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Viagens de todo o tipo, tamanho e duração, realizadas por um andarilho de Alfama.







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Os maias chegaram à península do Yucatã vindos da Ásia. Provavelmente seriam mongóis que migraram pela Sibéria e daqui para o atual Alasca, no final da última glaciação, há cerca de 12.000 anos. Da América do Norte desceram à América Central, onde se instalaram até os dias de hoje. Além da península do Yucatã[1], onde 80% da população é de origem maia, ocupam também os territórios atuais correspondentes às terras baixas e altas da Guatemala, ao Belize, à porção ocidental de Honduras e El Salvador, reunindo territórios que pertencem à região denominada Mesoamérica[2], numa área de 325.000 quilómetros quadrados. Fisicamente os maias caracterizam-se pela estatura baixa, a tez trigueira, a face redonda, a pele com poucos pêlos, e uma mancha característica no fundo das costas — a marca mongol.
Está comprovado que os maias percorreram esta região há milhares de anos, comerciando por terra e, sobretudo, por mar. Os navios que construíam não tinham mastros, dado que não usavam velas mas sim a energia humana para navegarem: utilizavam embarcações a remos, que manobravam junto à costa, ao longo da segunda maior barreira de coral do mundo.
Não eram, pois, um povo unificado; estavam divididos em tribos e reinos, com uma rígida estratificação social. Eram violentos e extremamente religiosos, praticando o sacrifício humano, sobretudo de crianças entre os quatro e os oito anos, para contentarem os deuses e receberem em troca a chuva necessária para que a atividade agrícola se desenvolvesse. Os deuses eram em número de vinte e três, distribuídos em três níveis: o inframundo, a terra e o céu.

Além de extremamente religiosos, os maias desenvolveram uma cultura muito interessante do ponto de vista científico. Tiveram quatro calendários: um ritual (Tzolkín) de 260 dias, um civil (Haab) de 360 dias – formando os dois a famosa “Roda Calendárica” – e outros dois para uso exclusivamente científico . O ciclo da vida durava 52 anos, findos os quais, tudo era renovado: novos templos eram construídos sobre os antigos e tudo que pertencia ao ciclo que findava era queimado. Grandes observadores do céus e dos movimentos dos astros, começaram uma contagem do tempo a partir do alinhamento de seis planetas, iniciando, assim, em 3114 aC, um ciclo maior que terminaria 5125 anos depois, em 21 de dezembro de 2012, quando os mesmos seis planetas se alinharam de novo no céu. Nesta altura foi referido por várias pessoas que os maias previram que o fim do mundo ocorresse nessa data, mas tal não corresponde à verdade. Os maias jamais falaram em “fim do mundo”, apenas em fim de um ciclo.
Há, pois, muita ignorância sobre a cultura dos maias. Em 1562, o bispo espanhol Diego de Landa[3] mandou destruir todos os livros maias, considerando-os bruxaria. Três livros, porém, foram roubados e escaparam à destruição. Um deles pertence a um cidadão privado e encontra-se na Alemanha; os outros dois encontram-se em museus, em França e Espanha; há quem fale num quarto livro, mas não se sabe ao certo se existe. Estes livros estão escritos na língua maia, língua que ainda hoje se fala, e que foi decifrada na década de 1950 pelo soviético Yuri Knorozov.
A cidade sagrada de Tulum[4] situa-se na costa nordeste da Península do Yucatã. Como o navio em que viajávamos aportou em Cozumel – uma ilha mexicana em pleno Mar das Caraíbas – tivemos de tomar outra embarcação para fazer a travessia, em cerca de 25 minutos, até Playa del Carmen, no continente, e daqui um autocarro até Tulum – mais uma hora de viagem, aproximadamente. O nome original desta cidade sagrada era Zamá, que significa “manhã” ou “amanhecer”. Terá sido construída por volta do ano 1000[5] e abandonada em 1527, após a chegada dos espanhóis, que ocorrera em 1518, sob o comando de Juan de Grijalva, vindo de Cuba, em abril desse ano, na segunda expedição ao continente. Completamente coberta pela vegetação, foi redescoberta 320 anos depois por John Stephens, diplomata e advogado norte-americano, e pelo arquiteto inglês Frederick Catherwood.

Tulum era uma cidade muralhada, o que prova a existência de conflitos armados, e situa-se estrategicamente no topo de um penhasco, sobre o mar, possuindo, nos restantes três quadrantes, muralhas, ainda hoje bem preservadas. Dentro delas moravam cerca de quinhentas pessoas – sacerdotes e políticos – e fora delas cerca de dez mil. Ossadas mostram claramente que havia um diferença entre os que moravam no interior e os que viviam do lado de fora: os primeiros eram mais altos, o que demonstra terem tido uma alimentação melhor. Verificou-se, também, que os maias protegiam as crianças nascidas com algum tipo de deficiência, acreditando que as mesmas eram predestinadas. Talvez por isso provocassem a deformação do crânio em alguns bebés, fixando talas de madeira em torno de suas cabeças, durante dois anos, prática ainda hoje observável entre os incas. Descobriu-se também que um certo tipo de pedras – as quais não eram infectáveis por nenhum tipo de bactérias – foram incrustadas nos dentes de alguns indivíduos, não se sabendo ao certo com que finalidade, talvez para preservar a própria dentição.
Na cidade sagrada de Tulum podemos encontrar vários templos, alguns dos quais serviam para sacrifícios, e outros como sepulturas, sendo que estas se encontravam também no exterior das edificações. Ao contrário do que se diz por vezes, não foram os espanhóis que introduziram as cisternas nesta região, os maias já as usavam há muitos anos. Um sistema de canais, ainda visível em Tulum, conduzia a água da chuva para os reservatórios, os quais eram tampados por forma a preservar a água e utilizá-la em tempos de seca.

A Península de Yucatã, onde o turismo se desenvolveu exponencialmente nos últimos anos, é uma vastíssima planície, com uma ligeira elevação, precisamente onde floresceu Tulum, na costa nordeste. O solo é constituído em cerca de 90% por rochas e pedras, não existindo aqui grandes lagos ou rios, pelo que a vida dos agricultores maias não devia ser fácil. A edificação da cidade junto à costa é assim compreensível, bem como o papel da mesma enquanto entreposto marítimo. Os maias não cunhavam moeda, o “dinheiro” que usavam era o cacau, usado nas trocas comerciais e não davam o valor que depois os espanhóis atribuíram ao ouro e à prata.
Por tudo isto, vale a pena conhecer Tulum e, mais ainda, toda esta vasta região onde os maias, desde tempos remotos, se instalaram.
É de suma importância referir que as informações aqui disponibilizadas não são científicas, basearam-se no discurso de um guia local (Julian, um excelente guia maia) e em algumas consultas posteriores. O tema “civilização maia” requereria um estudo muitíssimo mais aprofundado para ter algum valor. A nossa intenção é apenas a de documentar uma visita de um único dia, e seria ridículo pretender mais do que isso. Por outro lado, os trabalhos e as investigações continuam por esse mundo fora, sendo que muita coisa há ainda a descobrir e aclarar sobre esta brilhante – e ainda muito controversa – civilização.
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Notas:
[1] Numa área correspondente aos estados de Campeche, Tabasco, Chiapas, Iucatã e Quintana Roo.
[2] Termo proposto pela primeira vez em 1943 pelo antropólogo Paul Kirchhoff.
[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/Diego_de_Landa.
[4] Tulum não é seguramente o local mais importante para visitarmos, em termos da civilização maia. Teothihucán e Monte Alban, Palenque, Copán e Yaxchillán, na área central, Uxmal e Chichén Itza, no Yucatã, Tikal, a cidade dos Deuses, onde se encontra a maior pirâmide de toda a América, são as metrópoles mais importantes e conhecidas.
[5] Pertence, portanto, ao período pós-clássico. “Tradicionalmente, os arqueólogos dividiram a História maia em três períodos principais: Pré-Clássico (800 a.C. a 300 d.C.), Clássico (300 d.C. a 900 d.C.), Pós-Clássico (900 d.C. a 1520 d.C.). Cada um destes períodos possui estilos distintos de cerâmica e arquitetura. O período Clássico tem sido tradicionalmente visto como o auge da civilização maia, devido à imponência de seus palácios e templos, às estelas – monumentos verticais onde foram registradas inscrições hieroglíficas –, além de sua elaborada cerâmica policrômica. O período Pré-Clássico teria sido formado por vilas rurais modestas e desprovido de realizações arquitetônicas tão expressivas quanto às do Clássico. Já o Pós-Clássico foi um período de decadência cultural e artística. Este modelo, que ainda é muito difundido, apresenta muitas discrepâncias. No intuito de reformular, e não refutar, os dados apresentados pelos estudiosos ao longo da primeira metade do século XX, o esforço dos arqueólogos hoje é a reinterpretação destas informações a fim de se buscar uma periodização mais adequada”. in http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742008000100015
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Bibliografia:
“Calendário Maia, 2012 e a Nova Era”, Thiago José Bezerra Cavalcanti, ISBN, 2012, Rio de Janeiro.
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Georgetown é uma pequena, tranquila e bela cidade debruçada sobre o Mar das Caraíbas. A praia mais próxima do centro, Seven Mile Beach, é de uma beleza deslumbrante, com águas calmas e cristalinas. Por todo o lado existem hotéis e resorts, a exemplo do que ocorre em Miami, com menos luxo e glamour, mas com muito mais tranquilidade e proximidade à natureza.

É possível observar de perto vários tipos de aves, peixes e répteis; as iguanas circulam livremente pela cidade. Mergulho, snorkeling, vela e windsurf são o tipo de atividades perfeitas para se praticarem nas Ilhas Caimão, e os amantes dos desportos náuticos encontram aqui o paraíso.
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Montego Bay, ou simplesmente Monbay, para quem a conhece, é a segunda maior cidade jamaicana, depois de Kingston, a capital. Surpreendentemente pacífica, tranquila, ordenada e limpa, a população da cidade é maioritária e notoriamente negra.
Por todo o lado se sente o cheiro da cannabis queimando; cada pessoa pode transportar consigo três onças e ser proprietária de três pés da planta. O artesanato que se vende nas ruas e muitas manifestações culturais, como o reggae, têm a ver com o consumo de marijuana.
As praias jamaicanas são muito bonitas, com as cores características das Caraíbas, mas as águas não são tão mornas como, por exemplo, as do Nordeste brasileiro. Há belezas naturais no interior desta pequena ilha, como cachoeiras e rios, mas na nossa curta estadia ficamos mesmo pelo litoral.
Surpreendemo-nos ao ver os veículos transitarem pela esquerda, o mesmo acontecendo nas Ilhas Caimão. Na Jamaica circulam também, a par, os dólares jamaicano e norte-americano.
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Fidel transformou e aumentou a fazenda do seu pai
para fazer de Cuba uma só fazenda de 11 milhões de pessoas.
Juan Reinaldo Sánchez1

Normalmente, a parte mais difícil de uma viagem a Cuba passa-se no aeroporto. Vencida a burocracia paranoica, o trajeto que liga o aeroporto a Havana — através de vias bordadas por edifícios descoloridos e gastos, quase arruinados — faz-se com relativa facilidade. Duas horas após o avião tocar a pista, é-se recompensado. Chegamos à capital de um país mítico — Cuba.
A viagem de táxi entre o aeroporto e o centro de Havana custa normalmente de 20 a 25 CUC (cada CUC vale cerca de um euro), os novos pesos cubanos. É possível trocar dólares ou euros pela moeda cubana, mas pode ser um pouco demorado, pelo que o melhor é fazer levantamentos nos poucos ATM da cidade, mas atenção porque nem todos os cartões se aceitam aqui. Os preços do alojamento em Havana são muito variáveis, desde os 25 CUC de uma casa particular aos 180, 200, ou mesmo mais, de alguns hotéis históricos. As comidas e as bebidas são relativamente baratas, embora nos locais mais turísticos se inflacionem os preços.

Vale a pena visitar demoradamente o Centro da cidade: os edifícios históricos; os cafés simbólicos, como Floridita ou Bodeguita del Medio; os restaurantes variados, onde a comida vem quase sempre acompanhada por uma canción, um bolero ou um cha cha chá; as lojas onde se vendem os puros cubanos (não se devem comprar na rua porque são invariavelmente falsos); as ruas, onde se podem admirar as belas e coloridas carroçarias dos carros antigos; e, entre outros motivos interessantes, os diversos museus de Havana.
Uma visita imperdível é a que é possível fazer à galeria Ojo del Ciclón, situada em Esq. Villegas, 501, no Centro Histórico. Aqui trabalha o artista plástico Leo D’ Lazaro, filho de um dos escultores responsáveis pela construção do mausoléu a Che, na cidade de Santa Clara. São inúmeros e fantásticos os trabalhos de Leo — pinturas, esculturas e fotografias — as quais se podem admirar e comprar. (Há também algumas obras à venda do seu falecido pai). A própria galeria é uma obra de arte — uma casa de habitação, com as respetivas divisões, incluindo cozinha e casa de banho, decorada com as obras de Leo e materiais que denotam o bom gosto de um artista excecional. Por vezes, há agrupamentos musicais atuando e outros encontros de artistas locais. Leo D’ Lázaro quase sempre está trabalhando por lá, mas, esteja ou não, uma visita ao Ojo del Ciclón é algo que não se pode deixar de fazer em Havana.

Como seria de esperar, o turismo constitui uma importante fonte de receita, num país onde falta quase tudo (vimos, por exemplo, camiões-tanque no centro da cidade a fornecer água à população), mas a vida do turista não é muito facilitada. Quase todos procuram tirar alguma vantagem dos visitantes, e até os pequenos mapas da cidade são pagos. A obsessão com a segurança chega a ser incómoda: uma simples travessia de uma margem à outra da baía de Havana (que custa apenas dez centavos) implica a revista de sacos e mochilas de todos os passageiros, por parte dos agentes estatais. A presença do omnipotente Estado é, aliás, visível por todo o lado: nos símbolos revolucionários; na propaganda e palavras de ordem; nas instalações militares.
A apologia da luta armada e da revolução está espalhada, em cartazes e murais, pela cidade e pelas cabeças dos mais velhos, que quase sempre se referem com nostalgia aos heróis revolucionários, Che e Fidel. Tudo muda, porém, quando falamos com os jovens.

“Gosto muito de Havana mas quero conhecer outros lugares, aqui não tenho futuro”, confidenciou-nos González Pinilla, um pintor dos seus 18 anos, a quem comprámos dois quadros belíssimos, no Empedrado, junto à Catedral, logo no nosso primeiro dia na cidade. Os lápis, pincéis e tintas com que Pinilla criou estas obras não foram produzidos em Cuba; ele consegue os materiais de trabalho através de amigos ou turistas que os trazem clandestinamente do exterior.
Pouco depois, numa rua próxima dali, um distinto senhor aproximou-se e perguntou-nos se tínhamos um lápis que lhe pudéssemos oferecer. Afortunadamente havia na nossa mochila um lápis, gasto de fazer anotações e sublinhados, e, obviamente, demos-lho, pedindo desculpa por nem sequer podermos oferecer-lhe um lápis em condições. Ele agradeceu por aquele pedacinho de madeira com um fio de grafite por dentro, disse que era para o filho pequeno que andava na escola… Ficámos estupefactos.
No dia seguinte, encontrámos Olmedo, um jovem aparentemente um pouco mais velho que Pinilla, mas seguramente sem ter chegado ainda aos trinta, que pescava no Malecón, na margem oposta àquela onde se situa o Castelo dos Três Reis do Morro, uma edificação construída no tempo de Filipe II, quando Portugal se encontrava sob domínio espanhol. Após uma breve troca de impressões sobre espécimes aquáticos daquela zona, a conversa alargou-se e Olmedo afirmou estar cansado da propaganda do Governo: “A guerra já passou, não adianta continuar a falar em guerra e revolução; nós, os mais jovens, queremos desenvolvimento. Precisamos urgentemente de políticos novos, com uma nova mentalidade”.

Outro jovem, cujo nome não lográmos conhecer (e mesmo que lográssemos não o divulgaríamos aqui, pois todos os nomes das pessoas que se declararam contra o regime vigente em Cuba citados neste artigo são fictícios, por razões óbvias), garantiu-nos que ele e todos os seus amigos sonham com a abertura política e o fim do velho regime. Conversámos um pouco com ele numa paragem de autocarro, aquando do nosso terceiro dia na cidade.
Já León, um cubano de 45 anos, casado e pai de três crianças, trabalha num navio de cruzeiro, onde o encontrámos e onde com ele convivemos durante oito dias. Vive em Havana com a família, mas o curso que tirou na Escola Naval permitiu-lhe embarcar, sair de Cuba, conhecer outras realidades. Durante o circuito que o navio fez nas Caraíbas ficámos a saber o que León pensa do seu próprio país: “Os cubanos já sofreram muito e já perdemos demasiado tempo; pode ainda demorar um pouco mais, mas o movimento em direção à liberdade já começou e é como uma espiral, não volta para trás”.

Estes e outros testemunhos que recolhemos em Cuba foram muito importantes para nós. Uma coisa é o que nos contam os amigos que ali estiveram de férias, outra coisa é o que vemos e ouvimos, diretamente, no terreno. Depois desta experiência ficámos convencidos de que Cuba será livre num futuro mais ou menos próximo. A ânsia por liberdade é quase respirável e, como diz León, uma “espiral”.
Foi com essa sensação que regressámos. A caminho do aeroporto, num táxi desconjuntado que tresandava a gasolina, o motorista, de 43 anos, confidenciou-nos, sem que lhe perguntássemos nada, que, há cinco anos, sua mãe entregara o cartão de militante ao Partido Comunista e fugira de Cuba. Ele próprio não fez o mesmo porque tem duas filhas de 13 e 14 anos, mas pensa tentá-lo em breve: “A ilha é uma prisão”.

Estes relatos chocam violentamente com o que está inscrito junto ao retrato gigantesco de Marx, sobre a fachada de um enorme edifício, na igualmente gigantesca Praça da Revolução: Vas bien Fidel. Talvez Fidel vá bem — ele a quem a revista Forbes atribuiu uma das dez maiores fortunas do mundo. Mas Cuba, sobretudo para os jovens cubanos, vai muitíssimo mal.
Já no aeroporto, enquanto esperávamos pelo nosso voo, decidimos comprar um livro, escrito por Julio Cúbria Vichot, editado em 2014 e traduzido em várias línguas, intitulado Breve História de Cuba – de Colombo ao século XXI. Pensáramos ter comprado um livro de História, como aliás o título indica. Puro engano. Trata-se de mais um instrumento de propaganda do Regime, exaltando a Revolução e deplorando os “contrarrevolucionários” e “imperialistas”, numa abordagem enviesada, maniqueísta, ideológica, absolutamente contrária aos padrões de rigor e verdade que devem guiar qualquer historiador. O regime cubano vive uma mentira, que é, afinal, a sua incontestável verdade.
Deixámos a ilha com um pensamento. Haverá sempre quem lute pela liberdade, como acontece em Cuba e noutras ditaduras, mas também haverá sempre quem queira privar-nos dela, como acontece em todos os países livres. É por isso que a liberdade — o valor social mais alto para quem a ama — nunca estará garantida, precisa que cuidemos dela, que nos mantenhamos atentos a todos os perigos que corre.

ADENDA
1- Três dias depois de deixarmos Cuba, já na Cidade do Panamá, aconteceu-nos uma daquelas coincidências que por vezes ocorrem na vida de todos nós. Comprámos um jornal local, como sempre fazemos quando visitamos um país (mas que não pudemos fazer em Cuba) — La Prensa — o qual continha um artigo de opinião da autoria de Jorge Ramos (diretor de notícias da Univisión), intitulado Cuba Libre? Nesse artigo, o autor critica fortemente Obama e, sobretudo, o papa Francisco, pela condescendência relativamente ao regime cubano, manifestando mesmo indignação pelo facto de Francisco se ter recusado a reunir com dissidentes e com jornalistas independentes cubanos, como é o caso de Yoani Sánchez, e por não ter feito nada quando os seguranças do Governo, à frente dos seus olhos, agrediram e prenderam um dissidente que pretendia falar com ele. Jorge Ramos, que está proibido de entrar em Cuba desde 1998, quando acompanhou a visita de João Paulo II, por ter entrevistado dissidentes e jornalistas independentes, não deposita muita esperança nos esforços de Obama e do papa.

Afirma, no seu artigo, que a viagem de Obama a Cuba, prevista para março, será um “momento tipo Nixon”, referindo-se à visita deste presidente americano à China, em 1972. Esse momento marca o início da atual abertura económica chinesa, mas não o início da abertura política. Assim, segundo Ramos, também a próxima visita de Obama não implicará a realização de eleições livres, a restauração da liberdade de imprensa ou a libertação dos presos políticos, em Cuba. Ramos termina o artigo com as seguintes palavras: “Cuba Libre? Em qualquer bar do mundo se sabe que isso é uma mentira”. O artigo de Jorge Ramos pode ser lido na íntegra aqui. Tal como Ramos, também nós não acreditamos numa abertura do regime. A liberdade em Cuba, infelizmente, terá de ser conquistada pela pressão dos jovens cubanos, nas ruas.
2- E, já em casa casa, ficámos a saber que os Rolling Stones vão atuar gratuitamente em Cuba, alguns dias depois de Obama chegar ao país. Aposto que Pinilla, Olmedo, León e todos os jovens cubanos estão felizes com esta notícia. Talvez não seja ainda a “espiral” mas, definitivamente, algo se passa na ilha dos Castro.
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Nota:
1 Juan Reinaldo Sánchez, A Face Oculta de Fidel Castro, Planeta, Lisboa, 2015, p. 180.
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O arquipélago Fernando de Noronha – Património da Humanidade – faz parte do estado brasileiro de Pernambuco e dista cerca de 540 quilómetros da capital, Recife, embora a distância mais curta até o continente seja bastante menor, cerca de 300 quilómetros até o Rio Grande do Norte, estado que fica na mesma latitude. São, portanto, menos de 60 minutos de avião, quer do Recife quer de Natal, até se atingir o arquipélago.
As ilhas têm origem vulcânica e, no seu conjunto, uma área de 26 km2, sendo 9 da plataforma marinha e 17 da superfície emersa. O arquipélago é a parte emersa de um enorme edifício vulcânico, cuja base se encontra no fundo do mar, a quatro mil metros de profundidade, com cerca de 70 quilómetros de diâmetro. Faz parte de uma estrutura alinhada de diversos montes vulcânicos submarinos, que se estendem desde a Dorsal Atlântica até a plataforma continental brasileira, próximo do litoral do Ceará.

As sucessivas erupções vulcânicas, que decorreram ao longo de milhões de anos, proporcionaram o aparecimento de montes acima do nível do mar, como são os casos de Fernando de Noronha e do Atol das Rocas. As ilhas não foram, portanto, criadas de uma só vez. No caso de Fernando de Noronha, há pelo menos três formações diferentes: Remédios, Quixaba e Caracas.
Posteriormente, quando o vulcanismo cessou, processos erosivos e a variação do nível do mar atuaram sobre a ilha, conferindo-lhe o aspeto atual. Ao chegar ao arquipélago, quem conseguir viajar do lado esquerdo do avião terá uma vista melhor, dado que o avião tem de descrever uma curva larga para esse lado e enfrentar o vento predominante de sul na aterragem. Já à saída terá uma vista melhor quem viajar do lado direito da aeronave. Vale a pena viajar à janela.

A ilha principal de Fernando de Noronha, a única habitada, é relativamente pequena, com uns 14 quilómetros de ponta a ponta. Além disso, tudo se concentra na metade oriental da ilha, onde fica a Vila dos Remédios, o porto e todos os outros pequenos povoados. É natural que, à chegada, o visitante apanhe um táxi (seja para onde for não deverá pagar mais de 30 reais), dado que não conhece os locais, mas, depois disso, não vale a pena gastar dinheiro em táxi ou aluguer de carro. Muitos dos trajetos podem fazer-se a pé e os mais longos podem fazer-se através de um meio de transporte excelente, disponível na ilha: a bicicleta. Há uma loja na Vila dos Remédios – a Ricaom – onde se podem alugar bicicletas por 60 reais/dia.
Foi o que fizemos no segundo dia na ilha. Percorremos todos os locais mais conhecidos de bicicleta e ainda tivemos tempo de dar uns belos mergulhos na praia do Sancho – a melhor do mundo, dizem. As praias mais próximas da Vila dos Remédios – Cachorro, Meio e Conceição – já tínhamos visitado no dia da chegada, aproveitando a tarde para fazer um primeiro reconhecimento, incluindo a subida do morro onde se encontra o forte dos Remédios, ponto privilegiado de observação para o chamado Mar de Dentro.
É aqui que se encontram as melhores praias, normalmente calmas, mas que podem ter mar agitado entre outubro e março, período em que é mais frequente o “swell”, um tipo de ondulação que pode ser moderado ou severo. É o período preferido dos surfistas, mas menos bom para os banhistas comuns e para quem quer mergulhar – uma das atividades mais apreciadas e indispensáveis de Fernando de Noronha.
Já as praias do Mar de Fora, expostas ao vento sul, são em geral impróprias para banhos e perigosas (sobretudo nas marés altas), devido às fortes correntes que se formam em todas elas, excetuando a abrigada Baía do Sueste. É o caso da bonita praia do Leão, onde as tartarugas desovam entre dezembro e junho.
Além de percorrer a terra firme de Fernando de Noronha, é indispensável fazer um passeio pelo mar. O arquipélago é constituído por dezanove ilhas e dezenas de rochedos isolados. Mas a parte mais bonita de qualquer passeio de barco é, sem dúvida, o trajeto pelo Mar de Dentro, percorrendo as onze praias de areia, com mar verde-esmeralda, e parando na Baía do Sancho para banhos e snorkeling, observando belos peixes coloridos. O snorkeling também pode realizar-se na praia da Atalaia, no mar de Fora, quando ali se forma uma piscina natural, na maré baixa, sendo possível observar lagostas, polvos, inúmeras espécies de peixes e até mesmo pequenos tubarões. Durante os passeios de barco que se realizam de manhã há maior probabilidade de observar os golfinhos rotadores, dentro da Baía dos Golfinhos.
Por sua vez, o mergulho é feito em outros pontos do arquipélago (de acordo com o estado do tempo), e é praticamente obrigatório, uma vez que Fernando de Noronha está entre os melhores lugares do mundo para essa prática. É possível fazer o batismo de mergulho por cerca de 400 reais. A profundidade pode atingir os nove metros – e convém não esquecer que durante as 24 horas que se seguem ao mergulho, não se deve viajar de avião.
Cinco dias são suficientes para se fazer tudo isto e algo mais. A comida não é o mais caro em Noronha, e há excelentes pratos de peixe, sobretudo a barracuda. Come-se muito bem no Museu dos Tubarões, nos restaurantes Cacimba e Mergulhão, e em vários outros, incluindo o famoso Zé Maria. O que é estupidamente caro é o alojamento. Não dá para entender por que é tão caro. Ficámos numa pousada mais do que básica, com um café da manhã mais do que pobre e pagámos, por noite, 400 reais!
Apesar de tudo, uma visita a Fernando de Noronha é uma excelente opção de viagem. Mas conhecidas essas belas ilhas, não vale a pena repetir. O custo da estadia é absurdo e incompreensível. A alternativa seria morar no arquipélago. Para tal teria de se conseguir trabalho ou casar com um(a) residente. Mas quem quer morar num lugar isolado, caríssimo, sem infraestruturas e, sobretudo, nos dias que correm, sem internet? O “custo-Brasil”, patente em todo o território, atinge, aqui, um nível absurdo.
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As Festas do Povo decorrem em Campo Maior, uma vila do Alto Alentejo, perto de Elvas e de Badajoz, sempre que o povo quer, ou melhor, sempre que o povo quer… e pode.
Decorar mais de trezentas ruas com imagens de papel não é tarefa fácil. Assim, nem todos os anos as festas ocorrem (longe disso), e não há um caráter regular na realização das mesmas.
Em 2015, felizmente, o povo decidiu realizá-las para gáudio de muitos milhares de visitantes, que esgotaram os hotéis da região num raio de mais de 50 quilómetros, em Portugal e Espanha.
Por essa razão tivemos de dormir no carro, mas valeu a pena. Visitámos as ruas e praças de Campo Maior bem tarde durante a noite e bem cedo durante o dia, quando a vila estava (quase) deserta.
E das duas ou três horas mal dormidas fomos, assim, amplamente recompensados.
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1- A LUZ
A luz de Portugal é famosa. Lisboa, a “Cidade Branca”[1], é elogiada por artistas plásticos, fotógrafos e cineastas – para quem a luz é parte importante do seu trabalho – por sua luminosidade particular. Além da luz diretamente recebida, há também a luz filtrada e a luz refletida. É na combinação destes tipos de luz que se manifesta a particularidade de Portugal. Neste contexto, têm uma importância acrescida o vento (normalmente, de Norte), o céu limpo (Portugal é um dos países do mundo com mais dias de sol) e as edificações de matizes claros (nomeadamente as construídas em pedra, que é quase sempre o calcário branco) ou pintadas de branco, que ampliam a transparência da luz. Este tipo de construções encontram-se sobretudo nas regiões do Sul de Portugal continental, nomeadamente no Alentejo e no Algarve.
2- A PAISAGEM
Portugal é um país pequeno mas extremamente diversificado. Isto reflete-se em tudo (como veremos, muito, na gastronomia), mas também, claro, na paisagem. Temos vários tipos de clima, alguns dos quais separados por poucos quilómetros de distância – o Norte de Portugal, por exemplo, vai desde o verde viçoso do Minho (onde podemos encontrar o exuberante Gerês) ao árido (mas belo) Trás-os-Montes. As praias são magníficas: as do Norte com água bem fria, e as do Sul (nomeadamente no Algarve) com águas mornas (no Verão) e calmas, excelentes para banhos. As principais cidades portuguesas situam-se junto a belos rios – O Mondego, o Douro e o Tejo. Seguir o seu percurso equivale a conhecer por dentro algumas das mais belas paisagens naturais do mundo. Os arquipélagos dos Açores e da Madeira – onze ilhas de encantos muito diversos – são igualmente famosos pelas suas belezas paisagísticas.
3- O MAR
Não existe outro país continental onde as pessoas tenham uma relação tão estreita com o mar. Esta relação está já inscrita no código genético dos portugueses. Isso é visível na distribuição da população pelo território. Esta apetência para o mar – manifestada pelas mais diversas atividades profissionais, culturais e de lazer – deriva da presença em Portugal dos Fenícios, povo que, tal como nós, embora muito antes, se dedicou, durante largo período, ao comércio marítimo. Os portugueses quase sempre aceitaram os desafios do mar. Nele, muitos ganharam a vida e muitos outros a perderam. Dificilmente um português conseguirá viver longe da água salgada. Esta relação completa-se com o fiel cão de água português, o canino mais adaptável, em todo o mundo, ao ambiente marítimo[2]. Como se sabe, esta vocação marítima conduziu os portugueses aos quatro cantos do mundo. Portugal foi o primeiro império marítimo mundial[3]. Data desses tempos o início do processo conhecido por “globalização”. As campanhas do bacalhau na Terra Nova e na Gronelândia que os portugueses levaram a cabo durante décadas, sob condições terríveis, constituem outro marco indelével da ligação histórica do nosso povo ao mar.
4- A CORTIÇA
Trata-se de uma especificidade portuguesa. Portugal é o maior produtor mundial de cortiça. Este produto tem características muito próprias – sobretudo a sua combinação de impermeabilidade e leveza – que o tornam excelente em várias utilizações, sobretudo, claro, como rolha, em garrafas de vinho[4]. Porém, nem toda a cortiça dá para fazer rolhas. A primeira extração de cortiça só se realiza quando o sobreiro tem 25 anos. E a cortiça adequada para produzir rolhas só é extraída quando o sobreiro tem 43 anos (terceira extração). O sobreiro (Quercus Suber L.), única árvore em que a casca se regenera, dura em média 200 anos, isto é, suporta cerca de 17 extrações. A cortiça tem mais aplicações para além de rolha. Os produtos derivados são utilizados em áreas tão diversas quanto a moda, a construção, o design, a saúde, a produção de energia ou a indústria aeroespacial.
5- A GASTRONOMIA
A gastronomia em Portugal é excelente. As duas vertentes de uma gastronomia de elevada qualidade são as boas matérias-primas e os bons cozinheiros (que fazem – ou reproduzem – as boas receitas). O peixe é a melhor matéria-prima de Portugal, em termos gastronómicos. Aqui existe, reconhecidamente, os melhores peixes do mundo. A sardinha é rainha e o bacalhau é rei. Ninguém sabe tratá-los melhor que os portugueses. Depois, fabricamos o melhor pão, aliás, os melhores pães (e broas), pois a variedade é enorme. Excelentes vinhos (brancos, tintos, espumantes, rosés e generosos) são produzidos em Portugal. O vinho do Porto é famoso no mundo inteiro. Os nossos queijos são variados e de qualidade insuperável. O queijo “Serra da Estrela” já foi várias vezes considerado o melhor do mundo. O nosso azeite é de altíssima qualidade e ganha regularmente, tal como o vinho e o queijo, prémios internacionais. Finalmente, a doçaria. É de chorar. Os nossos melhores doces vêm de uma tradição “conventual”. Enfim, perante coisas ancestrais, é quase pecado falar em “nouvelle cuisine” (que também aqui há). A nossa cozinha não é uma moda, não é uma nova forma de arte. A nossa cozinha é cultura (viva), é sabedoria – e é amor[5].
6- O MANUELINO
Mais fácil e melhor que descrevê-lo é observá-lo nas mais variadas obras de arte, quer em edificações, quer em ourivesaria. Tradicionalmente, considera-se o manuelino como uma evolução do estágio ulterior do estilo gótico, e por isso é também denominado como gótico português tardio ou flamejante. O estilo manuelino desenvolveu-se sobretudo no reinado de D. Manuel, embora já existisse no do seu antecessor, D. João II, e desenvolveu-se também a partir da arte mudéjar, tendo ainda, mais tarde, incorporado elementos do Renascimento italiano. Os motivos principais do manuelino (designação cunhada em 1842 por Francisco Adolfo Varnhagen) são a esfera armilar, a cruz da Ordem de Cristo e elementos naturalistas ou fantásticos. As três obras mais emblemáticas do manuelino são, provavelmente, o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém e a janela do Capítulo, no Convento de Tomar, todas construções do século XVI.
7- A CALÇADA PORTUGUESA
Foi considerada recentemente por um colunista do Financial Times uma das principais atrações entre aquelas que figuram nas mais belas cidades do mundo. Os efeitos visuais são sempre interessantes e, em imagens vistas de cima, muitas vezes, de rara beleza. Exportámos esta arte para outros países, da China (Macau) ao Brasil, como se pode verificar, por exemplo, no Rio de Janeiro. Mas é em Portugal Continental e nas Ilhas que se encontram os exemplos mais cativantes. No Continente, a pedra usada é sempre o calcário, sobretudo preto e branco (mas também castanho, vermelho, azul, cinzento e amarelo) mais fácil de trabalhar que o (mais duro) basalto negro, usado nas Ilhas, sendo ali os desenhos formados em calcário branco. Os trabalhadores especializados na colocação deste tipo de calçada são denominados mestres calceteiros. Esta arte iniciou-se (nos moldes em que hoje a conhecemos) em meados do século XIX e, desde 1986, existe a Escola de Calceteiros da Câmara Municipal, situada na Quinta do Conde dos Arcos, em Lisboa.
8- A AZULEJARIA
O que dizer do azulejo português? Essa expressão artística manifesta-se em todo o país e cobre todas as camadas da população, desde os artesãos dos lugares mais recônditos, aos mais consagrados artistas. Com cerca de 500 anos de produção, a sua origem é árabe. No início, os azulejos predominavam em igrejas e palácios, mas com o tempo popularizaram-se, sobretudo a partir do século XIX, e chegaram às fachadas e aos interiores dos edifícios residenciais. Embora a azulejaria se tenha desenvolvido noutros países (como a Espanha, a Itália e os Países Baixos), em Portugal a sua originalidade deriva sobretudo da relação estabelecida com outras artes, nomeadamente a pintura, a gravura e a arquitetura, e do diálogo que mantém com o espaço envolvente, iluminando-o e transformando-o globalmente. No Museu Nacional do Azulejo, situado no Convento da Madre de Deus, em Lisboa, é possível observar magníficos exemplares. Quem goste desta expressão artística deve também fazer uma visita à Quinta da Bacalhôa, em Azeitão, na Península de Setúbal.
9- O FADO
Apesar do recente reconhecimento como Património Mundial pela UNESCO, o fado ainda é visto por muitos como uma expressão artística menor. Mas há fados e fados. E há o Fado. Este foi imortalizado por Amália Rodrigues e desde aí não foi mais possível ignorá-lo. Amália, sobretudo no período em que cantou poemas de grandes poetas portugueses dentro das composições de Alain Oulman, guindou o fado a uma das expressões artísticas mais genuínas, belas e nobres. As suas atuações eram absolutamente arrebatadoras e Amália guiava-as apenas com a sua espantosa intuição. Uma das características únicas do fado é a utilização da guitarra portuguesa (há a de Lisboa e a de Coimbra, com afinações diferentes), com sua sonoridade única e inequívoca. Neste instrumento se destacaria um intérprete e criador extraordinário chamado Carlos Paredes. E é ainda uma voz feminina que se destaca nos dias de hoje no fado: Mariza é a digna sucessora de Amália.
10- A POESIA
No campo da escrita, Portugal não é apenas um país de poetas. Desde Fernão Mendes Pinto que existem ilustres contadores de histórias, narradores exímios, domadores lestos, que cavalgam as palavras. Eça de Queirós é um deles. Mas foram dois poetas que marcaram para sempre as letras portuguesas: Luís de Camões e Fernando Pessoa. Radicalmente diferentes, na vida e na obra, igualam-se e complementam-se no génio. Ambas as obras, separadas por um quarto de milénio, estão no topo do que alguma vez foi produzido, no género, por homens e mulheres. Ambos viveram durante algum tempo em Lisboa (e passaram por Alfama), e ambos são símbolos importantíssimos da cidade, e de toda a nação. Mas outros nomes de poetas poderíamos acrescentar – Camilo Pessanha, Cesário Verde, Florbela Espanca, Sophia de Melo Breyner, Ruy Belo, Herberto Helder, entre muitos, muitos outros.
11- OS PORTUGUESES
As generalizações são sempre abusivas, ainda mais quando se trata de povos e, neste campo, não há melhores ou piores. Existem vários tipos de portugueses, como existem vários tipos de subsolos: o transmontano é duro e rude como o granito; o alentejano maleável como a argila e macio como o xisto. A diversidade reina. Mas talvez seja possível encontrar alguma tipicidade num país com 850 anos. O português tem, como já vimos, uma costela fenícia, à qual devemos acrescentar as árabe, judaica e berbere. Ou seja, o arcaboiço é semita[6]. Por outro lado, uma característica básica do português é a miscigenação. Basta ver os negros no Brasil e os negros dos Estados Unidos para perceber como as colonizações portuguesa e inglesa foram diferentes. A expressão “Deus criou o branco e o preto, e o português criou o mulato” tem pleno cabimento. Talvez por isso o português se adapte rapidamente à vida longe de casa. E, nesta, ninguém sabe receber tão bem quanto ele, o típico hospitaleiro. Pena é que, a nível social, dependa tanto do Estado. O português raramente tem iniciativa e precisa de ser liderado. Este é um problema cultural, que justifica, em parte, o atraso do país.
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Notas:
[1] A capital portuguesa ficou conhecida como “Cidade Branca”, sobretudo, após o filme, com título homónimo, do realizador suiço Alain Tanner, rodado em Lisboa e estreado em 1983.
[2] Existe também um cão de água espanhol, mais pequeno que o português e, ao que parece, menos sociável com as crianças. Sobre o cão de água português ver artigo deste blogue: https://ilovealfama.com/tag/cao-dagua-portugues/.
[3] Ver artigo deste blogue: https://ilovealfama.com/2014/08/22/o-primeiro-imperio-maritimo-mundial/.
[4] 60% das rolhas de cortiça de todo o mundo são produzidas em Portugal. Seguem-se Espanha e Itália. Há ainda pequenas parcelas que são produzidas em Marrocos, Argélia e Tunísia. Por outro lado, nem todas as rolhas de cortiça têm suficiente qualidade. Isto é muito importante, dado que a oferta de rolhas de qualidade não é suficiente para a procura. Os preços, naturalmente, sobem (uma boa rolha de cortiça pode custar mais de um euro), até porque todo o processo de extração só pode ser feito por processos manuais.
Para se ter ideia da importância das rolhas de vinho em cortiça, recordemos um curiosíssimo episódio ocorrido em 2010. Nesse ano foram descobertas no Mar Báltico, em área finlandesa, mais de 160 garrafas de champanhe provenientes de um naufrágio. O vinho tinha cerca de 200 anos e estava em perfeito estado de conservação, pois a enorme pressão no fundo do mar fez com que as rolhas se mantivessem estanques. Foi decidido provar o vinho que se verificou estar em perfeitas condições (a quase total escuridão e a temperatura média de 4 graus também contribuíram para isso). E, sem surpresa, foi solicitado o apoio técnico à melhor corticeira do mundo – a portuguesa Amorim – que estudou o assunto e substituiu algumas das rolhas originais por rolhas naturais de alta qualidade.
[5] Para lá da excelência da nossa gastronomia, e a condizer com ela, há que referir também o gosto dos portugueses pela comida. Somos dos poucos povos que fazem questão de almoçar e jantar com refeições completas. E somos dos que mais gostam de ir ao restaurante. De acordo com Barry Hatton, um jornalista britânico radicado em Portugal (in “Os Portugueses”, Editora Clube do Autor, 9ª edição, nov. de 2013, p. 261), “um estudo de 2008 revelou que as famílias portuguesas gastam 9,5% do seu orçamento familiar a comer e a beber fora – mais do dobro da média da UE. Essa estatística ajuda a explicar a razão pela qual Portugal tem três vezes mais restaurantes per capita do que o resto da UE (um por 131 pessoas; a média da UE é de um por 374)”. Podemos – e devemos – ainda acrescentar à lista de produtos fabulosos “made in Portugal”, algo tão básico e importante como o sal. O sal português é de altíssima qualidade, sobretudo o da região do Algarve, nomeadamente de Tavira. A flor de sal é um produto que resulta das pequenas placas que flutuam na água do mar apresada nos talhos das salinas. Logo após a recolha é depositada em caixas perfuradas para escorrer e secar ao sol, até ser armazenada. É muito apreciada pelos melhores cozinheiros mundiais. Tanto o sal tradicional quanto a flor de sal de Tavira são recolhidos entre julho e setembro, e a Comissão Europeia atribuiu-lhes, em novembro de 2013, a Denominação de Origem Protegida – DOC.
[6] Aqui discordamos abertamente de Teixeira de Pascoaes. Escreve ele no seu ensaio “Arte de “Ser Português” (Assírio & Alvim, 1ª edição, 1991, p. 58): “Portugal resiste, há oito séculos, ao poder absorvente de Castela. Demonstra este facto que, de todas as velhas Nacionalidades peninsulares, foi Portugal a dotada com mais força de carácter ou de raça. E este seu carácter, trabalhado depois pela Paisagem, resultou ou nasceu da mais perfeita e harmoniosa fusão que, neste canto da Ibéria, se fez do sangue ariano e semita. Estes dois sangues, equivalendo-se em energia transmissora de heranças, deram à Raça lusitana as suas próprias qualidades superiores, que, em vez de se contradizerem – pelo contrário – se combinaram amorosamente, unificando-se na bela criação da alma pátria”.
Ora bem, este é um retrato bastante romântico do português. Basta olhar à nossa volta para perceber isso – basta olhar para nós próprios. Embora haja, evidentemente, algum sangue ariano entre nós, somos, sem dúvida, semitas e, mais, (estudos genéticos comprovam-no), goste-se ou não, somos em larga medida africanos, com sangue ancestralmente negro. Claro que nos referimos a cruzamentos antigos. Somos dos povos mais miscigenados do mundo e estamos também presentes noutros povos, como, por exemplo, no Brasil. Atualmente, em Portugal, de acordo com um artigo publicado no Journal of Human Genetics, por Mark A. Jobling, Susan Adams, João Lavinha e outros (The Genetic Legacy of Religious Diversity and Intolerance: Paternal Lineages of Christians, Jews, and Muslims in the Iberia Peninsula), vol. 83, nº 6, 2008, pp 725-736, existem, no Norte do país, 64,7% de população de ascendência ibérica, 23,6% de ascendência judaica sefardita e 11,8% de ascendência berbere. Já no Sul de Portugal as proporções são 47,6% (ibéricos), 36,3% (sefarditas) e 16,1% (berberes).
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Ao que parece, antes de ser mar, o Báltico foi um enorme lago. O derretimento das grandes caleiras de gelo que o circundavam fez subir o nível das águas e abriu, durante a última glaciação, canais navegáveis para outros mares. A nossa viagem pelo Báltico foi feita de navio. Procurámos o melhor cruzeiro e temos a presunção de tê-lo encontrado, através do Costa Pacífica [1]. Foram doze dias intensos, em que visitámos nove cidades (e oito países)[2] desse mar quase mítico, onde se desenrolaram tantos capítulos cruciais da história europeia e, logo, da história mundial.
As disputas no Báltico são muito antigas[3], e alguns dos seus povos confrontaram-se com invasões sucessivas de vizinhos mais poderosos, sobretudo dinamarqueses, suecos e, nos últimos séculos, russos e alemães. Os russos foram os últimos a abandonar alguns países bálticos que integravam a então União Soviética, como são os casos de Estónia, Letónia, Polónia e Lituânia. Dos que foram atacados pelos soviéticos, o único país a resistir com sucesso foi a Finlândia.
Como sempre acontece em ocupações mais ou menos prolongadas, largas minorias da potência ocupante permanecem nos Estados que reconquistam a independência. É o que acontece, por exemplo, na atual Ucrânia[4], com as graves consequências políticas, que todos vamos conhecendo através da comunicação social. A Rússia procura, nitidamente, alargar a sua zona de influência, através das minorias (e partidos representativos das mesmas), espalhadas por esses países.
Estamos, portanto, a falar de uma zona instável, de países que reconquistaram recentemente a independência, de uma zona tampão, estratégica, alvo de disputas políticas entre a Rússia e a Europa Ocidental. Mas estamos também a falar de povos muito antigos, povos com uma vontade inquebrantável de autonomia. Todos eles – excetuando obviamente a própria Rússia – parece terem achado que a melhor forma de garantir essa autonomia era no seio da União Europeia. São, portanto, nossos parceiros de jornada e, só por isso, já estaria justificada esta viagem. Na realidade, porém, são muito mais. São países fascinantes com histórias e culturas riquíssimas – a maioria das cidades que visitámos estão classificadas como Património Mundial – que justificam amplamente a decisão de visitá-los.
KIEL

Foi em Kiel que se iniciou a nossa viagem pelo Báltico. Esta cidade é a capital da Schleswig-Holstein Busdesland, fundada, em 1223, pelo conde Adolfo IV de Schauenburg, e está situada no extremo norte da Alemanha, junto à fronteira com a Dinamarca. Para aqui chegarmos tivemos de apanhar o avião (de Lisboa) para Hamburgo, onde dormimos uma noite, e, na manhã seguinte, tomar o comboio para Kiel. Quer numa, quer noutra cidade encontrámos alemães simpáticos e prestáveis, em contraste notório com o tempo sombrio e chuvoso, embora estejamos em pleno Verão. No regresso do cruzeiro voltámos a passar por Kiel, onde ficámos mais um dia e uma noite. Na manhã do dia seguinte apanhámos o comboio até o aeroporto de Hamburgo, tendo sido necessário mudar uma vez de composição. O transporte ferroviário é barato por estas bandas, com bilhetes coletivos, o que facilita muito a vida quando se viaja acompanhado, como foi o nosso caso. Às oito horas da tarde, embora seja pleno dia, as pessoas recolhem-se em casa e as ruas ficam praticamente desertas. O clima é mesmo agreste por aqui, como, de uma forma geral, em toda a Alemanha.
ESTOCOLMO
A parte mais interessante de Estocolmo é o burgo antigo (Gamla Stan), erguido sobre uma das catorze ilhas em que a cidade repousa. Ali pudemos observar belos edifícios, ruas e praças – como aquela onde se situa a Academia Sueca e o Museu do Nobel. Estocolmo é bastante antiga e a sua localização estratégica fez com que fosse capital da Suécia desde o século XIII. Atualmente, é uma das cidades mais limpas, organizadas e seguras do mundo. Nos arrabaldes de Gamla Stan, numa ilha vizinha, visitámos o edifício do City Hall[5], construído em 1923, uma das edificações mais visitadas da cidade. Um senhor muito simpático perguntou-nos se sabíamos quantos tijolos tinham sido usados na construção daquele edifício. “Oito milhões”, disse-nos, sorrindo, acrescentando que sempre faz essa pergunta aos netos quando por ali passam…
Entrar e sair de Estocolmo por navio é um espetáculo à parte: são quatro horas a navegar entre milhares e milhares de pequenas ilhas (cerca de vinte e quatro mil!), muitas delas habitadas, arborizadas, graníticas, com suas casas e seus ancoradouros, junto aos quais flutuam embarcações de todos os tipos – veleiros, barcos a motor, motas de água e, até, pequenos barcos a remos. O nosso grande navio serpenteou por entre essas ilhas (muitas delas apenas ilhéus e ilhotas), por canais que só os pilotos locais podem conhecer. Ao percorrê-los, ficamos com uma noção mais perfeita da localização estratégica desta magnífica cidade.
Como se sabe, a Suécia é um dos países mais desenvolvidos do mundo, e é o terceiro maior país da União Europeia. No entanto, a densidade populacional é muito pequena (21 habitantes por quilómetro quadrado) e a Suécia tem menos habitantes que Portugal, cerca de 9,3 milhões.
HELSÍNQUIA
Se Estocolmo surpreendeu, Helsínquia não ficou atrás. Historicamente, a vida dos finlandeses não tem sido fácil, entalados entre as potências Suécia e Rússia, ambas ocupantes da Finlândia por períodos bastante longos: foi parte da Suécia até 1809 e, posteriormente, Grão-Ducado autónomo pertencente ao Império russo. Muitas das construções de Helsínquia são ainda desse tempo, algumas delas bastante interessantes. Mas os finlandeses nunca se conformaram com as ocupações e sempre deram mostras de serem um povo valoroso e empreendedor. Em 1917 foi declarada a independência. Seguiu-se uma guerra civil e guerras contra russos e alemães. Em 1939 resistiram a Estaline, com um terço das tropas do adversário e com um arsenal bélico igualmente muito inferior. Não é de admirar, portanto, que aqui existam vários militares heróis nacionais, com estátuas espalhadas pela cidade. Os finlandeses são, além de determinados, naturalmente tímidos, mas muito afáveis e educados. O seu sistema educativo é de primeiríssimo nível, o melhor que se conhece no mundo. Tudo isto se reflete nas ruas. Helsínquia é uma cidade calma, musical, ordeira, alegre e civilizada; e, talvez a brindar-nos pela nossa visita, inesperadamente soalheira. Esta belíssima cidade sempre foi relativamente pequena, contando hoje em dia com cerca de 600.000 habitantes. Toda a Finlândia terá pouco mais de cinco milhões, cerca de metade de Portugal. A língua finlandesa é parecida com o estoniano e, curiosamente, não tem origem indo-europeia[6].
SÃO PETERSBURGO
São Petersburgo tem algumas semelhanças com as cidades que visitámos antes – Estocolmo e Helsínquia – sobretudo no que se refere à geografia[7] e ao clima, mas também quanto às numerosas catedrais e igrejas ortodoxas. No resto, é bastante diferente. São Petersburgo tem as características de uma cidade imperial, com seus palácios, guarnições militares e monumentos eminentes; e é igualmente uma cidade de grande atividade cultural, com um número considerável de museus, teatros, bibliotecas, salas de espetáculos e livrarias.
É também diferente por ser uma cidade relativamente nova. Fundada há 312 anos por Pedro, o Grande, primeiro imperador da dinastia Romanov, foi capital da Rússia por cerca de 200 anos, e mudou de nome várias vezes (foi Petrogrado e Leninegrado) até voltar a ser São Petersburgo. A cidade repousa sobre mais de quarenta ilhas, no delta do rio Neiva, e conta, atualmente, com mais de cinco milhões de habitantes. A estes acrescem os inúmeros turistas que visitam, sobretudo no Verão, a cidade mais ocidentalizada da Rússia[8], apesar da política reacionária de Putin e seus comparsas, apoiados pela maioria do povo russo. Neste aspeto a Rússia difere muito quer da Suécia, quer da Finlândia, países com os quais manteve conflitos ao longo de vários anos. Isto mesmo podemos confirmar através de um guia local que acompanhava um grupo de italianos. Ouvimo-lo dizer, à porta da catedral de S. Pedro e S. Paulo, que os russos apoiam Putin; que detestam Gorbatchov; que a maioria deles acha positiva e patriótica aquilo que foi a política de Estaline.
Como ficou dito, São Petersburgo é uma cidade monumental. É fácil descobrir pela internet quais os seus lugares de interesse, que são mesmo muitos. Evidentemente, no pouco tempo que estivemos na cidade, visitámos apenas uma pequena parte deles. São Petersburgo é daquelas cidades que merecem uma visita demorada, pelo menos de uma semana.
TALIN
Talin é uma cidade completamente diferente das três anteriores. Mais pequena; mais modesta; mais sombria (pelo menos no dia em que a conhecemos) – o que não quer dizer, forçosamente, menos bela. No seu casco velho, dividido em duas zonas, encontramos os mais interessantes edifícios, alguns dos quais medievais, que nos contam muito da sua história. Uma história de repressão imposta, desde cedo, por povos mais poderosos, como os dinamarqueses, os alemães, os suecos e os russos. O próprio nome da cidade quer dizer “Fortaleza dos Dinamarqueses”, “Taani Linnus”, que deu origem a Tallin.
Fustigados pelos soviéticos durante grande parte do século XX (com breve intervalo durante a II Guerra Mundial, quando os alemães tomaram a Estónia), este povo sempre teve um fortíssimo desejo de independência. Esta seria alcançada apenas no fim dos anos oitenta e, enquanto não conseguiam a liberdade, os estonianos reuniam-se para cantar em grandes manifestações que, embora culturais, eram também, e sobretudo, de protesto. Em celebração desses tempos, ainda hoje, de cinco em cinco anos, se realiza em Talin o Festival da Canção, que reúne, durante dois dias, todo o povo da Estónia[9]. A tradição destes festivais remonta a 1869. De Talin trouxemos um CD (Tabula Rasa) de um dos seus músicos mais emblemáticos, Arvo Pärt.
RIGA
Riga é uma cidade belíssima. Esta afirmação é reforçada pelo espanto que nos provoca o conhecimento dos terríveis bombardeamentos a que foi submetida durante a II Guerra Mundial, bem como a determinação de seus habitantes em recuperá-la, após o longo período de ocupação – e abandono – soviético, que apenas terminou em 1991. Riga deve o seu nome ao pequeno rio sobre o qual, depois de aterrado, a construíram. Os primeiros a desenvolverem a cidade foram os alemães, que aqui chegaram em 1202 e permaneceram, com suas língua e cultura, por cerca de 700 anos, embora escavações realizadas em 1938 tenham provado que tribos locais se haviam estabelecido em Riga muito antes da chegada dos alemães.
Riga é, pois, um burgo muito antigo. Isso se comprova por toda a parte central da cidade (Vecrïga), através de edifícios medievais, quase saídos de contos de fadas. Destes, destaca-se, pelas suas incríveis beleza e singularidade, a “Casa dos Cabeças Negras”. Inicialmente construído em 1334, este magnífico edifício foi alvo de reformas ao longo dos anos e, em 1721, tornou-se propriedade dos Blackheads. Destruído por um incêndio logo nos primeiros dias da II Guerra Mundial, tal como Fénix, renasceu, literalmente, das cinzas.
Mas Riga não é inesquecível apenas pelos seus belos edifícios medievais. Os amplos espaços verdes, os cafés, com belíssimas esplanadas, e as praças, onde convivem harmoniosamente, monumentos, esculturas, plantas e flores, artesãos e meros transeuntes – tudo lhe confere um colorido inigualável. Nota-se também um enorme dinamismo em Riga, sobretudo entre a população mais jovem (quase todos falam bem inglês), que augura um futuro risonho a esta notável cidade báltica.
KLAIPEDA
Apesar de ser também muito antiga – fundada em 1252 – Klaipeda não tem o fulgor das restantes cidades que visitámos, sobretudo do ponto de vista histórico-cultural (e, logicamente, turístico). Não deixa, porém, de ser uma cidade importante (a terceira maior da Lituânia), sobretudo porque é a única que tem um porto marítimo, de vital importância económica. Trata-se, aliás, de um porto extenso e completo, com terminais para todo o tipo de cargas e também para passageiros. Se do ponto de vista arquitetónico Klaipeda não é uma relíquia, ela é harmoniosa e singela do ponto de vista natural. O rio Dane, que a corta ao meio, confere-lhe alegria, frescura e paz. Tal como a Estónia e a Letónia – suas parceiras na União Europeia e no Euro – a Lituânia tem tudo para sonhar com um futuro melhor.
GDANSK
É um pouco estranho que se fale tão pouco de Gdansk – ou, então, temos andado demasiado distraídos. Isto é o mais provável, dado que a cidade estava repleta de turistas quando a visitámos: Gdansk é um grande museu ao ar livre. Esta realidade impõe-se com tanta evidência que chegamos a esquecer-nos do seu relevante papel económico, sobretudo na vertente portuária, vital para o comércio com o exterior, o qual já era importante no século XIII.
Gdansk é, pois, uma cidade muito antiga. Foi no período entre 1580 e 1650 – considerado “época dourada” – que a faceta artístico-cultural da cidade se desenvolveu enormemente. Uma das causas deste desenvolvimento foi a Reforma. Ao Gótico seguiu-se o Renascimento e a este, sob influência holandesa, o Maneirismo. Naqueles tempos prevalecia a tolerância religiosa e esta proporcionou o ambiente propício para que ali se estabelecessem milhares de artesãos e artistas, oriundos de todas as partes da Europa. Assim surgiram obras de arte que tornaram esta cidade uma das mais belas do mundo.
A invasão prussiana, a partir da segunda metade do século XVIII, vem estancar este processo criativo e, mais tarde, o próprio desenvolvimento económico de Gdansk. Em 1793, a cidade passou a fazer parte da Prússia e foi submetida a um longo processo de germanização, interrompido apenas no curto período de soberania francesa, de 1807 a 1814. Após a Grande Guerra, e com a influência inglesa, foi declarada, em 1920, a cidade livre de Gdansk, sob protetorado da Liga das Nações. No final da II Guerra Mundial, em 1945, as tropas soviéticas destruíram quase 90% do centro histórico da cidade. Depois da guerra, os polacos reconstruíram-no e, nas décadas de setenta e oitenta, foram em Gdansk que se deram as revoltas e greves operárias contra o regime pró-soviético, sobretudo através do sindicato independente Solidariedade e do seu carismático dirigente, Prémio Nobel da Paz em 1983 e, mais tarde, presidente da Polónia (1990-95), Lech Walesa.
GDYNIA

Gdynia é uma cidade muito mais recente que Gdansk, situada a poucos quilómetros desta[10], igualmente nas margens do Báltico e igualmente portuária, ainda na baía que deve o nome à sua magnífica vizinha. Enquanto esta está muito vocacionada para o turismo externo, Gdynia é uma cidade onde se podem ver muitos veraneantes locais. Podemos observar uma praia repleta de gente, com boas infraestruturas, muitas crianças brincando num parque infantil em plena praia e, em local contíguo, uma marina repleta de embarcações de recreio. Na envolvente, muitos bares e restaurantes (almoçámos num deles), parque de diversões, jardins, numa área generosa, plana e de fácil acessibilidade, praticamente no centro da cidade. Neste país é mais difícil encontrar pessoas que dominem línguas estrangeiras, nomeadamente o inglês; nota-se que a população não tem os níveis de educação que encontrámos em outros países bálticos. Mas parece que a Polónia apresenta um dinamismo económico que lhe garante um bom futuro. Não podemos esquecer que também ela é um país recentemente independente. Com a dimensão que tem e o rumo que leva, a Polónia será em breve uma potência económica e – espera-se – social.
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Notas:
[1] O itinerário que o Costa Pacifica cumpriu é excelente. Porém, o serviço a bordo – para quem conhece outras companhias de cruzeiro, nomeadamente a MSC – deixa muito a desejar. E, a propósito, vamos deixar uma dica preciosa a quem quiser viajar em navios de cruzeiro (e se preocupe com os preços). Existe um sítio na internet onde os preços dos cruzeiros ficam muito mais baratos, em muitos casos, a menos de metade do preço: http://www.cruisedirect.com.
[2] São nove os países bálticos. Destes, apenas não visitámos a Dinamarca. Estivemos em Alemanha, Suécia, Finlândia, Rússia, Estónia, Letónia, Lituânia e Polónia.
[3] A Grande Guerra do Norte foi uma das maiores da região báltica. Nela se defrontou o Império da Suécia contra uma tríplice aliança formada por Dinamarca-Noruega, Saxónia-Lituânia-Polónia e Rússia. Comandada pelo jovem Carlos XII, a Suécia subjugou todos os adversários até ser derrotada pela Rússia na batalha de Poltava, em 1709, obrigando Carlos XII a exilar-se em território do Império Otomano. A guerra porém ainda se arrastaria por mais 12 anos (durou de 1700 a 1721) e terminou com o Tratado de Nystad, entre russos e suecos, que se confrontariam de novo em 1741-1743 e em 1788-1790. E não se pense que foram apenas estes os confrontos entre a Suécia e a Rússia, que se degladiaram ao longo dos séculos XV, XVI e XVII (e ainda antes, na Idade Média, embora a Rússia ainda não tivesse o seu nome atual), por várias vezes, assumindo-se como as duas grandes potências da região. Uma história do Báltico, ainda que muito resumida, não caberia apenas em um artigo deste blogue.
[4] A Ucrânia, evidentemente, não faz parte dos países bálticos. A Rússia, sendo o maior país do mundo, tem fronteiras longuíssimas, que vão muito para lá do Báltico e que, no quadrante ocidental, cortam praticamente a Europa de Norte a Sul; uma extensa zona, historicamente conflituosa, face a interesses geopolíticos divergentes.
[5] Câmara Municipal.
[6] Tal como o húngaro e o estoniano, o finlandês é considerado, pela maioria dos linguistas, uma língua fino-úgrica, uma sub-família das línguas uralianas. Pensa-se que as origens das línguas fino-úgricas remontem ao terceiro milénio antes de Cristo, algures no norte e centro da atual Rússia, a oeste dos Montes Urais.
[7] Por toda a região báltica existe um número infindável de ilhas. Estocolmo, Helsínquia e São Petersburgo estão localizadas sobre ilhas. Isto sugere que a profundidade média desse mar deve ser baixa. Notámos ainda que no Báltico a navegação é intensa, devendo este mar ser o principal meio para o comércio entre os países da região.
[8] Cidade mais ocidentalizada, mas não a mais ocidental. Existe um enclave russo chamado Kaliningrado, que também fica no Báltico, mas mais para ocidente, entalado entre a Lituânia e a Polónia, que é a ponta da lança que a Rússia tem na Europa. Este pequeno estado (oblast) russo é simultaneamente o nome da sua principal capital. Uma cidade conquistada na sequência da II Guerra Mundial, uma cidade hoje completamente degradada, que deve o seu nome a um amigo de Estaline, Mikhail Kalinin, mas que foi durante centenas de anos uma cidade próspera e magnífica – a cidade onde nasceu o grande filósofo Immanuel Kant – a bela cidade medieval de Konigsberg, capital da Prússia Oriental.
[9] A Estónia e a Letónia faziam parte da região histórica da Livónia, muito disputada entre as potências do Báltico (sobretudo russos e suecos)ao longo dos anos.
[10] Cerca de vinte cinco quilómetros. Gdynia, Gdansk e a cidade termal de Sopot formam a região metropolitana de Tricity, a qual tem uma população de mais de um milhão de habitantes.
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