Ilha das Flores e Parque Nacional de Komodo, Indonésia

Ilha de Padar, no Parque Nacional de Komodo.

Dia 12

Hoje foi dia de descanso. Tinham-nos dito que Kupang é uma cidade pouco interessante, e é verdade. As praias são pouco atrativas e, por isso, o turismo está pouco desenvolvido aqui. No entanto, Kupang é densamente povoada e há um enorme movimento de pessoas nas ruas, fruto da intensa atividade económica. Uma vez que o turista não tem muito que fazer, aproveitámos para lavar roupa numa lavandaria local. Pagámos o equivalente a 2 euros, para mais de quatro quilos de roupa lavada, secada e engomada.

Isto conduz-nos a uma dica importante: poupa-se muito dinheiro quando se viaja com apenas bagagem “de mão”, por exemplo uma pequena mochila, sobretudo se voarmos em companhias de low-cost; além disso, é muito confortável e prático: andamos mais leves e com as mãos livres, o que é mais importante do que por vezes se pensa. Para que isto aconteça, é importante reservar um dia (ou mais, se for o caso) para lavar a roupa, algo que, hoje em dia, se revela muito fácil.

No Sotis Hotel (foto de Fla).

Enquanto a roupa era lavada, fomos deambulando à procura de um lugar para almoçar. Encontrámo-lo no Sotis Hotel Boutique & Resort, e na sua esplanada sobre o mar. É um sítio tão agradável que nos deixámos ficar muito mais tempo do que seria estritamente necessário. Come-se muito bem na Indonésia. Aqui usam-se vários tipos de couve parecidos com a acelga, provavelmente da mesma família, mas ligeiramente diferentes: pak choi e sawi hijau, entre outros. Nos restaurantes confecionam-se grandes panelões de caldo de carne, o qual é vertido a ferver numa tigela que já contém todo o tipo de ingredientes, incluindo alguma dessas espécies de acelgas, omnipresentes na cozinha indonésia.

Era domingo, a cidade estava tranquila, e depois de irmos recolher a nossa roupa à lavandaria, fomos para o hotel descansar. Ao final do dia saímos e fomos a um restaurante muito bem classificado no Google, situado sobre o mar, numa zona propícia para se observar o pôr do sol. O Kapal Ikan fica a um quilómetro e meio do hotel onde estávamos (RedDoorz Krishna Homestay), e fomos, e voltámos, a pé. Mais uma vez comemos bem, gostámos do lugar, e a conta foi barata. Depois de chegarmos ao hotel, arrumámos a trouxa para a partida no dia seguinte e não demorou muito até adormecermos.

Roupa lavada, engomada e perfumada.

Dia 13

Saímos do hotel por volta das 9 horas e apanhámos um bemo (o homólogo do microlet de Timor-Leste) para o aeroporto. Foi bastante engraçado porque fomos no meio de umas senhoras que se mostraram bastante curiosas, com risos e olhares sobre nós. Mas afinal o bemo não vai mesmo até ao aeroporto, passa numa avenida que fica ainda a uma distância considerável. Um motorista de táxi que passava percebeu que íamos para o aeroporto (o que não era de todo difícil de adivinhar), parou e lá fizemos mais um quilómetro de táxi, nem me lembro quanto pagámos, foi barato como tudo na Indonésia.

No aeroporto tomámos o pequeno-almoço e ficámos à espera do nosso voo para Labuan Bajo, na ilha das Flores. Estávamos sentados no launch do aeroporto quando veio ter connosco o médico timorense que tinha viajado de Díli para Kupang no mesmo autocarro. Ia apanhar um voo para Jacarta, viu-nos e fez questão de estar uns minutos à conversa connosco. Rapaz simpático. Uma meia-hora depois de vê-lo desaparecer na manga do aeroporto, enquanto nos acenava, foi a nossa vez de descermos à pista para apanharmos um avião a hélice, o qual fez uma primeira paragem em Bajawa, bem no centro da ilha das Flores, e pouco depois seguiu para o aeroporto internacional de Komodo, em Labuan Bajo, aonde chegámos por volta das 3 da tarde.

Se todos os voos fossem curtinhos como este, não custavam nada (foto de Fla).

Saímos do aeroporto e fomos a pé até ao nosso alojamento, que fica a uns meros 500 metros, se tanto, no topo de uma colina sobre o aeroporto. Ficámos no Pieter Homestay, um alojamento familiar que deve o seu nome ao chefe de família, Pieter, o próprio, um sujeito bastante esperto, sempre à espera de lucrar alguma coisa com os clientes; tirando isso, um tipo bastante simpático e prestável. As instalações não são más, mas o nosso quarto privado tinha uma característica assaz irritante: formigas. Umas formigas minúsculas que se metem nos lençóis e nos prejudicam o sono. O pequeno-almoço é bastante pobre e monótono: café ou chá, uma tacinha de frutas com quatro pedaços de melancia e outros tantos de abacaxi, e uma pequena panqueca de banana. Todos os dias.

Depois de deixarmos as mochilas no quarto, fomos a pé à procura de algo para comermos. Descemos a íngreme rua e encontrámos, mesmo em frente ao aeroporto, um restaurante que haveria de ser o nosso local de refeições de todos os dias. Provavelmente, o melhor restaurante de Labuan Bajo. Descobrimo-lo por sorte, mas também, verdade seja dita, pela curiosidade que nos move — o motor que nos impulsiona nas viagens. O dito restaurante — que ocupa todo o primeiro andar de um centro comercial — tem vista privilegiada sobre o aeroporto e chama-se Zodiac Bajo.

Numa rua do centro de Labuan Bajo.

Ficámos por ali bastante tempo, voltámos ao alojamento, e umas horas depois regressámos. Sopas, saladas, massas, frutos do mar, sumos maravilhosos, entre outros — o menu é variado. E tudo é confecionado com esmero, tudo é gostoso de mais. E assim se passou mais um dia: a comer e descansar.

Dia 14

O Pieter trata de tudo o que os hóspedes necessitem, desde passeios turísticos a aluguer de carros e motos, sempre na mira de ganhar a sua comissão, claro. Foi a ele que comprámos o nosso passeio ao Parque Nacional de Komodo, por 1.650.000 rupias por pessoa, incluindo almoço e taxa ambiental obrigatória. Tivemos direito a recibo, assinado pelo punho do próprio Pieter.

Assim, ainda antes das 7 da manhã, um motorista foi-nos buscar ao alojamento e, já com o pequeno-almoço do costume tomado, descemos ao cais de embarque no centro de Labuan Bajo. A nossa embarcação era super rápida, com 3 potentes motores, e a lotação de 24 lugares não estava esgotada, éramos apenas 12 passageiros a bordo — um casal catalão, um casal australiano, ainda outro casal japonês, duas raparigas indonésias, um japonês que viajava sozinho, um rapaz também a solo, sobre quem não lográmos descobrir a nacionalidade, e nós.

As tradicionais embarcações de madeira conhecidas por Phinisi. A técnica de construção destes navios, outrora operando no comércio e hoje no turismo de luxo, foi reconhecida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade. (Foto de Fla).

Pelo caminho, quer na ida quer na volta, passámos por imensas embarcações tradicionais de dois mastros, construídas em madeira, que fazem passeios de 2 ou 3 dias, eventualmente mais, e que são uma opção muito atrativa para quem queira fruir do ambiente a bordo, relaxar, visitar os locais com mais tempo, ter uma experiência mais profunda do parque natural, por um preço que normalmente varia entre os 350 e os 450 dólares, tudo incluído (normalmente também fazem um vídeo personalizado sobre o passeio). A nossa opção não foi essa, por isso o nosso pequeno navio passava por essas embarcações a voar.

O primeiro local onde parámos, depois de uns 45 minutos a navegar a alta velocidade, foi a ilha de Padar. Chegámos ainda bastante cedo e tivemos cerca de uma hora para subir ao topo da montanha, ver a vista e descer pelo mesmo caminho, que inclui 825 degraus, e várias rampas de terra batida. É preciso estar minimamente em forma para fazer o trajeto. Lá de cima a vista é, de facto, magnífica. Quando descemos ficámos um pouco à espera que todo o pessoal do nosso grupo se reunísse, e aproveitei esse tempo para conversar com um senhor de Singapura que não tinha escalado a montanha por ter problemas num joelho. Foi interessante, pois confirmei algumas coisas que me tinham sido ditas por outro cidadão da cidade-estado de Singapura, quando lá estivéramos em 2018 (aqui).

Uma praia em tons de azul e rosa.

Depois de todos a bordo seguimos viagem para um praia, ainda na ilha de Padar: a Pink Beach. Quando nos aproximamos da praia começamos a perceber uma característica interessante: a areia tem um tom rosado, que varia consoante o ângulo, a distância, a hora do dia e a maré. Na verdade, a areia da praia não é rosada, o tom rosa advém de um coral chamado tubo-de-orgão vermelho que, quando morre, vai sendo quebrado pela ondulação e misturado à areia da praia. O barco fundeou junto à margem e logo que desembarcámos começámos a fruir das magníficas águas calmas, mornas e incrivelmente transparentes, podendo ver no leito do oceano várias espécies de peixes, pedrinhas e fragmentos do coral tubo-de-orgão. Ficámos cerca de uma hora na Pink Beach, nadámos, caminhámos, bebemos água de coco num barzinho e fotografámos vezes sem conta a praia antes de voltarmos ao barco.

A próxima paragem foi na ilha de Komodo, para vermos os dragões. Deu para perceber que eles estão habituados aos habitantes locais. Os turistas pagam para ver os dragões, os habitantes locais alimentam-os com o dinheiro do turismo, e os dragões ficam por ali a dormitar, à sombra de uma árvore, posando para os turistas. Tudo certo, mas demasiado artificial. Supostamente, por causa do calor, os dragões têm de descansar à sombra para autoregularem a temperatura corporal. Parecem anestesiados, raramente se movimentando, e os turistas fazem filas para tirarem fotos com eles.

Dragão de Komodo.

Mais interessante que os dragões de Komodo são as casas palafitadas e as pessoas que nelas vivem, sobretudo as incontáveis crianças a quem calhou por sorte nascer neste lugar único. Vimos dragões-bebé a passear pelas paredes exteriores das casas, sem qualquer espécie de medo dos humanos, já adaptados aos cliques constantes das câmaras fotográficas dos visitantes, tal como as nossas crianças já nascem com aptidão genética para usar o telemóvel. Mas a sensação é que as crianças aqui são mais felizes: o contacto com a natureza, com outros seres vivos, ajuda-as a uma melhor integração no cosmos. Íamos pensando nisto enquanto regressávamos à nossa embarcação rápida, onde pouco depois almoçámos. Também havia bebidas a bordo: água, refrigerantes e cerveja. Tudo estava incluído no preço já pago.

A próxima paragem foi numa praia que aparece e desaparece consoante a maré, a Taka Makassar. Havia pessoas a fazer snorkeling, mas não foi o caso do nosso grupo. O local é lindo, apenas uma língua comprida de areia e o oceano claro todo à volta. E foi então que algo curioso aconteceu: de repente, sentimos algo a mordiscar-nos uma perna e demos um salto surpreendidos, um pouco mais à frente outra mordiscadela; foi então que desatámos a nadar até a língua de areia, evitando andar (o local tinha pé) e movimentando energicamente o corpo para não sermos mordidos. Depois de várias mordiscadelas fica-se com aquela sensação incomodativa de que uma nova mordiscadela pode acontecer a qualquer momento. E foi o que aconteceu.

Uma criança de Komodo.

Procurámos chegar rapidamente ao barco. Curiosamente, a Fla não foi mordida, mas o jovem catalão queixou-se do mesmo problema. Perguntámos ao guia indonésio que tipo de peixe (seria mesmo um peixe?) era aquele e ele disse-nos que era um peixe pequeno, vermelho, cujo nome não memorizámos. Depois da praia que desaparece e aparece, deslocámo-nos para uma primeira zona de snorkeling, vimos corais e peixes variados, mas a melhor parte estava reservada para uma segunda zona, com uma corrente forte, que verdadeiramente nos deslumbrou.

Enquanto deslizávamos rapidamente, impulsionados pela corrente, víamos em baixo uma miríade de peixes coloridos, tartarugas, corais e até mergulhadores com garrafas de oxigénio. Não demos pelo tempo passar. O barco ía-nos acompanhando, mas às vezes esquecíamo-nos de levantar a cabeça e afastávamo-nos ora do grupo ora da embarcação porque perdíamos a noção do tempo. Quando levantávamos a cabeça ouvíamos o guia a chamar-nos. No final, reunimo-nos todos e subimos para o barco, iniciando o regresso a alta velocidade até Labuan Bajo, aonde chegámos quase no final do dia. Levaram-nos ao Pieter House e, pouco depois, descemos ao Zodiac Bajo para jantarmos. Tinha sido um dia em cheio.

Dia 15

Na praia de Jalan-Ké.

Hoje dormimos até mais tarde. Depois do pequeno-almoço costumeiro, alugámos uma scooter e decidimos sair da cidade. Fomos para sul, sem rumo definido, apenas à descoberta, como tantas vezes gostamos de fazer. Tentámos ir o máximo possível junto à costa. A primeira paragem foi numa pequena e remota aldeia de pescadores chamada Warloka. Adentramo-nos pela aldeia e pelos vistos fomos alterar a rotina de seus habitantes, tornando-nos o centro das atenções — o que fariam dois desconhecidos, nitidamente estrangeiros, a circular dentro da aldeia numa scooter? Um habitante que arranhava o inglês veio ter connosco, deu-nos preciosas informações, incluindo que estávamos a poucos quilómetros de Rinca — víamo-la perfeitamente, mas não tínhamos descortinado que era uma ilha.

Despedimo-nos e continuamos para sul. Parámos numa praia deserta, que não achamos no mapa, chamada Jalan-Ké Pantai, mas não nos banhámos. Continuámos a descer, desta vez até outra pequena aldeia, onde nos deparámos com um 3 guardas florestais, na verdade estudantes universitários a estagiarem como guardas florestais, que nos disseram, face à proximidade de Rinca (menos de um quilómetro em alguns pontos), que por vezes são avistados nesta zona dragões de komodo. Daí os sinais que avistáramos na estrada. Explicaram-nos que os dragões são bons nadadores, tais como os crocodilos, e que por vezes passam para este lado.

Em Soknar.

Os habitantes destas pequenas aldeias são maioritariamente muçulmanos, numa ilha das Flores esmagadoramente católica. Independentemente disso, todos são acolhedores e simpáticos. Esta aldeia chama-se Soknar. Deambulámos por ali uns minutos, percorremos um pontão enorme com travessas de madeira (muitas quebradas), erguido sobre altas e esguias estacas, observámos umas plantas que crescem no leito do mar como estalagmites, falámos com uma menina que aparentemente vinha da escola, e voltámos a Labuan Bajo.

Pouco depois de entrarmos na cidade, numa das movimentadas ruas, vimos uma pessoa segurando uma moto parada na berma, e ao lado uma grande mancha de óleo. Tudo isto enquanto nos movimentávamos, pois só vimos a mancha de óleo um metro antes de passarmos por cima dela. Instintivamente, procurei ir sempre com a moto direita e travei muito devagar. Mesmo assim a scooter resvalou, mas como já estávamos quase parados, não caímos. Disse à Fla para desmontar e, com extremo cuidado, entrei numa travessa de terra batida onde circulei para trás e para a frente, curvei, tentei ao máximo que a terra cobrisse o óleo dos pneus. Finalmente, ainda com cuidado, disse à Fla para montar. Quando saímos da travessa e íamos a passar pela mesma rua onde estava o óleo, vimos uma moto e algumas peças quebradas no chão, enquanto um sujeito se levantava, olhando e apontando desolado para a mancha de óleo.

Partindo da aldeia de Soknar.

Seguimos, ainda com cuidado, e fomos almoçar a um bar muito conhecido da cidade, o SNIVV, frequentado tanto por locais como por turistas, e comemos muito bem, como de costume. Depois fomos até ao Pieter descansar um pouco e ao final da tarde deslocámo-nos na scooter até ao sopé de uma colina de onde se pode observar o pôr do sol. Chegámos cedo e fomos dos primeiros a subir ao topo, por um íngreme trilho. Depois começou a chegar mais gente. Faz sempre uma enorme impressão, pelo menos a nós, ver aquelas pessoas que gostam de tirar fotos e selfies à beira do precipício, por isso optamos por nos distrair e olhar para o lado. O sol fez-nos esperar mais do que o previsto, mas lá se pôs, indiferente aos olhares das dezenas de pessoas presentes naquele pequeno cume em Labuan Bajo, cujo curioso nome é Bukit Amelia.

À noite fomos jantar ao Zodiac Bajo, como de costume, já éramos conhecidos e todos nos cumprimentavam, incluindo os cozinheiros. E assim se passou mais um dia. Só que não. Quando fui para a cama comecei a sentir um desconforto e não era só das formigas. Estava a sentir a garganta a coçar, sentia ora frio ora calor, estava extremamente desconfortável e deduzi que estaria doente. A parte boa é que estávamos praticamente no final da viagem e teria sido muito pior se tivéssemos adoecido no início. Isto animou-nos. Mas havia uma parte pior pela frente: a extenuante viagem de regresso, durante a qual teríamos de passar por tempos longuíssimos de voos e esperas em aeroportos, pacientes e impacientes. Aos trancos e barrancos, lá adormecemos.

Pôr do sol visto do Bukit Amelia.

Dia 16

Acordámos cedo para fotografarmos Labuan Bajo ao amanhecer. Voltámos ao alojamento e devolvemos a scooter. Tínhamos decidido percorrer o centro da cidade a pé e assim fizemos. Na igreja católica Stella Maris estava a decorrer uma missa e simultaneamente a primeira comunhão de várias crianças. Vimos o início da liturgia e ficámos surpreendidos com a entrada dos sacerdotes, acompanhada por música celestial interpretada por excelentes coro e organista, bem como por quatro meninas com trajes tradicionais, dançando à frente dos sacerdotes e do seu séquito, enquanto estes se dirigiam ao altar.

Percebemos que a missa ia durar bastante tempo, então fomos passear um pouco pelo centro da cidade, e regressámos uns 45 minutos depois. Desta vez entrámos na igreja e ficámos até ao fim da missa. A bela música ouvia-se regularmente, acompanhada de quando em vez pelas danças das graciosas meninas. Quando chegou a hora da comunhão, ficámos ainda mais surpreendidos, pois, exceto nós, toda a gente dentro da igreja, que estava cheia, comungou, num ato que demorou uma hora inteira. A fé desta gente comoveu-nos.

Com as meninas dançarinas na igreja Stella Maris.

No final da missa falámos com várias pessoas e algumas delas convidaram-nos para a festa do menino ou menina que fazia a primeira comunhão, a qual iria durar todo o dia e grande parte da noite. A festa faz-se na parte exterior das casas, que geralmente têm um pátio onde os convidados se reúnem. Há muita comida e muita bebida, e às vezes mata-se um animal de grande porte: um boi, um porco ou outro qualquer. À entrada da propriedade colocam um grande cartaz com o nome e uma foto gigante da criança. Há quem lance fogo de artifício, e a música sai de potentes colunas de som, ininterruptamente. Luzes psicadélicas rompem a escuridão da noite até altas horas.

Neste dia ainda passámos pelo SNIVV para tomarmos umas bebidas e depois almoçámos noutro restaurante no centro de Labuan Bajo, frequentado por gente local, o Bakso Flobamor. Não achámos nada de especial na comida, apesar de não ser má, mas achámos que era incrivelmente barato. À noite jantámos no sítio do costume. Quando regressámos ao Pieter passámos por duas casas onde se fazia a festa de meninos que tinham feito a primeira comunhão, e mais uma vez fomos convidados a entrar. Recusámos amavelmente.

No SNIVV.

Dias 17, 18 e 19

Já se sabe que a noite é sempre a pior parte do dia quando se está doente, por isso dormimos mal. Tomámos o costumeiro café da manhã e regressámos ao quarto para descansarmos e relaxarmos ao máximo, pois sabíamos que teríamos uma viagem extremamente cansativa pela frente. Mas não deu para descansar pois a Fla apercebeu-se que os seus óculos de sol tinham desaparecido e lembrou-se que deveriam estar no SNIVV, porque não se lembrava de os ter usado depois de termos lá estado no dia anterior. Dissemos ao Pieter o que se passava e ele ofereceu-se de imediato para nos levar ao bar de carro. Os óculos estavam lá guardados. Voltámos. No total o Pieter deve ter ocupado nesta tarefa uns 15 minutos (e meio litro de gasolina), e quando lhe perguntámos o preço do serviço, pediu-nos 100 mil rupias. Achámos um abuso mas pagámos e não dissemos nada.

Pouco tempo depois, seriam uma 11 e 30, saímos com as mochilas às costas e dirigimo-nos pela última vez ao Zodiac Bajo. Almoçámos e despedimo-nos dos nossos amigos e amigas que ali trabalham e que tão bem nos trataram. Até ao aeroporto são uns 5 minutos a pé, e lá fomos, devagarinho, pouco animados com a perspetiva dos quatro voos e os cinco aeroportos que tínhamos pela frente.

Coral tubo-de-órgão na Pink Beach.

Para quem já fez tantas viagens como nós, o mínimo que se pode dizer é que esta foi mal planeada. E é verdade que de viagem para viagem sempre aprendemos algo de novo. Não voltaremos a fazer uma viagem tão longa, de volta a casa, sem descansar em algum lugar pelo meio. De Labuan Bajo fomos para Kuala Lumpur; daqui para Nova Deli; de Nova Deli para Paris (Charles de Gaulle); e depois de apanharmos um Uber para Orly, ainda esperámos umas nove horas até o voo da Tansavia para Faro. Foram quase 48 horas de viagem, no total. Em Orly, a Fla verificou que também estava doente. Como se diz na gíria, chegámos a casa empenados. Dois dias depois a Fla comprou um destes testes modernos, que deu positivo para a influenza, ou seja, apanhámos gripe.

Suspeitamos que o vírus me tenha apanhado no passeio a Komodo, provavelmente quando usei a máscara de snorkeling, e depois passei-o a Fla. Felizmente que isto aconteceu no final da viagem, a maior parte da mesma correu muitíssimo bem e este episódio não apaga os grandes momentos que passámos. Agora podemos dizer, como moral desta história: não há viagens que não valham a pena.

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Timor-Leste — 2026

A praia do Cristo-Rei vista do próprio Cristo-Rei, em Díli.

Os timorenses têm orgulho do seu país. Cozinham muito bem. São simpáticos e tímidos. Falam muito mal línguas estrangeiras, incluindo o português, que é língua oficial. São maioritariamente pobres, mas são também um povo com futuro, com uma taxa de natalidade entre as mais elevadas do mundo e uma idade média de 19 anos. O próprio país, enquanto estado independente, é jovem: 24 anos. Aqui bebe-se um dos melhores cafés do mundo — mas visitar Timor-Leste não é qualquer um.

Em primeiro lugar, chegar a esta terra remota não é tarefa fácil. Partindo de Portugal, ou da maior parte dos países do globo, têm de se apanhar vários voos — quatro, no nosso caso.

Em segundo lugar, aqui chegados, confrontamo-nos com uma série de dificuldades, e a língua não é certamente a maior delas. Em Timor-Leste, excluindo algumas lojas na zona mais chique de Díli, não se aceitam pagamentos com cartões bancários. Por isso é preciso ter sempre dinheiro disponível, em espécie. E convém que se aterre já com bastantes dólares no bolso (a única moeda aceite em Timor) porque também não é fácil sacar dinheiro nos ATMs. Os únicos que realmente funcionam para os portugueses são os que se encontram nas instalações do BNU Timor (atualmente pertença do grupo CGD), bem perto do Palácio do Governo e do Parlamento, ou na zona do Timor Plaza, pelo que é melhor fornecer-se aí se pensa viajar para fora de Díli, incluindo a deslumbrante ilha de Jaco.

A belíssima praia de Jaco.

E é aí que surge nova complicação. As estradas em torno de Díli encontram-se em bom estado (embora não seja de excluir uma outra surpresa pelo caminho), por exemplo a rodovia que vai até Lautém, passando por Baucau, é bastante aceitável, mas se quisermos continuar para Leste, como foi nosso caso, aí entramos num mundo completamente diferente e a condução torna-se verdadeiramente difícil. Este é um real problema para quem queira visitar a ilha de Jaco, sem dúvida, em termos de praias, o lugar mais bonito de todo o Timor-Leste e, pelo menos para nós, um destino imperdível.

Conhecemos várias pessoas, turistas como nós, que não foram a Jaco devido às difíceis condições de acesso. Para se chegar lá de transporte público são necessários no mínimo 4 dias para ir e voltar. Se se optar por algum tipo de passeio turístico, ou simplesmente por um veículo com motorista, poderá fazer a viagem em 2 ou 3 dias, mas isso custar-lhe-á, no mínimo dos mínimos, 500 dólares. A última opção — e a melhor —, se sentir confiante, é conduzir você mesmo.

Antes de viajarmos para Timor procurámos informar-nos sobre a melhor forma de ir a Jaco pelos próprios meios, lemos e ouvimos opiniões diversas, díspares mesmo, havia quem dissesse que poderíamos ir num carro normal ou de moto, mas a maioria das pessoas afirmava de que necessitaríamos de um 4X4. Hoje estamos em condições de dizer que as últimas e só elas têm razão. Se uma pessoa não tiver muito tempo, se não quiser suportar poeira, calor, saltos na estrada e sabe-se lá mais o quê dentro de uma van que faz o transporte público entre Díli e Los Palos, no primeiro dia, e depois entre Los Palos e Tutuala, no segundo (depois de Tutuala ainda há que arranjar forma de descer os 10 kms até a praia de Valu, passar aí a noite num dos dois alojamentos disponíveis e no dia seguinte ser transportado num pequeno barco de pescadores até Jaco), a única opção é alugar um 4X4, com ou sem motorista. Nós fomos sem motorista.

O Pajero que nos levou até Valu, a povoação em frente à ilha sagrada de Jaco.

Estas idiossincracias exigem duas condições prévias para quem quer visitar Timor-Leste: bom planeamento, primeiro, e, já no terreno, tempo suficiente. No final, vale a pena. A nossa experiência talvez possa ajudar, por isso passamos a descrevê-la detalhadamente. Como de costume, construímos o “esqueleto” do nosso planeamento nos últimos dois meses que antecederam a viagem, que ficou assim.

DATAORIDESTTEMPOESCLACIAPREÇO
9 setFAO
08:50
AMS
12:55
3:05diretoTransavia98
9 setAMS 21:00KUL 19:45+115:50AUH
(06:40)
(08:25)
Ethiad Airway 606
11 setKUL
02:15
DIL
07:30
4:15diretoBatik Air 444
11 set a 15 setDa TerraVilaverdequarto
duplo
c/ banheiro privDíli132
15 a 17 setBarry’s
Place
Atauroquarto duploc/ todasrefeições240
17 a 19 setTaibessiRua da Prisãoquarto duploc/ banheiro privDíli39
19 setDilitoKupangby busBabadok70
19 a 21 setRed DoorzPlus Plus atKrishna HomeStayKupang22,33
21 setKOE
12:10
LBJ
14:20
2:10diretoWings Air168
22 setpasseio de barcoum dia a ilhaKomodo140
21 a 25 setPieter
Home
Stay casa de banhoprivada c peq.almoço49,54
25 setLBJ
15:00
KUL
18:40
3:40diretoAir Asia216
25 setKUL
22:40
CDG
11:15+1
18:35DEL
(01:45)
(03:35)
Air India519
26 setORY
20:55
FAO
22:35
2:40diretoTransavia90
seguroviagemIATI12 seta 26 set98,28
TOTAL€2.929

A partir daqui foi a viagem propriamente dita.

Dia 1

Saímos de casa cedo para apanharmos o comboio das 5 e 52 em Conceição, à porta de casa, até Faro, aonde chegámos às 6 e 30. Daqui apanhámos um Uber para o aeroporto. O voo partiu no horário e 3 horas depois estávamos em Amsterdão, num cenário climático completamente diferente. No Algarve estava um tempo de verão, magnífico, em Amsterdão estava frio, vento e tinha chovido de manhã. Os agasalhos que trazíamos, dois casacos de meia-estação, não foram suficientes para andarmos na rua, pelo que nos abrigámos na livraria OAB por um bom par de horas, rezando para que a borrasca passasse, receosos de, logo no primeiro dia de viagem, ficarmos doentes.

A OAB, em Amsterdão.

Saímos a passo apressado da livraria rumo à estação central de comboios, havia greve, mas lá conseguimos seguir para o aeroporto após uma espera de meia-hora. O nosso voo para Abu Dhabi estava previsto para as 9 da noite mas só partimos muito depois das 10. Estávamos preocupados porque tínhamos pouco tempo para apanhar o voo seguinte para Kuala Lumpur, na Malásia.

Dia 2

Felizmente este voo também saiu atrasado, pelo que chegámos a tempo. Quando aterrámos em Kuala Lumpur já eram 9 da noite do dia seguinte, e só às duas da manhã do dia 12 apanhámos o último voo para Díli, pela Batik Air, aonde chegámos, como previsto, às 7 da manhã, quase dois dias completos depois de sairmos da nossa casa, em Conceição de Tavira.

Algo que nos vem várias vezes à cabeça, enquanto viajamos para Timor-Leste, é: o que é que os malucos dos portugueses vieram fazer a estas ilhas malucas tão distantes? Sabemos que foi pelo comércio das especiarias, mas chegar aqui velejando desde Portugal exigia certamente doses variáveis de loucura, desespero, ambição, empreendedorismo, espírito aventureiro e coragem.

O nosso local de refeições no Da Terra Vilaverde.

Dia 3

Ainda no aeroporto comprámos dois cartões da Telkomcel por 9 dólares cada, já com ativação, e validade de 30 dias, os quais nos foram muitos úteis durante toda a estadia em Timor-Leste. De seguida apanhámos um táxi para o Da Terra Vilaverde, o nosso alojamento em Díli, ocupando o único quarto duplo com casa de banho privativa deste hostel. Teríamos de esperar até depois do meio-dia, pois o quarto ainda estava ocupado, então tomámos o pequeno-almoço (pago à parte) e saímos a pé para deambularmos um pouco por Díli.

Fomos ao Museu da Resistência, muito bem documentado, e percorrêmo-lo demoradamente. Não pudemos deixar de recordar os anos de ocupação indonésia, a luta dos timorenses, o gigantesco cordão humano que fizemos em Portugal (eu estava na Calçada Ribeiro dos Santos à hora marcada), o dia em que saímos dos locais de trabalho para protestarmos na rua, em silêncio, durante um minuto, a ida do navio Lusitânia até ao Mar de Timor, o envolvimento dos americanos (Bill Clinton) e da ONU (Kofi Annan), que forçaram a Indonésia a aceitar um referendo e, finalmente, a independência plena de Timor Loro Sae.

Quando regressámos ao alojamento, seriam umas 14:30, tomámos um duche e atirámo-nos para a cama, adormecendo de imediato. O despertador tocou às 19:30 e às 20:00 estávamos a jantar. A seguir voltámos para o quarto e dormimos, de novo, até de manhã. Estávamos mesmo a precisar de dormir.

No Museu da Resistência, em Díli.

Dia 4

No dia seguinte, às 9 da manhã, depois do pequeno-almoço, vieram entregar-nos um Pajero Sport 4×4, no qual seguimos, pouco depois, em direção ao extremo leste da ilha, até a pequena povoação de Valu, com a intenção, claro, de irmos a Jaco. Todas as palavras são poucas para elogiar a empresa Timor Vehicles e particulamente o seu manager, Jefri Liong. O carro estava impecável, cheiroso, e era extremamente fiável. Graças ao seu bom estado geral, a nossa viagem pela região oriental da ilha foi menos cansativa, demorada e arriscada do que seria, à partida, expectável. Dois dias de aluguer custou-nos 240 dólares (mais 89 dólares de combustível), um valor muito aceitável face à qualidade do carro.

Convém referir, neste ponto, que em Timor-Leste se circula pela esquerda, ao contrário de Portugal (devido à ocupação indonésia), mas nós já tínhamos tido essa experiência noutros países (Seychelles, Maurícias, África do Sul, entre outros) e, curiosamente, conduzir ao contrário é algo como andar de bicicleta, não se esquece. Por isso, cada vez que voltamos a conduzir pela esquerda adaptamo-nos mais rapidamente, retirando mais prazer da condução.

Fomos passando por belas praias e por pequenas povoações e, numa destas, vimos várias bancas em ambas as bermas da estrada. Pareceu-nos que estavam a grelhar peixe. Parámos. Era efetivamente peixe grelhado na brasa com um pau espetado da boca até ao rabo. Era muito bom. A Fla comeu um que parecia (e sabia a) salmonete, chamado baraka, e eu deliciei-me com outro, para nós desconhecido, que, apesar de demasiado assado, era mesmo assim saboroso. Para acompanhar, arroz servido dentro de uma caixinha feita com palha de milho, a qual tem de se romper com uma faca. Cada peixe, com o arroz, custa 2 dólares.

A praia de Caibada, em Bacau.

Seguimos viagem e pouco depois fizemos um pequeno desvio para visitarmos Manatuto, uma pequena cidade, onde não nos demorámos. Daqui até Baucau é um pequeno salto e nesta cidade, a segunda maior de Timor-Leste, decidimos fazer um desvio maior para conhecermos uma praia (sempre esta mania das praias!), o que nos empatou mais de hora e meia. O desvio terá sido de uns 10 kms, mas face à péssima estrada — sinuosa, esburacada, estreita, declivosa — demorámos imenso tempo para ir e voltar. Mas nunca se sabe se vale a pena ir ou não, e o lema é “na dúvida, vamos”. Às vezes o google engana-nos com classificações que, na nossa ótica, não correspondem à realidade, e este foi um desses casos. A classificação de 4.9 das praias de Caibada e de Fatuk faria antever algo deslumbrante, mas, para os padrões de Timor, estas são praias banais.

O tempo escasseava, não queríamos de forma alguma conduzir de noite, pelo que decidimos não parar mais antes de chegarmos a Valu. A partir de Lautém começou o verdadeiro desafio. É difícil, para não dizer impossível, descrever a estrada que liga Lautém a Valu. Tem de tudo um pouco: troços de 500 metros com bom piso, outros com crateras que ocupam metade do que deveria ser a estrada; quilómetros e quilómetros de piso coberto por uma camada, de espessura variável, de um pó branco tão fino que forma uma nuvem imensa quando passa um veículo, não se conseguindo enxergar mais do que um espesso muro branco quando se olha pelo retrovisor (o carro tem de ir todo fechado, mas mesmo assim o pó infiltra-se e crava-se na nossa garganta); quilómetros de estrada esburacada, de piso muito duro, que parece ter sido de cimento que agora se degradou; crateras gigantes aqui e além; declives e curvas com gravilha solta, o que multiplica o risco de despiste.

Na pequena aldeia de Valu. Em frente a ilha sagrada de Jaco.

Eu e Fla interrogámo-nos sobre como será o interior daquelas casas à beira da estrada com todo aquele pó. É difícil imaginar. Espantosamente, os últimos 10 quilómetros até chegarmos a Valu, depois de Tutuala, que fica no topo de uma colina, têm um piso impecável, embora a vegetação nas margens do asfalto estejam a tornar a estrada cada vez mais estreita. Mas ainda passámos bem, e chegámos a Valu quando o sol se pôs, e quando estacionámos no parque de um dos dois únicos alojamentos no local, o Guest House Valu, já tínhamos os médios do Pajero ligados.

Este alojamento é gerido pela pequena comunidade local, que recebe 75% dos lucros (os restantes 25% são para o Parque Natural), e não oferece as melhores condições, embora se note que todos fazem o melhor que podem. O jantar é simples e custa 5 dólares por pessoa. O nosso quarto, com uma cama bem simples, custou 25 dólares. As casas de banho, com sanitas turcas, são partilhadas e há uns bidões com água de onde, com uma espécie de caneca grande de plástico, se retira água para o banho.

Dia 5

Eram 5 da manhã e ainda noite quando acordámos e decidimos partir. Tivemos de acordar um “funcionário” para pagar a estadia e o jantar, pois não quiseram receber no dia anterior. Fomos de carro até a pequena praia de Valu, onde se encontram meia dúzia de casas e uns quantos barcos onde os pescadores transportam os visitantes para a pequena ilha de Jaco, por 10 dólares. O trajeto é pequeno — uns 500 metros e uns 5 minutos de barco com motor de 8 cavalos.

Jaco: uma praia só para nós.

Enquanto atravessamos o canal, que de acordo com os pescadores é fundo e com forte corrente, o mar vai mudando de cor: esmeralda, primeiro, azul profundo, depois, e esmeralda de novo, bordeando toda a praia de Jaco. O senhor Hermínio ficou de nos vir buscar às 9:30, afastou-se com o barco e ficámos sozinhos na ilha. Alguns veados observavam-nos, de longe. Não tardou muito até mergulharmos na água, incrivelmente transparente. É boa, com uma temperatura perfeita, mesmo às 7 da manhã. Quando chegou outro barco com um grupo de turistas, já nós tínhamos percorrido a ilha de uma ponta à outra, nos banhado várias vezes, relaxado sobre a areia fina, de um branco imaculado. Esta praia é espantosamente bonita.

Lembrei-me dos tempos em que fazíamos campismo na praia. Como seria fantástico poder estar em Jaco uma semana, dormir ao som das ondas, pescar, fazer uma fogueira e assar um peixe sobre ela. Mas por vários motivos e mais um, não pode ser: esta ilha é sagrada para os timorenses e ninguém pode pernoitar aqui.

Indiscritível, a sensação de nos banharmos nesta praia absolutamente deserta (foto de Fla).

Esta região do leste de Timor-Leste está classificada como Reserva da Biosfera da UNESCO, também é conhecida por Reserva Nino Konis Santana, e fica situada dentro de duas zonas importantes — a linha de Wallace (Walacea) e o Triângulo de Coral. Esta classificação protege a maior floresta primária do país, bem como ecossistemas marinhos e o lago Iralalaro, um refúgio para magníficas aves aquáticas. O espaço mais relevante da Reserva para os habitantes locais é a ilha sagrada de Jaco, junto à qual se mantêm tradições muito antigas como a pesca, a tecelagem de tais (tecidos típicos de Timor-Leste) e o cultivo de baunilha e cacau.

Ficámos bastante surpreendidos quando percebemos, ainda na pousada em Díli, que a maioria dos turistas não vem a Jaco. Mas depois percebemos porquê. Nem todos estão dispostos a passar por tantos incómodos por causa de uma praia remota… Mas um português e uma brasileira malucos estiveram dispostos a isso. Quando a proa da pequena embarcação conduzida pelo senhor Hermínio apontou à aldeia piscatória de Valu, a praia de Jaco, nas nossas costas, já estava cravada na nossa memória para sempre.

Na zona de Bucoli, durante a viagem de regresso a Díli.

O trajeto de volta a Díli não custou tanto porque já tínhamos tido a experiência do dia anterior e sabíamos com o que contar. Além disso, a parte mais difícil surgia agora no início e não no final do percurso, pelo que foi mais fácil de superar. Em breve estávamos em Lautém, com o carro coberto de pó branco (como viemos mais depressa, levantámos ainda mais pó), mas satisfeitos por ultrapassarmos sem problemas, em cerca de duas horas, os 60 quilómetros mais difíceis do percurso.

Depois de Lautém a estrada segue junto ao mar por dezenas de quilómetros e as vistas são muito bonitas. A dada altura, parámos num restaurante de beira-da-estrada, onde os viajantes timorenses almoçam. Comemos frango assado, acompanhado por aquele arroz envolto em tiras de milho que se tem de soltar com uma facada. O frango estava bom, crocante, e é sempre uma alegria estar entre os timorenses porque há sempre muitas crianças. Como já dissemos, Timor-Leste é um dos países mais jovens do mundo, com uma média de idades de 19 anos, e o próprio país alcançou a independência apenas em 2002. A taxa de natalidade é uma das mais elevadas do mundo.

Chegámos a Díli calmamente e fomos primeiro atestar o depósito de gasóleo (89 dólares) e depois mandar limpar o carro por dentro e por fora (5 dólares), pois não tivemos coragem de entregar o carro impregnado de poeira. Depois estacionámos no Da Terra, onde jantámos, e não pegámos mais no carro. As refeições no Da Terra Vilaverde são muito boas, simples mas bem confecionadas, e a um preço muito acessível: os nossos dois jantares custaram 12 dólares, tudo incluído.

A forma mais livre de circular em Díli é de scooter.

Dia 6

Às nove da manhã, tínhamos terminado o pequeno-almoço, chegou Jefri Liong, com um motorista, para recolher o Pajero. Processo simples, sem burocracia, não houve sequer uma inspeção minuciosa ao carro, Jefri agradeceu, eu agradeci-lhe, o motorista levou o carro, ele partiu numa scooter, e nós ficámos extremamente satisfeitos e só podemos recomendar esta excelente empresa. Não esqueçam: Timor Vehicles, o melhor serviço de aluguer de viaturas em Díli.

E, por falar em scooter, nós também alugámos uma, nesse mesmo dia, no Da Terra, por 20 dólares, mas só depois do almoço, que foi num restaurante indonésio, na mesma rua do alojamento. Deu um jeitão. Fomos até o Palácio do Governo para entregar uma carta solicitando uma entrevista com Xanana Gusmão. Até hoje não obtivemos resposta de vovô Nana, ou dos seus acessores, nem de Ramos-Horta, a quem dirigimos um e-mail umas 3 semanas antes de sairmos de Portugal. Valeram as tentativas.

Depois fomos ao cemitério de Santa Cruz, onde se deu o massacre de pelo menos 250 timorenses (os números não são certos, mas há quem refira mais de 300 mortos) e centenas de feridos, no dia 12 de novembro de 1991. Nesse dia realizava-se o funeral de Sebastião Gomes, morto por um militar indonésio na noite de 27 de outubro. O massacre foi filmado pelo jornalista e repórter de guerra britânico Christopher Wenner, que adotou o nome de Max Stahl, pelo qual é mais conhecido, quando regressou a Timor em 1999, por razões de segurança.

Campa de Sebastião Gomes no cemitério de Santa Cruz.

Max Stahl correu risco de morte, mas acompanhou e filmou a marcha de homenagem a Sebastião Gomes desde a igreja de Moatel até a campa deste no cemitério de Díli, nunca parando de filmar. Sabendo que seria capturado pelos indonésios se não fosse morto, Stahl conseguiu esconder as cassetes com as imagens do massacre dentro de uma vala do cemitério, regressando à noite, depois de ter sido libertado, para as recuperar. Posteriormente, estas imagens foram difundidas pelas televisões de todo o mundo. Esta divulgação constituiu o ponto de viragem a favor da independência de Timor-Leste, cuja luta era escondida pelo ocupante, que queria mostrar ao mundo que os timorenses estavam bem integrados na Indonésia.

A partir daí, o mundo viu que não era assim e tomou consciência da luta dos timorenses. As Nações Unidas e o Presidente dos Estados Unidos (sobretudo estas entidades, mas também o papel ativo dos políticos portugueses) forçaram a Indonésia a aceitar um referendo. E o resultado foi um expressivo “sim” à independência (78,5%), com uma participação recorde de mais de 98% dos eleitores. O desejo de independência não pode ser compreendido sem a ligação histórica dos timorenses a Portugal, pois foi Portugal que introduziu a religião cristã em Timor-Leste (o maior estado cristão em percentagem da população depois do Vaticano), fator de união entre o povo, a par da língua portuguesa.

Durante o longo período de ocupação dos indonésios (de 7 de dezembro de 1975 até 31 de outubro de 1999), os guerrilheiros timorenses escondidos nas montanhas faziam questão de comunicar em português, como forma de resistência à tentativa de imposição do bahasa, a língua do ocupante, ainda hoje falado como língua de trabalho por uma parte significativa da população. Estima-se que pouco mais de 200 guerrilheiros contra mais de 20 mil soldados indonésios e 40 mil colaboracionistas. “Ridículo”, nas próprias palavras de Stahl. Curiosamente, o tétum, que foi utilizado pelos missionários para cristianização das populações e pela própria Igreja para a celebração da liturgia, era uma língua minoritária. Hoje é a língua que toda a gente fala, sendo raríssimo encontrar um timorense que fale fluentemente português.

Marco que assinala o local onde Max Stahl filmou o massacre de Santa Cruz.

Ficámos imaginando como seria Timor-Leste se Max Stahl não decidisse viajar para lá com visto de turista, à espera que algo acontecesse. Certamente muito diferente. Naquela época, ninguém no exterior do território acreditava que a ocupação indonésia fosse revertida. E a maioria dos timorenses, bem como até dos portugueses, não sabem que muito provavelmente não existiria Timor-Leste sem Max Stahl.

A história deste jornalista, que sobreviveu a vários conflitos — na América Latina, na ex-Jugoslávia e em Timor — mas que, aos 66 anos, perdeu uma longa luta contra um cancro (foi sepultado em Brisbane, Austrália, exatamente 30 anos depois de ter filmado o massacre de Santa Cruz), está intimamente ligada à própria História de Timor-Leste, sendo aqui considerado um herói nacional. Em 2000, um ano depois do regresso a Timor-Leste, Max Stahl recebeu o maior prémio mundial para repórteres de imagem freelancer, o Rory Peck Award.

Stahl viveu em Timor-Leste, foi cidadão timorense desde 2019, e fundou em Díli o Centro Audiovisual Max Stahl, onde estão guardadas mais de 5 mil horas de filmagens captadas durante 25 anos. Este arquivo foi considerado pela UNESCO como Registo da Memória do Mundo. Em 2016, a Universidade de Coimbra assinou um protocolo com o Centro Max Stahl para obter uma réplica sincronizada do arquivo original, à qual se pode aceder em http://www.uc.pt. Vale a pena fazer uma pausa. E vem-nos à memória a vida de outro britânico, também Christopher, falecido recentemente em Vila Velha, Pernambuco, Brasil.

Um dos ferrys que ligam Díli a Ataúro.

Do cemitério de Santa Cruz, seguimos na scooter em direção ao Cristo-Rei, passando pela bonita praia homónima. O esforço para ultrapassar os 500 degraus é compensado pela vista do topo da colina. Regressámos ao fim da tarde ao Da Terra, e pouco depois estávamos desfrutando do excelente jantar confecionado pela Tina, uma das simpáticas funcionárias do hostel.

Dia 7

Levantámo-nos cedo para apanharmos o ferry para Ataúro. Fomos a pé até ao cais de embarque. Tivemos de esperar bastante, o embarque estava atrasado, e depois mais de 3 horas de travessia. Passava do meio-dia quando pisámos pela primeira vez a ilha de Ataúro. Até ao nosso alojamento — Barry’s Place — foram uns meros 500 metros. Uma diária nesta pousada ecológica, incluindo 3 refeições (pequeno-almoço, almoço e jantar) custa 60 dólares. A comida é excelente, os quartos são confortáveis, a maioria em cabanas individuais com um pequeno átrio à entrada, onde se pode relaxar numa cadeira ou numa rede, no seio da natureza. O que pode provocar mais impressão são as casas de banho coletivas e ecológicas.

Entrada do Barry’s Place.

A água residual dos banheiros é utilizada para irrigar bananeiras situadas atrás de cada bloco de instalações sanitárias. Essas bananeiras prosperam graças ao nitrogénio proveniente do sabão contido nas águas residuais. O sistema utilizado na pousada baseia-se no modelo VIP — Ventilated Improved Pit (Latrina de Fossa Ventilada), que utiliza as correntes de ar naturais para dispersar odores através de uma abertura na tampa da sanita. Os tubos de ventilação pretos na parte traseira, bem como a cor preta no interior da bacia sanitária, foram projetados para impedir a entrada de moscas, aproveitando as correntes de convecção, visto que o ar quente sobe. Os dejetos vão diretamente para a fossa. O líquido é drenado para o solo enquanto o material sólido permanece. A estrutura fica bem acima do lençol freático, razão pela qual há degraus para se aceder à casa de banho.

Quando o tanque/fossa enche, é lacrado e a sanita transferida para outro lado, onde há um tanque novo e vazio. O tanque cheio permanece inactivo pelo menos 12 meses, antes de o conteúdo estar pronto para usar em jardins ornamentais, mas nunca em hortas vegetais.

Exteriormente, as casas de banho parecem cabanas normais, com duas entradas elevadas, de um lado a sanita para as necessidades fisiológicas e do outro um tanque de água com um pequeno balde com pega para retirar a água e despejá-la numa espécie de tacho com furinhos, pendurado por cima das nossas cabeças a servir de duche. A Fla estava neste lado do banheiro quando ouviu entrarem na porta ao lado, o som do tampo da sanita bater nos tubos de ventilação e alguém exclamar “Oh, meu Deus”! Era uma algarvia de Tavira que conhecemos no Barry’s, chamada Madalena Mangas, que se alarmou ao observar as baratas circulando na fossa. Ela confessou-nos, depois, que tinha horror a esses insetos. Nós também. Isso não invalida os benefícios do sistema ecológico do Barry’s Place.

Na praia de Acrema, em Ataúro.

Ainda na tarde da chegada, depois do almoço, alugámos na própria pousada uma scooter por 24 horas. O preço da diária são 25 dólares. Já montados, seguimos para Nordeste, rumo à praia de Acrema. De início a estrada é boa, mas depois piora significativamente. A dada altura, numa bifurcação, o Google Maps mandou-nos para uma estrada, ou melhor, para um caminho interior e, logo à frente, apanhámos um troço em obras (numa zona íngreme) que tivemos imensa dificuldade em transpor. A Fla teve de saltar da garupa e montar de novo uns 100 metros mais à frente. Pouco depois, verificámos que estávamos a embrenhar-nos pelo interior da ilha e voltámos para trás. Um sujeito que passava de moto confirmou que deveríamos ter optado pela direita na bifurcação, e não pela esquerda.

Excetuando uma ladeira de uns 50 metros com o mesmo problema que encontráramos no caminho errado — uma camada de areia fofa (mais pó que areia), onde a scooter perde aderência — o caminho até Acrema faz-se tranquilamente. Passámos por duas ou três aldeias de pescadores, a última das quais é a própria Acrema. Quatro meninas vieram ter connosco e ficaram sempre por perto, rindo muito, brincando com a Fla e tirando fotos com ela. Oferecemos-lhes um pacote de bolachas que trazíamos na mochila e elas ficaram entretidas a comer enquanto nos observavam mergulhando no mar.

A água é magnífica. Quando saímos perguntámos às meninas se elas costumavam entrar no mar e todas responderam que não. Para nós pode parecer estranho, mas a verdade é que quase não vimos timorenses a banhos. Encontrámos imensas praias desertas, e algumas com meia-dúzia de pessoas fazendo piqueniques à sombra das árvores, mas apenas na praia de Baucau vimos uma família timorense se divertindo no mar — que em Timor-Leste é muito mais uma fonte de rendimento do que de divertimento.

Fadista de Ataúro.

Voltámos de Acrema ao final do dia e ainda fomos à Vila Maumeta, a principal povoação de Ataúro, onde se concentra a maior parte da população desta ilha de 10 mil habitantes. Antes do regresso ao Barry’s ainda parámos para provar dois espetinhos, junto a uma casa à beira da estrada onde um rapaz grelhava frango num carrinho de mão a fazer de fogareiro. Estava divinal, com um tempero que só Deus sabe qual é — o tipo do fogareiro que é um carrinho de mão deve ter-Lhe perguntado.

À noite, depois do jantar no Barry’s já não saímos, até porque não estamos a ver o que poderíamos fazer se saíssemos, não se passa nada à noite por aquelas bandas, talvez excecionalmente nalguma ocasião especial.

Dia 8

Após o café da manhã fomos de novo à Vila, desta vez com o propósito de visitarmos o ateliê da Boneca, onde trabalham várias costureiras de Ataúro, produzindo lindos objetos, desde bonecas (o primeiro motivo a ser criado) até chapéus, carteiras, mochilas, bibelots e muito mais. O projeto iniciou-se em 2007 com a colaboração entre o padre missionário italiano Luis Fornasier e a designer suíça Ester Zücher, visando a criação de uma cooperativa de mulheres-costureiras e a produção de artigos de artesanato para venda, com o intuito de proporcionar a essas mulheres um rendimento que, face à falta de oportunidades de trabalho, dificilmente conseguiriam de outra forma nesta pequena ilha de Ataúro.

Feliz com as compras na Boneca.

Tem sido um sucesso. A cooperativa que começou com quatro mulheres tem hoje mais de 40 e, às vezes, precisa de ainda mais colaboradores para fazer face a encomendas específicas. Mais de meia centena de famílias beneficiam hoje dos rendimentos gerados pela cooperativa. Embora não se possa dizer, pelo menos por enquanto, que os produtos gerados sejam tradicionais de Ataúro ou mesmo de Timor-Leste, a maioria dos materiais usados são locais.

Várias pessoas e instituições se têm interessado por este projeto, como é o caso, entre muitos outros, do Instituto Camões e do catalão David Palazon, que realizou em 2016 o documentário animado Boneca de Ataúro: Searching for the Lost Love, vencedor nesse mesmo ano do prémio para a melhor curta-metragem asiática na 4ª edição do Festival de Cinema Asiático de Salamindanaw, nas Filipinas.

Comprámos uma linda boneca, uma mochila e dois passarinhos, despedindo-nos em seguida das costureiras presentes e particularmente da Anastácia Ximenes Saldanha, que nos recebeu quando chegámos e nos acompanhou durante a nossa visita à Cooperativa Polivalente Boneca de Ataúro, e da própria Vila Maumeta, já com saudades, mas felizes. Entregámos a scooter, fomos almoçar e ficámos o resto da tarde no Barry’s, lendo, escrevendo, relaxando, deixando-nos envolver pela languidez do lugar. E assim até ao jantar e depois até ao dia seguinte.

Na estrada entre a Vila Maumeta e Acrema.

Dia 9

No último dia em Ataúro decidimos fazer snorkeling. Barry tinha-nos dito que a maré não estava de feição, mas o senhor António, que é quem leva o barco até junto do recife, disse-nos que, sim senhor, podíamos ir, estava bom para ver os paixes e os corais, apesar da maré vazia. Fomos com a Madalena Mangas, que se juntou a nós, e até que foi bem legal. Mais tarde, nesta viagem, acabaríamos por fazer snorkeling noutros locais, e vermos não só mais peixes e corais, mas também tartarugas e até mergulhadores com garrafas de oxigénio e tudo.

Antes de apanharmos o barco de volta à ilha de Timor, ainda almoçámos no Barry’s e ficámos por ali fazendo tempo até pouco antes da hora de partida, que foi às 3 da tarde. É pouco provável que alguma vez voltemos a Ataúro, mas nunca se sabe. Chegámos a Díli por volta das 6 da tarde, quando o sol se estava quase a pôr. Tivemos um problema com o novo alojamento chamado Sunmoon Apartments, que supostamente seria numa rua junto ao Timor Plaza, mas que à última hora mudaram para um local perto do cais onde desembarcáramos. Quando lá chegámos o quarto era miserável e recusámo-lo. Tivemos de marcar um quarto no Plaza Hotel, e depois de deixarmos as mochilas no quarto fomos jantar ao Tavirense.

Este restaurante, na mesma rua do Plaza Hotel, tínha-nos sido indicado pela Madalena Mangas, em Ataúro, quando ela soube que morávamos em Tavira, e, logicamente, não podíamos deixar de lá ir. Toi, o dono, quando lhe disseram que morávamos em Tavira (mais propriamente, em Conceição), fez-nos uma festa. Durante largos minutos estivemos à conversa e ficámos a conhecer todo o percurso de Toi e da sua mulher em Timor-Leste. Foi como se nos conhecêssemos há muitos anos. Um pouco surreal, mas também bastante engraçado. Além disso, come-se muito bem no Tavirense. Quando chega o São João, o padroeiro de Tavira, Toi importa sardinhas em vácuo de Portugal, enfeita a rua onde fica o restaurante e faz uma enorme festa para celebrar o dia do seu santo.

O Tavirense, em Díli.

Saímos satisfeitos do Tavirense, andámos um pouco a pé para fazer a digestão, e fomos para o hotel.

Dia 10

Este foi o dia em que experimentámos os incríveis microlets de Díli. São bastante eficientes, pois há muitos e nunca tem de se esperar demasiado tempo para apanhar um. Além disso, há 13 rotas diferentes, o que resulta numa rede eficiente, que satisfaz, como pudemos comprovar, as necessidades dos dilienses.

Após o pequeno-almoço apanhámos a carreira 10 até ao Timor Plaza, o centro comercial mais famoso de Díli, de cujo parque de estacionamento partem os autocarros de longo curso, inclusive para a parte indonésia de Timor, nomeadamente para Kupang, para onde viajaríamos no dia seguinte. Do Timor Plaza, onde fizemos algumas compras, apanhámos a carreira 13 até o hotel onde dormiríamos a próxima noite, o Arbiru Beach Resort. Escolhemos este hotel precisamente por ficar relativamente perto do Timor Plaza, porque o autocarro para Kupang partiria às 7 da manhã. Felizmente, este hotel providencia serviço de transporte gratuito, o que se revelaria de grande utilidade no nosso caso.

No interior de um microlet: Fla com Elhy Pereira.

O hotel tem também uma boa piscina, onde demos algumas braçadas, sem nos demorarmos muito tempo. Antes disso, porém, ainda voltámos a apanhar um microlet, desta vez o nº 9, para irmos almoçar. Ficámos espreitando para ver se topávamos algum restaurante interessante, parámos no mercado municipal, mas a comida era demasiado básica para o nosso gosto, e acabámos por apanhar ainda outro microlet que passou numa avenida próximo do Timor Plaza, onde vimos um restaurante indonésio e aí almoçámos. Aproveitámos a tarde para então estarmos um pouco na piscina, mas sobretudo para descansarmos. Jantámos no Arbiru, a comida era aceitável, mas não nos entusiasmou. Fomos dormir cedo.

Dia 11

Acordámos às 5:45 da manhã, tomámos banho, arrumámos as trouxas e às 6:15 estávamos dentro da carrinha do hotel prontos para seguirmos para o parque de estacionamento do Timor Plaza e apanharmos o autocarro para Kupang, em Timor Ocidental, Indonésia. Tínhamos comprado os bilhetes com antecedência na empresa Babadok, por isso conseguimos dois bons lugares, bem na frente do autocarro, com vista privilegiada para a estrada. Partimos com algum atraso, e alguns minutos depois parámos num pequeno mercado, à saída de Díli, onde os passageiros compraram o que quiseram para comer ou beber.

Uma das últimas imagens de Díli.

A estrada até à fronteira bordeja a costa, numa primeira fase, com vistas bonitas sobre as praias, passa por pequenas localidades, até que inflete para o interior, entra em zona montanhosa, cheia de curvas e contra-curvas, transpondo os quilómetros penosamente. Depois, volta a seguir junto à costa. A bordo a música não para e os dois motoristas vão-se revezando ao volante de x em x quilómetros. Finalmente chegámos à fronteira, primeiro Timor-Leste e, uns metros depois, a Indonésia. Há filas. Para passarmos a fronteira demoramos mais de uma hora e meia, mas lá prosseguimos a viagem, agora já no interior da Indonésia, onde as estradas melhoram significativamente.

Na região de Atambua paramos para almoçar, mais propriamente no restaurante Rindu Minang, na cidade homónima. Para nosso espanto, quando íamos pagar, disseram-nos que o almoço estava pago. Perguntámos porquê, e disseram-nos que o proprietário do restaurante, de seu nome Viktor Gogo, fazia anos e que neste dia ninguém pagava nada. Ainda por cima provámos um excelente café de Timor-Leste, pelo que agradecemos ao Viktor Gogo através das funcionárias de serviço, na impossibilidade de o fazermos pessoalmente. Foi aqui que conhecemos uma jovem timorense que ia como nós para Kupang, para depois apanhar um voo para Jacarta, onde estuda numa universidade. Seu nome é Octávia Maia Rego e, como seria de esperar, fez amizade com a Fla.

Passagem de Timor-Leste para a Indonésia, em Mota’ain.

O melhor das viagens talvez sejam mesmo as pessoas. Tão diferentes de nós e simultaneamente tão próximas. Sentir e refletir sobre esse aparente antagonismo ajuda-nos a ser mais tolerantes e abertos, ou pelo menos deveria ajudar-nos. Também conhecemos nesta longa viagem de autocarro um jovem médico timorense, que está a tirar uma pós-graduação na Indonésia, e nos foi dando informações preciosas durante o percurso, num português quase perfeito. Começou a anoitecer e o motorista mais jovem conduzia o autocarro com extraordinária perícia, apitando, apitando, apitando a cada ultrapassagem. Depois de cerca de 15 horas de viagem, chegámos ao terminal rodoviário de Kupang. Timor-Leste, esse pequeno país extraordinário, nosso irmão, já nos fazia sentir saudades.

Fomos de táxi até ao nosso hotel em Kupang, saímos para comer um peixe grelhado, voltámos ao hotel, tomámos um duche e adormecemos.

A segunda parte desta viagem registar-se-á em próximo artigo.

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