Agamben, Zizek, Sloterdijk

Nestes últimos tempos tenho procurado atualizar-me no que respeita às novas correntes filosóficas, com leituras de Zizek (“Problemas no Paraíso”), Agamben (“A Potência do Pensamento”) e Sloterdijk (“Crítica da Razão Cínica”).

Uma desilusão. Mas não uma perda de tempo.

Aprendi que no afã de seguirem os mestres — Platão, Aristóteles, Hegel, Marx, Heidegger, Foucault — aqueles autores acabam por se transformar numa espécie de cópias degradadas destes.

Kant é citado laconicamente, na medida em que não se pode contornar o incontornável, e Popper é simplesmente silenciado — o que demonstra como é incómoda a sua epistemologia.

A Filosofia, mais do que nunca, continua sendo essa coisa acessível apenas a alguns (académicos) predestinados e não algo que possa ser compreendido pelos comuns mortais: o uso da razão não chega, é preciso ter uma intuição singular para captar a “essência” escondida por trás de tudo o que existe (e do que não existe).

E assim continuam estes alquimistas discutindo entre si, dialeticamente — forma desenvolvida pelo charlatão Hegel para defender tudo e o seu contrário — o sexo dos anjos.

Não admira, pois, que Kant e Popper sejam ignorados. Ao imporem limites ao conhecimento humano, eles transformam-se nos principais inimigos dos metafísicos profissionais.

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Os Tribalistas

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Havana, Cuba. A revolução é uma religião cujo Deus é Fidel. 

Abandonámos a vida tribal há cerca de oito mil anos. Daí resultou um rápido avanço científico e tecnológico e uma enorme diversidade de sociedades e culturas. O tempo que passou desde então – os tais oito mil anos – é um piscar de olhos em termos evolutivos e o cérebro humano não estava preparado para uma mudança tão rápida e radical. A tentativa mais abrangente de adaptação aos novos tempos ocorreu com o surgimento das religiões monoteístas, as quais constituem a ponte entre a mentalidade mágica tribal e o mundo futuro, onde as religiões, tal como as conhecemos, provavelmente desaparecerão. (Algumas sociedades, sobretudo as dos países nórdicos, mostram que esta hipótese é bastante credível).

Mas a religiosidade não se revela apenas pelos credos tradicionais; há deuses terrenos que caminham lado-a-lado com seus colegas celestes. A crença em políticos-profetas e em ideologias-religiões é a prova da persistência da nossa mentalidade tribalista; e motivo pelo qual alguns povos se mantêm na cauda da nossa civilização.

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Giorgio Agamben

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Giorgio Agamben – a sua investigação insere-se no mais puro essencialismo.

Como costumamos dizer, não devemos seguir acriticamente algumas pessoas só porque as achamos muito inteligentes e eruditas. Referimo-nos àquelas que — talvez por considerarem ter uma intuição especial, um dom natural, uma inquebrantável convicção ou um invulgar conhecimento — não têm consciência dos seus limites.

Agamben é uma dessas pessoas. Mostra-o claramente no livro A Potência do Pensamento — uma compilação de conferências e ensaios escritos entre 1979 e 2004 — onde patenteia os seus sólidos conhecimentos linguísticos, desde o grego ao alemão, passando pelo hebraico, e o seu vasto conhecimento das filosofias de autores tão esotéricos quanto ele próprio, como são os casos de Walter Benjamin, Aby Warburg, Friedrich Hölderlin, Max Kommerell e, claro, o grande Hegel, entre muitos outros. O que estes autores têm em comum é pertencerem a uma corrente da Filosofia baseada na especulação, na intuição e no misticismo, em contraste com uma outra, que tem por base a racionalidade, a experiência e o realismo.

Mais de duzentos anos depois de Kant (completamente ignorado neste livro) ter afirmado que só podemos conhecer as coisas como elas se nos apresentam e não como são em si mesmas, os magos da Filosofia fazem tábua rasa da investigação kantiana e empenham-se com afinco em conhecer, precisamente, a essência das coisas. Agamben fá-lo usando a mesma linguagem obscura, densa e esotérica dos seus amigos alemães acima citados. O que lhes interessa são objetivos metafísicos como, por exemplo, conhecer a arquê, o absoluto, a essência, o indefinido, o puro, em última instância, Deus. Como não é possível chegar a tal conhecimento através do raciocínio lógico, Agamben recorre a “uma profunda intuição” filosófica (várias vezes apresentada no livro), evidentemente, ao alcance apenas de alguns predestinados.

Na busca desenfreada de uma metalinguagem, Agamben menoriza e deplora o papel operacional das palavras, como instrumento necessário para as socialização e cultura, idolatrando os signos, transformando-os na razão da existência humana. Qual a origem do verbo? Qual a palavra, o nome do qual derivam todos os outros e todas as línguas? Como regressar à linguagem pura? “O existente puro é o que corresponde à pura existência da linguagem, e contemplar a segunda significa contemplar o primeiro”.

São problemas desta natureza, os que ocupam Agamben. A linguagem é vista como um rio e os seus inúmeros braços são as línguas deste mundo. Mas, antes do leito caudaloso, há um fio,  uma gota inicial. O que originou essa gota? De onde vem? Isso ninguém sabe, mas também não importa. Agamben continua a filosofar como nada se tivesse passado desde o tempo de Aristóteles.

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Foto retirada de http://www.zeit.de.

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A nossa edição:

Giorgio Agamben, A Potência do Pensamento, Editora Relógio D’Água, Lisboa, 2013.

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O Imposto Sucessório

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Costa e Centeno. Dar com uma mão e tirar com a outra. A fatura não demorará a chegar.

Temos muitas dúvidas sobre o atual Governo português. Desde o início que o dissemos: não nos agrada um Executivo refém de dois partidos de inspiração marxista que, em qualquer momento, poderão retirar-lhe o tapete. As engenharias (talvez fosse mais correto chamar-lhes “tropelias”) tributárias já começaram, com a intervenção sobre os preços dos combustíveis, atitude que deu maus resultados no passado, e irá dar, de novo, no futuro. E, para compensar as medidas (ou a falta delas) que agravam o défice, já se fala num recurso ao Imposto Sucessório, abolido em quase todos os países civilizados.

Como “não há fumo sem fogo”, não nos admiraria que tal viesse, de facto, a ocorrer, até porque parece óbvio que, mais uma vez, face à incapacidade de controlar a despesa, o Governo terá de aumentar a receita à custa dos impostos. Se o Imposto Sucessório renascer por mão deste Governo, o remanescente de credibilidade, que ainda possa ter, cairá por terra (pelo menos para nós), uma vez que o Imposto Sucessório é o imposto mais injusto que existe, por duas ordens de razões.

1- É uma dupla tributação. As pessoas já pagaram os seus impostos em vida sobre esses bens – e não tão pouco quanto isso. E embora o património passe para outras mãos (no caso, de herdeiros legítimos e diretos), não há razão para tributar duas vezes o mesmo bem.

2- Nem todo o património adquirido é fruto da especulação. Há muita gente que levou uma vida inteira de trabalho e sacrifício para amealhar algum dinheiro, ou adquirir qualquer outro bem, móvel ou imóvel. Não somos contra a tributação pesada sobre o dinheiro lucrado com a especulação, nem contra a que incide sobre as mais valias conseguidas através da alienação de património – que aliás já é bastante pesada. Mas insurgimo-nos contra um imposto que apenas visa conseguir, a qualquer custo, financiar um Governo inepto, seja ele qual for. Tal não passa de um roubo, ainda que seja um roubo legal.

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Foto retirada de http://www.dn.pt.

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Um país em guerra – Brasil

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A “presidenta”.

Não bastava a guerra efetiva nas ruas, bairros e cidades do Brasil, onde todos os anos se assassinam mais de 40.000 pessoas, chegou agora também ao país uma verdadeira guerra política. Talvez alguns considerem exagero, mas os ingredientes de uma guerra estão, de fato, presentes: a diabolização do inimigo; a propaganda; a deturpação de alguns factos e a invenção de outros; a radicalização de posições; a rejeição aos cidadãos independentes e a adoção da máxima “se não és por mim, és meu inimigo”.

Talvez este seja o aspeto mais pernicioso desta guerra efetiva. A tentativa — quase sempre coroada de êxito, face ao reduzido número de pessoas verdadeiramente livres e esclarecidas — de empurrar os independentes para o lado inimigo. Enquanto numa democracia amadurecida os independentes, sem fidelização partidária ou ideológica, vão contribuindo para uma saudável alternância de governos, nas democracias frágeis, onde a tolerância é ainda incipiente, os independentes, sempre que não consigamos convertê-los ao nosso credo, são empurrados para o extremo oposto e vistos como inimigos.

Assim, quem não é vermelho é fascista e defende a ditadura militar, e quem não é verde e amarelo é um perigoso comunista que defende a ditadura do proletariado. E vale tudo, precisamente como numa guerra, para mostrar estas supostas evidências: o recurso a notícias falsas, deturpadas, manipuladas, e à mais elementar propaganda, é recorrente e preenche um espaço assustador dos modernos meios de comunicação social, como são os casos do Twitter e do Facebook.

E o mais espantoso é ver intelectuais, professores universitários e artistas consagrados, divulgarem acriticamente todo o tipo de falsidades, cegos pela crença partidário/ideológica. Pouco importa as questões constitucionais, legais, legítimas, políticas, que sustentam ou não o impeachment da presidente. Para quem apoia o PT é um golpe, para os outros apenas interessa derrubá-la, pouco importa a forma como isso seja feito.

É verdade que a linha constituída pelos possíveis substitutos de Dilma na presidência — Temer, Cunha, Calheiros e companhia — é uma linha podre. Mas é igualmente verdade que o recurso ao impeachment só foi possível pela extraordinária incapacidade política da presidente, quer na condução da economia do país, quer no diálogo, que foi incapaz de manter, com senadores e deputados. E há que ter em conta o seguinte: o facto de Dilma ter sido uma lutadora antifascista não faz dela, por si só, uma boa governante. A política económica de Dilma foi (e é ainda) um desastre — e a ela se deve a grave crise política atual.

Mas nada disto interessa aos fundamentalistas. A única coisa que aceitam de bom grado é discutir, como fizeram nas eleições de 2014, quem é mais ou menos corrupto, quem é mais ou menos ladrão, a mesmíssima discussão que têm agora relativamente ao “golpe”. Com isto, os não-alinhados e independentes, não conseguem fazer-se ouvir, nem colocar em agenda aquilo que verdadeiramente importa — melhorar a vida dos muitos milhões de brasileiros em dificuldades e resgatar o Brasil do seu profundo atraso económico e social.

Como ponto de partida, haveria que colocar em cima da mesa uma reforma do sistema político, a qual, com os atuais intervenientes na Câmara e no Senado (grande parte deles indiciados por corrupção), se afigura bastante difícil, para não dizer impossível. Só com novas eleições – se estas trouxerem novos protagonistas – é lícito ter alguma esperança. O Brasil em guerra é um país num impasse.

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foto retirada de www.telesurtv.net.

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Cidade do Panamá e Colón

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Na Cidade do Panamá sente-se e vê-se uma dinâmica enorme, um pulsar constante, uma pujança que nos envolve. Os arranha-céus multiplicam-se, conferindo à cidade aquele ar de moderna capital americana (ou de algumas capitais asiáticas) – uma urbe palpitante.
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Vários desses arranha-céus têm um desenho arrojado, como este, em espiral, obra da empresa de arquitetura Pinzón Lozano & Asociados. A sua silhueta vê-se praticamente de qualquer lugar da cidade e é como um íman que atrai o nosso olhar. Magnífico.
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Mas a ousadia arquitetónica está patente não apenas em edifícios particulares. Também no património público. Repare-se neste pormenor do atraente e colorido Museu da Biodiversidade, desenhado pelo renomado arquiteto americano (nascido no Canadá), Frank Gehry. Os museus são muito bem organizados na Cidade do Panamá. Destacamos, além do da Biodiversidade, o Museu do Canal Interoceânico do Panamá, situado no Casco Antigo da cidade, e o Centro de Visitantes de Miraflores, onde se pode ver uma magnífica exposição sobre o Canal, assistir a um filme em 3D e, ao vivo, ao movimento dos navios que passam pelas eclusas (ver foto abaixo).
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Além da arquitetura, a Cidade do Panamá possui também um moderno sistema de transportes. O metro é recente e excelente, e liga-se a um centro modal de transportes, situado em Albrook, na periferia. O Canal do Panamá – obra gigantesca levada a cabo pelos norte-americanos e que está a ser objeto de ampliação – está finalmente em mãos panamianas. Através dele, acede-se ao porto da cidade que, tal como o aeroporto, é um “hub” estratégico. O aeroporto une as Américas do Norte e do Sul, e o Canal une o Atlântico, a Leste, e o Pacífico, a Ocidente.
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O custo dos transportes, incluindo o táxi, é muito acessível (convém sempre discutir o preço com o taxista) dado que os combustíveis são bastante baratos. Os hotéis também não são caros e têm boa qualidade. Os restaurantes são igualmente acessíveis. Apesar da comida não ser extraordinária, há coisas interessantes. Vale a pena comer uma sopa de marisco ou tomar uma limonada adoçada com melaço de cana no Mercado do Marisco; comer um ceviche na zona do porto de pesca; e, sobretudo, almoçar ou jantar no El Trapiche, na Calle Argentina. À noite, a movida passa-se na Calle Uruguay.
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Esta dinâmica panamiana ocorre por duas razões principais: 1- o potenciamento da sua extraordinária localização geográfica, o que inclui as receitas elevadíssimas da exploração do Canal do Panamá; 2- e uma política económica aberta e pragmática, o que levou, inclusivamente, à adoção do dólar como moeda oficial. Mas nem tudo são rosas. Apesar do progresso, há muita desigualdade ainda, mesmo no interior da Cidade do Panamá, com zonas mais pobres, mas sobretudo noutras cidades, como Colón (na foto), que visitámos também. Além disso, não é possível esquecer o papel de “paraíso fiscal”, pelo  qual o Panamá é conhecido no mundo, como ficou patente através dos recentíssimos “Panama Papers”.
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E foi aqui, em Colón, que encontrámos um amigo de longa data. Ele é testemunha da dinâmica panamiana, pois é um dos responsáveis da construção de uma terceira ponte que unirá as duas margens do Canal do Panamá, que ocorre em Colón. Foi ele quem nos levou a conhecer o local onde estão a construí-la e também as eclusas de Gatún. Dois amigos de Alfama encontraram-se em plena selva tropical – evento histórico!

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Tulum, México

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Tulum

Os maias chegaram à península do Yucatã vindos da Ásia. Provavelmente seriam mongóis que migraram pela Sibéria e daqui para o atual Alasca, no final da última glaciação, há cerca de 12.000 anos. Da América do Norte desceram à América Central, onde se instalaram até os dias de hoje. Além da península do Yucatã[1], onde 80% da população é de origem maia, ocupam também os territórios atuais correspondentes às terras baixas e altas da Guatemala, ao Belize, à porção ocidental de Honduras e El Salvador, reunindo territórios que pertencem à região denominada Mesoamérica[2], numa área de 325.000 quilómetros quadrados. Fisicamente os maias caracterizam-se pela estatura baixa, a tez trigueira, a face redonda, a pele com poucos pêlos, e uma mancha característica no fundo das costas — a marca mongol.

Está comprovado que os maias percorreram esta região há milhares de anos, comerciando por terra e, sobretudo, por mar. Os navios que construíam não tinham mastros, dado que não usavam velas mas sim a energia humana para navegarem: utilizavam embarcações a remos, que manobravam junto à costa, ao longo da segunda maior barreira de coral do mundo.

Não eram, pois, um povo unificado; estavam divididos em tribos e reinos, com uma rígida estratificação social. Eram violentos e extremamente religiosos, praticando o sacrifício humano, sobretudo de crianças entre os quatro e os oito anos, para contentarem os deuses e receberem em troca a chuva necessária para que a atividade agrícola se desenvolvesse. Os deuses eram em número de vinte e três, distribuídos em três níveis: o inframundo, a terra e o céu.

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Pormenor num dos templos de Tulum

Além de extremamente religiosos, os maias desenvolveram uma cultura muito interessante do ponto de vista científico. Tiveram quatro calendários: um ritual (Tzolkín) de 260 dias, um civil (Haab) de 360 dias – formando os dois a famosa “Roda Calendárica” – e outros dois para uso exclusivamente científico . O ciclo da vida durava 52 anos, findos os quais, tudo era renovado: novos templos eram construídos sobre os antigos e tudo que pertencia ao ciclo que findava era queimado. Grandes observadores do céus e dos movimentos dos astros, começaram uma contagem do tempo a partir do alinhamento de seis planetas, iniciando, assim, em 3114 aC, um ciclo maior que terminaria 5125 anos depois, em 21 de dezembro de 2012, quando os mesmos seis planetas se alinharam de novo no céu. Nesta altura foi referido por várias pessoas que os maias previram que o fim do mundo ocorresse nessa data, mas tal não corresponde à verdade. Os maias jamais falaram em “fim do mundo”, apenas em fim de um ciclo.

Há, pois, muita ignorância sobre a cultura dos maias. Em 1562, o bispo espanhol Diego de Landa[3] mandou destruir todos os livros maias, considerando-os bruxaria. Três livros, porém, foram roubados e escaparam à destruição. Um deles pertence a um cidadão privado e encontra-se na Alemanha; os outros dois encontram-se em museus, em França e Espanha; há quem fale num quarto livro, mas não se sabe ao certo se existe. Estes livros estão escritos na língua maia, língua que ainda hoje se fala, e que foi decifrada na década de 1950 pelo soviético Yuri Knorozov.

A cidade sagrada de Tulum[4] situa-se na costa nordeste da Península do Yucatã. Como o navio em que viajávamos aportou em Cozumel – uma ilha mexicana em pleno Mar das Caraíbas – tivemos de tomar outra embarcação para fazer a travessia, em cerca de 25 minutos, até Playa del Carmen, no continente, e daqui um autocarro até Tulum – mais uma hora de viagem, aproximadamente. O nome original desta cidade sagrada era Zamá, que significa “manhã” ou “amanhecer”. Terá sido construída por volta do ano 1000[5] e abandonada em 1527, após a chegada dos espanhóis, que ocorrera em 1518, sob o comando de Juan de Grijalva, vindo de Cuba, em abril desse ano, na segunda expedição ao continente. Completamente coberta pela vegetação, foi redescoberta 320 anos depois por John Stephens, diplomata e advogado norte-americano, e pelo arquiteto inglês Frederick Catherwood.

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Árvore sagrada dos maias – Yaxche.

Tulum era uma cidade muralhada, o que prova a existência de conflitos armados, e situa-se estrategicamente no topo de um penhasco, sobre o mar, possuindo, nos restantes três quadrantes, muralhas, ainda hoje bem preservadas. Dentro delas moravam cerca de quinhentas pessoas – sacerdotes e políticos – e fora delas cerca de dez mil. Ossadas mostram claramente que havia um diferença entre os que moravam no interior e os que viviam do lado de fora: os primeiros eram mais altos, o que demonstra terem tido uma alimentação melhor. Verificou-se, também, que os maias protegiam as crianças nascidas com algum tipo de deficiência, acreditando que as mesmas eram predestinadas. Talvez por isso provocassem a deformação do crânio em alguns bebés, fixando talas de madeira em torno de suas cabeças, durante dois anos, prática ainda hoje observável entre os incas. Descobriu-se também que um certo tipo de pedras – as quais não eram infectáveis por nenhum tipo de bactérias – foram incrustadas nos dentes de alguns indivíduos, não se sabendo ao certo com que finalidade, talvez para preservar a própria dentição.

Na cidade sagrada de Tulum podemos encontrar vários templos, alguns dos quais serviam para sacrifícios, e outros como sepulturas, sendo que estas se encontravam também no exterior das edificações. Ao contrário do que se diz por vezes, não foram os espanhóis que introduziram as cisternas nesta região, os maias já as usavam há muitos anos. Um sistema de canais, ainda visível em Tulum, conduzia a água da chuva para os reservatórios, os quais eram tampados por forma a preservar a água e utilizá-la em tempos de seca.

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Playa del Carmen

A Península de Yucatã, onde o turismo se desenvolveu exponencialmente nos últimos anos, é uma vastíssima planície, com uma ligeira elevação, precisamente onde floresceu Tulum, na costa nordeste. O solo é constituído em cerca de 90% por rochas e pedras, não existindo aqui grandes lagos ou rios, pelo que a vida dos agricultores maias não devia ser fácil. A edificação da cidade junto à costa é assim compreensível, bem como o papel da mesma enquanto entreposto marítimo. Os maias não cunhavam moeda, o “dinheiro” que usavam era o cacau, usado nas trocas comerciais e não davam o valor que depois os espanhóis atribuíram ao ouro e à prata.

Por tudo isto, vale a pena conhecer Tulum e, mais ainda, toda esta vasta região onde os maias, desde tempos remotos, se instalaram.

É de suma importância referir que as informações aqui disponibilizadas não são científicas, basearam-se no discurso de um guia local (Julian, um excelente guia maia) e em algumas consultas posteriores. O tema “civilização maia” requereria um estudo muitíssimo mais aprofundado para ter algum valor. A nossa intenção é apenas a de documentar uma visita de um único dia, e seria ridículo pretender mais do que isso. Por outro lado, os trabalhos e as investigações continuam por esse mundo fora, sendo que muita coisa há ainda a descobrir e aclarar sobre esta brilhante – e ainda muito controversa – civilização.

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Notas:

[1] Numa área correspondente aos estados de Campeche, Tabasco, Chiapas, Iucatã e Quintana Roo.

[2] Termo proposto pela primeira vez em 1943 pelo antropólogo Paul Kirchhoff.

[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/Diego_de_Landa.

[4] Tulum não é seguramente o local mais importante para visitarmos, em termos da civilização maia. Teothihucán e Monte Alban, Palenque, Copán e Yaxchillán, na área central, Uxmal e Chichén Itza, no Yucatã, Tikal, a cidade dos Deuses, onde se encontra a maior pirâmide de toda a América, são as metrópoles mais importantes e conhecidas.

[5] Pertence, portanto, ao período pós-clássico. “Tradicionalmente, os arqueólogos dividiram a História maia em três períodos principais: Pré-Clássico (800 a.C. a 300 d.C.), Clássico (300 d.C. a 900 d.C.), Pós-Clássico (900 d.C. a 1520 d.C.). Cada um destes períodos possui estilos distintos de cerâmica e arquitetura. O período Clássico tem sido tradicionalmente visto como o auge da civilização maia, devido à imponência de seus palácios e templos, às estelas – monumentos verticais onde foram registradas inscrições hieroglíficas –, além de sua elaborada cerâmica policrômica. O período Pré-Clássico teria sido formado por vilas rurais modestas e desprovido de realizações arquitetônicas tão expressivas quanto às do Clássico. Já o Pós-Clássico foi um período de decadência cultural e artística. Este modelo, que ainda é muito difundido, apresenta muitas discrepâncias. No intuito de reformular, e não refutar, os dados apresentados pelos estudiosos ao longo da primeira metade do século XX, o esforço dos arqueólogos hoje é a reinterpretação destas informações a fim de se buscar uma periodização mais adequada”. in http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742008000100015

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Bibliografia:

“Calendário Maia, 2012 e a Nova Era”, Thiago José Bezerra Cavalcanti, ISBN, 2012, Rio de Janeiro.

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Georgetown, Ilhas Caimão

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Posando para a fotografia, em Georgetown.

Georgetown é uma pequena, tranquila e bela cidade debruçada sobre o Mar das Caraíbas. A praia mais próxima do centro, Seven Mile Beach, é de uma beleza deslumbrante, com águas calmas e cristalinas. Por todo o lado existem hotéis e resorts, a exemplo do que ocorre em Miami, com menos luxo e glamour, mas com muito mais tranquilidade e proximidade à natureza.

Seven Mille Beach.

É possível observar de perto vários tipos de aves, peixes e répteis; as iguanas circulam livremente pela cidade. Mergulho, snorkeling, vela e windsurf são o tipo de atividades perfeitas para se praticarem nas Ilhas Caimão, e os amantes dos desportos náuticos encontram aqui o paraíso.

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Montego Bay, Jamaica

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Passeando no Mar das Caraíbas.

Montego Bay, ou simplesmente Monbay, para quem a conhece, é a segunda maior cidade jamaicana, depois de Kingston, a capital. Surpreendentemente pacífica, tranquila, ordenada e limpa, a população da cidade é maioritária e notoriamente negra.

Por todo o lado se sente o cheiro da cannabis queimando; cada pessoa pode transportar consigo três onças e ser proprietária de três pés da planta. O artesanato que se vende nas ruas e muitas manifestações culturais, como o reggae, têm a ver com o consumo de marijuana.

As praias jamaicanas são muito bonitas, com as cores características das Caraíbas, mas as águas não são tão mornas como, por exemplo, as do Nordeste brasileiro. Há belezas naturais no interior desta pequena ilha, como cachoeiras e rios, mas na nossa curta estadia ficamos mesmo pelo litoral.

Surpreendemo-nos ao ver os veículos transitarem pela esquerda, o mesmo acontecendo nas Ilhas Caimão. Na Jamaica circulam também, a par, os dólares jamaicano e norte-americano.

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O macaco cozinheiro

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Richard Wrangham, ilustre primatologista britânico.

É possível encontrar muitas semelhanças dentro do mundo animal, incluindo emoções, linguagem e até, em escalas diferentes, algum tipo de pensamento. Mas há algo exclusivamente humano, algo que nenhum outro animal pode fazer como nós: cozinhar. Poderíamos pensar que foram as nossas capacidades excecionais que nos levaram a usar o fogo e com ele transformarmos a comida, através do cozimento. Mas não. Foi, pelo contrário, o cozimento que nos moldou como humanos.

Há várias teorias sobre a forma como o homem pré-histórico aprendeu a gerar e guardar o fogo, não sendo possível dizer, por enquanto, qual delas é a verdadeira. O que se sabe, ou se julga saber, é que há dois milhões de anos, os australopitecinos deram lugar aos habilinos1, graças, segundo se pensa, à mudança para uma dieta que passou a incluir cada vez mais carne. Porém, a grande mudança deu-se cerca de 200 mil anos depois, há cerca de um milhão e oitocentos mil anos, quando o domínio do fogo e o cozimento dos alimentos fizeram com que o cérebro dos habilinos crescesse significativamente, até alcançar os 950 cm3 do homo erectus. O desenvolvimento das técnicas de cozimento continuaram a melhorar a dieta até chegarmos ao homo heidelbergensis, há 800 mil anos, com os seus substanciais 1.200 cm3 de volume cerebral, e finalmente ao homo sapiens, há cerca de 200 mil anos, com um cérebro de 1.400 cm3, uma capacidade próxima da atual.

O cérebro é, na verdade, um grande consumidor de energia, ele nunca pára de trabalhar, nem quando dormimos, e usa 20% da nossa taxa metabólica basal (o orçamento energético para um corpo em repouso), embora o seu peso corresponda apenas a 2,5% da nossa massa corporal. A princípio os investigadores pensaram que isso se devia a uma maior taxa metabólica humana, devido à alimentação mais rica, mas acabaram por descobrir que essa taxa era sensivelmente igual à esperada para um qualquer primata com o mesmo peso. Esta descoberta foi muito importante porque se os nossos grandes cérebros, ávidos de glicose, não são alimentados por uma dose de energia suplementar, então os tais 20% devem ser usados por nossos cérebros à custa de outra parte do nosso corpo.

Que parte? Por comparação com os outros primatas, os cientistas descobriram que esse enorme fluxo de energia consumido pelo nosso cérebro só é possível porque os nossos sistemas digestivos são mais curtos e pequenos, e não precisamos de despender muita energia na digestão, ao contrário de todos os outros primatas; o custo energético é muito maior nos organismos dos nossos primos, enquanto que nos humanos essa energia poupada pode alimentar um cérebro maior.  O nosso sistema digestivo é muito mais rápido a transformar os alimentos em calorias e energia, e isso só é possível porque os alimentos que comemos são altamente digeríveis e calóricos, graças ao cozimento.

De facto, várias experiências2 demonstraram que os alimentos cozidos são mais facilmente digeridos que os alimentos crus. Isto porque o cozimento é responsável por dois processos peculiares: a gelatinização e a desnaturação. A primeira ocorre sobre os amidos que se encontram no interior das células vegetais: “quando aquecidos na presença de água, os grânulos de amido começam a inchar porque as ligações de hidrogénio nos polímeros de glicose se enfraquecem quando expostas ao calor, e isso faz com que a sua apertada estrutura se alargue”3. Já a desnaturação acontece quando as ligações internas das proteínas se enfraquecem, obrigando as moléculas a abrir-se, proporcionando uma ação mais perfeita das enzimas digestivas, particularmente a tripsina. Embora o calor não seja o único fator a provocar a desnaturação das proteínas — marinadas, picles e sucos ácidos contribuem para a desnaturação quando aplicados por tempo suficiente4 — não há dúvida de que o cozimento proporciona uma digestão muitíssimo menos custosa5.

A digestibilidade dos alimentos que nos fornecem energia (através dos hidratos de carbono, gorduras e proteínas) é muito importante e não há dúvida nenhuma de que esta se torna mais disponível pelo aquecimento dos alimentos. Essa melhor digestão6 proporcionada pelo cozimento é realmente importantíssima por duas razões: 1- há uma melhor absorção de calorias por parte do nosso sistema digestivo, transformando, assim, os alimentos cozidos em alimentos mais eficientes7, dado que os alimentos crus não são completamente digeridos pelo organismo e, em grande parte, são desperdiçados através das fezes8 e 2- o cozimento, ao proporcionar digestões mais fáceis e rápidas, permite que não necessitemos de consumir demasiada energia na digestão. O cozimento proporciona, pois, uma dieta mais rica, um menor custo da digestão e, consequentemente, um tubo digestivo mais curto, e tudo isto resulta em energia disponível, a qual, no nosso caso, é canalizada para o cérebro9. Esta é a chamada teoria do “tecido custoso”.

O cozimento permitiu ainda que os nossos antepassados tivessem mais tempo livre, o que proporcionou uma maior socialização, indo ao encontro do que muitos autores defendem: as estratégias sociais contribuíram para o aumento do volume do cérebro e o incremento da inteligência, e vice-versa. Esta interação só foi possível graças ao cozimento dos alimentos.

Este é apenas um pequeno apontamento sobre um livro delicioso10, escrito magistralmente por Richard Wrangham e publicado em 2009, com o título original Catching Fire – How Cooking Made us Human —realmente, a não perder. Após os oito capítulos do livro, Richard Wrangham refere-se, num epílogo denominado O Cozinheiro Bem Informado, a uma questão muito interessante: quantas calorias os diversos alimentos fornecem aos nossos corpos? A convenção que ainda hoje, com ligeiras alterações, domina a estimativa de valores energéticos dos alimentos, e está na base do modelo da sua rotulação no mundo ocidental, é o sistema de Atwater11. Ora, Wrangham chama a nossa atenção para o facto da digestão não ser um processo puramente químico, mas igualmente físico. Como vimos, há um custo energético na digestão e, além disso, “os sistemas digestivos tratam diferentes substractos de maneiras diferentes”12, sendo que, acresce a tudo isto, os próprios sistemas digestivos humanos operam de forma muito diversificada13. Vale, portanto, conhecer o seu funcionamento, sobretudo o do intestino delgado, o nosso “segundo cérebro” (ver nota 13). O cozinheiro bem-informado será, em tese, um ser humano com melhor qualidade de vida.

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Notas:

1 Calcula-se que os habilinos pesassem entre 32 e 37 kg, e o homo erectus entre 56 e 66 kg.

2 Particularmente as de Leslie Aiello e Peter Wheeler, em 1995.

3 Richard Wrangham, Pegando Fogo – Por que cozinhar nos tornou humanos, Editora Zahar, 2010, p.52.

4 Lembremo-nos, por exemplo, do ceviche, um prato de origem peruana em que o peixe cru, marinado em suco de limão, fica delicioso.

5 Ob. cit., p. 56.

6 Na verdade há dois tipos de digestão. Uma realizada desde a boca até o intestino delgado, onde se faz a parte principal da digestão, e outra realizada no intestino grosso, que, na verdade, é uma fermentação, realizada por mais de 400 tipos de bactérias e protozoários. A primeira produz calorias inteiramente úteis, mas a segunda dá apenas cerca de metade da energia disponível nos hidratos de carbono e absolutamente nada no caso das proteínas (ob. cit., p. 51).

7 Pode parecer um contra-senso, mas não é. Por exemplo, pensava-se que os ovos crus eram alimento muito mais rico que ovos cozidos. Ora, isto não é verdade. Cientistas belgas, ainda nos anos 1990, verificaram que o cozimentos dos ovos aumentava o valor proteico dos ovos em cerca de 40% (ob. cit., p. 56).

8 Algures, durante o processo evolutivo, perdemos a capacidade de extrairmos a energia necessária dos alimentos crus. Todo o nosso aparelho digestivo está adaptado à comida cozida, a começar por nossos maxilares, bocas e dentes (ob. cit., p. 36).

9 Foi confirmado em variados espécimes (nomeadamente entre os grandes símios), que os seus  cérebros relativamente grandes deriva de uma dieta mais rica, quando comparada com outras dietas mais pobres em animais de cérebros menores. Essas dietas mais ricas permitem sempre intestinos menores. No entanto, há espécimes que não canalizam o ganho de energia, proporcionado por uma dieta rica, para o cérebro. Espécies como a nossa, que vivem em grupos sociais mais complexos, fazem-no. Mas outras espécies, como alguns tipos de aves, usam essa energia para fortalecer os músculos das asas e assim voarem mais tempo e mais longe, supostamente, porque isso é mais importante para elas que desenvolverem cérebros grandes. 

10 O título deste artigo foi também inspirado no livro. Diz-nos Richard Wrangham (ob. cit., p. 39): “Os zoólogos sempre procuraram exprimir a essência de nossa espécie com expressões como macaco nu, bípede ou de grande cérebro. Eles poderiam igualmente chamar-nos o macaco da boca pequena”.

11 Wilbur Olin Atwater (1844-1907) foi um químico americano, conhecido sobretudo pelos seus estudos sobre a nutrição humana e o metabolismo. Preocupado com a alimentação dos mais pobres buscou saber qual o número mínimo de calorias de que necessitavam para viver. Usando um calorímetro de bomba, registou quanto calor era libertado quando gorduras, hidratos de carbono e proteínas eram completamente queimados. Descobriu que não havia grande variação entre os diferentes tipos de cada idem. Por exemplo, todas as proteínas tendiam a produzir um pouco mais de 4 quilocalorias por grama. Depois disto, Atwater quis saber que quantidades dos principais macronutrientes referidos um alimento contém. A mais fácil de determinar foi a gordura, dado que esta, ao contrário dos outros dois, se dissolve no éter. O pesquisador picava finamente os alimentos, inseria-os no éter e pesava quanto material se dissolvia no líquido. Assim determinava a quantidade de lípidos (estes incluem tanto as gorduras sólidas, à temperatura ambiente, quer a gordura líquida contida em óleos). Este método é usado ainda hoje. A quantidade de proteína é mais díficil de detrminar, pois não há testes para identificá-la. Mas Atwater sabia que 16% do peso das proteínas médias são nitrogénio. Conseguiu um método de medir a quantidade de nitrogénio e assim a concentração de proteína. O mais difícil de medir foram os hidratos de carbono. Não havia nenhum método na época, tal como hoje ainda não há. Mas sabendo que toda a matéria orgânica dos alimentos era composta por estes três grandes grupos e conhecendo o peso dos outros dois, Atwater podia determinar o dos hidratos de carbono, por subtração. Para tal queimava o alimento completamente, deixando de lado a parte que não queimava, isto é, a parte inorgânica. Mas Atwater quis saber também quanto dos macronutrientes era digerido pelo corpo, ou seja, não era expelido pelo corpo sem ser usado. Dedicou-se então a analisar as fezes de pessoas que comiam alimentos rigorosamente medidos e pode determinar quanto de cada nutriente era efetivamente digerido. O químico conseguiu assim o que queria saber: quanta energia cada um dos três macronutrientes continha, que quantidade de cada um estava presente num alimento e quanto dela era usada no corpo.  Richard Wrangam defende, porém, que, apesar dos ajustamentos já feitos, o sistema de Atwater peca por não ter o rigor necessário, dado que o cozimento (ou não) dos alimentos altera as calorias que fornece, bem como o trabalho do sistema digestivo e o respetivo custo energético varia de indivíduo para indivíduo (ver ob. cit., pp. 151-159).

12 ob. cit., p. 152.

13 A forma como o aparelho digestivo trabalha é um tema fascinante que merece ser tratado num artigo específico. Os orientais já conhecem a importância da região abdominal do nosso corpo há muitos anos, mas, no Ocidente, só após Michael Gershon, professor da universidade de Colúmbia, em Nova Iorque, ter publicado o excelente Second Brain (1998), onde defendeu a existência de uma interação entre distúrbios nervosos e mau funcionamento do sistema digestivo, se inaugurou um novo ramo da medicina denominado neurogastroenterologia. Os maiores especialistas desta disciplina, desde logo o próprio Gershon (que estudou o assunto durante mais de trinta anos), apontam para a existência de “neurónios” digestivos, dentro do sistema nervoso entérico (SNE), o nosso segundo cérebro. De acordo com Irina Matveikova, uma médica russa que vive em Espanha (autora de O Intestino Feliz, Esfera dos Livros, Lisboa, 2015, pp. 28/9), “o número de neurónios que se encontram na rede do intestino delgado chega aos cem milhões. Este número representa, por exemplo, um valor consideravelmente superior ao dos neurónios da espinal medula. O cérebro dos intestinos é a maior fábrica responsável pela produção e armazenamento das substâncias químicas conhecidas com neurotransmissores, a maioria dos quais são idênticos aos que se encontram no sistema nervoso central (SNC), tal como a acetilcolina, a dopamina e a sorotonina.  Estas substâncias regulam a nossa energia, bem estar emocional e psicológico, e constituem um grupo de substâncias essenciais para a correta comunicação entre os neurónios e o sistema de alerta. Representam as “palavras” no idioma neuronal. Gershon revelou que 90 por cento da serotonina (a famosa hormona da felicidade e do bem-estar físico) é produzida e armazenada no intestino. Aí regula os movimentos peristálticos e a transmissão sensorial. E apenas os 10 por cento restantes de serotonina do corpo são sintetizados pelos neurónios do sistema nervoso central, ou seja, no cérebro superior”.

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A nossa edição:

Richard Wrangham, Pegando Fogo – Por que Cozinhar nos Tornou Humanos, Editora Zahar, 1ª edição, Rio de Janeiro, 2010.

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Foto retirada de http://www.youtube.com

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