Equador, Galápagos

galápagosAs Galápagos[1] são um arquipélago situado a cerca de 1.000 quilómetros do continente sul-americano, constituído por treze ilhas maiores, seis menores e mais de cem ilhotas e rochedos. A forma mais comum de chegar às Galápagos é de avião. Há voos diários de Quito e Guayaquil (por cerca de 400 dólares, ida e volta), quer para a ilha de Baltra, quer para a de San Cristóbal, duas das cinco ilhas povoadas, para além de Isabela, Floreana e Santa Cruz. Nesta última, no extremo sul, fica a cidade mais povoada de todo o arquipélago – Puerto Ayora[2]. Nós ficámos hospedados num hotel fora da cidade, a uns sete quilómetros, numa localidade chamada Belavista, e não nos arrependemos. O hotel chama-se Twin Suite Galápagos, e são os proprietários – José e Esperanza – quem recebe e orienta os hóspedes. Este hotel é altamente recomendável por várias razões: a área verde onde está inserido é muito agradável, com variadas árvores, plantas, flores e frutas, e uma pequena piscina, tudo muitíssimo bem cuidado; os quartos são amplos, limpos e confortáveis; a simpatia dos proprietários é inexcedível; a distância até Puerto Ayora é facilmente vencida em 10 minutos, de táxi, por um custo de três dólares (moeda oficial do Equador); e a senhora Esperanza – e este garanto é um motivo bem forte – é uma excelentíssima cozinheira.

IMG_2649Em Puerto Ayora podem comprar-se passagens para várias ilhas. Todas as que são povoadas ficam a menos de duas horas, de barco, desta cidade. Assim é possível fazer o que aqui chamam de “tours diários” a essas ilhas e também à ilha de Bartolomé. Viagens maiores, como sejam circuitos que incluem várias ilhas, terão de ser realizadas em navios de cruzeiro, com comida e dormida a bordo, o que encarece substancialmente a viagem. Mas deve valer a pena. Esses circuitos, no mínimo, são de quatro noites, mas podem ser de uma semana ou mais, e o custo é na ordem, sempre, dos milhares de dólares. Como turistas pobres, nós fizemos apenas os “tours” diários, e visitámos todas as ilhas habitadas, com a exceção de Floreana. Isto porque cometemos um erro: ficámos um dia em Santa Cruz, visitando alguns pontos turísticos do interior da ilha, como Los Gemelos, o Pontudo ou a Reserva “El Chato”, os quais, sinceramente, não valem a pena em contrapartida a uma visita a outra ilha. IMG_2706Em “El Chato” podemos observar as tartarugas gigantes, mas isso também é possível, por exemplo, em Isabela, acompanhado por guia turístico e tudo. É sempre bom fazer as visitas às ilhas com guia, o que pode custar entre 85 e 120 dólares, por ilha, consoante as agências. Há um quiosque, em Puerto Ayora, entre o porto de pesca e o pontão de embarque, que vende as passagens mais baratas. Já agora, atravessando a rua, em frente ao cais, há um restaurante popular, facilmente identificável, que serve “almuerzos” (prato do dia, sopa e bebida) por 2,5 dólares[3]. E não se come mal. A gastronomia, aliás, é uma das boas surpresas das Galápagos, sobretudo a que se relaciona com peixes[4] – albacora, espadarte (aqui chamam peixe-espada), palometa, um peixe vermelho de nome “brujo” e bacalhau, sim, bacalhau[5], entre muitos outros. Comemos uma palometa assada dentro de folhas de bananeira, cozinhada pela senhora Esperanza, que ficará para sempre memorável.

IMG_2607Em Santa Cruz, quando caminhamos na direção da Estação Charles Darwin, na rua marginal, ou seja, virando à esquerda quando estamos de frente para o mar, encontramos uma pequena lota onde se vende peixe e marisco. O ambiente ali, por si só, é um espetáculo. Lobos marinhos, pelicanos, fragatas e outras aves convivem com os humanos, esperando os sobejos do peixe. Ao fim da tarde, monta-se no local um aparato, com mesas e bancos de plástico, bancadas com fogões, frigideiras onde se fritam em óleo bananas, peixes, lagostins e lagostas, e muita gente esperando por um lugar para se sentar e comer. Vale a pena desfrutar do ambiente e do peixe ou do marisco. Ainda em Puerto Ayora, junto do mercado municipal, mais para o interior da cidade, mas bem pertinho (a cidade é minúscula) encontram-se vendedores populares, com produtos de vários tipos. Aí provei uma agradável bebida quente, chamada Colada Morada. Sua composição inclui farinha de milho vermelho, abacaxi, morangos, amoras, canela, pimenta da jamaica, limão, laranja e açúcar mascavado. Provámos, também, isto já durante a visita à ilha Isabela (que inclui, no preço do “tour”, um almoço em restaurante local), uma sopa de peixe, que continha, para além deste, mandioca e banana[6]. Estava deliciosa. Os equatorianos têm o (bom) hábito de comer sopa, algo que não se vê tanto, por exemplo, no Brasil.

IMG_2821Isabela, a maior ilha das Galápagos[7] tem uma história curiosa. Os americanos montaram ali uma base naval durante o período da II Guerra Mundial, com a intenção de controlarem o Pacífico. Construíram a primeira estação de dessanilização das Galápagos[8] e foram eles que construíram também o aeroporto de Baltra, dando origem ao desenvolvimento de Puerto Ayora, na ilha de Santa Cruz, uma vez que Baltra é minúscula e Santa Cruz está logo ali, separada apenas pelo estreito canal Itabaca. Um pouco mais tarde, em 1946, o governo equatoriano[9] decidiu desterrar para Isabela cerca de 300 presos, alguns bastante perigosos[10]. Em princípio andavam à solta, mas, em 1948, iniciou-se a construção de um perímetro, que nunca chegaria a ser acabado, através de um muro, com cerca de 25 metros de altura, erguido, pedra sobre pedra[11], pelos prisioneiros. Muitos morreram, a maioria soterrada, debaixo das pedras desmoronadas, numa espécie de tarefa de Sísifo. À mínima desobediência ou revolta eram fuzilados. Em 1959, os sobreviventes da Colónia Penal assaltaram, pela calada da noite, um iate que estava ancorado na baía de Puerto Villamil, sequestrando os ocupantes, uma família dos Estados-Unidos, e fugiram não se sabe para onde, não tendo sido mais encontrados. Assim, ao fim de 13 anos, extinguia-se a Colónia Penal da Ilha Isabela.

IMG_2923Decorreu muito tempo até que a riqueza natural das ilhas e o seu interesse científico fossem reconhecidos, apesar da passagem de Darwin pelo território. As Galápagos foram povoadas por pescadores, baleeiros, piratas, corsários e desterrados de todo o mundo, que aqui se fixaram temporariamente. As tartarugas (cuja carne dizem ser deliciosa) e os lobos marinhos[12] serviam-lhes de alimento e isto, a par da colonização dos mamíferos, introduzidos pelos humanos, destruiu algumas espécies e quase provocou a extinção das tartarugas gigantes que dão o nome às ilhas. Formigas, ratos, burros, cães, gatos, porcos, bois, cabras, todos, cada um à sua maneira, matam, direta ou indiretamente, as tartarugas. Assim, as autoridades do Parque Nacional atuam em duas vertentes para preservá-las. Por um lado, criam as tartarugas em cativeiro até aos 10 anos[13], enquanto suas carapaças ainda não são suficientemente fortes para resistirem, por exemplo, às mordidas de um cão; por outro lado, eliminam sistematicamente todos os animais, sobretudo mamíferos, que vivam em estado selvagem, e que possam pôr em perigo a sobrevivência da espécie e várias sub-espécies terrestres das tartarugas gigantes. Assim,  elas podem atingir uns surpreendentes 300 anos.

IMG_3352Quando se viaja pela primeira vez para as Galápagos, inevitavelmente se cria a expectativa de encontrar muitas espécies, diferentes das que fazem parte do nosso quotidiano. Essa expectativa não é gorada, tanto no que diz respeito à flora, quanto à fauna, também. Dos animais emblemáticos das ilhas, podem observar-se facilmente tartarugas gigantes, lobos marinhos, iguanas terrestres e marinhas, pelicanos e fragatas, em convívio perfeito com os seres humanos, nas ilhas habitadas. Mais difícil é encontrar os belos atobás de patas azuis, aqui conhecidos como piqueros de patas azules[14]. Queria muito encontrar nem que fosse um único exemplar, e consegui, quase em desespero de causa, topar com um, numa zona rochosa da ilha de San Cristóbal. Parecia que estava à minha espera. Observou, curioso, os meus movimentos de aproximação e deixou-se ficar o tempo suficiente para que eu tirasse dezenas de fotografias, algumas apenas a 3 metros de distância. Depois, em jeito de despedida, levantou um voo suave e circular, desaparecendo por trás dos rochedos.

IMG_3241As cores – do mar, dos animais, das plantas e das flores – são mais vivas nas Galápagos. Porém, o mais surpreendente de tudo são as pessoas. Educadas, simpáticas e generosas, agem de forma simples, ao ritmo da natureza, e, por isso, vivem mais e melhor. Para além da longevidade, a criminalidade é (quase) nula, e não admira que cada vez mais pessoas procurem estas paragens. Isto constitui um problema, dado que a ocupação do território pelos humanos não pode exceder os 3%[15], se se quiser que o estatuto de Património Natural da Humanidade, atribuído pela UNESCO em 1979, continue vigorando nas Galápagos. Afinal, só alguns podem viver no paraíso, embora, potencialmente, todos possamos visitá-lo.

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Notas:

[1] Embora os guias locais digam que a palavra “Galápagos” deriva de “sela”, dado que as carapaças das tartarugas se parecem com selas de cavalo e esta também se diz “galápago”, em castelhano, uma investigação mais profunda parece indicar que a origem mais provável seja celtibérica, dadas as palavras “galàpet” (em catalão) e “cágado” (em português), embora também possa derivar de “calapaccu” ou “carappaceu”, origem de “calabaza” e “carapazón”, respetivamente. Seja como for, Galápago transformou-se, sem dúvida, em sinónimo de tartaruga.

[2] Cerca de 20.000 pessoas vivem em Santa Cruz.

[3] O mesmo se passa na capital, Quito, onde os “almuerzos” valem, igualmente, 2,5 dólares.

[4] O peixe e o marisco são, de facto, muito bons porque as águas do mar são relativamente frias, se as compararmos, por exemplo, com as do Nordeste do Brasil, apesar de, nas Galápagos, estarmos praticamente em cima da linha do equador. Isto tem que ver com a corrente fria de Humboldt (todas as correntes do Pacífico são frias). Apesar disto, a temperatura da água do mar nunca cai abaixo dos 21 graus e pode atingir os 27 no mês de março, o mais quente do ano. A temperatura média rondará, assim, os 23/24 graus. A temperatura do ar é, também, relativamente amena.

[5] Na Semana Santa é típico comer nas Galápagos, e em todo o Equador, um prato feito com ervilhas, milho, feijão, queijo, ovos cozidos e outros ingredientes, que leva bacalhau cozinhado em leite – a fanesca. Ver a receita aqui: http://www.confirmado.net/receta-para-la-preparacion-de-la-fanesca/

[6] A banana é omnipresente na cozinha “galapagueña”.

[7] Nesta ilha habita a maior parte das tartarugas selvagens. As cabras aqui introduzidas pelos humanos chegaram ao número impressionante de 100.000. As cabras destroem a vegetação de que se alimentam as tartarugas e foram por isso exterminadas pelas autoridades do Parque Nacional e da Fundação Charles Darwin. Aqui fica o vulcão Sierra Negra, um dos mais ativos em todo o mundo. Em 1905, a população da ilha era apenas de 200 habitantes. A costa oeste é o melhor local das Galápagos para se observarem baleias e golfinhos.

[8] Não existe água potável no subsolo das ilhas. A água tem de ser dessanilizada. Várias empresas fazem esse trabalho, vendendo depois a água à população. Estão a ser construídas estações com energias eólica e fotovoltaica. Nota-se uma grande preocupação com o ambiente nas ilhas.

[9] Foi o presidente equatoriano, José María Velasco Ibarra, quem instituiu a Colónia Penal da Ilha Isabela. As prisões saturadas do Equador continental, a política conturbada da época e a concepção, no imaginário equatoriano, de que as Galápagos eram um lugar desterrado e de piratas, parecem ter sido as principais razões para esta decisão.

[10] isto foi o que nos “vendeu” o guia local, mas a investigadora equatoriana Paola Rodas, da universidade de San Francisco de Quito, afirma que à colónia chegaram presos condenados por delitos menores, que não seriam presos perigosos.  De acordo com esta pesquisadora, a ideia da alta perigosidade constitui um mito, forjado em torno de um assunto propício ao imaginário popular.

[11] Pedras vulcânicas de basalto.

[12] As tartarugas serviam para produzir óleo, também. Os lobos marinhos podem estar semanas sem comer e, por isso, eram muito úteis aos marinheiros, pois estes podiam ter carne fresca durante bastante tempo, mantendo os lobos marinhos vivos nas embarcações.

[13] Em algumas ilhas existem estações do Parque Nacional onde os ovos, recolhidos nos locais de nidificação, são guardados e regulados até o nascimento das tartarugas. Com uma temperatura de 28 graus nascem fêmeas e com 26 graus, machos, podendo assim controlar-se o equilíbrio da espécie. As tartaruguinhas passam por determinados estádios e processos até atingirem os tais 10 anos e serem devolvidas à Natureza.

[14] O atobá de patas azuis foi amplamente estudado por Charles Darwin durante a sua viagem pelas Galápagos. A fêmea põe de um a três ovos de cada vez e esta espécie pratica a chamada “eclosão assincrónica”, isto é, os ovos que se põem primeiro são incubados antes dos ovos seguintes, resultando isto numa desigualdade de crescimento e uma disparidade no tamanho entre irmãos. A cria maior ataca e expulsa frequentemente do ninho a menor, perante a indiferença da mãe. A cor das patas do macho é importante na escolha da fêmea. O brilho da tonalidade azul diminui com a idade, pelo que as fêmeas tendem a escolher machos com patas brilhantes e coloridas, sinónimo de juventude. Elas preferem os machos jovens, dado que estes têm maiores fertilidade e capacidade para proporcionar cuidados paternais que os machos de maior idade. Assim, os machos praticam uma espécie de dança, erguendo as patas, para que as fêmeas vejam bem sua cor.

[15] Os restantes 97% constituem o Parque Nacional das Galápagos, criado em 1959. Em 1986 o governo equatoriano criou também a Reserva de Recursos Marinhos das Galápagos.

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Fontes:

http://www.bbc.co.uk/mundo/noticias/2013/11/131118_ecuador_carcel_galapagos_jrg.shtml

http://www.lareserva.com/home/Alcatraz_patas_azules

http://animals.nationalgeographic.com/animals/birds/blue-footed-booby/

http://www.elpopular.com.ec/

http://soumaisenem.com.br/geografia/atmosfera/clima-continentalidade-e-maritimidade-e-correntes-maritimas