Alfama descobriu o mundo. O mundo descobre Alfama.
Autor: Jorge Costa
Fez percursos académicos nas áreas das Filosofia, Comunicação Social, Economia, Gestão dos Transportes Marítimos e Gestão Portuária, e estuda outras disciplinas científicas. Interessa-se igualmente por Arte, nas suas diversas manifestações, e também por viagens. Gosta de jogar xadrez. O seu autor preferido, desde que se lembra, é Karl Popper. Viveu em locais diversos, sobretudo em Portugal e no Brasil, pelo que se considera um cidadão do mundo. Atualmente vive em Cabanas, no Sotavento algarvio. Gosta de revisitar, sempre que pode, a bela cidade de Lisboa e, nela, o bairro onde nasceu, Alfama, o mais popular da capital, de traça árabe, debruçado sobre o Tejo — esse rio mítico, imortalizado por Camões e Pessoa, poetas maiores da Língua Portuguesa. Não é, porém, um bairrista, característica que deplora, a par dos clubismo, partidarismo e nacionalismo. Ama a Liberdade.
Passam hoje 60 anos sobre a morte de um homem grande – Aristides de Sousa Mendes, o beirão[1] que salvou a vida de 30.000 judeus durante a II Guerra Mundial. Com isso, foi proscrito pelo regime de Salazar[2] e passou a viver na miséria, numa pequena aldeia do centro-norte de Portugal, onde morreu em 3 de abril de 1954. Aristides representa bem o espírito humanitário que caracteriza, desde tempos imemoriais, o povo português. Pela sua coragem, humanidade e determinação, o Yad Vashem[3] reconheceu-o, a 18 de Outubro de 1966, como “Justo entre as Nações”. Jamais o esqueceremos.
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[1] Natural da Beira-Alta, província de Portugal, no interior-norte do país.
[2] Ditador que governou Portugal durante 36 anos (de 1932 a 1968), principal figura do chamado Estado-Novo.
[3] Memorial oficial de Israel para lembrar as vítimas judaicas do Holocausto.
Hoje no Largo do Chafariz de Dentro topei com um amigo que não via há anos. Apareceu do outro lado da rua caminhando ao meu encontro. Estava diferente, o cabelo em carapinha, bem pretinho, uns bons dois palmos estendidos para o céu, mas com uma faixa prateada, a toda a volta, na base. Seu sorriso era aberto, alvo, feliz, lembrou-me o de Gustavo Dudamel; e a pele do seu rosto era rosada, brilhante, bonita – podia ver cada poro, tão perto estávamos um do outro.
Lembro-me perfeitamente de me ter sentido incomodado com o seu inesperado rejuvenescimento.
Depois, subindo por uma ruela cheia de obstáculos, que eu não sabia se tinha saída, deparei com um animal enorme, assemelhado a cão, na forma, e a lagarto, na pele, mas do tamanho de um cavalo, embora mais magro. Quando o avistei, ele estava no topo da rua distraído com qualquer coisa, mas depois virou-se e correu na minha direção. Enorme como era, não demorou um segundo a alcançar-me. Tinha a pele cor de laranja, com manchas pretas, e uma cabeça semi-humana, uma cabeçorra que ficou a milímetros de mim, com as ventas achatadas e as orelhas curtas e espetadas, em forma de “V”. Só tive tempo de pegar num enorme pau (na verdade era mais uma tábua de soalho) e colocá-lo em riste. Meu coração batia forte. Ao ver isto, a besta bufou, deu meia volta e desapareceu numa viela.
Uff!!! Acordei atordoado, ainda com estas imagens claríssimas no meu cérebro. Se eu soubesse desenhar construiria figuras perfeitas e detalhadas quer do meu amigo, quer deste magnífico animal. Mas fiquei apenas sentado na cama, esfregando os olhos, pensando com os meus botões em como é vasto e rico o mundo dos sonhos. Todos os dias lá vamos pegar peças tão nítidas, reais e fantásticas, que fazem corar de inveja a mais pura imaginação. O curioso é que tanto os sonhos quanto a imaginação recorrem à realidade para montarem as suas narrativas. Só que enquanto a imaginação o faz construindo e reconstruindo essa realidade, os sonhos apresentam-nos um filme instantâneo, a cada momento. Mais ou menos como dividirmos 3557 por 43 utilizando um lápis ou uma máquina de calcular.
E agora fiquei com algo na cabeça – que será feito do meu amigo?
Os rostos do poder durante o período da ditadura militar no Brasil.
Passam hoje precisamente cinquenta anos[1] sobre o Golpe Militar que destituiu do poder o presidente brasileiro João Goulart, o Jango[2]. Visto com os olhos de hoje, a condenação do golpe é quase unânime, pese embora a posição radical de alguns ultraconservadores, poucos têm a coragem de o apoiar. Mas não foi isso que aconteceu em 1964. O golpe militar contou com o apoio de largas camadas da população civil, individualidades ou organizações diversas[3], intelectuais[4] estudantes, empresários, jornalistas e pessoas comuns. Prova disto foi a manifestação que no dia 2 de abril, 48 horas após a tomada do poder pelos militares, juntou milhares de pessoas no Rio de Janeiro – a Marcha da Vitória. Também a imprensa, na sua esmagadora maioria, teve um enorme papel na desestabilização do executivo presidido por João Goulart. Jornais como o “Correio da Manhã”[5], carioca, o “Folha de São Paulo”, o “Globo” e até outros fora dos grandes centros urbanos do Sudeste, como o maior jornal do Ceará, “O Povo”, apoiaram declaradamente o golpe.
O papel da imprensa foi, aliás, deplorável, sobretudo após o golpe. A este respeito, o historiador João Teófilo (PUC/SP) escreve o seguinte[6]. “Muitos jornais, como se sabe, mantiveram-se ao lado da ditadura, mesmo na época em que a censura e a perseguição e morte de jornalistas indicou que o regime vivia sua fase mais perversa. Aliás, foi durante o período ditatorial que alguns grupos de comunicação viram seus negócios crescer. É certo, também, que no período da abertura política e da campanha “Diretas Já!”, muitos jornais vestiram a carapuça da democracia e apostaram no cavalo que estava ganhando, uma vez que o regime apresentava sinais de declínio e as pressões sociais pelo seu fim ganhavam força (…). É cômodo, 50 anos depois, situar-se numa zona de conforto e responsabilizar tão somente os militares pelo arbítrio de 21 anos. Jornais que apoiaram a ditadura o fizeram e ainda o fazem com certa frequência. Mas não nos enganemos. Para que o golpe fosse consumado, era preciso apoio. E nisso, a imprensa brasileira, de uma maneira geral, teve um papel importante: não só no momento do golpe, mas também na consolidação da ditadura civil-militar. É um equívoco, pois, quando a memória da sociedade e mesmo a história, seja aquela feita por historiadores, jornalistas ou sociólogos, responsabiliza somente os militares. Está mais do que evidente que esta culpa precisa ser divida, e 50 anos parece ser uma idade madura o suficiente para pôr o dedo na ferida”.
O que teria levado setores tão alargados da sociedade a apoiar um golpe violento, ao arrepio das mais elementares regras democráticas? – Eis a pergunta que se impõe. De acordo com o historiador Daniel Aarão Reis, o cimento que uniu aqueles diversos setores da sociedade foi o medo. As circunstâncias políticas haviam mudado em poucos dias[7], radicalizaram-se, sobretudo após o discurso de Jango, em 13 de março, no Rio, quando anunciou as suas Reformas de Base – estatização de refinarias e expropriação de terras. A classe média e as elites, apoiadas pela Igreja e pela Imprensa, unem-se na Praça da Sé, em São Paulo, manifestando-se abertamente contra aquelas reformas, repudiando a suposta ameaça comunista, abrindo caminho para a intervenção militar. Em tempos de Guerra Fria, o temor de que o Brasil se transformasse numa “nova Cuba” constituiu o motivo essencial de reação tão alargada.
Mas talvez não fosse apenas isso. A situação económica do país não era brilhante. De acordo com o Ministro do Trabalho de Jango, Almino Affonso[8], a inflação herdada dos governos anteriores era elevadíssima, na ordem dos 55% quando Goulart tomou posse, em 1963, atingindo os 60% passados dois meses. A inflação provocou uma crise social. Por outro lado, a dívida externa era igualmente muito elevada, o que implicava negociações difíceis com os EUA. Finalmente, o Plano Trienal elaborado pelo Ministro do Planejamento, Celso Furtado[9], que previa, entre outras coisas, a reforma agrária, chocou com a oposição dos latifundiários, maioritários na Câmara, inviabilizando, assim, qualquer alteração à Constituição.
Hoje, decorridos 30 anos desde o fim do Regime Militar, a situação económica do Brasil, embora mais estável, continua a não ser brilhante. As feridas abertas pelas atrocidades cometidas pelos membros da Ditadura não estão completamente cicatrizadas. Uma Comissão Nacional da Verdade foi instituída recentemente, já no mandato de Dilma Rousseff, para investigar as arbitrariedades cometidas durante o regime ditatorial. Após alguma resistência dos militares[10], passou a debruçar-se sobre violações graves dos direitos humanos ocorridas num período mais vasto, entre 1946 e 1988. A Comissão, constituída por sete membros nomeados pela presidente e catorze auxiliares, trabalha oficialmente desde maio de 2012 com o objetivo de apresentar um relatório, denunciando as violações dos direitos humanos perpretadas durante aquele período.
Aqui fica uma cronologia, com os principais acontecimentos – os que antecederam o golpe e os que dele resultaram.
1961 (25 de agosto) – Jânio Quadros renuncia à presidência. João Goulart, então vice-presidente, está na China em viagem oficial e quando regressa para tomar o cargo é impedido pelos militares. Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, lidera então uma mobilização nacional – a Campanha da Legalidade – que acaba por se sagrar vitoriosa, com o apoio do III Exército. Falha, assim, o golpe militar.
1964 (13 de março) – Jango discursa perante milhares de pessoas na Central do Brasil, no Rio, comprometendo-se com a estatização de refinarias e a expropriação de terras. Este é um episódio considerado decisivo para o golpe, que se concretizaria em pouco mais de duas semanas.
1964 (19 de março) – A reação conservadora ao discurso de Jango não se fez esperar. Nas ruas de S. Paulo milhares de pessoas protestam contra as “reformas de base” e a suposta ameaça comunista. A marcha é já um prenúncio do levantamento militar.
1964 (31 de março) – O Golpe. O general Olympio Mourão Filho[11] coloca as tropas na rua, em Juiz de Fora, Minas-Gerais. Jango deixa a sede do governo no Rio, vai para Brasília e depois para Porto Alegre. Sem reação, exila-se no Uruguai[12].
1964 (9 de abril) – A junta militar publica o primeiro Ato Institucional. Surgem as primeiras cassações de mandatos e suspensões dos direitos políticos. O presidente é autorizado a decretar o estado de sítio e a propor emendas constitucionais. As eleições presidenciais são marcadas para 1966, pelo voto direto, mas nunca chegam a acontecer.
1964 (15 de abril) – O general Humberto de Alencar Castello Branco é nomeado presidente do Brasil[13].
1968 (13 de dezembro) – Com o Ato Institucional nº 5 (AI-5), o regime ditatorial radicaliza-se. O presidente Arthur da Costa e Silva[14] decreta o documento, que autoriza medidas arbitrárias, tais como o encerramento dos parlamentos e a suspensão, por dez anos, dos direitos políticos dos cidadãos. Assiste-se a uma grande ampliação da censura.
1974 (15 de março) – Após o período em que a repressão conheceu o seu auge, durante o mandato do general Emílio Garrastazu Médici[15], assume a presidência Ernesto Geisel[16], dando-se início a uma abertura democrática “lenta, segura e gradual”. Tão lenta e gradual que demoraria mais de uma década a concretizar-se.
1979 (15 de março) – Início da presidência de João Figueiredo[17], que assina, em agosto de 1979, a Lei da Amnistia e dá continuidade ao processo de abertura democrática iniciado por Ernesto Geisel[18]. Extinguiu em 1980 o bipartidarismo instaurado, possibilitando o aparecimento de novos partidos.
1985 (15 de janeiro) – Tancredo Neves vence as eleições mas adoece na véspera de tomar posse e morre pouco tempo depois. O seu vice, José Sarney, do PMDB, torna-se o primeiro presidente civil eleito após 21 anos de ditadura.
1988 (5 de outubro) – Nasce a nova Constituição, uma promessa de Tancredo que Sarney soube cumprir, após mais de 20 meses de debates, com forte participação popular. Institui-se, assim, o Estado de direito democrático.
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Notas:
[1] Curiosamente, decorrem hoje, também, 100 anos sobre o nascimento do grande poeta mexicano, Octavio Paz, Nobel da Literatura em 1990.
[2] João Goulart ganhou o apelido de Jango ainda criança. Jango não é mais que o diminutivo de João Goulart. Descendente de açorianos, Jango era natural do Rio Grande do Sul (São Borja), como a maioria dos presidentes militares que lhe sucederam. João Goulart foi também vice-presidente de Juceslino Kubitschek, entre 1956 e 1961, tendo sido eleito com mais votos que o presidente.
[3] Casos do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipês) e do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), criados em 1961, que ajudaram a fornecer base social e económica à ação militar, investindo milhões nas campanhas de candidatos conservadores que, mais tarde, apoiariam o golpe. Caso também da Federação dos Estudantes Universitários Particulares do Rio Grande do Sul (Feup).
[4] Carlos Drummond de Andrade, Gilberto Freyre, Rachel de Queiroz e Rubem Fonseca, entre outros, apoiaram o golpe.
[5] O “Correio da Manhã” publicaria dois violentos editoriais exigindo a deposição de Goulart. O primeiro, em 31 de março, sob o título “Basta”, afirmava que “(…) Quase todas as medidas tomadas pelos Sr. João Goulart, nestes últimos tempos, com grande estardalhaço, mas inexeqüíveis, não têm outra finalidade senão de enganar a boa fé do povo, que, aliás, não se enganará. Não é tolerável esta situação calamitosa provocada artificialmente pelo Governo, que estabeleceu a desordem generalizada, desordem esta que cresce em ritmo acelerado e ameaça todas as forças vivas do país (…). Já o editorial do dia 2 de abril, intitulado “Fora”, ia mais longe: “A Nação não mais suporta a permanência do Sr. João Goulart à frente do Governo. Chegou ao limite final a capacidade de tolerá-lo por mais tempo. Não resta outra saída ao Sr. João Goulart senão a de entregar o Governo ao seu legítimo sucessor. Só há uma coisa a dizer ao Sr. João Goulart: saia”.
[7] O governo de Jango era considerado “bom” ou “ótimo” por 42% da população, de acordo com pesquisa Ibope, realizada no início de março de 1964.
[8] Almino Affonso acaba de lançar um livro onde faz uma defesa consistente de Jango, e onde afirma que este jamais pretendeu implementar um regime comunista no Brasil. O livro, lançado esta semana, intitula-se “1964 na Visão do Ministro do Trabalho de João Goulart”.
[9] Celso Furtado, autor de “Formação Econômica do Brasil”, está referenciado em vários artigos deste blog.
[10] Os militares conseguiram que fossem retiradas dos textos da Comissão várias palavras e expressões, como, por exemplo, “repressão política”.
[11] O general Olímpio Mourão Filho esteve envolvido num episódio sombrio, em 1937, que ficou conhecido como Plano Cohen. Na altura era um oficial integralista que forjou um documento, para incriminar os comunistas e, assim, forçar o golpe militar que instauraria o Estado Novo.
[12] Os factos parecem demonstrar que Goulart não tinha hipótese de reagir. A sua atitude terá até sido nobre e corajosa, ao não envolver uma pequena parte de forças que lhe eram leais e eventualmente o povo num banho de sangue. Do lado dos golpistas estavam todas as forças armadas, Jango não teria qualquer possibilidade de êxito se optasse pelo confronto.
[13] Castello Branco, cearense e familiar do escritor José de Alencar, presidiria durante pouco tempo. Morreu em julho de 1967.
[14] Costa e Silva, marechal, gaúcho de Taquairi (região central do Rio Grande do Sul) foi o vigésimo sétimo presidente brasileiro e o segundo do regime militar.
[15] Garrastazu Médici (1905-1985) nasceu em Bagé, no Rio Grande do Sul, e faleceu no Rio de Janeiro. Foi o vigésimo oitavo presidente brasileiro e o terceiro do regime militar. Seu período na presidência ficou conhecido como “Anos de Chumbo”.
[16] Ernesto Beckmann Geisel (1907-1996) foi mais um presidente gaúcho, natural de Bento Gonçalves, filho de imigrantes luteranos alemães.
[17] João Figueiredo, quinto presidente do regime militar, nasceu e morreu no Rio de Janeiro (1918-1999).
[18] Chico Buarque lançou em 1984 uma canção premonitória do fim da ditadura, “Vai Passar” (ver abaixo). Na verdade, a ditadura estava passando, mesmo. Esperemos que não volte mais.
Uma placa no centro histórico informa que a “muy nobre cidade de Tarifa” foi reconquistada aos mouros em 21 de setembro de 1292, por Sancho IV, o Bravo. Apesar dessa vitória, no fim do século XIII, a marca árabe paira ainda hoje sobre a cidade. África continua dominando o horizonte, irresistivelmente, para lá do estreito a que chamaram de Gibraltar[1], em honra do berbere Tarik ben Ziyad,[2] que, em abril de 711, desembarcou junto ao rochedo, iniciando a ocupação muçulmana da Península Ibérica, derrotando, cidade após cidade[3], os visigodos, sempre que estes ofereciam alguma resistência[4].
A presença árabe duraria mais de setecentos anos na Península[5] e, pelo menos, quinhentos anos, aqui, em Tarifa. Não admira, portanto, que se faça sentir ainda hoje e, provavelmente, sempre, já que o nome da cidade deriva do de outro berbere, enviado por Tarik para explorar o território e preparar o terreno para a invasão – Tarif ibn Malik.
Na bela praia onde Tarif desembarcou os ventos são constantes, e há por isso quem considere Tarifa a capital mundial dos wind e kitesurf. Baleias e golfinhos podem ser avistados nas águas transparentes, onde o Atântico se junta ao Mediterrâneo[6]. Existe ampla oferta de hotéis, casas para alugar, parques de campismo e todos os visitantes têm lugar assegurado para banhos de sol e de mar, pois a praia, além de ser muito bonita, é enorme, com quilómetros de extensão[7].
E quem quiser sentir o que Tarik e Tarif experimentaram, embora em sentido contrário, pode sempre apanhar um ferry para Tanger ou Ceuta, e embrenhar-se em África. Tarifa orgulha-se de ser o ponto da Europa mais próximo do continente negro. Dar o salto, para lá ou para cá, é uma tentação eterna.
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[1] Gibraltar deriva de “Gebal-Tarik” (montanha de Tarik). Todas as cidades europeias do estreito de Gibraltar têm nomes de origem árabe. Também Algeciras deriva do árabe “Al-jazeera” (a ilha).
[2] Os berberes são um povo cuja origem se mantém obscura, embora seja quase certo que são uma mistura de vários povos, incluindo de alguns judeus que se refugiaram no Norte de África. Há quem refira a sua origem canaanita (da terra de Canaan), portanto, israelitas. O próprio Tarik acreditava ser judeu, descendente da tribo de Simeão (“Raízes dos Judeus em Portugal”, de Inácio Steinhardt, Vega, Lisboa, 2012).
[3] Em junho de 712, Mussa bin Nussair atravessou o estreito à frente de um exército de 1800 homens, desta vez quase todos árabes. Desembarcou em Algeciras e rumou a ocidente, conquistando Sevilha, Huelva, Faro (Ossónoba) e Beja. A região do sul da Península não era já a Bética dos Romanos, mas ainda a que tinha sido ocupada pelos Vândalos Silingi, que, depois de derrotados pelos Visigodos, passaram para o Norte de África. O nome da terra dos Vândalos era pronunciado, em árabe, Al Wandalus ou Andaluz. Daí deriva o nome Andaluzia.
[4]Em contraste com os visigodos, os árabes mostrar-se-iam um povo tolerante. Os habitantes da Península Ibérica, cansados dos germânicos, receberam os muçulmanos com alegria. A dinastia árabe que governava o império era a omíada, com califado em Damasco. Após lutas com os abássidas, que se reclamavam descendentes de Maomé (Abbas era tio do profeta), estes venceram e transferiram o califado para Bagdad. Porém, o omíada Abderramão I, emir de Córdova, manteve a independência e, quase 200 anos depois, em 929, Abderramão III instaurou o califado de Córdova, que perduraria por mais de cem anos, aprofundando ainda mais a independência em relação aos abássidas. Os omíadas sempre governaram em convivência pacífica com os outros povos e com as restantes etnias árabes. Os judeus, por exemplo, viveram em paz e tiveram inclusive cargos importantes na administração, experimentando uma atmosfera de liberdade que não existia em mais nenhum lugar da Europa.
[5] A ocupação da península Ibérica pelos árabes foi sempre muito variável ao longo do tempo. Ela nunca foi absoluta – o reino das Astúrias resistiu sempre – e chegou, na parte final (a ocupação terminou em 1492), a ser diminuta – limitada ao emirato de Granada – uma pequena faixa que incluía as atuais cidades de Granada, Málaga e Almeria.
[6] Será fácil encontrar em Tarifa uma das várias empresas que fazem passeios no mar (em geral de duas horas) para observação de cetáceos.
[7] O único ponto em que os espanhóis parecem não ter aprendido nada com os árabes, nem com qualquer outro povo, é o da cozinha. O Sul de Espanha continua a ser uma zona gastronomicamente pobre. Aliás, excetuando a Galiza, come-se (geralmente) mal em Espanha.
São as duas cidades espanholas mais importantes e durante muitos anos pertenceram a reinados diferentes. A rivalidade entre ambas é acentuada, em parte devido às equipas de futebol, dois colossos mundiais, O FC Barcelona e o Real Madrid.
Barcelona.
Essa rivalidade nunca foi completamente superada, como se sabe, e existe mesmo um movimento muito forte para que a Catalunha (região a que pertence Barcelona), apesar da autonomia que detém, se torne um Estado independente.
Madrid.
Estes movimentos nacionalistas da Catalunha baseiam-se em grandes diferenças culturais, por um lado (desde logo, a língua), e numa rejeição da superioridade política de Madrid (enquanto capital do estado espanhol), por outro.
Barcelona.
Finalmente, Madrid e Barcelona são, de facto, bastante diferentes. A primeira no coração de Espanha, com seus importantes museus, a segunda virada para o Mediterrâneo, orgulhosa das obras de um dos expoentes máximos da arquitetura mundial – Antoni Gaudí.
As Galápagos1 são um arquipélago situado a cerca de 1.000 quilómetros do continente sul-americano, constituído por treze ilhas maiores, seis menores e mais de cem ilhotas e rochedos. A forma mais comum de chegar às Galápagos é de avião. Há voos diários de Quito e Guayaquil (por cerca de 400 dólares, ida e volta), quer para a ilha de Baltra, quer para a de San Cristóbal, duas das cinco ilhas povoadas, para além de Isabela, Floreana e Santa Cruz. Nesta última, no extremo sul, fica a cidade mais povoada de todo o arquipélago – Puerto Ayora2. Nós ficámos hospedados numa pousada fora da cidade, a uns sete quilómetros, numa localidade chamada Belavista, e não nos arrependemos. A pousada chama-se Twin Suite Galápagos, e são os proprietários — José e Esperanza — quem recebe e orienta os hóspedes. Este alojamento é altamente recomendável por várias razões: a área verde onde está inserido é muito agradável, com variadas árvores, plantas, flores e frutas, e uma pequena piscina, tudo muitíssimo bem cuidado; os quartos são amplos, limpos e confortáveis; a simpatia dos proprietários é inexcedível; a distância até Puerto Ayora é facilmente vencida em 10 minutos, de táxi, por um custo de três dólares (moeda oficial do Equador); e, acima de tudo, a senhora Esperanza é uma excelentíssima cozinheira.
Tartaruga gigante na ilha de Santa Cruz. Calcula-se esta espécie esteja presente nas Galápagos há mais de 2 milhões de anos.
Em Puerto Ayora podem comprar-se passagens para várias ilhas. Todas as que são povoadas ficam a menos de duas horas, de barco, desta cidade. Assim é possível fazer o que aqui chamam de “tours diários” a essas ilhas e também à ilha de Bartolomé. Viagens maiores, como sejam circuitos que incluem várias ilhas, terão de ser realizadas em navios de cruzeiro, com comida e dormida a bordo, o que encarece substancialmente a viagem. Mas deve valer a pena. Esses circuitos, no mínimo, são de quatro noites, mas podem ser de uma semana ou mais, e o custo é na ordem, sempre, dos milhares de dólares. Como turistas pobres, nós fizemos apenas os “tours” diários, e visitámos todas as ilhas habitadas (uma por dia), com a exceção de Floreana. Isto porque cometemos um erro: ficámos um dia em Santa Cruz, visitando alguns pontos turísticos do interior da ilha, como Los Gemelos, o Pontudo ou a Reserva “El Chato”, os quais, sinceramente, não valem a pena em contrapartida a uma visita a outra ilha. Em “El Chato” podemos observar as tartarugas gigantes, mas isso também é possível, por exemplo, em Isabela, acompanhado por guia turístico e tudo. É sempre bom fazer as visitas às ilhas com guia, o que pode custar entre 85 e 120 dólares, por ilha, consoante as agências. Há um quiosque, em Puerto Ayora, entre o porto de pesca e o pontão de embarque, que vende as passagens mais baratas. Já agora, atravessando a rua, em frente ao cais, há um restaurante popular, facilmente identificável, que serve “almuerzos” (prato do dia, sopa e bebida) por 2,5 dólares3. E não se come nada mal. A gastronomia, aliás, é uma das boas surpresas das Galápagos, sobretudo a que se relaciona com peixes4 – albacora, espadarte (aqui chamam peixe-espada), palometa, um peixe vermelho de nome “brujo” e bacalhau5, entre muitos outros. Comemos uma palometa assada dentro de folhas de bananeira, cozinhada pela senhora Esperanza, que ficará para sempre memorável.
Venda de peixe em Puerto Ayora (Santa Cruz).
Em Santa Cruz, quando caminhamos na direção da Estação Charles Darwin, na rua marginal, ou seja, virando à esquerda quando estamos de frente para o mar, encontramos uma pequena lota onde se vende peixe e marisco. O ambiente ali, por si só, é um espetáculo. Lobos marinhos, pelicanos, fragatas e outras aves convivem com os humanos, esperando os sobejos do peixe. Ao fim da tarde, monta-se no local um aparato, com mesas e bancos de plástico, bancadas com fogões, frigideiras onde se fritam em óleo bananas, peixes, lagostins e lagostas, e muita gente esperando por um lugar para se sentar e comer. Vale a pena desfrutar do ambiente e do peixe ou do marisco. Ainda em Puerto Ayora, junto do mercado municipal, mais para o interior da cidade, mas bem pertinho (a cidade é minúscula) encontram-se vendedores populares, com produtos de vários tipos. Aí provámos uma agradável bebida quente, chamada Colada Morada. A sua composição inclui farinha de milho vermelho, abacaxi, morangos, amoras, canela, pimenta da jamaica, limão, laranja e açúcar mascavado. Provámos, também, isto já durante a visita à ilha Isabela (que inclui, no preço do “tour”, um almoço em restaurante local), uma sopa de peixe, que continha, para além deste, mandioca e banana6. Estava deliciosa. Os equatorianos têm o (bom) hábito de comer sopa, algo que não se vê tanto, por exemplo, no Brasil.
Ilha Isabela.
Isabela, a maior ilha das Galápagos7 tem uma história curiosa. Os americanos montaram ali uma base naval durante o período da II Guerra Mundial, com a intenção de controlarem o Pacífico. Construíram a primeira estação de dessanilização das Galápagos8 e foram eles que construíram também o aeroporto de Baltra, dando origem ao desenvolvimento de Puerto Ayora, na ilha de Santa Cruz, uma vez que Baltra é minúscula e Santa Cruz está logo ali, separada apenas pelo estreito canal Itabaca. Um pouco mais tarde, em 1946, o governo equatoriano9 decidiu desterrar para Isabela cerca de 300 presos, alguns bastante perigosos10. Em princípio andavam à solta, mas, em 1948, iniciou-se a construção de um perímetro, que nunca chegaria a ser acabado, através de um muro, com cerca de 25 metros de altura, erguido, pedra sobre pedra11, pelos prisioneiros. Muitos morreram, a maioria soterrada, debaixo das pedras desmoronadas, numa espécie de tarefa de Sísifo. À mínima desobediência ou revolta eram fuzilados. Em 1959, os sobreviventes da Colónia Penal assaltaram, pela calada da noite, um iate que estava ancorado na baía de Puerto Villamil, sequestrando os ocupantes, uma família dos Estados Unidos, e fugiram não se sabe para onde, não tendo sido mais encontrados. Assim, ao fim de 13 anos, extinguia-se a Colónia Penal da Ilha Isabela.
Ilha Santa Fé.
Decorreu muito tempo até que a riqueza natural das ilhas e o seu interesse científico fossem reconhecidos, apesar da passagem de Darwin pelo território. As Galápagos foram povoadas por pescadores, baleeiros, piratas, corsários e desterrados de todo o mundo, que aqui se fixaram temporariamente. As tartarugas (cuja carne dizem ser deliciosa) e os lobos marinhos12 serviam-lhes de alimento e isto, a par da colonização dos mamíferos, introduzidos pelos humanos, destruiu algumas espécies e quase provocou a extinção das tartarugas gigantes que dão o nome às ilhas. Formigas, ratos, burros, cães, gatos, porcos, bois, cabras, todos, cada um à sua maneira, matam, direta ou indiretamente, as tartarugas. Assim, as autoridades do Parque Nacional atuam em duas vertentes para preservá-las. Por um lado, criam as tartarugas em cativeiro até aos 10 anos13, enquanto as suas carapaças ainda não são suficientemente fortes para resistirem, por exemplo, às mordidas de um cão; por outro lado, eliminam sistematicamente todos os animais, sobretudo mamíferos, que vivam em estado selvagem, e que possam pôr em perigo a sobrevivência da espécie e várias subespécies terrestres das tartarugas gigantes. Assim, elas podem atingir uns surpreendentes 300 anos.
Iguana marinha na praia Tortuga Bay, em Santa Cruz.
Quando se viaja pela primeira vez para as Galápagos, inevitavelmente se cria a expectativa de encontrar muitas espécies, diferentes das que fazem parte do nosso quotidiano, já que 80% das aves e 90% dos répteis (assim como uma em cada cinco espécies marinhas) só existem neste arquipélago. Essa expectativa não é gorada, tanto no que diz respeito à flora, quanto à fauna, também. Dos animais emblemáticos das ilhas, podem observar-se facilmente tartarugas gigantes, lobos marinhos, iguanas terrestres e marinhas, pelicanos e fragatas, em convívio perfeito com os seres humanos, nas ilhas habitadas. Mais difícil é encontrar os belos atobás de patas azuis, aqui conhecidos como piqueros de patas azules14. Queríamos muito encontrar nem que fosse um único exemplar, e conseguimos, quase em desespero de causa, topar com um, numa zona rochosa da ilha de San Cristóbal. Parecia que estava à nossa espera! Observou, curioso, os nossos movimentos de aproximação e deixou-se ficar o tempo suficiente para que tirássemos dezenas de fotografias, algumas apenas a 3 metros de distância. Depois, em jeito de despedida, levantou um voo suave e circular, desaparecendo por trás dos rochedos.
Atobá na ilha de San Cristóbal. O atobá de patas azuis foi amplamente estudado por Darwin. Tal como outras espécies do arquipélago, está acostumado à presença humana.
As cores — do mar, dos animais, das plantas e das flores — parecem mais vivas nas Galápagos. Porém, o mais surpreendente de tudo são as pessoas que, aliás, convivem de forma harmoniosa com os animais. Educadas, simpáticas e generosas, agem de forma simples, ao ritmo da natureza, e, por isso, vivem mais e melhor. Para além da longevidade, a criminalidade nas Galápagos é (quase) nula, e não admira que cada vez mais pessoas procurem estas paragens. Isto constitui um problema, dado que a ocupação do território pelos humanos não pode exceder os 3%15, se se quiser que o estatuto de Património Natural da Humanidade, atribuído pela UNESCO em 1979, continue vigorando nas Galápagos. Afinal, só alguns podem viver no paraíso, embora, potencialmente, todos possamos visitá-lo.
Na pousada Twin Suites, com Telma, senhora Esperanza e a filha desta.
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Notas:
1Embora os guias locais digam que a palavra “Galápagos” deriva de “sela”, dado que as carapaças das tartarugas se parecem com selas de cavalo e esta também se diz “galápago”, em castelhano, uma investigação mais profunda parece indicar que a origem mais provável seja celtibérica, dadas as palavras “galàpet” (em catalão) e “cágado” (em português), embora também possa derivar de “calapaccu” ou “carappaceu”, origem de “calabaza” e “carapazón”, respetivamente. Seja como for, Galápago transformou-se, sem dúvida, em sinónimo de tartaruga.
2 Cerca de 20.000 pessoas vivem em Santa Cruz.
3O mesmo se passa na capital, Quito, onde os “almuerzos” valem, igualmente, 2,5 dólares.
4O peixe e o marisco são, de facto, muito bons porque as águas do mar são relativamente frias, se as compararmos, por exemplo, com as do Nordeste do Brasil, apesar de, nas Galápagos, estarmos praticamente em cima da linha do equador. Isto tem que ver com a corrente fria de Humboldt (todas as correntes do Pacífico são frias). Apesar disto, a temperatura da água do mar nunca cai abaixo dos 21 graus e pode atingir os 27 no mês de março, o mais quente do ano. A temperatura média rondará, assim, os 23/24 graus. A temperatura do ar é, também, relativamente amena.
5Na Semana Santa é típico comer nas Galápagos, e em todo o Equador, um prato feito com ervilhas, milho, feijão, queijo, ovos cozidos e outros ingredientes, que leva bacalhau cozinhado em leite – a fanesca. Ver a receita aqui: http://www.confirmado.net/receta-para-la-preparacion-de-la-fanesca/
6A banana é omnipresente na cozinha “galapagueña”.
7Nesta ilha habita a maior parte das tartarugas selvagens. As cabras aqui introduzidas pelos humanos chegaram ao número impressionante de 100.000. As cabras destroem a vegetação de que se alimentam as tartarugas e foram por isso exterminadas pelas autoridades do Parque Nacional e da Fundação Charles Darwin. Aqui fica o vulcão Sierra Negra, um dos mais ativos em todo o mundo. Em 1905, a população da ilha era apenas de 200 habitantes. A costa oeste é o melhor local das Galápagos para se observarem baleias e golfinhos.
8Não existe água potável no subsolo das ilhas. A água tem de ser dessanilizada. Várias empresas fazem esse trabalho, vendendo depois a água à população. Estão a ser construídas estações com energias eólica e fotovoltaica. Nota-se uma grande preocupação com o ambiente nas ilhas.
9Foi o presidente equatoriano, José María Velasco Ibarra, quem instituiu a Colónia Penal da Ilha Isabela. As prisões saturadas do Equador continental, a política conturbada da época e a concepção, no imaginário equatoriano, de que as Galápagos eram um lugar desterrado e de piratas, parecem ter sido as principais razões para esta decisão.
10isto foi o que nos “vendeu” o guia local, mas a investigadora equatoriana Paola Rodas, da universidade de San Francisco de Quito, afirma que à colónia chegaram presos condenados por delitos menores, que não seriam presos perigosos. De acordo com esta pesquisadora, a ideia da alta perigosidade constitui um mito, forjado em torno de um assunto propício ao imaginário popular.
11Pedras vulcânicas de basalto.
12As tartarugas serviam para produzir óleo, também. Os lobos marinhos podem estar semanas sem comer e, por isso, eram muito úteis aos marinheiros, pois estes podiam ter carne fresca durante bastante tempo, mantendo os lobos marinhos vivos nas embarcações.
13Em algumas ilhas existem estações do Parque Nacional onde os ovos, recolhidos nos locais de nidificação, são guardados e regulados até o nascimento das tartarugas. Com uma temperatura de 28 graus nascem fêmeas e com 26 graus, machos, podendo assim controlar-se o equilíbrio da espécie. As tartaruguinhas passam por determinados estádios e processos até atingirem os tais 10 anos e serem devolvidas à Natureza.
14O atobá de patas azuis foi amplamente estudado por Charles Darwin durante a sua viagem pelas Galápagos. A fêmea põe de um a três ovos de cada vez e esta espécie pratica a chamada “eclosão assincrónica”, isto é, os ovos que se põem primeiro são incubados antes dos ovos seguintes, resultando isto numa desigualdade de crescimento e uma disparidade no tamanho entre irmãos. A cria maior ataca e expulsa frequentemente do ninho a menor, perante a indiferença da mãe. A cor das patas do macho é importante na escolha da fêmea. O brilho da tonalidade azul diminui com a idade, pelo que as fêmeas tendem a escolher machos com patas brilhantes e coloridas, sinónimo de juventude. Elas preferem os machos jovens, dado que estes têm maiores fertilidade e capacidade para proporcionar cuidados paternais que os machos de maior idade. Assim, os machos praticam uma espécie de dança, erguendo as patas, para que as fêmeas vejam bem sua cor.
15Os restantes 97% constituem o Parque Nacional das Galápagos, criado em 1959. Em 1986 o governo equatoriano criou também a Reserva de Recursos Marinhos das Galápagos.
A revista de viagens espanhola Condé Naste Traveler publicou esta semana um artigo sobre “As 31 ruas a percorrer antes de morrer”[1].
Duas delas ficam em Portugal e outras tantas no Brasil. Em Portugal foi eleita a Rua Augusta, em Lisboa, e o Cais da Ribeira, no Porto.
Escreve-se, na revista, sobre a Rua Augusta: “Ampla, brilhante, obrigatória para captar toda a essência da cidade… uma delícia lisboeta”.
Rua Gonçalo de Carvalho, Porto Alegre.
Já no Brasil, as ruas contempladas foram a Rua Gonçalo de Carvalho, em Porto Alegre, e a Rua Manoel Carneiro, uma escadaria colorida no bairro da Lapa, Rio de Janeiro.
Sobre a Rua Gonçalo de Carvalho, escreve-se o seguinte:”Está repleta até o topo de ramos e folhas da árvore Tipuana Tipu. A própria cidade iniciou uma campanha na internet considerando, com orgulho, que esta rua era a mais bonita do mundo e pedindo a sua classificação como património ambiental. A verdade é que o merece”.
O artigo contemplou ruas de dezanove países, mas apenas a Espanha (4), os EUA (4) e a Inglaterra (3) têm um número maior de ruas (incluídas nas 31 mais bonitas) que Brasil e Portugal.
A jornalista Fiona Dunlop, em artigo para a CNN, considera Lisboa a cidade mais cool da Europa, elogiando a nossa capital em sete vertentes principais: vida noturna, gastronomia, ironia, praias e castelos, arquitetura, arte e arruamentos. Neste último capítulo, há uma referência a Alfama e às coloridas fachadas dos seus prédios[1].
Uma das características mais extraordinárias das mentes brilhantes é a sua incrível elasticidade. De tal forma, que, em alguns casos, distendem-se tanto que chegam a atingir o extremo oposto – a mais pura estupidez. Nestes casos mantêm-se fechadas, incapazes de ver o mundo à sua volta, empedernidas numa ideia fixa que lhes tolda o mais elementar raciocínio. Há vários exemplos históricos deste fenómeno. Porém, não citarei qualquer deles, porque nenhum se compara aos casos paradigmáticos de Pacheco Pereira e Vasco Graça Moura, ilustres intelectuais lusos, há anos em luta contra o Acordo Ortográfico de 1990.
Há poucos dias saíram mais duas pérolas destes vanguardistas do Desacordo – a primeira do Pacheco, no “Público”[1], depois a do Vasco, no “Diário de Notícias”[2]. É difícil comentar a crónica de Pacheco. A sua estratégia de dramatização atinge a histeria, com afirmações como: o acordo vai a par do crescimento facilitista da ignorância, da destruição da memória e da história (…) ninguém que saiba escrever em português o quer usar.
E eu pergunto: que argumento objetivo, claro, encerra a primeira frase, lançada para o ar com palavras sonantes, destinadas a impressionar os mais incautos? Estarei eu, neste momento, ao escrever este artigo, a destruir a memória e a história? E a segunda – é fruto da arrogância, do desespero, ou de ambos em simultâneo?
No seu desvario, Pacheco Pereira chega mesmo a incluir o AO na gaveta das asneiras de Estado, junto com as PPP e os contratos swaps, e a escrever que a escrita viva se recusa a usar o acordo e que este português pidgin, infantil e rudimentar, mais próximo da linguagem dos sms, nem sequer serve para aquilo que as línguas de contacto servem, comunicar.
Esta, confesso, nem eu esperava do Pacheco. É bem provável, seguindo o seu “argumento”, que ninguém entenda o que estou aqui a escrever…
Além disto, o artigo replica o habitual chorrilho de mentiras ou deturpação dos factos que muitos inimigos (sim, a ferocidade é de inimigos e não de adversários) do Acordo Ortográfico usam, por exemplo, quando se diz que os portugueses são os aplicantes solitários da ortografia do acordo ou que este obriga a escrita dos outros países a uma norma definida por alguns linguistas e professores de Lisboa e Coimbra. Ora, como se sabe, o AO não é aplicado apenas em Portugal e o mesmo foi discutido por representantes dos outros países lusófonos. Só assim, aliás, poderia ser um acordo.
Finalmente, PP remata o seu brilhante artigo manifestando horror pela palavra “aspeto”, dizendo que tem dificuldade em conceber que quem a escreve possa incentivar a criatividade em português ou de portugueses e promover a língua pela qualidade dos seus falantes e das suas obras.
Como se vê, nada preconceituoso…
Talvez o Pacheco não saiba, mas “aspeto” está mais próximo de “aspeito”, usado por Camões, no tempo em que a língua não tinha sido alvo ainda do fervor etimológico, tal como “respeito” e “leitor”, que escaparam até hoje das referências latinas “rescpectu” e “lector”, do que o “aspecto” dele. Nada de errado, portanto, a não ser o incómodo e a estranheza da mudança, algo que a maioria dos “desacordistas” considera intolerável.
(Esses incómodo e estranheza eram já bem conhecidos de Wittgenstein, que escreveu nas suas “Investigações Filosóficas”: Pensa no mal-estar que se sente quando a ortografia de uma palavra é alterada (…) Pensa que a imagem visual da palavra nos é, num grau semelhante, tão familiar como a auditiva.)[3].
Já o artigo de Vasco Graça Moura – esse todo-poderoso capataz daquele rancho onde estão inscritas, à entrada, as iniciais CCB – é sobre O ensino do português e o Acordo Ortográfico. A primeira parte é para saudar o novo programa de português do ensino secundário, aproveitando o ensejo, como não poderia deixar de ser, para atacar, na segunda parte, o Acordo Ortográfico. Mas não diz grande coisa. Limita-se a elogiar o artigo de Pacheco Pereira e a declarar, do alto da sua sapiência, que a crítica definitiva do Acordo Ortográfico, nos planos científico, jurídico, político e sociocultural, está feita há muito, pelo que nem sequer vale a pena retomá-la. Como se vê, uma frase bonita, ampla, grandiloquente, que parece dizer tudo, mas que, na realidade, diz nada.
A isto se resumem os artigos desses ilustres colunistas, ambos extremosos patriotas. Pena é que eles não apliquem a si próprios a máxima de Weber, a que Pacheco Pereira alude no seu artigo, defendendo que a mesma deveria ser inscrita a fogo (Pacheco é assim, não faz a coisa por menos) nas cabeças de todos os políticos: a maioria das suas acções[4] tem o resultado exactamente oposto às intenções…
É que a suposta defesa da Língua Portuguesa que eles advogam, em nome de um patriotismo balofo, seria, a concretizar-se, o princípio do fim do Português internacional que nós partilhamos hoje, sim, com o Acordo Ortográfico. Nós, os que acreditamos que o nosso espaço linguístico é muito mais vasto do que aquele que Pacheco Pereira designa no seu artigo por casa-mãe. O Português saiu de casa, constituiu família e emancipou-se. Chega a ser patético que Vasco e Pacheco não queiram aceitar isto.
[3] Ludwig Wittgenstein, Investigações Filosóficas, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1987, p. 295.
[4] Respeitou-se a grafia usada pelo autor, como é óbvio. E com isto reparo que num texto com quase novecentas palavras, apenas uma se escreve de forma diferente, usando a nova ortografia: ações. Até por aqui se vê como é absurdo o alarido criado pelos “desacordistas”.
Aqui deixo uma dica para os porto-alegrenses que vão passar o fim de semana a Tramandaí: o Quiosque do Dodô.
Entrando em Tramandaí [1], seguem como se fossem para Imbé e, na última rua antes da ponte que cruza o rio, viram à direita. Uns 300 metros depois, verão o restaurante. Recomendo-o por três razões fundamentais.
Primeiro, a tainha grelhada, deliciosa. Depois, o ambiente – a brisa que (quase) sempre corre, o rio Tramandaí, os abius mergulhando em busca de alimento, os pescadores. Um lugar natural, sem sofisticação mas muito encanto. Por fim, a música de Jorge Pereira, o entertainer de serviço: bossa nova, bolero, pop – tudo com a suavidade que o ambiente requer, sem perturbar as aves do rio, os pescadores ou a tainha.
Recomendo vivamente. Podem dizer ao Joalmir que vão da minha parte.
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[1] A cidade do litoral mais perto de Porto Alegre.