O homem das duas vidas: Cristóvão Ferreira e Sawano Chuan

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A aldeia de Zibreira, hoje, terra natal de Cristóvão Ferreira.

1- A primeira vida: Cristóvão Ferreira.

Cristóvão Ferreira nasceu por volta de 1580, em Zibreira, concelho de Torres Vedras. Ingressou na Companhia de Jesus com 16 anos de idade, em Coimbra, onde tomou os primeiros votos em 27 de dezembro de 1598, ingressando no Curso de Artes, a primeira etapa da sua longa carreira jesuítica.

Cristóvão Ferreira tinha uma forte vontade de embarcar para a Ásia, motivado pelas notícias de conversão de muitos asiáticos à fé cristã, com especial destaque para os japoneses. Assim, em 1600, Cristovão interrompe os estudos e parte para o Oriente, acompanhado de vinte  companheiros jesuítas. Sabe-se que passou por Goa e que chegou a Macau em fins de 1600 ou inícios de 1601. Macau era na época o centro de irradiação e de acolhimento de missionários e o mais importante foco das missões no Extremo Oriente[1]. Ali, no Colégio da Madre de Deus, ele prosseguiu os seus estudos em Filosofia e em Teologia, tendo sido ordenado padre no final de 1608. Completava assim o cursus honorum destinado a padres professos que faziam os quatro votos: de pobreza, castidade, obediência à Ordem e obediência ao Papa.

Ainda em Macau, Cristóvão Ferreira adquire os conhecimentos básicos de língua japonesa e familiariza-se com os costumes e cultura da sociedade onde iria missionar: havia muitos japoneses a residir em Macau ou de passagem pelo território, além dos estudantes nipónicos que frequentavam o colégio. Em 1609 embarca para o Japão, tendo ali chegado em 29 de junho do mesmo ano. Nesta altura, Cristóvão Ferreira teria cerca de 29 anos e iniciava a etapa da vida para a qual se preparara – o trabalho de missionário no terreno. No entanto, sem saber, ele fazia a sua viagem definitiva, pois não sairia do Japão até morrer, 41 anos depois.

O seu trabalho de missionação deu-se em condições cada vez mais difíceis. As boas perspetivas que os primeiros missionários encontraram – com destaque para Francisco Xavier – não se verificaram mais, e a situação vinha-se deteriorando à medida que a reunificação do Japão se tornava efetiva, graças à ação de três grandes chefes políticos e militares: Oda Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi e Tokugawa Yeyasu. Este último foi o fundador do xogunato Tokugawa ou de Edo (atual Tóquio), que dominou o arquipélago até 1868. O cristianismo foi considerado uma ameaça para este processo de unificação política, religiosa e ideológica. Os padres cristãos foram considerados suspeitos de estarem ao serviço de um rei estrangeiro (fosse de Portugal ou de Espanha) que teria como intenção última a conquista do território nipónico.

Assim, ainda em 1587, Toyotomi Hideyoshi promulgou o primeiro decreto anticristão, mas este não teve grande efeito face aos interesses comerciais em jogo, uma vez que os governantes japoneses não queriam perder um negócio extremamente lucrativo, cujos principais protagonistas eram os portugueses, e os jesuítas os intérpretes e intermediários que facilitavam os contactos entre as partes. Mas a ameaça continuava latente e, dez anos depois, deu-se a primeira execução coletiva. Foram condenados à morte por crucificação e executados, em Nagasáqui, vinte e seis cristãos. Além da ameaça que representava o processo de unificação japonesa, começaram a surgir também divisões entre os missionários das várias ordens religiosas no terreno, como era o caso de dominicanos, franciscanos, agostinhos e mendicantes. A isto juntou-se a cobiça de espanhóis e, sobretudo, de holandeses, tendo estes sido os únicos autorizados a instalar uma feitoria em Hirado, em 1609. Os ingleses também apareceriam em 1613, mas retiraram-se em 1623.

Em 1610, Cristóvão Ferreira encontra-se no seminário de Arima, lecionando Latim e aprofundando os seus conhecimentos da língua japonesa. Dois anos depois, o dáimio da cidade ordena o fecho do seminário. A maior parte dos missionários residentes refugia-se em Nagasáqui. Cristóvão, porém, segue para Quioto, provavelmente para substituir o padre Carlo Spinola, destacado para Nagasáqui.

Entretanto as medidas dos governantes japoneses vão completando o cerco aos missionários, o qual se fecha com a publicação de um édito, em 27 de janeiro de 1614. Através dele se ordenava a concentração de todos os missionários no porto de Nagasáqui, para que abandonassem o Japão, e a destruição de igrejas, capelas e casas de missionários; era também proibida a prática do cristianismo, bem como se obrigava cada japonês a inscrever-se num templo budista. Ao contrário das medidas anteriores, apenas implementadas em parte, este édito é rapidamente cumprido, dado que estavam reunidas as condições políticas e económicas para que tal acontecesse: por um lado, Tokugawa Ieyasu derrotara os opositores internos na batalha de Sekigahara, em 1600, e conquistara o título de xogum, reforçando sua autoridade pessoal, centralizando o poder em Edo (Tóquio); por outro lado, os portugueses já não eram necessários, nem os jesuítas, dado que holandeses e ingleses poderiam fazer o comércio com o exterior, sem os inconvenientes do proselitismo religioso dos lusitanos.

Os missionários, a maioria jesuítas e um punhado de franciscanos e dominicanos, são então reunidos no porto de Nagasáqui e deportados: uma parte para Macau e outra parte para Manila. Apesar disso, cerca de cinquenta mantiveram-se clandestinamente no território, e um deles foi Cristóvão Ferreira. A sua vida corria graves perigos dado que a perseguição aos cristãos se intensificou com uma lei de 1616, que determinava a condenação à morte dos que protegessem ou ocultassem os missionários cristãos. Davam-se prémios pecuniários para quem os denunciasse. Muitos foram mortos.

Cristóvão Ferreira viveu os dezanove anos seguintes na clandestinidade, usando disfarces, vivendo entre Quioto, Nagasáqui e Osaka. O seu trabalho e a dedicação reconhecida à causa cristã, guindaram-no à posição de vice-provincial do Japão, o que ocorreu em 23 de dezembro de 1632. Tinha a seu cargo a elaboração de relatórios anuais sobre a atividade da missão e também muitos relatórios sobre martírios. O texto mais conhecido e inflamado de um martírio foi o que escreveu (em 22 de março de 1632) sobre o jesuíta japonês Antonio Ishida, que resistiu a diversas torturas, entre 1629 e 1632, até ser morto na fogueira em setembro deste ano.

2- A fossa

Como vimos, a repressão aos cristãos intensificou-se, sobretudo a partir dos finais da década de 1620, coincidindo com o início do mandato do terceiro xogum, Tokugawa Iemitsu (1623-1651), tendo sido tomada a decisão de extirpar de vez o cristianismo.  As autoridades nipónicas passaram a considerar os martírios um motivo para o aparecimento de novos cristãos, dado que punham a nu a enorme convicção e força dos missionários, e então decidiram apostar na apostasia. Refinaram as técnicas de tortura. A mais temida era a suspensão na fossa (ana-tsurushi), que foi aplicada pela primeira vez em julho de 1633. A vítima era pendurada de cabeça para baixo e esta quase tocava nos excrementos depositados numa fossa. O corpo era atado para que o sangue não descesse ao cérebro, e era feita uma ligeira incisão na têmpora como precaução, para que o sangue escoasse lentamente. Os gases da fossa funcionavam como uma parcial anestesia, tornando o sofrimento mais prolongado. A vítima só tinha possibilidade de salvar-se fazendo um sinal com uma das mãos, deixada livre para o efeito, mostrando assim que cedia às exigências dos torturadores.

Cristóvão Ferreira foi preso em setembro de 1633 e submetido à tortura da fossa, juntamente com mais sete padres e noviços, em  18 de outubro do mesmo ano. Entre eles encontravam-se figuras proeminentes das missões, como António de Souza, superior dos dominicanos, e o padre jesuíta japonês Julião Nakaura, um dos integrantes da embaixada que foi de Kyushu a Roma (1582-1590), a primeira a sair do Japão rumo à Europa. Todos os companheiros de suplício de Cristóvão pereceram. Julião Nakaura resistiu três dias; outro aguentou nove dias; mas Cristóvão Ferreira, ao fim de cinco horas de tortura, apostatou.

Tendo em conta o percurso de Cristóvão Ferreira – uma carreira jesuítica com mais de 37 anos, cerca de 19 dos quais na dura clandestinidade -, sabendo-se que o martírio era algo aceite quando não desejado pelos missionários e sendo certo que o próprio Cristóvão sabia que, mais cedo ou mais tarde, seria capturado e torturado, a sua rendição aparece aos olhos de todos, e talvez sobretudo dos próprios torturadores, como algo surpreendente. Mais surpreendente ainda depois dos relatórios sobre martírios que escreveu, onde exaltava o comportamento de muitos de seus confrades, que pereceram sem nunca renunciarem à sua fé. Além de que, um mês antes da sua apostasia, já no cárcere, referindo-se aos companheiros que estavam com ele, escrevera: “pela graça de Deus todos estão com muito ânimo e desejo, esperando por aquela hora ditosa”.

Após a rendição, provavelmente, seguiu-se o efumie, cerimónia pela qual os apóstatas tinham que pisar imagens da Virgem Maria ou de Jesus Cristo. O leque de interpretações possíveis sobre a apostasia de Cristóvão é tão vasto que não é lícito nem prudente apostar em qualquer uma delas. Certo, certo é que a notícia teve enorme impacto quer dentro quer fora do Japão.

3- Reações

Assim, para as autoridades japonesas, empenhadas na campanha anticristã, a apostasia de Cristóvão Ferreira representou uma importante vitória, pois ficava provado ser possível vergar os cristãos. Já para estes, a notícia representou um enorme abalo. A estupefação foi tal que chegaram notícias contraditórias a Macau.

Dali se escreveram cartas secretas a Cristóvão Ferreira, incitando-o a reparar a apostasia com o martírio; e dali partiram consecutivamente alguns jesuítas, com a intenção de encontrá-lo e movê-lo ao arrependimento. Foram praticamente missões suicidas, pois era sabido que dificilmente os seus membros poderiam escapar à captura e à morte. A primeira tentativa foi levada a cabo pelo padre Marcello Mastrilli, que desembarcou no Japão em 1637, sendo imediatamente aprisionado e, depois de três dias na fossa, degolado, sem ter conseguido encontrar Cristóvão Ferreira. Dois anos depois deu-se a segunda tentativa, desta feita através do padre Pedro Kibe, que morreria na fossa em julho de 1639. No interrogatório a que foi submetido em Edo esteve presente Cristóvão Ferreira, já na pele de Sawano Chuan.

A terceira e última tentativa, que se desenrolou em duas fases, foi liderada pelo padre Giovanni Antonio Rubino. O primeiro grupo concentrou-se em Manila e chegou ao Japão em agosto de 1642. Era constituído pelo próprio Rubino (daí ter sido designado por Primeiro Grupo Rubino) mais quatro padres jesuítas e quatro dógicos. Todos foram capturados rapidamente e condenados à fossa em 17 de março de 1643. Não se sabe ao certo se nos interrogatórios a que foram submetidos esteve presente Cristóvão Ferreira. O Segundo Grupo Rubino era constituído por dez membros, entre os quais os padres Pedro Marques, Alfonso Arroyo, Francesco Cassola e Giuseppe Chiara, e chegaram ao Japão em 27 de junho de 1643. Foram imediatamente presos e submetidos a longos interrogatórios na cidade de Edo. Cristóvão Ferreira (na verdade, já Sawano Chuan) esteve presente, admoestando os prisioneiros a renegarem a sua fé, o que todos fizeram, sendo que mais tarde Alfonso Arroyo revogou a apostasia. Por seu turno, Giuseppe Chiara tornou-se o segundo renegado mais famoso, após Cristóvão Ferreira, sob o nome japonês de Okamoto San’emon.

O fervor religioso e a incredulidade fizeram com que muitas notícias da reconversão de Cristóvão Ferreira, a maioria por vias indiretas e sinuosas, chegassem a circular entre os jesuítas. Uma delas, dois anos após a sua morte, em 1650, dava conta de que ele se havia reconvertido e morrido mártir, após três dias na fossa. Essas notícias chegaram a colher alguma aceitação e foram inclusivamente partilhadas por historiógrafos da Companhia de Jesus, como António Franco e Daniello Bartolli. Inclusive, já no século XX, o historiador jesuíta Josef Franz Shütte, após analisar a documentação disponível, chegou à conclusão de que Cristóvão Ferreira “morreu corajosamente pela fé de Cristo”.

4- A segunda vida: Sawano Chuan

As fontes mais fidedignas sobre a vida de Cristóvão Ferreira após a apostasia são de origem holandesa, sobretudo através dos diários dos responsáveis das feitorias holandesas de Hirado (até 1641) e de Deshima (a partir de 1641). Por volta de 1640, o xogum Tokugawa Iemitsu proibiu grande parte da atividade marítima e conduziu o Japão a um progressivo isolamento, vulgarmente designado por sakoku (país encadeado). As exceções a este corte com o exterior foram os mercadores holandeses (confinados desde 1641 à ilha artificial de Deshima), tendo-se mantido também o tráfico com os chineses; foram mantidas ainda relações, via Kagoshima e Tsushima, com os reinos de Ryuku e da Coreia.

É neste contexto de mudança que deve ser entendido o édito promulgado em 1639, o qual proibia os mercadores portugueses de traficarem com o Japão, significando na prática o seu banimento do território. Esta decisão seria tragicamente confirmada pelo destino da embaixada enviada de Macau, em 1640, apelando à revogação do édito e ao restabelecimento da viagem Macau-Nagasáqui. Dos 74 elementos desta expedição apenas 13 foram poupados para que relatassem o sucedido. Os restantes foram decapitados. É a partir deste período que existem bases mais sólidas sobre a vida de Chuan, que se ia aculturando, ao mesmo tempo que assistia a estes sucessos trágicos e tumultuosos.

Chuan permaneceu a maior parte da sua vida em Nagasáqui, sob as ordens de Inoue Chikugo no Kami Masashige (1585-1662), inspetor-geral da campanha anticristã, um inquisidor temível, que chegou a ser comparado a Adolf Eichmann[2], e que usou Chuan como intérprete, tendo-o enviado várias vezes à feitoria holandesa de Deshima. Convém dizer, nesta altura, que o português era a língua franca comercial do Extremo Oriente, utilizada por muitos japoneses, holandeses e ingleses nos seus contactos com os nativos. A partir da década de 1640, com a campanha anticristã apaziguada, Chuan tem tempo para se dedicar a atividades mais de acordo com os seus interesses.

Faz traduções, compilações e aperfeiçoa os conhecimentos de japonês, a ponto de ler o Taiheiki (épico escrito no final do século XIV) e outros clássicos japoneses. Escreve, em 1636, o pequeno tratado Kengiroku, no âmbito da propaganda anticristã do período Tokugawa, associando na obra o imperialismo europeu à atividade missionária. Refuta de forma virulenta o cristianismo, que considera pura invenção para enganar o povo. Considera a vida após a morte como um absurdo, bem como o inferno e o paraíso; nega a existência de um criador, dado que o universo sempre existiu; o juízo final é considerado um embuste, ridículo e escandaloso. O radicalismo de Chuan levou o filósofo Michel Onfray, já no século XXI, a considerar Cristóvão Ferreira/Sawano Chuan como “o quase primeiro ateu” da história da ateologia[3].

Sawano Chuan teve também um papel importante no processo de composição em japonês do tratado Kenkon Bensetsu (Exposição sobre os Céus e a Terra), na linha dos tradicionais Tratados da Esfera, e que conta com comentários críticos de Mukay Gensho (1609-1677)[4], um erudito neo-confucionista japonês. Ao que parece este tratado foi levado para o Japão por alguém do Grupo Rubino, talvez fosse até (segundo aventa José Miguel Pinto dos Santos) uma espécie de caderno de notas elaborado pelo próprio Giovanni Antonio Rubino, algo que se inseriria na linha dos comentários existentes na época, na sua maioria tendo como referência o Tratado da Esfera (De Sphaera Mundi, c. 1230), de Johannes de Sacrobosco. O papel de Sawano Chuan na composição parece ter sido apenas o de tradutor, o que não invalida que não tenha acrescentado interpretações próprias. Seja como for, o Kenkon Bensetsu foi dos livros mais lidos sobre cosmologia ocidental no Japão até finais do século XVIII, sendo esta afirmação confirmada pelo elevado número de cópias manuscritas conhecidas.

Chuan esteve ainda envolvido na elaboração de um tratado médico, Nanbanryu-geka hidensho (Tradição Secreta da Cirurgia dos Bárbaros de Sul). O único manuscrito conhecido refere o nome de Chuan, dando a entender ser ele o autor. Trata-se de uma obra que contém uma exposição sobre teoria humoral, seguida de prescrições para os vários tratamentos, uma farmacopeia e um glossário técnico[5]. No caso da autoria ser mesmo, como tudo indica, de Swano Chuan, os conhecimentos manifestados terão sido adquiridos após a apostasia, em contacto com a feitoria dos holandeses, pois aos jesuítas estava interdita a prática médica e a posse de livros da especialidade.

Em 3 ou 4 de novembro de 1650 Sawano Chuan morreu em Nagasáqui, com cerca de 70 anos de idade. Recebeu, de acordo com a tradição budista, o nome póstumo de Chum-joko Sensei. De acordo com os registos dos templos Zen de Nagasáqui, os seus restos mortais foram depositados no cemitério de Kodaiji na mesma cidade. O estatuto que alcançou é atestado pelos monumentos aos antepassados erguidos, posteriormente, pela família Sugimoto (apelido do seu genro), primeiro em Edo e, já em 1941, em Tóquio. Em ambos, o nome de Chum-joko Sensei é o primeiro dos antepassados listados.

5- Os ecos

Em 1966, saiu no Japão, ligado à história de Cristóvão Ferreira, o romance Chinmoku (Silêncio) de Shusako Endo (1923-1996), um japonês católico, que no mesmo ano receberia o prestigiado prémio literário Tanizaki, romance que seria publicado em várias línguas, incluindo o português[6]. O Silêncio centra-se na personagem de Sebastião Rodrigues, baseada na figura histórica de Giuseppe Chiara, um dos elementos do Segundo Grupo Rubino, um jesuíta que entra no Japão em busca de Cristóvão Ferreira, procurando descobrir as razões que o levaram a renegar a sua fé.

O sucesso alcançado por este livro levou outros autores a fazerem adaptações: filme com o mesmo título saído em 1971, realizado por Masahiro Shinoda; ópera do compositor e poeta Teizo Matsunura; e sinfonia, composta em 2002, pelo músico escocês James MacMillan. É esperada já há alguns anos uma nova adaptação de Silêncio ao cinema, pelo realizador americano Martin Scorsese[7]. No entanto, em 1996, o cineasta português João Mário Grilo dirigiu Os Olhos da Ásia, filme baseado na apostasia de Cristóvão Ferreira e na história dos quatro jovens que integram a chamada embaixada do Japão à Europa. O filme termina com um paralelismo entre Julião Nakaura, que morre pela fé na fossa, e Ferreira, que a abjura.

Mais recentemente, em 2003, o romancista francês Jacques Keriguy publicou L’Agonie[8], cuja ação abrange exclusivamente os cinco dias em que Cristóvão Ferreira foi submetido à tortura da fossa. Trata-se de uma narrativa extremamente bem fundamentada sob o ponto de vista histórico. Através de uma segunda pessoa que se dirige interiormente a Cristóvão Ferreira, são revisitadas as etapas fundamentais da sua vida de missionário, que o levam a consciencializar-se dos excessos e erros cometidos, da hipocrisia de certas práticas, das dúvidas e interrogações que o atormentaram[9].

A partir do último quartel do século XVII os japoneses fecharam-se completamente ao mundo até quase 250 anos depois, quando, forçados pelas potencias ocidentais, nomeadamente a Inglaterra, tiveram de abrir o país ao comércio internacional. Quando, em 1863, chegaram a Nagasáqui os primeiros cristãos desta nova era, foram recebidos por um grupo de japoneses que recitavam uma oração. Apesar do longo período que decorrera e de todas as perseguições, mesmo escondido, o cristianismo tinha sobrevivido. Estima-se que hoje existam uns 500 mil católicos no Japão, um país com quase 130 milhões de habitantes. De acordo com algumas vozes, não fora a perseguição do século XVII, o Japão seria hoje mais católico do que as Filipinas.

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Notas:

[1] Em Macau viveu também Camões, tendo sido aí que teve o único emprego que se lhe conhece: Provedor dos Defuntos.

[2] George Elison, “Deus Destroyed. The Image of Christianity in Early Modern Japan”, Harvard University Center Asia, 1998, p. 208.

[3] Michel Onfray, “Traité d’Atheologie”, Paris, Grasset, 2005 (edição portuguesa, Lisboa, ed. Asa, 2007).

[4] Após cada capítulo, Mukay Gensho faz um comentário crítico, melhor dizendo, reage às teorias expostas de uma forma que se resume “a uma recusa dos pressupostos filosóficos ocidentais e a uma concordância, algo contrafeita, com os estritos resultados científicos”. In “O Kenkon Bensetsu e a receção da cosmologia ocidental no Japão do séc. XVII”, Revista Portuguesa de Filosofia, t. 54, fasc. 2 (abril-junho), Humberto Leitão e José Miguel Pinto dos Santos.

[5] George Elison, ob. cit., p. 209 e 448 (notas 67-68).

[6] Shusako Endo, “O Silêncio”, 1990, Edições D. Quixote. Há outra edição de 1995, com tradução de José David Antunes e Teolinda Gersão. (Esta é a informação que retiramos do artigo, mencionado na nota 8, de Maria Augusta Lima Cruz. No entanto, a edição que temos é a 2ª edição da D. Quixote, de 2010, com tradução de José David Antunes, a partir da versão inglesa de William Johnston). 

[7] https://www.youtube.com/watch?v=IqrgxZLd_g

[8] Editions du Seuil, 2003.

[9] Como nota final, é muito importante salientar que este artigo se baseia completamente num outro, publicado pela Editora Húmus, da Universidade do Minho, em 2013, e integrado no livro “Fernão Mendes Pinto e a Projeção de Portugal no Mundo”. O título do artigo em causa é “Os Caminhos Malditos da Projeção de Portugal no Mundo: o Caso de Cristóvão Ferreira” e a autora é Maria Augusta Lima Cruz. A qualidade desse artigo é insuperável, quer pela forma, quer pelo conteúdo. Fica aqui registado o meu pedido de desculpas à autora por ter usado muitas vezes, mesmo sem querer, palavras suas, que, por serem tão apropriadas, não consegui substituir. O mérito que este artigo possa ter é, pois, todo dela. Uma última palavra para dizer que, de acordo com Maria Augusta Lima Cruz, este seu artigo se baseia no “estudo mais fundamentado e exaustivo sobre a vida de Cristóvão Ferreira”: “The Case of Christovao Ferreira”, Monumenta Niponnica (Sophia University), vol. 29, nº 1, pp. 1-54, de Hubert Cieslik, S.J.

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A nossa edição:

Virgínia Soares Pereira (coordenadora), Fernão Mendes Pinto e a Projeção de Portugal no Mundo, Editora Húmus, 1ª edição, V.N. Famalicão, 2013.

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Aristides de Sousa Mendes

Aristides de Sousa Mendes com mulher e seus primeiros seis filhos. 1917.
A família Sousa Mendes em 1917.

Nunca é de mais recordar Aristides de Sousa Mendes: hoje, particularmente, quando passam 70 anos sobre o fim do pesadelo de Auschwitz.

Sousa Mendes salvou mais de 30.000 judeus. Oskar Schindler, o alemão celebrizado pelo filme de Spielberg, “A Lista de Schindler”, salvou 1.200.

Não nos esqueçamos nunca da frase de Aristides: “salvar uma vida é como salvar o mundo inteiro”.

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Foto: http://www.sousamendes.org/prog/banque-photos.php

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Córdoba, Granada e Gibraltar

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Jardins do Alcazar dos reis cristãos, em Córdoba.

Do sul de Portugal é facílimo dar um salta à Andaluzia, ali mesmo ao lado,  e conhecer belas cidades como Huelva, Sevilha, Cádiz, Málaga, etc. Nesta pequena viagem de três dias optamos por duas cidades espanholas, Córdoba e Granada, e uma do Reino Unido – um verdadeiro espinho cravado no corpo de Espanha – Gibraltar.

Algo ressalta, desde logo, quando se termina uma viagem por estes três lugares, geograficamente bem próximos: o seu passado árabe. De facto, Córdoba foi no século X sede do esplendoroso califado Omíada, Granada foi o último reduto árabe na Península Ibérica, e Gibraltar foi o lugar onde, em 711, o berbere Tariq ben Ziad desembarcou com sua tropas e abriu caminho para os árabes conquistarem a Ibéria. São, por isso, cidades não apenas históricas, mas também carregadas de simbolismo.

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Pormenor de uma porta, em Córdoba.

Em Córdoba visitámos a Judiaria, a Mesquita-Catedral, a Alcazar dos reis cristãos, a ponte romana, a rua das Flores e a estátua de Maimónides. Este é o nome grego do  rabino, professor, mestre, filósofo e médico judaico, Moshe Ben Maimon. A sua vasta obra, ainda hoje estudada e comentada, teve e continua a ter um impacto tão importante na religião judaica que ficou célebre o epitáfio medieval que dizia: “Desde Moisés (da Bíblia) até Moisés (Maimónides) não houve ninguém como Moisés”1

Por seu turno, Granada é uma cidade maravilhosa. O bairro antigo e árabe, chamado Albaicín, é encantador. Subindo-o, desde o centro da cidade, pode observar-se, na colina oposta, tendo por trás a Serra Nevada, a célebre Alhambra, que inclui um castelo cristão, um complexo palaciano e fortaleza de origem árabe, da dinastia Nasrida, e ainda jardins e hortas circundantes, a que chamam Generalife.

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Azulejo do palácio árabe de Alhambra, em Granada.

Em Albaicín, a comparação com Alfama é quase inevitável. E, lamentavelmente para nós, Alfama fica a perder. Albaicín é muito mais limpo e preservado. As suas casas com pátios, interiores ou exteriores, sempre floridos, são muitas vezes autênticos miradouros de onde os olhos pousam e repousam sobre a cidade. Claro que o pequeno rio Darro que corre entre as colinas de Alhambra e Albaicín não tem a grandiosidade do Tejo. Mas só talvez se um dia Alfama se tornar património mundial, a gente possa aqui viver com o orgulho que se sente em Granada.

Por fim, Gibraltar: um daqueles lugares que fascinam geólogos, físicos e outros cientistas: uma montanha de rocha calcária elevada do fundo do mar pelas forças descomunais da Natureza. Gibraltar pertence ao Reino Unido desde 1713, ano em que os espanhóis cederam o território à Inglaterra, a título perpétuo, após a Guerra da Sucessão.

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Pormenor de coluna no palácio árabe de Alhambra, em Granada.

Subir o rochedo de Gibraltar não deixa de ser uma aventura, mesmo que o façamos de carro, como foi o nosso caso. A estrada é estreita e íngreme, e o esforço a que obrigam os troços que têm de ser feitos a pé é compensado com vistas deslumbrantes em todas as direções, destacando-se as montanhas do norte de África (o Atlas) que se impõem a Sul. Pelo caminho vêem-se famílias inteiras de macacos da berberia, tão habituados aos turistas, que chegam a posar para as fotografias. Como o nome indica, foram aqui introduzidos pelos berberes e são hoje protegidos pelo governo local.2

Neste percurso ascendente – que é a principal atração turística do rochedo – podem visitar-se grutas, castelos e monumentos, mas o mais impressionante são sem dúvida os túneis cavados na rocha pelos britânicos, aquando do grande cerco feito pela Espanha (1779-1883) e também durante a II Guerra Mundial. Um dos túneis corta o rochedo de sul para norte, tendo pelo meio aberturas que deixam passar apenas o olhar humano (por vezes ajudado por binóculos) e os canos dos canhões. Dali é possível controlar o território espanhol, a baía de Algeciras e o próprio Mediterrâneo.

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Gibraltar. Ao fundo, África.

Gibraltar e o monte Musa, em África, constituíam na Antiguidade as chamadas Colunas de Hércules. Entre elas ficava uma porta para o desconhecido3, – uma passagem que liga o Mediterrâneo ao Atlântico e onde passa hoje um navio a cada seis minutos. Não é difícil calcular a importância estratégica de Gibraltar. Nem surpreende que tanto o Reino Unido quanto os gibraltinos não queiram abrir mão deste simbólico território.

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Notas:

1 “Raízes dos Judeus em Portugal”, Inácio Steinhardt.

2 De acordo com a lenda, o Reino Unido perderá Gibraltar quando o último macaco desaparecer. Não admira, por isso, que os macacos sejam protegidos.

3 De facto, como o próprio nome indica, o Mediterrâneo era o centro do mundo. Para além, ficava o desconhecido.

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Casapueblo e Carlos Páez Vilaró

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Foto tirada no interior do hotel de Casapueblo.

Visitar Casapueblo, em Punta Ballena, no Uruguai, é uma extraordinária surpresa, comparável ao que sentimos na oficina de Francisco Brennand, em Recife, ou no espaço onde se situa a Sagrada Família, de Gaudí, em Barcelona. Casapueblo é um conjunto habitacional, construído numa encosta, fronteira ao Rio da Prata, sob orientação de Carlos Páez Vilaró. Hoje o conjunto abriga um hotel, um museu com obras daquele artista plástico, escritor, compositor e cineasta, e a casa onde ele vivia. Vilaró faleceu em fevereiro deste ano, com 90 anos, mas antes conheceu o mundo. Era um viajante assumido e consagrado.

Nascido em Montevideo, no bairro de Los Pocitos, passou parte da infância brincando nas areias do rio da Prata, sendo aí que pensou pela primeira vez cruzá-lo e chegar a Buenos Aires. E foi ainda nesse bairro, embora numa casa mais no interior, na rua Santiago Vásquez (para onde a família se havia mudado, devido às atividades políticas do pai) que terá nascido a obsessão de Carlos pelo Sol, ao vê-lo representado na primeira bandeira do Partido Agrário, bordada por sua mãe, Rosita Vilaró, numa máquina Singer. Partido Agrário fundado por seu pai, que se demitiu do Partido Nacional, para lutar pela gente do campo. O sol seria para sempre elemento essencial na arte de Carlos Vilaró.

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Os telheiros são construídos com canas de pesca.

Outro episódio interessante ocorreu já na adolescência, quando mais uma vez devido à atividade política do pai, a família se mudara para o bairro El Cordón. Carlos Páez deparou-se com uma empregada negra em casa de um amigo, onde costumavam brincar. O fascínio foi imediato e, desde aí, ele se interessaria para sempre pelas coisas de África, pelos negros e sua cultura. Mais tarde, nos anos sessenta do século XX, Vilaró se embrenharia pela África – Libéria, Camarões, Gabão, Congo, Quénia – e foi no Gabão, em Lambaréné, que conheceu e ficou amigo do doutor Albert Schweitzer[1]. Já no Quénia, pintou um mural no palácio do presidente Fulbert Youlú. Pintar em África enriqueceu-lhe a experiência e excitou-lhe a imaginação.

Antes de se mudarem definitivamente para a casa que estavam construindo em Nuevo Malvín, ainda em Montevideo, os Páez Vilaró (pai, mãe e três filhos) habitaram em outros locais, e haveria de ser na praia del Buceo que Carlos faria os seus primeiros rabiscos, desenhando, em forma de caricatura, os pescadores. Os seus desenhos tinham sucesso pois os pescadores pagavam-lhe os desenhos com peixe e marisco. Com tudo isto, Carlos ia se desinteressando da escola… Em algumas visitas periódicas, nas férias, a uma estância (El Ombú) de seu tio Alfredo Puig, começou a desenhar também cenas campestres que o impressionavam.

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Há quem encontre semelhanças com Santorini, na Grécia.

Até que chegou a hora de cruzar o Prata, chegar à Argentina e cumprir aquele sonho de criança. Um dia Carlos acercou-se da margem do Prata e tomando com a mão um pouco de espuma da água do rio, fez o sinal da cruz e pediu a Deus que o ajudasse a fazer a travessia. E assim tomou a decisão de se emancipar e trabalhar em Buenos Aires. Nessa época, ele não podia imaginar que aquele salto se prolongaria em outros mil, numa viagem permanente que seria toda a sua vida. Depois de se despedir de amigos, familiares e de uma menina muito especial que morava num bairro de lata e se chamava Valentina, acompanhado pela mãe, apanhou um táxi para o porto e, com o coração apertado e as lágrimas da mãe na lapela, embarcou. Estávamos em 1941 e Carlos tinha dezanove anos de idade.

Em Buenos Aires, seu primeiro trabalho foi numa fábrica de fósforos. Paralelamente, começou a desenvolver os primeiros esboços, que retratavam a atmosfera das gentes trabalhadoras. Não se interessou por estudar, agradava-lhe o desafio de avançar tateando, sem a ajuda de um mestre. Pouco tempo depois de iniciar o trabalho na fábrica de fósforos, conseguiu um novo emprego, melhor remunerado, numa empresa de artes gráficas, La Fabril, onde se imprimiam as melhores revistas argentinas. Isso foi muito útil, pois permitiu-lhe conhecer o trabalho dos melhores cartonistas daquela época, alguns dos quais se tornaram seus amigos. Começou a frequentar a animada vida noturna portenha. Comprou uma máquina de escrever e continuou desenhando.

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O Sol é omnipresente na obra de Vilaró.

Os anos passaram até que uma doença aftosa, provocada pela ingestão de leite deteriorado, o obrigou a regressar a Montevideo. Na cidade natal fundou duas empresas de publicidade em cinema com seu irmão Miguel, até que um incêndio destruiu o armazém onde guardavam o material cinematográfico, mais de trezentos mil metros de fita. Continuou buscando temas para pintar, mas Montevideo não tinha a chama de Buenos Aires, a inspiração tardava, até que uma noite, por volta do Natal, um grupo de negros, cantando e dançando pelas ruas, o impressionou de tal forma que o seguiu até o local humilde onde habitava – o Mediomundo – e aí sentiu de forma redobrada a vontade de pintar, encontrando finalmente dentro de si motivo para o fazer. Seu entusiasmo foi tal, que invariavelmente levava os amigos que chegavam ao país a conhecerem Mediomundo[2]. Jorge Luis Borges, Joséphine Baker e Ernesto Sábato[3] estão entre eles. E foi ali que expôs suas obras de homenagem às delegações da UNESCO quando estas se reuniram, naquela época, em Montevideo.

Além disso, passou a integrar as atividades culturais daquela comunidade, sendo percussionista e chegando a compor várias músicas. Entrou assim a fundo no universo do candombe, um tipo de música que nasceu no seio das populações de escravos negros que foram transportadas para o Uruguai a partir do fim do século XVIII e que é, hoje, Património Cultural da Humanidade, reconhecido pela UNESCO.

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Cúpulas que escrevem no céu.

Os candombes que compôs chegaram a ser interpretados e gravados por artistas de renome uruguaios. Foram figuras de comparsas[4] negras, percussionistas e bailarinas, que representou nos quadros de sua primeira exposição, em Punta del Este. Continuou a pintar em Mediomundo até que em meados dos anos cinquenta um empresário o procurou e convidou para expor em Buenos Aires, na maior galeria da Argentina. A exposição foi um sucesso e consagrou-o definitivamente como artista de craveira mundial.

A partir daí desenhou, pintou e expôs um pouco por todo o mundo. O branco fascinava-o e sempre queria preencher seus espaços com formas e cores que lhe povoavam a imaginação. Gostava de pintar pratos brancos quando visitava pela primeira vez um restaurante. Mas seu maior fascínio eram os muros brancos. Pintou murais em inúmeros países, no total, cerca de trezentos, em hotéis, hospitais, prisões, asilos, aeroportos, palácios presidenciais, casas particulares, muitos deles deteriorados ou destruídos por vandalismo ou por incúria das autoridades locais. Para além do Uruguay, pintou murais em países tão díspares como os EUA[5], Panamá, Japão, Ceilão, Quénia, Congo, Camarões, Tahití, Austrália, Argentina e Brasil[6], entre outros.

Carlos Paez Vilaró e Pablo Picasso
A foto foi tirada por Douglas Duncan, herói da Guerra da Coreia.

Conheceu e foi amigo de gente famosa, sobretudo ligada às artes, quer nos muitos países que visitou, quer em Casapueblo, Punta Ballena[7]. Um episódio interessante ocorreu quando visitou Picasso (1957), em Villefranche-sur-Mer, na França. Vilaró tomara contacto com vinte sete peças de Picasso (vasos e pratos), em cerâmica, numa exposição em Montevideo. Quando se encontraram falou a Picasso sobre a excelente impressão que essas peças lhe tinham causado, mas que não pôde comprar nem uma, dado o valor elevadíssimo das mesmas. Picasso quis saber de qual peça ele tinha gostado mais.

– Todas, don Pablo!

– Tens preferência por alguma em especial?

– Na verdade, comprá-las-ia todas, se pudesse – respondeu Vilaró.

Picasso pegou no telefone, ligou para alguém e disse: “Estou aqui com Páez Vilaró, um pintor do Uruguai… Deve estar louco, pois gosta de todas as minhas cerâmicas. Por favor, embale-as bem e remeta-as ao consulado uruguaio em Cannes”. Ainda atordoado pela surpresa, Vilaró percebeu que do outro lado da linha perguntavam qual o preço, ao que Picasso respondeu, de imediato: “Esqueça isso. É uma oferta minha”.

As cerâmicas estão hoje em Casapueblo e são (foram, para Páez Vilaró) o tesouro mais precioso de todas as peças ali expostas.

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Monumento de homenagem aos pescadores.

Um dos traços mais marcantes da multifacetada personalidade de Vilaró era a abrangência de seus interesses e amizades. Longe de se dar apenas com pessoas famosas, ele era amigo de gente bem humilde, como já vimos pelo que se passou em Mediomundo. Outro grupo de onde extraiu vários amigos foram os pescadores. Quando chegou a Punta Ballena e se propôs ali construir a sua casa, o local não tinha qualquer edifício, apenas lá viviam alguns pescadores, bem perto do mar, em grutas que lhes serviam de habitação, sem água canalizada ou luz elétrica. Vilaró foi à gruta de um deles, o que ali se radicara há mais anos, chamado Abdón Ramos, para lhe pedir permissão para construir a casa. O pescador pensou que fosse alguma piada, não compreendia a intenção de Vilaró, pois era apenas um humilde habitante do lugar. Este respondeu-lhe que o fazia porque ele era “o verdadeiro dono da paisagem”. Ficaram amigos. Abdón Ramos e outros dois pescadores, Agustín e el Dios Verde, estavam presentes sempre que se inaugurava uma exposição em Casapueblo, em representação do povo do mar. Um pequeno monumento pode ser visto hoje, no local, em homenagem aos pescadores.

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Ali sentimo-nos um pouco Vilaró.

A construção de Casapueblo realizou-se por fases. Primeiro havia que adquirir o terreno. Dado que não haviam lotes pequenos para compra e Vilaró não dispunha de dinheiro para comprar um terreno de quarenta hectares, o seu irmão Miguel teve a ideia de conseguir uma sociedade, a qual acabou por ser constituída por quinze argentinos e quinze uruguaios. A terra custava quatro pesos uruguaios por metro quadrado, o preço de um maço de cigarros. Primeiro foi construída uma casa de lata, com chapas de zinco presas a toros de madeira. Mais tarde, Carlos Vilaró ergueu uma casa de madeira (La Pionera) e ofereceu a casa de lata aos pescadores, que ficaram felizes. Porém, com o advento da ditadura militar, a casa de lata foi considerada refúgio de terroristas e as autoridades locais ordenaram a sua demolição em quarenta e oito horas.

A construção de La Pionera foi realizada à revelia das autoridades. O local era tão inacessível que nenhum inspetor se atrevia a visitá-lo. Cedo, porém, a casa se revelou pequena para armazenar todo o material de Vilaró e para acolher os amigos que frequentemente o visitavam. Era necessário algo maior, e assim, com a ajuda dos pescadores, começou a nascer Casapueblo, em torno de La Pionera, até que esta desapareceu por completo, engolida por aquela. Vilaró não era arquiteto e a construção não obedeceu a qualquer plano prévio. Ele e seus amigos pescadores ergueram Casapueblo respeitando os contornos que a natureza desenhou, utilizando materiais antigos, como portas e janelas, construindo de dentro para fora e do centro para a periferia, criando à medida que avançavam. Casapueblo tem um pouco de cada operário, sendo Vilaró um deles.

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Aspeto do museu.

Face aos rigores climáticos próprios de um local aberto sobre o mar, as janelas e portas revelaram-se uma necessidade, sendo que Casapueblo deve possuir mais de quinhentos espaços que se abrem e fecham. A construção acompanha a encosta desde o topo até o mar e foi por isso necessário esculpir uma longa escadaria. Esse trabalho foi efetuado por um crioulo, especializado na construção de fornos de pão. A iluminação está incrustada na pele do cimento, evitando-se assim o uso de apliques. Durante o dia passa despercebida, integrada no corpo da casa, mas à noite transforma Casapueblo numa nave incandescente, dormitando na borda do oceano. Foram construídos cem respiradouros e vinte chaminés, e a água corre por intermináveis canalizações, alimentando oito bebedouros, cinco piscinas e as mais de trezentas saídas de bronze que permitem a rega dos jardins.

Cada terraço, varanda ou ruela tem uma identidade própria, e a alguns deles foram atribuídos nomes, como John Lennon, Mario Benedetti ou Pelé, entre muitos mais, mas, no seu conjunto, Casapueblo é, nas palavras do próprio Páez Vilaró, uma “homenagem ao sol e uma oferenda à mulher”. As cúpulas representam a sua maneira de “escrever contra o céu”. Todo o espaço é branco, puro, imaculado, como não podia deixar de ser e como o autor quis que fosse, desde o início. Belo e impactante, sobretudo em jornadas límpidas, luminosas, como foi o caso do dia da nossa visita, quando aquela harmoniosa massa branca reforça ainda mais o azul profundo do céu, e vice-versa. Existem mais de cinquenta quartos em todo aquele imenso espaço curvo, como o próprio universo, que inclui a residência de Vilaró, o museu e um hotel.

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O hotel.

A vida de Carlos Páez Vilaró foi, pois, aventurosa, mas não apenas plena de venturas[8]. Os filhos de seu primeiro casamento, durante toda a infância, raramente viam um pai em constantes viagens e empreendimentos; o primeiro filho de seu terceiro casamento, foi alvo de uma disputa sobre a paternidade, provocada pelo ex-marido da então sua futura mulher, um jovem e poderoso empresário de Buenos Aires, que ficou com a custódia da criança durante mais de quinze anos, até a paternidade ser finalmente concedida por meios legais a Vilaró[9]; e, finalmente, o seu filho Carlos Miguel foi um dos passageiros (e um dos dezasseis sobreviventes) do avião uruguaio que se despenhou na cordilheira dos Andes, num acidente que ficou conhecido como a “Tragédia dos Andes”, em 1972[10]. Partiu de imediato para o Chile, mas teve de passar por tempos muito difíceis, pois os últimos sobreviventes, entre os quais estava seu filho, só foram resgatados setenta e dois dias depois.

Podemos encontrar muito do que foram as vida e obra de Páez Vilaró espelhado em Casapueblo. A sua arte tem alguma coisa de pop art, mas é mais do que isso, até porque lhe é anterior. Vilaró apelidou-a de Plac-art, “uma criação que escapa às linhas tradicionais para entrar num mundo libertado, explodindo em luzes, sons, cor e objetos em movimento”.  É por isso que é imprescindível conhecê-la, em Casapueblo, nem que seja por uma vez.

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Carlos Páez Vilaró.

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A nossa edição:

Carlos Páez Vilaró, Posdata, Autobiografia, Prisa Ediciones, 2012, Montevideo, Uruguay.

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Notas:

[1] Teólogo, filósofo e músico alsaciano (na época de seu nascimento a Alsácia fazia parte do Império Alemão, mas hoje faz parte da França), iniciou já depois dos trinta anos o curso de medicina e após concluí-lo casou e partiu para África, tendo montado em Lambaréné, no Gabão, num ambiente inóspito, um hospital que inicialmente funcionou num galinheiro. Preso durante a guerra, voltaria a Lambaréné, onde ergueu um novo hospital e viveu até o fim. Foi autor de várias obras importantes e laureado com o Prémio Nobel da Paz, em 1952 (1875-1965). 

[2] Mediomundo era um grande edifício retangular, de dois andares, com quarenta habitações em torno de um grande pátio interior. Tinha ainda um cisterna de água, trinta e dois lavadouros e duas casas de banho. Foi projetado por Alejandro Canstatt e inaugurado em 1885. Era conhecido como Conventillo de Risso e só depois de demolido, em dezembro de 1978, passaram a chamar-lhe Mediomundo. Situava-se na rua Cuareim, hoje, Zelmar Michelini, em Montevideo, Uruguay. Em Lisboa existiram edifícios do género. Lembro-me, por exemplo, do Convento das Bernardas, no bairro da Madragoa, onde habitavam muitas famílias de baixo extrato social.

[3] Evidentemente, toda a gente sabe quem foi o grande escritor argentino Jorge Luís Borges; Josephine Baker foi uma dançarina norte-americana, naturalizada francesa, que participou em vários filmes; Ernesto Sábato foi igualmente um grande escritor argentino, que morreu em 2011, com noventa e nove anos de idade, dois meses antes de completar um século de vida.

[4] Comparsa é um grupo de tocadores e bailarinos, uma trupe, essencialmente de percussão, que sai atuando pelas ruas, sobretudo no Carnaval.

[5] Um dos murais mais interessantes pintado por Vilaró foi num asilo para idosos latinos, em Washington. Chamou-lhe “Mural Infinito”. Os anciãos puderam pintar o mural com ele e continuar todos os dias, alterando-o e recriando-o. De acordo com Vilaró, este foi o mural em que obteve maior prazer. 

[6]  Hotel Delfim, em Guarajá; Yate Club, em Florianópolis; Hotel Casacolina, em Búzios; Hotel Hilton e Edifício Scarpa, em São Paulo.

[7] Eis algumas das personalidades com quem conviveu, para além dos já citados no texto: Astor Piazzola, Juscelino Kubitschek, Oscar Niemeyer, Fidel Castro, Che Guevara, Peron, Quinquela Martín, Brigitte Bardot, Lech Walesa, Plácido Domingo, Andy Wharol, Aristóteles Onassis, Pablo Neruda, Eduardo Galeano. Entre os convidados que recebia em Casapueblo, contam-se Henry Ford, Vinicius de Moraes, Omar Shariff, Robert de Niro, Mercedes Sosa, João Goulart, Bo Derek, Tony Curtis e Kurt Jurgens, entre muitos outros. Os convidados sentavam-se sempre nos lugares de onde se avistava o mar, em torno de uma velha mesa que tinha à cabeceira, desde o início da construção de Casapueblo, uma estátua africana de madeira, representando uma mãe negra.

[8] De acordo com as palavras do próprio Vilaró, suas mãos “acariciaram e pintaram corpos de mulheres de todas as raças”.

[9] Vilaró foi casado três vezes e teve seis filhos, três argentinos e três uruguaios.

[10] Este acidente foi muito falado na época. Ao fim de alguns dias as buscas foram suspensas e os passageiros dados como mortos. Estes tinham um pequeno rádio e souberam da suspensão das buscas através das notícias, o que aumentou ainda mais o seu desespero. Logo depois reuniram-se e tomaram a decisão de se alimentarem dos corpos dos companheiros que haviam morrido. Alguns passageiros morreram logo na hora do acidente (caso do piloto) e outros foram morrendo ao longo do tempo. De um total de 45 sobreviveram 16. Só passados mais de dois meses dois destes conseguiram chegar a uma zona onde se encontravam outros seres humanos e assim dar o alerta para que os restantes fossem salvos.

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A igreja mais antiga do Brasil

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De que a primeira missa aconteceu em Santa Cruz de Cabrália, Bahia, aquando da chegada da frota de Pedro Álvares Cabral, parece não restarem dúvidas, mesmo sabendo-se que os portugueses já haviam estado antes no Brasil. Porém, quanto ao local onde se situa a igreja mais antiga, a coisa não é pacífica. Um inglês que vive em Vila Velha, na ilha pernambucana de Itamaracá, e que por sinal é meu amigo, não tem qualquer dúvida, porém, em afirmar que a igreja brasileira mais antiga é a de Nossa Senhora da Conceição, situada na mesma localidade onde ele próprio habita. Eis o que Christopher Sellers escreveu sobre o assunto na sua página do Facebook (em itálico), com algumas (poucas) modificações minhas, que não alteram o conteúdo do texto original.

Geralmente apresentam-se três candidatas ao titulo “Igreja Mais Antiga do Brasil”….
– A Cosme e Damião de Igarassu, PE.
– A Nossa Senhora da Conceição de Vila Velha da Ilha de Itamaracá, PE. 
– A São Vicente de São Vicente, SP.

Eis aqui uma breve descrição da fundação dos três templos:

Cosme e Damião, Igarassu – A primeira estrutura foi levantada por Afonso Gonçalves após o domínio dos índios Caetes e provavelmente nos inícios do ano 1536. Essa construção caiu cerca de 1590 e uma segunda estrutura, mais robusta, foi levantada, em 1596.

São Vicente, SP – A primeira estrutura foi levantada por Martim Afonso de Souza, no ano 1532, e lamentavelmente foi destruída, junto com toda a pequena comunidade, por um maremoto, em 1542. O povoado foi reestruturado num local mais distante do mar, mas, por azar, também foi destruído, desta vez por piratas. A igreja atual foi construída em 1757.

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Nossa Senhora da Conceição, Vila Velha, Ilha de Itamaracá, PE – Apesar de não termos dados sobre o ano da sua fundação nem por quem, existem provas contundentes da existência da igreja, edificada e em funcionamento no ano de 1526, mesmo ano em que há um registro na Torre do Tombo de uma exportação de açúcar de Itamaracá para Portugal, um forte indício de que a igreja já existia há algum tempo. (Naqueles tempos o povo era mais beato, e em vez de construir campos de futebol, a primeira coisa que construía eram igrejas!). O navegante Sebastião Caboto chegou à Vila de Nossa Senhora da Conceição, hoje Vila Velha, em junho de 1526, e permaneceu na vila durante três meses. Junto com Caboto chegou o Padre Francisco Garcia, que declarou, sob juramento, no seu retorno a Espanha, que na vila ele “celebrava os divinos ofícios na igreja que ali havia, bem provida de paramentos e tudo o necessário para a celebração da Santa Missa”. A documentação original das declarações do Padre Garcia está em “Los Archivos de las Indias”, guardados no acervo da Universidade de Sevilha, Espanha.
É fácil verificar que a Igreja Nossa Senhora da Conceição de Vila Velha é, pelo menos, dez anos mais antiga que a Cosme e Damião de Igarassu, e nem falar de São Vicente, SP.
Não posso entender porque o Poder Público de Itamaracá não liga para o fato de que temos aqui na esquecida Vila Velha um atrativo de importância nacional que com a publicidade e promoção adequadas poderia atrair um turismo sustentável e de qualidade o ano redondo… triste!

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Buenos Aires e Terra do Fogo

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Casa Rosada, onde fica o gabinete presidencial.

Buenos Aires é uma das mais belas cidades da América do Sul, se não for a mais bela. Embora o rio da Prata não seja adequado para banhos, a cidade contém outros espaços de lazer bem interessantes, como esplanadas em museus, em cafés, em livrarias, em belíssimos jardins públicos. Os portenhos adoram conviver nos grandes parques da cidade, onde apanham banhos de sol, petiscam, conversam, praticam desporto.

A cidade é ampla, com bairros de luxo e bairros populares. Destes, o mais famoso é, sem dúvida, La Boca, onde encontramos La Bambonera, o mítico estádio do Boca Juniores, assim chamado por fazer lembrar uma caixa de bombons. Neste popular bairro podemos observar as casas revestidas com chapas coloridas, pintadas com as sobras das tintas de pintar os navios estacionados no porto.

Casas coloridas no bairro La Boca.

Foi também em La Boca que nasceu o tango. Por todo o lado se ouvem tangos e se veem bailarinos dispostos a tirar uma foto com os turistas para ganhar algum dinheiro. As semelhanças com Alfama são óbvias, até pela língua que aqui se fala, o lunfardo, como se pode ver num outro post aqui. Só que em Alfama a música é o fado e em Buenos Aires é o tango – ambos patrimónios culturais da humanidade, pela UNESCO.

Além disto, Buenos Aires é uma cidade artística e cultural. E com muita história, como se pode observar pelos inúmeros monumentos espalhados pala cidade. Além dos museus, são famosas as suas livrarias, que estão entre as mais famosas do mundo. Nelas podemos ler um livro, enquanto tomamos um café. São os casos da El Ateneo Gran Splendid, a Walrus Books, a Eterna Cadencia e a Boutique del Libro, esta última situada no elegante bairro de Palermo.

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Ushuaia e o Canal Beagle. Ao fundo, montanhas do Chile.

A Terra do Fogo é uma região belíssima, no extremo sul da Argentina, já depois do Estreito de Magalhães. Segundo consta, foram os próprios marinheiros da esquadra desse magnífico navegador português que, ao passarem o estreito, avistando nas montanhas fogueiras ateadas pelos índios, designaram aquela terra como do “fogo”.

A nossa visita a Ushuaia e região adjacente ocorreu em novembro, mês de plena primavera, pouco antes do início do verão e respetivo solstício. Os dias são muito grandes nesta época e as noites muito curtas. A temperatura suporta-se bem durante o dia, sobretudo se estiver sol.

Grande parte da cidade foi construída por presos, que ali viviam em condições sub-humanas. A maioria não resistia às rigorosas condições climatéricas, sobretudo, claro, no inverno. Na nossa visita circulámos por uma via férrea construída por eles. Existe também um museu na cidade, onde ficava a antiga prisão.

Via férrea construída por presos da Terra do Fogo.

Os vales e montanhas da Terra do Fogo proporcionam imagens deslumbrantes. De Ushuaia podem fazer-se vários tipos de passeios para visitar esses locais e também pequenos cruzeiros marítimos a pequenas ilhas do canal Beagle, que divide a Argentina do Chile, onde se podem observar focas, leões marinhos e outras espécies animais.

De Ushuaia partem também, nesta época do ano, cruzeiros para a Antártida. São, porém, cruzeiros bastante caros, sempre acima dos 10.000 dólares.

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Tarifa

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Uma placa no centro histórico informa que a “muy nobre cidade de Tarifa” foi reconquistada aos mouros em 21 de setembro de 1292, por Sancho IV, o Bravo. Apesar dessa vitória, no fim do século XIII, a marca árabe paira ainda hoje sobre a cidade. África continua dominando o horizonte, irresistivelmente, para lá do estreito a que chamaram de Gibraltar[1], em honra do berbere Tarik ben Ziyad,[2] que, em abril de 711, desembarcou junto ao rochedo, iniciando a ocupação muçulmana da Península Ibérica, derrotando, cidade após cidade[3], os visigodos, sempre que estes ofereciam alguma resistência[4].

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A presença árabe duraria mais de setecentos anos na Península[5] e, pelo menos, quinhentos anos, aqui, em Tarifa. Não admira, portanto, que se faça sentir ainda hoje e, provavelmente, sempre, já que o nome da cidade deriva do de outro berbere, enviado por Tarik para explorar o território e preparar o terreno para a invasão – Tarif ibn Malik.

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Na bela praia onde Tarif desembarcou os ventos são constantes, e há por isso quem considere Tarifa a capital mundial dos wind e kitesurf. Baleias e golfinhos podem ser avistados nas águas transparentes, onde o Atântico se junta ao Mediterrâneo[6]. Existe ampla oferta de hotéis, casas para alugar, parques de campismo e todos os visitantes têm  lugar assegurado para banhos de sol e de mar, pois a praia, além de ser muito bonita, é enorme, com quilómetros de extensão[7].

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E quem quiser sentir o que Tarik e Tarif experimentaram, embora em sentido contrário, pode sempre apanhar um ferry para Tanger ou Ceuta, e embrenhar-se em África. Tarifa orgulha-se de ser  o ponto da Europa mais próximo do continente negro. Dar o salto, para lá ou para cá, é uma tentação eterna.

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[1] Gibraltar deriva de “Gebal-Tarik” (montanha de Tarik). Todas as cidades europeias do estreito de Gibraltar têm nomes de origem árabe. Também Algeciras deriva do árabe “Al-jazeera” (a ilha).

[2] Os berberes são um povo cuja origem se mantém obscura, embora seja quase certo que são uma mistura de vários povos, incluindo de alguns judeus que se refugiaram  no Norte de África. Há quem refira a sua origem canaanita (da terra de Canaan), portanto, israelitas. O próprio Tarik acreditava ser judeu, descendente da tribo de Simeão (“Raízes dos Judeus em Portugal”, de Inácio Steinhardt, Vega, Lisboa, 2012).

[3] Em junho de 712, Mussa bin Nussair atravessou o estreito à frente de um exército de 1800 homens, desta vez quase todos árabes. Desembarcou em Algeciras e rumou a ocidente, conquistando Sevilha, Huelva, Faro (Ossónoba) e Beja. A região do sul da Península não era já a Bética dos Romanos, mas ainda a que tinha sido ocupada pelos Vândalos Silingi, que, depois de derrotados pelos Visigodos, passaram para o Norte de África. O nome da terra dos Vândalos era pronunciado, em árabe, Al Wandalus ou Andaluz. Daí deriva o nome Andaluzia.

[4]Em contraste com os visigodos, os árabes mostrar-se-iam um povo tolerante. Os habitantes da Península Ibérica, cansados dos germânicos, receberam os muçulmanos com alegria. A dinastia árabe que governava o império era a omíada, com califado em Damasco. Após lutas com os abássidas, que se reclamavam descendentes de Maomé (Abbas era tio do profeta), estes venceram e transferiram o califado para Bagdad. Porém, o omíada Abderramão I, emir de Córdova, manteve a independência e, quase 200 anos depois,  em 929, Abderramão III instaurou o califado de Córdova, que perduraria por mais de cem anos, aprofundando ainda mais a independência em relação aos abássidas. Os omíadas sempre governaram em convivência pacífica com os outros povos e com as restantes etnias árabes. Os judeus, por exemplo, viveram em paz e tiveram inclusive cargos importantes na administração, experimentando uma atmosfera de liberdade que não existia em mais nenhum lugar da Europa.

[5] A ocupação da península Ibérica pelos árabes foi sempre muito variável ao longo do tempo. Ela nunca foi absoluta – o reino das Astúrias resistiu sempre – e chegou, na parte final (a ocupação terminou em 1492), a ser diminuta – limitada ao emirato de Granada – uma pequena faixa que incluía as atuais cidades de Granada, Málaga e Almeria.

[6] Será fácil encontrar em Tarifa uma das várias empresas que fazem passeios no mar (em geral de duas horas) para observação de cetáceos.

[7] O único ponto em que os espanhóis parecem não ter aprendido nada com os árabes, nem com qualquer outro povo, é o da cozinha. O Sul de Espanha continua a ser uma zona gastronomicamente pobre. Aliás, excetuando a Galiza, come-se (geralmente) mal em Espanha.

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Madrid e Barcelona

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Madrid.

São as duas cidades espanholas mais importantes e durante muitos anos pertenceram a reinados diferentes. A rivalidade entre ambas é acentuada, em parte devido às equipas de futebol, dois colossos mundiais, O FC Barcelona e o Real Madrid.

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Barcelona.

Essa rivalidade nunca foi completamente superada, como se sabe, e existe mesmo um movimento muito forte para que a Catalunha (região a que pertence Barcelona), apesar da autonomia que detém, se torne um Estado independente.

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Madrid.

Estes movimentos nacionalistas da Catalunha baseiam-se em grandes diferenças culturais, por um lado (desde logo, a língua), e numa rejeição da superioridade política de Madrid (enquanto capital do estado espanhol), por outro.

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Barcelona.

Finalmente, Madrid e Barcelona são, de facto, bastante diferentes. A primeira no coração de Espanha, com seus importantes museus, a segunda virada para o Mediterrâneo, orgulhosa das obras de um dos expoentes máximos da arquitetura mundial – Antoni Gaudí.

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Equador, Galápagos

Mapa das Galápagos. (Retirado de: https://www.galapex.com/galapagos-holidays/).

As Galápagos1 são um arquipélago situado a cerca de 1.000 quilómetros do continente sul-americano, constituído por treze ilhas maiores, seis menores e mais de cem ilhotas e rochedos. A forma mais comum de chegar às Galápagos é de avião. Há voos diários de Quito e Guayaquil (por cerca de 400 dólares, ida e volta), quer para a ilha de Baltra, quer para a de San Cristóbal, duas das cinco ilhas povoadas, para além de Isabela, Floreana e Santa Cruz. Nesta última, no extremo sul, fica a cidade mais povoada de todo o arquipélago – Puerto Ayora2. Nós ficámos hospedados numa pousada fora da cidade, a uns sete quilómetros, numa localidade chamada Belavista, e não nos arrependemos. A pousada chama-se Twin Suite Galápagos, e são os proprietários — José e Esperanza — quem recebe e orienta os hóspedes. Este alojamento é altamente recomendável por várias razões: a área verde onde está inserido é muito agradável, com variadas árvores, plantas, flores e frutas, e uma pequena piscina, tudo muitíssimo bem cuidado; os quartos são amplos, limpos e confortáveis; a simpatia dos proprietários é inexcedível; a distância até Puerto Ayora é facilmente vencida em 10 minutos, de táxi, por um custo de três dólares (moeda oficial do Equador); e, acima de tudo, a senhora Esperanza é uma excelentíssima cozinheira.

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Tartaruga gigante na ilha de Santa Cruz. Calcula-se esta espécie esteja presente nas Galápagos há mais de 2 milhões de anos.

Em Puerto Ayora podem comprar-se passagens para várias ilhas. Todas as que são povoadas ficam a menos de duas horas, de barco, desta cidade. Assim é possível fazer o que aqui chamam de “tours diários” a essas ilhas e também à ilha de Bartolomé. Viagens maiores, como sejam circuitos que incluem várias ilhas, terão de ser realizadas em navios de cruzeiro, com comida e dormida a bordo, o que encarece substancialmente a viagem. Mas deve valer a pena. Esses circuitos, no mínimo, são de quatro noites, mas podem ser de uma semana ou mais, e o custo é na ordem, sempre, dos milhares de dólares. Como turistas pobres, nós fizemos apenas os “tours” diários, e visitámos todas as ilhas habitadas (uma por dia), com a exceção de Floreana. Isto porque cometemos um erro: ficámos um dia em Santa Cruz, visitando alguns pontos turísticos do interior da ilha, como Los Gemelos, o Pontudo ou a Reserva “El Chato”, os quais, sinceramente, não valem a pena em contrapartida a uma visita a outra ilha. Em “El Chato” podemos observar as tartarugas gigantes, mas isso também é possível, por exemplo, em Isabela, acompanhado por guia turístico e tudo. É sempre bom fazer as visitas às ilhas com guia, o que pode custar entre 85 e 120 dólares, por ilha, consoante as agências. Há um quiosque, em Puerto Ayora, entre o porto de pesca e o pontão de embarque, que vende as passagens mais baratas. Já agora, atravessando a rua, em frente ao cais, há um restaurante popular, facilmente identificável, que serve “almuerzos” (prato do dia, sopa e bebida) por 2,5 dólares3. E não se come nada mal. A gastronomia, aliás, é uma das boas surpresas das Galápagos, sobretudo a que se relaciona com peixes4 – albacora, espadarte (aqui chamam peixe-espada), palometa, um peixe vermelho de nome “brujo” e bacalhau5, entre muitos outros. Comemos uma palometa assada dentro de folhas de bananeira, cozinhada pela senhora Esperanza, que ficará para sempre memorável.

Venda de peixe em Puerto Ayora (Santa Cruz).

Em Santa Cruz, quando caminhamos na direção da Estação Charles Darwin, na rua marginal, ou seja, virando à esquerda quando estamos de frente para o mar, encontramos uma pequena lota onde se vende peixe e marisco. O ambiente ali, por si só, é um espetáculo. Lobos marinhos, pelicanos, fragatas e outras aves convivem com os humanos, esperando os sobejos do peixe. Ao fim da tarde, monta-se no local um aparato, com mesas e bancos de plástico, bancadas com fogões, frigideiras onde se fritam em óleo bananas, peixes, lagostins e lagostas, e muita gente esperando por um lugar para se sentar e comer. Vale a pena desfrutar do ambiente e do peixe ou do marisco. Ainda em Puerto Ayora, junto do mercado municipal, mais para o interior da cidade, mas bem pertinho (a cidade é minúscula) encontram-se vendedores populares, com produtos de vários tipos. Aí provámos uma agradável bebida quente, chamada Colada Morada. A sua composição inclui farinha de milho vermelho, abacaxi, morangos, amoras, canela, pimenta da jamaica, limão, laranja e açúcar mascavado. Provámos, também, isto já durante a visita à ilha Isabela (que inclui, no preço do “tour”, um almoço em restaurante local), uma sopa de peixe, que continha, para além deste, mandioca e banana6. Estava deliciosa. Os equatorianos têm o (bom) hábito de comer sopa, algo que não se vê tanto, por exemplo, no Brasil.

Ilha Isabela.

Isabela, a maior ilha das Galápagos7 tem uma história curiosa. Os americanos montaram ali uma base naval durante o período da II Guerra Mundial, com a intenção de controlarem o Pacífico. Construíram a primeira estação de dessanilização das Galápagos8 e foram eles que construíram também o aeroporto de Baltra, dando origem ao desenvolvimento de Puerto Ayora, na ilha de Santa Cruz, uma vez que Baltra é minúscula e Santa Cruz está logo ali, separada apenas pelo estreito canal Itabaca. Um pouco mais tarde, em 1946, o governo equatoriano9 decidiu desterrar para Isabela cerca de 300 presos, alguns bastante perigosos10. Em princípio andavam à solta, mas, em 1948, iniciou-se a construção de um perímetro, que nunca chegaria a ser acabado, através de um muro, com cerca de 25 metros de altura, erguido, pedra sobre pedra11, pelos prisioneiros. Muitos morreram, a maioria soterrada, debaixo das pedras desmoronadas, numa espécie de tarefa de Sísifo. À mínima desobediência ou revolta eram fuzilados. Em 1959, os sobreviventes da Colónia Penal assaltaram, pela calada da noite, um iate que estava ancorado na baía de Puerto Villamil, sequestrando os ocupantes, uma família dos Estados Unidos, e fugiram não se sabe para onde, não tendo sido mais encontrados. Assim, ao fim de 13 anos, extinguia-se a Colónia Penal da Ilha Isabela.

Ilha Santa Fé.

Decorreu muito tempo até que a riqueza natural das ilhas e o seu interesse científico fossem reconhecidos, apesar da passagem de Darwin pelo território. As Galápagos foram povoadas por pescadores, baleeiros, piratas, corsários e desterrados de todo o mundo, que aqui se fixaram temporariamente. As tartarugas (cuja carne dizem ser deliciosa) e os lobos marinhos12 serviam-lhes de alimento e isto, a par da colonização dos mamíferos, introduzidos pelos humanos, destruiu algumas espécies e quase provocou a extinção das tartarugas gigantes que dão o nome às ilhas. Formigas, ratos, burros, cães, gatos, porcos, bois, cabras, todos, cada um à sua maneira, matam, direta ou indiretamente, as tartarugas. Assim, as autoridades do Parque Nacional atuam em duas vertentes para preservá-las. Por um lado, criam as tartarugas em cativeiro até aos 10 anos13, enquanto as suas carapaças ainda não são suficientemente fortes para resistirem, por exemplo, às mordidas de um cão; por outro lado, eliminam sistematicamente todos os animais, sobretudo mamíferos, que vivam em estado selvagem, e que possam pôr em perigo a sobrevivência da espécie e várias subespécies terrestres das tartarugas gigantes. Assim,  elas podem atingir uns surpreendentes 300 anos.

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Iguana marinha na praia Tortuga Bay, em Santa Cruz.

Quando se viaja pela primeira vez para as Galápagos, inevitavelmente se cria a expectativa de encontrar muitas espécies, diferentes das que fazem parte do nosso quotidiano, já que 80% das aves e 90% dos répteis (assim como uma em cada cinco espécies marinhas) só existem neste arquipélago. Essa expectativa não é gorada, tanto no que diz respeito à flora, quanto à fauna, também. Dos animais emblemáticos das ilhas, podem observar-se facilmente tartarugas gigantes, lobos marinhos, iguanas terrestres e marinhas, pelicanos e fragatas, em convívio perfeito com os seres humanos, nas ilhas habitadas. Mais difícil é encontrar os belos atobás de patas azuis, aqui conhecidos como piqueros de patas azules14. Queríamos muito encontrar nem que fosse um único exemplar, e conseguimos, quase em desespero de causa, topar com um, numa zona rochosa da ilha de San Cristóbal. Parecia que estava à nossa espera! Observou, curioso, os nossos movimentos de aproximação e deixou-se ficar o tempo suficiente para que tirássemos dezenas de fotografias, algumas apenas a 3 metros de distância. Depois, em jeito de despedida, levantou um voo suave e circular, desaparecendo por trás dos rochedos.

Atobá na ilha de San Cristóbal. O atobá de patas azuis foi amplamente estudado por Darwin. Tal como outras espécies do arquipélago, está acostumado à presença humana.

As cores — do mar, dos animais, das plantas e das flores — parecem mais vivas nas Galápagos. Porém, o mais surpreendente de tudo são as pessoas que, aliás, convivem de forma harmoniosa com os animais. Educadas, simpáticas e generosas, agem de forma simples, ao ritmo da natureza, e, por isso, vivem mais e melhor. Para além da longevidade, a criminalidade nas Galápagos é (quase) nula, e não admira que cada vez mais pessoas procurem estas paragens. Isto constitui um problema, dado que a ocupação do território pelos humanos não pode exceder os 3%15, se se quiser que o estatuto de Património Natural da Humanidade, atribuído pela UNESCO em 1979, continue vigorando nas Galápagos. Afinal, só alguns podem viver no paraíso, embora, potencialmente, todos possamos visitá-lo.

Na pousada Twin Suites, com Telma, senhora Esperanza e a filha desta.

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Notas:

1 Embora os guias locais digam que a palavra “Galápagos” deriva de “sela”, dado que as carapaças das tartarugas se parecem com selas de cavalo e esta também se diz “galápago”, em castelhano, uma investigação mais profunda parece indicar que a origem mais provável seja celtibérica, dadas as palavras “galàpet” (em catalão) e “cágado” (em português), embora também possa derivar de “calapaccu” ou “carappaceu”, origem de “calabaza” e “carapazón”, respetivamente. Seja como for, Galápago transformou-se, sem dúvida, em sinónimo de tartaruga.

2 Cerca de 20.000 pessoas vivem em Santa Cruz.

3 O mesmo se passa na capital, Quito, onde os “almuerzos” valem, igualmente, 2,5 dólares.

4 O peixe e o marisco são, de facto, muito bons porque as águas do mar são relativamente frias, se as compararmos, por exemplo, com as do Nordeste do Brasil, apesar de, nas Galápagos, estarmos praticamente em cima da linha do equador. Isto tem que ver com a corrente fria de Humboldt (todas as correntes do Pacífico são frias). Apesar disto, a temperatura da água do mar nunca cai abaixo dos 21 graus e pode atingir os 27 no mês de março, o mais quente do ano. A temperatura média rondará, assim, os 23/24 graus. A temperatura do ar é, também, relativamente amena.

5 Na Semana Santa é típico comer nas Galápagos, e em todo o Equador, um prato feito com ervilhas, milho, feijão, queijo, ovos cozidos e outros ingredientes, que leva bacalhau cozinhado em leite – a fanesca. Ver a receita aqui: http://www.confirmado.net/receta-para-la-preparacion-de-la-fanesca/

6 A banana é omnipresente na cozinha “galapagueña”.

7 Nesta ilha habita a maior parte das tartarugas selvagens. As cabras aqui introduzidas pelos humanos chegaram ao número impressionante de 100.000. As cabras destroem a vegetação de que se alimentam as tartarugas e foram por isso exterminadas pelas autoridades do Parque Nacional e da Fundação Charles Darwin. Aqui fica o vulcão Sierra Negra, um dos mais ativos em todo o mundo. Em 1905, a população da ilha era apenas de 200 habitantes. A costa oeste é o melhor local das Galápagos para se observarem baleias e golfinhos.

8 Não existe água potável no subsolo das ilhas. A água tem de ser dessanilizada. Várias empresas fazem esse trabalho, vendendo depois a água à população. Estão a ser construídas estações com energias eólica e fotovoltaica. Nota-se uma grande preocupação com o ambiente nas ilhas.

9 Foi o presidente equatoriano, José María Velasco Ibarra, quem instituiu a Colónia Penal da Ilha Isabela. As prisões saturadas do Equador continental, a política conturbada da época e a concepção, no imaginário equatoriano, de que as Galápagos eram um lugar desterrado e de piratas, parecem ter sido as principais razões para esta decisão.

10 isto foi o que nos “vendeu” o guia local, mas a investigadora equatoriana Paola Rodas, da universidade de San Francisco de Quito, afirma que à colónia chegaram presos condenados por delitos menores, que não seriam presos perigosos.  De acordo com esta pesquisadora, a ideia da alta perigosidade constitui um mito, forjado em torno de um assunto propício ao imaginário popular.

11 Pedras vulcânicas de basalto.

12 As tartarugas serviam para produzir óleo, também. Os lobos marinhos podem estar semanas sem comer e, por isso, eram muito úteis aos marinheiros, pois estes podiam ter carne fresca durante bastante tempo, mantendo os lobos marinhos vivos nas embarcações.

13 Em algumas ilhas existem estações do Parque Nacional onde os ovos, recolhidos nos locais de nidificação, são guardados e regulados até o nascimento das tartarugas. Com uma temperatura de 28 graus nascem fêmeas e com 26 graus, machos, podendo assim controlar-se o equilíbrio da espécie. As tartaruguinhas passam por determinados estádios e processos até atingirem os tais 10 anos e serem devolvidas à Natureza.

14 O atobá de patas azuis foi amplamente estudado por Charles Darwin durante a sua viagem pelas Galápagos. A fêmea põe de um a três ovos de cada vez e esta espécie pratica a chamada “eclosão assincrónica”, isto é, os ovos que se põem primeiro são incubados antes dos ovos seguintes, resultando isto numa desigualdade de crescimento e uma disparidade no tamanho entre irmãos. A cria maior ataca e expulsa frequentemente do ninho a menor, perante a indiferença da mãe. A cor das patas do macho é importante na escolha da fêmea. O brilho da tonalidade azul diminui com a idade, pelo que as fêmeas tendem a escolher machos com patas brilhantes e coloridas, sinónimo de juventude. Elas preferem os machos jovens, dado que estes têm maiores fertilidade e capacidade para proporcionar cuidados paternais que os machos de maior idade. Assim, os machos praticam uma espécie de dança, erguendo as patas, para que as fêmeas vejam bem sua cor.

15 Os restantes 97% constituem o Parque Nacional das Galápagos, criado em 1959. Em 1986 o governo equatoriano criou também a Reserva de Recursos Marinhos das Galápagos.

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Fontes:

http://www.bbc.co.uk/mundo/noticias/2013/11/131118_ecuador_carcel_galapagos_jrg.shtml

http://www.lareserva.com/home/Alcatraz_patas_azules

http://animals.nationalgeographic.com/animals/birds/blue-footed-booby/

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