A Ilusão da Memória

Julia Shaw
A jovem psicóloga canadiana Julia Shaw.
  1. A memória é maleável. Com o passar do tempo incorpora interesses, preferências, sonhos, experiências diversas e modifica-se, podendo transformar completamente um acontecimento passado, falseando-o, quer este tenha sido (emocionalmente) marcante ou banal. Muitas das nossas memórias são falsas, mesmo aquelas (talvez sobretudo essas) que nos parecem extremamente claras.
  2. Vários estudos confirmam amplamente que a grande maioria de nós considera-se mais inteligente (ou mais culta, ou mais sábia, ou mais talentosa) que a média, algo que, logicamente, se traduz numa impossibilidade estatística, pois não pode haver uma maioria acima (ou abaixo) da média. O que realmente acontece é que quase todos somos afetados por algo muito comum: o pretensiosismo. Os mais presunçosos são também, como seria de esperar, os mais confiantes. Porém, uma maior confiança na própria memória não significa que esta seja mais exata, antes pelo contrário.
  3. A ciência é sempre preferível à pseudociência, e os cientistas são sempre mais interessantes que os charlatães (profetas, iluminados, lunáticos, etc.). Por exemplo, a hipnose é uma treta: ninguém consegue recordar coisas de quando era pequenino ou de qualquer outra fase da vida através da hipnose.
  4. Por falar em ciência e pseudociência, o sinónimo mais aproximado para “Freud” é… “fraude”.
  5. Há muitas capacidades mnemónicas espetaculares, como indivíduos capazes de memorizar uma quantidade impressionante de dados, outros extremamente dotados para recordar rostos e outros ainda com uma excelente memória fotográfica (eidética), mas isso, ao contrário do que possa parecer, não é bom. Muitos autistas, por exemplo, não conseguem relacionar-se socialmente e, no entanto, alguns deles são hipertimésicos (savants), isto é, têm uma capacidade de memória incrivelmente superior à dos indivíduos comuns.
  6. As capacidades excecionais são, portanto, muito menos importantes que o equilíbrio. A memória funciona por associação e cada conceito ou imagem ativa um nódulo cerebral, que por sua vez ativa outro e assim sucessivamente até muitos nódulos se ligarem e formarem memórias mais complexas. Pensa-se que o hipocampo (situado, sensivelmente, no meio do cérebro) seja o responsável pela formação destas redes, em tempo real; e cada vez que recordamos criamos uma nova memória diferente da anterior, sendo influenciados de múltiplas formas quer no momento em que algo acontece, quer nos momentos em que recordamos esse acontecimento.
  7. A plasticidade do nosso cérebro, a capacidade que detém para fazer associações, não permite que as memórias sejam impermeáveis, pelo contrário, elas são suscetíveis a todo o tipo de influências. Porém, é graças a essa plasticidade que também conseguimos aprender, relacionar, criar. Jamais seríamos humanos se não tivéssemos um cérebro altamente equilibrado e relacional.
  8. O saudável equilíbrio está ligado a racionalidade e a independência. Somos seres paradoxais, dotados de uma racionalidade frágil, muitas vezes eclipsada pelas emoções e pela necessidade de pertença a grupos – turmas, escolas, clubes de futebol, bairros, partidos, nações, igrejas, etc -, o que nos leva a aceitar a irracionalidade, quase sempre sem darmos conta disso. O mundo passa a dividir-se entre nós, os bons, e os nossos rivais, os maus. (Quem quiser aprofundar este tema pode procurar um excelente livro, publicado em 2008: Previsivelmente Irracional: as forças ocultas que formam as nossas decisões, do americano Dan Ariely).
  9. É por isso que muitas vezes relutamos em contrariar alguém de um determinado grupo ou quadrante – porque temos a clara noção de que seremos imediatamente catalogados como pertencentes ao grupo ou quadrante rival. Por exemplo, se criticamos uma ideia vinda da direita é porque somos um perigoso esquerdista, e vice-versa. Ser membro fervoroso de um grupo torna-nos radicais e retira-nos a capacidade de entendermos o pensamento independente, mesmo que este constitua, como de facto acontece, a única atitude racional.
  10. Finalmente, só conseguiremos aproximar-nos de um pensamento independente se formos críticos. Mais exatamente, autocríticos. Somos seres flexíveis e influenciáveis: a racionalidade absoluta não existe e a independência completa também não. Mas mantendo-nos autocríticos poderemos ter, em momentos mais ou menos importantes, uma atitude menos irracional (e menos presunçosa, também). Isto pode parecer pouco relevante, mas talvez não seja: a racionalidade é a única forma de, no mundo, alcançarmos a paz.

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Foto retirada de: http://www.vice.com

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A nossa edição:

Julia Shaw, A Ilusão da Memória ,Círculo de Leitores, 1ª edição, Lisboa, 2016.

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Costa do Conde, Paraíba, Brasil

Praia do Coqueirinho. Talvez a mais bonita da Paraíba.

Vivemos em quatro Estados do Brasil. Primeiro no Paraná, em Ivaiporã, depois na Bahía, em Porto Seguro, mais tarde no Rio Grande do Sul, em São Leopoldo, e por último na Paraíba, em Carapibus, 30 quilómetros a sul da capital, João Pessoa. Carapibus pertence à prefeitura do Conde, bem como a praia com o mesmo nome e todas as outras – Amor, Jacumã, Tabatinga, Coqueirinho, Arapuca, Tambaba, Graú, Bela – as melhores da Paraíba, integradas na chamada Costa do Conde. Gostámos tanto do lugar que acabámos por comprar uma casa e aqui vivemos durante dois anos. A zona é, de facto, paradisíaca, e todas as praias já referidas têm os seus encantos.

Praia Bela. Os brasileiros, sobretudo do Nordeste, não são muito dados a banhos de mar e sol. Em parte isto é compreensível, pois o sol aqui é realmente potente e perigoso: não passa pela cabeça de ninguém estar deitado na praia, ao meio-dia, a apanhar banhos de sol. Já em relação à preferência pelos banhos em rios e maceiós em detrimento do mar, colocam-se várias hipóteses, todas elas culturais, relacionadas com as tradições índia e negra. Neste aspeto, há um contraste vincado com a cultura portuguesa.

Por outro lado, além da ligação à natureza, a proximidade destas praias a João Pessoa proporciona a quem ali vive deslocar-se com facilidade à capital para suprir alguma necessidade que não possa ser satisfeita nas pequenas localidades costeiras pertencentes ao município do Conde. Costumávamos ir a João Pessoa uma vez por semana, primeiro de carro, depois de buggy, para nos abastecermos nalgum supermercado de maior dimensão e, sobretudo, para comprarmos peixe no Zé do Peixe, na Penha, uma pequena e pitoresca aldeia de pescadores junto ao mar, aproveitando, em geral, para almoçarmos no restaurante Vila do Porto na zona histórica de João Pessoa (um restaurante belíssimo que é também um espaço cultural) ou no Maré Alta, na marginal. A zona histórica vale bem uma visita demorada: a Igreja de São Francisco, do século XVI, com seus belos azulejos portugueses no pátio, é ponto de paragem obrigatório; os edifícios art nouveau são outra atração a não perder.

Brincando com a lua em Tabatinga 1.

A Praça Antenor Navarro alberga edifícios de grande interesse arquitetónico (é num deles que funciona o Centro Cultural Espaço Mundo); no topo da praça, virando à esquerda, encontra-se um pequeno largo com a Igreja de S. Frei Pedro Gonçalves e belos edifícios, como o Hotel Globo ou a Casa da Ordem dos Arquitetos; é mesmo ao lado desta que fica o restaurante-bar Vila do Porto. Descendo no mesmo sentido, encontraremos, já junto ao rio Paraíba, um bairro pobre com casas pré-fabricadas ao lado de grandes edifícios em ruínas, de antigos comerciantes portugueses. Alguns dias ficámos em João Pessoa para jantar, invariavelmente no Teimoso, um restaurante português, com alguns petiscos e pratos típicos de Portugal. À noite, a zona mais segura é mesmo a que fica junto à orla marítima, onde quase tudo acontece. Como em todas as cidades brasileiras, as zonas mais movimentadas e com mais turismo são as mais policiadas e, como tal, as mais seguras. Fora dessas zonas não é nada aconselhável andar a pé. Em João Pessoa fica também um restaurante famoso, aonde fomos duas ou três vezes, o Mangai, talvez o maior e o mais diversificado restaurante de comida genuinamente paraíbana.

Tabatinga 2. No Verão a água de mar muda de cor e fica mais transparente devido a alterações nos ventos e nas correntes marítimas.

Mas na Costa do Conde também há bons restaurantes. Dois deles, realmente excelentes, são o Turek, em Carapibus, e o Canyon, ao lado da praia do Coqueirinho. O primeiro é especializado em carne grelhada e o segundo em peixe (sobretudo moquecas) e marisco.Além da proximidade a João Pessoa, a Costa do Conde não fica muito distante do Recife. A capital do Pernambuco, onde fica o aeroporto internacional com ligações diretas (e indiretas) a Portugal, dista uns meros 120 quilómetros de Carapibus ou Jacumã. De vez em quando, para algum evento especial, como um concerto ou o carnaval (de Recife ou Olinda), ou para comprarmos livros na livraria Cultura (João Pessoa é pobre em livrarias, a mais ampla e diversificada é uma que vende livros em segunda mão, chamada Sebo Cultural) ou ainda para irmos ao aeroporto receber alguém ou nós próprios viajarmos, dávamos um salto ao Recife. Quem nos transportou muitas vezes para o aeroporto do Recife ou deste para nossa casa de Carapibus foi o senhor Ernande, já também um amigo, cujo contacto, no caso de alguém precisar, é o seguinte. (+55) 83998692749. O senhor Ernande pode (e deve) ser contactado através do whatsapp.

Ainda a praia de Tabatinga 1. Por ser mais próxima de nossa casa, é aquela aonde fomos mais vezes.

Como se sabe, o turismo no Brasil é incipiente, sobretudo o turismo externo. E, no entanto, a Costa do Conde tem um potencial turístico excecional. Tem boas praias, bom clima, bons restaurantes, boas pousadas, boa gente. Mas faltam duas coisas essenciais. Por um lado, segurança e, por outro, infraestruturas e equipamentos de todo o tipo, sobretudo boas estradas. Se houver vontade política e capacidade de investimento, a Costa do Conde poderá ser um destino atrativo para turistas de todo o mundo, nomeadamente para americanos e europeus. Isso daria um impulso à região criando riqueza e emprego. A cultura paraíbana, como acontece um pouco por todo o Brasil, é rica, e o forró pé-de-serra um produto local genuíno, é, por isso mesmo, igualmente um produto turístico por natureza. A cidade de Campina Grande, a segunda maior da Paraíba, a 130 quilómetros de João Pessoa, tem como cartão de visita as festas juninas (o equivalente aos nossos santos populares), nas quais participam as chamadas “quadrilhas”, numa manifestação popular única, que alcança na Paraíba e no Pernambuco a sua expressão mais elevada.

Passagem da praia do Amor para a praia de Jacumã.

Assim, passar uma férias na Costa do Conde durante o mês de Junho tem algumas vantagens. Em princípio, os voos são mais baratos. E, dado que no Brasil o Inverno começa precisamente nesse mês, é uma altura de “época baixa”, quando os preços, nomeadamente das pousadas, são também mais baratos. Por outro lado, há mais sossego, logo mais tranquilidade. E pode sempre dar-se um salto a Campina Grande para se assistir à atuação das quadrilhas. Quem quiser, pode alugar um carro e visitar outros locais, como Recife ou mesmo Natal, que fica a menos de 200 quilómetros de João Pessoa. Natal é, aliás, outra cidade com aeroporto internacional e uma hipótese alternativa ao Recife, caso o preço dos voos para a capital do Rio Grande do Norte seja significativamente inferior ao dos voos para o Recife. Pelo caminho até Natal há pontos interessantes, como a praia de Pipa, o cajueiro gigante de Pirangi ou o rio Catu que pode ser atravessado com o carro em cima de uma jangada (os brasileiros chamam-lhe “balsa”) em Sibaúma. A alternativa a alugar apenas o carro é alugar um carro com motorista e para isso, claro, o melhor é contactar o senhor Ernande.

Com Ismael, no seu pequeno veleiro. É preciso conhecer bem esta zona e, ainda assim, ter muito cuidado devido às rochas submersas. O mesmo acontece quando nos banhamos nas praias mais abertas, com maior ondulação, algumas não vigiadas: é preciso ser muito cuidadoso. O recomendável é procurar as praias mais abrigadas, viradas para o Norte, sobretudo se se estiver com crianças.

Quem quiser hospedar-se em Carapibus, num local com vista espetacular sobre o mar, pode optar pela Pousada Laguna, dos nossos amigos Ismael e Gládis, onde podem tomar um excelente pequeno-almoço ou um petisco típico da região (os “caldinhos” são divinos) verdadeiramente “em cima” do mar. De facto, a localização desta pousada é privilegiada, pois fica no topo de uma falésia de onde se tem uma vista arrebatadora: além de se ver o sol nascer no mar, também se pode ver o sol pôr-se , em terra. No topo da arriba há mesas e cadeiras espalhadas sob toldos e chapéus de palha: o tempo quase pára quando nos sentamos para um drink, desfrutando da brisa que sopra do oceano. O acesso à praia é feito descendo a arriba, através de uma passagem bela e exclusiva. Trata-se de uma passagem íngreme mas segura, fácil de percorrer, com banquinhos pelo meio do percurso para descansar e apreciar a paisagem durante a subida. A tranquilidade do lugar proporciona uma verdadeira comunhão com a natureza; ali é possível, realmente, relaxar.

Passagem entre a praia e a Pousada Laguna ao pôr-do-sol.

À noite, há o bar Tropicália, na rua principal de Jacumã (a avenida Ilza Ribeiro), em frente à igreja, que está aberto até ao amanhecer, desde que haja clientes. No Tropicália pode comer-se um bacalhau à Gomes de Sá e beber-se um bom vinho português, ou simplesmente tomar uma caipirinha ou uma cerveja artesanal, entre muitas outras opções, envolvido numa suave música ambiente. O bar está concebido para estimular o convívio entre os clientes e proporcionar a troca de ideias e experiências, mas, em alguns fins de semana também há música ao vivo. O proprietário, de seu nome Jorge Tavares, é português e igualmente, nosso amigo. Após o encerramento do bar, normalmente lá para as 4 da madrugada, quem quiser, e gostar de fazer nudismo, pode aproveitar a boleia do Jorge e acompanhá-lo no seu buggy, através de uma paisagem luxuriante, até à praia naturalista de Tambaba, e experimentar um reparador mergulho ao nascer do sol.

Sobre a praia da Arapuca.

Nessa altura não estará à entrada o rececionista, mas se forem mais tarde só terão acesso à praia, caso sejam do sexo masculino, se forem acompanhados de uma mulher. Já estas, por sua vez, podem entrar sozinhas, não nos perguntem porquê. Há uma única entrada para a praia, através de uma passagem entre as rochas, pelo que não poderão escapar ao controlo. No entanto, se forem antes das oito da manhã poderão entrar sem restrições. Na praia naturalista de Tambaba (há a praia pública de Tambaba, aliás muito bonita, ao lado da praia naturalista) existe um bar-pousada aberto desde manhã cedo, onde podem tomar o café da manhã à sombra de um coqueiro. É provável que essa seja uma forma inesquecível de começar o dia.

No nosso buggy. Em baixo, a praia do Coqueirinho.

Tudo o que possa ser dito é pouco para realçar a beleza natural desta zona costeira entre João Pessoa e a praia Bela. Conhecemos a maior parte do litoral brasileiro, de Norte a Sul. Escolhemos viver na Costa do Conde porque é, sem dúvida, pelo menos para nós, juntamente com algumas zonas de Alagoas e da Bahía, e obviamente com Fernando de Noronha (um paraíso natural), onde se encontram as melhores praias do Brasil. Fizemos bons amigos na Paraíba. Isso e o facto de ainda ali termos uma casa constitui uma garantia de que em breve, se não acontecer algum impedimento, iremos certamente voltar.

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O Capital – Livros I e II

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Os dois primeiros livros de O Capital, publicados pela editora brasileira Boitempo.

Não se pode compreender a fundo “O Capital” de Marx, especialmente o primeiro capítulo, sem o paciente estudo e assimilação de toda a “Lógica” de Hegel. Consequência disto é que, depois de meio século, não se conhece um só marxista capaz de compreender Marx1.

Lenine

1- A PROBLEMÁTICA DAS EDIÇÕES D’O CAPITAL

O Capital (cujo título completo é O Capital: Crítica da Economia Política 2 é uma obra monumental, dividida em quatro volumes. Marx trabalhou cerca de vinte anos na sua construção, e apenas o Livro I – O Processo de Formação do Capital 3 – foi, em 1867, na Alemanha, editado por ele4. Só depois de Marx ter morrido (em 1883), é que Engels editou os livros II e III, respetivamente, em 1885 e 1894. O último volume (Livro IV) só foi publicado após a morte de Engels (1820-1895), em 1905, numa edição de Kautsky.

Para lá da extensão, O Capital é igualmente uma obra complexa. A sua organização constituiu um grande problema. Os manuscritos que Marx deixou tiveram que ser interpretados, ordenados e estruturados para, com base neles, Engels editar os livros II e III5. No entanto, Engels não se limitou a esse papel escrutinador. “Em seu árduo trabalho editorial, ele também entendeu ser necessário preencher diversas lacunas no corpo do texto marxiano, estabelecendo conexões e desenvolvendo pontos que julgava não estarem suficientemente explicitados”6, de tal forma que alguns estudiosos da obra, sustentados em investigações recentes, chegam a admitir que a autoria dos livros II e III deveria ser atribuída a Friedrich Engels e não a Karl Marx 7.

Porém, Engels jamais aceitaria essa autoria. A sua fidelidade a Marx foi total. Engels dedicou-se, após a morte de Marx, à obra essencial do amigo, deixando para segundo plano, ou mesmo abandonando, os seus projetos pessoais (apesar de ainda ter publicado um livro de sua autoria)8. Este grande trabalho de Engels foi muito importante e continua, hoje, praticamente desconhecido do grande público. E foi também um trabalho ingrato: os manuscritos deixados por Marx sobreviveram até à atualidade9 e têm sido alvo de um minucioso escrutínio por parte de especialistas, muitos dos quais apontam erros substanciais ao trabalho do pobre Engels. Isto seria sempre inevitável, e só o facto de Engels se ter sujeitado a críticas que (ele sabia) iriam durar muito para lá da sua vida, já prova a extraordinária amizade que o ligava a Marx.

2- ENQUADRAMENTO HISTÓRICO-SOCIAL D´O CAPITAL

O Capital é uma obra de Economia que deve ser encarada sob um ponto de vista mais amplo. É esta, aliás, a perspetiva do próprio Marx, que reclama um enquadramento histórico do capitalismo, sem o qual este dificilmente será compreendido. Aliás, segundo ele, o indivíduo não é mais do que uma peça na engrenagem do imparável processo histórico10, sendo inútil qualquer tentativa para contrariar esse processo. Este aspeto de O Capital é muito importante, pois revela que a obra essencial do marxismo não pode ser desligada do contexto histórico nem, sobretudo, de uma visão político-social, defendida por Marx e Engels, que podemos apelidar de historicista11. Por outras palavras, o processo histórico da luta de classes, tal como Marx o desvendou, teve um início, um meio (a época de capitalismo selvagem em que Marx viveu) e teria um fim com o advento da sociedade socialista, e a tomada do poder pelo proletariado.

A teoria histórica de Marx desenvolve-se em três fases: a) análise das forças económicas do capitalismo e a sua influência sobre as relações entre as classes (O Capital trata apenas deste ponto); b) a inevitabilidade da revolução; c) a emergência da sociedade sem classes12. É a partir da análise realizada em O Capital (alínea a) que Marx retira as conclusões (erradas) das alíneas b) e c). De uma análise sobre o presente e o passado, Marx retira conclusões ousadas para o futuro; a partir de um conhecimento empírico, factual, histórico, Marx deduz o futuro, o qual nunca pode ser empírico, factual nem, obviamente, histórico. É por isso, que a teoria marxiana falha.

A previsão de Marx, e dos teóricos marxistas, era que o colapso do capitalismo e a tomada do poder pela classe operária ocorreria primeiro nos países onde o capitalismo estivesse mais desenvolvido. Ora, isso não aconteceu nem se vislumbra onde tal possa acontecer. Pelo contrário, as revoluções operárias (ou em nome dos operários e camponeses) realizaram-se em países pouco desenvolvidos do ponto de vista capitalista e foram impostas de forma violenta às populações. Mais: económica e socialmente, foram um desastre. Os marxistas usam normalmente dois tipos de “argumentos” para justificarem o fiasco que resultou dos governos comunistas: não estavam reunidas as “condições objetivas” ou, por outro lado, não existiram “condições políticas” (em geral, por inépcia dos governantes) para implementar a verdadeira doutrina comunista. Em suma: tudo o que possa correr mal não pode decorrer da teoria marxista, porque esta está correta, mas de algum fator externo.

Nós, porém, temos duas justificações diferentes, uma decorrente da doutrina de Marx, outra derivada dos marxismos. Pelo lado do próprio Marx, este quis que a sua doutrina fosse científica e materialista, procurou limpá-la da especulação filosófica (como ele próprio disse: “não basta interpretar o mundo, é preciso mudá-lo”). Marx pensou erradamente que o comportamento humano seria linearmente determinado pelo processo histórico, pelo condicionamento económico e social. Tinha uma visão determinista, possuía conhecimentos de Economia e de História, mas fraco entendimento de Psicologia; conhecia mal o género humano: sobretudo o seu apego à liberdade. Isso conduziu-o ao historicismo. Por seu turno, os marxistas confundiram intenções com realidade. Se a intenção é boa, o resultado deverá ser igualmente bom, pensaram eles. Se algo falha, a culpa não é, naturalmente, de quem é bem-intencionado… Ora, esta confusão revelar-se-ia um erro fatal; um erro associado a morte e a sofrimento; um erro que – embora residual nas sociedades mais avançadas de hoje – ainda persiste.

3- CONTEÚDO D’ O CAPITAL

Já nos referimos à extensão e ao detalhe desta obra de referência, uma das mais famosas de sempre. O Capital não é, de forma alguma, uma obra fácil. Louis Althusser13, um marxista francês, avisa, em “Advertência aos leitores do Livro I d’O Capital“, que, “para ser compreendido, o Livro I precisa ser relido quatro ou cinco vezes consecutivas”14. Não seguimos o aviso de Althusser: lemos o Livro I, e também o Livro II, apenas uma vez. Isso não nos impediu – nem deve impedir ninguém – de emitir opinião sobre uma obra em que, apesar dos detalhe e minúcia, transparece de forma bem clara a intenção de seu autor: denegrir o sistema capitalista, denunciando aquilo que ele considera ser o seu caráter iníquo.

Marx viveu numa época em que o capitalismo selvagem, sem regras, proliferava na Europa, sobretudo em Inglaterra, fruto da Revolução Industrial. Foi uma época chocante, com horários de trabalho desumanos, condições degradantes, trabalho infantil, abuso do trabalho feminino, salários miseráveis, direitos sociais praticamente inexistentes. Marx indignou-se, justamente, com esta situação. Procurou as causas, o modus operandi do sistema capitalista. Tal como os economistas burgueses, que não fizeram mais do que “traduzir, sistematizar e fazer a apologia doutrinária das ideias dos agentes dessa produção (capitalista), presos às relações burguesas de produção”15, também Marx não fez mais do que tomar em mãos a apologia dos interesses dos trabalhadores, mostrando como estes são explorados e precisam revoltar-se para derrotarem os capitalistas.

No Livro I, Marx mostra-nos como se dá essa exploração. Ele mostra que cada época tem, do ponto de vista económico, o seu modo de produção – é este que caracteriza e define cada época histórica. Quando as sociedades humanas viviam ainda fechadas, toda a produção era consumida no seio da tribo, não havia troca, nem comércio16, nem dinheiro, tudo isso apareceu mais tarde, com o desenvolvimento técnico, particularmente dos transportes. No modelo económico que antecedeu o capitalismo – o feudalismo – o senhor feudal detinha os meios de produção, nos quais se incluía a força de trabalho do servo. E foi apenas com o surgimento da sociedade burguesa, quando o servo conquistou a liberdade e passou a poder vender a sua força de trabalho, tornando-se um assalariado, que surgiu, verdadeiramente, o capitalismo. O capitalista passou a ser o detentor dos meios de produção: a) o capital constante (matérias-primas terrenos, maquinaria, etc) e b) o capital variável (a força de trabalho).

É neste momento que surge o ponto crucial da “lei” de Marx – a teoria da mais-valia. Só existe capitalismo porque no ciclo de produção e circulação se estabelece uma mais-valia; e só existe mais-valia porque existe o trabalhador livre, portador da força de trabalho. É usando a força de trabalho em seu benefício (explorando-a) que o capitalista cria a mais-valia, aquilo que os ricardianos apelidavam de lucro. Isto acontece porque a força de trabalho – que, como qualquer outra mercadoria, deveria ser comprada pelo seu valor17 (o tempo de trabalho necessário), no caso, o tempo necessário à produção dos meios de subsistência do próprio trabalhador  – é usada pelo capitalista muito para lá do necessário. Se, por exemplo, o tempo de trabalho que cobre as necessidades de subsistência do trabalhador for de 6 horas e a jornada de trabalho imposta ao assalariado for de 12 horas (como foi durante bastante tempo), as restantes 6 horas constituem uma mais-valia, capital que pode metamorfosear-se em vários tipos, como o capital-monetário18, o capital-mercadoria ou o capital produtivo. Esta é a questão fulcral de O Capital.

A nova teoria económica de Marx, baseada na mais-valia, corta com a chamada corrente da Economia Política, cujos representantes maiores são Adam Smith e David Ricardo, sobretudo em dois aspetos. Em primeiro lugar, ao introduzir o próprio conceito de mais-valia. Enquanto aqueles economistas se referem a “lucro”, ou seja, a uma dedução ao salário que é adiantado pelo capitalista ao trabalhador, considerada equivalente à parcela de trabalho que este adiciona à matéria-prima, Marx vem dizer  que essa dedução corresponde a trabalho excedente, a uma parte não remunerada do trabalho, ou seja, a uma mais-valia, que deve constituir, segundo Marx, uma categoria própria – e muito importante – de qualquer teoria económica. Em segundo lugar, Marx introduz o importantíssimo conceito de “força de trabalho”. Esta força de trabalho é portadora de um valor específico – como “a gravidade pode ter um peso especial, o calor uma temperatura especial, ou a eletricidade uma voltagem especial”19 – e não um valor que não é rigoroso, tal como o que está incluído no conceito simples, e anterior a Marx, de “trabalho”. É o conceito específico de força de trabalho que nos permite avaliar o valor do trabalho incorporado numa mercadoria (o trabalho socialmente necessário para a sua produção e reprodução) e, simultaneamente, nos permite avaliar com rigor o valor apropriado pelo capitalista como mais-valia (ou mais -valor).

Evidentemente, isto passa-se na época da Revolução Industrial, pelo que o capital dessa época se designa por “capital industrial”, e é este que Marx analisa nas suas fases de produção e circulação, as quais estão intimamente ligadas e formam uma unidade20. Esta unidade também pode ser chamada de “capital total”. Neste ciclo maior, o capital transforma-se sucessivamente em capital-mercadoria, capital-monetário e capital-produtivo (cada um deles com seu ciclo especifico e todos interligados) num processo contínuo que se reproduz indefinidamente. O mais óbvio destes ciclos menores é, aparentemente, o capital-monetário porque, de acordo com Marx, a sua “finalidade e motivo propulsor – a valorização do valor, o ato de fazer dinheiro e a acumulação – apresentam-se aqui numa forma evidente (comprar para vender mais caro)”21.

Não vamos entrar em detalhes sobre o que se passa em cada ciclo, nem decompor outros conceitos importantes da teoria económica de Marx. Limitamo-nos, modestamente, ao essencial, tendo o cuidado de relembrar que este artigo se refere “apenas” aos livros I e II de O Capital. Há que reconhecer muito mérito a Marx. Para lá da nova perspetiva que introduziu sob o ponto de vista económico, Marx produziu igualmente uma obra erudita, sob os pontos de vista histórico, social e, pelo menos no Livro I, até literário.

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Notas:

1 Lenine citado em “Os Pêssegos Verdes”, de Augusto Meyer, Edição da Academia Brasileira de Letras, 2002.

2 No desenvolvimento do presente trabalho adotaremos sempre o título abreviado, aquele, aliás, pelo qual a principal obra de Marx (e Engels) foi popularizada : O Capital.

3 Livro II- O Processo de Circulação do Capital; Livro III- O Processo Total da Produção Capitalista; Livro IV- Teorias do Mais-Valor.

4 Marx nasceu em Trier, no sudoeste da Alemanha (Renânia), a 5 de maio de 1818, e faleceu em Londres, a 14 de março de 1883.

4 O Livro I é composto de textos escritos por Marx entre 1866 e 1875; o Livro II, de textos surgidos entre 1868 e 1881; o Livro III, de um manuscrito redigido em 1864-1865.

5 O Capital- Crítica da Economia Politica, Livro II- O Processo de Circulação do Capital, Karl Marx, Editorial Boitempo, São Paulo, 2014, Nota da Tradução (Rubens Enderle), p. 14.

6 Isso mesmo nos diz David Harvey em Para entender O Capital: Livros II e III, Editorial Boitempo, São Paulo, 2014, p. 15.

8 A Origem da Família da Propriedade Privada e do Estado. Temos  Uma edição brasileira desta obra. Lafonte, São Paulo, onde Engels não esconde o seu fascínio pelos tempos tribais, quando não existiam ainda as instituições que figuram no título do seu último livro.

9 Manuscritos que foram classificados em grandes grupos, denominados Manuscrito I, II, III… até VIII.

10Meu ponto de vista, que apreende o desenvolvimento da formação econômica da sociedade como um processo histórico-natural, pode menos do que qualquer outro responsabilizar o indivíduo por relações das quais ele continua a ser socialmente uma criatura, por mais que, subjetivamente, ele possa se colocar acima delas” (Prefácio da 1ª edição de O Capital, escrito por Karl Marx, ob. cit., Livro I, p. 80).

11 Empregamos aqui o termo “historicismo” no sentido popperiano. Neste sentido, uma teoria historicista caracteriza-se por prever (ou determinar) o futuro da sociedade. Para Marx, essa sociedade futura seria dominada pela classe operária. Ainda no jargão popperiano, trata-se de uma teoria (social) “fechada”. Para Popper, o futuro é aberto, indeterminável. Daí o título da sua obra, de 1945, A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, tratada em artigo deste blogue, que pode ser lido aqui.

12 Estas fases foram (bem) definidas por Karl Popper (A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, Vol. II, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1993, p. 136). 

13 Louis Althusser (1918-1990), filósofo marxista, foi professor da École Normale Supérieure de Paris. Em 1980, imagine-se, matou a mulher por estrangulamento.

14O Capital- Crítica da Economia Politica, Livro I – O Processo de Produção de Capital, Karl Marx, Editorial Boitempo, São Paulo, 2013, p. 44.

15 O Capital- Crítica da Economia Política, Livro II – O Processo de Circulação do Capital, Karl Marx, Editorial Boitempo, São Paulo, 2014, p. 99.

16 “A circulação de mercadorias é o ponto de partida do capital”. (Livro I, p. 223).

17 É muito importante perceber que qualquer mercadoria só tem valor porque tem trabalho associado. A força de trabalho tornou-se, com o capitalismo, ela própria, uma mercadoria.

18 O dinheiro que não é investido não pode ser considerado capital.

19 Livro II, p. 99 (Prefácio da primeira edição, escrito por Engels).

20 “processo inteiro apresenta-se como unidade do processo de produção e do processo de circulação; o processo de produção torna-se mediador do processo de circulação, e vice-versa” (Livro II, p.179). 

21 Livro II, p. 138.

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As nossas edições:

  • Karl Marx, O Capital – Crítica da Economia Politica, Livro I – O Processo de Produção de Capital, Editorial Boitempo, São Paulo, 2013.
  • Karl Marx, O Capital – Crítica da Economia Politica, Livro II – O Processo de Circulação do Capital, Karl Marx, Editorial Boitempo, São Paulo, 2014.

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Portugal e o Turismo

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Os Caretos na Rua Augusta, em Lisboa.

Ao deslocarmo-nos há dias pelo Norte de Portugal — em Amarante, no Alto Douro Vinhateiro e no Porto (sétima cidade europeia onde o turismo mais cresceu) — verificámos o mesmo fenómeno a que já assistíramos recentemente em outras partes do país, sobretudo nos arquipélagos dos Açores e da Madeira, em Lisboa, no Alentejo e no Algarve: um fluxo turístico que varre Portugal de Norte a Sul, de Este a Oeste, algo nunca visto até hoje.

Se virmos bem, era apenas uma questão de tempo. Portugal tem condições ímpares para a prática turística: clima excelente, boa gastronomia, gente acolhedora, riquezas naturais e culturais, diversidade, custo de vida baixo, tranquilidade e segurança. A oferta tem vindo a adaptar-se à crescente procura, sobretudo no que toca ao alojamento, com a proliferação de hotéis, albergues, casas de campo, apartamentos particulares, etc. Muita gente ganha a vida trabalhando na área do turismo, cada vez mais.

O turismo representa já uma percentagem muito importante do PIB nacional, e isto quer dizer que, se não fossem as receitas deste setor, estaríamos numa posição muito pior do que aquela em que infelizmente nos encontramos. José Hermano Saraiva referia-se muitas vezes, em seus programas televisivos, à importância do turismo e à vocação de Portugal para essa atividade económica. E tinha toda a razão: Portugal é um país turístico por excelência; poderia e deveria aproveitar muito melhor esse potencial.

O turismo deveria ser, de facto, um setor económico estratégico, visto não termos dimensão, nem reservas naturais, nem localização, para sermos uma grande potência em muitas outras áreas. Claro que deveríamos ser competitivos em outros setores, sobretudo nos produtos transacionáveis, mas se os outros países o forem tanto quanto nós (e geralmente são-o mais), perderemos sempre, pois estamos na periferia da Europa e não temos massa crítica (mercado interno) para crescermos (já para não falarmos da inépcia dos nossos políticos, da corrupção, da nossa tradicional dependência do Estado, etc., etc.). Deveríamos apostar fortemente na Educação e no investimento em Ciência e Tecnologia, mas não o temos feito de forma consistente.

O turismo é, pois, estratégico porque é aquilo em que somos naturalmente bons. Isto é tão óbvio que chega a ser patético assistir ao coro de críticas que ultimamente se tem erguido contra o fluxo turístico. É algo verdadeiramente incompreensível: reclamamos porque não há dinheiro e reclamamos contra quem vem cá deixar o seu dinheiro. Esquecemos, ou ignoramos, que só nos desenvolvemos quando nos abrimos ao mundo. Fecharmo-nos só nos tornará ainda mais estúpidos. E mais pobres também.

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Porto

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A Ribeira, uma das zonas mais animadas do Porto.
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O Porto visto de Vila Nova de Gaia.
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Estação de São Bento. Surpreendente.
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Lello. Considerada, com razão, uma das mais belas livrarias do mundo.
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À entrada do Mercado do Bolhão.
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Pormenor em prédio na rua de Santa Catarina.
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Majestic. O café mais famoso do Porto.

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A Educadora Varela

Raquel
Varela não se coíbe de apelidar de “cobarde” o povo que viveu sob a ditadura, apesar de ela sempre ter vivido em liberdade.

Triste o país que atribui a relevância que hoje tem, na nossa sociedade, alguém como Raquel Varela. Comentadora política, professora universitária e autora, coautora ou coordenadora de estudos e livros sobre o que denomina “o povo” e a participação deste em greves, levantamentos e revoluções, Raquel Varela é uma revolucionária. Porém, como se sabe, cada revolucionário vê a revolução de forma própria. A história da esquerda revolucionária, em todo o mundo, é uma história de facções, discussões, querelas, disputas, traições e, entre outras coisas mais, purgas, muitas purgas. A extrema-esquerda nunca se entendeu nem nunca se vai entender. A pureza da esquerda é como a do OMO — todos querem lavar mais branco.

É, portanto, difícil situarmo-nos quando ouvimos (ou lemos) essa grande educadora do povo, chamada Varela (uma educadora que deveria, em nossa modesta opinião, primeiro que tudo, aprender a escrever: é, simultaneamente, penoso e surpreendente ler os artigos que Varela publica no seu blogue, sem o auxílio de revisores que lhe corrijam os erros básicos de português). Como poderemos enquadrar o pensamento de Varela (se é que é enquadrável)? Que “rótulo” podemos colocar-lhe? Socialista, comunista, anarquista ? Certamente que o seu posicionamento se situa mais à esquerda que os do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda, pois estes partidos parlamentares são abundantemente criticados por ela.

Temos para nós que Varela se situa politicamente algures entre marxismo e anarquismo. Pensamos mesmo que ela teria orgulho em que alguém a enquadrasse numa moldura marxista/anarquista, precisamente no ponto mais extremo da extrema-esquerda nacional. Este orgulho também não é novo, pelo contrário: é uma atitude típica dos teóricos revolucionários. Marx, por exemplo, radicalizou-se porque não queria ficar atrás de Bakunin. Uma vez que este pretendia atacar o sistema político-legal para destruir o Estado, Marx acabou por considerar o Estado irreformável e, tal como Bakunin, como um alvo a abater.

Varela não admite um revolucionário maior do que ela. E o que significa, para ela, Varela, ser revolucionária, hoje, em Portugal? A resposta é muito simples — ser contra: governo, oposição, Europa, capitalismo, patrões, Estado, bancos, burguesia e, claro, o povo não-revolucionário (que Varela apelida de “cobarde”) e todos os não-revolucionários, em geral. O importante é destruir, e para isso Varela conta com o povo e os trabalhadores, organizados em comités populares, sindicatos e similares.

Nada disto é novo, também. Há mais de 150 anos que os revolucionários têm este tipo de discurso — uma ladainha que, durante todo este tempo,  não conduziu a lado nenhum ou, pior, apenas conduziu povos inteiros à desgraça (entenda-se “desgraça” como miséria, sofrimento e morte). É por isso que já ninguém releva este tipo de lengalenga nos estados desenvolvidos, onde os partidos de extrema-esquerda não têm praticamente representatividade. Só num país atrasado como o nosso é possível que uma pessoa portadora de ideias comprovadamente desastrosas continue a fazer comentários regulares na televisão pública (paga por todos nós), com o convencimento típico dos presunçosos e ignorantes.

Tendo em conta que esta grande educadora do povo (que sempre viveu em democracia) faz parte de uma extrema-esquerda que nem sequer está representada no parlamento, por que não convidar também para os debates um elemento da extrema-direita, alguém do lado oposto do espetro político, no fundo, alguém do mesmo nível que Varela? Mas muito melhor do que isto seria não fazer eco de extremismos, sobretudo quando não representam nenhum segmento significativo da população e apenas servem para espalhar, pelos espíritos mais sensíveis, demagogia, ódio, fanatismo e intolerância. Tudo isto frequentemente camuflado por uma palavra que, de tão batida e maltratada, corre sério risco de perder rapidamente o seu nobre significado: amor.

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foto retirada de http://www.jornaldeleiria.com

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O Tratado Lógico-Filosófico

Wittgenstein
É provável que a popularidade de Wittgenstein se deva sobretudo à sua biografia.

As obras  de Wittgenstein aqui analisadas (Tratado Lógico-Filosófico e Investigações Filosóficas) foram editadas, num único livro pela Fundação Calouste Gulbenkian, em 1987[1], e basearam-se em edições inglesas de 1961 (Tratado Lógico-Filosófico) e 1983 (Investigações Filosóficas), embora os respetivos textos tenham sido escritos muito antes: o primeiro no decorrer da Primeira Guerra Mundial e o segundo entre 1936 e 1949. Muitos consideram que esses textos correspondem a dois períodos distintos, que apelidaram de “Primeiro Wittgenstein” e “Segundo Wittgenstein”. Isto faz jus ao que o próprio, em 1945, afirmou: “Há quatro anos tive ocasião de voltar a ler o meu primeiro livro (Tractatus Logico-Philosophicus) e de explicar as suas teses. De súbito, pareceu-me que devia publicar conjuntamente a minha velha com a minha nova maneira de pensar: que esta só podia ser verdadeiramente iluminada pelo contraste e contra o campo de fundo daquela. Desde que há 16 anos comecei de novo a ocupar-me de Filosofia, tive que reconhecer erros graves no que escrevi no meu primeiro livro”[2].

O próprio Wittgenstein reconhece, portanto, que não existe unidade na sua obra. Não devemos criticá-lo por isso, antes pelo contrário, mas algo mais estranho, paradoxal mesmo, ocorre quando ele anuncia no próprio Tractatus: “As minhas proposições são elucidativas pelo facto de que aquele que as compreende as reconhece afinal como falhas de sentido”[3]. Sim, Wittgenstein considera as proposições da Filosofia “sem sentido”, incluindo, coerentemente, as suas. Convém, aqui, esclarecer que Wittgenstein adotou a tríplice distinção feita por Bertrand Russell[4] entre enunciados verdadeiros, falsos e sem sentido ou “insignificativos”[5]. Assim, numa tentativa (levada a cabo muito antes, e com muito maior sucesso, por Kant) de demarcar o senso do contra-senso, o campo da experiência do campo da especulação, a ciência da metafísica, ele vai considerar que apenas nas ciências da natureza se pode afirmar que uma proposição é verdadeira ou falsa; a filosofia, pelo contrário, não produzirá proposições verdadeiras ou falsas, o seu trabalho “consiste essencialmente em elucidações” e no “esclarecimento de proposições”[6]. A filosofia, portanto, só produz proposições sem sentido.

O que terá levado Wittgenstein a esta conclusão? Teria ele noção de que, de acordo com a sua teoria, muitas das proposições do Tratactus teriam de ser consideradas “sem sentido”? (Ver nota 4). Tendo em conta o que transcrevemos acima sobre o que ele escreveu no Prólogo às Investigações Filosóficas, é bem possível que sim, que tivesse noção dos “erros graves” do Tratactus. Parece-nos que, nesta obra, Wittgenstein chegou à conclusão de que a melhor forma (talvez a única) de delimitar a ciência da metafísica é através da lógica da linguagem. Uma linguagem rigorosa que elimine a ambiguidade. Com isto, porém, Wittgenstein obteve um resultado inesperado e paradoxal: não conseguiu alcançar esse tipo de linguagem, mas abriu caminho (na verdade, levou-o mais além)[7] para um novo tipo de filosofia, cujo objeto se reporta à busca de uma metalinguagem – a “ciência” dos símbolos, das palavras, e de o que está por detrás delas – aquilo que Popper designou por “essencialismo”. E pouco importa que Wittgenstein tenha reconhecido, anos depois, erros na sua “teoria”[8] – o séquito manteve-se até hoje[9].

É, pois, bastante curioso que, ao pretender proteger as ciências naturais da especulação filosófica, Wittgenstein acabasse por introduzir nas mesmas uma discussão sobre a linguagem – algo a que nunca se dedicou, nem dedica, nenhum verdadeiro cientista. Os desafios da ciência não se prendem de forma nenhuma com a linguagem, mas sim com problemas reais e concretos que não dependem daquela. A discussão sobre a linguagem – a tentativa de rigorosamente definir os seus termos e delimitar as respetivas conotações – é estéril, não conduz a lado algum, a não ser a uma regressão infinita, pois é sempre possível (mais: é sempre necessário) definir os termos definidores de uma qualquer palavra que queiramos definir[10]. Além destes “erros graves”, a clareza do Tratactus – essa sim, uma característica verdadeiramente importante de qualquer linguagem – deixa muito a desejar.

Clareza que também está arredada das Investigações Filosóficas. Se, no Tractatus, Wittgenstein chega a algumas conclusões (mesmo que erradas), nas Investigações Filosóficas não chega a qualquer conclusão, limitando-se a emitir pensamentos, opiniões e observações, em doses homeopáticas, sobretudo de caráter psicológico. Esta fragmentação[11] é assumida por Wittgenstein logo no Prólogo quando diz: “Depois de diversas tentativas mal sucedidas para soldar os meus resultados num tal todo, compreendi que nunca conseguiria fazê-lo”[12]. Isto não ajuda à clareza do texto. É impossível seguir uma linha de pensamento coerente porque, pura e simplesmente, ela não existe. Wittgenstein perde-se em introspeções, como quem toma apontamento dos pensamentos que a cada dia lhe afloram ao espírito. Lamentavelmente, as suas elucubrações não conduzem a qualquer avanço conhecido, seja em que área do conhecimento for.

Não conseguimos discernir, como já dissemos, um fio condutor nas ideias expressas por Wittgenstein. Resta-nos dizer que, pelo menos, apreciamos a sua sinceridade. Talvez algum do fascínio que se nota à sua volta resida nas sinceridade e simplicidade, mesmo numa certa infantilidade, que parece ter mantido até o fim[13]. Pensamos que, de certa forma, as últimas palavras que Wittgenstein usou no Prólogo às Investigações Filosóficas ilustram bem essa característica sincera e quase inocente da sua personalidade: “É com sentimentos duvidosos que trago a público as minhas observações. Não é impossível que seja o destino deste trabalho, na sua escassez e nas trevas desta época, lançar luz num cérebro ou noutro; mas, claro, não é provável. Gostaria de ter escrito um bom livro. Não aconteceu assim e já passou o tempo em que eu poderia melhorá-lo”[14].

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Notas:

[1] Ludwig Wittgenstein, Tratado Lógico-Filosófico e Investigações Filosóficas, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1987.

[2] Ob. cit., p. 166 (Prólogo às Investigações Filosóficas – Parte I).

[3] Ob. cit., p. 142.

[4] Russell que escreve na Introdução ao Tratactus: “As coisas que têm de ser ditas, para conduzir o leitor a compreender a teoria do senhor Wittgenstein, são todas elas coisas que a própria teoria condena como sem-sentido” (Ob. cit., p. 7). Diga-se de passagem que Wittgenstein não gostava muito da Introdução de Russell e que este não pensava em autorizar a sua republicação em 1961, permitindo-a apenas após longa insistência do editor.

[5] Um dos principais críticos desta tríplice distinção (e de Wittgenstein) é Karl Popper. Diz-nos ele: “É importante notar que o emprego dos termos “sem significado” ou “sem sentido” é, em parte, concordante com o uso comum, mas é muito mais nítido, pois muitas vezes, no uso comum, enunciados reais são classificados como “sem significado”, se, por exemplo, forem “absurdos”, isto é auto-contraditórios ou obviamente falsos. Assim, um enunciado que afirme que determinado corpo físico está ao mesmo tempo em dois lugares distintos não é um enunciado sem significado, mas um enunciado falso, ou que contradiz o emprego da palavra “corpo” na física clássica; similarmente, um enunciado asseverando que um electrão tem um lugar e um impulso precisos não é destituído de sentido – como alguns físicos asseveraram e alguns filósofos repetiram – mas simplesmente contradiz a física moderna” (in A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, Vol. II, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1993, p.286).

[6] Ob. cit., p. 62.

[7] Este caminho iniciou-se com Platão e Aristóteles, sobretudo com este último – que considerava como métodos fundamentais da obtenção de conhecimento a demonstração (ou prova) e a definição (daqui saiu a doutrina perversa  da adoração das palavras).

[8] Colocámos o termo “teoria” entre aspas porque as ideias de Wittgenstein não constituem, tanto em nossa opinião como na dele, um todo coerente.

[9] São variadíssimos os filósofos influenciados por Wittgenstein, desde Gilbert Ryle a Giorgio Agamben (ver artigo sobre ele aqui), passando por Kai Nielsen e John Searl, entre muitos, muitos outros.

[10] Popper dá-nos um exemplo concreto: “Poder-se-á dizer que o que se tem em mente, ao pedir uma definição, é a eliminação de ambiguidades tantas vezes relacionadas com palavras como “democracia”, “liberdade”, “dever”, “religião”, etc.; que é claramente impossível definir todos os termos, mas é possível definir alguns desses termos mais perigosos, e não ir além disso; e que os termos definidores têm apenas de ser aceites, isto é, que devemos deter-nos depois de avançarmos um passo ou dois, a fim de evitar uma regressão infinita. Esta defesa é, porém, indefensável. Admite-se que os termos mencionados sejam usados incorretamente. Mas nego que a tentativa de os definir possa melhorar as coisas. Só pode torná-las piores (…) De facto, visto que não poderíamos exigir que todos os termos definidores fossem por sua vez definidos, um político ou um filósofo hábil poderia facilmente satisfazer a exigência de definição. Se lhe perguntassem o que entendia por “democracia”, por exemplo, poderia dizer: “o governo da vontade geral” ou “o governo do espírito do povo”; e, como acabara de dar uma definição, satisfazendo assim os mais elevados padrões de precisão, ninguém ousaria criticá-lo mais. E, na verdade, como poderia ser criticado se a exigência de que “governo”, ou “povo” ou “vontade” ou “espírito” fossem por sua vez definidos nos colocaria no caminho e uma regressão infinita, de modo que qualquer um hesitaria em fazê-la? Mas, se apesar de tudo fosse feita, então poderia ser igualmente satisfeita sem dificuldade. Por outro lado, a questão de saber se a definição era correta, ou verdadeira, só poderia levar a uma controvérsia, fazia de sentido, sobre palavras” (in  A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, Vol. II, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1993, p. 24).

[11] Ambas as obras (quer o Tractatus, quer as Investigaçõs Filosóficas) são divididas apenas em parágrafos numerados, tal como as suras do Alcorão ou os versículos dos livros da Bíblia, sem recurso às divisões tradicionais, como sejam índice, capítulos ou secções.

[12] Ob. cit., p. 165.

[13] Fascínio que também pode ser justificado por outros aspetos da sua biografia – como a suposta homossexualidade, a participação nas duas guerras mundiais, o despojamento e a irascibilidade (manifestada, por exemplo, no episódio do atiçador, com Popper) – que não nos compete aqui desenvolver.

[14] Ob. cit., p. 167.

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A nossa edição:

Ludwig Wittgenstein, Tratado Lógico-Filosófico e Investigações Filosóficas, Fundação Calouste Gulbenkian, 1ª edição, Lisboa, 1987.

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foto retirada de http://www.bbc.co.uk

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Algarve, Portugal

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Vegetação no topo de uma escarpa do Barlavento algarvio

O Algarve é uma pequena região (cerca de 5.000 quilómetros quadrados) de um pequeno país, mas, tal como este, com uma enorme diversidade. Situado no extremo sul de Portugal, podemos analisar  este distrito de várias formas, mas há duas que parecem mais óbvias. Uma que divide o Algarve entre serra e litoral; e outra que o divide entre Barlavento, a Oeste, e Sotavento, a Leste. Dito isto, convém esclarecer que estas visões dualistas não são suscetíveis de beliscar a unidade desta região que, apesar dos contrastes (ou sobretudo por eles) se constitui como um todo equilibrado, dinâmico e, como qualquer pessoa pode comprovar in loco, muitíssimo atraente.

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Pôr do sol na Serra do Caldeirão.

No Barlavento encontramos a Serra do Monchique, com vistas magníficas sobre o mar, uma imensa área verde e um importante complexo termal, em Caldas de Monchique. No Sotavento, por sua vez, destaca-se a Serra do Caldeirão, famosa pelas estradas tortuosas, a densa rede hidrográfica e o medronho, um fruto que, após destilação, se transforma numa aguardente muitíssimo apreciada. A desertificação e o isolamento da região serrana, a primeira mais recente e o segundo mais antigo, têm sido compensados pela chegada de muitos estrangeiros que optam por morar na tranquilidade da serra, quase sempre em locais com vistas deslumbrantes sobre o mar.

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Praia da Marinha, no Barlavento. Recortada na falésia.

No que toca ao litoral, há acentuadas diferenças entre Barlavento e Sotavento. Embora as praias sejam magníficas em ambos os espaços – na verdade, as melhores da Europa: águas calmas, limpas e de temperatura amena -, a costa do Barlavento (lado de onde sopra o vento) é mais recortada, com praias que são, em muitos  casos, pequenas  e belíssimas baías ou enseadas, no fundo de falésias, escarpas e penhascos, e com a água do mar um pouco mais fria que a do Sotavento (lado para onde sopra o vento).

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O mar e a Ria Formosa vistos de Cacela Velha, no Sotavento algarvio.

Aqui, pelo contrário, a costa é baixa, apenas com dunas, e existe, ao longo de uns 60 quilómetros, a Ria Formosa – um curso de água, alimentado pelo mar (reserva natural), que é a casa de muitos espécimes animais e vegetais e que transforma as praias em ilhas, só acessíveis por barco. Claro que há algumas exceções, onde se construíram passadiços ou pequenas pontes, mas a maior dificuldade de acesso faz com que as praias do Sotavento sejam mais tranquilas (com zonas praticamente desertas) que as do Barlavento, onde o fluxo de veraneantes é bastante superior.

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Saboreando um imperador na praia de Olhos de Água, com o mar (ou será uma piscina?) aos pés.

Com quase duzentos quilómetros de costa, é perfeitamente natural que os gastrónomos locais utilizem, praticamente todos os dias, peixes e frutos do mar. De facto, em todas as cidades algarvias existem excelentes mercados de peixe e em muitas delas realizam-se festivais de mariscos, sendo de destacar os percebes, apanhados nas escarpas da costa ocidental, com grande risco, face à sua localização, em rochas de difícil acesso. Estes são talvez os frutos do mar mais deliciosos do mundo, e a sardinha das águas algarvias, pequena e gorda, é seguramente a mais apreciada. É conhecida a apetência que os portugueses têm para comer este peixe, grelhado no carvão, acompanhado com pão, vinho e uma salada mista com pimentos verdes.

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Praias tranquilas, lindas, surpreendentes.

Naturalmente, o Algarve enche-se de visitantes durante o verão. Mas, cada vez mais, há quem venha também na época fria. Aqui o sol brilha 300 dias por ano. Os amigos brasileiros surpreender-se-ão com o céu totalmente azul, sem um farrapo de nuvem, durante quatro, cinco e, muitas vezes, mais dias consecutivos. Os invernos são amenos, embora durante a noite a temperatura baixe bastante. Muitos cidadãos europeus, sobretudo ingleses, escolheram o Algarve para viver. Esta região foi considerada, em 2014 e 2015, pela Live and Invest Overseas o melhor destino para os norte-americanos viverem depois da reforma.

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Tavira. Provavelmente, a cidade mais bonita do Algarve.

A tranquilidade e segurança, as maravilhosas praias, o clima ameno, a excelente gastronomia, um custo de vida dos mais baixos da Europa e os preços acessíveis do imobiliário[1] fazem do Algarve um dos destinos mais apetecíveis do mundo. Foi por isso que escolhemos aqui viver, em Conceição de Tavira, no Sotavento. Raramente precisamos do carro. Com uma simples bicicleta vamos à praia, ao supermercado e fazemos os nossos passeios. A fronteira espanhola está a 25 quilómetros, Sevilha a 150, Lisboa a 300, África a 400; do aeroporto de Faro, aqui ao lado, partem aviões de low cost para grande parte da Europa. Se o paraíso existe na Terra, um dos seus endereços é aqui.

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Manta Rota, no Sotavento algarvio.

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Notas:

[1] Para se ter uma ideia dos preços dos imóveis em Portugal, deixamos aqui alguns dados que retirámos do jornal “Expresso”, e que se baseiam num estudo efetuado pela APEMIP (Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal), que, por sua vez, se baseou no portal imobiliário internacional Property Guide. A análise reporta-se aos preços por metro quadrado nos centros das principais cidades europeias, considerando um espaço de 120 m2. O preço médio em Portugal é de €1.963/m2, o que equivale à 30ª posição entre 38 países analisados. No top 5 estão Mónaco (€44.522/m2), Reino Unido (€25.575/m2), França (€13.639/m2), Rússia (€11.866/m2) e Áustria (€10.807/m2). Os países com m2 mais baixo que o português são apenas oito: Chipre (€1.790), Croácia (€1.764), Roménia (€1.537), Hungria (€1.528), Montenegro (€1.400), Bulgária (€1.222), Macedónia (€1.134) e Moldávia (€965).

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Tornar-se Pessoa

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Carl Rogers

Carl Rogers nasceu em 1902 nos Estados Unidos e dedicou toda a sua vida (que findou em 1987) à Psicologia, sendo reconhecido como o maior representante da denominada Terapia Centrada na Pessoa, uma corrente humanista que se opõe a quase todas as outras correntes psicológicas[1], sobretudo ao behaviorismo, uma vez que rejeita qualquer tipo de condicionamento, sequer algum tipo de direcionamento, oferecendo às pessoas todo o espaço para seguirem por onde quiserem.

Embora Rogers, evidentemente, tivesse sofrido algumas influências, a teoria que viria a desenvolver ao longo da sua longa carreira sustentou-se, quase exclusivamente, na experiência enquanto terapeuta[2]. De acordo com essa teoria, a Terapia Centrada na Pessoa só terá êxito se estiverem reunidas, em primeiro lugar, algumas condições relativas ao terapeuta. Este tem de ser autêntico (ou, como veremos abaixo, tem de possuir um alto grau de congruência); de aceitar-se a si mesmo; de aceitar o outro como ele é e de estar permanentemente de espírito aberto para receber opiniões diversas das dele próprio; e, finalmente, de estar disponível para a mudança que inevitavelmente ocorrerá não apenas no outro mas também nele próprio.

A atitude do terapeuta é, assim, muito mais importante que os seus conhecimentos. É essa atitude, sumariamente descrita acima – onde não existe crítica e muito menos julgamento – que vai permitir ao “paciente”[3] se encontrar consigo próprio. Este sente absoluta confiança no terapeuta e, por isso, começa aos poucos a afastar-se das atitudes (defensivas) que pensa ser as que agradam aos outros, abandonando as posições de fachada, e acaba por se aceitar como é, não como os outros gostariam que ele fosse. Nesse percurso (jamais fácil) dá-se uma libertação do eu, a pessoa vai ganhando confiança à medida que o processo avança, vai mostrando cada vez mais os seus verdadeiros sentimentos, até que finalmente se assume como o indivíduo integral que é. E assim se torna uma pessoa plena, sem necessidade de esconder seus sentimentos e mais preparada para aceitar os dos outros.

A atitude veiculada por Rogers, a sua extraordinária abertura, não se limitava à relação terapêutica, antes constituiu uma prática de vida. É bem conhecida, por exemplo, a forma como desenvolvia a sua atividade académica, particularmente a componente letiva, não conduzindo as aulas, sendo apenas mais um entre os alunos na busca livre de alguma opção comum. Há relatos extraordinários de “alunos” que jamais esqueceram os momentos que passaram com Rogers na sala de aula. Mas o ensino não era a vocação dele. O que realmente gostava de fazer era ouvir os outros, meter-se na sua pele, percorrer com eles o fantástico caminho da descoberta de um novo ser.

Rogers acreditava que a sua atitude de aceitação, de compreensão sincera, sem julgamento do outro, seria benéfica em todo e qualquer tipo de interação social. Na família, no seio das organizações laborais, nas relações internacionais. Sobretudo, colocou grande ênfase na questão da autenticidade, da congruência – conceito importantíssimo que Rogers utilizou mais tarde para incorporar “uma correspondência mais adequada entre a experiência e a consciência”[4]. O grau de congruência mede-ser precisamente por essa correspondência. Se sentimos raiva, ou medo, ou, pelo contrário, amor ou confiança é salutar que isso transpareça em nós; é sempre melhor quando os nossos sentimentos fluem, quando não temos necessidade de reprimi-los, quando o que comunicamos está de acordo com o que sentimos[5].

A partir da relação terapêutica que tão bem conhecia, da experiência que considerava tão cara, Rogers formulou uma hipótese válida para qualquer tipo de relação social, uma lei geral provisória, que descreveu da seguinte forma. Quanto maior for a congruência da experiência, da consciência e da comunicação por parte de um indivíduo, mais a relação originada implicará: uma tendência para uma comunicação recíproca caracterizada por uma crescente congruência; uma tendência para uma compreensão mútua mais adequada da comunicação; uma melhoria da adaptação psicológica e do funcionamento de ambas as partes; satisfação recíproca na relação. Inversamente, quanto maior for a incongruência comunicada da experiência e da consciência, mais as relações assim originadas envolvem: comunicações posteriores com as mesmas características; desintegração da compreensão adequada, e adaptação psicológica e funcionamento de ambas as partes menos adaptadas; insatisfação recíproca na relação[6].

Uma questão que se nos colocou após a leitura de Tornar-se Pessoa foi a de saber quem foi na realidade Carl Rogers. A sensação que fica é que um indivíduo que se dedica totalmente aos outros, que incorpora todo o tipo de sentimentos, quase não tem personalidade própria; a sua personalidade espartilha-se por todos com quem se relaciona e, por outro lado, incorpora um pouco da de todos eles. Isto é realmente assombroso. É como se a personalidade de Rogers fosse uma enorme esponja que tudo absorve, mas onde nada fica. Não será isto uma forma de despersonalização? Como é possível chegar a tal ponto? A resposta talvez esteja nas fugas que Rogers fazia para o México e as Caraíbas. Ele precisava de períodos para estar só. Gostava de pintar, fotografar e escrever. Penso que, sem estes períodos, regulares e largos, o trabalho que realizou teria sido impossível.

Em Tornar-se Pessoa, Carl Rogers cita Karl Popper e a Sociedade Aberta e Seus Inimigos deste[7]. Não admira. Ambos amavam a liberdade e ambos rejeitavam qualquer tipo de autoridade. Ambos eram sinceramente humildes. Ambos acreditavam num  mundo melhor e, evidentemente, na capacidade dos seres humanos para o construírem. Ambos foram grandes humanistas, curiosamente, nascidos no mesmo ano. Que a humanidade possa um dia retribuir, em sua memória, a confiança que nela ambos depositaram[8].

Notas:

[1] Como seria de esperar, Rogers foi duramente atacado pelos representantes dessas correntes, e não só, como, aliás, acontece com todos os grandes humanistas. 

[2] É o próprio Rogers quem nos diz: “Nenhuma ideia de qualquer outra pessoa, nem nenhuma das minhas próprias ideias, têm a autoridade que reveste a minha própria experiência. É sempre à experiência que eu retorno, para me aproximar cada vez mais da verdade, no processo de descobri-la em mim. Nem a Bíblia, nem os profetas – nem Freud, nem a investigação – nem as revelações de Deus ou dos homens – podem alcançar procedência relativamente à minha própria experiência direta.” (Carl Rogers, Tornar-se Pessoa, Padrões Culturais Editora, Lisboa, 2009, p. 47).

[3] Embora seja este o termo traduzido na edição portuguesa, citada na nota anterior, de On Becoming a Person, penso que Rogers não concordaria com o mesmo. Na edição inglesa escreve-se Person-Centered Therapy ou Client-Centered Therapy, expressões traduzidas para Terapia Centrada no Paciente. Também nós não concordamos com esta tradução. Seria mais lógica a expressão Terapia Centrada na Pessoa.

[4] Ob. cit., p. 388.

[5] “Talvez seja esclarecedor recorrer ao exemplo do que se passa com uma criança de berço. Se a criança tem uma experiência de fome a um nível fisiológico e visceral, a sua consciência manifesta-se como adaptada a essa experiência e a comunicação é igualmente congruente com a sua experiência. A criança tem fome e não está satisfeita, e isto é verdade para ela a todos os níveis. Nesse momento, ela integra-se ou unifica-se no facto de “ter fome”. Por outro lado, se está saciada e contente, também se trata de uma congruência unificada, idêntica ao nível visceral, ao nível da consciência e ao nível da comunicação”. (Ob. cit., p. 388).

[6] Ob. cit., p. 394.

[7] Rogers cita esta obra de Popper porque defende tal como este a sociedade aberta, sem condicionamentos de qualquer espécie, condicionamentos defendidos por vários de seus colegas psicólogos e ilustrado, em vertentes diferentes, nos igualmente citados livros de Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo) e George Orwell (1984).

[8] Além das semelhanças reais entre Rogers e Popper, a junção de ambos no final do artigo tem também que ver com uma conversa que mantivemos há uns anos com um amigo (na altura estudante do ISCSP), numa noite de Alfama – Ricardo Carvalho.

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A nossa edição:

Carl Rogers, Tornar-se Pessoa, Padrões Culturais Editora, 1ª edição, Lisboa, 2009.

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Foto retirada de http://www.awaken.com.

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Nozick

nozick (1)
Nozick, o primeiro prisioneiro da sua teoria libertária.

A obra mais conhecida e mais importante de Robert Nozick é Anarchy, State and Utopia, publicada em 1974[1]. Consta que a mesma constitui uma reação a A Theory of Justice, livro publicado três anos antes (1971) por um colega seu do departamento de Filosofia de Harvard, John Rawls. Enquanto este defende a igualdade e a justiça social, Nozick manifesta-se em defesa da liberdade individual e da propriedade privada, e declara que os direitos individuais são incompatíveis com qualquer tipo de distribuição social. Assim, “ficaram estabelecidos os fundamentos do debate entre liberais-igualitários (ou sociais-democratas), por um lado, e libertaristas (ou neoliberais), por outro”[2].

Nozick é um liberal puro, não propriamente social ou económico. A sua investigação insere-se no âmbito de uma filosofia que se baseia na lógica pura, sem ligação à experiência concreta. De acordo com João Cardoso Rosas, autor da excelente “Introdução à Edição Portuguesa” da obra aqui analisada, “Nozick foi muito influenciado pela chamada filosofia analítica, o que se traduz numa preocupação grande com a análise semântica e o rigor lógico da argumentação”[3]. Ora, esta influência está, em nossa opinião, na base de um tipo de argumentação que merece crítica. Perdendo o apoio da experiência, o pensamento enreda-se em hipóteses formais, teóricas, sem preocupações de testar a sua validade. Estamos no campo dos puros princípios.

O primeiro desses princípios é, na esteira de Locke, o da liberdade individual. Nada nem ninguém pode pôr em causa os direitos individuais. Um desses direitos é o direito à propriedade, aos haveres. Nozick designa este direito como princípio da titularidade. Qualquer estado que adote uma política distributiva violará esse principio. Como todos reconhecerão, estamos perante uma estrita visão neoliberal. Ou melhor, a filosofia de Nozick está na base das teorias neoliberais ainda hoje presentes em todo o mundo, sendo que essa base não é, fundamentalmente, de cariz económico, como o de Milton Friedman ou político, como no caso de Friedrich Hayek, mas de cariz eminentemente moral.

A intenção de Robert Nozick é boa. Do seu ponto de vista, um estado intervencionista é um estado injusto. E, em teoria, talvez o seja. Mas a realidade é diferente do mundo mental de Nozick. É bastante mais complexa, sobretudo em tempos de globalização, porque uma sociedade, seja qual for, não está isolada; há variáveis externas (sobretudo nos países mais pobres) que chocam com as experiências mentais de Nozick. Experiências que podem ser resumidas pelas palavras do próprio, no Prefácio à obra aqui analisada:

Uma forma de actividade filosófica assemelha-se ao acto de pressionar e empurrar as coisas para fazê-las encaixar no contorno fixo de uma forma específica. Todas essas coisas estão espalhadas por aí e têm de ser encaixadas. Pressionamos e empurramos o material para a área rígida, fazendo-o encaixar de um lado e saltar do outro. Voltamos e fazemos pressão na parte saliente, fazendo que o mesmo aconteça noutro ponto. Assim, pressionamos, empurramos e recortamos os cantos às coisas para que encaixem e forçamo-las até que por fim quase tudo fica mais ou menos precisamente no sítio; o que não fica é arremessado para longe para não se ver [4]

Talvez este método se ajustasse à realidade se as peças reais se encaixassem como nos jogos mentais de Nozick. Mas não. A realidade não se ajusta a pressupostos puros, é mais complexa. No afã de relevar a injustiça praticada pelos estados distributivos, Nozick ignora simplesmente uma característica fundamental da humanidade, algo que as sociedades mais evoluídas incorporaram já (irreversivelmente?) em seu seio – a solidariedade. O que fazer, no estado mínimo defendido por Nozick, aos deficientes, aos loucos, aos que não têm família, aos que não têm, por qualquer razão, capacidade para se integrarem em sociedade sem a ajuda de alguém?

Para justificar a sua teoria da titularidade, Nozick afirma que é necessário que a mesma se baseie em critérios justos; é necessário que haja justiça na aquisição, justiça na transferência e, finalmente, quando for o caso, retificação da injustiça. Mas mais uma vez, isto é muito teórico. Toda a gente sabe que a justiça é algo que se pretende alcançar , mas jamais é atingida. Não é fácil garantir a justiça quer na aquisição, quer na transferência, quer na sua reposição. É por isso que é necessária alguma intervenção do Estado. Entre o Estado máximo e o Estado mínimo estará algures o Estado ideal. Nozick peca por se posicionar num dos extremos, tomando assim uma atitude radical.

Mais uma vez, chamamos a atenção para o alerta de Popper. As ciências sociais continuam atrasadas relativamente às suas irmãs “naturais” porque ainda não adotaram o método destas. Um método que leva em conta a experiência, a qual se constitui como o único meio pelo qual as teorias podem ser testadas. Ora, sem testabilidade não há ciência. E sem experiência – já Kant há muito mostrou – não pode haver conhecimento.

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Notas:

[1] A tradução para português da edição que temos em mãos é de Vítor Guerreiro.

[2] ob. cit., p. 8.

[3] ob. cit., p. 7.

[4] ob. cit., p. 25.

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A nossa edição:

Robert Nozick, Anarquia, Estado e Utopia, Edições 70, Lisboa, 2009.

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foto retirada de http://www.partiallyexaminedlife.com

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