As raízes éticas da epistemologia de Karl Popper, um artigo de Mariano Artigas

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Mariano Artigas. (Foto retirada de: Internet Archives).

Este é talvez o trabalho mais interessante que já lemos sobre Karl Popper. Mariano Artigas (1938-2006), professor de Filosofia na Universidade de Navarra, em Espanha, apresentou-o no Instituto Tomístico Internacional (patrocinado pelo Centro Jacques Maritain) da Universidade de Notre Dame, no Indiana, Estados Unidos, em 1997. Uma vez que, tanto quanto sabemos, o texto só está disponível em inglês (aqui), decidimos traduzi-lo para o nosso idioma. Este trabalho, levado a cabo por alguém que dedicou décadas da sua vida ao estudo da filosofia popperiana, é deveras importante, e mostra como certos episódios da vida de Popper (os mais significativos vividos ainda na adolescência) foram cruciais para a construção da sua filosofia. A argumentação de Artigas é sólida e mostra claramente como a atitude popperiana radica em profundas raízes éticas – uma argumentação que, cremos, não deixaria de convencer igualmente (o quase sempre mal interpretado) Karl Popper. Segue-se, sem mais delongas, o texto de Mariano Artigas, com tradução da nossa responsabilidade.

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AS RAÍZES ÉTICAS DA EPISTEMOLOGIA DE KARL POPPER

I. EPISTEMOLOGIA E METAFÍSICA

II. AS ORIGENS DA EPISTEMOLOGIA DE POPPER

1 As experiências de 1919

2. As circunstâncias

3. A crise

4. As consequências

III. O SIGNIFICADO E ALCANCE DO FALIBILISMO

5. Falibilismo e Conjeturalismo

6. Falibilismo e Ceticismo

7. Razões do Falibilismo

8. Racionalismo Crítico

IV. UMA EPISTEMOLOGIA REALISTA

9. Algumas qualificações do falibilismo

10. O significado ético do falibilismo

11. Fé na razão

12. Realismo: metafísico e epistemológico

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Estou muito agradecido aos organizadores do Instituto Tomista por me terem convidado a participar neste instituto de verão1. Quando li no convite que eu iria supostamente, assim diz a carta, “dar uma aula sobre Karl Popper e Aquino”, cheguei à conclusão de que a tarefa não seria fácil, mesmo para alguém como eu, que se considera um tomista e trabalhou durante trinta anos sobre a filosofia de Karl Popper.

Na verdade, é difícil encontrar dois autores tão diversos quanto Aquino e Popper. Ambos diferem largamente nas suas crenças religiosas, nos seus interesses, métodos e conclusões. A ciência empírica, que desempenha um papel central em toda a filosofia de Popper, era praticamente inexistente no tempo de Aquino.

Pelos menos alguns de vocês conhecerão, certamente, que há um livro, publicado em 1993, centrado precisamente em Popper e Aquino2. O autor desse livro é Gabriel Zanotti, que ensina filosofia na Universidade Austral, em Buenos Aires. Ele conhece bastante bem Popper e outros autores da área da epistemologia contemporânea e também escreveu dois artigos nos quais avalia a posição de Popper: um deles foi publicado em 19913 e o outro em 19964. Neste artigo de 1996, ele chega a ligar o ponto de vista de Popper ao meu. Zanotti posiciona-se de uma forma muito específica, a qual merece a nossa atenção. Apresentarei, em primeiro lugar, um esboço da mesma e depois apresentarei uma abordagem diferente, a qual julgo ser importante para essa posição de Zanotti.

I. EPISTEMOLOGIA E METAFÍSICA

Zanotti sustenta que a epistemologia de Popper está correta. Ele acrescenta que a epistemologia de Popper requer uma base que pode ser fornecida pela metafísica de Aquino, e avisa-nos de que a posição de Popper apresentará mais dificuldades filosóficas se for extrapolada do campo especializado da epistemologia para uma perspetiva filosófica geral. Assim, para avaliar a posição de Zanotti, devemos em primeiro lugar ver qual é a posição de Popper relativamente à sua própria epistemologia. Aqui eu não procuro fazer uma análise sistemática da visão de Popper nem da visão de Zanotti: há alguns anos publiquei uma descrição sistemática da epistemologia de Popper, a qual inclui comentários críticos5. O meu objetivo é mais modesto, e por isso vou em primeiro lugar focar-me na abordagem geral de Zanotti, e depois apresentarei uma interpretação da epistemologia de Popper que nos ajude a manter o diálogo que Zanotti defende.

De acordo com uma larga maioria dos autores, incluindo Zanotti, a marca central da epistemologia de Popper pode ser rotulada por “conjunturalismo”, pois este conclui que todo o conhecimento científico é conjuntural. Popper analisa o valor das comprovações usadas na ciência empírica e conclui que nunca podemos demonstrar de forma conclusiva uma qualquer afirmação científica. A principal razão para isto é meramente lógica, nomeadamente a assimetria que existe entre falsificação e verificação: na verdade, se utilizarmos o método hipotético-dedutivo, chegaremos à conclusão que razões puramente lógicas nos impedem de verificar qualquer afirmação, não importa quantas experiências positivas encontremos a seu favor, pois uma única experiência contrária é suficiente para mostrar que essa afirmação é falsa. É por isso que nunca poderemos ter a certeza sobre a veracidade de uma afirmação científica. Além disso, do ponto de vista metodológico, Popper afirma que a ciência progredirá enquanto avançarmos com conjeturas ousadas, audaciosas hipóteses, formuladas claramente. De facto, o único caminho para o progresso é o de aprendermos com os nossos erros: mesmo que nunca consigamos verificar as nossas hipóteses, se tivermos sorte poderemos por vezes descobrir que elas chocam com a evidência empírica e, nesse caso, podemos aprender e ser capazes de propor novas e melhores hipóteses.

Zanotti sustenta que a visão de Aquino nos fornece boas pistas do porquê das coisas se passarem desta maneira. Ele faz referência à conhecida passagem em que Aquino diz não esperar qualquer certeza quando formula hipóteses para explicar algum efeito físico particular. Ele diz também que quanto mais matéria um objeto contiver, menos transparente será para nós, por isso a ciência empírica deve ser considerada como uma tarefa de adivinhação cujas conclusões são sempre provisórias. Zanotti examina igualmente outros aspetos do pensamento de Popper, tais como a defesa que este faz do realismo, da verdade objetiva, da ciência como busca da verdade, e da especificidade do homem, e procura mostrar em todos estes pontos que pode considerar-se a epistemologia de Popper como um complemento das posições de Aquino e, em sentido inverso, podemos considerar que a metafísica de Aquino fornece importantes contributos à epistemologia de Popper.

Penso que esta posição de Zanotti é fundamentada, sólida, e tendo a olhá-la com simpatia. Além disso, ele diz no final do seu texto de 1996 que eu concordo com Popper mais do que poderia parecer à primeira vista e conjetura que, se ambos tivéssemos oportunidade de conversar, alcançaríamos conclusões comuns, pelo que aceitei o desafio de Zanotti e irei desenvolver alguns pontos que podem servir para criar esse diálogo, embora não me proponha seguir uma linha convencional. Não discutirei sobre os principais pontos da epistemologia popperiana. Irei, antes, examinar a epistemologia de Popper do ponto de vista das suas raízes éticas e tentarei mostrar que este exame fornece pistas importantes para avaliar a posição de Popper. O resultado será uma interpretação invulgar da epistemologia de Popper. No entanto, esta baseia-se em razões sólidas e é conhecida entre alguns que se relacionaram pessoalmente com o próprio Karl Popper.

II. AS ORIGENS DA EPISTEMOLOGIA DE POPPER

A filosofia de Popper é normalmente considerada uma epistemologia que, quando aplicada a problemas políticos e sociais, nos conduz à sociedade aberta. Mas tudo isto pode ser considerado em sentido contrário, isto é, que a ética de Popper fornece a pista para adequadamente interpretarmos e compreendermos toda a sua filosofia, incluindo a epistemologia. Isto já tinha sido sublinhado por Hubert Kiesewetter, da Universidade de Eichstätt, que escreveu:

“Desde que estudei na London School of Economics and Political Science, em 1967-68, a questão das raízes éticas ou fontes morais da filosofia de Karl Popper nunca deixaram de me ocupar a mente (…) Em anos recentes discuti longamente com Sir Karl Popper sobre os fundamentos éticos da sua filosofia (…) é minha intenção demonstrar que todo o seu (dele, Popper) pensamento radica em profundas raízes éticas (…) o núcleo do método do falsicacionismo ou do racionalismo crítico formou-se muito antes de Popper estudar matemática, física e filosofia natural na Universidade de Viena. Assim, a minha hipótese é a de que o método popperiano de tentativa e erro (…) está inseparavelmente interligado a princípios éticos ou morais”.6

A filosofia de Popper torna-se cristalina quando a olhamos através das lentes da ética. Podemos então perceber que o falsicacionismo está profundamente enraizado em terreno ético. Na verdade, a principal preocupação de Popper ao trabalhar nas questões epistemológicas era mostrar que devemos adotar uma atitude humanista, racional, a qual necessariamente inclui o reconhecimento dos limites do nosso conhecimento e a necessidade de usarmos o método de “tentativa e eliminação do erro”. Então, podemos igualmente perceber por que o falsicacionismo e falibilismo e racionalismo popperianos são principalmente atitudes, não doutrinas; de outro modo, poderíamos ficar prisioneiros de discussões sem fim sobre um falsificacionismo ingénuo ou sofisticado ou metodológico, ou pior ainda, poderíamos pensar que a reivindicação de Popper se consubstancia em pequenas notas de rodapé às discussões epistemológicas do seu tempo. Até mesmo o conceito de “sociedade aberta” não pode ser compreendido a menos que nele incluamos elementos éticos sérios que não devem ser reduzidos a qualquer tipo de organização social.

Certamente, razões lógicas ocupam um espaço relevante na epistemologia de Popper. No entanto, quando Popper fala sobre criticismo, racionalismo crítico ou falibilismo, ele refere-se com frequência a um assunto mais complexo, o qual envolve atitudes pessoais, como por exemplo “honestidade intelectual”, “autocrítica” e “modéstia intelectual”, e fala em admitir “nossos erros, nossa falibilidade, nossa ignorância”, o que claramente implica uma atitude ética.7

Podemos clarificar alguns aspetos da epistemologia de Popper analisando as suas origens, as quais remetem para alguns acontecimentos ocorridos em 1919. Claro, não pretendo negar a existência de outros fatores que influenciaram a epistemologia de Popper nas suas origens. Apenas pretendo sublinhar que a existência de componentes éticos na epistemologia popperiana é corroborada pelas suas experiências de 1919 com o marxismo, a psicanálise e a teoria da relatividade. Irei seguir rigorosa e abundantemente os textos do próprio Popper porque penso ser isto necessário, se queremos entender o papel que os fatores éticos desempenham na epistemologia popperiana.

  1. As experiências de 1919

A principal fonte de informação sobre essas experiências é a autobiografia de Popper, particularmente a secção 8, intitulada “Um ano crucial; marxismo; ciência e pseudociência”8. A informação é clara e é apresentada como a mais importante pista para compreendermos a vida de Popper; ocupa uma secção inteira e o seu título refere “um ano crucial”.

Assim, o leitor pode sentir-se surpreendido pela magnitude das consequências retiradas por Popper. Os acontecimentos são descritos na autobiografia de tal modo que Popper parece estar suficientemente perto para ser marcado por eles mas, ao mesmo tempo, demasiado distante para estar tão marcado como nos diz que estava. Na verdade, as consequências destes acontecimentos são deveras marcantes, como escreve o próprio Popper:

“O encontro com o marxismo foi um dos principais acontecimentos dentro do meu desenvolvimento intelectual. Ensinou-me um número de lições que jamais esqueci. Mostrou-me a sabedoria do dito socrático “Sei que nada sei”. Tornou-me um falibilista, e fez-me ver o valor da modéstia intelectual. E tornou-me mais consciente das diferenças entre pensamento dogmático e pensamento crítico.9

Então, o que dizer das questões lógicas, tais como a assimetria entre verificação e falsificação e as dificuldades da indução? Devem estas questões ser consideradas secundárias, uma vez que falibilismo e criticismo eram já uma consequência da experiência de Popper com o marxismo?

É possível sobrestimar a relevância dessas questões lógicas na filosofia de Popper. Elas ocupam um lugar de relevo. No entanto, elas radicam em bases éticas sob dois aspetos: por um lado, surgem em consequência de experiências éticas, e por outro, resultam de grandes e profundos problemas que envolvem a responsabilidade ética de todo ser humano.

Na verdade, embora a informação fornecida pela sua autobiografia seja muito clara, Popper forneceu ainda nos últimos anos de vida, em três ocasiões, informações adicionais que são importantes para a nossa análise, uma vez que incluem detalhes que são muito úteis para compreender o significado e as consequências da sua experiência com o marxismo. Elas constam de uma palestra dada em Eichstätt, em 27 de maio de 1991, por ocasião do seu doutoramento honoris causa nessa universidade10, de outra palestra dada na Exposição Mundial de Sevilha, em 6 de março de 199211, e de uma entrevista dada a um jornalista italiano, publicada em 199212 .

Irei agora tentar descrever os factos e suas consequências, sublinhando os aspetos que se referem às dimensões éticas e ao seu impacto sobre outros aspetos da filosofia de Popper. Irei comentar as circunstâncias que levaram Popper a deparar-se com o marxismo, a sua participação em atividades marxistas, incluindo a manifestação que constitui o cerne destes acontecimentos de 1919, e as consequências dos mesmos.

2. As circunstâncias

Pouco  depois de ter terminado a Primeira Guerra Mundial, Popper concluiu os estudos secundários e começou a estudar na Universidade, num período em que os problemas sociais eram abundantes. Ele escreve:

“A queda do Império Austríaco e o resultado da Primeira Guerra Mundial, a penúria, as revoltas provocadas pela fome em Viena, e a inflação galopante, têm sido com frequência descritos. Destruíram o mundo em que eu tinha crescido; e então começou um período de guerra civil fria e quente (…) Eu tinha pouco mais de dezasseis anos quando a guerra acabou, e a revolução incitou-me a encenar a minha própria revolução privada. Decidi abandonar a escola, em finais de 1918, para estudar por minha conta. Inscrevi-me na Universidade de Viena onde fui, primeiro, um aluno não-matriculado, dado que só fiz o meu exame de admissão (“Matura”) em 1922. (…) Aquele era um tempo de motins, embora nem sempre políticos. Eu estava suficientemente perto para ouvir as balas assobiando quando, por ocasião da Declaração da República da Áustria, soldados começaram a disparar sobre membros do Governo Provisório reunidos no cimo das escadas de acesso ao edifício do Parlamento (…) Havia pouco que comer; e para vestir, a maior parte de nós apenas conseguia fardamento militar posto de lado. adaptado para uso civil. Poucos de nós pensavam seriamente numa carreira (…)”13.

Para lá das dificuldades sociais que aproximaram Popper do marxismo, é interessante notar que ele tinha já tido alguma experiência com disparos e balas. Ele descreve uma sociedade austríaca desagradável, naquele tempo, marcada pela fome, pobreza, desemprego, inflação, e especuladores que se aproveitavam da situação14.

Perante as circunstâncias, Popper torna-se membro de uma associação socialista e, na primavera de 1919 (março ou abril), ele acabou por se tornar comunista, atraído sobretudo pelo aparente pacifismo dos comunistas. Na sua biografia, ele escreve:

“Tornei-me um membro da associação de jovens socialistas das escolas secundárias (sozialistische Mittelschüler) e ia às reuniões. Também ia às reuniões dos estudantes universitários socialistas. Os oradores nessas reuniões eram membros, por vezes, do partido social-democrata e, outras vezes, do partido comunista. As suas crenças comunistas eram, nesse tempo, muito semelhantes. Todos se demoravam, com razão, nos horrores da guerra.  Os comunistas clamavam que tinham provado o seu pacifismo na Rússia, terminando a guerra em Brest-Litovsk. A paz, diziam, era o que primariamente defendiam (…) Durante algum tempo alimentei suspeitas em relação aos comunistas sobretudo por causa do que o meu amigo Arndt me tinha dito sobre eles. Mas na primavera de 1919, juntamente com um punhado de amigos, fui convertido pela sua propaganda. Por cerca de dois ou três meses vi-me como um comunista. Em breve ficaria desencantado”15.

Popper refere diversas vezes como estava impressionado pela propaganda pacifista dos comunistas por ocasião do acordo de Brest-Litovsk. Depois da Revolução Russa em fevereiro de 1917, os nacionalistas do anterior império czarista procuraram a sua independência, e o exército alemão ocupou a Letónia, Bielorússia e Ucrânia. Após a revolução soviética de outubro, Lenine decidiu acabar com a guerra na frente Leste. Em 15 de dezembro de 1917, a Rússia de Lenine e as Potências Centrais assinaram um armistício em Brest-Litovsk. Após novos episódios de guerra conduzidos pelo exército alemão, através do acordo de Brest-Litovsk, em 3 de março de 1918, a nova Rússia comunista reconheceu a independência da Ucrânia e da Finlândia; renunciou ao controlo sobre a Estónia, a Letónia, a Lituânia, a Polónia e grande parte da Bielorússia; e cedeu outros três territórios à Turquia. Este tratado significa a vitória da Alemanha sobre a Rússia, mas, ao mesmo tempo, Lenine ficou livre para tratar da sua revolução. Lenine mostrou que a nova Rússia comunista estava totalmente envolvida na paz, mesmo perdendo poder político externo.

Como nos conta o próprio, o jovem Popper estava fortemente impressionado com a atitude dos bolcheviques. Ele tinha um amigo que nascera na Rússia e lhe contara sobre o fanatismo e a capacidade de mentir dos bolcheviques, mas, apesar disso, em abril de 1919 (Popper ainda não completara 17 anos), decidiu tentar o partido comunista16. Esta atitude (e aqui começam os interessantes detalhes revelados pelo Popper mais velho) conduziu-o ao quartel-general do partido comunista austríaco, onde se ofereceu como rapaz para todo o serviço. Ele recorda, muitos anos depois, que entre os líderes comunistas se encontrava Gerhardt Eisler, e refere-se também a momentos posteriores (por exemplo, Gerhardt era o líder do partido comunista americano quando foi expulso dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial). Estas pessoas fascinavam Popper, que confiava nelas17. Isto deve ser lembrado pois significa confiar numa teoria científica que, afinal, acabou por se revelar pseudo-científica, e pode, em parte, ajudar a compreender porque Popper se tornou tão relutante em aceitar reivindicações de confiança em ciência.

É também interessante conhecer, através das palavras do próprio Popper, como os lideres comunistas saudaram a sua chegada, e lhe confiaram vários serviços; além disso, ele estava frequentemente presente nas reuniões (o que era invulgar), pelo que conhecia muito bem a forma como esses líderes pensavam18. Portanto, embora ele fosse demasiado novo para se tornar membro do partido, estava deveras comprometido. Assim, passámos das circunstâncias prévias ao seu envolvimento efetivo com o marxismo.

3. A crise

Que ele estava realmente envolvido com os marxismo e comunismo pode ser mostrado, de novo, através das suas próprias palavras — e isto é muito importante para se perceber o que realmente se passou. Ele diz-nos que, entretanto (nos dias em que contactou com os líderes comunistas), se iniciara no estudo da teoria marxista19. Depois, quando já participara das atividades comunistas, sentiu-se por várias vezes desagradado com as suas ações. Na verdade, ele recorda que, embora estivesse obviamente insatisfeito com a sociedade do seu tempo, sentia-se apreensivo pelo instinto criminoso que o partido promovia contra as classes inimigas: foi-lhe dito, porém, que isso era necessário mas que, em qualquer caso, não era grave; e que numa revolução só a vitória interessa; e, finalmente, que sob os regimes capitalistas morrem diariamente mais pessoas que em toda a revolução. Popper diz-nos que concordou com relutância e com o sentimento de que teria de pagar um elevado preço moral. Algo similar aconteceu em relação às mentiras, pois os líderes um dia diziam branco e no dia seguinte preto; isto acontecia sempre que recebiam novas indicações de Moscovo. Quando Popper protestava, diziam-lhe que essas contradições eram necessárias e não deviam ser criticadas, pois a unidade do partido era essencial para o triunfo da revolução: embora fosse possível cometer erros, não era permitido criticá-los abertamente, porque só com a unidade do partido se poderia alcançar uma vitória rápida. Popper recorda de novo que, embora tivesse aceitado estas explicações com relutância, sentia que sacrificava a sua integridade pessoal em favor do partido, e que, quando constatou que os líderes estavam dispostos a contradizer-se a qualquer momento, a sua atitude face ao comunismo sofreu uma crise20.

E assim chegamos ao centro da crise. Na sua autobiografia, Popper descreve a experiência desta maneira:

“O incidente que pela primeira vez me virou contra o comunismo, e que, simultaneamente, em breve me afastaria do marxismo, foi um dos principais acontecimentos da minha vida. Ocorreu pouco antes do meu décimo sétimo aniversário. Em Viena, dispararam-se tiros durante uma manifestação de jovens socialistas desarmados que, instigados pelos comunistas, tentavam ajudar a fugir alguns comunistas que estavam na esquadra central de polícia de Viena. Vários jovens socialistas e trabalhadores comunistas foram mortos. Fiquei horrorizado e chocado com a brutalidade da polícia, mas também comigo. Porque senti que, como marxista, tinha uma parte de responsabilidade na tragédia — pelo menos em princípio. A teoria marxista exige que a luta de classes seja intensificada, com o objetivo de acelerar a vinda do socialismo. Uma das suas teses é que, embora a revolução possa reclamar algumas vítimas, o capitalismo está a reclamar mais vítimas que a totalidade da revolução socialista”21.

O incidente aconteceu, diz-nos Popper, “pouco antes do meu décimo sétimo aniversário”, que foi em 28 de julho de 1919; noutro lugar, ele refere-se a um dia de junho22 e acrescenta que em julho de 1919, antes do seu aniversário, resolveu rever a sua atitude face ao marxismo 23. Uma data precisa só nos é fornecida por outras pessoas, nomeadamente Hubert Kiesewetter24 e Franz Kreuzer 25, mas Kiesewetter apenas cita o que Kreuzer relatou. De acordo com Kreuzer, a data é 15 de junho de 1919. Kreuzer acrescenta que a manifestação ocorreu em Hörlgasse, no 9º bairro de Viena, e que houve 20 pessoas mortas e 70 gravemente feridas. Isto contrasta com o relato de Popper, que se refere a várias vítimas e, quando é mais específico, diz-nos, numa ocasião, que foram seis26 e, noutra, que terão sido aproximadamente oito pessoas mortas27. É ele próprio que confirma a sua presença na manifestação28.

Dois detalhes parecem importantes neste contexto. O primeiro é que as pessoas mortas, pelo menos algumas delas, eram jovens trabalhadores: Popper pensou que outras pessoas que, tal como ele, eram estudantes ou intelectuais, tinham especial responsabilidade sobre esses trabalhadores, que confiavam nos intelectuais29. O outro é que, tal como ele disse muitos anos depois, tinha concordado com a manifestação porque esta era apoiada pelo partido comunista; talvez tenha mesmo encorajado a participação de outras pessoas; e talvez algumas delas se encontrassem entre os mortos30.

Ele estava triste também com a atitude dos líderes comunistas. Perguntou a si próprio se havia discutido séria e criticamente a teoria marxista, que estava na base do sacrifício de vidas humanas, e reconheceu que não o havia feito. No entanto, quando teve acesso aos quartéis- generais do partido comunista, percebeu que os líderes tinham uma atitude completamente diferente da sua: a revolução tornava inevitável a existência de vítimas, e além disso esse facto representava um progresso porque os trabalhadores ficariam cada vez mais revoltados contra a polícia e assim mais conscientes dos seus inimigos de classe. A reação de Popper foi clara: nunca mais ali voltou, e desta forma, tal como mais tarde comentou, escapou à armadilha do marxismo31.

Se juntarmos todos os detalhes, teremos um quadro que coincide com o que Popper relata na sua autobiografia, mas aviva as suas cores e ajuda-nos a compreender a sua reação. Ele sentiu-se responsável pelo que aconteceu: não apenas porque, como marxista, ele partilhou de alguma forma da responsabilidade, mas também porque participou na preparação da manifestação. Claro que ele não pensou na possibilidade de haver mortes ou em algo semelhante, mas sentiu apesar disso que “carregava com parte da responsabilidade pela tragédia — pelo menos em princípio”. A sua forte reação torna-se compreensível apenas se tivermos isto em consideração. Popper foi sempre alguém com profundo sentido ético e contactou o partido comunista devido ao seu sentido de responsabilidade quanto às questões sociais e também porque era um pacifista e sentiu-se atraído pelo aparente pacifismo dos comunistas; e foi por isso que, quando percebeu que os seus princípios éticos diferiam largamente daqueles dos seus amigos comunistas e que se tinha de alguma forma envolvido na morte dos jovens trabalhadores, sofreu um grande choque. As consequências afetaram o estatuto de uma teoria que se apresenta a si própria como científica, e a credibilidade das teorias cientificas em geral.

4. As consequências

A consequência imediata foi a que Popper tomou consciência de uma “armadilha moral” da qual logrou escapar. Ele refere-se várias vezes a este acontecimento nos seus últimos escritos32 e descreve-o na sua autobiografia desta maneira:

“Fiquei chocado ao ter de admitir a mim próprio que não só tinha aceitado uma teoria complexa de uma maneira um pouco acrítica mas que tinha também percebido grande parte do que estava errado, tanto na teoria como na prática do comunismo. Mas tinha-o reprimido — em parte por lealdade aos meus amigos, em parte por lealdade à “causa”, e em parte porque existe um mecanismo pelo qual nos envolvemos mais e mais profundamente: uma vez que tenha sacrificado a sua consciência intelectual em relação a um ponto pouco importante, um indivíduo não quer ceder com demasiada facilidade; deseja justificar o auto-sacrifício convencendo-se da bondade fundamental da causa, que é vista como pesando mais do que qualquer pequeno compromisso moral ou intelectual que possa ser requerido. Com cada um desses sacrifícios morais ou intelectuais, o indivíduo fica cada vez mais profundamente envolvido, fica pronto a apoiar os seus investimentos morais ou intelectuais na causa com mais investimentos. É como estar pronto a investir mais dinheiro para cobrir as perdas. Vi como este mecanismo tinha funcionado no meu caso e fiquei horrorizado”33.

As razões éticas jogaram um papel muito importante, primeiro, na aceitação do comunismo e, depois, na sua rejeição. Isto é claramente divulgado por Popper quando diz, na sua palestra de Sevilha, em 1992, que esteve quase a ser apanhado pela armadilha ideológica marxista porque tinha profundas razões morais para agir de acordo com o que parecia ser o seu dever moral, e que depois sofreu uma forte comoção moral que o conduziu a uma profunda aversão moral34.

Se não levarmos em consideração essas razões éticas ou se não lhe atribuirmos a devida importância, Popper aparecer-nos-á como uma espécie de menino-prodígio que, numa idade precoce, estava preocupado com os problemas relacionados com o caráter científico das teorias, e que alegremente compara os estatutos diferentes que detêm a esse respeito marxismo e psicanálise, por um lado, e a relatividade de Einstein, por outro. Sem dúvida, ele deve ter tido a ajuda da experiência nesses três âmbitos, tendo em conta o seu próprio testemunho. Ainda assim, alguns aspetos importantes não se ajustam a este esquema. Seria dificilmente inteligível, por exemplo, a razão por que Popper afirma ter a experiência marxista o tornado um falibilista e alguém mais consciente da diferença entre pensamento dogmático e pensamento crítico; e seria ainda mais difícil assimilar a asserção que se segue logo depois, na qual, referindo-se ao seu encontro com o marxismo, ele afirma:

“Comparado com este encontro, o padrão algo semelhante dos meus encontros com a “psicologia individual” de Alfred Adler e com a psicanálise freudiana — que foram mais ou menos contemporâneos (tudo aconteceu em 1919) — teve uma importância de somenos”35.

Ainda nesta parte da sua autobiografia, Popper atribui uma grande importância ao encontro com Einstein, que ocorreu também em 1919. Não há dúvida de que Popper era um jovem preocupado com os problemas intelectuais e sociais, e que estes acontecimentos de 1919 se encaixam singularmente nesses problemas. É por isso que ele escreve. “Olhando retrospetivamente para esse ano, fico espantado que tanta coisa possa ocorrer no desenvolvimento intelectual de um indivíduo num tão curto espaço de tempo. Porque, ao mesmo tempo, tomei contacto com os trabalhos de Einstein; e isso tornou-se uma influência determinante no meu pensamento — no longo prazo, talvez, a mais importante de todas”, e acrescenta:

“Mas o que acima de tudo me impressionou foi a afirmação clara do próprio Einstein de que consideraria a sua teoria como indefensável se ela falhasse em certos testes (…) Aqui estava uma atitude completamente diferente da atitude dogmática de Marx, Freud e Adler, e mais ainda da dos seus seguidores (…) Esta, achei eu, era a verdadeira atitude científica (…) Assim, no fim de 1919, cheguei à conclusão de que a atitude científica era a atitude crítica, que não procurava verificações mas testes cruciais; testes que pudessem refutar a teoria testada, embora nunca pudessem estabelecê-la”36.

Tudo isto é coerente com a relevância da experiência marxista e com as suas componentes éticas. É interessante notar que, em ambos os casos, Popper refere-se principalmente a atitudes, e que, quando nos explica a sua reação anti-marxista, ele diz:

“Percebi o caráter dogmático do credo, e a sua incrível arrogância intelectual. Era uma coisa terrível que um indivíduo se arrogasse um tipo de conhecimento que criava um dever de pôr em risco a vida de outras pessoas em nome de um dogma aceite acriticamente, ou de um sonho que poderia vir a mostrar-se irrealizável. Era particularmente mau para um intelectual, alguém capaz de ler e pensar. Era terrivelmente deprimente ter caído em semelhante armadilha”37.

Parece bastante óbvio que o principal problema aqui foi uma atitude irresponsável que teve consequências éticas importantes. Isto bastou para tornar Popper um falibilista, fortemente desconfiado dos credos pseudo-científicos: a predição pseudo-científica marxista de um rumo histórico necessário era muito perigosa, e a condição primeira que Popper requereria no futuro a qualquer alegada teoria científica era que esta deveria basear-se numa atitude de modéstia intelectual, nomeadamente uma atitude que reconheça a magnitude da nossa ignorância e nunca esqueça que as nossas teorias são sempre tentativas e ensaios parciais de progresso. A certeza científica mostrou-se dececionante e deveria ser substituída por uma atitude de aprendizagem consciente dos nossos inevitáveis erros. Assim, os erros não deveriam ser considerados como algo nefasto, mas como o caminho preparatório do verdadeiro progresso.

Em última análise, a origem do falibilismo de Popper depende, em larga medida, do sentimento de responsabilidade pessoal. Algumas pessoas confiaram nele (no comunismo, através dele) e ele, acriticamente, contribuiu para o seu infortúnio. Não teve uma atitude crítica face a uma doutrina que, quando analisada cuidadosamente, se mostra uma armadilha moral pseudo-científica. O que ficou dito explica também porque Popper, durante toda a vida, realçou fortemente a responsabilidade moral dos intelectuais. Ele viu que muitos dos problemas humanos eram causados por ligações entre pessoas que seguiam um ou vários intelectuais, e viu que essas ligações, demasiado frequentemente, são ligações morais. O falibilismo apareceu, acima de tudo, como um dever ético.

III. OS SIGNIFICADO E ALCANCE DO FALIBILISMO

A análise precedente deu-nos uma perspetiva que será muito útil para se perceber os significado e alcance dos principais princípios epistemológicos de Popper sobre o caráter conjetural do conhecimento científico, geralmente rotulados como “falibilismo”. Irei agora abordar a relação do falibilismo com o conjeturalismo, que é um conceito alemão, e com o ceticismo, que pode ser visto como consequência daquela relação. Depois voltarei à chave dupla do falibilismo, a lógica e a ética, e examinarei o significado de racionalismo crítico, como um rótulo frequentemente usado para caracterizar a epistemologia popperiana.

5. Falibilismo e conjeturalismo

Uma das principais posições de Popper é a de que a busca da certeza constitui um erro. Não devemos esquecer, no entanto, que as afirmações de Popper nesta linha supõem sempre um ponto de partida que, embora possa parecer trivial, tem consequências de longo alcance; na verdade, Popper supõe que tentamos testar as nossas teorias usando argumentos empíricos; então, meros argumentos lógicos mostram que não há uma única teoria ou lei universal que possa ser provada desta maneira. Até agora, e mesmo se admitirmos que isso tem consequências de longo alcance nos âmbitos da epistemologia e da ciência, esse tipo de conjeturalismo não exclui a obtenção de algum tipo de certeza, que pode ser suficiente para muitos propósitos, mesmo na ciência.

Quando considerado como um embargo metodológico, o conjeturalismo é uma abordagem saudável que pode prevenir muitos inconvenientes. Claro, isso tem uma base lógica, mas está relacionado principalmente com uma atitude metodológica. Além disso, embora o conjeturalismo possa aplicar-se a qualquer tipo de conhecimento, refere-se essencialmente às teorias científicas que, na verdade, dependem das nossas construções teóricas que, por sua vez, dependem das possibilidades concretas, conceptuais e empíricas,  que podemos usar em quaisquer épocas e circunstâncias.

Tudo isto para reconhecer que o conhecimento científico é sempre passível de ser melhorado, que não deveríamos nunca considerar definitivamente demonstradas as nossas teorias, que podemos sempre descobrir algum erro nelas e que devemos inclusive procurar erros se quisermos melhorá-las. Se é isto que é considerado como falibilismo, todos nós deveríamos ser falibilistas.

Na verdade, numa das ocasiões em que Popper tenta clarificar tudo isto, ele defende de certa forma que será útil anotar e analisar. Popper nega a existência de um critério geral de verdade, e explica o que isto quer dizer:

“Isto quer dizer meramente, de forma simples, que podemos sempre errar na nossa escolha — que podemos sempre não alcançar a verdade, mesmo falhando perto dela; que a certeza não é para nós (ou até o conhecimento altamente provável, como mostrei em várias ocasiões, por exemplo no capítulo 10 das Conjeturas e Refutações); que nós somos falíveis. Isto, pelo que sabemos, não é mais que a verdade plena. Há poucos campos do esforço humano, se é que existe algum, que escapem à falibilidade humana. O que uma vez pensámos estar bem estabelecido, ou mesmo certo, pode mais tarde não estar exatamente correto (o que quer dizer falso), e necessitar de ser corrigido”38.

Na citação acima, Popper nega em primeiro lugar a existência de um critério geral de verdade; Eu concordaria porque, mesmo que consigamos argumentos que possam ser usados como um algum tipo de critério, não há um único critério geral que possa ser utilizado automaticamente para assegurar a verdade de qualquer afirmação ou teoria. Assim, Popper afirma que “podemos sempre errar”, o que é verdade. Por isso ele acrescenta que “a certeza não é para nós”: em minha opinião, este é um ponto difícil que deveria ser cuidadosamente analisado, e que depende das nossas ideias sobre a certeza.

De facto, se usarmos uma forte ideia de certeza, isto é, se identificarmos certeza com o estado alcançado quando nos munimos de uma prova totalmente lógica que não deixa espaço à mais pequena possibilidade contrária, então é fácil concordar em como não podemos alcançar tal estado. Neste contexto, deveríamos lembrar-nos que até as mais elementares verdades factuais, que constituem as nossas certezas básicas, não podem ser provadas através da lógica por si só. Usando apenas argumentos lógicos, não conseguiremos atingir nem certeza nem probabilidade subjetiva, que são estados subjetivos; assim, Popper tem razão. No entanto, pode argumentar-se que esta ideia de certeza é muito forte e que podemos distinguir vários tipos de certeza (lembremos, por exemplo, a distinção clássica entre certeza metafísica, física e moral); e também que a certeza, e seus diversos graus, inclui a argumentação lógica mas igualmente algum tipo de subtilezas que não se podem reduzir apenas à lógica.

Penso que Popper poderia concordar com tais argumentos, e tenho duas razões para isto. A primeira e mais importante é que a sua defesa do falibilismo significa evitar posições dogmáticas que esqueçam o rigor, a autocrítica e a honestidade, mas não se opõe a qualquer atitude que possa incluir esses valores. Na verdade, Popper não muda facilmente o seu pensamento sobre os assuntos importantes: ele assumiu uma posição filosófica que desenvolveu ao longo de toda a vida, e argumentava pelos seus pontos de vista de uma forma vigorosa e elegante, como um homem de profundas convicções. Ele tinha um forte sentido de honestidade intelectual e por isso que estava ciente das dificuldades inerentes à busca da certeza. Além disso, não devemos esquecer que em física teórica, que é o âmbito principal das suas reflexões filosóficas, Popper tem razão quando insiste em que as nossas teorias sempre incluem aspetos que podem mudar e que ninguém pode afirmar  ter estabelecido definitivamente uma teoria.

O meu segundo argumento inclui referências pessoais. Publiquei o meu primeiro livro em 1979; foi uma tentativa de resumir ordenadamente a posição epistemológica de Popper. Remeti-lhe o livro e enviei-lhe uma carta na qual eu dizia partilhar muitas das suas perspetivas mas que também sentia dificuldades com o seu conjeturalismo. Escrevi estas palavras: “Penso além disso que muitas afirmações científicas são verdadeiras e podemos estar certos da sua verdade, embora por vezes elas sejam parciais e possam ser melhoradas. Penso que compreendo a sua rejeição de toda a certeza mas não a compartilho”. Ele amavelmente remeteu-me uma cópia dedicada da “Pobreza do Historicismo” e uma carta manuscrita, na qual respondia à minha questão. Alguns anos mais tarde eu quis usar esse texto para ilustrar um artigo publicado na edição espanhola da American Scientific, pedindo a correspondente permissão; a senhora Melitta Mew respondeu em nome de Popper permitindo a publicação: finalmente, acabei por não o fazer. O texto de Popper era o seguinte: ” Também penso que muitas afirmações científicas são verdadeiras. E penso igualmente que podemos estar bastante convencidos da verdade de algumas delas. Mas nenhuma teoria estava mais bem testada que a de Newton — e não podemos dizer que ela está certa. Einstein mostrou que é possível que a teoria de Newton seja falsa”39.

Na minha opinião, esta invulgar afirmação de Popper, dizendo que podemos estar bastante convencidos acerca da verdade se algumas afirmações científicas, mostra que ele aceitava algumas qualificações sobre a certeza (tais como “bastante”), e também que o seu conjeturalismo se refere sobretudo a afirmações e teorias científicas que podem ser substituídas por outras melhores40. Com isto quero dizer que, por exemplo, não seria razoável duvidar da existência de eletrões, embora saibamos que, apesar dos enormes progressos neste campo, sabemos pouco sobre ele e, por isso, devemos continuar as buscas por melhores teorias.

Eu diria que o conjeturalismo faz sentido se o interpretarmos como a possibilidade de buscar sempre um melhor conhecimento e como a atitude para procurá-lo. Isto está ligado de perto com estar consciente dos limites do nosso conhecimento e, assim, com uma mente aberta à tolerância e ao respeito. E é fácil encontrar o inconfundível sabor ético desta atitude.

6. Falibilismo e ceticismo

O falibilismo de Popper não deve não deve ser interpretado de forma relativista. Ele é muito claro acerca disto e defende fortemente a verdade objetiva e o progresso na investigação científica:

“Se admitimos que que não existe qualquer autoridade para além do alcance da crítica a ser encontrada no campo do nosso conhecimento, por mais longe que tenhamos penetrado no desconhecido, então devemos manter, sem risco de dogmatismo, a ideia de que a verdade em si mesma está além de toda a jurisdição humana. De facto, estamos não apenas aptos a sustentar esta ideia, como devemos mantê-la. Pois sem ela não pode haver padrões objetivos de investigação científica, nenhuma crítica das nossas conjeturas, nenhuma tentativa no desconhecido, e nenhuma busca de conhecimento”41.

O falibilismo é apresentado por Popper como o oposto do ceticismo. Popper está ciente dos perigos do relativismo e refere-o como “um grande problema”: “Como podemos admitir que o nosso conhecimento seja um assunto humano — e todo humano —, sem que, ao mesmo tempo, isso implique que se trata de um capricho individual e arbitrário”? A sua resposta é inequívoca:

“A solução reside na constatação de que todos nós podemos errar e frequentemente erramos, individual e coletivamente, mas que esta ideia de erro e falibilidade humana envolve uma outra — a ideia de verdade objetiva: a consciência de que podemos ficar aquém. Assim, a doutrina da falibilidade não deveria ser olhada como parte de uma epistemologia pessimista” 42.

De acordo com Popper, a forte presença da ciência, o seu progresso, e a nossa capacidade para usar argumentos, pressupõem a verdade objetiva e padrões objetivos de crítica. Além disso, expõe também mais detalhes sobre o falibilismo:

“Por “falibilismo” eu refiro-me ao ponto de vista, ou à aceitação do facto, de que podemos errar, e que a busca de certeza (ou mesmo a busca por elevada probabilidade) é uma busca errada. Mas isto não implica que seja errada a busca da verdade. Pelo contrário, a ideia de erro implica que a verdade tenha como padrão ficar aquém. Isto implica que, embora possamos procurar a verdade, e embora possamos mesmo encontrá-la (como penso que acontece em muitos casos), nunca poderemos estar completamente certos de a ter encontrado. Existe sempre a possibilidade de erro”43.

Eu diria que não é necessário partilhar das ideias de Popper sobre certeza para ver que ele não defende nenhum tipo de relativismo, e este é o meu ponto principal aqui. Popper afirma claramente que:

“O falibilismo não precisa de modo algum de dar origem a qualquer conclusão cética ou relativista (…) Toda a descoberta de erro constitui um real avanço no nosso conhecimento (…) A crítica, parece, é a única forma que temos de detetar nossos erros, e de aprender com eles de forma sistemática” 44.

O falibilismo e principalmente uma atitude, nomeadamente “a aceitação do facto de que podemos errar”; esta atitude está ligada a argumentos lógicos (por exemplo, a impossibilidade de verificar uma afirmação universal através de testes particulares): mas isso não tem nada que ver com relativismo. Na verdade, Popper opõe-se fortemente ao relativismo como um tipo de irracionalismo, tal como ele diz que:

“Um dos aspetos mais perturbadores da vida intelectual do nosso tempo é a forma como o irracionalismo é tão largamente defendido, e a forma como as doutrinas irracionalistas são reconhecidas. Um dos componentes do moderno irracionalismo é o relativismo (a doutrina de que a verdade depende da nossa experiência intelectual, a qual supostamente de alguma forma determina a estrutura através da qual pensamos: que a verdade pode mudar de uma estrutura para outra)” 45.

7. As razões para o falibilismo

Quais são então, em última análise, as razões para o falibilismo?

Os argumentos de Popper sobre o falibilismo derivam do caráter conjetural do nosso conhecimento e da nossa enorme ignorância. No entanto, Popper combina estes elementos com considerações éticas. Ele diz-nos, por exemplo:

“Os princípios que formam a base de qualquer discussão racional, ou seja, de qualquer discussão em que se busque a verdade, são principalmente princípios éticos”, e ele apresenta-nos três deles da seguinte maneira: “1. O princípio da falibilidade: talvez eu esteja errado e talvez tu estejas certo. Mas podemos facilmente estar ambos errados”. 2. O princípio da discussão racional: “nós queremos tentar, tão impessoalmente quanto possível, defender as nossas razões a favor e contra uma teoria” (…) 3. O princípio de aproximação à verdade: “podemos quase sempre aproximar-nos da verdade numa discussão que evite os ataques pessoais (…)”.

Popper reforça que estes princípios incluem componentes éticos, pois ele continua dizendo:

“Vale a pena notar que estes três princípios são simultaneamente epistemológicos e éticos. Pois implicam, entre outras coisas, tolerância: se eu quiser aprender contigo, e se quiser aprender no interesse da verdade, então tenho não apenas de tolerar-te mas também tratar-te como uma pessoa potencialmente igual a mim. A unidade e a igualdade potenciais de todos os homens constituem um pré-requisito da nossa disposição para discutir racionalmente”46.

Uma explicação meramente lógica ou epistemológica não basta para refletir esta situação, porque as principais ideias nela envolvidas são “simultaneamente epistemológicas e éticas”. É por isso que não há aqui qualquer círculo vicioso: a ética constitui a base da atitude racional (embora isto não signifique uma autonomia completa da ética: a atitude racional e a ética estão fortemente entrelaçadas e relacionadas em ambas as direções).

É também digno de nota que Popper inclua “O Princípio da Falibilidade” como um dos que se integram nos “principais princípios éticos”. Esta afirmação deveria bastar para mostrar que o falibilismo não é um assunto meramente lógico, e que não contém apenas uma dimensão ética, mas tem, nas palavras do próprio Popper, sobretudo um caráter ético.

Popper refere-se também à unidade e à igualdade entre os homens como uma componente ética do falibilismo, e isto tem uma forte componente antropológica. Ouso dizer que aqui encontramos o pressuposto básico de toda a filosofia de Popper: ele acredita no homem, na liberdade, na razão, na paz e no respeito. Popper está fortemente comprometido com estes valores, e pressupõe-os em todos os argumentos que usa. Na mesma linha, ele acrescenta:

“Os princípios éticos formam a base da ciência. A ideia de verdade como princípio regulador fundamental — o princípio que guia a nossa busca – pode ser considerado um princípio ético. A busca da verdade e a ideia de aproximação à verdade constituem igualmente princípios éticos; como o são as ideias de integridade intelectual e de falibilidade, que nos conduzem à autocrítica e à tolerância”47.

É difícil exagerar sobre a relevância destas afirmações. Elas abrem novas perspetivas, que se referem às bases éticas da ciência, todo um campo de pesquisa, e mostram que os aspetos essenciais da epistemologia de Popper não podem ser adequadamente compreendidos sem ligação aos seus componentes éticos.

8. Racionalismo crítico

A epistemologia de Popper é normalmente rotulada por racionalismo crítico. Vou analisar agora o uso dessa expressão pelo próprio Popper. Numa discussão onde Popper se refere à diferença entre os valores mais elevados que os indivíduos devem seguir e os assuntos públicos que devem concentrar-se em evitar males, ele escreve:

“Esta é apenas parte do libelo contra o irracionalismo, e das consequências que me induziram a adotar a atitude oposta, a qual é a do racionalismo crítico. Esta atitude, com a ênfase que dá à argumentação e à experiência, e com a sua divisa — “Posso estar errado e vós podeis estar certos, e por um esforço comum poderemos chegar mais perto da verdade” — é, como já referi, estreitamente ligado à atitude científica. Prende-se com a ideia de que cada um está sujeito a cometer erros”48.

É interessante notar que, neste texto, Popper fala especificamente acerca do racionalismo crítico, que é o rótulo geralmente usado pelo próprio Popper para o conjunto da sua filosofia. O racionalismo crítico é normalmente considerado como uma posição epistemológica ligada à análise do conhecimento científico. Mas é fácil notar que, no texto agora citado, a motivação do racionalismo crítico não deriva apenas da epistemologia, mas também da ética.

Popper refere-se também noutras ocasiões à “atitude básica do racionalista”, “posso estar errado e tu certo”49. Visto sob esta luz, o seu racionalismo apresenta uma forte componente ética. De facto, ele diz-nos:

“A ligação entre racionalismo e humanitarismo é muito próxima (…). Uma atitude racionalista parece usualmente combinar-se com um igualitarismo básico e uma visão humanitária”50; e acrescenta que as razões do racionalismo são largamente éticas:

“Tentei analisar as consequências do racionalismo e do irracionalismo que me induziram a tomar uma decisão. Desejo reiterar que essa decisão é largamente moral (…) Visto por estas perspetiva o meu contra-ataque ao irracionalismo é um ataque moral”51.

É muito importante perceber que o racionalismo a que se refere Popper não coincide com o significado que usualmente este termo tem em filosofia, oposto ao empirismo52. Em vez disso, refere-se a uma atitude moral que envolve toda a existência humana, e é por isso que adotá-la implica uma decisão moral. Popper espera que a violência “possa ser controlada pela razão”, e acrescenta: “É talvez por isso que eu, entre muitos outros, acredito na razão; que me considero racionalista. Sou-o porque vejo no racionalismo a única alternativa à violência”.

Na mesma linha, Popper dá-nos a seguinte definição de racionalismo:

“Um racionalista, de acordo com o uso que dou à palavra, é um homem que tenta tomar decisões através de argumentos e talvez, em certos casos, pelo compromisso, em vez da violência. É um homem que prefere não ter sucesso em convencer outro homem por argumentos que ter sucesso em esmagá-lo pela força, pela intimidação e ameaças, ou mesmo pela propaganda persuasiva”53.

Depois, Popper mostra que a diferença não reside principalmente no uso de argumentos ou no caráter conclusivo dos nosso argumentos:

“A diferença está na atitude de dar e receber, numa atitude não apenas de convencer o outro, mas de igualmente de poder ser convencido por ele. O que eu chamo de atitude de razoabilidade pode ser caracterizada da seguinte forma: “eu penso que tenho razão, mas posso estar enganado e tu estares certo, e, em qualquer caso, podemos discutir sobre isso, pois estaremos mais próximos de chegar a uma verdadeira compreensão desta forma do que insistindo de que só nós temos razão. É preciso entender que o que eu apelido de atitude de razoabilidade ou atitude racional pressupõe um certo nível de humildade intelectual”54.

Noutras ocasiões, Popper atribui outro significado ao racionalismo, especialmente quando discute o que ele rotula de “princípio da racionalidade”. Mas mesmo aí ele reforça claramente a relevância da racionalidade, entendida como uma atitude pessoal:

“A racionalidade, enquanto atitude pessoal, é a atitude de boa-vontade para corrigir as nossas crenças. Na sua forma intelectual mais desenvolvida constitui-se como a boa-vontade para discutir criticamente aquilo em que acreditamos, e corrigi-lo à luz de discussões críticas com outras pessoas”55.

É claro que isto não implica que se permaneça num estado de dúvida constante: o próprio Popper mostra um profundo compromisso com a sua visão humanitária e racionalista. Popper refere-se obviamente à abertura de espírito e à atitude de respeito para com as convicções e ideias das outras pessoas, e à boa-vontade de analizá-las e de eventualmente corrigir as nossas posições, em decorrência da discussão crítica.

Embora Popper não esteja muito inclinado a discutir sobre palavras, neste caso ele faz um enorme esforço, o que significa que considera o assunto relevante. E apresenta a sua ideia de uma forma bastante clara:

“Podemos então dizer que o racionalismo é uma atitude de boa-vontade para aceitar argumentos críticos e aprender com a experiência. Trata-se fundamentalmente da atitude de admitir que “eu posso estar errado e tu podes estar certo e, esforçando-nos, podemos chegar mais perto da verdade” (…) Em suma, a atitude racionalista, ou, como talvez eu possa rotulá-la, a “atitude da razoabilidade”, é muito semelhante à atitude científica, à convicção de que na busca pela verdade precisamos de cooperação, e que, com a ajuda de argumentos, podemos com o tempo alcançar algo como a objetividade”56.

Podemos verificar que Popper usa uma e outra vez a mesma expressão e a acentua de várias maneiras.

De acordo com Popper, este racionalismo tem as suas raízes na Grécia e no Cristianismo antigos:

“Eu também acredito que a nossa civilização ocidental deve o seu racionalismo, a sua fé na unidade racional do homem e na sociedade aberta, e especialmente a perspetiva científica, à antiga convicção socrática e cristã na irmandade de todos os homens, e na honestidade e responsabilidade intelectuais”57.

Por último, mas não menos importante, vale a pena notar que a insistência de Popper na racionalidade, a qual se relaciona fortemente com a atitude científica, não implica qualquer tipo de cientismo. Pelo contrário, Popper afirma” estou do lado da ciência e do racionalismo, mas sou contra essas exageradas posições a favor da ciência que foram por vezes justamente apelidadas de «cientismo»”58.

“É importante perceber que a ciência não produz afirmações sobre as questões últimas — sobre os enigmas da existência, ou sobre o papel do homem neste mundo”59.

Tudo isto nos mostra uma verdadeira posição humanista. Para além disto, as raízes éticas das ideias centrais de Popper ficam claras neste contexto quando ele escreve:

“O facto da ciência não poder dizer nada acerca dos princípios éticos tem sido erradamente entendido como indicação de que esses princípios não existem; embora, de facto, a busca da verdade pressuponha princípios éticos”60 e declara a sua oposição à “doutrina niilista que afirma que todos os propósitos são aparentes e que não pode haver qualquer fim ou propósito ou significado ou tarefa na nossa vida”61.

IV. UMA EPISTEMOLOGIA REALISTA

Tentei mostrar até agora que o falibilismo de Popper não é uma mera tese lógica. Contém elementos lógicos, mas refere-se igualmente à ética: surgiu na sequência de uma profunda experiência ética, e está ligado a uma atitude de razoabilidade e responsabilidade intelectual. Irei agora completar esta análise clarificando a noção de falibilismo e a sua relação com uma epistemologia realista.

9. Algumas qualificações de falibilismo

Obviamente, o falibilismo ocupa um espaço importante na filosofia de Popper e não pode ser reduzido a uma mera reação do jovem Popper a eventos particulares, por muito importantes que tenham sido62. Irei abordar agora alguns aspetos que nos ajudarão a uma mais completa compreensão do falibilismo.

Algumas vezes Popper opõe o falibilismo ao “verificacionismo”. Assim, no que toca ao problema do conhecimento , Popper distingue dois grupos principais de filósofos:

Os membros do primeiro grupo — os verificacionistas ou os justificacionistas — defendem, grosso modo, que tudo o que não possa ser sustentado por razões positivas será indigno de crédito, ou de ser, sequer, tomado em séria consideração. Por outro lado, os membros do segundo grupo – os falsificacionistas ou falibilistas – dizem, grosso modo, que tudo o que (presentemente), não seja, em princípio, passível de ser derrubado pela crítica será (presentemente) indigno de ser seriamente considerado; Enquanto tudo o que possa, em princípio, ser derrubado e, no entanto, resista a todos os nossos esforços críticos para o conseguir poderá muito provavelmente ser falso, mas não será, em todo o caso, indigno de ser seriamente considerado e talvez mesmo acreditado – ainda que apenas a título experimental (…) Os falsificacionistas (o grupo de falibilistas a que pertenço) acreditam – como a maioria dos irracionalistas também acreditam – ter descoberto argumentos lógicos que demonstram que o programa do primeiro grupo não é exequível: que nunca podemos apresentar razões positivas que justifiquem a crença de que uma teoria é verdadeira63.

Portanto, Popper relaciona estreitamente falibilismo e falcificacionismo, de modo que o falcificacionismo é considerado uma forma particular de falibilismo, e caracterizam-se por uma atitude relacionada a um certo tipo de valores: o que caracteriza o falibilismo e o justificacionismo é que eles consideram que algum tipo de afirmação é “digno” ou “indigno” de ser “acreditado” ou “seriamente considerado”. Isso significa que falibilismo e justificacionismo não são apenas doutrinas lógicas. Além disso, o falsicacionismo baseia-se na impossibilidade lógica de fornecer verificações conclusivas em nome das teorias; mas essa razão típica, que é de tipo lógico e mostra que o programa verificacionista não pode ser realizado, é compartilhada, de acordo com Popper, também pela maioria dos irracionalistas: portanto, o falsificacionismo deve basear-se também em outros motivos.

Uma das principais dificuldades do falibilismo parece ser a apresentação de um relato negativo do método científico, não sendo, portanto, justo para os resultados positivos e para a correspondente confiabilidade das teorias científicas. Nesta linha, Eugene Freeman e Henryk Skolimowski lamentaram que a metodologia de Popper (e Peirce) fosse apelidada de “falibilismo”, porque este termo sugere “propensão humana a cometer erros” e geralmente significa “propensos ao erro” ou “susceptível de estar errado ou impreciso”; Portanto, eles afirmam: “o termo é singularmente inapto, quase ao ponto da caricatura, como designação do método da ciência”, porque “perde o ponto principal sobre o que a ciência está fazendo quando comete erros — e isso é, não que ela os comete, mas que (a) reconhece-os, e (b) elimina-os, e (c) avança além deles e, assim, aproxima-se mais da verdade”. Eles sugerem que “uma designação muito mais feliz para identificar a metodologia de Peirce e Popper é encontrada na frase inspirada de Popper,” conjecturas e refutações “, que se aproxima muito mais da essência do método científico”64. Esses comentários estão contidos na contribuição de Freeman-Skolimowski para A Filosofia de Karl Popper. Quando Popper responde, e apesar de comentários extensos a outras partes do artigo, não faz nenhum comentário sobre isto 65. Talvez signifique que ele não atribui qualquer relevância a essa crítica, porque é óbvio que o falibilismo não deve ser interpretado como um resumo do método científico.

Em vez disso, entre os comentários de Popper sobre o documento de Freeman-Skolimowski, há um que pode ter aqui um interesse especial e que é o seguinte:

“O meu falibilismo mais abrangente, por outro lado, é o resultado direto da revolução de Einstein” 66.

A comparação refere-se a Peirce. Vimos em detalhe por que a experiência marxista de Popper o tornou um falibilista, e também que essa experiência negativa foi completada, desta vez positivamente, quando notou a atitude de Einstein. No entanto, a referência ao falibilismo como resultado da revolução de Einstein tem aqui um significado diferente: significa que nunca podemos ter certeza da verdade de qualquer teoria científica, mesmo que tenha sido comprovada em muitos casos, porque (citando novamente a carta de Popper para mim) “nenhuma teoria foi melhor testada do que a de Newton – e certamente não podemos ter certeza de que ela está certa; Einstein mostrou que é possível que a teoria de Newton possa ser falsa”. Popper refere-se frequentemente à situação provocada pela revolução de Einstein em termos similares. Mas devemos notar que a revolução de Einstein envolveu grandes teorias científicas; Talvez nunca possamos ter certeza de tais teorias, mas podemos nos perguntar se o mesmo vale para declarações científicas mais modestas: por que não podemos ter certeza, digamos, da existência de entidades como os átomos ou os elétrons, ou leis empíricas como a lei de Ohm , ou configurações como a dupla hélice do DNA?

Na minha opinião, Popper supõe que estamos conscientes das distinções que existem entre os diferentes níveis das nossas construções científicas, bem como entre eventos, entidades, processos e propriedades, e assim por diante. Ele raramente considera esse tipo de problema, e isso pode ser uma fonte de mal-entendidos, porque o significado do falibilismo dependerá em parte da natureza dos diferentes assuntos específicos.

Na verdade, se o falibilismo se refere a teorias e significa que qualquer teoria científica pode ser substituída e que, portanto, devemos cultivar uma mente aberta que excluiria qualquer reivindicação de alcançar uma teoria definitiva e irrefutável, e também que devemos sempre procurar refutações potenciais para melhorar nossas teorias, então eu acho que todos somos ou deveríamos ser falibilistas. Uma questão diferente surge, em vez disso, se alguém considerar o falibilismo como um relato completo do método científico ou, pelo menos, de seus fundamentos; esta tentativa seria seriamente incompleta: isso é tão óbvio que talvez, como já foi observado, é por isso que Popper não comenta aquela observação de Freeman e Skolimowski.

Tudo isso chama a nossa atenção para algo muito importante: nunca devemos esquecer o contexto das afirmações de Popper sobre falibilismo. Não me refiro apenas ao contexto literal, mas também ao ideal. Na verdade, o alvo do falibilismo de Popper é a certeza: principalmente, a certeza absoluta, mas também a certeza probabilística. Ele distingue corretamente o âmbito objetivo da verdade do âmbito subjetivo da certeza para afirmar então que a epistemologia apenas se refere à verdade, deixando de fora a certeza. Assim, a busca da verdade deve ser completamente distinta da busca pela certeza, porque nossos estados subjetivos são completamente irrelevantes em relação às reivindicações da verdade. Além disso, Popper enfatiza a impossibilidade lógica de se conseguir uma verificação completa de qualquer teoria, a perda do alegado caráter definitivo da física newtoniana e os perigos envolvidos na reivindicação de alcançar teorias definitivas (também o perigo de estagnação: quando pensamos que a nossa teoria é definitiva, vamos deixar de procurar uma melhor). Tudo isso é realmente muito importante. No entanto, a oposição de Popper a qualquer tipo de certeza pode parecer demasiado unilateral.

O remédio às vezes será fácil, pois bastará considerar explicitamente os diferentes aspectos do problema particular e então perceberemos que podemos estar “bastante seguros” sobre a existência de leis, entidades, propriedades ou processos dentro do contexto científico correspondente . Em outros casos, no entanto, encontraremos dificuldades severas se quisermos atribuir um certo grau de certeza a nossas construções científicas; isso geralmente acontece quando consideramos as grandes teorias, que fornecem um sistema inteiro cuja verdade global dificilmente pode ser definida. De qualquer forma, tudo isso corresponde a uma teoria inteira do conhecimento científico que transcende os problemas particulares relacionados ao falibilismo e deve incluir qualificações sobre diferentes tipos de assuntos e tipos de certeza.

10. O significado ético do falibilismo

Popper queria ampliar a Sociedade Aberta com duas adendas. A segunda, datada de 1965, é muito breve e refere-se a Marx. A primeira, datada de 1961, intitula-se “Factos, Padrões e Verdade: Uma Crítica Adicional do Relativismo”; é longo, e Popper dividiu-o em 18 parágrafos, de modo que constitui algo como um novo fim do livro, no qual as ideias básicas sobre a verdade e o conhecimento são revistas. Na sua conclusão, Popper expõe o que uma abordagem falibilista tem para oferecer ao filósofo social, e menciona dois problemas. O primeiro refere-se à possibilidade de avaliar a tradição, bem como o pensamento revolucionário. Sobre o segundo, que se tornou a própria conclusão do livro, ele escreve:

“Ainda mais importante, isso pode mostrar-nos que o papel do pensamento é realizar revoluções por meio de debates críticos e não por meio da violência e da guerra; que é a grande tradição do racionalismo ocidental travar batalhas com palavras e não com espadas. É por isso que a nossa civilização ocidental é essencialmente pluralista, e que os fins sociais monolíticos significariam a morte da liberdade: da liberdade de pensamento, da livre busca da verdade e, com ela, da racionalidade e da dignidade do homem”67.

Estas palavras mostram claramente a componente ética da filosofia de Popper. No entanto, elas poderiam ser interpretadas, se seguirmos literalmente as próprias palavras de Popper, como uma espécie de consequência social da sua epistemologia: apesar de interessante, permaneceria fora do núcleo da filosofia de Popper.

A minha afirmação é que devemos ler Popper e interpretar os seus argumentos à luz dos valores éticos, nomeadamente do seu compromisso com a dignidade humana, a liberdade, a razão e a verdade. Caso contrário, corremos o risco de não o compreendermos e de facilmente substituirmos o Popper real por um esqueleto morto cheio de problemas por resolver.

Do ponto de vista cronológico, tudo começa com as ideias elaboradas por Popper após o encontro com o marxismo. Diz-nos ele na sua autobiografia:

“Uma vez que eu olhei isso de forma crítica, as lacunas, ambiguidades e inconsistências da teoria marxista tornaram-se óbvias (…) Levei alguns anos de estudo antes de sentir com alguma confiança que entendi o núcleo do argumento marxista (…. mesmo assim, não tinha a intenção de publicar minhas críticas a Marx, pois o anti-marxismo na Áustria era pior do que o próprio marxismo: uma vez que os social-democratas eram marxistas, o anti-marxismo era quase idêntico aos movimentos autoritários que mais tarde foram chamados fascistas. Claro, falei sobre isso com meus amigos. Mas apenas dezasseis anos depois, em 1935, comecei a escrever sobre o marxismo com a intenção de publicar o que escrevi. Como consequência, surgiram dois livros entre 1935 e 1943 – “A Pobreza do Historicismo” e “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”68.

Portanto, podemos dizer que, apesar da “Lógica da Descoberta Científica” ter sido o primeiro livro publicado por Popper, as ideias que regem os dois livros sobre filosofia social vistos através das lentes da ética tiveram a prioridade real e influenciaram em grande medida o desenvolvimento da epistemologia de Popper.

Eu acrescentaria ainda que a epistemologia de Popper se torna uma fonte de todo o tipo de problemas quando nos esquecemos — e isso geralmente acontece — das suas ligações às questões sociais e atitudes éticas. A epistemologia não pode ser reduzida ao estudo das relações lógicas entre afirmações, porque a ciência é, acima de tudo, uma atividade humana voltada para alguns objetivos que são alcançados através de métodos muito sofisticados, e esses métodos incluem estipulações e decisões que se afastam da lógica pura. É claro que a lógica deve ser respeitada como uma ferramenta indispensável, mas a ciência não se guiará apenas pela lógica. Na verdade, Popper sabia isso muito bem e inclui na sua epistemologia, já nos primeiros escritos e sempre depois, referências importantes aos valores pragmáticos, éticos e sociais que são relevantes na prática científica. No entanto, a imagem usual de seu trabalho sobre epistemologia é centrada em torno da lógica, apenas. Isso pode ser devido à relevância de suas observações sobre os motivos lógicos que tornam impossível a verificação de hipóteses e também ao contraste da sua epistemologia com a epistemologia de Kuhn, sociologicamente centrada, à qual falta o problema da verdade.

As características éticas da epistemologia de Popper não estão patentes apenas, ou principalmente, nos últimos anos. Elas estão presentes desde o princípio. Por exemplo, num discurso entregue em junho de 1947 e publicado pela primeira vez em 1948, depois de descrever os malefícios da situação do pós-guerra, ele afirma:

“Mas, apesar de tudo isso, não tenho hoje menos esperança (menos do que a esperança que sempre tive) de que a violência pode ser derrotada (…) que a violência pode ser reduzida e submetida ao controlo da razão. É por isso que eu, como muitos outros, acredito na razão; porque me apelido de racionalista. Sou racionalista porque vejo na atitude de razoabilidade a única alternativa à violência”69.

Anos mais tarde, num artigo publicado pela primeira vez em 1970, Popper explicou algo que repetiria incansavelmente durante muitos anos:

“Se o método da discussão crítica racional deve estabelecer-se, então isso deve tornar o uso da violência obsoleto. Porque a crítica racional é a única alternativa à violência até agora conhecida. Constitui um dever óbvio de todos os intelectuais trabalharem para esta revolução — para a substituição da função eliminatória da violência pela função eliminatória da crítica racional”70.

“Eu abomino a violência”71. A filosofia de Popper é construída, em todos os seus elementos, com base nesta citação. Razoabilidade, crítica racional, falibilismo, são rótulos que representam várias características da mesma realidade: paz, respeito, liberdade.

11. Fé na razão

A filosofia de Popper é geralmente rotulada, seguindo a sua própria proposta, como racionalismo crítico, porque seu princípio central é a crítica, isto é, a atitude que considera o conhecimento não como algo definitivo, mas como algo sempre aberto a novas objeções. Neste contexto, o caráter conjetural de todo o conhecimento ocupa um lugar central, e a busca pela certeza surge como uma perspectiva equivocada, que deve ser substituída pela abordagem crítica. Tudo isso é repetidamente afirmado por Popper, de modo que não é necessário prová-lo. Surge, então, uma grande questão: qual é a base do próprio racionalismo crítico? Ou, de outra forma: o racionalismo crítico pode ser aplicado a si mesmo? E, se não for esse o caso, surge a questão da sua coerência: o racionalismo crítico é sustentável, mesmo quando a sua tese básica não pode ser submetida às exigências que esta tese proclama?

Essas perguntas não são novas, e Popper enfrentou-as. A sua resposta é direta: como já vimos, seguindo as próprias palavras de Popper, as razões do seu racionalismo são em grande parte éticas. Isto é claramente indicado na “Sociedade Aberta”, onde Popper fala de “fé na razão, ou racionalismo, ou humanitarismo ou humanismo”, e alega que:

“O humanitarismo é, afinal, uma fé que ficou provada em ações, e que também se provou a si mesma, como tal, como qualquer outro credo”72.

O racionalismo de Popper, portanto, é sem dúvida uma fé, um credo, que pode ser comparado com outras fés e credos: e é um credo baseado na “fé na razão”. Que esta fé se baseia em uma escolha moral também é claramente declarado por Popper quando ele discute os prós e contras do racionalismo crítico e nos diz que o racionalismo crítico:

“Reconhece o facto de que a atitude racionalista fundamental resulta de um ato de fé (pelo menos provisório) — de fé na razão. Assim, a nossa escolha está aberta. Podemos escolher alguma forma de irracionalismo, até mesmo uma forma radical ou abrangente. Mas também somos livres para escolher uma forma crítica de racionalismo, que admite francamente ter origem numa decisão irracional (e que, nesse sentido, admite uma certa prioridade do irracionalismo). A escolha que temos diante de nós não é simplesmente um caso intelectual, ou uma questão de gosto. É uma decisão moral (no sentido do capítulo 5). Pois adotarmos uma forma mais ou menos radical de irracionalismo, ou adotarmos por essa concessão mínima ao irracionalismo que eu chamo de “racionalismo crítico”, afetará profundamente toda a nossa atitude em relação aos outros homens e aos problemas da vida social”73.

A referência ao capítulo 5 da “Sociedade Aberta” esclarece porque nesse capítulo Popper defende o dualismo entre factos e decisões, argumentando que “a natureza consiste em factos e regularidades e não é, em si, nem moral nem imoral. Somos nós que impomos normas sobre a natureza e que, desse modo, introduzimos a moral no mundo natural, apesar de sermos parte desse mundo ». À medida que Popper continua, ele fala sobre “decisões pelas quais somos moralmente responsáveis”, e afirma que “responsabilidade, decisões, entram no mundo da natureza apenas connosco”, e também que “essas decisões nunca podem ser derivadas de factos (ou de afirmações de factos)74.

Portanto, podemos concluir que Popper, de alguma forma, identifica o seu racionalismo crítico com o seu humanismo, que ambos se baseiam em uma espécie de fé na razão, que é uma verdadeira fé, porque não pode ser derivada de factos, e também que essa fé é o resultado de uma escolha que tem um caráter moral porque tem consequências importantes em nossas atitudes em relação a pessoas humanas. Devemos acrescentar que, de acordo com Popper, a escolha moral do racionalismo não é cega, pois pode ser apoiada por argumentos:

“Como já vimos antes (no capítulo 5), e agora novamente na nossa análise da versão acrítica do racionalismo, os argumentos não podem determinar uma decisão moral tão fundamental. Mas isso não implica que nossa escolha não possa ser ajudada por qualquer tipo de argumento. Pelo contrário, sempre que nos deparamos com uma decisão moral de um tipo mais abstrato, é muito útil analisar cuidadosamente as consequências que provavelmente resultarão das alternativas entre as quais temos que escolher” 75.

Na “Sociedade Aberta e seus Inimigos” encontramos outras declarações que insistem nesta linha e mostram que estes pontos são centrais na atitude de Popper, por exemplo quando ele diz:

“Tentei analisar as consequências do racionalismo e do irracionalismo que me induzem a decidir desta forma. Gostaria de repetir que a decisão é em grande parte uma decisão moral. É a decisão de levar a sério o argumento. Esta é a diferença entre as duas visões; pois o irracionalismo também usará a razão, mas sem qualquer sentimento de obrigação; irá usá-lo ou descartá-lo como quiser. Mas acredito que a única atitude que eu posso considerar moralmente correta é aquela que reconhece que devemos a outros homens e a nós mesmos tratá-los como seres racionais. Considerado dessa maneira, meu contra-ataque contra o irracionalismo é um ataque moral”76.

Fizemos já algumas referências à análise de Popper sobre as consequências do racionalismo e do irracionalismo. Normalmente, elas incluem, desde os tempos da “Sociedade Aberta”, referências ao dispositivo racionalista crítico: “posso estar errado e tu podes estar certo e, por um esforço, podemos nos aproximar da verdade”77. Outras consequências desta visão são que “a fé na razão não é apenas uma fé em nossa própria razão, mas também — e ainda mais — em relação aos outros”, de modo que “o racionalismo está, portanto, vinculado à ideia de que o outro tem direito de ser ouvido e defender seus argumentos. Isso implica o reconhecimento da reivindicação de tolerância”; também, que «o racionalismo está ligado ao reconhecimento da necessidade das instituições sociais para proteger a liberdade”; e, finalmente, que “a adoção do racionalismo implica, além disso, que existe um meio comum de comunicação, uma linguagem comum da razão; estabelece algo como uma obrigação moral para com essa linguagem, a obrigação de manter seus padrões de clareza e usá-la de tal forma que possa manter a sua função como veículo de discussão”. Não nos surpreenderíamos em encontrar neste contexto, mais uma vez, a expressão «fé na razão» como característica central do racionalismo78, atribuída por Popper ao maior entre os fundadores da tradição do racionalismo crítico, Sócrates79.

Tudo isso não corresponde a um período particular do pensamento de Popper. Pelo contrário, é uma reivindicação constante que se repete nos diferentes trabalhos e tempos como algo realmente importante. Uma referência a duas declarações em trabalhos posteriores à “Sociedade Aberta” será suficiente para mostrá-lo. Na palestra “Utopia e Violência”, de 1947, e depois incluída nas “Conjecturas e Refutações”, Popper refere-se ao seu racionalismo não dogmático como algo que não pode ser provado e que inclui a fé na razão e no homem com os seguintes ênfase e clareza:

“Penso já ter dito o suficiente para deixar claro o que pretendo transmitir ao apelidar-me racionalista. Meu racionalismo não é dogmático. Eu admito plenamente que não posso prová-lo racionalmente. Confesso francamente que escolho o racionalismo porque odeio a violência e não alinho no engano de acreditar que esse ódio tem motivos racionais. Ou, por outras palavras, o meu racionalismo não é autónomo, antes depende de uma fé irracional na atitude de razoabilidade. Não vejo que possamos ir além disto. Pode-se dizer, talvez, que minha fé irracional em direitos iguais e recíprocos para convencer os outros e ser convencido por eles é uma fé na razão humana, ou simplesmente, que eu acredito no homem”80.

Muitos anos depois, na sua palestra de 1985, “A Teoria do Conhecimento e o Problema da Paz” , ele refere-se à posição básica como sua religião, em oposição a algumas falsas religiões de nossos dias81.

Sobretudo, na “Introdução ao Mito do Contexto”, publicado em 1994, Popper incluiu algumas considerações que, se consideradas isoladas de outras obras, talvez parecessem uma espécie de moralização senil, mas que, no fundo das citações anteriores , mostram que são, em um sentido muito estrito, um resumo literal das principais afirmações de Popper. Eles são tão importantes que merecem uma longa citação:

Todos, ou quase todos, os documentos reunidos neste volume foram escritos para defender a racionalidade e a crítica racional. É uma maneira de pensar, e até mesmo um modo de viver: uma disponibilidade para ouvir argumentos críticos, procurar os próprios erros e aprender com eles. É, fundamentalmente, uma atitude que tentei formular (talvez primeiro em 1932) nas seguintes duas linhas: Posso estar errado e você pode estar certo, mas, por um esforço, podemos nos aproximar da verdade. Estas duas linhas em itálico aqui citadas foram impressas pela primeira vez em 1945 na minha “Sociedade Aberta” (…) e pu-las em itálico para indicar que as considero importantes. Pois foram uma tentativa de resumir uma parte muito central de meus artigos morais de fé. À visão que neles resumi chamo “racionalismo crítico”. Mas os críticos da minha “Sociedade Aberta” e do racionalismo crítico foram, ao que parece, cegos e não leram estas duas linhas: tanto quanto sei, nenhum dos meus críticos mostrou interesse por elas, ou as citou (…) Este é o motivo pelo qual, passado meio século, as cito aqui. Pretendi que contivessem, em poucas palavras, uma profissão de fé, expressa simplesmente, em inglês não filosófico e comum; uma fé na paz, na humanidade, na tolerância, na modéstia, na tentativa de aprender com os próprios erros; e nas possibilidades de discussão crítica. Foi um apelo à razão82.

As linhas precedentes mostram claramente o caráter profundo do racionalismo crítico de Popper, as suas raízes e as suas principais consequências. Depois de lê-las, não subsistem dúvidas de que resumem as características centrais da posição de Popper e que esta posição possui componentes éticos profundos. Popper refere-se nessas linhas ao facto dos seus críticos terem sido cegos para os principais aspetos da sua doutrina. Outro facto, que talvez seja ainda mais importante, é a interpretação do racionalismo crítico de Popper que fazem os seus amigos. Eles perceberam o que Popper realmente quis dizer?Certamente, a interpretação mais influente do pensamento de Popper por parte dos seus amigos foi proposta por William Warren Bartley, e sua relevância para nossas considerações atuais dificilmente poderia ser subestimada.

Bartley chegou de Harvard na London School of Economics em setembro de 1958 para trabalhar com Popper, no âmbito do seu (de Bartley) doutoramento. Até 1965, a relação entre ambos foi excelente. Foi durante esta época que Bartley achou o racionalismo crítico de Popper insuficiente devido ao elemento de fé que incluía nas suas bases, e queria formular uma extensão da teoria de Popper que chamou de “racionalismo crítico abrangente” e, depois, de “pancrilismo”. A principal ideia era que a crítica devia ser estendida de forma a que os elementos relacionados com qualquer tipo de fé pudessem ser eliminados para obter uma posição completamente crítica.

Bartley discutiu esses problemas com Popper, e este introduziu na edição de 1962 da “Sociedade Aberta” diversas alterações, reconhecendo a sua dívida para com Bartley com estas palavras:

“Estou profundamente em dívida para com o Dr. William W. Bartley que não só me ajudou a melhorar o capítulo 24 deste livro com a sua crítica incisiva (especialmente a página 231), mas também me induziu a fazer mudanças importantes na presente adenda”83.

No entanto, Bartley achou que aquelas alterações eram insuficientes porque mantinham os elementos de fé, e continuou a trabalhar na sua própria linha de pensamento.

Ninguém sabe o que teria acontecido se o relacionamento de Bartley com Popper não tivesse sido interrompido em 1965, devido ao artigo que Bartley apresentou no Simpósio Internacional realizado em Londres naquele ano84. Quando a relação cordial foi restaurada muitos anos depois, Bartley foi uma grande ajuda para a publicação do postscript de Popper. O que sabemos é que o “pancrinismo” de Bartley provocou uma discussão considerável na qual Popper não interveio85.

Também sabemos que, apesar dos comentários de Bartley, Popper não mudou de opinião no texto escrito da “Sociedade Aberta” como pode ser facilmente visto no volume II, página 231 (aquela que Popper menciona especialmente), porque encontramos várias referências à fé na razão. Popper diz anteriormente que “nem o argumento lógico nem a experiência podem estabelecer a atitude racionalista, pois somente aqueles que estão prontos a considerar argumentos ou experiências, e que, portanto, adotaram essa atitude, serão impressionados por eles”;

Então ele continua dizendo:

“Nós temos que concluir daí que nenhum argumento racional terá um efeito racional sobre um homem que não quer adotar uma atitude racional. Assim, um racionalismo abrangente é insustentável”;

E finalmente conclui:

“Mas isso significa que quem adota a atitude racionalista faz isso porque adotou, conscientemente ou inconscientemente, alguma proposta, ou decisão, ou crença, ou comportamento; uma adoção que pode ser chamada de” irracional “. Se essa adoção é tentativa ou conduz a um hábito estabelecido, podemos igualmente descrevê-la como uma fé irracional na razão. Portanto, o racionalismo está, necessariamente, longe de ser abrangente ou autónomo”86.

Tudo isto é suficientemente claro. No entanto, alguém poderia perguntar se Popper mudou ou não de ideias durante o longo período decorrido após a edição de 1962 da “Sociedade Aberta”. Provavelmente, a alusão mais importante a este assunto está contida em várias páginas do volume I do postscript de Popper, editado pelo próprio Bartley. Essas páginas foram parcialmente reescritas, como Popper nos diz, em 197987, e algumas pessoas pensam que elas contêm a apropriação de Popper dos pontos de vista de Bartley.

As páginas que acabamos de mencionar contêm uma discussão sobre a filosofia anti-justificativa de Popper em diálogo com Bartley, e podemos ler neles várias apreciações positivas dos comentários de Bartley e uma nítida negação da relevância da crença nos seguintes termos:

“Agora, como EM Forster, não acredito na crença: não estou interessado numa filosofia de crença, e não acredito que as crenças e as suas justificações, ou fundamentos, ou racionalidade, sejam objeto da teoria do conhecimento”88.

Devemos esperar algo mais para interpretar definitivamente o racionalismo de Popper de uma forma bartliana?

Apesar de tudo, não acho que este seja o caso. Que a crença e a sua justificação não devem desempenhar nenhum papel na teoria do conhecimento e que a filosofia deve concentrar-se nas características lógico-objetivas do conhecimento, sejam verdadeiras ou falsas, não é nada de novo na filosofia de Popper, como ele repetiu em inúmeras ocasiões, desde a década de 1930. Que não podemos argumentar racionalmente a favor da crença, seja verdadeira ou falsa, pertence à própria noção de crença usada por Popper. No entanto, se lermos atentamente as palavras citadas de Popper (e toda a secção a partir da qual elas são extraídas, como a parte mais representativa para nosso propósito), não encontraremos nada contrário a essa “fé na razão” que é pressuposto pelo racionalismo de Popper. Além disso, não devemos esquecer que esse racionalismo é equiparado por Popper ao seu humanismo e que inclui não apenas uma espécie de fé na razão que pode ser facilmente descartada como algo não muito importante, mas um conjunto de pressupostos e atitudes que constituem o núcleo da própria posição de Popper.

Por último, mas não menos importante, dispomos de um comentário de Popper sobre este assunto, na sua “Introdução” ao “Mito do Contexto”, publicado em 1994 (o ano da morte de Popper) com um texto já citado, contendo uma afirmação clara do núcleo do racionalismo crítico de Popper. Lá, explicitando a sua frase clássica: “Posso estar errado e tu podes estar certo, e por um esforço, podemos nos aproximar da verdade”, Popper reclama que seus críticos não prestaram atenção e depois estende suas queixas a outros mal-entendidos sobre a sua posição. Um deles, o que é relevante aqui, é o seguinte:

“Houve também uma tentativa de substituir o racionalismo crítico por uma posição mais radicalmente crítica e mais explicitamente definida. Mas, por essa tentativa ter o caráter de uma definição, levou a discussões filosóficas intermináveis ​​sobre sua adequação”89.

É muito difícil interpretar este último comentário, embora não contenha uma referência explícita a Bartley (que naquela época já estava morto), a não ser como uma negação do “pancrilismo” de Bartley. A questão é muito importante porque uma interpretação correta da filosofia de Popper depende, em grande medida, deste ponto, e é fácil seguir um de seus melhores discípulos e colaboradores. Que este não deveria ser o caso, pode ser certificado pelas palavras que seguem o comentário de Popper sobre Bartley na “Introdução” de “O Mito do Contexto”. Estas palavras referem-se novamente às duas linhas: “Posso estar errado e tu podes estar certo …”, e dizem:

“Nunca encontrei alguém que tivesse notado as duas linhas que eu pretendia que constituíssem o meu credo moral”90.

Encontramos novamente uma referência inconfundível ao “credo moral” de Popper e, portanto, à sua ética e fé que, além disso, estão unidos em uma única expressão. E enfrentamos um forte lamento, claramente expresso no final de sua vida, onde o próprio Popper talvez nos diga que as interpretações usuais de sua filosofia não são corretas, porque não consideram o que constitui o núcleo duro dos seus racionalismo e humanismo, um núcleo que tem um caráter ético e confia em um tipo especial de fé, a saber, a fé na razão, na liberdade, na paz, no humanismo, no respeito mútuo e na tolerância.

12. Realismo: metafísico  e epistemológico

Houve várias tentativas de fornecer uma chave unificadora para a filosofia de Popper. John Watkins, que trabalhou por muitos anos com Karl Popper no Departamento de Filosofia da London School of Economics, propôs o indeterminismo como tal91. O “surgimento” é outro bom candidato92. Mas foi o próprio Popper, num comentário ao artigo de Watkins, manifestou a sua preferência pelo “criticismo” como a chave de toda a sua filosofia, e as suas palavras textuais merecem ser citadas; na verdade, mesmo que ele reconhecesse que a tentativa de Watkins era coerente e bem discutida, ele escreveu:

“Vejo a” unidade “da minha filosofia de uma maneira ligeiramente diferente: eu deveria estar inclinado a considerar minha ênfase no criticismo (ou nas doutrinas do realismo crítico ou do otimismo crítico) como sendo mais apropriado do que o indeterminismo para a unidade do meu pensamento teórico e prático“93.

Essas palavras são importantes porque mostram que, quando Popper falou sobre o criticismo, ele ligou essa ideia ao realismo. A preocupação central da epistemologia de Popper é a verdade e o esforço para progredirmos na busca pela verdade.

Não faz parte do meu objetivo fazer uma nova tentativa nesta linha. Melhor do que isso, a perspectiva ética fornece uma compreensão da filosofia de Popper em um nível diferente das outras tentativas unitárias. Mais especificamente, permite compreender o significado da crítica de Popper e do racionalismo crítico. Na verdade, quando vemos a epistemologia de Popper, explicitada pela “chave” ética, percebemos que representa uma atitude e não uma doutrina. É uma doutrina centrada em torno de uma atitude, atitude de razoabilidade, de dar importância à discussão racional, discussão aberta a qualquer tipo de objeções ou qualificações, em que estamos prontos para desistir de uma opinião acarinhada quando há razões para abandoná-la. A epistemologia de Popper pode ser vista como uma articulação teórica desse tipo de atitude.

Popper está acima de tudo interessado na verdade. A crítica popperiana está essencialmente ligada à busca da verdade: é uma atitude cuja relevância reside precisamente no papel essencial que desempenha na busca por um verdadeiro conhecimento sobre o mundo real. Na verdade, quando Popper argumenta  a favor do realismo filosófico em oposição a qualquer forma de subjetivismo e idealismo, a sua argumentação adota um tom que quase nos faz esquecer a sua insistência no caráter conjetural do nosso conhecimento, como vou mostrar agora.

O primeiro volume do pós-escrito de Popper à “Lógica da Descoberta Científica” foi intitulado precisamente o “Realismo e o Objetivo da Ciência”. Aí Popper argumenta firmemente em favor de um realismo metafísico que reconhece a realidade de um mundo independente da nossa vontade e também de um realismo epistemológico que considera a busca de um verdadeiro conhecimento desse mundo como o principal objetivo da ciência. A ênfase de Popper em seu argumento é tão forte que encontramos algumas expressões que podem parecer bastante não-popperianas. Mas elas estão lá. Na minha opinião, isso significa que mais uma vez temos boas razões para interpretar a crítica de Popper como uma atitude que pode ser complementada com outras doutrinas metafísicas.

Referirei vários exemplos contidos na seção 7 do primeiro capítulo do Pós-Escrito, volume I, intitulado “Realismo Metafísico”94. Aí, Popper refere-se primeiro ao realismo como um ingrediente importante da “Lógica da Descoberta Científica”. Ainda que ele não considerasse que esse livro fosse sobre a metafísica, afirmou : “eu acreditava no realismo metafísico”, e acrescentou: “e acredito ainda”. E prossegue, afirmando que o realismo metafísico não é parte ou pressuposto do livro, mas acrescenta: “Ainda assim, está sempre presente”. Constitui uma espécie de pano de fundo que indica a nossa busca pela verdade. A discussão racional, ou seja, os argumentos críticos no interesse de uma aproximação à verdade, seriam inúteis sem uma realidade objetiva, sem um mundo que é nossa tarefa descobrir ». Para o caso de o leitor pensar que estes são pensamentos secundários, Popper acrescenta: “Esse sólido realismo, em grande parte implícito, que permeia a “Lógica da Descoberta Científica” é um dos seus aspetos de que me orgulhei. É também um dos aspetos que a vincula a este Pós-Escrito, onde em cada volume se atacam as formas subjetivistas ou idealistas de aproximação ao conhecimento ». Então, ele anuncia que dedicará dez secções à discussão sobre este assunto (secções 7-16).

Podemos constatar que, no texto que acabamos de citar, Popper diz que “acreditou” e continuava a “acreditar” no realismo metafísico. Isso é, aparentemente, bastante popperiano se lembrarmos que, na seção 2 do mesmo capítulo, ele afirma que não acredita na crença. Encontramos outras expressões aparentemente não popperianas quando Popper desenvolve sua discussão sobre o realismo. Ele diz, por exemplo, que o realismo e o idealismo compartilham a característica comum de serem não demonstráveis ​​e irrefutáveis, mas, acrescenta, “há uma diferença importante entre eles. O idealismo metafísico é falso, e o realismo metafísico é verdadeiro. Naturalmente, não”conhecemos” isso, no sentido em que podemos saber que 2 + 3 = 5; isto é, não o conhecemos no sentido de conhecimento demonstrável. Também não o conhecemos no sentido de “conhecimento científico” testável. Mas isso não significa que nosso conhecimento seja irracional, ou irrazoável. Pelo contrário, não há conhecimento factual que seja apoiado por mais robustos (mesmo que inconclusivos) argumentos”. Esta afirmação sobre o realismo e o idealismo não poderia ser mais forte, e a conversa sobre argumentos positivos parece chocar com a crítica extrema, muitas vezes atribuída a Popper. Para lá disso, Popper continua falando sobre “os argumentos positivos em apoio ao realismo metafísico”.

Então, encontramos uma série de afirmações que têm um sabor de certeza inconfundível que podem ser novamente uma surpresa para os defensores de uma versão purista do criticismo. Na verdade, quando Popper expõe os seus argumentos a favor do realismo metafísico, ele escreve:

“Meu argumento é este. Eu sei que não criei a música de Bach, nem a de Mozart, que não criei os quadros de Rembrandt, nem os de Botticelli. Estou certo de que nunca poderia fazer nada parecido … Eu sei que não tenho a imaginação para escrever nada como a “Ilíada” ou o “Inferno” ou a “Tempestade” … Eu sei que sou incapaz de criar, da minha própria imaginação, qualquer coisa tão bonita quanto as montanhas e glaciares da Suíça, ou mesmo como algumas das flores e das árvores do meu próprio jardim. Sei que o nosso é um mundo que nunca fiz “.

Claro, Popper trata aqui de verdades muito elementares. Mas ele lida com elas de maneira completamente realista, sem qualquer concessão aos argumentos típicos das filosofias subjetivistas ou idealistas. Neste campo, Popper não parece ter medo de dizer que ele realmente sabe algo com certeza. E ainda acrescenta logo depois:

“Nenhum desses argumentos deveria ser necessário. O realismo é tão obviamente verdadeiro que mesmo um argumento direto como o apresentado aqui acaba por se tornar um pouco desagradável”.

Penso que todo esse argumento sobre o realismo metafísico pode ser subscrito por um tomista como Étienne Gilson. Popper, o crítico, usa o mesmo tipo de argumentos de Gilson para chegar à mesma conclusão com o mesmo tipo de certeza.

Esta não é, no entanto, a única ocasião em que Popper argumenta sobre questões metafísicas. Quando foi acusado de ser ou ter sido um positivista, ele respondeu que nunca negou a significância da metafísica e também que discutiu problemas metafísicos com frequência, o que é verdade. Eu sublinharia que, mesmo que Popper nos dissesse que seu ponto de vista deveria ser considerado conjetural, na verdade ele argumenta com tanta força quanto qualquer um argumentaria quando ataca o materialismo ou argumenta a favor do realismo, do indeterminismo e do “surgimento”.

Todo este assunto pode ser esclarecido se nos lembrarmos que, argumentando em favor do realismo, Popper escreve: “Nós não “sabemos” isso, é claro, não no sentido em que podemos saber que 2 + 3 = 5; isto é, não conhecemos no sentido de conhecimento demonstrável. Também não conhecemos no sentido de “conhecimento científico” testável. Mas isso não significa que nosso conhecimento seja irracional, ou irrazoável”. Eu acho que um diálogo sobre este texto poderia ser suficiente para chegar a um amplo acordo sobre algumas questões entre Popper e muitos realistas filosóficos, incluindo os tomistas.

Do ponto de vista tomista, eu diria que quase não sabemos nada sobre o mundo físico “no sentido em que possamos saber que 2 + 3 = 5”, de modo que, se considerarmos isso como o paradigma do “conhecimento demonstrável” », Popper ficaria certo quando considerasse nosso conhecimento basicamente conjectural. Esse ponto é discutido com força por Zanotti, que examina a doutrina tomista sobre o conhecimento das essências físicas. Gostaria de acrescentar que, se considerarmos o conhecimento no sentido do “conhecimento científico” testável, devemos estar prontos a admitir que, na ciência empírica, existe uma fonte especial de intersubjetividade e verdade; Essa fonte, no entanto, não é nada misteriosa: consiste no facto de que o mundo natural é organizado em torno de padrões repetitivos espaço-temporais. Experimentos científicos são possíveis porque existem padrões repetitivos. Em vez disso, quando lidamos com as ciências humanas, devemos levar em consideração dimensões humanas específicas que, mesmo que estejam relacionadas a padrões espaço-temporais, também as transcendam. Portanto, não podemos resolver discussões metafísicas usando exatamente o mesmo tipo de argumentos usados ​​na ciência empírica; no entanto, podemos eventualmente chegar a conclusões com mais certezas do que as conclusões das ciências empíricas. Zanotti também fornece bons argumentos e exemplos sobre isso.

Popper defende várias doutrinas filosóficas que são da maior importância para um tomista e para muitos outros filósofos realistas. Já demonstrei que esse é o caso quando ele defende o realismo metafísico. Isso também pode ser estendido à imagem da ciência empírica como uma empresa humana cujo objetivo é a busca da verdade; à relevância das razões éticas na busca da verdade; à afirmação de que nossa busca de conhecimento empírico deve basear-se no método de conjeturas e refutações; à ideia de que, além da ciência empírica, existe um âmbito de questões metafísicas que não podem ser resolvidas por experiências, mas, no entanto, podem ser discutidas racionalmente; à relevância da modéstia intelectual, especialmente no âmbito das empresas intelectuais; à necessidade de promover a atitude de diálogo e razoabilidade nos assuntos humanos.

Portanto, não fiquei surpreso quando descobri que um tomista como Gabriel Zanotti interpretou Popper com simpatia e argumentou que a doutrina de Popper poderia ser considerada um complemento ao tomismo. De alguma forma, ele vê a metodologia, a antropologia e a teoria social de Popper como complementares à metafísica de Tomás de Aquino.

Claro, as diferenças entre Popper e Aquino são grandes e Zanotti está ciente delas, como eu também estou. Popper era um agnóstico que não gostava de discutir questões teológicas e Aquino era um santo que era principalmente teólogo. O tipo de problemas que são centrais em suas respectivas filosofias também são bastante diferentes. Somente, há também pontos de contacto importantes.

Eu ouço dizer que algumas dificuldades aparentes poderiam ser superadas por um diálogo preliminar dirigido a uma compreensão dos respectivos quadros. No entanto, a tarefa não é fácil. Eu não diria agora que a filosofia de Popper é principalmente uma epistemologia que é aplicada ao campo social; prefiro dizer que o inverso é verdadeiro. Se for esse o caso, então o diálogo de um tomista com Popper provavelmente é mais viável do que parece à primeira vista, mas, de qualquer forma, não é um caso fácil. Este ensaio sobre as raízes éticas da epistemologia de Popper pode talvez ajudar a tornar essa tarefa mais fácil.

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Notas:

(deixamos os títulos das obras sem tradução, uma vez que as páginas para as quais o texto remete não são as mesmas nas edições portuguesas, têm apenas correspondência com as obras a que Mariano Artigas se refere e que, portanto, aqui deixamos com seus títulos originais).

1 Este ensaio foi originalmente preparado para  “The Summer Thomistic Seminar” que decorreu na University of Notre Dame (Indiana), on 19-27 July, 1997.

2 Gabriel Zanotti, Karl Popper: Búsqueda con esperanza (Buenos Aires: Editorial de Belgrano, 1993).

3 Gabriel Zanotti, «Epistemología contemporánea y filosofía cristiana», Sapientia, 46 (1991), pp. 119-150.

4 Gabriel Zanotti, «El problema de la “Theory Ladenness” de los juicios singulares en la epistemología contemporánea», Acta Philosophica, 5 (1996), pp. 339-352.

5 Mariano Artigas, Karl Popper: Búsqueda sin término (Madrid: Magisterio Español, 1979).

6 Hubert Kiesewetter, «Ethical Foundations of Popper’s Philosophy», in: A. O’Hear (editor), Karl Popper: Philosophy and Problems, Royal Institute of Philosophy Supplement: 39 (Cambridge: Cambridge University Press, 1995), pp. 275-276.

7 Karl Popper, In Search of a Better World. Lectures and Essays from Thirty Years (London-New York: Routledge, 1992, p. 190.

8 Karl Popper, Autobiography of Karl Popper, in: Paul Arthur Schilpp (editor), The Philosophy of Karl Popper (La Salle, Illinois: Open Court, 1974), vol. I, p. 23-29.

9 Ibid., pp. 27-28.

10 A palestra intitulava-se «Gegen den Zynismus in der Interpretation der Geschichte», e está disponível em: Karl Popper, Alles Leben ist Problemlösen. Über Erkenntnis, Geschichte und Politik (München: Piper, 1994), capítulo 13, pp. 265-281. Alguns dados e comentários interessantes podem ser encontrados no correspondente “Laudatio” by Hubert Kiesewetter: «Karl Popper -ein Jünger von Sokrates», incluído em: Eichstätter Materialien, Band 14. Abteilung Philosophie und Theologie, 6 (Regensburg: Verlag Friedrich Pustet, 1992), pp. 12-24.

11 Esta palestra foi publicada originalmente na versão alemã: «Gedanken über den Kollaps des Kommunismus: Ein Versuch, die Vergangenheit zu verstehen, um die Zukunft zu gestalten»: Karl Popper, Alles Leben ist Problemlösen, capítulo 15, pp. 297-318.

12 Publicado originalmente em italiano com o título “La lezione di questo secolo”. As páginas relevantes para o nosso tema são: «La lezione di questo secolo», entrevista com Giancarlo Bosetti, in: Giancarlo Bosetti (editor), La lezione di questo secolo (Venezia: Marsilio, 1992), pp. 3-11. Há agora também uma versão inglesa: The Lesson of this Century. With two Talks on Freedom and the Democratic State, Karl Popper interviewed by Giancarlo Bosetti (London and New York: Routledge, 1997).

13 Karl Popper, Autobiography of Karl Popper, p. 24.

14 Karl Popper, Alles Leben ist Problemlösen, pp. 308-309.

15 Karl Popper, Autobiography of Karl Popper, pp. 24-25.

16 Giancarlo Bosetti (editor), La lezione di questo secolo, p. 6; Karl Popper, Alles Leben ist Problemlösen, p. 304.

17 Giancarlo Bosetti (editor), La lezione di questo secolo, pp. 6-7; Karl Popper, Alles Leben ist Problemlösen, p. 304.

18 Karl Popper, Alles Leben ist Problemlösen, p. 304.

19 Ibid.

20 Karl Popper, Alles Leben ist Problemlösen, pp. 308-309; Giancarlo Bosetti (editor), La lezione di questo secolo, p. 7.

21 Karl Popper, Autobiography of Karl Popper, p. 25.

22 Karl Popper, Alles Leben ist Problemlösen, p. 309.

23 Karl Popper, Alles Leben ist Problemlösen, p. 303; Giancarlo Bosetti (editor), La lezione di questo secolo, p. 3.

24 Hubert Kiesewetter, «Karl Popper -ein Jünger von Sokrates», p. 17.

25 Franz Kreuzer, «Vorwort», in: Karl Popper, Die Zukunft ist offen (mit Konrad Lorenz), Das Altenberger Gesprach, mit den Texten des Wiener Popper-Symposiums, herausgegeben von Franz Kreuzer, 4 Auflage (München: Piper, 1990), p. 7.

26 Giancarlo Bosetti (editor), La lezione di questo secolo, p. 10.

27 Karl Popper, Alles Leben ist Problemlösen, p. 309.

28 Giancarlo Bosetti (editor), La lezione di questo secolo, p. 10; Karl Popper, Alles Leben ist Problemlösen, p. 309.

29 Karl Popper, Autobiography of Karl Popper, p. 25; Giancarlo Bosetti (editor), La lezione di questo secolo, pp. 10-11.

30 Karl Popper, Alles Leben ist Problemlösen, pp. 309-310.

31 Ibid., p. 310.

32 Ibid., pp. 268-270 and 304-310.

33 Karl Popper, Autobiography of Karl Popper, p. 25.

34 Karl Popper, Alles Leben ist Problemlösen, p. 305.

35 Karl Popper, Autobiography of Karl Popper, p. 28. Obviamente, essa experiência era muito diferente da experiência marxista, mas ambas compartilhavam, no relato de Popper, a atitude verificacionista que fecha seus olhos quando dados contraditórios são encontrados e, ainda assim, continua a achar-se científica.

36 Karl Popper, Autobiography of Karl Popper, pp. 28-29.

37 Ibid., p. 26.

38 Karl Popper, The Open Society and Its Enemies, reimpressão da 5ª edição revista, (London: Routledge, 1977), vol. 2, p. 374.

39 O meu texto corresponde a uma carta datada de 6 de junho de 1980. A resposta manuscrita de Popper a essa carta não está datada; o carimbo do correio no envelope tem a data de 16 de junho de 1980. A última carta, escrita pela Sra. Melitta Mew, a pedido do Professor Sir Karl Popper, é datada de 4 de novembro de 1986. A carta manuscrita de Popper pode ser encontrada em the Popper’s Archives, Hoover Institution, box 270, folder 12.

40 Isto também mostra que Popper foi extremamente cuidadoso sobre a questão mais importante da falsificação da teoria newtoniana, que sem dúvida seria um exemplo de falsificação de primeira linha.

41 Karl Popper, In Search of a Better World, pp. 50-51.

42 Karl Popper,Conjectures and Refutations. The Growth of Scientific Knowledge, 5ª edição (London: Routledge, 1974), p. 16.

43 Karl Popper, The Open Society and Its Enemies, vol. 2, p. 375.

44 Ibid., pp. 375-376.

45 Karl Popper,The Myth of the Framework. In Defence of Science and Rationality, editado por Mark A. Notturno (London: Routledge, 1994), p. 33.

46 Karl Popper, In Search of a Better World, p. 199.

47 Ibid.

48 Karl Popper, The Open Society and Its Enemies, vol. 2, pp. 237-238.

49 Ibid., p. 240.

50 Ibid.

51 Ibid.

52 Ibid., p. 224.

53 Karl Popper,Conjectures and Refutations, pp. 355-356.

54 Ibid., 356.

55 Karl Popper,The Myth of the Framework, p. 181. Essa citação é retirada da parte final de um ensaio, onde Popper compara a racionalidade como uma atitude e “o princípio da racionalidade”.

56 Karl Popper, The Open Society and Its Enemies, vol. 2, p. 225.

57 Ibid., 243-244.

58 Karl Popper, «Natural Selection and the Emergence of Mind», in: Gerard Radnitzky and William W. Bartley, III (editors), Evolutionary Epistemology, Rationality, and the Sociology of Knowledge (La Salle, Illinois: Open Court, 1987), p. 141.

59 Ibid.

60 Ibid. Este ponto é muito importante para uma análise da ciência como uma atividade humana que tem na busca da verdade o seu principal objetivo e, portanto, para uma ética da ciência que, por um lado, constitui uma parte relevante da filosofia da ciência e, por outro lado, se opõe ao relativismo.

61 Ibid.

62 No entanto, vimos que o núcleo do falibilismo já era uma consequência imediata da experiência marxista de 1919. Tal como Kiesewetter diz, «Ein lokalpolitisches Ereignis wurde zum Auslöser der Theorie des Falsifikationismus!»: Hubert Kiesewetter, «Karl Popper -ein Jünger von Sokrates», p. 17.

63 Karl Popper,Conjectures and Refutations, p. 228.

64 Eugene Freeman and Henryk Skolimowski, «The Search for Objectivity in Peirce and Popper», in: : Paul Arthur Schilpp (editor), The Philosophy of Karl Popper, pp. 514-515.

65 Karl Popper, Replies to My Critics, in: Paul Arthur Schilpp (editor), The Philosophy of Karl Popper, p. 1072.

66 Ibid., p. 1065.

67 Karl Popper, The Open Society and Its Enemies, vol. 2, p. 396.

68 Karl Popper, Autobiography of Karl Popper, p. 26.

69 Karl Popper,Conjectures and Refutations, p. 355.

70 Karl Popper,The Myth of the Framework, p. 69.

71 Ibid., p. 34.

72 Karl Popper, The Open Society and Its Enemies, vol. 2, p. 258.

73 Ibid., pp. 231-232.

74 Ibid., vol. 1, pp. 61-63.

75 Ibid., vol. 2, p. 232.

76 Ibid., p. 240.

77 Referências a esta afirmação como atitude básica do racionalismo crítico podem ser encontradas em: The Open Society and Its Enemies, vol. 2, pp. 238 and 240.

78 Ibid., pp. 237-240.

79 Ibid., vol. 1, p. 185.

80 Karl Popper, Conjectures and Refutations, p. 357.

81 Karl Popper, Alles Leben ist Problemlösen, p. 123.

82 Karl Popper, The Myth of the Framework, pp. xii-xiii.

83 Karl Popper, The Open Society and Its Enemies, vol. 2, p. 369.

84 Ver: William W. Barley, III, «Theories of Demarcation between Science and Metaphysics», in: Imre Lakatos and Alan Musgrave (editors), Problems in the Philosophy of Science (Amsterdam: North-Holland, 1968), pp. 40-64; Popper’s reply: Karl Popper, «Remarks on the Problems of Demarcation and of Rationality», ibid., pp. 88-102; and Bartley’s reply to Popper: ibid., pp. 113-119.

85 Ver os sete artigos, dedicados a este assunto, que estão reunidos na parte II («Theory of Rationality and Problems of Self Reference») of: Gerard Radnitzky and William W. Bartley, III (editors), Evolutionary Epistemology, Rationality, and the Sociology of Knowledge. O primeiro e o último foram escritos por William W. Bartley: «Theories of Rationality», pp. 205-214, e «A Refutation of the Alleged Refutation of Comprehensively Critical Rationalism», pp. 313-341.

86 Karl Popper, The Open Society and Its Enemies, vol. 2, pp. 230-231.

87 Karl Popper, Realism and the Aim of Science, from the Postcript to the Logic of Scientific Discovery, editado por William W. Bartley, III (London: Hutchinson, 1983), vol. I, pp. 18-22. Essas palavras pertencem à Introdução, secção 2, intitulada «The Critical Approach: Solution of the Problem of Induction», a qual tem o motto: «I do not believe in Belief» (E. M. Forster). Na página 18 nota 1, Popper refere duas publicações de Barley, Bartley juntou uma terceira referência, e Popper diz: «A presente secção foi parcialmente reescrita em 1979».

88 Karl Popper, Realism and the Aim of Science, pp. 21-22.

89 Karl Popper,The Myth of the Framework, p. xii.

90 Ibid.

91 A proposta de John Watkins está contida no seu artigo«The Unity of Popper’s Thought», in: Paul Arthur Schilpp (editor), The Philosophy of Karl Popper, pp. 371-412.

92 Josep Corcó vê o “surgimento” e a criatividade como a chave unificadora do pensamento de Popper em seu livro: Novedades en el universo. La cosmovisión emergentista de Karl R. Popper (Pamplona: Eunsa, 1995). Um apontamento nesta linha pode ser encontrado em: J. Dumoncel, «L’anti-reductionisme poppérien face aux tendances dominantes de la philosophie analytique», in: Renée Bouveresse and Hervé Barreau, Karl Popper. Science et philosophie (Paris: Vrin, 1991), pp. 109-112; e também em: William W. Bartley, III, «The Philosophy of Karl Popper», parte II: «Consciousness and Physics: Quantum Mechanics, Probability, Indeterminism, and the Mind-Body Problem», Philosophia (Israel), 7 (1978), p. 676.

93 Karl Popper, «Watkins on Indeterminism as the Central Problem of My Philosophy», in: Replies to My Critics, p. 1053.

94 Karl Popper, “Realism and the Aim of Science”, pp. 80-88.

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O marxismo é uma religião irreformável

holodomor
A adaptação da realidade à ideologia é apenas um dos aspetos religiosos do marxismo.

É sabido que dos dois regimes totalitários do século XX, o estalinismo é o que está menos documentado. Estaline não só foi um criminoso sem escrúpulos, como procurou a todo o custo deturpar a História. Apesar disto, há factos que inúmeros testemunhos resgataram das trevas e nos permitem, cruzados com outras fontes de informação, ir conhecendo melhor, a cada dia, esse período tenebroso dos tempos soviéticos. Não é objetivo deste curto artigo apresentar bibliografia sobre o tema, até porque qualquer interessado pode encontrar imensa documentação numa simples pesquisa na internet. E, fora da rede (é sempre aconselhável não ficar “enredado”), todos os anos são publicados inúmeros livros e artigos sobre o assunto. É sabido, por exemplo, que graças à desastrosa política agrícola de Estaline morreram, vítimas da fome, milhões de pessoas. Na Ucrânia, uma das repúblicas mais afetadas, esse morticínio ficou conhecido por “Holodomor” (que etimologicamente quer dizer, precisamente, “morte pela fome”). Podem ver aqui um interessante documentário sobre esse massacre do início dos anos 30 do século passado.

Mas o que nos interessa neste artigo não é documentar Holodomor ou o estalinismo. O que nos propomos é evidenciar o caráter religioso do marxismo, algo que pode parecer surpreendente, mas que está identificado e estudado por vários historiadores e sociólogos, entre outros1. Mais: ao contrário de outras religiões, o marxismo é irreformável, pois alimenta-se de um radicalismo que, além de constituir uma das suas principais características, faz parte da sua identidade. Se hoje é praticamente impensável assistirmos a uma alta figura da Igreja negar, por exemplo, a Inquisição (vimos recentemente o Papa pedir desculpa pelas atrocidades cometidas pela Igreja Católica), o mesmo não se pode dizer de um marxista, como ficou patente, na presente semana, pela declaração no Parlamento de António Filipe, negando que o Holomor tenha existido (aqui). Tudo não terá passado de uma invenção da “extrema-direita ucrâniana” e “uma grosseira violação da verdade histórica”. Esta projeção típica dos marxistas, advém, precisamente, da sua atitude irracional e religiosa: reescrever a história, deturpá-la, negá-la, apagá-la nos aspetos que podem, na sua perspetiva, manchar a doutrina (na verdade, o dogma) marxista. Muitos se lembrarão ainda do que disse Bernardino Soares, outro membro do PCP, relativamente à Coreia do Norte: “Tenho dúvidas de que não haja lá uma democracia”.

Voltando à questão de Holodomor, vejamos o que acrescenta o ilustre deputado António Filipe. Segundo ele, as causas da fome na União Soviética e, particularmente, na Ucrânia, deveram-se “aos efeitos devastadores da crise económica mundial de 1929”, às “condições climatéricas extremamente adversas” e também a “conflitos gerados em torno das alterações verificadas na estrutura  da organização da propriedade fundiária” (bela frase!). É verdade que, embora existam provas a favor da tese de genocídio, não há um consenso absoluto entre os historiadores sobre esta matéria (há muita discussão em torno do conceito jurídico de “genocídio”); mas, apesar disso, ninguém minimamente honesto ousa negar a responsabilidade direta de Estaline na fome que atingiu não apenas a Ucrânia mas também o Cazaquistão, o Norte do Cáucaso e algumas regiões do Volga, entre outras. Essa fome foi o resultado da coletivização agrícola forçada (apropriação das terras por parte do Estado) e da perseguição (expropriação, deportação e assassinato) aos camponeses.

Poderemos ver através de uma busca rápida na internet um sem-número de blogues, sítios, portais, etc. onde se nega a responsabilidade de Moscovo sobre esses milhões de mortos. (Esta negação dos crimes de Estaline por parte dos marxistas mostra a ligação entre ambos, apesar dos esforços que muitos desenvolvem — como é o caso da historiadora Raquel Varela — para separá-los). Não admira. Outra vertente religiosa dos marxismos (sim, há muitos, mas os elementos apontados neste artigo são comuns a todos) é a propaganda e, associado a esta, o proselitismo. Procura-se por todos os meios arregimentar forças, deturpando a realidade se for preciso. Os marxistas não andam de porta-em-porta como as testemunhas de Jeová ou os mórmons, mas tal como eles têm uma “cassete”, sempre pronta a ser usada em comícios, manifestações, tempos de antena, etc. Qualquer discordância será sempre vista como sintoma de ignorância ou perversidade, pois a doutrina é a verdade e a salvação. Enquanto um homem livre estará disposto a aceitar ideias diferentes e, inclusive, estará disposto, se a tal o convencerem com argumentos, a alterar as que defende, o marxista jamais mudará as suas. Tal como os profetas, a missão dos marxistas é mostrar que existe um paraíso (a sociedade sem classes), e angariar para a sua causa o maior número possível de discípulos.

Mas o caráter religioso do marxismo não se revela apenas pelo negacionismo histórico e pelo proselitismo, longe disso. Um outro elemento, relacionado com estes, é a completa rejeição de responsabilidades, sempre que algo corre mal. Tal como em muitas religiões (veja-se o que acontece hoje com o islamismo radical), a culpa é dos infiéis, dos não-crentes (no caso do marxismo, os não-crentes são os “capitalistas”, a “direita”, a “burguesia”, o “grande capital”, o “imperialismo” e outras abstrações do género), ou seja, é sempre o inimigo quem é responsável pelos males do mundo e pelo insucesso das tentativas de erradicá-los. Ou então é porque a verdadeira doutrina não foi aplicada, houve um desvio, um percalço, um erro humano, porque o marxismo, esse, é certo e científico. O insucesso, quando não pode ser negado, transforma-se num castigo que resulta do desvio à doutrina, por não terem sido cumpridos os preceitos da ortodoxia, tal como alguém que, desviando-se dos ensinamentos dos evangelhos, sofre as inevitáveis consequências da heresia que cometeu.

Há ainda um outro elemento que já foi tratado por nós noutros artigos: a ideia de degenerescência. O mundo capitalista piora sempre. Será salvo apenas quando vivermos numa sociedade comunista, para a qual não há qualquer alternativa válida. (Tal como os judeus esperam o Messias, a humanidade espera o advento do comunismo: não se sabe quando virá, mas é certo e inevitável que virá um dia). As consequências disto são que: a) uma vez que o advento do comunismo é inevitável, não importa que tenha sido derrotado algumas vezes e que venha a sê-lo ainda algumas mais, pois, no final, ele vencerá; e b) o mundo capitalista piora a cada dia, mas isto não é apenas uma constatação, é também um desejo, pois só a destruição do capitalismo (seja de que maneira for: por implosão ou por revolução) permitirá  o regresso à pureza do comunismo, quando não existia propriedade privada, nem comércio, nem dinheiro, nem mais valia. Esta atitude do “quanto pior, melhor” já teve várias consequências trágicas. O exemplo mais conhecido foi o que se passou com a ascensão do nazismo: os marxistas não se lhe opuseram porque pensavam, precisamente, que quanto pior a Alemanha ficasse, tanto melhor para eles e para as suas hipóteses de implantarem o regime comunista. O resultado foi trágico, como se sabe.

O moralismo ideológico (confundindo ideologia com ética) é mais um dos elementos do marxismo. Consubstancia-se no ataque ao caráter dos adversários, e não numa crítica às suas ideias. (Quem estiver interessado em ler um artigo sobre o maior moralista português — José Saramago — pode fazê-lo aqui). Os capitalistas são maus porque são egoístas, exploram os trabalhadores, só pensam no lucro e não hesitam em subjugar outros povos. E não existe nenhuma gradação de capitalismo, não há capitalismo melhor ou pior, qualquer forma é igualmente malévola. Esta visão maniqueísta da sociedade é, evidentemente, outro dos elementos religiosos do marxismo: há os crentes e os hereges; nós e os outros; os bons e os maus. Claro que este radicalismo conduz facilmente ao ódio sobre os adversários — um ódio quantas vezes mascarado de amor (ver, por exemplo, o nosso artigo sobre Zizek aqui), pois baseia-se, assim creem os marxistas, na visão científica de um paraíso na terra. O “amor”, a palavra mais sedutora de qualquer vocabulário, serve frequentemente para camuflar embustes monumentais.

Já quando aplicado aos próprios marxistas, o moralismo transforma-se — deixa de ser maniqueísta e passa a ser relativo. Se, por exemplo, devido a uma ação revolucionária, há alguém inocente que morre, isso é considerado um dano colateral não condenável, porque a intenção era boa, plena de amor, e isso é que é importante. Eis o que disse Arthur Koestler, um judeu comunista, nascido na Hungria e naturalizado britânico, que, apesar de romper com o estalinismo, manteve esse sentimento nostálgico, e simultaneamente desastroso, de que as intenções são mais importantes que os resultados:

Nos anos 30, a conversão à fé comunista (…) foi a expressão sincera e espontânea de um otimismo nascido do desespero (…). Deixar-se atrair pela nova fé, penso-o ainda, foi um erro louvável. Estávamos enganados pelas boas razões; e continuo a acreditar que, apenas com algumas exceções (…) aqueles que, desde o início, denegriram a revolução russa o fizeram por motivos menos louváveis do que o nosso erro. Existe um mundo entre o amoroso desencantado e os seres incapazes de amar.

Ou seja: aqueles que não embarcaram na aventura comunista, que não sujaram as mãos com o sangue do povo inocente (e podem até ter estado entre o povo vítima do desvario comunista), eram incapazes de amar. E (só) os que amam podem ser desculpados do ódio porque esse ódio, afinal, brota do amor. Eis a posição (tipicamente hegeliana) de um marxista nostálgico (imagine-se, a partir dela, como será a de um marxista sonhador!)… Como se pode constatar, o marxismo tem muito mais de religião (aquilo que não quer ser, mas é) do que de ciência (aquilo que pretende ser, mas não é).

Uma teoria científica pode (e deve) ser testada, pois é confrontável com a realidade. Como disse Einstein, o espaço é o que se mede com uma régua, e o tempo é o que se mede com um relógio. Ora, o instrumento mais adequado para medir teorias sociais, a prazo, é a História. Mas quando os resultados da História não são agradáveis, os marxistas não reagem como cientistas (aceitando-os) mas como crentes (negando-os, deturpando-os ou desculpabilizando-os). É a aspiração científica que torna, ao contrário de outras, a religião marxista irreformável.

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Adenda:

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) foi criado em 1990 por dois economistas insuspeitos, preocupados com a pobreza e a injustiça social – Amartya Sen e Mahbud ul Haq. A partir de 1993, o IDH vem sendo usado pelo PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento para elaboração do seu relatório anual. Em 2015 (último relatório divulgado – aqui), os dez países onde o IDH foi mais elevado foram os seguintes: 1º Noruega; 2º Austrália; 3º Suiça; 4º Dinamarca; 5º Holanda; 6º Alemanha; 7º Irlanda; 8º Estados Unidos; 9º Canadá; 10º Nova Zelândia. Destes dez países, o único que tem no seu parlamento deputados de um partido marxista é a Irlanda (3 dos 218 lugares das duas câmaras do país, ou seja, 1,4%); os restantes nove países não têm quaisquer deputados ou senadores marxistas nos seus parlamentos. Entre câmaras altas, baixas e únicas, estamos a falar de um universo de 2.991 representantes. Destes, apenas três são de um partido de inspiração marxista (formado em 1996 por Joe Higgins, que é ainda o seu líder – o Partido Socialista da Irlanda). Ou seja: os marxistas têm 0,1% de representatividade parlamentar no universo dos 10 países socialmente mais desenvolvidos do mundo. Ao que parece, há aqui uma tendência que podemos, talvez, resumir desta maneira: quanto mais desenvolvido é um país, menor é a representação marxista no seu parlamento.

Finalmente, sabemos que estes dados, e sobretudo a tendência que evidenciam, não impressionarão os brilhantes intelectuais da Esquerda extremista (que, como vimos, os deturparão, dissimularão ou desvalorizarão). Ainda assim, são reais.

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Notas:

1 Deixamos apenas duas citações ilustrativas da nossa afirmação.

1ª- “o comunismo, ao contrário do que sucede com os socialistas, apresenta-se como uma filosofia que é na realidade uma fé; e fé com dois aspectos: um para a acção imediata do revolucionário, o outro para sustentar uma futura sociedade. O único ponto fraco desta fé é o seguinte: é uma fé na vida em si, ou melhor, nos aspectos temporais e espaciais da vida, no que, por exemplo, vai em contradição com a própria ciência de que se socorre para os aproveitamentos técnicos, a qual, como se sabe, é cada vez menos temporal e menos espacial. Além de tudo nunca filosofia alguma foi mais frágil e, para falarmos francamente, mais absurda que a materialista em que os comunistas se apoiam. Mas é simples, compreensível e aí pode residir um dos seus elementos de vitória. Isto é, podemos ter de um momento para o outro uma sociedade comunista, economicamente certa, na medida em que for socialista, e não, como agora, um capitalismo de Estado, mas filosoficamente errada; e, para a Humanidade, o que está filosoficamente errado está vitalmente errado; quer dizer: condenado à morte” (Agostinho da Silva, “Textos e Ensaios Filosóficos II”, Âncora Editora, Lisboa, 1999, p. 91).

2ª- “Parece que Engels estava preparado para tolerar a intolerância e ortodoxia dos marxistas. No seu Prefácio à primeira tradução inglesa do Capital escreve (cf. Cap., 886) que esse livro “é muitas vezes chamado, no Continente, a Bíblia da classe trabalhadora”. E em vez de protestar contra um qualificativo que converte o socialismo “científico” numa religião, Engels vai demonstrar, nos seus comentários, que o Capital merece esse título, porquanto “as conclusões a que se chega nessa obra, estão cada vez mais a converter-se nos princípios fundamentais do grande movimento das classes trabalhadoras” em todo o mundo. A partir daqui basta um passo para a perseguição aos herejes e a excomunhão dos que conservarem o espírito crítico, isto é, científico. O mesmo espírito que um dia inspirou Engels, assim como Marx”. (Karl Popper, “A Sociedade Aberta e seus Inimigos”, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1993, p. 316).

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ilustração retirada de: Euromaidan Press.

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Ciência e Pseudo-Ciência – o Critério de Demarcação de Popper

I

Quando recebi a lista de participantes neste curso e me dei conta de que havia sido convidado para falar perante colegas filósofos, pensei, após alguma hesitação e consulta, que preferiríeis, provavelmente, ouvir-me discorrer acerca daqueles problemas que me despertam maior interesse, e com cujos desenvolvimentos estou mais familiarizado. Decidi, por conseguinte, fazer o que nunca antes fizera: oferecer-vos um relatório do meu próprio trabalho na área da Filosofia da Ciência desde o Outono de 1919, data em que comecei a debater-me com o problema de “Quando é que uma teoria deve ser classificada como científica”, ou, “Existe algum critério que determine o caráter ou estatuto científico de uma teoria?”

O problema que na altura me preocupava não era “Quando é que uma teoria é verdadeira”, ou “Quando é que uma teoria é aceitável?” O meu problema era diferente. Queria distinguir entre Ciência e pseudo-ciência, sabendo muito bem que a Ciência muitas vezes se engana, e que a pseudo-ciência pode tropeçar acidentalmente na verdade.

Eu conhecia, como é óbvio, a resposta mais generalizadamente aceite para o meu problema: que a Ciência se distingue da pseudo-ciência – ou da “metafísica” – pelo seu método empírico, que é essencialmente indutivo, procedendo da observação ou da experiência. Mas isso não me satisfazia. Pelo contrário, formulei muitas vezes o meu problema em termos de distinção entre um método genuinamente empírico e um método não-empírico ou mesmo pseudo-empírico – ou seja, um método que, apelando embora para a observação e a experiência, não atinge, todavia, critérios científicos. Este último método pode ser exemplificado pela astrologia, com a sua prodigiosa quantidade de dados empíricos baseados na observação – em horóscopos e em biografias.

Mas, dado que não foi o exemplo da astrologia que me conduziu ao meu problema, deveria, talvez, descrever sumariamente a atmosfera em que ele emergiu e os exemplos pelos quais foi estimulado. Após o colapso do império austríaco, tinha ocorrido uma revolução na Áustria: o ar estava carregado de slogans e ideias revolucionárias, e de novas e frequentemente extravagantes teorias. De entre as teorias que despertavam o meu interesse, a Teoria da Relatividade de Einstein era, de longe, e sem dúvida, a mais importante. Três outras eram a Teoria da História de Marx, a Psicanálise de Freud e a chamada “Psicologia Individual” de Alfred Adler.

Corriam grandes disparates acerca destas teorias e, em especial, acerca da Teoria da Relatividade (como ainda hoje acontece) mas eu tive sorte com aqueles que me iniciaram no seu estudo. Todos nós – o pequeno círculo de estudantes a que eu pertencia – estávamos empolgados com o resultado das observações de eclipses de Eddington, observações essas que, em 1919, proporcionaram a primeira e significativa confirmação da teoria da gravidade de Einstein. Foi uma grande experiência para nós, e uma experiência que viria a exercer uma influência duradoura no meu desenvolvimento intelectual.

As outras três teorias que mencionei eram também amplamente discutidas entre os estudantes dessa época. Eu próprio tive ocasião de entrar pessoalmente em contacto com Alfred Adler, e até mesmo de cooperar no seu trabalho social com as crianças e jovens dos bairros operários de Viena, onde ele havia fundado clínicas de assistência social.

Foi durante o Verão de 1919 que comecei a sentir uma crescente insatisfação relativamente a estas três teorias: a Teoria Marxista da História, a Psicanálise e a Psicologia Individual. E comecei a ter dúvidas em relação às suas pretensões a um estatuto científico. O meu problema, de início, talvez se pudesse formular nestes simples termos: “O que há de errado no Marxismo, na Psicanálise e na Psicologia Individual? Por que é que são tão diferentes da Teoria de Newton e, em especial, da Teoria da Relatividade?”

Para tornar este contraste nítido devo explicar que, na altura, poucos de nós teriam dito que acreditávamos na verdade da teoria da gravitação de Einstein. Por aqui se vê que não era o facto de duvidar da verdade dessas outras três teorias que me incomodava, mas sim algo diferente. Nem era, tão-pouco, que eu simplesmente considerasse a física matemática mais exata do que as teorias do tipo sociológico ou psicológico. O que, por conseguinte, me preocupava, não era o problema da verdade, pelo menos nessa fase, nem o problema da exatidão ou mensurabilidade. Era antes o facto de eu sentir que essas outras três teorias, dando-se embora ares científicos, tinham, na realidade, mais em comum com os mitos primitivos do que com a Ciência – de sentir que se pareciam mais com a Astrologia do que com a Astronomia.

Descobri que alguns desses meus amigos, que eram admiradores de Marx, de Freud e de Adler, estavam impressionados por um certo número de pontos em comum destas teorias e, em especial, pelo seu aparente poder explicativo. Com efeito, estas teorias pareciam capazes de explicar praticamente tudo o que sucedia nos domínios a que se referiam. O estudo de qualquer uma delas parecia exercer o efeito de uma revelação ou conversão intelectual, abrindo os nossos olhos para uma verdade nova, oculta dos ainda não-iniciados. E, uma vez assim abertos os nossos olhos, víamos exemplos confirmativos em toda a parte: o mundo estava cheio de verificações da teoria. O que quer que acontecesse confirmava-a sempre. Desta maneira, a sua verdade parecia manifesta. E os descrentes eram, evidentemente, pessoas que não queriam ver a verdade manifesta; que se recusavam a vê-la, fosse porque essa verdade era contra os seus interesses de classe, ou por causa das suas repressões, que estavam ainda por “psicanalizar” e a berrar por tratamento.

O elemento mais característico desta situação parecia-me ser o incessante caudal de confirmações, de observações que “verificavam” as teorias em questão. E esta ponto era constantemente salientado pelos seus partidários. Um marxista não podia abrir um jornal sem descobrir, em cada página, provas confirmativas da sua interpretação da História. Não apenas nas notícias, mas também na sua apresentação – que revelava a tendência de classe do jornal – e sobretudo, como é óbvio, naquilo que o jornal não dizia. Os psicanalistas freudianos enfatizavam que as teorias eram constantemente confirmadas pelas suas “observações clínicas”. No que diz respeito a Adler, fiquei muito surpreendido com uma experiência pessoal. Uma vez, em 1919, relatei-lhe um caso que, a mim, não se me afigurava particularmente adleriano, mas que ele não teve, no entanto, dificuldade em analisar à luz da sua teoria de sentimentos de inferioridade, apesar de não ter, sequer, visto a criança em questão. Ligeiramente chocado, perguntei-lhe como é que podia ter tanta certeza. “Por causa da minha experiência de mil casos semelhantes”, foi a resposta – perante a qual não pude deixar de comentar: “E com este novo caso, suponho, esse número já deve ter aumentado para mil e um”.

Aquilo que eu estava a pensar era que as observações que ele anteriormente fizera podiam não ter sido muito mais consistentes do que esta; que cada uma delas teria sido, por sua vez, interpretada à luz de “experiência prévia” e simultaneamente contabilizada como confirmação adicional. E confirmação de quê?, perguntei a mim próprio. Unicamente de que um caso podia ser interpretado à luz de uma teoria. Mas isso, refleti eu, significava muito pouco, uma vez que qualquer caso concebível podia ser interpretado à luz da teoria de Adler, ou também da de Freud. Posso ilustrar este ponto com dois exemplos muito diferentes de comportamento humano: o exemplo de um homem que empurra uma criança para a água com a intenção de a afogar; e o exemplo de um homem que sacrifica a sua vida numa tentativa de salvar a criança. Qualquer um destes dois casos pode ser explicado, com idêntica facilidade, em termos freudianos e em termos adlerianos. De acordo com Freud, o primeiro homem sofreria de repressão (digamos de uma componente do seu complexo de Édipo), enquanto o segundo teria atingido a sublimação. De acordo com Adler, o primeiro homem sofria de sentimentos de inferioridade (que teriam produzido, talvez, a necessidade de provar perante si próprio que tinha coragem de cometer um crime); e o mesmo se passaria com o segundo homem (cuja necessidade seria a de provar a si próprio que tinha coragem para salvar a criança). Não me consegui lembrar de nenhum comportamento humano que não pudesse ser interpretado nos termos de qualquer uma destas teorias. E era precisamente esse facto – o facto de se adequarem sempre, de serem sempre confirmadas – que constituía, aos olhos dos que as admiravam, o ponto mais forte a seu favor. Mas que em mim começou a despertar a ideia de que essa aparente força era, na realidade, a sua fraqueza.

No que respeita à teoria de Einstein, a situação era notavelmente diferente. Tomemos um exemplo típico: a previsão de Einstein, logo a seguir confirmada pelos achados da expedição de Eddington. A teoria gravitacional de Einstein havia conduzido à conclusão de que a luz devia ser atraída pelos corpos pesados (como o Sol), precisamente do mesmo modo que os corpos materiais. Em consequência, podia ser calculado que a luz de uma estrela fixa distante, cuja aparente posição era próxima do Sol, alcançaria a Terra vinda de uma direção tal, que essa estrela pareceria estar levemente desviada do Sol. Ou, por outras palavras, que as estrelas próximas do Sol pareceriam ter-se afastado um pouco dele e umas em relação às outras. Este é um fenómeno que não pode, normalmente, ser observado, na medida em que o brilho ofuscante do Sol torna as estrelas invisíveis durante o dia. Mas durante um eclipse é possível fotografá-las. Se a mesma constelação for fotografada de noite, podemos medir as distâncias nas duas fotografias e verificar o efeito previsto.

Ora o aspeto impressionante deste caso é o risco envolvido numa previsão deste tipo. Se a observação demonstrar que o efeito previsto está definitivamente ausente, então a teoria será simplesmente refutada. A teoria será incompatível com determinados resultados possíveis da observação – de facto, com resultados que toda a gente antes de Einstein teria esperado1. Isto é bastante diferente da situação que anteriormente descrevi, quando as teorias em questão se revelaram compatíveis com os mais diferentes comportamentos humanos, de modo que se tornava praticamente impossível descrever qualquer tipo de comportamento que não pudesse ser invocado como alegada comprovação dessas teorias. Estas considerações conduziram-me, no inverno de 1919-20, a conclusões que posso agora reformular da seguinte maneira:

1- É fácil obter confirmações ou verificações para quase todas as teorias – desde que procuremos confirmações.

2- As confirmações só deverão ser tidas em conta se forem o resultado de previsões arriscadas, ou seja, se, não esclarecidos pela teoria em questão, tivermos esperado um acontecimento incompatível com a teoria – um acontecimento que teria refutado essa teoria.

3- Toda a “boa” teoria científica é uma interdição: proíbe que determinadas coisas aconteçam. Quanto mais a teoria proibir, melhor será.

4- Uma teoria que não seja refutável por nenhum acontecimento concebível será uma teoria não-científica. A irrefutabilidade não é uma virtude da teoria (como as pessoas muitas vezes julgam), mas sim um defeito.

5- Todo o teste genuíno de uma teoria constitui uma tentativa de a falsificar ou refutar. Testabilidade equivale a falsificabilidade. Mas há graus de testabilidade: algumas teorias são mais suscetíveis de ser testadas, estão mais expostas à refutação do que outras; assumem, por assim dizer, maiores riscos.

6- As provas confirmativas não devem ser tidas em conta, exceto quando são resultado de um teste genuíno da teoria; e isso significa que podem ser apresentadas como uma séria, ainda que malograda, tentativa de falsificar essa teoria (costumo falar agora, nestes casos, em “provas corroborantes”).

7- Algumas teorias genuinamente testáveis, mesmo depois de se ter concluído pela sua falsidade, são ainda sustentadas pelos seus adeptos – mediante a introdução ad hoc de uma hipótese auxiliar, por exemplo, por via de uma reinterpretação ad hoc da teoria, feita de um modo que escape à refutação. Ainda que um procedimento deste tipo seja sempre possível, a teoria só é salva da refutação à custa da destruição ou, pelo menos, do rebaixamento do seu estatuto científico. (Descrevi mais tarde esta operação de salvamento como uma “distorção convencionalista” ou um “estratagema convencionalista”.

Poderíamos resumir tudo isto dizendo que “o critério do estatuto científico de uma teoria é a sua falsificabilidade, ou refutabilidade, ou testabilidade“.

II

Talvez possa exemplificar o que acaba de ser dito com a ajuda das várias teorias até agora mencionadas. A teoria da gravitação de Einstein satisfazia claramente o critério da falsificabilidade. Mesmo se, na época, os nossos instrumentos de medição não permitiam que nos pronunciássemos com inteira segurança sobre os resultados dos testes, havia uma clara possibilidade de refutar a teoria.

A astrologia não passou no teste. Os astrólogos foram muito influenciados e iludidos pelo que acreditavam serem provas confirmativas – tão influenciados que não se deixavam abalar por quaisquer provas de sinal contrário. Além disso, formulando as suas interpretações e profecias de um modo suficientemente vago, tornavam-se capazes de apresentar uma explicação satisfatória para tudo quanto poderia ter constituído uma refutação da teoria, caso esta e as profecias tivessem sido enunciadas de uma forma mais precisa. Para se furtarem à falsificação, destruíram, assim, a testabilidade da sua teoria. Esta é, aliás, uma artimanha típica dos videntes: o fazer previsões tão vagas que dificilmente podem falhar – tornando-se, por conseguinte, irrefutáveis.

A teoria marxista da História, a despeito dos sérios esforços de alguns dos seus fundadores e partidários, acabou por adotar esta prática divinatória. Nalgumas das suas primeiras formulações (por exemplo, na análise que Marx faz do caráter da “revolução social vindoura”), as suas previsões eram testáveis e foram, de facto, falsificadas2. Todavia, em vez de aceitar as refutações, os partidários de Marx reinterpretaram a teoria e a evidência dos factos no sentido de as pôr de acordo. Desta forma, salvaram a teoria da refutação. Mas fizeram-no graças à adoção de um expediente que a tornou irrefutável. Submeteram, deste modo, a teoria a uma “distorção convencionalista” e, com esse estratagema, invalidaram a sua muito proclamada reivindicação de um estatuto científico.

As duas teorias psicanalíticas estavam noutra categoria. Eram simplesmente não-testáveis, irrefutáveis. Não havia nenhum comportamento humano imaginável que as pudesse contradizer. Não pretendo com isto significar que Freud e Adler não tivessem razão em determinadas coisas. Pessoalmente, não duvido de que muito do que disseram se reveste de uma importância considerável, e poderá bem vir a ter, um dia, o seu papel numa ciência psicológica passível de ser testada. Mas isto significa, de facto, que aquelas “observações clínicas” que os psicanalistas ingenuamente acreditam confirmar a sua teoria não estão em melhor posição para o fazer do que as comprovações diárias que os astrólogos encontram na sua prática3. E no que se refere à epopeia freudiana do Ego, do Super-Ego e do Id, não haverá muito mais razões para lhe conferir um estatuto científico do que haveria em relação à colectânea homérica de histórias do Olimpo. Estas teorias descrevem alguns factos, mas sob a forma de mitos. Contêm sugestões muito interessantes em matéria psicológica, mas que não são suscetíveis de ser testadas.

Ao mesmo tempo, apercebi-me de que esses mitos podiam ser desenvolvidos e tornar-se testáveis; que, historicamente falando, todas – ou quase todas – as teorias científicas têm origem em mitos, e que um mito pode conter importantes antecipações de teorias científicas. Exemplos disso serão a teoria da evolução por ensaio e erro de Empédocles, ou o mito de Parménides do Universo-bloco imutável, no qual nada acontece nunca, e que, se lhe acrescentarmos uma outra dimensão, se transforma no Universo-bloco de Einstein (no qual, de igual modo, nunca nada acontece, na medida em que tudo está, sob um ponto de vista tetradimensional, determinado e estabelecido desde o princípio). Pareceu-me, por conseguinte, que se uma teoria fosse considerada não-científica ou “metafísica” (como poderíamos dizer), não teria por isso de ser considerada irrelevante, insignificante, “desprovida de significado” ou “sem sentido”4. Mas não poderia pretender ser apoiada por provas empíricas em sentido científico – ainda que, num sentido genético, pudesse perfeitamente ser “resultado da observação”.

(Houve numerosas outras teorias com este caráter pré-científico, ou pseudo-científico, algumas das quais, infelizmente, tão influentes quanto a interpretação marxista da História – caso, por exemplo, da interpretação racista da História, que é mais uma dessas poderosas teorias “omniexplicativas” que exercem sobre os fracos de espírito o efeito de uma revelação.) Deste modo, o problema que tentei resolver ao propor o critério de falsificabilidade não era um problema de sentido ou significado, nem um problema de verdade ou aceitabilidade. Era antes o problema de traçar uma linha (tão clara quanto possível) entre os enunciados, ou sistemas de enunciados, das ciências empíricas, e todos os outros enunciados – quer sejam de caráter religioso, metafísico, ou simplesmente pseudo-científico. Anos mais tarde – terá sido por volta de 1928 ou 1929 – chamei a este meu primeiro problema o “problema da demarcação“, na medida em que diz que os enunciados, ou sistemas de enunciados, para poderem ser considerados científicos, têm de ser capazes de se confrontar com possíveis, ou imagináveis, observações.

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Notas:

1 Esta é uma simplificação um pouco excessiva, dado que cerca de metade do efeito de Einstein pode ser derivado da teoria clássica, desde que admitamos uma teoria balística da luz.

2 Vd., por exemplo, a minha obra A Sociedade Aberta e seus Inimigos, cap. 15, secção III, e notas 13-14.

3 As “observações clínicas”, à semelhança de todas as outras observações, são interpretações à luz de teorias; e é unicamente por essa razão que conseguem dar ideia de apoiar as teorias à luz das quais foram interpretadas. Mas o apoio verdadeiro só pode ser obtido das observações que sejam efetuadas como testes (ou seja, como “tentativas de refutação”). E para isso é necessário que os critérios de refutação sejam antecipadamente estabelecidos: é preciso determinar que situações observáveis, se efetivamente observadas, ditarão a refutação da teoria. Mas que tipo de respostas clínicas poderiam constituir uma refutação satisfatória para o analista, não apenas de um determinado diagnóstico psicanalítico concreto, mas de toda a psicanálise em si? E terão tais critérios alguma vez sido objeto de discussão ou de acordo por parte dos psicanalistas? Não haverá, pelo contrário, todo um conjunto de conceitos analíticos, como o de “ambivalência” (não estou a sugerir que a ambivalência não exista), que tornaria difícil, se não impossível, chegar a um acordo sobre tais critérios? Para além do mais, em que medida tem sido investigada a questão de saber até que ponto as expectativas (conscientes ou inconscientes) e as teorias do psicanalista influenciam as “respostas clínicas” do paciente? (Para já não falar das tentativas conscientes de influenciar o paciente, propondo-lhe interpretações, etc.). Há anos, apresentei a expressão “efeito de Édipo” para descrever a influência de uma teoria, de uma expectativa, ou de uma previsão sobre o acontecimento que por ela é previsto ou descrito. Lembrar-se-ão certamente de que a cadeia causal que conduziu ao parricídio de Édipo teve início na previsão desse acontecimento pelo oráculo. Esse é um tema característico e recorrente de tais mitos, mas que não parece ter atraído o interesse dos psicanalistas, e talvez não por acaso. (O problema dos sonhos confirmativos sugeridos pelo psicanalista é discutido por Freud, por exemplo em Gesammelte Schriften, III, 1925, onde ele diz na pág. 314: “Se alguém afirmar que a maioria dos sonhos que podem ser utilizados numa psicanálise… tem origem na sugestão [do psicanalista], nenhuma objeção lhe pode ser colocada do ponto de vista da teoria analítica. Não há, porém, nada nesse facto”, acrescenta ele, surpreendentemente, “que diminua a fiabilidade das nossas conclusões”).

4 O caso da astrologia, hoje em dia uma típica pseudo-ciência, pode ilustrar este ponto. A astrologia foi atacada pelos aristotélicos e outros racionalistas, até ao tempo de Newton, pelo motivo errado – pela sua afirmação, atualmente aceite, de que os planetas tinham “influência” sobre os acontecimentos terrestres (“sublunares”). De facto, a teoria da gravidade de Newton e, em especial, a teoria lunar das marés, foi, em termos históricos, uma descendente do conhecimento astrológico. Newton, segundo parece, terá sentido bastante relutância em adotar uma teoria proveniente do mesmo saco de, por exemplo, a teoria de que as epidemias de gripe (“influenza”) se devem a uma “influência” astral. E Galileu, sem dúvida pela mesma razão, rejeitou efetivamente a teoria lunar das marés – a sua desconfiança em relação a Kepler pode ser facilmente explicada pela sua desconfiança em relação à astrologia.

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A nossa edição:

Karl Popper, Conjecturas e Refutações, Almedina, Lisboa, 2003, pp. 55-63.

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A Ilusão da Memória

Julia Shaw
A jovem psicóloga canadiana Julia Shaw.
  1. A memória é maleável. Com o passar do tempo incorpora interesses, preferências, sonhos, experiências diversas e modifica-se, podendo transformar completamente um acontecimento passado, falseando-o, quer este tenha sido (emocionalmente) marcante ou banal. Muitas das nossas memórias são falsas, mesmo aquelas (talvez sobretudo essas) que nos parecem extremamente claras.
  2. Vários estudos confirmam amplamente que a grande maioria de nós considera-se mais inteligente (ou mais culta, ou mais sábia, ou mais talentosa) que a média, algo que, logicamente, se traduz numa impossibilidade estatística, pois não pode haver uma maioria acima (ou abaixo) da média. O que realmente acontece é que quase todos somos afetados por algo muito comum: o pretensiosismo. Os mais presunçosos são também, como seria de esperar, os mais confiantes. Porém, uma maior confiança na própria memória não significa que esta seja mais exata, antes pelo contrário.
  3. A ciência é sempre preferível à pseudociência, e os cientistas são sempre mais interessantes que os charlatães (profetas, iluminados, lunáticos, etc.). Por exemplo, a hipnose é uma treta: ninguém consegue recordar coisas de quando era pequenino ou de qualquer outra fase da vida através da hipnose.
  4. Por falar em ciência e pseudociência, o sinónimo mais aproximado para “Freud” é… “fraude”.
  5. Há muitas capacidades mnemónicas espetaculares, como indivíduos capazes de memorizar uma quantidade impressionante de dados, outros extremamente dotados para recordar rostos e outros ainda com uma excelente memória fotográfica (eidética), mas isso, ao contrário do que possa parecer, não é bom. Muitos autistas, por exemplo, não conseguem relacionar-se socialmente e, no entanto, alguns deles são hipertimésicos (savants), isto é, têm uma capacidade de memória incrivelmente superior à dos indivíduos comuns.
  6. As capacidades excecionais são, portanto, muito menos importantes que o equilíbrio. A memória funciona por associação e cada conceito ou imagem ativa um nódulo cerebral, que por sua vez ativa outro e assim sucessivamente até muitos nódulos se ligarem e formarem memórias mais complexas. Pensa-se que o hipocampo (situado, sensivelmente, no meio do cérebro) seja o responsável pela formação destas redes, em tempo real; e cada vez que recordamos criamos uma nova memória diferente da anterior, sendo influenciados de múltiplas formas quer no momento em que algo acontece, quer nos momentos em que recordamos esse acontecimento.
  7. A plasticidade do nosso cérebro, a capacidade que detém para fazer associações, não permite que as memórias sejam impermeáveis, pelo contrário, elas são suscetíveis a todo o tipo de influências. Porém, é graças a essa plasticidade que também conseguimos aprender, relacionar, criar. Jamais seríamos humanos se não tivéssemos um cérebro altamente equilibrado e relacional.
  8. O saudável equilíbrio está ligado a racionalidade e a independência. Somos seres paradoxais, dotados de uma racionalidade frágil, muitas vezes eclipsada pelas emoções e pela necessidade de pertença a grupos – turmas, escolas, clubes de futebol, bairros, partidos, nações, igrejas, etc -, o que nos leva a aceitar a irracionalidade, quase sempre sem darmos conta disso. O mundo passa a dividir-se entre nós, os bons, e os nossos rivais, os maus. (Quem quiser aprofundar este tema pode procurar um excelente livro, publicado em 2008: Previsivelmente Irracional: as forças ocultas que formam as nossas decisões, do americano Dan Ariely).
  9. É por isso que muitas vezes relutamos em contrariar alguém de um determinado grupo ou quadrante – porque temos a clara noção de que seremos imediatamente catalogados como pertencentes ao grupo ou quadrante rival. Por exemplo, se criticamos uma ideia vinda da direita é porque somos um perigoso esquerdista, e vice-versa. Ser membro fervoroso de um grupo torna-nos radicais e retira-nos a capacidade de entendermos o pensamento independente, mesmo que este constitua, como de facto acontece, a única atitude racional.
  10. Finalmente, só conseguiremos aproximar-nos de um pensamento independente se formos críticos. Mais exatamente, autocríticos. Somos seres flexíveis e influenciáveis: a racionalidade absoluta não existe e a independência completa também não. Mas mantendo-nos autocríticos poderemos ter, em momentos mais ou menos importantes, uma atitude menos irracional (e menos presunçosa, também). Isto pode parecer pouco relevante, mas talvez não seja: a racionalidade é a única forma de, no mundo, alcançarmos a paz.

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Foto retirada de: http://www.vice.com

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A nossa edição:

Julia Shaw, A Ilusão da Memória ,Círculo de Leitores, 1ª edição, Lisboa, 2016.

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O Tratado Lógico-Filosófico

Wittgenstein
É provável que a popularidade de Wittgenstein se deva sobretudo à sua biografia.

As obras  de Wittgenstein aqui analisadas (Tratado Lógico-Filosófico e Investigações Filosóficas) foram editadas, num único livro pela Fundação Calouste Gulbenkian, em 1987[1], e basearam-se em edições inglesas de 1961 (Tratado Lógico-Filosófico) e 1983 (Investigações Filosóficas), embora os respetivos textos tenham sido escritos muito antes: o primeiro no decorrer da Primeira Guerra Mundial e o segundo entre 1936 e 1949. Muitos consideram que esses textos correspondem a dois períodos distintos, que apelidaram de “Primeiro Wittgenstein” e “Segundo Wittgenstein”. Isto faz jus ao que o próprio, em 1945, afirmou: “Há quatro anos tive ocasião de voltar a ler o meu primeiro livro (Tractatus Logico-Philosophicus) e de explicar as suas teses. De súbito, pareceu-me que devia publicar conjuntamente a minha velha com a minha nova maneira de pensar: que esta só podia ser verdadeiramente iluminada pelo contraste e contra o campo de fundo daquela. Desde que há 16 anos comecei de novo a ocupar-me de Filosofia, tive que reconhecer erros graves no que escrevi no meu primeiro livro”[2].

O próprio Wittgenstein reconhece, portanto, que não existe unidade na sua obra. Não devemos criticá-lo por isso, antes pelo contrário, mas algo mais estranho, paradoxal mesmo, ocorre quando ele anuncia no próprio Tractatus: “As minhas proposições são elucidativas pelo facto de que aquele que as compreende as reconhece afinal como falhas de sentido”[3]. Sim, Wittgenstein considera as proposições da Filosofia “sem sentido”, incluindo, coerentemente, as suas. Convém, aqui, esclarecer que Wittgenstein adotou a tríplice distinção feita por Bertrand Russell[4] entre enunciados verdadeiros, falsos e sem sentido ou “insignificativos”[5]. Assim, numa tentativa (levada a cabo muito antes, e com muito maior sucesso, por Kant) de demarcar o senso do contra-senso, o campo da experiência do campo da especulação, a ciência da metafísica, ele vai considerar que apenas nas ciências da natureza se pode afirmar que uma proposição é verdadeira ou falsa; a filosofia, pelo contrário, não produzirá proposições verdadeiras ou falsas, o seu trabalho “consiste essencialmente em elucidações” e no “esclarecimento de proposições”[6]. A filosofia, portanto, só produz proposições sem sentido.

O que terá levado Wittgenstein a esta conclusão? Teria ele noção de que, de acordo com a sua teoria, muitas das proposições do Tratactus teriam de ser consideradas “sem sentido”? (Ver nota 4). Tendo em conta o que transcrevemos acima sobre o que ele escreveu no Prólogo às Investigações Filosóficas, é bem possível que sim, que tivesse noção dos “erros graves” do Tratactus. Parece-nos que, nesta obra, Wittgenstein chegou à conclusão de que a melhor forma (talvez a única) de delimitar a ciência da metafísica é através da lógica da linguagem. Uma linguagem rigorosa que elimine a ambiguidade. Com isto, porém, Wittgenstein obteve um resultado inesperado e paradoxal: não conseguiu alcançar esse tipo de linguagem, mas abriu caminho (na verdade, levou-o mais além)[7] para um novo tipo de filosofia, cujo objeto se reporta à busca de uma metalinguagem – a “ciência” dos símbolos, das palavras, e de o que está por detrás delas – aquilo que Popper designou por “essencialismo”. E pouco importa que Wittgenstein tenha reconhecido, anos depois, erros na sua “teoria”[8] – o séquito manteve-se até hoje[9].

É, pois, bastante curioso que, ao pretender proteger as ciências naturais da especulação filosófica, Wittgenstein acabasse por introduzir nas mesmas uma discussão sobre a linguagem – algo a que nunca se dedicou, nem dedica, nenhum verdadeiro cientista. Os desafios da ciência não se prendem de forma nenhuma com a linguagem, mas sim com problemas reais e concretos que não dependem daquela. A discussão sobre a linguagem – a tentativa de rigorosamente definir os seus termos e delimitar as respetivas conotações – é estéril, não conduz a lado algum, a não ser a uma regressão infinita, pois é sempre possível (mais: é sempre necessário) definir os termos definidores de uma qualquer palavra que queiramos definir[10]. Além destes “erros graves”, a clareza do Tratactus – essa sim, uma característica verdadeiramente importante de qualquer linguagem – deixa muito a desejar.

Clareza que também está arredada das Investigações Filosóficas. Se, no Tractatus, Wittgenstein chega a algumas conclusões (mesmo que erradas), nas Investigações Filosóficas não chega a qualquer conclusão, limitando-se a emitir pensamentos, opiniões e observações, em doses homeopáticas, sobretudo de caráter psicológico. Esta fragmentação[11] é assumida por Wittgenstein logo no Prólogo quando diz: “Depois de diversas tentativas mal sucedidas para soldar os meus resultados num tal todo, compreendi que nunca conseguiria fazê-lo”[12]. Isto não ajuda à clareza do texto. É impossível seguir uma linha de pensamento coerente porque, pura e simplesmente, ela não existe. Wittgenstein perde-se em introspeções, como quem toma apontamento dos pensamentos que a cada dia lhe afloram ao espírito. Lamentavelmente, as suas elucubrações não conduzem a qualquer avanço conhecido, seja em que área do conhecimento for.

Não conseguimos discernir, como já dissemos, um fio condutor nas ideias expressas por Wittgenstein. Resta-nos dizer que, pelo menos, apreciamos a sua sinceridade. Talvez algum do fascínio que se nota à sua volta resida nas sinceridade e simplicidade, mesmo numa certa infantilidade, que parece ter mantido até o fim[13]. Pensamos que, de certa forma, as últimas palavras que Wittgenstein usou no Prólogo às Investigações Filosóficas ilustram bem essa característica sincera e quase inocente da sua personalidade: “É com sentimentos duvidosos que trago a público as minhas observações. Não é impossível que seja o destino deste trabalho, na sua escassez e nas trevas desta época, lançar luz num cérebro ou noutro; mas, claro, não é provável. Gostaria de ter escrito um bom livro. Não aconteceu assim e já passou o tempo em que eu poderia melhorá-lo”[14].

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Notas:

[1] Ludwig Wittgenstein, Tratado Lógico-Filosófico e Investigações Filosóficas, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1987.

[2] Ob. cit., p. 166 (Prólogo às Investigações Filosóficas – Parte I).

[3] Ob. cit., p. 142.

[4] Russell que escreve na Introdução ao Tratactus: “As coisas que têm de ser ditas, para conduzir o leitor a compreender a teoria do senhor Wittgenstein, são todas elas coisas que a própria teoria condena como sem-sentido” (Ob. cit., p. 7). Diga-se de passagem que Wittgenstein não gostava muito da Introdução de Russell e que este não pensava em autorizar a sua republicação em 1961, permitindo-a apenas após longa insistência do editor.

[5] Um dos principais críticos desta tríplice distinção (e de Wittgenstein) é Karl Popper. Diz-nos ele: “É importante notar que o emprego dos termos “sem significado” ou “sem sentido” é, em parte, concordante com o uso comum, mas é muito mais nítido, pois muitas vezes, no uso comum, enunciados reais são classificados como “sem significado”, se, por exemplo, forem “absurdos”, isto é auto-contraditórios ou obviamente falsos. Assim, um enunciado que afirme que determinado corpo físico está ao mesmo tempo em dois lugares distintos não é um enunciado sem significado, mas um enunciado falso, ou que contradiz o emprego da palavra “corpo” na física clássica; similarmente, um enunciado asseverando que um electrão tem um lugar e um impulso precisos não é destituído de sentido – como alguns físicos asseveraram e alguns filósofos repetiram – mas simplesmente contradiz a física moderna” (in A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, Vol. II, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1993, p.286).

[6] Ob. cit., p. 62.

[7] Este caminho iniciou-se com Platão e Aristóteles, sobretudo com este último – que considerava como métodos fundamentais da obtenção de conhecimento a demonstração (ou prova) e a definição (daqui saiu a doutrina perversa  da adoração das palavras).

[8] Colocámos o termo “teoria” entre aspas porque as ideias de Wittgenstein não constituem, tanto em nossa opinião como na dele, um todo coerente.

[9] São variadíssimos os filósofos influenciados por Wittgenstein, desde Gilbert Ryle a Giorgio Agamben (ver artigo sobre ele aqui), passando por Kai Nielsen e John Searl, entre muitos, muitos outros.

[10] Popper dá-nos um exemplo concreto: “Poder-se-á dizer que o que se tem em mente, ao pedir uma definição, é a eliminação de ambiguidades tantas vezes relacionadas com palavras como “democracia”, “liberdade”, “dever”, “religião”, etc.; que é claramente impossível definir todos os termos, mas é possível definir alguns desses termos mais perigosos, e não ir além disso; e que os termos definidores têm apenas de ser aceites, isto é, que devemos deter-nos depois de avançarmos um passo ou dois, a fim de evitar uma regressão infinita. Esta defesa é, porém, indefensável. Admite-se que os termos mencionados sejam usados incorretamente. Mas nego que a tentativa de os definir possa melhorar as coisas. Só pode torná-las piores (…) De facto, visto que não poderíamos exigir que todos os termos definidores fossem por sua vez definidos, um político ou um filósofo hábil poderia facilmente satisfazer a exigência de definição. Se lhe perguntassem o que entendia por “democracia”, por exemplo, poderia dizer: “o governo da vontade geral” ou “o governo do espírito do povo”; e, como acabara de dar uma definição, satisfazendo assim os mais elevados padrões de precisão, ninguém ousaria criticá-lo mais. E, na verdade, como poderia ser criticado se a exigência de que “governo”, ou “povo” ou “vontade” ou “espírito” fossem por sua vez definidos nos colocaria no caminho e uma regressão infinita, de modo que qualquer um hesitaria em fazê-la? Mas, se apesar de tudo fosse feita, então poderia ser igualmente satisfeita sem dificuldade. Por outro lado, a questão de saber se a definição era correta, ou verdadeira, só poderia levar a uma controvérsia, fazia de sentido, sobre palavras” (in  A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, Vol. II, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1993, p. 24).

[11] Ambas as obras (quer o Tractatus, quer as Investigaçõs Filosóficas) são divididas apenas em parágrafos numerados, tal como as suras do Alcorão ou os versículos dos livros da Bíblia, sem recurso às divisões tradicionais, como sejam índice, capítulos ou secções.

[12] Ob. cit., p. 165.

[13] Fascínio que também pode ser justificado por outros aspetos da sua biografia – como a suposta homossexualidade, a participação nas duas guerras mundiais, o despojamento e a irascibilidade (manifestada, por exemplo, no episódio do atiçador, com Popper) – que não nos compete aqui desenvolver.

[14] Ob. cit., p. 167.

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A nossa edição:

Ludwig Wittgenstein, Tratado Lógico-Filosófico e Investigações Filosóficas, Fundação Calouste Gulbenkian, 1ª edição, Lisboa, 1987.

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foto retirada de http://www.bbc.co.uk

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Tornar-se Pessoa

Carl-Rogers (1)
Carl Rogers

Carl Rogers nasceu em 1902 nos Estados Unidos e dedicou toda a sua vida (que findou em 1987) à Psicologia, sendo reconhecido como o maior representante da denominada Terapia Centrada na Pessoa, uma corrente humanista que se opõe a quase todas as outras correntes psicológicas[1], sobretudo ao behaviorismo, uma vez que rejeita qualquer tipo de condicionamento, sequer algum tipo de direcionamento, oferecendo às pessoas todo o espaço para seguirem por onde quiserem.

Embora Rogers, evidentemente, tivesse sofrido algumas influências, a teoria que viria a desenvolver ao longo da sua longa carreira sustentou-se, quase exclusivamente, na experiência enquanto terapeuta[2]. De acordo com essa teoria, a Terapia Centrada na Pessoa só terá êxito se estiverem reunidas, em primeiro lugar, algumas condições relativas ao terapeuta. Este tem de ser autêntico (ou, como veremos abaixo, tem de possuir um alto grau de congruência); de aceitar-se a si mesmo; de aceitar o outro como ele é e de estar permanentemente de espírito aberto para receber opiniões diversas das dele próprio; e, finalmente, de estar disponível para a mudança que inevitavelmente ocorrerá não apenas no outro mas também nele próprio.

A atitude do terapeuta é, assim, muito mais importante que os seus conhecimentos. É essa atitude, sumariamente descrita acima – onde não existe crítica e muito menos julgamento – que vai permitir ao “paciente”[3] se encontrar consigo próprio. Este sente absoluta confiança no terapeuta e, por isso, começa aos poucos a afastar-se das atitudes (defensivas) que pensa ser as que agradam aos outros, abandonando as posições de fachada, e acaba por se aceitar como é, não como os outros gostariam que ele fosse. Nesse percurso (jamais fácil) dá-se uma libertação do eu, a pessoa vai ganhando confiança à medida que o processo avança, vai mostrando cada vez mais os seus verdadeiros sentimentos, até que finalmente se assume como o indivíduo integral que é. E assim se torna uma pessoa plena, sem necessidade de esconder seus sentimentos e mais preparada para aceitar os dos outros.

A atitude veiculada por Rogers, a sua extraordinária abertura, não se limitava à relação terapêutica, antes constituiu uma prática de vida. É bem conhecida, por exemplo, a forma como desenvolvia a sua atividade académica, particularmente a componente letiva, não conduzindo as aulas, sendo apenas mais um entre os alunos na busca livre de alguma opção comum. Há relatos extraordinários de “alunos” que jamais esqueceram os momentos que passaram com Rogers na sala de aula. Mas o ensino não era a vocação dele. O que realmente gostava de fazer era ouvir os outros, meter-se na sua pele, percorrer com eles o fantástico caminho da descoberta de um novo ser.

Rogers acreditava que a sua atitude de aceitação, de compreensão sincera, sem julgamento do outro, seria benéfica em todo e qualquer tipo de interação social. Na família, no seio das organizações laborais, nas relações internacionais. Sobretudo, colocou grande ênfase na questão da autenticidade, da congruência – conceito importantíssimo que Rogers utilizou mais tarde para incorporar “uma correspondência mais adequada entre a experiência e a consciência”[4]. O grau de congruência mede-ser precisamente por essa correspondência. Se sentimos raiva, ou medo, ou, pelo contrário, amor ou confiança é salutar que isso transpareça em nós; é sempre melhor quando os nossos sentimentos fluem, quando não temos necessidade de reprimi-los, quando o que comunicamos está de acordo com o que sentimos[5].

A partir da relação terapêutica que tão bem conhecia, da experiência que considerava tão cara, Rogers formulou uma hipótese válida para qualquer tipo de relação social, uma lei geral provisória, que descreveu da seguinte forma. Quanto maior for a congruência da experiência, da consciência e da comunicação por parte de um indivíduo, mais a relação originada implicará: uma tendência para uma comunicação recíproca caracterizada por uma crescente congruência; uma tendência para uma compreensão mútua mais adequada da comunicação; uma melhoria da adaptação psicológica e do funcionamento de ambas as partes; satisfação recíproca na relação. Inversamente, quanto maior for a incongruência comunicada da experiência e da consciência, mais as relações assim originadas envolvem: comunicações posteriores com as mesmas características; desintegração da compreensão adequada, e adaptação psicológica e funcionamento de ambas as partes menos adaptadas; insatisfação recíproca na relação[6].

Uma questão que se nos colocou após a leitura de Tornar-se Pessoa foi a de saber quem foi na realidade Carl Rogers. A sensação que fica é que um indivíduo que se dedica totalmente aos outros, que incorpora todo o tipo de sentimentos, quase não tem personalidade própria; a sua personalidade espartilha-se por todos com quem se relaciona e, por outro lado, incorpora um pouco da de todos eles. Isto é realmente assombroso. É como se a personalidade de Rogers fosse uma enorme esponja que tudo absorve, mas onde nada fica. Não será isto uma forma de despersonalização? Como é possível chegar a tal ponto? A resposta talvez esteja nas fugas que Rogers fazia para o México e as Caraíbas. Ele precisava de períodos para estar só. Gostava de pintar, fotografar e escrever. Penso que, sem estes períodos, regulares e largos, o trabalho que realizou teria sido impossível.

Em Tornar-se Pessoa, Carl Rogers cita Karl Popper e a Sociedade Aberta e Seus Inimigos deste[7]. Não admira. Ambos amavam a liberdade e ambos rejeitavam qualquer tipo de autoridade. Ambos eram sinceramente humildes. Ambos acreditavam num  mundo melhor e, evidentemente, na capacidade dos seres humanos para o construírem. Ambos foram grandes humanistas, curiosamente, nascidos no mesmo ano. Que a humanidade possa um dia retribuir, em sua memória, a confiança que nela ambos depositaram[8].

Notas:

[1] Como seria de esperar, Rogers foi duramente atacado pelos representantes dessas correntes, e não só, como, aliás, acontece com todos os grandes humanistas. 

[2] É o próprio Rogers quem nos diz: “Nenhuma ideia de qualquer outra pessoa, nem nenhuma das minhas próprias ideias, têm a autoridade que reveste a minha própria experiência. É sempre à experiência que eu retorno, para me aproximar cada vez mais da verdade, no processo de descobri-la em mim. Nem a Bíblia, nem os profetas – nem Freud, nem a investigação – nem as revelações de Deus ou dos homens – podem alcançar procedência relativamente à minha própria experiência direta.” (Carl Rogers, Tornar-se Pessoa, Padrões Culturais Editora, Lisboa, 2009, p. 47).

[3] Embora seja este o termo traduzido na edição portuguesa, citada na nota anterior, de On Becoming a Person, penso que Rogers não concordaria com o mesmo. Na edição inglesa escreve-se Person-Centered Therapy ou Client-Centered Therapy, expressões traduzidas para Terapia Centrada no Paciente. Também nós não concordamos com esta tradução. Seria mais lógica a expressão Terapia Centrada na Pessoa.

[4] Ob. cit., p. 388.

[5] “Talvez seja esclarecedor recorrer ao exemplo do que se passa com uma criança de berço. Se a criança tem uma experiência de fome a um nível fisiológico e visceral, a sua consciência manifesta-se como adaptada a essa experiência e a comunicação é igualmente congruente com a sua experiência. A criança tem fome e não está satisfeita, e isto é verdade para ela a todos os níveis. Nesse momento, ela integra-se ou unifica-se no facto de “ter fome”. Por outro lado, se está saciada e contente, também se trata de uma congruência unificada, idêntica ao nível visceral, ao nível da consciência e ao nível da comunicação”. (Ob. cit., p. 388).

[6] Ob. cit., p. 394.

[7] Rogers cita esta obra de Popper porque defende tal como este a sociedade aberta, sem condicionamentos de qualquer espécie, condicionamentos defendidos por vários de seus colegas psicólogos e ilustrado, em vertentes diferentes, nos igualmente citados livros de Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo) e George Orwell (1984).

[8] Além das semelhanças reais entre Rogers e Popper, a junção de ambos no final do artigo tem também que ver com uma conversa que mantivemos há uns anos com um amigo (na altura estudante do ISCSP), numa noite de Alfama – Ricardo Carvalho.

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A nossa edição:

Carl Rogers, Tornar-se Pessoa, Padrões Culturais Editora, 1ª edição, Lisboa, 2009.

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Foto retirada de http://www.awaken.com.

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Nozick

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Nozick, o primeiro prisioneiro da sua teoria libertária.

A obra mais conhecida e mais importante de Robert Nozick é Anarchy, State and Utopia, publicada em 1974[1]. Consta que a mesma constitui uma reação a A Theory of Justice, livro publicado três anos antes (1971) por um colega seu do departamento de Filosofia de Harvard, John Rawls. Enquanto este defende a igualdade e a justiça social, Nozick manifesta-se em defesa da liberdade individual e da propriedade privada, e declara que os direitos individuais são incompatíveis com qualquer tipo de distribuição social. Assim, “ficaram estabelecidos os fundamentos do debate entre liberais-igualitários (ou sociais-democratas), por um lado, e libertaristas (ou neoliberais), por outro”[2].

Nozick é um liberal puro, não propriamente social ou económico. A sua investigação insere-se no âmbito de uma filosofia que se baseia na lógica pura, sem ligação à experiência concreta. De acordo com João Cardoso Rosas, autor da excelente “Introdução à Edição Portuguesa” da obra aqui analisada, “Nozick foi muito influenciado pela chamada filosofia analítica, o que se traduz numa preocupação grande com a análise semântica e o rigor lógico da argumentação”[3]. Ora, esta influência está, em nossa opinião, na base de um tipo de argumentação que merece crítica. Perdendo o apoio da experiência, o pensamento enreda-se em hipóteses formais, teóricas, sem preocupações de testar a sua validade. Estamos no campo dos puros princípios.

O primeiro desses princípios é, na esteira de Locke, o da liberdade individual. Nada nem ninguém pode pôr em causa os direitos individuais. Um desses direitos é o direito à propriedade, aos haveres. Nozick designa este direito como princípio da titularidade. Qualquer estado que adote uma política distributiva violará esse principio. Como todos reconhecerão, estamos perante uma estrita visão neoliberal. Ou melhor, a filosofia de Nozick está na base das teorias neoliberais ainda hoje presentes em todo o mundo, sendo que essa base não é, fundamentalmente, de cariz económico, como o de Milton Friedman ou político, como no caso de Friedrich Hayek, mas de cariz eminentemente moral.

A intenção de Robert Nozick é boa. Do seu ponto de vista, um estado intervencionista é um estado injusto. E, em teoria, talvez o seja. Mas a realidade é diferente do mundo mental de Nozick. É bastante mais complexa, sobretudo em tempos de globalização, porque uma sociedade, seja qual for, não está isolada; há variáveis externas (sobretudo nos países mais pobres) que chocam com as experiências mentais de Nozick. Experiências que podem ser resumidas pelas palavras do próprio, no Prefácio à obra aqui analisada:

Uma forma de actividade filosófica assemelha-se ao acto de pressionar e empurrar as coisas para fazê-las encaixar no contorno fixo de uma forma específica. Todas essas coisas estão espalhadas por aí e têm de ser encaixadas. Pressionamos e empurramos o material para a área rígida, fazendo-o encaixar de um lado e saltar do outro. Voltamos e fazemos pressão na parte saliente, fazendo que o mesmo aconteça noutro ponto. Assim, pressionamos, empurramos e recortamos os cantos às coisas para que encaixem e forçamo-las até que por fim quase tudo fica mais ou menos precisamente no sítio; o que não fica é arremessado para longe para não se ver [4]

Talvez este método se ajustasse à realidade se as peças reais se encaixassem como nos jogos mentais de Nozick. Mas não. A realidade não se ajusta a pressupostos puros, é mais complexa. No afã de relevar a injustiça praticada pelos estados distributivos, Nozick ignora simplesmente uma característica fundamental da humanidade, algo que as sociedades mais evoluídas incorporaram já (irreversivelmente?) em seu seio – a solidariedade. O que fazer, no estado mínimo defendido por Nozick, aos deficientes, aos loucos, aos que não têm família, aos que não têm, por qualquer razão, capacidade para se integrarem em sociedade sem a ajuda de alguém?

Para justificar a sua teoria da titularidade, Nozick afirma que é necessário que a mesma se baseie em critérios justos; é necessário que haja justiça na aquisição, justiça na transferência e, finalmente, quando for o caso, retificação da injustiça. Mas mais uma vez, isto é muito teórico. Toda a gente sabe que a justiça é algo que se pretende alcançar , mas jamais é atingida. Não é fácil garantir a justiça quer na aquisição, quer na transferência, quer na sua reposição. É por isso que é necessária alguma intervenção do Estado. Entre o Estado máximo e o Estado mínimo estará algures o Estado ideal. Nozick peca por se posicionar num dos extremos, tomando assim uma atitude radical.

Mais uma vez, chamamos a atenção para o alerta de Popper. As ciências sociais continuam atrasadas relativamente às suas irmãs “naturais” porque ainda não adotaram o método destas. Um método que leva em conta a experiência, a qual se constitui como o único meio pelo qual as teorias podem ser testadas. Ora, sem testabilidade não há ciência. E sem experiência – já Kant há muito mostrou – não pode haver conhecimento.

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Notas:

[1] A tradução para português da edição que temos em mãos é de Vítor Guerreiro.

[2] ob. cit., p. 8.

[3] ob. cit., p. 7.

[4] ob. cit., p. 25.

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A nossa edição:

Robert Nozick, Anarquia, Estado e Utopia, Edições 70, Lisboa, 2009.

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foto retirada de http://www.partiallyexaminedlife.com

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Agamben, Zizek, Sloterdijk

Nestes últimos tempos tenho procurado atualizar-me no que respeita às novas correntes filosóficas, com leituras de Zizek (“Problemas no Paraíso”), Agamben (“A Potência do Pensamento”) e Sloterdijk (“Crítica da Razão Cínica”).

Uma desilusão. Mas não uma perda de tempo.

Aprendi que no afã de seguirem os mestres — Platão, Aristóteles, Hegel, Marx, Heidegger, Foucault — aqueles autores acabam por se transformar numa espécie de cópias degradadas destes.

Kant é citado laconicamente, na medida em que não se pode contornar o incontornável, e Popper é simplesmente silenciado — o que demonstra como é incómoda a sua epistemologia.

A Filosofia, mais do que nunca, continua sendo essa coisa acessível apenas a alguns (académicos) predestinados e não algo que possa ser compreendido pelos comuns mortais: o uso da razão não chega, é preciso ter uma intuição singular para captar a “essência” escondida por trás de tudo o que existe (e do que não existe).

E assim continuam estes alquimistas discutindo entre si, dialeticamente — forma desenvolvida pelo charlatão Hegel para defender tudo e o seu contrário — o sexo dos anjos.

Não admira, pois, que Kant e Popper sejam ignorados. Ao imporem limites ao conhecimento humano, eles transformam-se nos principais inimigos dos metafísicos profissionais.

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Giorgio Agamben

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Giorgio Agamben – a sua investigação insere-se no mais puro essencialismo.

Como costumamos dizer, não devemos seguir acriticamente algumas pessoas só porque as achamos muito inteligentes e eruditas. Referimo-nos àquelas que — talvez por considerarem ter uma intuição especial, um dom natural, uma inquebrantável convicção ou um invulgar conhecimento — não têm consciência dos seus limites.

Agamben é uma dessas pessoas. Mostra-o claramente no livro A Potência do Pensamento — uma compilação de conferências e ensaios escritos entre 1979 e 2004 — onde patenteia os seus sólidos conhecimentos linguísticos, desde o grego ao alemão, passando pelo hebraico, e o seu vasto conhecimento das filosofias de autores tão esotéricos quanto ele próprio, como são os casos de Walter Benjamin, Aby Warburg, Friedrich Hölderlin, Max Kommerell e, claro, o grande Hegel, entre muitos outros. O que estes autores têm em comum é pertencerem a uma corrente da Filosofia baseada na especulação, na intuição e no misticismo, em contraste com uma outra, que tem por base a racionalidade, a experiência e o realismo.

Mais de duzentos anos depois de Kant (completamente ignorado neste livro) ter afirmado que só podemos conhecer as coisas como elas se nos apresentam e não como são em si mesmas, os magos da Filosofia fazem tábua rasa da investigação kantiana e empenham-se com afinco em conhecer, precisamente, a essência das coisas. Agamben fá-lo usando a mesma linguagem obscura, densa e esotérica dos seus amigos alemães acima citados. O que lhes interessa são objetivos metafísicos como, por exemplo, conhecer a arquê, o absoluto, a essência, o indefinido, o puro, em última instância, Deus. Como não é possível chegar a tal conhecimento através do raciocínio lógico, Agamben recorre a “uma profunda intuição” filosófica (várias vezes apresentada no livro), evidentemente, ao alcance apenas de alguns predestinados.

Na busca desenfreada de uma metalinguagem, Agamben menoriza e deplora o papel operacional das palavras, como instrumento necessário para as socialização e cultura, idolatrando os signos, transformando-os na razão da existência humana. Qual a origem do verbo? Qual a palavra, o nome do qual derivam todos os outros e todas as línguas? Como regressar à linguagem pura? “O existente puro é o que corresponde à pura existência da linguagem, e contemplar a segunda significa contemplar o primeiro”.

São problemas desta natureza, os que ocupam Agamben. A linguagem é vista como um rio e os seus inúmeros braços são as línguas deste mundo. Mas, antes do leito caudaloso, há um fio,  uma gota inicial. O que originou essa gota? De onde vem? Isso ninguém sabe, mas também não importa. Agamben continua a filosofar como nada se tivesse passado desde o tempo de Aristóteles.

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Foto retirada de http://www.zeit.de.

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A nossa edição:

Giorgio Agamben, A Potência do Pensamento, Editora Relógio D’Água, Lisboa, 2013.

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O macaco cozinheiro

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Richard Wrangham, ilustre primatologista britânico.

É possível encontrar muitas semelhanças dentro do mundo animal, incluindo emoções, linguagem e até, em escalas diferentes, algum tipo de pensamento. Mas há algo exclusivamente humano, algo que nenhum outro animal pode fazer como nós: cozinhar. Poderíamos pensar que foram as nossas capacidades excecionais que nos levaram a usar o fogo e com ele transformarmos a comida, através do cozimento. Mas não. Foi, pelo contrário, o cozimento que nos moldou como humanos.

Há várias teorias sobre a forma como o homem pré-histórico aprendeu a gerar e guardar o fogo, não sendo possível dizer, por enquanto, qual delas é a verdadeira. O que se sabe, ou se julga saber, é que há dois milhões de anos, os australopitecinos deram lugar aos habilinos1, graças, segundo se pensa, à mudança para uma dieta que passou a incluir cada vez mais carne. Porém, a grande mudança deu-se cerca de 200 mil anos depois, há cerca de um milhão e oitocentos mil anos, quando o domínio do fogo e o cozimento dos alimentos fizeram com que o cérebro dos habilinos crescesse significativamente, até alcançar os 950 cm3 do homo erectus. O desenvolvimento das técnicas de cozimento continuaram a melhorar a dieta até chegarmos ao homo heidelbergensis, há 800 mil anos, com os seus substanciais 1.200 cm3 de volume cerebral, e finalmente ao homo sapiens, há cerca de 200 mil anos, com um cérebro de 1.400 cm3, uma capacidade próxima da atual.

O cérebro é, na verdade, um grande consumidor de energia, ele nunca pára de trabalhar, nem quando dormimos, e usa 20% da nossa taxa metabólica basal (o orçamento energético para um corpo em repouso), embora o seu peso corresponda apenas a 2,5% da nossa massa corporal. A princípio os investigadores pensaram que isso se devia a uma maior taxa metabólica humana, devido à alimentação mais rica, mas acabaram por descobrir que essa taxa era sensivelmente igual à esperada para um qualquer primata com o mesmo peso. Esta descoberta foi muito importante porque se os nossos grandes cérebros, ávidos de glicose, não são alimentados por uma dose de energia suplementar, então os tais 20% devem ser usados por nossos cérebros à custa de outra parte do nosso corpo.

Que parte? Por comparação com os outros primatas, os cientistas descobriram que esse enorme fluxo de energia consumido pelo nosso cérebro só é possível porque os nossos sistemas digestivos são mais curtos e pequenos, e não precisamos de despender muita energia na digestão, ao contrário de todos os outros primatas; o custo energético é muito maior nos organismos dos nossos primos, enquanto que nos humanos essa energia poupada pode alimentar um cérebro maior.  O nosso sistema digestivo é muito mais rápido a transformar os alimentos em calorias e energia, e isso só é possível porque os alimentos que comemos são altamente digeríveis e calóricos, graças ao cozimento.

De facto, várias experiências2 demonstraram que os alimentos cozidos são mais facilmente digeridos que os alimentos crus. Isto porque o cozimento é responsável por dois processos peculiares: a gelatinização e a desnaturação. A primeira ocorre sobre os amidos que se encontram no interior das células vegetais: “quando aquecidos na presença de água, os grânulos de amido começam a inchar porque as ligações de hidrogénio nos polímeros de glicose se enfraquecem quando expostas ao calor, e isso faz com que a sua apertada estrutura se alargue”3. Já a desnaturação acontece quando as ligações internas das proteínas se enfraquecem, obrigando as moléculas a abrir-se, proporcionando uma ação mais perfeita das enzimas digestivas, particularmente a tripsina. Embora o calor não seja o único fator a provocar a desnaturação das proteínas — marinadas, picles e sucos ácidos contribuem para a desnaturação quando aplicados por tempo suficiente4 — não há dúvida de que o cozimento proporciona uma digestão muitíssimo menos custosa5.

A digestibilidade dos alimentos que nos fornecem energia (através dos hidratos de carbono, gorduras e proteínas) é muito importante e não há dúvida nenhuma de que esta se torna mais disponível pelo aquecimento dos alimentos. Essa melhor digestão6 proporcionada pelo cozimento é realmente importantíssima por duas razões: 1- há uma melhor absorção de calorias por parte do nosso sistema digestivo, transformando, assim, os alimentos cozidos em alimentos mais eficientes7, dado que os alimentos crus não são completamente digeridos pelo organismo e, em grande parte, são desperdiçados através das fezes8 e 2- o cozimento, ao proporcionar digestões mais fáceis e rápidas, permite que não necessitemos de consumir demasiada energia na digestão. O cozimento proporciona, pois, uma dieta mais rica, um menor custo da digestão e, consequentemente, um tubo digestivo mais curto, e tudo isto resulta em energia disponível, a qual, no nosso caso, é canalizada para o cérebro9. Esta é a chamada teoria do “tecido custoso”.

O cozimento permitiu ainda que os nossos antepassados tivessem mais tempo livre, o que proporcionou uma maior socialização, indo ao encontro do que muitos autores defendem: as estratégias sociais contribuíram para o aumento do volume do cérebro e o incremento da inteligência, e vice-versa. Esta interação só foi possível graças ao cozimento dos alimentos.

Este é apenas um pequeno apontamento sobre um livro delicioso10, escrito magistralmente por Richard Wrangham e publicado em 2009, com o título original Catching Fire – How Cooking Made us Human —realmente, a não perder. Após os oito capítulos do livro, Richard Wrangham refere-se, num epílogo denominado O Cozinheiro Bem Informado, a uma questão muito interessante: quantas calorias os diversos alimentos fornecem aos nossos corpos? A convenção que ainda hoje, com ligeiras alterações, domina a estimativa de valores energéticos dos alimentos, e está na base do modelo da sua rotulação no mundo ocidental, é o sistema de Atwater11. Ora, Wrangham chama a nossa atenção para o facto da digestão não ser um processo puramente químico, mas igualmente físico. Como vimos, há um custo energético na digestão e, além disso, “os sistemas digestivos tratam diferentes substractos de maneiras diferentes”12, sendo que, acresce a tudo isto, os próprios sistemas digestivos humanos operam de forma muito diversificada13. Vale, portanto, conhecer o seu funcionamento, sobretudo o do intestino delgado, o nosso “segundo cérebro” (ver nota 13). O cozinheiro bem-informado será, em tese, um ser humano com melhor qualidade de vida.

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Notas:

1 Calcula-se que os habilinos pesassem entre 32 e 37 kg, e o homo erectus entre 56 e 66 kg.

2 Particularmente as de Leslie Aiello e Peter Wheeler, em 1995.

3 Richard Wrangham, Pegando Fogo – Por que cozinhar nos tornou humanos, Editora Zahar, 2010, p.52.

4 Lembremo-nos, por exemplo, do ceviche, um prato de origem peruana em que o peixe cru, marinado em suco de limão, fica delicioso.

5 Ob. cit., p. 56.

6 Na verdade há dois tipos de digestão. Uma realizada desde a boca até o intestino delgado, onde se faz a parte principal da digestão, e outra realizada no intestino grosso, que, na verdade, é uma fermentação, realizada por mais de 400 tipos de bactérias e protozoários. A primeira produz calorias inteiramente úteis, mas a segunda dá apenas cerca de metade da energia disponível nos hidratos de carbono e absolutamente nada no caso das proteínas (ob. cit., p. 51).

7 Pode parecer um contra-senso, mas não é. Por exemplo, pensava-se que os ovos crus eram alimento muito mais rico que ovos cozidos. Ora, isto não é verdade. Cientistas belgas, ainda nos anos 1990, verificaram que o cozimentos dos ovos aumentava o valor proteico dos ovos em cerca de 40% (ob. cit., p. 56).

8 Algures, durante o processo evolutivo, perdemos a capacidade de extrairmos a energia necessária dos alimentos crus. Todo o nosso aparelho digestivo está adaptado à comida cozida, a começar por nossos maxilares, bocas e dentes (ob. cit., p. 36).

9 Foi confirmado em variados espécimes (nomeadamente entre os grandes símios), que os seus  cérebros relativamente grandes deriva de uma dieta mais rica, quando comparada com outras dietas mais pobres em animais de cérebros menores. Essas dietas mais ricas permitem sempre intestinos menores. No entanto, há espécimes que não canalizam o ganho de energia, proporcionado por uma dieta rica, para o cérebro. Espécies como a nossa, que vivem em grupos sociais mais complexos, fazem-no. Mas outras espécies, como alguns tipos de aves, usam essa energia para fortalecer os músculos das asas e assim voarem mais tempo e mais longe, supostamente, porque isso é mais importante para elas que desenvolverem cérebros grandes. 

10 O título deste artigo foi também inspirado no livro. Diz-nos Richard Wrangham (ob. cit., p. 39): “Os zoólogos sempre procuraram exprimir a essência de nossa espécie com expressões como macaco nu, bípede ou de grande cérebro. Eles poderiam igualmente chamar-nos o macaco da boca pequena”.

11 Wilbur Olin Atwater (1844-1907) foi um químico americano, conhecido sobretudo pelos seus estudos sobre a nutrição humana e o metabolismo. Preocupado com a alimentação dos mais pobres buscou saber qual o número mínimo de calorias de que necessitavam para viver. Usando um calorímetro de bomba, registou quanto calor era libertado quando gorduras, hidratos de carbono e proteínas eram completamente queimados. Descobriu que não havia grande variação entre os diferentes tipos de cada idem. Por exemplo, todas as proteínas tendiam a produzir um pouco mais de 4 quilocalorias por grama. Depois disto, Atwater quis saber que quantidades dos principais macronutrientes referidos um alimento contém. A mais fácil de determinar foi a gordura, dado que esta, ao contrário dos outros dois, se dissolve no éter. O pesquisador picava finamente os alimentos, inseria-os no éter e pesava quanto material se dissolvia no líquido. Assim determinava a quantidade de lípidos (estes incluem tanto as gorduras sólidas, à temperatura ambiente, quer a gordura líquida contida em óleos). Este método é usado ainda hoje. A quantidade de proteína é mais díficil de detrminar, pois não há testes para identificá-la. Mas Atwater sabia que 16% do peso das proteínas médias são nitrogénio. Conseguiu um método de medir a quantidade de nitrogénio e assim a concentração de proteína. O mais difícil de medir foram os hidratos de carbono. Não havia nenhum método na época, tal como hoje ainda não há. Mas sabendo que toda a matéria orgânica dos alimentos era composta por estes três grandes grupos e conhecendo o peso dos outros dois, Atwater podia determinar o dos hidratos de carbono, por subtração. Para tal queimava o alimento completamente, deixando de lado a parte que não queimava, isto é, a parte inorgânica. Mas Atwater quis saber também quanto dos macronutrientes era digerido pelo corpo, ou seja, não era expelido pelo corpo sem ser usado. Dedicou-se então a analisar as fezes de pessoas que comiam alimentos rigorosamente medidos e pode determinar quanto de cada nutriente era efetivamente digerido. O químico conseguiu assim o que queria saber: quanta energia cada um dos três macronutrientes continha, que quantidade de cada um estava presente num alimento e quanto dela era usada no corpo.  Richard Wrangam defende, porém, que, apesar dos ajustamentos já feitos, o sistema de Atwater peca por não ter o rigor necessário, dado que o cozimento (ou não) dos alimentos altera as calorias que fornece, bem como o trabalho do sistema digestivo e o respetivo custo energético varia de indivíduo para indivíduo (ver ob. cit., pp. 151-159).

12 ob. cit., p. 152.

13 A forma como o aparelho digestivo trabalha é um tema fascinante que merece ser tratado num artigo específico. Os orientais já conhecem a importância da região abdominal do nosso corpo há muitos anos, mas, no Ocidente, só após Michael Gershon, professor da universidade de Colúmbia, em Nova Iorque, ter publicado o excelente Second Brain (1998), onde defendeu a existência de uma interação entre distúrbios nervosos e mau funcionamento do sistema digestivo, se inaugurou um novo ramo da medicina denominado neurogastroenterologia. Os maiores especialistas desta disciplina, desde logo o próprio Gershon (que estudou o assunto durante mais de trinta anos), apontam para a existência de “neurónios” digestivos, dentro do sistema nervoso entérico (SNE), o nosso segundo cérebro. De acordo com Irina Matveikova, uma médica russa que vive em Espanha (autora de O Intestino Feliz, Esfera dos Livros, Lisboa, 2015, pp. 28/9), “o número de neurónios que se encontram na rede do intestino delgado chega aos cem milhões. Este número representa, por exemplo, um valor consideravelmente superior ao dos neurónios da espinal medula. O cérebro dos intestinos é a maior fábrica responsável pela produção e armazenamento das substâncias químicas conhecidas com neurotransmissores, a maioria dos quais são idênticos aos que se encontram no sistema nervoso central (SNC), tal como a acetilcolina, a dopamina e a sorotonina.  Estas substâncias regulam a nossa energia, bem estar emocional e psicológico, e constituem um grupo de substâncias essenciais para a correta comunicação entre os neurónios e o sistema de alerta. Representam as “palavras” no idioma neuronal. Gershon revelou que 90 por cento da serotonina (a famosa hormona da felicidade e do bem-estar físico) é produzida e armazenada no intestino. Aí regula os movimentos peristálticos e a transmissão sensorial. E apenas os 10 por cento restantes de serotonina do corpo são sintetizados pelos neurónios do sistema nervoso central, ou seja, no cérebro superior”.

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A nossa edição:

Richard Wrangham, Pegando Fogo – Por que Cozinhar nos Tornou Humanos, Editora Zahar, 1ª edição, Rio de Janeiro, 2010.

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Foto retirada de http://www.youtube.com

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