Tornar-se Pessoa

Carl-Rogers (1)
Carl Rogers

Carl Rogers nasceu em 1902 nos Estados Unidos e dedicou toda a sua vida (que findou em 1987) à Psicologia, sendo reconhecido como o maior representante da denominada Terapia Centrada na Pessoa, uma corrente humanista que se opõe a quase todas as outras correntes psicológicas[1], sobretudo ao behaviorismo, uma vez que rejeita qualquer tipo de condicionamento, sequer algum tipo de direcionamento, oferecendo às pessoas todo o espaço para seguirem por onde quiserem.

Embora Rogers, evidentemente, tivesse sofrido algumas influências, a teoria que viria a desenvolver ao longo da sua longa carreira sustentou-se, quase exclusivamente, na experiência enquanto terapeuta[2]. De acordo com essa teoria, a Terapia Centrada na Pessoa só terá êxito se estiverem reunidas, em primeiro lugar, algumas condições relativas ao terapeuta. Este tem de ser autêntico (ou, como veremos abaixo, tem de possuir um alto grau de congruência); de aceitar-se a si mesmo; de aceitar o outro como ele é e de estar permanentemente de espírito aberto para receber opiniões diversas das dele próprio; e, finalmente, de estar disponível para a mudança que inevitavelmente ocorrerá não apenas no outro mas também nele próprio.

A atitude do terapeuta é, assim, muito mais importante que os seus conhecimentos. É essa atitude, sumariamente descrita acima – onde não existe crítica e muito menos julgamento – que vai permitir ao “paciente”[3] se encontrar consigo próprio. Este sente absoluta confiança no terapeuta e, por isso, começa aos poucos a afastar-se das atitudes (defensivas) que pensa ser as que agradam aos outros, abandonando as posições de fachada, e acaba por se aceitar como é, não como os outros gostariam que ele fosse. Nesse percurso (jamais fácil) dá-se uma libertação do eu, a pessoa vai ganhando confiança à medida que o processo avança, vai mostrando cada vez mais os seus verdadeiros sentimentos, até que finalmente se assume como o indivíduo integral que é. E assim se torna uma pessoa plena, sem necessidade de esconder seus sentimentos e mais preparada para aceitar os dos outros.

A atitude veiculada por Rogers, a sua extraordinária abertura, não se limitava à relação terapêutica, antes constituiu uma prática de vida. É bem conhecida, por exemplo, a forma como desenvolvia a sua atividade académica, particularmente a componente letiva, não conduzindo as aulas, sendo apenas mais um entre os alunos na busca livre de alguma opção comum. Há relatos extraordinários de “alunos” que jamais esqueceram os momentos que passaram com Rogers na sala de aula. Mas o ensino não era a vocação dele. O que realmente gostava de fazer era ouvir os outros, meter-se na sua pele, percorrer com eles o fantástico caminho da descoberta de um novo ser.

Rogers acreditava que a sua atitude de aceitação, de compreensão sincera, sem julgamento do outro, seria benéfica em todo e qualquer tipo de interação social. Na família, no seio das organizações laborais, nas relações internacionais. Sobretudo, colocou grande ênfase na questão da autenticidade, da congruência – conceito importantíssimo que Rogers utilizou mais tarde para incorporar “uma correspondência mais adequada entre a experiência e a consciência”[4]. O grau de congruência mede-ser precisamente por essa correspondência. Se sentimos raiva, ou medo, ou, pelo contrário, amor ou confiança é salutar que isso transpareça em nós; é sempre melhor quando os nossos sentimentos fluem, quando não temos necessidade de reprimi-los, quando o que comunicamos está de acordo com o que sentimos[5].

A partir da relação terapêutica que tão bem conhecia, da experiência que considerava tão cara, Rogers formulou uma hipótese válida para qualquer tipo de relação social, uma lei geral provisória, que descreveu da seguinte forma. Quanto maior for a congruência da experiência, da consciência e da comunicação por parte de um indivíduo, mais a relação originada implicará: uma tendência para uma comunicação recíproca caracterizada por uma crescente congruência; uma tendência para uma compreensão mútua mais adequada da comunicação; uma melhoria da adaptação psicológica e do funcionamento de ambas as partes; satisfação recíproca na relação. Inversamente, quanto maior for a incongruência comunicada da experiência e da consciência, mais as relações assim originadas envolvem: comunicações posteriores com as mesmas características; desintegração da compreensão adequada, e adaptação psicológica e funcionamento de ambas as partes menos adaptadas; insatisfação recíproca na relação[6].

Uma questão que se nos colocou após a leitura de Tornar-se Pessoa foi a de saber quem foi na realidade Carl Rogers. A sensação que fica é que um indivíduo que se dedica totalmente aos outros, que incorpora todo o tipo de sentimentos, quase não tem personalidade própria; a sua personalidade espartilha-se por todos com quem se relaciona e, por outro lado, incorpora um pouco da de todos eles. Isto é realmente assombroso. É como se a personalidade de Rogers fosse uma enorme esponja que tudo absorve, mas onde nada fica. Não será isto uma forma de despersonalização? Como é possível chegar a tal ponto? A resposta talvez esteja nas fugas que Rogers fazia para o México e as Caraíbas. Ele precisava de períodos para estar só. Gostava de pintar, fotografar e escrever. Penso que, sem estes períodos, regulares e largos, o trabalho que realizou teria sido impossível.

Em Tornar-se Pessoa, Carl Rogers cita Karl Popper e a Sociedade Aberta e Seus Inimigos deste[7]. Não admira. Ambos amavam a liberdade e ambos rejeitavam qualquer tipo de autoridade. Ambos eram sinceramente humildes. Ambos acreditavam num  mundo melhor e, evidentemente, na capacidade dos seres humanos para o construírem. Ambos foram grandes humanistas, curiosamente, nascidos no mesmo ano. Que a humanidade possa um dia retribuir, em sua memória, a confiança que nela ambos depositaram[8].

Notas:

[1] Como seria de esperar, Rogers foi duramente atacado pelos representantes dessas correntes, e não só, como, aliás, acontece com todos os grandes humanistas. 

[2] É o próprio Rogers quem nos diz: “Nenhuma ideia de qualquer outra pessoa, nem nenhuma das minhas próprias ideias, têm a autoridade que reveste a minha própria experiência. É sempre à experiência que eu retorno, para me aproximar cada vez mais da verdade, no processo de descobri-la em mim. Nem a Bíblia, nem os profetas – nem Freud, nem a investigação – nem as revelações de Deus ou dos homens – podem alcançar procedência relativamente à minha própria experiência direta.” (Carl Rogers, Tornar-se Pessoa, Padrões Culturais Editora, Lisboa, 2009, p. 47).

[3] Embora seja este o termo traduzido na edição portuguesa, citada na nota anterior, de On Becoming a Person, penso que Rogers não concordaria com o mesmo. Na edição inglesa escreve-se Person-Centered Therapy ou Client-Centered Therapy, expressões traduzidas para Terapia Centrada no Paciente. Também nós não concordamos com esta tradução. Seria mais lógica a expressão Terapia Centrada na Pessoa.

[4] Ob. cit., p. 388.

[5] “Talvez seja esclarecedor recorrer ao exemplo do que se passa com uma criança de berço. Se a criança tem uma experiência de fome a um nível fisiológico e visceral, a sua consciência manifesta-se como adaptada a essa experiência e a comunicação é igualmente congruente com a sua experiência. A criança tem fome e não está satisfeita, e isto é verdade para ela a todos os níveis. Nesse momento, ela integra-se ou unifica-se no facto de “ter fome”. Por outro lado, se está saciada e contente, também se trata de uma congruência unificada, idêntica ao nível visceral, ao nível da consciência e ao nível da comunicação”. (Ob. cit., p. 388).

[6] Ob. cit., p. 394.

[7] Rogers cita esta obra de Popper porque defende tal como este a sociedade aberta, sem condicionamentos de qualquer espécie, condicionamentos defendidos por vários de seus colegas psicólogos e ilustrado, em vertentes diferentes, nos igualmente citados livros de Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo) e George Orwell (1984).

[8] Além das semelhanças reais entre Rogers e Popper, a junção de ambos no final do artigo tem também que ver com uma conversa que mantivemos há uns anos com um amigo (na altura estudante do ISCSP), numa noite de Alfama – Ricardo Carvalho.


Foto retirada de http://www.awaken.com.

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A nossa edição:

“Tornar-se Pessoa”, Carl Rogers, Padrões Culturais Editora, 1ª edição, Lisboa, 2009.