Ilha das Flores (Indonésia) e Parque Nacional de Komodo

Ilha de Padar, no Parque Nacional de Komodo.

Dia 12

Hoje foi dia de descansar. Tinham-nos dito que Kupang é uma cidade pouco interessante, e é verdade. As praias são pouco atrativas e, por isso, o turismo está muito pouco desenvolvido aqui. No entanto, Kupang é densamente povoada e há um enorme movimento de pessoas nas ruas, e muita atividade económica. Mas como o turista não tem muito que fazer, aproveitámos para lavar roupa numa lavandaria local. Pagámos o equivalente a 2 euros, para mais de 3 quilos de roupa lavada, secada e engomada.

Isto conduz-nos a uma dica importante: poupa-se muito dinheiro quando se viaja com apenas bagagem “de mão”, por exemplo uma pequena mochila, sobretudo se voarmos em companhias de low-cost; além disso, é muito mais confortável e prático: andamos mais leves e com as mãos livres, o que é mais importante do que às vezes se pensa. Para que isto aconteça, é importante reservar um dia (ou mais, se for o caso) para lavar a roupa, algo que, hoje em dia, se revela muito fácil.

No Sotis Hotel (foto de Fla).

Enquanto a roupa era lavada, fomos deambulando à procura de um lugar para almoçar. Encontrámo-lo no Sotis Hotel Boutique & Resort, e na sua esplanada sobre o mar. É um sítio tão agradável que nos deixámos ficar muito mais tempo do que seria estritamente necessário para almoçar. Por falar nisso, come-se muito bem na Indonésia. Aqui usam-se vários tipos de couve parecidos com a acelga, provavelmente da mesma família, mas ligeiramente diferentes: pak choi e sawi hijau, entre outros. Nos restaurantes confecionam-se grandes panelões de caldo de carne, o qual é vertido a ferver numa tigela que já contém todo o tipo de ingredientes, incluindo alguma dessas espécies de acelgas, omnipresentes na cozinha indonésia.

Era domingo, a cidade estava tranquila, e depois de irmos buscar a roupa, fomos para o hotel descansar. Ao final do dia saímos e fomos a um restaurante muito bem classificado no Google, e que se situa sobre o mar numa zona propícia para se observar o pôr do sol. O Kapal Ikan fica a um quilómetro e meio do hotel onde estávamos (RedDoorz Krishna Homestay), e fomos, e voltámos, a pé. Mais uma vez comemos bem, gostámos do lugar, e a conta foi barata. Depois de chegarmos ao hotel, arrumámos a trouxa para a partida no dia seguinte e não demorou muito até adormecermos.

Roupa lavada, engomada e perfumada.

Dia 13

Saímos do hotel por volta das 9 horas e apanhámos um bemo (o homólogo do microlet de Timor-Leste) para o aeroporto. Foi bastante engraçado porque fomos no meio de umas senhoras que se mostraram bastante curiosas, com risos e olhares sobre nós. Mas afinal o bemo não vai mesmo até ao aeroporto, passa numa avenida que fica ainda a uma distância considerável. Um motorista de táxi que passava percebeu que íamos para o aeroporto (o que não era de todo difícil de adivinhar), parou e lá fizemos mais um quilómetro de táxi, nem me lembro quanto pagámos, foi barato como tudo na Indonésia.

No aeroporto tomámos o pequeno-almoço e ficámos à espera do nosso voo para Labuan Bajo, nas ilha das Flores. Estávamos sentados no launch do aeroporto quando veio ter connosco o médico timorense que tinha viajado de Díli para Kupang no mesmo autocarro. Ia apanhar um voo para Jacarta, viu-nos e fez questão de nos falar. Que rapaz simpático. Uma meia-hora depois de vê-lo desaparecer na manga do aeroporto enquanto nos acenava, foi a nossa vez de descermos à pista para apanharmos o nosso avião a hélice, o qual fez uma primeira paragem em Bajawa, bem no centro da ilha das Flores, e pouco depois seguiu para o aeroporto internacional de Komodo, em Labuan Bajo, aonde chegámos por volta das 3 da tarde.

Se todos os voos fossem como este, não custavam nada (foto de Fla).

Saímos do aeroporto e fomos a pé até ao nosso alojamento, que fica a uns meros 500 metros, se tanto, no topo de uma colina sobre o aeroporto. Ficámos no Pieter Homestay, um alojamento familiar que deve o seu nome ao chefe de família, Pieter, o próprio, um sujeiro bastante esperto, sempre à espera de lucrar alguma coisa com os clientes; tirando isso, um tipo bastante simpático e prestável. As instalações não são más, mas o nosso quarto privado tinha uma característica assaz irritante: formigas. Umas formigas minúsculas que se metiam nos lençóis e nos prejudicavam o sono. O pequeno-almoço é bastante pobre e monótono: café ou chá, uma tacinha de frutas com quatro pedaços de melancia e outros tantos de abacaxi, e uma panqueca de banana. Todos os dias.

Depois de deixarmos as mochilas no quarto, fomos a pé à procura de algo para comermos. Descemos a íngreme rua e encontrámos, mesmo em frente ao aeroporto, um restaurante que haveria de ser o nosso local de refeições de todos os dias. Provavelmente, o melhor restaurante de Labuan Bajo. Descobrimo-lo por sorte, mas também, verdade seja dita, pela curiosidade que nos move — o motor que nos impulsiona nas viagens. O dito restaurante — que ocupa todo o primeiro andar de um centro comercial — tem vista privilegiada sobre o aeroporto e chama-se Zodiac Bajo.

Numa rua do centro de Labuan Bajo.

Ficámos por ali bastante tempo, voltámos ao alojamento, e umas horas depois regressámos. Sopas, saladas, massas, frutos do mar, sumos maravilhosos e muito mais — o menu é variado. E tudo é confecionado com esmero, tudo é gostoso de mais! E assim se passou mais um dia: a comer e descansar.

Dia 14

O Pieter trata de tudo o que os hóspedes necessitarem, desde passeios a aluguer de carros e motos, sempre na mira de ganhar a sua comissão, claro. Foi a ele que comprámos o nosso passeio ao Parque Nacional de Komodo, por 1.650.000 rupias por pessoa, incluindo almoço e taxa ambiental obrigatória. Tivemos direito a recibo, assinado pelo punho do próprio Pieter.

Assim, ainda antes das 7 da manhã, um motorista foi-nos buscar ao alojamento e, já com o pequeno-almoço do costume tomado, descemos ao cais de embarque no centro de Labuan Bajo. A nossa embarcação era super rápida, com 3 potentes motores, e a lotação de 24 lugares não estava esgotada, éramos apenas 12 passageiros a bordo — um casal catalão, um casal australiano, ainda outro casal japonês, duas indonésias, um japonês que viajava sozinho, um rapaz também a solo, sobre quem não lográmos descobrir a nacionalidade, e nós.

Embarcações prontas para os passeios no Parque Nacional de Komodo, manhã cedo.

Pelo caminho, quer na ida quer na volta, passámos por imensas embarcações tradicionais de dois mastros, construídas em madeira, que fazem passeios de 2 ou 3 dias, eventualmente mais, e que são uma opção muito atrativa para quem queira fruir do ambiente a bordo, relaxar, visitar os locais com mais tempo, ter uma experiência mais profunda do parque, por um preço que normalmente varia entre os 350 e os 450 dólares, tudo incluído (normalmente também fazem um vídeo personalizado sobre a viagem). A nossa opção não foi essa, por isso o nosso pequeno navio passava por essas embarcações a voar.

O primeiro local onde parámos, depois de uns 45 minutos a navegar a alta velocidade, foi a ilha de Padar. Chegámos ainda bastante cedo e tivemos cerca de uma hora para subir ao topo da montanha, ver a vista e descer pelo mesmo caminho, que inclui 825 degraus, fora as rampas de terra batida. É preciso estar minimamente em forma para fazer o trajeto. Lá de cima a vista é, de facto, magnífica. Quando descemos ficámos um pouco à espera que todo o pessoal do nosso grupo se reunísse, e aproveitei esse tempo para conversar com um senhor de Singapura que não tinha escalado a montanha por ter problemas num joelho. Foi interessante, pois confirmei algumas coisas que me tinham sido ditas por outro cidadão da cidade-estado de Singapura, quando lá estivéramos em 2018 (aqui).

Uma praia em tons de azul e rosa.

Depois de todos a bordo seguimos viagem para um praia, ainda na ilha de Padar: a Pink Beach. Quando nos aproximamos da praia começamos a perceber uma característica interessante: a areia tem um tom rosado, que varia consoante o ângulo, a distância, a hora do dia e a maré. Na verdade, a areia da praia não é rosada, o tom rosa advém de um coral chamado tubo-de-orgão vermelho que, quando morre, vai sendo quebrado pela ondulação e misturado à areia da praia. O barco fundeou junto à margem e logo que desembarcámos começámos a fruir das magníficas águas calmas, mornas e incrivelmente transparentes, podendo ver no leito do oceano várias espécies de peixes, pedrinhas e fragmentos do coral tubo-de-orgão. Ficámos cerca de uma hora na Pink Beach, nadámos, caminhámos, bebemos água de coco num barzinho e fotografámos cem vezes a praia antes de voltarmos ao barco.

A próxima paragem foi na ilha de Komodo, para vermos os dragões. Deu para perceber que eles estão habituados aos habitantes locais. Os turistas pagam para ver os dragões, os habitantes locais alimentam-os com o dinheiro do turismo e os dragões ficam por ali a dormitar, à sombra de uma árvore, posando para os turistas. Tudo certo, mas demasiado artificial. Supostamente, por causa do calor, os dragões têm de descansar à sombra para autoregularem a temperatura corporal. Parecem anestesiados, raramente se movimentando, e os turistas fazem filas para tirarem fotos junto deles.

Dragão de Komodo.

Mais interessante que os dragões de Komodo são as casas palafitadas e as pessoas que nelas vivem, sobretudo as incontáveis crianças a quem calhou nascer neste lugar único. Vimos dragões-bebé a passear pelas paredes exteriores das casas, sem qualquer espécie de medo dos humanos, já adaptados aos cliques ininterruptos das câmaras fotográficas dos visitantes, tal como as nossas crianças já nascem com aptidão genética para usar o telemóvel. Mas a sensação é que as crianças aqui são mais felizes: o contacto com a natureza, com outros seres vivos, ajuda-as a uma melhor integração no cosmos. Íamos pensando nisto enquanto regressávamos à nossa embarcação rápida, onde pouco depois almoçámos. Além do almoço, havia bebidas a bordo: água, regrigerantes e cerveja. Tudo estava incluído no preço já pago.

A próxima paragem foi numa praia que aparece e desaparece consoante a maré. Havia pessoas a fazer snorkeling, mas não foi o caso do nosso grupo. O local é lindo, apenas uma língua comprida de areia e o oceano claro todo à volta. E foi então que algo curioso aconteceu: de repente, sentimos algo a mordiscar-nos uma perna e demos um salto surpreendidos, um pouco mais à frente outra mordiscadela; foi então que desatámos a nadar até a língua de areia, evitando andar (o local tinha pé) e movimentando energicamente o corpo para não sermos mordidos. Depois de várias mordiscadelas fica-se com aquela sensação incomodativa de que uma nova mordiscadela pode acontecer a qualquer momento. E foi o que aconteceu.

Uma criança de Komodo.

Procurámos chegar rapidamente ao barco. Curiosamente, a Fla não foi mordida, mas o catalão queixou-se do mesmo problema. Perguntámos ao guia indonésio que tipo de peixe (seria mesmo um peixe?) era aquele e ele disse-nos que era um peixe pequeno, vermelho, cujo nome não memorizámos. Depois da praia que desaparece e aparece, deslocámo-nos para uma primeira zona de snorkeling, vimos corais e peixes variados, mas a melhor parte estava reservada para uma segunda zona, com bastante corrente, que verdadeiramente nos deslumbrou.

Enquanto deslizávamos rapidamente, impulsionados pela corrente, víamos em baixo uma miríade de peixes coloridos, tartarugas, corais e até mergulhadores com garrafas de oxigénio. Não demos pelo tempo passar. O barco ía-nos acompanhando, mas às vezes esquecíamo-nos de levantar a cabeça e afastávamo-nos ora do grupo ora da embarcação porque perdíamos a noção do tempo. Quando levantávamos a cabeça ouvíamos o guia a chamar-nos. No final, reunimo-nos todos e subimos para o barco, iniciando o regresso a alta velocidade até Labuan Bajo, aonde chegámos quase ao final do dia. Levaram-nos ao Pieter House e, pouco depois, descemos ao Zodiac Bajo para jantarmos. Tinha sido um dia em cheio.

Dia 15

Na praia de Jalan-Ké.

Hoje dormimos até mais tarde. Depois do pequeno-almoço costumeiro, alugámos uma scooter e decidimos sair da cidade. Fomos para sul, sem rumo definido, apenas à descoberta, como tantas vezes gostamos de fazer. Tentámos ir o máximo possível junto à costa. A primeira paragem foi numa pequena e remota aldeia de pescadores chamada Warloka. Adentramo-nos pela aldeia e pelos vistos fomos alterar a rotina de seus habitantes, tornando-nos o centro das atenções — o que fariam dois desconhecidos, nitidamente estrangeiros, a circular dentro da aldeia numa scooter? Um habitante que arranhava o inglês veio ter connosco, deu-nos preciosas informações, incluindo que estávamos a poucos quilómetros — víamo-la perfeitamente, mas não descortinámos que era uma ilha — de Rinca.

Despedimo-nos e continuamos para sul. Parámos numa praia deserta, que não achamos no mapa, chamada Jalan-Ké Pantai, mas não nos banhámos. Continuámos a descer, desta vez até outra pequena aldeia, onde nos deparámos com um 3 guardas florestais, na verdade estudantes universitários a estagiarem como guardas florestais, que nos disseram, face à proximidade de Rinca (menos de um quilómetro em alguns pontos), que por vezes são avistados nesta zona dragões de komodo. Daí os sinais que avistáramos na estrada. Explicaram-nos que os dragões são bons nadadores, tais como os crocodilos, e que por vezes passam para esta lado.

Em Soknar.

Os habitantes destas pequenas aldeias são maioritariamente muçulmanos, numa ilha das Flores esmagadoramente católica. Independentemente disso, todos são acolhedores e simpáticos. Esta aldeia chama-se Soknar. Deambulámos por ali uns minutos, percorremos um pontão enorme com travessas de madeira (muitas quebradas), erguido sobre altas e esguias estacas, observámos umas plantas que crescem no leito do mar como estalagmites, falámos com uma menina que aparentemente vinha da escola e voltámos a Labuan Bajo.

Pouco depois de entrarmos na cidade, numa das movimentadas ruas, vimos uma pessoa segurando uma moto parada na via, e ao lado uma grande mancha de óleo. Tudo isto em movimento, pois só vimos a mancha de óleo um metro antes de passarmos por cima dela. Instintivamente procurei ir sempre com a moto direita e travei muito devagar. Mesmo assim a scooter resvalou, mas como estávamos quase parados já, não caímos. Disse à Fla para desmontar e, com extremo cuidado, entrei numa travessa de terra batida onde circulei para trás e para a frente, curvei, tentei ao máximo que a terra cobrisse o óleo dos pneus. Finalmente, ainda com cuidado, disse à Fla para montar. Quando saímos da travessa e íamos a passar pela mesma rua onde estava o óleo, vimos uma moto e algumas peças quebradas no chão, enquanto um sujeito se levantava, olhando e apontando desolado para a mancha de óleo.

Partindo da aldeia de Soknar.

Seguimos, ainda com cuidado, e fomos almoçar a um bar muito conhecido da cidade, o SNIVV, frequentado tanto por locais como por turistas, e comemos muito bem, como de costume. Depois fomos até ao Pieter descansar um pouco e ao final da tarde deslocámo-nos na scooter até ao sopé de uma colina de onde se pode observar o pôr do sol. Chegámos cedo e fomos dos primeiros a subir ao topo da colina. Depois começou achegar mais gente. Faz sempre uma enorme impressão ver aquelas pessoas que gostam de tirar fotos e selfies à beira do precipício, pelo menos a mim, por isso optamos por nos distrair e olhar para o lado. O sol fez-nos esperar mais do que o previsto, mas lá se pôs, indiferente aos olhares das dezenas de pessoas presentes naquele pequeno cume em Labuan Bajo, cujo curioso nome é Bukit Amelia.

À noite fomos jantar ao Zodiac Bajo, como de costume, já éramos conhecidos e todos nos cumprimentavam, incluindo os cozinheiros. E assim se passou mais um dia. Só que não. Quando fui para a cama comecei a sentir um desconforto e não era só das formigas. Estava a sentir a garganta a coçar, sentia ora frio ora calor, estava extremamente desconfortável e deduzi que estaria doente. A parte boa é que estávamos praticamente no fim da viagem e teria sido muito pior se tivéssemos adoecido no início. Isto animou-nos. Mas havia uma parte pior pela frente: a extenuante viagem de regresso, tendo de passar por tempos longuíssimos de voos e esperas em aeroportos, doente, febril e impaciente. Aos trancos e barrancos, lá adormecemos.

Pôr do sol visto do Bukit Amelia.

Dia 16

Acordámos cedo para fotografarmos Labuan Bajo ao amanhecer. Voltámos ao alojamento e devolvemos a scooter. Tínhamos decidido percorrer o centro da cidade a pé e assim fizemos. Na igreja católica Stella Maris estava a decorrer uma missa e simultaneamente a primeira comunhão de várias crianças. Vimos o início da liturgia e ficámos surpreendidos com a entrada dos sacerdotes, acompanhada por música celestial interpretada por um excelente coro e um organista, bem como por 4 meninas com trajes tradicionais, dançando à frente dos sacerdotes e do seu séquito, enquanto estes se dirigiam ao altar.

Percebemos que a missa ia durar bastante tempo, então fomos passear um pouco pelo centro da cidade, e regressámos uns 45 minutos depois. Desta vez entrámos na igreja e ficámos até ao fim da missa. A bela música ouvia-se regularmente, acompanhada de quando em vez pelas danças das graciosas meninas. Quando chegou a hora da comunhão, ficámos ainda mais surpreendidos, pois, exceto nós, toda a gente dentro da igreja, que estava cheia, comungou, num ato que demorou uma inteira hora. A fé desta gente comoveu-nos.

Com as meninas dançarinas na igreja Stella Maris.

No final da missa falámos com várias pessoas e algumas delas convidaram-nos para a festa do menino ou menina que fazia a primeira comunhão, a qual iria durar todo o dia e grande parte da noite. A festa faz-se na parte exterior das casas, que geralmente têm um pátio onde os convidados se reúnem. Há muita comida e muita bebida, e às vezes mata-se um animal de grande porte: um boi, um porco ou outro qualquer. À entrada da propriedade colocam um grande cartaz com o nome e uma foto gigante da criança. Há quem lance fogo de artifício, e a música sai de potentes colunas de som, ininterruptamente. Luzes psicadélicas rompem a escuridão da noite até altas horas.

Neste dia ainda passámos pelo SNIVV para tomarmos umas bebidas e depois almoçámos noutro restaurante no centro de Labuan Bajo, frequentado por gente local, o Bakso Flobamor. Não achámos nada de especial na comida, apesar de não ser má, mas achámos que era incrivelmente barato. À noite jantámos no sítio do costume. Quando regressámos ao Pieter passámos por duas casas onde se fazia a festa de meninos que tinham feito a primeira comunhão, e mais uma vez fomos convidados a entrar. Recusámos amavelmente.

No SNIVV.

Dias 17, 18 e 19

Já se sabe que a noite é sempre a pior parte do dia quando se está doente, por isso dormimos mal. Tomámos o costumeiro café da manhã e regressámos ao quarto para descansarmos e relaxarmos ao máximo, pois sabíamos que teríamos uma viagem extremamente cansativa pela frente. Mas não deu para descansar pois a Fla deu por falta dos óculos de sol e lembrou-se que deveriam estar no SNIVV, porque não se lembrava de os ter usado depois de termos lá estado no dia anterior. Dissemos ao Pieter o que se passava e ele ofereceu-se de imediato pra nos levar ao bar de carro. Os óculos estavam lá guardados. Voltámos. No total o Pieter deve ter gastado uns 15 minutos, e quando lhe perguntámos o preço do serviço, pediu-nos 100 mil rupias. Achámos um abuso mas pagámos e não dissemos nada.

Pouco tempo depois, seriam uma 11 e 30, saímos com as mochilas às costas e dirigimo-nos pela última vez ao Zodiac Bajo. Almoçámos e despedimo-nos dos nossos amigos e amigas que ali trabalham e que tão bem nos trataram. Até ao aeroporto são uns 5 minutos a pé, e lá fomos, devagarinho, pouco animados com os quatro voos e cinco aeroportos que tínhamos pela frente.

Coral tubo-de-órgão na Pink Beach.

Para quem já fez tantas viagens, o mínimo que se pode dizer é que esta foi mal planeada. E é verdade que de viagem para viagem sempre aprendemos algo de novo. Não voltaremos a fazer uma viagem tão longa, de volta a casa, sem descansar em algum lugar pelo meio. De Labuan Bajo fomos para Kuala Lumpur; daqui para Nova Deli; de Nova Deli para Paris (Charles de Gaulle); e depois de apanharmos um Uber para Orly, ainda esperámos umas nove horas até o voo da Tansavia para Faro. Foram quase 48 horas de viagem. Em Orly, a Fla verificou que também estava doente. Como se diz na gíria, chegámos a casa todos empenados. Dois dias depois a Fla comprou um destes testes modernos, que deu positivo para a influenza, ou seja, apanhámos gripe.

Suspeitamos que o vírus me tenha apanhado no passeio a Komodo, provavelmente quando usei a máscara de snorkeling, e depois passei-o a Fla. Felizmente que isto aconteceu no final da viagem, a maior parte da mesma correu muitíssimo bem e este episódio não apaga os grandes momentos que passámos. Moral da história: não há viagens que não valham a pena.

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Autor: Jorge Costa

Fez percursos académicos nas áreas das Filosofia, Comunicação Social, Economia, Gestão dos Transportes Marítimos e Gestão Portuária, e estuda outras disciplinas científicas. Interessa-se igualmente por Arte, nas suas diversas manifestações, e também por viagens. Gosta de jogar xadrez. O seu autor preferido, desde que se lembra, é Karl Popper. Viveu em locais diversos, sobretudo em Portugal e no Brasil, pelo que se considera um cidadão do mundo. Atualmente vive em Cabanas, no Sotavento algarvio. Gosta de revisitar, sempre que pode, a bela cidade de Lisboa e, nela, o bairro onde nasceu, Alfama, o mais popular da capital, de traça árabe, debruçado sobre o Tejo — esse rio mítico, imortalizado por Camões e Pessoa, poetas maiores da Língua Portuguesa. Não é, porém, um bairrista, característica que deplora, a par dos clubismo, partidarismo e nacionalismo. Ama a Liberdade.