Portugal, os portugueses e o nosso papel na Europa e no Mundo. Para isso, Lourenço inspirou-se na literatura e nos poetas e não em qualquer filósofo português que, de resto, nunca existiu; de acordo com o próprio, por cá sempre imperou um “irrealismo prodigioso”.

Estamos de acordo com Eduardo Lourenço: a nossa tradição é literária, poética e mística; não existe em Portugal tradição filosófica. Talvez esta seja, sim, uma característica fundamental de Portugal.

Eduardo Lourenço foi, pois, um ilustre professor e ensaísta. Mas, ao contrário do que muitos dizem e escrevem nestes dias após a sua morte, não foi um filósofo. Isto não diminui em nada o brilhantismo deste intelectual português, antes é uma manifestação de apreço e respeito pela sua memória.

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Foto retirada de: http://www.eduardolourenco.com/

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