Alfama descobriu o mundo. O mundo descobre Alfama.
Autor: Jorge Costa
Fez percursos académicos nas áreas das Filosofia, Comunicação Social, Economia, Gestão dos Transportes Marítimos e Gestão Portuária, e estuda outras disciplinas científicas. Interessa-se igualmente por Arte, nas suas diversas manifestações, e também por viagens. Gosta de jogar xadrez. O seu autor preferido, desde que se lembra, é Karl Popper. Viveu em locais diversos, sobretudo em Portugal e no Brasil, pelo que se considera um cidadão do mundo. Atualmente vive em Cabanas, no Sotavento algarvio. Gosta de revisitar, sempre que pode, a bela cidade de Lisboa e, nela, o bairro onde nasceu, Alfama, o mais popular da capital, de traça árabe, debruçado sobre o Tejo — esse rio mítico, imortalizado por Camões e Pessoa, poetas maiores da Língua Portuguesa. Não é, porém, um bairrista, característica que deplora, a par dos clubismo, partidarismo e nacionalismo. Ama a Liberdade.
Quando, ainda no século XV, os navios portugueses fundearam algures em Cabo Verde, nenhuma das dez ilhas que hoje constituem o arquipélago era habitada (nada de muito surpreendente se tivermos em consideração que estas pequenas ilhas vulcânicas se encontram a mais de 500 quilómetros da costa ocidental africana) e a primeira a ser ocupada foi, precisamente, Santiago. A atual povoação de Cidade Velha foi desde o início e durante muitos anos a localidade mais importante da ilha, mas a capital, hoje, é Praia, onde ficam a sede do governo e os principais serviços e equipamentos públicos. Santiago, dizem os historiadores, serviu como entreposto de escravos pouco tempo depois do início da colonização do arquipélago, mas, uma vez que todas as ilhas estavam desabitadas, os escravos não eram dali. Este facto tem levantado e conduzido a muitas questões, algumas apaixonadas, sobre quem são de facto os cabo-verdianos[1]. Não vamos entrar por aí, a única coisa que afirmamos sem hesitação é que em Cabo Verde existe um povo culturalmente singular. Povo e cultura que vale a pena conhecer.
Cidade da Praia (foto da Fla).
Por outro lado, os cabo-verdianos podem justamente sentir-se orgulhosos por terem construído uma sociedade democrática que, em muitos aspetos, dá cartas a países bastante mais ricos (e não, forçosamente, mais desenvolvidos). Isto não deixa de ser surpreendente, se tivermos em conta as grandes dificuldades que este povo enfrenta: além de estarem muito longe dos grandes centros económicos e de distribuição, os cabo-verdianos têm ainda de enfrentar um clima adverso, seco, com todas as graves consequências que isso acarreta. Apesar disso, do ponto de vista social, são bastante mais desenvolvidos que outros países lusófonos, como Angola e Moçambique, e do que a esmagadora maioria dos países subsarianos. Em muitos itens, são mesmo bastante mais desenvolvidos que o gigante Brasil[2]. Cabo Verde é mais livre, mais seguro e mais democrático que muitos países, apesar de incomparavelmente mais pobre que a esmagadora maioria deles. Tudo isso é obra e mérito do seu povo.
Lateral do edifício que alberga a Sala-Museu Amílcar Cabral, na Praia.
Como seria de esperar, o principal motor económico do arquipélago é o turismo, muito importante não só pelas receitas diretas, mas igualmente pela captação de investimento estrangeiro e pela criação de empregos. Nós fomos apenas mais dois a juntar aos muitos milhares de turistas que visitam Cabo Verde todos os anos. Nos quatro dias em que estivemos na ilha de Santiago, ficámos hospedados na Praia. A partir daí, visitámos todos os pontos considerados mais interessantes da ilha, e não só. Começámos pelo que estava mais perto, o centro da Praia, conhecido como Plateau, por ficar num pequeno planalto sobre a marginal, o porto e o mar: uma espécie de baixa lisboeta (embora mais pequena), mas no alto. Visitámos a interessante Sala-Museu Amílcar Cabral, plena de informações sobre a luta de libertação; entrámos no mercado municipal, algo que sempre fazemos, desde que tenhamos oportunidade, nas cidades que visitamos; almoçámos; deambulámos pelas ruas; indagámos; dialogámos; passámos pelo palácio presidencial; percorremos, como soem fazer os verdadeiros caminhantes, todo o tricotado do centro histórico da Praia.
O presidente Jorge Carlos Fonseca e o embaixador do Bangladesh, com residência em Lisboa, Ruhul Siddique.
Mas Praia não é só Plateau. Vale a pena descer ao mercado de Sucupira, misturar-se com as gentes, sentir os sons, as cores e os cheiros, e petiscar um pastel acompanhado por uma Strela geladinha, talvez, como nós fizemos, na roulote Nôs Casa. É aí, na grande praça Alexandre Albuquerque, que podemos ver as incontáveis carrinhas Toyota Hiace (as “iáces”, como lhe chamam os locais[3]) que podem transportar-nos a qualquer povoação da ilha. Foi o que fizemos para chegar à Cidade Velha: apanhámos uma iáce. Pelo caminho fomos conversando com um simpático e jovem adepto do F.C. de Porto, que nos surpreendeu ao informar-nos sobre os vários dialetos crioulos da ilha. E nós, inocentes, que pensávamos haver apenas um… Conversando com este e outros cabo-verdianos, pudemos aperceber-nos da grande ligação que existe a Portugal: a televisão que veem é portuguesa, os clubes de futebol de que são adeptos são portugueses[4], as universidades para onde vão estudar ficam maioritariamente em Portugal e até os embaixadores estrangeiros que vêm apresentar credenciais ao presidente moram em Lisboa e não aqui.
Primeira Strela, no mercado de Sucupira.
A Cidade Velha, como já dissemos, foi a localidade mais importante nos primórdios da colonização[5], e é hoje uma pequena e simpática urbe que se percorre facilmente a pé. Fica junto ao mar, na base de uma colina que no topo exibe uma fortaleza do século XVI, recuperada e em bom estado de conservação, o forte de São Filipe. Entre elas (fortaleza e cidade), socalcos onde ergueram casas precárias, com pequenos pátios ou lajes, e, aqui e ali, crianças brincando, velhos descansando, cabras cabritando, galinhas depenicando. (Difícil deve ser alimentar os animais com tanta secura). Depois da visita à fortaleza, invertemos a marcha, agora mais fácil, e iniciámos a descida da colina até ao núcleo da Cidade Velha, sobranceiros ao casario e ao mar. Já cá em baixo, passámos pelas ruínas da antiga catedral, a primeira a ser construída no ocidente africano, e finalmente sentámo-nos numa esplanada junto à praia vulcânica, descansando um pouco e tomando bebidas frescas para enganar o calor. Pouco depois, na pequena praça central, enquanto esperávamos a iáce que nos transportaria de volta à Praia, comprámos a um vendedor de rua umas mangas pequeninas, que comemos mais tarde no hotel, e se revelariam divinais. Desta vez ocupámos os dois lugares da frente da iáce, ao lado do motorista. Depois do jantar já não saímos[6], pois tínhamos planeado que no dia seguinte iríamos acordar bem cedo para conhecermos o norte da ilha.
Segunda Strela, na Cidade Velha.
Para circular em Santiago alugámos um carro com motorista, o senhor Wostelindo Carvalho, por 80 euros[7]. A ilha de Santiago é montanhosa, pelo que, para atravessá-la tivemos de subir e descer algumas estradas íngremes. Depois da localidade de Assomada, passámos pelo belo Parque Natural da Serra da Malagueta, de onde é possível vislumbrar as ilhas do Fogo e de Maio, e descemos em direção ao Tarrafal. Um pouco antes da cidade, cerca de um quilómetro, no lugar de Chão Bom, fica a antiga colónia penal, hoje transformada em Museu da Resistência. Éramos os únicos visitantes pelo que pudemos correr todo a estrutura deste antigo campo de concentração, desde a cozinha ao refeitório, passando pelas celas comuns, as disciplinares ou “solitárias”, até às casas de banho e o posto médico, sem nos cruzarmos com uma única pessoa. Quando chegámos ao campo o calor era tórrido, e não pudemos deixar de pensar no sofrimento que corresponderia a estar fechado na “Frigideira”. Houve presos que aí passaram de castigo 1, outros 20, outros ainda 60 dias, mas um deles, Gabriel Pedro, permaneceu 135 dias na “Frigideira”, cerca de quatro meses e meio. Ainda assim, não foi um dos 36 homens que pereceram às terríveis condições desta colónia penal para onde eram enviados, sobretudo, presos políticos que se opunham ao Estado Novo e ao ditador Salazar.
Ontem, Campo de Concentração do Tarrafal; hoje, Museu da Resistência.
Os primeiros anos de funcionamento do campo de concentração, que entrou em funcionamento em 1936, foram os piores. O principal problema para os presos do Tarrafal eram as doenças[8], pois o diretor da prisão alegava não ter verbas para dietas e medicamentos. Face aos muitos casos de doença, em fevereiro de 1937, o médico Esmeraldo Pais da Prata[9] foi enviado à colónia penal com o principal objetivo de verificar se os presos não fingiam estar doentes para se esquivarem ao trabalho. Este médico fascista constituiu um pesadelo permanente. Recusava-se a mandar ferver a água insalubre que provinha de uma fonte a 700 metros, aprovava o estado de deterioração das magras rações distribuídas aos presos[10], dava cobertura aos trabalhos forçados e aos castigos na “Frigideira”, negava a medicação, inclusive aquela enviada pelas famílias dos deportados, e participava diretamente, de arma na mão, na repressão aos detidos, insultando-os e lançando-lhes frequentemente palavras jocosas. Uma das suas frases famosas, que pode ler-se num dos painéis do atual museu, é: “Não estou aqui para curar, mas para assinar certidões de óbito”.
Apesar de tudo isto, muitos presos conseguiram sobreviver graças à solidariedade existente entre eles. Ferviam a água às escondidas, com ferramentas improvisadas, construíam filtros de pedra vulcânica e porosa, organizavam a distribuição dos medicamentos enviados por familiares e organizações de caridade e de outros parcos recursos que escapavam ao controlo dos guardas. E foi a chegada de outro médico, Manuel Baptista dos Reis, desta vez um prisioneiro, que, auxiliado por um enfermeiro chamado Virgílio de Sousa, veio ajudar em muito os presos do Tarrafal, evitando que a mortandade fosse ainda maior. Mesmo assim morreram 36 presos: 32 portugueses, 2 guineenses e 2 angolanos. O campo funcionou nestas condições degradantes até 1956.
A “Holandinha” foi a cela disciplinar que veio substituir a “Frigideira”. Esta ficava isolada, fora do recinto do campo, e foi demolida. Um sobrevivente do Tarrafal, o guineense Augusto Pereira da Graça, conhecido por “Neco”, afirmou sobre a “Holandinha”: “Eu não sei dizer qual era a temperatura dentro deste cubo, mas o indivíduo entrava para lá e, depois de cinco minutos, parecia que lhe tinham dado um banho. Era um calor insuportável. Pode-se dizer um calor infernal. Passei 15 horas ali, mas parecia que tinham sido 15 anos.[11] “
Em 1962, reabriu sob a designação de Campo de Trabalho de Chão Bom, destinado a encarcerar anti-colonialistas da Guiné-Bissau, Angola e Cabo Verde. Entretanto, as autoridades portuguesas negavam a existência desta colónia penal. Em 1963, a missão permanente de Portugal nas Nações Unidas considerava “sem fundamento” as informações que circulavam sobre aquele campo de concentração. Foi Amílcar Cabral, um excelente diplomata, quem evocou as normas da Convenção de Genebra sobre a proteção de prisioneiros de guerra e conseguiu a libertação de três prisioneiros portugueses, entregando-os à Cruz Vermelha, em Dakar, no dia 15 de março de 1968. Perante as denúncias de Cabral, uma Missão da Cruz Vermelha visitou o Tarrafal em fevereiro de 1969, conseguindo que fossem libertados todos os presos considerados “recuperados”. Nessa altura as condições no campo já não eram as mesmas das dos anos 30, 40 e 50. Os presos podiam ir à praia próxima, assistir a sessões de cinema, consultar livros, jornais e revistas na biblioteca, ir a consultas ao Hospital da Praia e até estudarem e fazerem exames nesta cidade.
Praia do Tarrafal.
Após a desativação, o “Campo da Morte Lenta”, como ficou conhecido por quem lá passou, serviu como centro de instrução militar, escola e, desde o ano 2000, Museu da Resistência, tornando-se o espaço mais visitado do arquipélago. Classificado como Património Cultural Nacional de Cabo Verde desde 2006, integra a lista indicativa deste país a Património Mundial pela UNESCO. Em 27 de fevereiro do presente ano (2020), o governo cabo-verdiano adjudicou a uma empresa portuguesa sediada em Barcelos – a Vilacelos – uma empreitada[12] para reabilitar o antigo Campo de Concentração do Tarrafal, que deverá ter a duração de oito meses, e que é considerada indispensável para satisfazer os requisitos exigidos pela UNESCO para a candidatura a Património Mundial, que o governo cabo-verdiano pretende apresentar dentro de um ano. Além desta empreitada, estão previstas verbas para a instalação e funcionamento do futuro museu. O artista português Vhils será convidado para fazer um trabalho no local.
Demora-se algum tempo a recuperar o ritmo normal quando se sai do espaço onde funcionou o campo do Tarrafal. Felizmente que a praia é ali mesmo ao lado e logo, provavelmente, a mais bonita da ilha. Tomámos um daqueles longos e deliciosos banhos que tornam alguns locais inesquecíveis. À hora combinada fomos ter com o senhor Wostelindo, já a pensar no almoço que, como previsto, aconteceu no restaurante Sol & Luna: bom peixe grelhado, à moda tropical, com legumes, arroz, batata frita e vinagrete. Confirmámos que o Tarrafal é o melhor ponto da ilha de Santiago para quem gosta de praia e descanso; e é também, sem dúvida, um bom lugar para comer peixe, a avaliar pelo que comemos, mas também pelos que vimos nos alguidares das peixeiras na praia, e nas bancadas do mercado municipal.
Barcos de pesca estacionados numa praia do Tarrafal.
No regresso à cidade da Praia passámos pela Aldeia dos Rabelados, em Espinho Branco, uma pequena comunidade que viveu durante muitos anos isolada[13], desde que a igreja oficial portuguesa rejeitou, ainda no tempo do colonialismo, as suas práticas religiosas (que incluíam a poligamia e o animismo), e quis substituir os sacerdotes locais de “batina negra”[14] pelos novos sacerdotes, de “batina branca”, enviados do continente. Apesar de uma parte da população ter aceitado os novos padres, outros não os aceitaram – e a partir daí foram considerados rebelados . Passaram então a viver isolados em comunidade, nas montanhas, sem água e sem luz, dependendo da agricultura, da pesca e do artesanato. Graças a Maria Isabel Kouassi, uma artista plástica e terapeuta cabo-verdiana, que viveu na Costa do Marfim e na Suíça, internacionalmente conhecida por Misá, os rabelados têm, há mais de vinte anos, uma representante que luta pelos seus interesses e que os tornou conhecidos um pouco por todo o mundo. Misá conseguiu entrar na comunidade e cada vez que voltava levava algo novo: roupa, alimentos, água, médico ou professor. Graças ao trabalho de Misá, as crianças passaram a frequentar o jardim de infância e a escola, e pelo menos uma delas continuou os estudos e licenciou-se. Paralelamente, Misá criou uma oficina de artes – a Rabelarte – destinada a dotar os jovens dos conhecimentos técnicos necessários à criação de peças que possam vender a turistas que visitem o local. Para tal, ela própria deu formação em desenho e pintura, conseguindo também a colaboração de um voluntário japonês que durante três meses ensinou às crianças técnicas de cerâmica.
Na aldeia dos Rabelados, em Espinho Branco.
Quando visitámos a aldeia estivemos na oficina da Rabelarte e comprámos um singelo quadro a uma jovem artista local. A visita a esta aldeia foi enriquecedora e surpreendente. Com as experiências do dia ainda pulsando em nós, já com o sol baixo, continuámos a nossa descida até à Praia, primeiro junto à costa, passando por Calheta de São Miguel e Pedra Badejo, depois pelo interior, chegando ao hotel Cesária quando se punha o sol. Tínhamos planeado jantar no Quintal da Música no último dia em Santiago, mas esse restaurante estava fechado. Queríamos um restaurante onde se pudesse ouvir música local, e, em alternativa, alguém nos sugeriu o Campanas. Fomos lá. Comemos bem e, como era o último dia e a música estava boa, bebemos ainda melhor. Reparámos, sobretudo, num dos músicos, um virtuoso violinista chamado Nho Nani, natural da ilha do Fogo. Conversámos com ele e com Manuel dos Santos, um guitarrista, também do Fogo, também virtuoso. Despedimo-nos. No dia seguinte, bem cedo, o senhor Wostelindo estaria à nossa espera à porta do hotel para nos levar ao aeroporto.
Na casa de Josefa, jovem artista rabelada.
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Notas:
[1] A população cabo-verdiana é composta por 71% de mulatos, 28% de africanos e 1% de europeus.
[2] Ver o nosso artigo “Os Países-Modelo” aqui: https://ilovealfama.com/2020/04/24/paises-modelo/. Verificar-se-á que Cabo Verde está à frente do Brasil no que toca à liberdade económica, à liberdade humana, à liberdade de imprensa e à democracia. Cabo Verde é também um país incomparavelmente mais pacífico e seguro que o Brasil.
[3] Demorámos um tempo considerável até percebermos o que queriam dizer-nos com : “podem apanhar uma iáce”…
[4] É comum ver pessoas com as camisolas dos clubes portugueses, sobretudo, como seria de esperar, do Benfica, do Porto e do Sporting.
[5] Mas na altura em que foi fundada deram-lhe o nome de Ribeira Grande. Diz-se que o mudaram para evitar confusões com uma povoação homónima em Santo Antão. O Sítio Histórico da Cidade Velha, foi classificado em 2009 pela UNESCO como Património da Humanidade, pelos critérios II, III e VI. O critério II prende-se aos monumentos e vestígios ainda existentes na Cidade Velha enquanto testemunhos do seu papel nas trocas comercias. Critério III, pela sua paisagem urbana, marítima e pitoresca que remetem aos mais de 3 séculos de escravidão dos seres humanos. Já o critério VI, por ser o berço da primeira sociedade mestiça que se difunde pelo Atlântico através da gastronomia, farmacopeia, e outros saberes.
[6] Embora Cabo Verde seja um país relativamente seguro, não é de todo aconselhável circular à noite por locais desconhecidos, a não ser de táxi.
[8] O paludismo, a biliosa, a tuberculose e as infeções intestinais eram os males mais frequentes. Mas também o reumatismo, as avitaminoses, com os casos beribéri, escorbuto e xeroftalmia, anemia palustre, e doenças hepáticas e gástricas.
[9] Era conhecido entre os presos como o “Tralheira”.
[10] A comida era sempre a mesma, mal cozinhada e de péssima qualidade. Os presos tinham de tapar as narinas com bolas de pão para poderem tragá-la.
[12] No valor de 29,5 milhões de escudos cabo-verdianos, ou seja, o equivalente a 265 mil euros.Mais 22 milhões de escudos (cerca de 200 mil euros) para a instalação e o funcionamento do futuro museu.
[13] O nome “Rabelados” (“rebelados”, ou “rebeldes” em português) deve-se à sua recusa em aceitarem os preceitos da Igreja Católica tradicional.No entanto, os integrantes da comunidade consideram-se “Revelados”.
[14] Estes “sacerdotes negros” saíram dos seminários que os franciscanos, chegados a Cabo Verde em finais do século XVII com o objetivo de evangelizar a população, criaram para formar sacerdotes. Ou seja, eram sacerdotes locais.
O Japão é por variadas razões um dos mais fascinantes países do planeta. Isolado durante a maior parte da sua história, teve sempre um papel importante quando se integrou na comunidade internacional, chegando a ser, no período da Grande Guerra, a par dos Estados Unidos, um dos dois países mais poderosos do mundo. A primeira abertura do Japão deu-se no século XVI, na época em que o grande aventureiro português, Fernão Mendes Pinto, chegou ao arquipélago, mas durou pouco tempo[1]. Cansados do proselitismo europeu, os japoneses expulsariam os missionários e fechar-se-iam de novo, alcançando a estabilidade política com o domínio do xogunato Tokugawa[2], um governo dinástico militar que durou mais de 250 anos (até 1867). Em 1854, o Japão assinou com os Estados Unidos o Tratado de Kanagawa e, quatro anos depois, o Tratado de Amizade e Comércio, que marcaram o início da nova abertura japonesa, ainda que forçada[3]. Seja como for, isso permitiu ao Japão modernizar-se e industrializar-se intensivamente, tornando-o capaz de, nos finais do século XIX e inícios do século XX, derrotar militarmente a China e a Rússia. Esse período de extraordinário desenvolvimento ficou conhecido com Era Meiji (1868-1912), quando governou o imperador Mutsuhito Tenno. (Até à Restauração Meiji os imperadores não tinham poder e quem governava o Japão eram ditadores militares, cujo poder era hereditário, denominados xoguns). Sucessivamente, os japoneses ocuparam a península da Coreia, a Formosa (atual Taiwan), o sul da Ilha Sacalina[4], a Manchúria e a China. Em 1941, cometeram o erro de atacar os Estados Unidos e ocupar a maior parte dos territórios do sul e sudeste asiáticos, precipitando a entrada dos americanos na II Guerra Mundial.
A nossa visita ao Japão começou em Yokohama. Depois de um passeio pelo centro da cidade e uma entrada na Chinatown, subimos pela Landmark Tower, uma torre com 295,8 metros de altura e 73 andares, no elevador mais rápido do mundo. Demorámos apenas 40 segundos a atingir o 69º andar, aquele onde fica o Sky Garden, um piso panorâmico, com bar, livraria e uma vista incrível de 360º.
Apesar da derrota na II Guerra Mundial[5], o Japão tornou-se uma potência económica e um aliado dos Estados Unidos, registando, até aos anos noventa do século XX, três décadas de desenvolvimento económico sem precedentes. O imperador manteve-se como símbolo da unidade nacional, mas o poder executivo passou a ser exercido por políticos eleitos. O país modernizou-se, democratizou-se e manteve-se até hoje uma potência económica. Não possuindo grandes recursos naturais, sobretudo ao nível energético[6], é, no entanto, um colosso industrial, exportando produtos de altíssimo valor acrescentado para todo o mundo: a marca-Japão, embutida em itens diversificados e de grande consumo, como automóveis, máquinas fotográficas, televisores, telemóveis, entre muitos outros, faz parte do quotidiano dos cidadãos de, praticamente, todos os cantos do planeta[7].
No dia 11 de março de 2011, o maior terramoto da história japonesa, seguido de tsunami, devastou o nordeste da ilha de Honshu (a maior do Japão), matando milhares de pessoas e provocando danos irreparáveis na central nuclear de Fukushima[8]. No ano seguinte chegou ao poder o atual primeiro-ministro, Shinzo Abe, o político que se mantém há mais tempo no cargo, desde a II Guerra Mundial.
O dia seguinte foi integralmente passado em Tóquio, uma capital gigantesca. Nesta foto podemos ver o edifício da estação televisiva Fuji, uma das construções emblemáticas da cidade. Um terço da população japonesa vive na região de Tóquio.
2- O Japão natural
O Japão é um país insular que conta com cerca de 7 mil ilhas[9], das quais apenas 421 são habitadas: imagine-se as maravilhas que se podem encontrar em muitas delas, sobretudo nas mais remotas! As ilhas principais são Hocaido, Honshu (onde se situa a capital, Tóquio), Shikoku e Kiushu. No entanto, é importante o papel das pequenas ilhas exteriores na proteção do território, pois todas as fronteiras internacionais do Japão estão no mar. Apesar deste país ocupar apenas o 61º lugar do mundo em termos de território (cerca de 378 mil km2), a sua zona económica exclusiva (ZEE) atinge uma área de 4.470.000 km2, a sexta maior do planeta. O Japão é assim um país marítimo por excelência, com amplas vantagens no que toca à exploração dos seus amplos recursos marítimos (sobretudo a pesca) e ao comércio por via marítima (o Japão possui a quarta maior frota mercante do mundo), mas igualmente com alguns problemas, sobretudo as disputas com outros países da região[10] sobre a soberania de algumas ilhas e águas territoriais.
Ao fim da tarde fomos até Tsukiji, onde fica o famoso mercado de peixe de Tóquio. Na rua do mercado pudemos provar uns saborosos frutos do mar cozinhados, numa pequena loja, com maçarico… (Se estás no Japão, sê japonês).
O clima do Japão é diversificado, variando entre o tropical no extremo sul e o temperado frio nas regiões do norte. A altura média do país é de 438 metros e o ponto mais alto situa-se no monte Fuji, 3.776 metros acima do nível do mar. Como já foi dito, o país não possui grandes recursos naturais do ponto de vista energético (ou mineral), sendo o maior importador mundial de carvão e gás natural liquefeito, e o segundo maior importador de petróleo. Situado no chamado “anel de fogo do Pacífico”[11], o Japão está sujeito a uma intensa atividade sísmica e vulcânica[12], e também a tufões e tsunamis. Ao contrário do que acontece na maioria dos países temperados, no Japão chove sobretudo no início de Verão, e chove muito. Essa peculiaridade faz com que a produtividade agrícola seja muito elevada, apesar de apenas 14% do seu território ser cultivado. A elevada pluviosidade também faz com que a floresta japonesa, que cobre cerca de 70% do território, recupere rapidamente depois dos cortes.
Mesmo assim, o desmatamento das florestas tropicais tem contribuído para o esgotamento dos recursos florestais, não sendo este o único problema ambiental que o Japão enfrenta: as chuvas ácidas, provocadas pela intensa atividade de indústrias poluentes, acidificam a água de rios, lagos e mares; a poluição atmosférica é significativa[13]; a pesca intensiva constitui uma ameaça para algumas espécies; e, um assunto cada vez mais controverso, a produção de energia nuclear, pode provocar desastres catastróficos, como o de Fukushima, além de produzir resíduos cuja eliminação é muito problemática, se não impossível.
O Japão é o 11º país mais populoso do mundo, com mais de 125 milhões de habitantes, embora a taxa de natalidade atual seja muito baixa (1.43), o que o torna num dos países com maiores problemas no que toca ao envelhecimento da população.
Depois do aperitivo na rua, fomos jantar ao restaurante Sushi Zanmai Honten, ainda em Tsukiji, apenas guiados pela nossa intuição. Observámos que tinha muita gente, sobretudo japoneses, pelo que nos pareceu uma boa opção. Preferimos comer ao balcão ao lado de um casal japonês que nos foi dando algumas dicas. Provámos, muito provavelmente, o melhor atum das nossas vidas. À saída, quando tirámos esta foto, ainda não tínhamos percebido que estivéramos num dos melhores restaurantes de sushi em todo o mundo.
3- Cultura e sociedade
Como já vimos, o Japão é uma potência económica; e do ponto de vista da qualidade dos serviços que oferece aos cidadãos é, igualmente, um país extremamente desenvolvido: bons sistemas de saúde e educação, e um excelentíssimo sistema de transportes. Seria expectável, portanto, que fosse igualmente um país socialmente desenvolvido, o que efetivamente acontece, pese embora alguma desigualdade de género e de rendimentos. Isto ocorre, pelo menos em parte, porque a tradição tem um peso significativo na sociedade nipónica, cujas raízes são substancialmente diferentes das ocidentais. Os japoneses têm um grande orgulho na sua identidade e cultura. As religiões dominantes são o xintoísmo e o budismo, com muitos indivíduos a praticarem ambas[14]. Mas o que os japoneses defendem, sobretudo, é uma distinção étnica e linguística, sendo dos povos menos cosmopolitas do mundo, com poucos imigrantes e regras muito rígidas para os estrangeiros que pretendam viver no Japão. Isso sente-se (nós sentimo-lo) no contacto com as pessoas comuns, apesar da afabilidade de muitos delas.
Estas questões de identidade estão na base do longo conflito entre o Japão e a Coreia, com ambos a reivindicarem superioridade em relação ao outro. Porém, estudos recentes revelam que, à semelhança do que acontece com israelitas e palestinianos, o que os separa é muito menor do que o que os une, sendo povos geneticamente irmanados, que partilham uma longa história, apesar das desavenças.
Para regressarmos ao hotel onde estávamos hospedados, em Haneda, nos arredores de Tóquio, tínhamos de apanhar dois comboios suburbanos, o que, só por si, já é uma aventura, sobretudo para quem não sabe ler uma palavra que seja em japonês, a única língua em que estão inscritos nos painéis das gares os nomes das incontáveis estações e linhas. Não, a vida do turista não é aqui facilitada… Mas valeu a nossa persistência: viajarmos como verdadeiros japoneses foi para nós um desafio – superado. Não podemos deixar de realçar a pontualidade extrema (ao segundo!) das partidas e chegadas destes comboios, algo indispensável numa rede urbana tão densa que mais parece uma teia de aranha. Incrível.
Quando visitamos o Japão, percebemos quase imediatamente duas realidades distintas: a imagem familiar das modernas cidades ocidentais, com demonstrações por todo o lado de grande desenvolvimento tecnológico, e a cultura nacional, que consubstancia uma visão do mundo bem diferente do cosmopolitismo ocidental. Apesar disso, há uma aproximação gradual entre as culturas ocidental e nipónica, sobretudo nas artes e no desporto[15]. Se é certo que tradições artísticas, como o kabuki (o mais tradicional teatro popular japonês), ou desportivas, como o sumo (luta tradicional) continuam a atrair vastas camadas da população, é igualmente verdade que a música clássica, o rock, o futebol e o cinema ocidentais têm cada vez mais adeptos (e praticantes) no Japão. Em sentido contrário, temos a manga (banda desenhada japonesa) e o anime (desenhos animados) extremamente populares entre os jovens de muitos países ocidentais, como os Estados Unidos ou o Brasil; e também o sushi, que se tornou um tipo de comida popular em todas as grandes cidades americanas e europeias, o mesmo se podendo dizer do sashimi, ambos tendo por base o tradicional modo japonês de confecionar peixe fresco cru[16].
Gostaríamos de ter tido muito mais tempo, embora saibamos que nenhum tempo seria suficiente, para conhecermos o Japão. Quem sabe, um dia talvez possamos voltar… Por agora, resta-nos terminar este artigo reafirmando convictamente o que dissemos no início: o Japão é um país fascinante!
O topo do monte Fuji é o ponto mais alto do Japão: 3.776 metros. Esta foto, tirada do avião que nos levaria até Londres, na viagem de regresso a casa, fixa a última imagem da nossa visita ao país do sol nascente.
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Notas:
[1] A história do Japão cruza-se com a história de Portugal, porquanto os portugueses foram os primeiros europeus a chegar ao país do sol nascente, em 1542. (Ver nosso artigo em https://ilovealfama.com/tag/cristovao-ferreira/).
[2] Assim chamado por ter sido fundado, em 1603, por Tokugawa Ieyasu.
[3] Após a conquista da Califórnia ao México, em 1848, seguiu-se a descoberta de ouro, o que levou a uma explosão do tráfego marítimo americano na costa do Pacífico. A navegação de navios mercantes e baleeiros norte-americanos alargou-se, e muitos navios naufragaram, alguns em águas oceânicas próximas do Japão. Vários marinheiros americanos foram capturados e mortos pelos japoneses devido à política isolacionista do xogunato Tokugawa. Os americanos queriam que os marinheiros naufragados fossem ajudados e não mortos, bem como pretendiam que os navios americanos pudessem comprar carvão no Japão. Assim, o presidente americano Millard Fillmore enviou o comodoro Matthew Perry ao Japão com uma frota de quatro navios, dois deles vasos de guerra. O Japão na época não tinha navios nem máquinas a vapor. Perry deixou uma carta com as exigências americanas e disse que voltaria passado um ano para receber a resposta. Menos de um ano depois (em fevereiro de 1854) Perry regressou com nove navios de guerra. O xogum assinou o primeiro tratado japonês com um país ocidental e terminou com 215 anos de política de isolamento. Seguiu-se um período conturbado até ao fim do xogunato, que coincidiu com o início da Restauração Meiji e o enorme impulso na modernização do Japão.
[4] Recuperada em 1945 pela União Soviética.
[5] A forma como os japoneses se comportam na guerra diz muito sobre a sua cultura. São guerreiros ferozes e preferem morrer a renderem-se. E isso não acontece apenas com os militares: famílias inteiras cometeram suicídio para não se renderem aos americanos na II Guerra Mundial.Como se sabe, os japoneses continuaram a lutar mesmo depois da derrota de alemães e italianos e só após terem sido alvo de dois ataques atómicos, em Hiroshima e Nagasáqui, se renderam (2 de setembro de 1945).
[6] Foi essa falta de recursos a principal razão da política expansionista japonesa.
[7] Ainda não desembarcáramos em Yokohama e já nos deparávamos com uma amostra significativa do poderio económico japonês. Milhares e milhares de automóveis, alinhados sobre terraplenos gigantescos, aguardavam a sua vez de serem exportados, algures, para algum canto do mundo.
[8] Mais de 170 mil pessoas foram evacuadas e a radiação em indivíduos, solos e águas vai manter-se por muitos anos mais, assim como os esforços para contenção dos danos causados pelo acidente.
[9] A Guarda Costeira do Japão contabiliza as ilhas com mais de 100 metros de circunferência. De acordo com este critério, as ilhas japonesas são 6852. Quinze delas são ilhas vulcânicas ativas.
[10] Especialmente com a China.
[11] Cerca de 90% dos terramotos e 75% dos vulcões terrestres ocorrem no anel de fogo do Pacífico.
[12] Alguns vulcões no Japão constituem um elevado risco, como são, entre outros, os casos dos montes Unzen e Sakurajima (este último perto da densamente povoada cidade de Kagoshima), considerados “vulcões da década” pela Associação Internacional de Vulcanologia e Química do Interior da Terra (IAVCEI). Ver: https://www.iavceivolcano.org/
[13] O Japão é o quinto maior emissor mundial de dióxido de carbono proveniente do consumo de energia.
[14] A prática de ambas as religiões produz um dado curioso: a soma da percentagem de xintoístas (70,4%) com a de budistas (69,8%) é superior a 100%.
[15] Haverá poucos exemplos tão paradigmáticos da diversidade individual quanto uma grande orquestra ou uma equipa de futebol.
[16] Há quem se refira à “m.a.s.s. culture”: manga, anime, sushi e sashimi.
A Malásia é um país original, com algumas características muito particulares. Desde logo, a descontinuidade do território: uma parte na península da Malásia e outra parte na ilha de Bornéu (que divide com a Indonésia e o pequeno Brunei) separadas pelo Mar da China meridional. Depois, a população, constituída por três etnias distintas – malaios (62%), chineses (20,6%) e indianos (6,2%). É bastante curioso que os próprios partidos políticos representem essas etnias, e não classes ou ideologias, como é tradicional. Finalmente, a localização estratégica da Malásia, junto ao estreito de Malaca, que os navios que passam do Mar da China para o Mar de Andamão, e vice-versa, têm de percorrer. Esta zona do globo é, desde há muito, um ponto de encontro entre mercadores chineses, indianos, árabes e persas, um ponto nevrálgico, que aguçou a cobiça dos europeus: primeiro dos portugueses, depois de holandeses e britânicos. Para lá de tudo isto, a Malásia é um paraíso tropical: as florestas húmidas ocupam cerca de 60% do seu território e mantêm-se inalteradas desde há 100 milhões de anos; albergam espécimes incríveis dos reinos vegetal e animal.
A Sky Bridge.
Durante os séculos XVIII e XIX, a Grã-Bretanha estabeleceu colónias e protetorados na área da atual Malásia, os quais seriam ocupados pelo Japão durante a II Guerra Mundial, entre 1942-1945. Em 1948, os territórios governados pelos britânicos na península malaia, excetuando Singapura, formaram a Federação da Malásia, que se tornaria independente em 1957. Em 1963 juntaram-se à Federação as antigas colónias britânicas de Singapura, Sabah e Sarawak, estas duas na costa norte da ilha de Bornéu. Os primeiros anos da independência foram conturbados, com a retirada da Federação de Singapura (logo em 1965), reivindicações das Filipinas sobre Sabah, e confrontos com a Indonésia. Com o mandato do primeiro-ministro Mahathir Mohamad (1981-2003), a Malásia conseguiu diversificar a sua economia, passando da dependência quase exclusiva da exportação de matérias-primas para o desenvolvimento de manufacturas, serviços e turismo. Nos últimos anos, a Malásia vem tentando atrair investimentos em alta tecnologia, indústrias e serviços baseados no conhecimento.
Um percurso considerável até atingir o topo de Mat Cincang, o segundo monte mais alto de Langkawi (610 metros). Lá em cima, nos dias claros, avista-se, ao norte, a Tailândia e, a sudoeste, a ilha de Sumatra, na Indonésia.
A aposta na tecnologia permitiu um desenvolvimento enorme no campo das telecomunicações, pelo que a Malásia é, hoje, um dos países mais avançados nas tecnologias 4G e 5G, com cobertura de quase todo o território nacional. O segredo do relativo sucesso do país parece ser o de criar oportunidades para o conjunto da população, independentemente da etnia ou credo religioso[1], criando as condições de base, através de instituições democráticas, para a consolidação de uma sociedade liberal. De facto, pudemos constatar que a Malásia é uma sociedade tolerante, observando, nas ruas, tal como já acontecera na nossa visita à Tailândia, a harmonia entre as diferentes comunidades, muito diferente da que (não) ocorre, por exemplo, em alguns países do Médio Oriente.
Primeiro exemplo da arquitetura mogol[5] na Malásia: edifício Sultão Abdul Samad (1894-1897). Simétrico, possui uma torre-relógio com 41 metros de altura. Ocuparam este espaço a Federação de Estados Malaios (em 1897) e o Supremo Tribunal da Malásia (em 1972). Atualmente, está aqui instalado o Ministério do Turismo e Cultura da Malásia.
Assim, pudemos visitar tranquilamente mesquitas, pagodes, templos, igrejas, mercados tradicionais e apreciar, nos espaços públicos, a diversidade de costumes inerente a uma sociedade multicultural. Após termos estado em George Town[2], a nossa visita pela Malásia prosseguiu com uma paragem em Langkawi[3] e outra em Kuala Lumpur. Lankawi é uma pequena ilha (talvez do tamanho do Faial, nos Açores) situada no Estreito de Malaca, mas bem perto da costa continental, a uns meros 15 kms. Toda virada para o turismo, possui belas praias (sobretudo Tanjung Rhu, no norte, e Pantai Cenang, no sul), parques naturais e zonas de montanha, com profusa vegetação. Além disso, tem alguns equipamentos interessantes, como sejam um teleférico que nos conduz ao topo do monte Mat Cincang, onde encontramos uma ponte pedestre que parece suspensa no vazio. Pudemos visitar também dois museus, um etnográfico e um outro dedicado ao ciclo do arroz (museu Laman Padi); e visitámos ainda um enorme centro de artesanato[4], com vários stands de artesãos locais, alguns vendendo peças bastante interessantes. Como seria de esperar, tudo gira em torno do turismo nesta ilha, “porto livre de impostos”, desde 1987.
Twin Towers, em Kuala Lumpur. 452 metros de altura.
Kuala Lumpur, como grande capital, é mais cosmopolita. Alguns ocidentais instalaram-se aqui para aproveitarem as oportunidades de negócio que a abertura malaia vem oferecendo[6]. A parte antiga da cidade é a mais interessante. Aí encontrámos o mercado central (antiga sede do governo britânico), a Chinatown, o Palácio Nacional[7], a Praça da Independência e alguns edifícios interessantes, como o Tudor, do Royal Selangor Club, e a bonita catedral de Santa Maria a Virgem, dos finais do século XIX. Desde essa zona mais antiga da cidade, junto ao rio Kelang, seguimos a pé até à mesquita nacional da Malásia (Masjid Negara).Não longe ficam os templos Kuil Sri Maha Mariamman (hindu) e Sin Sze Si Ya (taoísta) e o Museu Nacional da Malásia (Muzium Negara). Após tomarmos uma água de coco junto ao mercado central, retemperámos forças para subirmos até à quarta torre de telecomunicações mais alta do mundo (Menara Kuala Lumpur), terminando a nossa visita à capital da Malásia nas emblemáticas Petronas Twin Towers.
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Notas:
[1] A religião oficial é o islamismo (cerca de 61%), mas budistas (20%), cristãos (9%), hindus (6%), bem como outros credos, incluindo alguns tradicionais chineses, são respeitados.
[5] Apesar do império Mogol ter tido uma relação direta com o império Mongol (Babur, o fundador da dinastia Mogol, era descendente de Gengis Khan) foram realidades diferentes. O império Mogol durou de 1526 a 1857 e compreendia a maior parte dos territórios atuais da Índia, e dos Paquistão, Afeganistão e Bangladesh. Era, no seu apogeu, provavelmente o mais rico e poderoso do planeta. Profundamente islâmico, entrou em declínio nos finais do século XVIII sendo definitivamente sepultado pela expansão de um outro império, o britânico.
[6] Conversámos sobre a realidade malaia com dois ocidentais: um guia turístico espanhol, que também tem um restaurante na cidade, e um senhor inglês que já vive em Kuala Lumpur há 30 anos.
A Tailândia reúne excelentes condições para a prática do turismo ligado ao mar: ilhas idílicas, clima tropical, paisagens arrebatadoras, povo acolhedor, e um destino relativamente barato para os padrões ocidentais. Na nossa curta estadia estivemos na ilha de Phuket, desembarcando na localidade de Patong, uma das mais atingidas pelo tsunami de 26 de Dezembro de 2004. Daí tomámos um autocarro em direção a Phang Nga.
Ilha de James Bond.
Chegados ao Parque Nacional, apanhámos de imediato uma lancha para a ilha Kao Ping Gun, atualmente conhecida por ilha James Bond, devido às filmagens finais do filme “O Homem da Pistola Dourada”, que ali decorreram. O percurso de lancha é feito através de uma paisagem quase surrealista, repleta de penhascos calcários. O nosso ponto de paragem seguinte foi em Koh Panyi, um povoado flutuante, com casas construídas sobre estacas e passadeiras de madeira entre elas. A povoação tem mesquita, escola, lojas e vários restaurantes. Almoçámos num deles. A população residente é muçulmana e vive quase exclusivamente do turismo.
Recinto desportivo flutuante na povoação de Koh Panyi.
Quando finalmente a lancha nos deixou em terra firme tomámos de novo o autocarro, que rumou ainda mais para Norte, até Krasom, onde visitámos o templo budista Suwan Khuha, situado dentro de uma gruta, um dos mais importantes da Tailândia. Era já noite cerrada quando regressámos a Patong, agora extremamente animada, com as ruas repletas de turistas, fumo, cheiros, sons, incontáveis bares, restaurantes, e todo o tipo de comércio, incluindo a prostituição. Ao contrário da maioria dos lugares, é quando começa a noite que Patong acorda.
Igreja de Santo António, em Lisboa. Tardo-barroca, data dos finais do século XVIII, e é fruto da reconstrução a que foi sujeito o anterior templo, em consequência do terramoto de 1755. De acordo com o que se diz tradicionalmente, ergue-se sobre a antiga casa de morada do santo.
Hoje é dia de Santo António, talvez o santo mais popular do mundo inteiro. De facto, a imagem de António com o menino ao colo multiplica-se em inesgotáveis versões por todos os continentes, e essa singularidade, o facto de ser sempre representado com o menino, permite (sejam quais forem estilos, formas ou materiais usados) uma imediata identificação. Mas, apesar da universalidade de Santo António, apenas duas cidades podem reclamar-se como as cidades deste santo tão popular: Lisboa e Pádua. É por isso que se pode apelidá-lo, com igual propriedade, Santo António de Lisboa ou Santo António de Pádua, pois Lisboa é a cidade onde nasceu e Pádua a cidade onde morreu (e estão depositados seus restos mortais). Mas, talvez mais apropriado, ainda, seja citarmos o Papa Leão XIII: “António é o santo de todo o mundo”. Haverá, pois, inúmeras formas justas de apelidar Santo António e nós também temos uma, não sabemos se original: o Santo do Povo. O pequeno texto que se segue é uma tentativa de mostrar porquê.
A vida de Santo António
António teve uma vida cheia, embora curta, pois viveu apenas 36 anos. Nasceu em Lisboa no ano de 1195, filho primogénito de uma família rica, nobre e poderosa, e foi-lhe dado o nome de Fernando. Frustrando as expectativas da família, Fernando abandona o palácio onde vivia e, com 15 anos, ingressa numa ordem religiosa que ainda hoje existe — os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho — enclausurando-se no mosteiro de São Vicente de Fora. É aqui que se inicia a formação que o tornará um dos eclesiásticos mais cultos da Europa no início do século XIII. Pouco tempo depois, para se isolar de parentes e amigos que tentam dissuadi-lo, vai para o mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, igualmente da Ordem de Santo Agostinho, onde se dedica a estudar Teologia até completar os 25 anos, quando é ordenado sacerdote.
Capela de Santo António, no local onde se situava a cela do então Fernando de Bulhões, no mosteiro de São Vicente de Fora. Projetada por Carlos Mardel, foi construída em 1740.
Após ter tido conhecimento da morte de cinco franciscanos em Marrocos, Fernando considera a sua vida no mosteiro demasiado confortável e medíocre, e decide ir para o terreno como missionário, com a intenção de se tornar um mártir. Apesar das dificuldades, consegue deixar os Cónegos Regrantes e tornar-se um franciscano. Para cortar todas as pontes com o passado muda o nome para António (há quem diga que em homenagem ao eremita Santo Antão) e, após um breve tirocínio, embarca para África. No entanto, os seus intentos não se realizam, pois, mal desembarca no continente negro, fica gravemente doente com febre malária e vê-se obrigado a regressar a Portugal. Os ventos contrários, porém, empurram o navio em que viaja para a Sicília. Desanimado e doente, António desloca-se a Assis, onde se encontra com São Francisco, no Pentecostes de 1221.
O encontro com o Poverello faz renascer o ânimo de António, que é conduzido ao ermitério de Monte Paulo, no distrito de Forlí. Num desses dias vai à cidade para uma ordenação sacerdotal; o pregador oficial falta, e António é encarregado de dizer algumas palavras. É então que revela o seu superior talento de pregador. A partir desse dia é enviado a percorrer todos os caminhos de Itália e França, e em 1224, na cidade de Arles, São Francisco aparece durante um seu sermão. E tal como na vida de São Francisco acontece uma pregação às aves, também na vida de Santo António acontece uma pregação, igualmente fantasiosa e poética, aos peixes. Esta teria ocorrido em Rimini, que se encontrava, à data, nas mãos dos hereges. Quando o missionário chega à cidade é recebido com um muro de silêncio. António não encontra ninguém a quem dirigir palavra. As igrejas, as praças, as ruas estão desertas. Então, quando chega ao lugar em que o rio Marecchia desagua no Adriático começa a chamar, dizendo: “Vinde vós, ó peixes, ouvir a palavra de Deus, dado que os homens soberbos não a querem ouvir!”. E os peixes emergem às centenas, aos milhares, para ouvirem Santo António. Entretanto, a curiosidade dos hereges acaba por ser mais forte do que a ordem de silêncio recebida dos seus chefes e uma multidão aproxima-se, já rendida aos dons oratórios do franciscano; muitos, maravilhados, arrependem-se e retornam à religião católica.
A grandiosa Basílica de Santo António, em Pádua. Inspirada na Basílica de São Marcos, em Veneza, mede 115 metros de comprimento, 55 de largura, e 38,5 de altura máxima no seu interior. Combina o românico da sólida estrutura com o gótico das capelas, arcos e abóbadas. É rodeada por oito cúpulas, duas torres sineiras, duas pequenas torres – minarete e dois campanário gémeos que atingem 68 metros de altura. É iluminada por três grandes rosáceas: duas ao lado do altar-mor e a outra na fachada, entre duas janelas geminadas.
Vários milagres são atribuídos a António, e a fama de santo milagreiro espalha-se. Entretanto, promove os estudos de Teologia no seio da Ordem Franciscana, e é nomeado superior dos frades da Itália do Norte; ensina em Bolonha, Montpellier, Toulouse e Pádua; trabalha incansavelmente. Eis o que nos diz um seu contemporâneo: “Pregando, ensinando, escutando as confissões, acontecia-lhe chegar ao fim do dia sem ter tido tempo para comer”. A saúde, debilitada desde os tempos de Marrocos, deteriora-se e António, cansado pelas fadigas e pela hidropisia, pressentindo o fim, pede para se recolher em contemplação no convento de Camposampiero, no ermitério que o dono do lugar, o conde de Tiso, tinha doado aos Franciscanos, junto ao próprio castelo. Uma noite o conde, que, cansado da vida política, se havia tornado discípulo de Santo António, aproximou-se da cela do amigo e viu que da mesma se libertava uma intensa luminosidade. Pensando que fosse um incêndio abriu a porta e deparou com uma cena prodigiosa: António segurava nos braços o Menino Jesus. O Santo pediu-lhe humildemente que não contasse nada a ninguém e o conde assim fez; só depois da morte de Santo António contou o que tinha visto.
No dia 13 de Junho de 1231, uma sexta-feira, Santo António faleceu. De acordo com o seu desejo, o corpo foi transportado para a pequena igreja de Santa Maria, em Pádua. Toda a cidade acompanhou o funeral e, nessa mesma tarde, sobre o seu túmulo, começaram os milagres. A fama do Santo espalhou-se ainda mais, e peregrinos, alguns de zonas longínquas, dirigem-se a Pádua. O processo de canonização inicia-se de imediato e conclui-se rapidamente, com o reconhecimento unânime da sua santidade. Os confrades de António, ajudados pelos paduanos e pelos peregrinos iniciam então a construção de uma grande basílica onde tencionam repor dignamente os restos mortais do Santo dos milagres. Em 1263, os restos mortais de Santo António são transportados para a nova basílica. Aberto o caixão, verificam que a língua se conserva prodigiosamente incorrupta.
O túmulo de António na “Capela do Santo”. Basílica de Santo António, Pádua.
Como era Santo António
Após o reconhecimento de 1263, ocorreu um novo reconhecimento, com autorização de João Paulo II, em 1981, por ocasião dos 750 anos da morte do Santo. Os restos mortais revelaram-se perfeitamente conservados. Médicos e historiadores tiveram a oportunidade de reconstruir as características físicas de Santo António: cerca de 1,70 m de altura; estrutura frágil, pouco robusta; perfil nobre; rosto alongado e estreito; olhos encovados; mãos compridas e finas. O mais extraordinário foi este reconhecimento ter confirmado o de 1263 também no que toca ao aparelho vocal: este manteve-se intacto, com a língua incorrupta, tal como 718 anos antes. Os diferentes elementos do aparelho vocal foram então guardados em relicários. Estes, por sua vez, encontram-se na “Capela das Relíquias” ou do “Tesouro”, construída nos finais do século XVII, em estilo barroco, sob projeto do arquiteto e escultor Filippo Parodi, uma das sete belíssimas capelas da não menos belíssima Basílica de Santo António. O esqueleto de António, recomposto dentro de uma urna de cristal protegida por uma caixa de madeira de carvalho, foi colocado novamente no seu túmulo, em 1 de Março de 1981. Só no mês de Fevereiro de 2010 os fiéis puderam ver os restos mortais do Santo. Esta foi a sua última exposição.
Santo Popular
Santo António desde cedo se tornou popular. Foram e são-lhe atribuídos inúmeros milagres. E todos sabemos como os milagres mais pedidos são os da saúde e do amor… Assim, não surpreende que tenham sido atribuídos ao pobre António incontáveis milagres amorosos e que ele tenha ganhado, sem vontade própria, a fama de casamenteiro. Ora, quem pode ser mais popular que um casamenteiro? Como pudemos testemunhar, quer em Portugal, quer no Brasil, mas também em Pádua e noutras partes do mundo, as festas em honra de Santo António, no dia 13 de Junho (que começam na véspera), estão fortemente implantadas na cultura popular de vários povos. Curiosamente, algumas tradições do tempo da nossa infância no bairro de Alfama, em Lisboa, que aí caíram em desuso, por exemplo “saltar à fogueira”, continuam bem vivas no Brasil, como constatámos na Paraíba, numa viagem noturna entre Campina Grande e João Pessoa: em todas as povoações por que passámos, vimos fogueiras.
Este Santo António fez um longo percurso desde Ouro Preto, no Brasil, até o Algarve, em Portugal.
Tivemos a sorte de conhecer Campina Grande e Caruaru, as duas cidades, a primeira na Paraíba e a segunda no Pernambuco, que rivalizam para organizar as melhores festas juninas do Brasil, embora estas estejam fortemente implantadas em todo a Federação, sobretudo no Nordeste. As quadrilhas juninas organizadas por associações locais dos municípios nordestinos, proliferam por todo o lado e, claro, o ponto alto das suas atuações acontece durante as festas em honra dos santos populares. As exibições das quadrilhas arrastam muitos aficionados, à semelhança do que acontece com as marchas populares, em Lisboa, e as coreografias, que obedecem a certos cânones, são, apesar disso, muito criativas.
Os portugueses espalharam o culto de Santo António pelo mundo inteiro através das viagens marítimas e o Brasil é, muito provavelmente, o país onde esse culto está mais propagado. Uma das festas mais emblemáticas em honra de Santo António realiza-se anualmente na cidade de Oriximiná, perto de Santarém, entre o primeiro e o terceiro domingos de agosto. Trata-se de uma das maiores manifestações de fé do povo do Oeste do Pará – o Círio de Santo Antônio – cujo ponto mais alto é a procissão fluvial noturna no rio Trombetas. A romaria é acompanhada por embarcações iluminadas e decoradas, e sobre as águas flutua uma miríade de barquinhas coloridas igualmente iluminadas, fabricadas em aninga e papel de seda multicolor, confecionadas pela comunidade escolar e pelos romeiros, iluminando o rio durante o cortejo. São milhares de pontos de luz que brilham nas águas escuras como as estrelas reluzem nos céus.
A procissão de Santo António passa pelas ruas apertadas de Alfama. Na foto, o andor do arcanjo São Miguel. Pela primeira vez, depois de muitos anos, hoje, devido à Covid-19, não haverá procissão de Santo António.
A nossa ligação a Santo António existe desde que nascemos, em Alfama, num dia 12 de Junho. Todos os anos, nesse dia, os lisboetas preparam-se para a noite mais longa do ano, a maior festa popular da cidade. Desde o tempo da minha infância até agora, a Noite de Santo António foi-se modificando: já não se salta à fogueira; já não se queimam alcachofras; já não se fazem os bailaricos nos pátios e as festas particulares, mas abertas a todos, dos vizinhos de cada beco; já não se ouvem cantigas populares que provavelmente se perderam no tempo (talvez ninguém se tenha lembrado de fazer uma recolha de pelo menos algumas dessas cantigas, o que é pena); já não se oferecem sardinhas a quem passa. Hoje, infelizmente, os moradores do bairro que intervêm na festa pensam sobretudo no negócio: em fazer um “retiro”. Apesar das mudanças, a animação é garantida, com o bairro repleto de visitantes.
O mesmo se passa na Mouraria, na Graça, no Castelo, na Bica, no Alto do Pina e em muitos outros bairros de Lisboa. A meio da noite, mais ou menos, a Marcha, vinda da atuação na Avenida da Liberdade, percorre as ruas de Alfama até ao Centro Cultural Magalhães Lima. Tal como na saída, ao fim da tarde, trata-se de um momento alto para os bairristas mais fervorosos. Nessa noite é normal as pessoas deitarem-se quando já é dia – Dia de Santo António. No 13 de Junho, de manhã, sabe-se qual é a marcha vencedora; e, à tarde, vinda da Igreja que tem o seu nome, passa pelo bairro a procissão de Santo António, à qual se vão juntando andores de outras paróquias – Sé, São Miguel, Santo Estevão, São Vicente, Santa Cruz do Castelo e São Tiago – até regressar ao local de origem. Em alguns anos assistimos a tudo isto sem interrupção, fazendo uma “direta”, voltando a casa apenas na noite desse dia 13. O padroeiro oficial de Lisboa é São Vicente (o primeiro fora São Crispim), mas pouca gente sabe ou quer saber disso. O padroeiro popular, o verdadeiro, é Santo António. O Santo do Povo.
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Fontes:
Gabinete de Informações da Basílica de Santo António.
“Brother and Sister”. George Town é uma cidade fotogénica.
Provavelmente será um dos nomes mais comuns de cidades em todo o mundo. Nós próprios já estivéramos noutra Georgetown, a capital das ilhas Caimão, mas esta, em particular, apesar de igualmente situada numa ilha, é a capital da província de Penang, na Malásia, que, “em reconhecimento da preservação histórica e cultural”, passou, juntamente com Malaca, a ser considerada Património Mundial UNESCO em Julho de 2008. Estas cidades situam-se no Estreito de Malaca, uma passagem marítima estratégica, desde há muitos séculos.
“Old Motorcycle”, de Ernest Zacharevic.
Quando, em 1511, Afonso de Albuquerque conquistou Malaca, esta era o ponto mais ocidental até onde navegavam os marinheiros chineses (muitos dos quais aí se instalaram na chamada Colina Chinesa), e para onde navegavam igualmente, mas em sentido contrário, indianos, persas e árabes para comprarem sedas e porcelanas. Hoje, mais de cinco séculos depois, o Estreito de Malaca, com 800 kms de comprimento e, no ponto mais estreito, apenas 3 kms de largura, é vital para a China, pois é por lá que passam os navios oriundos do Golfo Pérsico, carregados do petróleo de que este país tanto necessita. Continua, pois, a ser uma zona nevrálgica do globo, onde muitos interesses se cruzam.
“Brother and Sister on Swing”, de Louis Gan.
Para assinalar a passagem de George Town a Património Mundial, o governo malaio decidiu promover uma competição destinada a encontrar a melhor proposta artística para as ruas da zona histórica da cidade. O vencedor foi o coletivo Sculpture at Work, que apresentou, em 2012, uma série de 52 caricaturas em ferro, intitulada Marking George Town, as quais narram, em imagens, episódios da história do burgo. Os criadores foram Tang Mun Kian, Baba Chuah, Reggie Lee e o consagrado autor de banda desenhada malaio, Julian “Lefty” Kam. Estas peças fazem parte de um roteiro que foi sendo enriquecido com obras de outros artistas, nomeadamente, do lituano Ernest Zacharevic, com o projeto Mirrors George Town.
“Kids on Bicycle”, na Lebuh Armenian, é considerado o melhor trabalho, em George Town, de Ernest Zacharevic.
Os trabalhos de Zacharevic em George Town são uma combinação de objetos com pinturas, permitindo aos visitantes interagir com as obras. Os modelos retratados, normalmente crianças, são pessoas reais da população local. Um mapa com indicação dos pontos onde se podem ver estes trabalhos está disponível em vários pontos turísticos de George Town. Foi com um exemplar na mão que percorremos toda a cidade. Nessa altura não sabíamos que Ernest Zacharevic já estivera em Lisboa, em 2015, na inauguração da sua terceira exposição individual (a primeira na Europa), The Floor is Lava, na Galeria Underdogs.
Uma das 52 caricaturas em ferro das paredes da cidade. “Para consternação dos paroquianos da Igreja Portuguesa, a rua da Igreja também abrigava a sede da sociedade secreta Ghee Hin”. Como se vê, os portugueses não foram esquecidos.
É patente em George Town um contraste harmónico entre as culturas chinesa, indiana e malaia. Existe tolerância religiosa. A população é simpática e pacífica, como simpático é o custo de vida, realmente acessível, nomeadamente no que toca à alimentação e ao alojamento. Vale seguramente a pena visitar os templos Kuan Yin (budista), Sri Mariammam (hindu) e Kapitan Keling (muçulmano), bem como o forte Cornwallis e o templo do clã chinês Khoo Kongsi, entre muitos outros locais de interesse.
“Little Boy with Pet Dinosaur”, na Ah Quee Street, ainda um trabalho de Ernest Zacharevic.
A zona histórica está concentrada junto ao porto e pode ser percorrida a pé, mas, com calor intenso, talvez seja aconselhável fazê-lo no início ou no final do dia. Outra forma interessante de circular é alugando uma bicicleta; pode também apanhar-se o Cat Bus, e fazer uma viagem grátis em torno da cidade. Quem quiser hospedar-se com estilo pode ficar no Eastern & Oriental Hotel, um palácio colonial convertido em hotel de cinco estrelas, onde se pode tomar um magnífico pequeno-almoço debruçado sobre o mar. Por tudo isto, sobretudo para os amantes da street art, vale a pena visitar George Town, uma cidade histórica, colorida e verdadeiramente fotogénica.
Cacela Velha, talvez o recanto mais charmoso do Parque.
A presença humana na Ria Formosa é muito antiga. Os romanos fundaram aqui uma importante cidade da Hispânia — Balsa — e, antes deles, já fenícios e cartagineses se haviam instalado no mesmo local. Os restos dessa cidade encontram-se debaixo de terra, na Torre d’Aires, mas há outras evidências à superfície que confirmam a posição estratégica da ria. As fortalezas dos Cavaleiros de Santiago, em Cacela, e de São João da Barra, em Cabanas, e o já muito arruinado forte de Santo António, em Tavira, foram construídos nesta zona porque os navios que contornavam a costa, oriundos do Mediterrâneo, tinham de passar por aqui.
As praias da Ria são uma boa alternativa às praias de mar aberto, sobretudo para quem tem crianças.
Para lá da posição estratégica, toda a zona do Parque Nacional da Ria Formosa foi, e é, igualmente importante do ponto de vista económico. As armações de atum, vitais para as populações do Sotavento durante os séculos XIX e XX, sobretudo para as famílias que, em comunidade, ocupavam os arraiais, foram também fonte de rendimento para trabalhadores e trabalhadoras da indústria conserveira. O cemitério de âncoras, no Barril, é um vestígio icónico desses tempos, quando os incríveis cães d’água (raça hoje reconhecida como “cão d´água português”) ainda ajudavam na faina.
Praia do Barril: bela e singular.
A extração de sal, com certeza muito antiga, manteve-se até hoje; e a flor de sal de Tavira, usada pelos mais afamados cozinheiros de todo o mundo, é de qualidade superior. Outro produto típico da Ria Formosa são as ostras, que beneficiam do movimento das marés e do sol algarvio para ganharem uma especial depuração. As mais famosas são as do Moinho dos Ilhéus, exportadas para vários países e disponíveis para degustação no restaurante Noélia e Jerónimo, em Cabanas, um dos melhores locais para comer em Portugal; e as mais populares são as dos viveiros da Fábrica, que se podem provar na Casa da Igreja, em Cacela Velha (talvez na volta da praia, como manda a tradição).
Praia da Terra Estreita.
Daí, do magnífico miradouro de Cacela Velha, podemos distinguir, entre ria e mar, uma língua de areia fina e comprida, que se estende até ao Barril — são as melhores praias da Europa! E, por todo o lado, arbustos, árvores, flores e frutos tipicamente mediterrânicos: não apenas a tríade figo, alfarroba e amêndoa, mas também citrinos, nêsperas e medronhos, entre muitos outros. Nas salinas, as aves são tão variadas que, só por elas, já vale a pena sair de casa: flamingos, mergulhões, garças, maçaricos, patos bravos, pernilongos, corvos marinhos e a raramente avistada galinha sultana (caimão), símbolo do Parque. No mar, sempre generoso, os melhores peixes e mariscos. Pura sorte, nestes tempos de confinamento, termos, a dois passos, esta ria tão singular, onde na última década cientistas da Universidade do Algarve salvaram da extinção o icónico cavalo marinho.
Ilha-barreira de Cacela. As melhores praias da Europa.
E é precisamente da ria que biólogos desta universidade, colaborando com empresários, investigam sobre produtos — como as algas — que, depois de tratados, são comercializados nas indústrias agrícola, alimentar, farmacêutica e cosmética, entre outras. A Necton, uma empresa sediada em Olhão, exporta microalgas e sal para dezenas de países, espalhados pelo mundo. A ria é, pois, fonte de riqueza, e nela trabalham milhares de pessoas.
Wittgenstein e Popper. Vienenses de origem judaica, foram contemporâneos e viveram em Inglaterra. Mas as suas visões do mundo eram radicalmente diferentes.
Quase todos os que se interessam por Filosofia já terão tido conhecimento do episódio ocorrido na sala H3 do King’s College, em Cambridge, na noite de 26 de Outubro de 1946, entre Karl Popper e Ludwig Wittgenstein. Há versões para todos os gostos sobre o que aconteceu e até a um livro já foi dado o título que também usámos neste artigo: “O Atiçador de Wittgenstein”1. Mas, mais do que o fait divers que se instalou em torno desse episódio, estamos interessados no que, do ponto de vista filosófico, separava os dois autores. Popper sempre foi muito crítico em relação à filosofia da linguagem e, logo, de Wittgenstein, o seu mais eminente representante. Também nós, sem escondermos que, em larga medida, somos influenciados por Popper, já nos debruçámos, em outro artigo deste blogue, sobre as principais obras de Wittgenstein, a saber, o Tratado Lógico Filosófico e as Investigações Filosóficas2. É indisfarçável, pois, a nossa simpatia pela posição de Popper, que não pretendemos esconder. Na autobiografia intelectual3, Popper refere-se várias vezes ao seu compatriota e, numa secção desse livro, conta o que se passou dentro da sala H3, apinhada de estudantes, professores e curiosos. Claro que se trata da versão de Popper, uma entre várias, sobre o que aconteceu, e é possível que contenha falhas, pois não é crível que alguém recorde exatamente todos os detalhes do que se passou. Porém, acreditamos que as falhas que possam ocorrer sejam devido a isso mesmo – alguma imprecisão de memória – pois não passa pela cabeça de quem tenha estudado a obra de Karl Popper, duvidar da sua honestidade intelectual. Eis, pois, o que Popper transcreve na sua autobiografia4.
No princípio do ano escolar de 1946-47 recebi um convite do Secretário do Clube de Ciências Morais, de Cambridge, para ler um artigo sobre um “quebra-cabeças filosófico”. Era perfeitamente claro que se tratava de uma formulação de Wittgenstein, e que por detrás dela estava a tese filosófica de Wittgenstein de que não existem problemas genuínos em filosofia, mas apenas quebra-cabeças linguísticos. Dado que esta tese se encontrava entre as minhas aversões de estimação, decidi falar sobe “Existem Problemas Filosóficos?”. Comecei o meu artigo (lido em 26 de Outubro de 1946, no gabinete de R.B. Braithwaite no King’s College) exprimindo a minha surpresa por ser convidado pelo Secretário para ler um artigo “abordando um quebra-cabeças filosófico qualquer”; e salientei que, ao negar implicitamente que existem problemas filosóficos, quem quer que tivesse escrito o convite tinha tomado partido, talvez sem se dar conta, numa questão criada por um genuíno problema filosófico.
Não preciso de dizer que a intenção desta afirmação era apenas uma introdução desafiadora e, de certo modo, bem disposta, ao meu tópico. Mas precisamente nesse momento, Wittgenstein deu um salto e disse alto e, ao que me pareceu, zangado: “O Secretário fez exactamente o que lhe disseram. Agiu sob as minhas instruções.” Não dei importância a isto e prossegui; mas resultou daqui que pelo menos alguns dos admiradores de Wittgenstein lhe deram importância e, como consequência, tomaram a minha observação, que tinha a intenção de ser uma piada, como uma queixa séria contra o Secretário. E o mesmo fez o pobre Secretário, como se pode ver pelas actas em que relata o incidente, acrescentando uma nota de rodapé: “Esta é a forma de convite do Clube.”
Contudo, prossegui dizendo que se pensasse que não existem problemas filosóficos genuínos, certamente que não seria filósofo; e que o facto de muita gente, ou talvez toda a gente, adoptar impensadamente posições indefensáveis para muitos, ou talvez todos, os problemas filosóficos, fornecia a única justificação possível para ser filósofo. Wittgenstein voltou a dar um salto, interrompendo-me, e dissertou longamente sobre quebra-cabeças e sobre a inexistência de problemas filosóficos. Num momento que me pareceu apropriado, interrompi-o, apresentando uma lista que tinha preparado de problemas filosóficos como estes: Conhecemos coisas por meio dos nossos sentidos? Obtemos os nossos conhecimento por indução? Estes problemas foram afastados por Wittgenstein como sendo mais lógicos do que filosóficos. Referi então o problema de saber se existem infinitos potenciais, ou mesmo reais, um problema que afastou como sendo matemático. (Esta rejeição consta das actas.) Mencionei então os problemas morais e o problema da validade das regras morais. Nesse ponto, Wittgenstein, que estava sentado perto da lareira e tinha estado a brincar nervosamente com o atiçador, que por vezes usava como a batuta de um maestro para sublinhar as suas asserções, desafiou-me: “Dê um exemplo de uma regra moral!” Retorqui: “Não ameaçar os conferencistas visitantes com atiçadores.” Ao que Wittgenstein, num acesso de raiva, largou o atiçador e saiu da sala, batendo com a porta.
Fiquei realmente muito penalizado. Admito que fui a Cambridge esperando provocar Wittgenstein a defender o ponto de vista de que não existem problemas filosóficos genuínos e com a intenção de o combater nesse ponto. Mas nunca tive a intenção de o irritar; e foi uma surpresa para mim descobri-lo incapaz de compreender um dito de espírito. Só mais tarde compreendi que era provável que ele achasse, de facto, que eu estava a brincar e que isso o tenha ofendido. Mas embora quisesse tratar o meu problema com boa disposição, eu falava a sério – talvez mais do que o próprio Wittgenstein, dado que, afinal, ele não acreditava em genuínos problemas filosóficos.
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Notas:
1 David Edmonds & John Eidinow, “Wittgenstein’s Poker: The Story of a Ten-Minute Argument Between Two Great Philosophers”, Harper Collins Publishers, 2002.
Os primeiros doze países do mundo em termos de desenvolvimento social.
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Introdução
É um facto mais ou menos conhecido: os países do Norte da Europa são os socialmente mais desenvolvidos do mundo. Mas serão os únicos, ou outros, de outras zonas do globo, terão níveis de desenvolvimento idênticos? Que sistema político e, mais importante, que políticas serão prevalecentes nestes países mais desenvolvidos? Ou, ao invés, será sobretudo uma questão cultural e não tanto política? Quais as principais diferenças entre eles e os outros – o que os distingue? Esses países são conhecidos pela proteção social que oferecem aos cidadãos, mas isso é compatível com as liberdades individuais e a liberdade económica? E quanto à igualdade, incluindo a igualdade de género? E, já agora, qual, dentro deste núcleo de países do mundo desenvolvido, se destaca ainda mais dos outros pela sua excelência?1
Este artigo é uma tentativa de resposta a estas e outras perguntas. Para isso analisámos trinta relatórios, índices e rankings, elaborados por instituições prestigiadas e credíveis, e acabámos por selecionar doze deles para elaborarmos o nosso próprioranking dos doze “países-modelo”. Depois – e esta é talvez a parte mais importante – tentámos, nas “Conclusões”, aferir porque este núcleo restrito de países se destaca, consistentemente, de todos os outros. A ideia é apontar ao farol das boas práticas, porque acreditamos que o benchmarking é mais eficaz que as ideologias. Como veremos, os países mais desenvolvidos são também os mais felizes. (E nem sequer têm o sol magnífico que brilha no Mediterrâneo!). Então deve valer a pena perceber porquê. Para alguém, como nós, que gosta de dados, mapas, tabelas, gráficos e rankings, foi também um trabalho que não deixou de ser gratificante.
Para elaboração do nosso ranking destacámos doze relatórios e índices. A saber:
Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
Índice da Desigualdade de Género (IDG).
Índice de Liberdade Económica (ILE).
Índice da Facilidade em Fazer Negócios (IFFN).
Índice da Qualidade dos Cuidados de Saúde (IQCS).
Índice de Liberdade Humana (ILH).
Coeficiente de Gini (CG).
Índice de Desempenho Ambiental (IDA).
Índice da Liberdade de Imprensa (ILI).
Índice da Democracia (ID).
Índice da Paz Global (IPG).
Relatório da Felicidade Mundial (RFM).
Debruçámo-nos depois sobre cada um deles, de forma sumária, indicando a classificação dos 30 primeiros países e também como se classificaram alguns outros, quando não se encontrem entre os 30 primeiros. Entre estes, Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo-Verde, S. Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Rússia, China, Cuba e Venezuela. Incidimos uma atenção particular sobre estes países porque alguns deles pertencem à lusofonia e outros porque são governados por ditadores, mas ainda assim atraem muitos simpatizantes, sobretudo em Portugal e no Brasil.2 Incidimos também a nossa atenção sobre todos os países que pertencem à União Europeia, por serem os que mais diretamente comparam com Portugal. Também indicámos sempre a posição do Reino Unido, apesar do Brexit, e dos Estados Unidos, neste caso para mostrarmos que o país mais poderoso do mundo pode não ser um dos socialmente mais desenvolvidos3. O último país, que fecha cada ranking, é sempre indicado. Os que quiserem analisar mais profundamente os relatórios (incluindo as metodologias usadas) poderão fazê-lo clicando nos links disponibilizados nos quadros e nas “Notas”.
A nossa metodologia é simples. Para elaborarmos o nosso próprio ranking somámos os dígitos que correspondem às posições que ocupam os países em cada um dos índices aqui abordados: é óbvio que quanto mais baixa for a pontuação de cada país, melhor será a sua posição no nosso ranking. Poderíamos dividir esse número por 12 e assim obteríamos a posição média de cada país nos rankings analisados, mas tal não se nos afigurou necessário. Também não se mostrou necessário achar a mediana, uma vez que não há a considerar resultados fora de contexto (outliers). Assim, a soma das posições de cada país pareceu-nos não só a forma mais simples como também a mais correta. Vejamos então as classificações dos diferentes países nos 12 rankings selecionados e no 13º ranking, síntese de todos os outros, o dos nossos “países-modelo”.
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Índice de Desenvolvimento Humano
O IDH começou por ser desenvolvido em 1990 por Amartya Sen e Mahbub al Haq e foi adaptado, em 1993, pelo PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Os critérios de avaliação foram modificados em 2010, passando a incluir as três seguintes áreas: expectativa de vida ao nascer; anos médios de estudo e anos esperados de escolaridade; e PIB per capita. Notoriamente, estes critérios não contemplam todas as áreas que contribuem para o “desenvolvimento humano” das populações de um país. Não contemplam questões importantes para a qualidade de vida, como as ambientais, a desigualdade, a pobreza, entre outras. Mas são indicadores. Conjugados com os de outros estudos dar-nos-ão, como dissemos acima, uma noção mais clara sobre o desenvolvimento de cada país. A pontuação vai de 0 a 1, sendo que quanto maior for a aproximação a 1, maior será o desenvolvimento humano de um país. Vejamos a classificação.
Como já deixámos claro, o Índice de Desenvolvimento Humano é demasiado básico, precisa de ser complementado com outros dados, o que é, aliás, referido no próprio relatório. No entanto é um indicador; mostra-nos, desde logo, uma tendência: os países economicamente mais ricos partem em vantagem. Mas isso, por si só, não é tudo. O Qatar, por exemplo, tem um dos PIB per Capita mais altos do mundo,4 mas está muito longe de ser um país socialmente desenvolvido. Os autores deste estudo remetem-nos, por isso, para outros relatórios, um dos quais analisaremos já de seguida. Apesar de tudo, não podemos deixar de reparar na posição de Portugal (40º) relativamente aos outros 27 estados membros da União Europeia, posicionando-se à frente, apenas, da Hungria (42º), da Croácia (46º) e da Bulgária (52º).
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Índice da Desigualdade de Género
Igualmente promovido pelas Nações Unidas (PNUD- Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), este índice tem por objetivo avaliar a desigualdade entre homens e mulheres. Sabendo-se que são as raparigas e mulheres quem mais sofre com a desigualdade, são elas o principal objeto do estudo, que utiliza os seguintes parâmetros: taxa de mortalidade materna (mortes por 100.000 nascimentos); taxa de nascimentos entre mães adolescentes (entre os 15 e os 19 anos); percentagem de assentos femininos no parlamento; diferença entre a escolaridade de homens e mulheres; e taxa de participação das mulheres no mundo laboral. A classificação que se segue começa no país onde existe maior igualdade de género e termina no país com maior desigualdade de género.
Como se pode verificar, são os países da Europa os campeões da igualdade de género, excetuando os mais a leste. Africanos, sul-americanos e asiáticos (excetuando a Coreia do Sul e o Japão) são aqueles onde a desigualdade de género (gênero, para os amigos brasileiros) é maior. A relativamente boa classificação de Portugal talvez seja desconhecida da maioria dos próprios portugueses. O Brasil, como de costume, é o último dos melhores, mas um dos menos maus dos piores. Os países menos democráticos são aqueles onde, sem surpresa, há maior desigualdade de género. Notoriamente, esta desigualdade prende-se sobretudo com questões culturais, em muitos casos com a religião, como no caso evidente do islamismo, mas não só.
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Índice de Liberdade Económica
Para este índice, criado em 1995, numa parceria entre o Wall Street Journal e a Heritage Foundation, são utilizados quatro critérios: Estado de Direito (direitos de propriedade, integridade do governo, eficiência judicial); Dimensão do Governo (gastos, carga tributária, saúde fiscal); Eficiência Regulatória (liberdade comercial, liberdade de trabalho, liberdade monetária); Mercados Abertos (liberdade de comércio exterior, liberdade de investimento, liberdade financeira). Cada um destes 12 parâmetros é classificado, com o mesmo peso, numa escala de 0 a 100, correspondendo, a média dos 12, à pontuação final obtida por cada país. Os países que obtenham uma pontuação entre 80 e 100 são considerados “livres”; os que obtenham uma pontuação entre 70 e 79.9 são considerados “sobretudo livres”; entre 60 e 69.9, “moderadamente livres”; entre 50 e 59.9, “sobretudo não-livres”; e de 0 a 49.9, “reprimidos”. A classificação do Índice de Liberdade Económica de 20205 é a seguinte.
Ressalta desta classificação, desde logo, as péssimas posições dos países latinos, excetuando o Chile (num surpreendente décimo quinto lugar). Portugal, apesar de tudo, mantém-se à frente de Espanha, França, Itália e Grécia (esta no 100º lugar e no grupo dos países “sobretudo não-livres”!), o que não deixa de ser igualmente surpreendente. O que talvez já não constitua surpresa é estarem neste grupo de países os que estão com maiores dificuldades dentro da União Europeia. A posição do Brasil (144º) no grupo dos mostly unfree (“sobretudo não-livres”), é muito má. A da Argentina (149), para referirmos outro grande país latino, é ainda pior. As ditaduras de inspiração marxista (Cuba, Venezuela e Coreia do Norte, que ocupam os três últimos lugares, e também a China, no 103º lugar) têm os piores resultados, o que prova que a falta de liberdade, em geral, e da liberdade económica, em particular, provocam, além de opressão e iniquidade, uma miséria generalizada. Singapura, um país que já visitámos e nos impressionou pelas organização, limpeza, modernidade e qualidade dos serviços, é o país mais livre economicamente, mas estranhamente, como veremos abaixo, deita tudo a perder quando o que está em causa é a liberdade de imprensa, a democracia e a igualdade de género. Lamentamos estas oscilações e contrastes de Singapura, um país que, se “limasse algumas arestas”, poderia bater-se com os melhores do mundo.
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Índice da Facilidade em Fazer Negócios
Trata-se de um relatório de 135 páginas, publicado pelo Banco Mundial em 2020, e onde se compara a regulamentação de 190 países no que respeita à facilidade de fazer negócios, durante o biénio 2018-2019. Os indicadores avaliados foram “começar um negócio”, “empregar trabalhadores” (“Abertura do Negócio”); “lidar com licenças de construção”, obter eletricidade” e “registar a propriedade” (“Obter uma Localização”); “obtenção de crédito” e “proteção dos pequenos investidores” (“Acesso ao Investimento”); “pagamento de impostos” e “comércio entre fronteiras” (“Lidar com as Operações do Dia-a-Dia”); “fazer cumprir contratos” e “resolução das insolvências” (“Operando num Ambiente de Negócios Seguro”).
Este ranking mostra que, na realidade, não há incompatibilidade entre desenvolvimento social e capitalismo. Ideologias à parte, parece até que uma coisa está intimamente ligada à outra. De facto, os países socialmente mais desenvolvidos – entre eles Nova Zelândia, Dinamarca, Noruega e Suécia – estão entre os dez países do mundo mais facilitadores de negócios. De notar também os bons resultados de Taiwan, Malásia, Coreia do Sul, Hong Kong e Singapura, sociedades da mesma zona geográfica e altamente desenvolvidas do ponto de vista económico, mas ameaçadas (sobretudo Hong Kong e Taiwan) pelas ambições hegemónicas da China. Talvez a única surpresa, pelo menos para nós, seja a presença, entre os 20 primeiros do ranking, da Macedónia do Norte. Finalmente, talvez os governantes portugueses devessem olhar para este relatório se quisessem perceber porque em poucos anos Portugal foi ultrapassado em termos de PIB per capita por alguns países ainda não mencionados entre os 20 mais facilitadores de negócios, como sejam a Lituânia, a Estónia e a Letónia. Mas muito pior que Portugal, num lugar verdadeiramente lastimável, está o Brasil
Este estudo, financiado pela Fundação Bill & Mellissa Gates, abrange os anos entre 1990 e 2016, e foi publicado pela revista Lancet em Junho de 2018. Foi avaliada a qualidade e o acesso a cuidados de saúde (HAQ Index: Healthcare Access and Quality Index) de 195 países, tendo em conta várias patologias de todos os tipos. O objetivo deste estudo foi o de avaliar quais os países que mais melhoraram na prestação de cuidados de saúde aos cidadãos e aqueles que regrediram, tendo em vista orientar decisões estratégicas para melhorias futuras. A pontuação vai de 0 a 100 e o score final de cada país é arredondado: por exemplo a Islândia está no primeiro lugar porque obteve a pontuação de 97.1 e a Noruega no segundo porque obteve 96.6; no entanto ambas aparecem no ranking final com a média arredondada de 97, sem décimas. Passemos à classificação HAQ Index (respeitada por nós), que foi a seguinte.
É notório o destaque dos países europeus quando se fala de bons sistemas de saúde. Nos 20 primeiros lugares há apenas quatro países que não são europeus: Austrália, Japão, Canadá e Nova Zelândia. Em oposição, nos últimos 20 lugares, apenas o Afeganistão e o Kiribati não são africanos. Portugal consegue uma posição aceitável (32ª), embora não particularmente satisfatória, à frente de seis países da União Europeia, mas atrás de vinte, ou seja, bastante abaixo da média da UE. O Brasil alcança uma má posição e todos os restantes países lusófonos posições ainda piores. Os autores do estudo esclarecem que as discrepâncias entre as ofertas de serviços de saúde não se encontram só entre países, mas igualmente no seu seio. Os casos mais evidentes, com enormes discrepâncias, são os da China e da Índia. Destaque para a posição de Andorra — para nós uma surpresa — no décimo lugar.
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Índice de Liberdade Humana
Estudo publicado e desenvolvido por três instituições: Cato Institute (Estados Unidos), Fraser Institute (Canadá) e Friedrich Naumann Foundation for Freedom (Alemanha). Este índice é publicado de cinco em cinco anos e utiliza 76 indicadores sobre liberdade pessoal e liberdade económica nas seguintes áreas: estado de direito; segurança e proteção; circulação; religião; associação; reunião e sociedade civil; expressão e informação; identidade e relacionamento; tamanho do governo; sistema legal e direitos de propriedade; acesso a crédito; liberdade de comércio internacional; e regulação sobre crédito, trabalho e negócios. Segue a classificação de 2019.
Sempre soubemos que a Nova Zelândia é um dos melhores países do mundo, uma democracia consolidada, bastante afastado geograficamente dos centros de conflito mundiais, um país pacífico, e, além de tudo isso, um território de grande beleza, com zonas quase intocadas. Não causa por isso surpresa a sua classificação como país mais livre do mundo, algo de que os neozelandeses se devem orgulhar. Dos países nórdicos, habituados aos primeiros lugares, quem se destaca é a Dinamarca, no 6º lugar, seguida da Finlândia (8º) e Suécia (11º). Noruega (17º) e Islândia (18º) também estão nos vinte primeiros lugares. Não há grandes surpresas neste ranking, portanto, mas há algo que salta à vista e que queremos realçar — a classificação de Hong Kong. Ao olharmos para a distância que separa o 3º lugar de Hong Kong e o 126º da China não podemos deixar de pensar nos cidadãos daquele território e na sua luta, precisamente pela liberdade, contra a perda de autonomia relativamente à China. É revoltante pensar nesse povo ameaçado por um gigante imensamente maior, sem que ninguém lhe queira valer. Portugal tem uma classificação mediana. Brasil fica abaixo de Cabo Verde e Timor-Leste e obtém uma classificação muito má.
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Coeficiente de Gini
Desenvolvido pelo estatístico italiano Corrado Gini, em 1912, mede a diferença de rendimentos dentro de um país. O coeficiente 0 corresponde a uma igualdade perfeita (quando todos os indivíduos têm igual rendimento) e 1 a uma desigualdade perfeita (quando todo o rendimento está concentrado num único indivíduo). Assim, quanto maior for o coeficiente mais desigual é o país. Vários problemas se deparam às entidades que querem medir a desigualdade dos diversos países. O próprio Banco Mundial nos adverte, no seu relatório, que “a definição de rendimento utilizada difere com frequência nas pesquisas” e que, por outro lado, “as famílias diferem muito em dimensão, idade e necessidades de consumo”. Não é possível, pois, um apuramento 100% rigoroso do nível de desigualdade dos países (trata-se, de facto, de uma estimativa), nem mantê-lo atualizado, pois os estudos, em todos os países, não são feitos todos os anos. Cientes destas (entre outras) limitações, vejamos quais os países mais igualitários em termos de distribuição de rendimentos, de acordo com os dados publicados pelo Banco Mundial em 2020.
Rank
País
Score
Rank
País
Score
1
Eslovénia
24.6
11
Argélia
27.6
2
Eslováquia
25.0
11
Noruega
27.6
3
Bielorrússia
25.3
13
Cazaquistão
27.8
4
Moldávia
25.7
14
Países Baixos
28.1
5
Emirados A. Unidos
26.0
15
Dinamarca
28.2
6
Islândia
26.1
16
Timor-Leste
28.7
7
Azerbaijão
26.2
16
Malta
28.7
8
Ucrânia
26.6
18
Kosovo
29.0
9
Bélgica
27.2
19
Iraque
29.5
10
Finlândia
27.3
20
Hungria
29.6
21- Croácia (29.7); 24- Suécia (30.0); 25- Polónia (30.2); 26- Estónia (30.3); 28- Áustria (30.8); 29- República Checa (31.0); 30- Irlanda (31.4); 30- Coreia do Sul (31.4); 35- Alemanha (31.9); 37- França (32.4); 40- Chipre (32.7); 44- Grécia (32.9); 44- Japão (32.9); 49- Suíça (33.1); 51- Canadá (33.3); 52- Portugal (33.5); 59- Austrália (34.4); 60- Espanha (34.7); 63- Reino Unido (35.1); 63- Letónia (35.1); 69- Luxemburgo (35.4); 70- Lituânia (35.7); 74- Roménia (35.8); 75- Itália (35.9); 78- Nova Zelândia (36.2); 87- Rússia (37.5); 92- China (38.5); 98- Israel (39.0); 110- Bulgária (41.3); 111- Estados Unidos (41.4); 132- Venezuela (44.8); 141- Guiné-Bissau (50.7); 143- Angola (51.3); 147- Brasil (53.4); 148- Moçambique; 150- São Tomé e Príncipe (56.3); 154- África do Sul (63.0). Fonte:https://data.worldbank.org/indicator/SI.POV.GINI
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O coeficiente de Gini não é apenas difícil de avaliar com rigor, é também um pouco controverso, uma vez que mede apenas a concentração de rendimento, o que só por si é curto para medir o nível de desenvolvimento social de um país, como, aliás, o ranking mostra (a Moldávia não é socialmente mais desenvolvida que o Canadá; ou a Ucrânia mais desenvolvida que a Nova Zelândia, apesar de terem um menor coeficiente de Gini). No entanto, um baixo coeficiente de Gini (uma menor desigualdade de rendimento) tem, sem dúvida, efeitos positivos, desde logo, uma maior coesão social. Como veremos mais à frente, isto é importante. Mais uma vez, trata-se de um indicador que tem de ser conjugado com outros. De qualquer forma, duas coisas são claras. 1- Dentro do grupo dos países mais ricos, os mais igualitários, distribuídos entre os primeiros dezoito lugares, são, mais uma vez, os países nórdicos (Suécia, Noruega, Finlândia, Islândia e Dinamarca), desta vez acompanhados pelos países de Leste (a Alemanha também se sai bem); 2- Os estados cujos regimes fazem da igualdade a sua bandeira encontram-se na metade mais desigual do mundo: A Venezuela na posição 77 e a China na 119. Não há informação sobre Cuba ou a Coreia do Norte. Realce ainda para São Tomé e Príncipe, num surpreendente 29º lugar, e para o Brasil, na 128ª e péssima posição, um dos vinte países mais desiguais do mundo, no que diz respeito à distribuição do rendimento. De acordo com o relatório da World PopulationReview, os Estados Unidos têm um coeficiente de Gini de 0.485, o maior dos últimos 50 anos. Em 2015, 1% da população americana com maiores rendimentos recebeu em média 40 vezes mais que os 90% com rendimentos menores. Como em outros países com coeficientes de Gini muito elevados, a pobreza é um problema crescente. Nos Estados Unidos, cerca de 30 milhões de trabalhadores ganham menos de 10 dólares/hora, o que coloca uma família de quatro pessoas, nessas condições, abaixo do limiar de pobreza.
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Índice de Desempenho Ambiental
Este estudo foi conduzido pela Universidade de Yale, em parceria com a Universidade de Columbia, e contou com o trabalho de inúmeros colaboradores em todo o mundo. O respetivo relatório fornece um quadro detalhado sobre a sustentabilidade nos diversos países e regiões ao nível global. O EPI (Environmental Performance Index) classifica 180 países sobre saúde ambiental e vitalidade do ecossistema, usando 32 indicadores de desempenho para avaliar a posição de cada um dos 180 países em 11 categorias (Qualidade do Ar; Saneamento e Água Potável; Metais Pesados; Gestão de Resíduos; Biodiversidade e Habitat; Serviços de Ecossistema; Pescas; Alterações Climáticas; Poluição; Agricultura; Recursos de Água). Os dados em que se baseiam as pontuações referem-se aos anos de 2017 e 2018. Assim, este relatório não reflete ainda acontecimentos recentes, como a queda dos índices de poluição do ar, devido à pandemia de Covid-19, ou o aumento das emissões de gases com efeito de estufa, derivado dos grandes incêndios na floresta amazónica em 2019.
Rank
País
Score
Rank
País
Score
1
Dinamarca
82.5
11
Países Baixos
75.3
2
Luxemburgo
82.3
12
Japão
75.1
3
Suíça
81.5
13
Austrália
74.9
4
Reino Unido
81.3
14
Espanha
74.3
5
França
80.0
15
Bélgica
73.3
6
Áustria
79.6
16
Irlanda
72.8
7
Finlândia
78.9
17
Islândia
72.3
8
Suécia
78.7
18
Eslovénia
72.0
9
Noruega
77.7
19
Nova Zelândia
71.3
10
Alemanha
77.2
20
Canadá, Itália, República Checa
71.0
23- Malta (70.7); 24- Estados Unidos (69.3); 25- Grécia (69.1); 26- Eslováquia (68.3); 27- Portugal (67.0); 28- Coreia do Sul (66.5); 29- Israel (65.8); 30- Estónia (65.3); 31- Chipre (64.8); 32- Roménia (64.7); 33- Hungria (63.7); 34- Croácia (63.1); 35- Lituânia (62.9); 36- Letónia (61.9); 37- Polónia (60.9); 39- Singapura (58.1); 41- Bulgária (57.0); 55- Brasil (51.2); 58- Rússia (50.5); 59- Venezuela (50.3); 64- Cuba (48.4); 119- S. Tomé e Príncipe (37.6); 120- China (37.3); 129- Timor-Leste (35.3); 136- Moçambique (33.9); 144- Cabo Verde (32.8); 158- Angola (29.7); 161- Guiné-Bissau (29.1); 180- Libéria (22.6). Fonte: https://epi.yale.edu/downloads/epi2020report20210112.pdf.
Os relatores deste estudo ressaltam três conclusões principais. A primeira é que os bons resultados dos países cimeiros estão diretamente relacionados com a riqueza (económica) desses países e os maus resultados dos países mais atrasados estão diretamente relacionados com a pobreza desses países. A segunda é que os países bem governados, comprometidos com o Estado de Direito, com uma imprensa livre e dinâmica, e com controlo sobre a violência e a corrupção, são os que têm melhor pontuação no Índice de Desempenho Ambiental. A terceira é que estes são os países que levam a cabo políticas de longo prazo, com programas para proteger a saúde pública, preservar os recursos naturais e diminuir as emissões de gases com efeito de estufa, logo, como seria expectável, são os primeiros no ranking do Environmental Performance Index .
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Índice Mundial de Liberdade de Imprensa
O Índice Mundial de Liberdade de Imprensa é publicado anualmente, desde 2002, pelos Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Tem por base um inquérito feito a jornalistas de todo o mundo e relatórios sobre a violência exercida contra os profissionais dos diversos órgãos de comunicação social. Os parâmetros são os seguintes: pluralismo; independência mediática; ambiente e autocensura; enquadramento legal; transparência; infraestrutura; abusos. A pontuação final é definida numa escala de 0 a 100, onde 0 representa a melhor pontuação possível e 100 a pior. A situação de cada país pode ser classificada como “boa”, “satisfatória”, “problemática”, “difícil” ou “muito grave”. O ranking que se segue é referente a 2019 e foi publicado em 2020.
Mais uma vez os países nórdicos nos lugares cimeiros. Os três estados que no mapa ficam lado-a-lado, também se juntam no pódio dos países onde a imprensa é mais livre: Noruega, Finlândia, Suécia. Interessante a posição da Jamaica, em 8º lugar (em 2018 era o 6º!), e da Costa Rica, no 10º, o país com a classificação mais alta em toda a América Latina. Boa classificação de Portugal, “apesar da crescente precariedade e falta de recursos”. Muito preocupante a situação na União Europeia, sobretudo a Leste, com países com problemas graves ou gravíssimos, entre os quais, Roménia, Polónia, Croácia, Hungria e Bulgária, a quem se juntam Grécia e Malta. Mas, surpreendentemente, também Espanha, Lituânia, França, Reino Unido, Eslovénia, Eslováquia, República Checa e Itália têm problemas. Uma situação assaz grave quanto à liberdade de imprensa dentro da União Europeia. De referir ainda a posição dos Estados Unidos, supostos paladinos da liberdade, num modesto 48º lugar (desceu 3 lugares), em grande parte devido à perseguição que Trump e a sua administração fazem aos jornalistas. Quanto ao Brasil, as “ameaças, ataques, assassinatos” fazem deste país “um dos mais violentos da América Latina para a prática do jornalismo”. Singapura, que noutros rankings ocupa lugares cimeiros, neste ocupa uma vergonhosa 151ª posição. Apesar de tantos problemas, um pouco por todo o mundo, as ditaduras são, como de costume, ainda piores: os governantes dos regimes de Venezuela, Rússia, Cuba, Vietname, China, Coreia do Norte e Turquemenistão6odeiam a liberdade. Em relação ao ano de 2018, o país que mais subiu no ranking foi a Etiópia (40 posições) e o que mais desceu foi a República Centro-Africana (33 posições).
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Índice da Democracia
Começou a ser publicado pela Economist em 2006. Os países são classificados como Full Democracies (Democracias Plenas); Flawed Democracies (Democracias Imperfeitas); Hybrid Regimes (Regimes Híbridos); ou Authoritarian Regimes (Regimes Autoritários). Estes últimos não são considerados democracias, mas sim ditaduras. A pontuação atribuída vai de 0 a 10, em cada um dos seguintes cinco parâmetros: Processo Eleitoral e Pluralismo; Funcionamento do Governo; Participação Política; Cultura Política; e Liberdades Civis. Com a média resultante destas pontuações obtém-se a pontuação final que conta para atribuir as diferentes posições no Índice da Democracia. Vejamos o ranking.
O Índice de Democracia 2019 (publicado em 2020) obteve os resultados globais mais baixos desde 2006. Relativamente ao ano anterior (2018), a Tailândia registou a maior subida (está agora na posição 68) e a China a maior queda (desceu 23 lugares): embora já fosse um regime autoritário, tornou-se ainda pior. Três países — França, Chile e Portugal — passaram de “democracias imperfeitas” a “democracias plenas”. A Noruega obteve a pontuação máxima (10,00) em três das cinco categorias e atingiu a média de 9,87, destacando-se no primeiro lugar. A pontuação mais baixa de Portugal foi na “participação política” (6,11), mas na média dos cinco parâmetros subiu para 8,03. Destaque para Cabo Verde, o trigésimo país mais democrático do mundo. O Brasil ficou melhor classificado do que noutros rankings e poderia ainda subir uns lugares, não fosse a sua pontuação na “cultura política” (5,00) e no “funcionamento do governo” (5,36). A China, como já vimos, provou em 2019 ser uma ditadura das piores, abaixo de Angola, Moçambique, Rússia, Venezuela, Cuba, Guiné-Bissau e muitos outros “regimes autoritários”.
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Índice de Paz Global
O relatório sobre o Índice de Paz Global-2019 é o décimo terceiro publicado pelo Institute for Economics and Peace, com sede em Sydney, na Austrália, e escritórios em Nova Iorque, Haia, Cidade do México e Bruxelas. Este índice cobre 99,7% da população mundial, 163 estados e territórios independentes, e utiliza 23 indicadores qualitativos e quantitativos (com pesos diferentes), de fontes altamente respeitáveis, de acordo com três critérios de base: nível de segurança e proteção da sociedade; extensão dos conflitos domésticos e internacionais em curso; e grau de militarização.
Destaque para a posição honrosa de Portugal, apesar da sua integração na NATO. É mesmo o primeiro país da União Europeia, atrás apenas da Islândia e da Nova Zelândia. Depois, nada de surpreendente, a não ser, talvez, o aparecimento do Butão entre os vinte primeiros, no 15º lugar. O Brasil fica de novo muito mal classificado (116º lugar) atrás de outros países lusófonos e, inclusive, de algumas ditaduras. Péssima posição dos Estados Unidos. Estranhamente, o Luxemburgo não faz parte do ranking, não sabemos porquê.
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Relatório da Felicidade Mundial
O Relatório da Felicidade Mundial-2019 é o sétimo publicado, desde 2012, e foi elaborado por um grupo de especialistas independentes de vários países. O relatório tem sete capítulos: Felicidade e Comunidade: uma Visão Geral; Mudando a Felicidade Mundial; Felicidade e Comportamento Eleitoral; Felicidade e Comportamento Pró Social: uma Avaliação da Evidência; O Triste Estado da Felicidade nos Estados Unidos e o Papel dos Meios Digitais; Big Data e Bem-Estar; e Dependência e Infelicidade na América. Este ano o relatório foca-se sobretudo no ambiente: natural, social e urbano. Vejamos as pontuações.
Oito dos dez países mais felizes do mundo são da Europa Central e do Norte. Por outro lado, este é o único ranking em que o Brasil fica à frente de Portugal, e com grande vantagem. Alguns países que vínhamos monitorizando não fazem parte deste ranking: São Tomé e Príncipe, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Cuba. Dos países da União Europeia, há três com uma classificação ainda pior que a portuguesa — Croácia, Grécia e Bulgária. O que torna a população de alguns países mais felizes que outras? De acordo com o relatório, a felicidade nórdica reside em fatores relacionados com a qualidade das instituições — benefícios sociais alargados e confiáveis, baixo nível de corrupção, bom funcionamento da democracia e das instituições estatais — com um elevado sentimento de autonomia e liberdade, e um alto nível de confiança nos outros (incluindo imigrantes) cidadãos do país.7 Estes fatores interagem entre si e têm um efeito positivo uns sobre os outros.8
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Ranking dos “Países-Modelo”
Rank
País
IDH
IDG
ILE
IFFN
IQCS
ILH
CG
IDA
ILI
ID
IPG
RFM
Totais
1
Dinamarca
11
2
8
3
16
6
15
1
5
7
5
2
81
2
Noruega
1
5
28
9
1
17
11
9
1
1
20
3
106
3
Finlândia
12
7
20
20
3
8
10
7
2
5
14
1
109
4
Islândia
6
9
11
26
1
18
6
17
14
2
1
4
115
5
Suécia
8
2
21
10
8
11
24
8
3
3
18
7
123
6
Suíça
2
1
5
36
3
2
49
3
6
10
11
6
134
7
Países Baixos
10
4
14
42
3
11
14
11
4
11
17
5
146
8
Irlanda
3
22
6
23
8
10
30
16
15
6
12
16
167
9
Austrália
6
25
4
14
3
5
59
13
21
9
13
11
183
10
Nova Zelândia
14
34
3
1
16
1
78
19
7
4
2
8
187
11
Canadá
13
18
9
23
12
4
51
20
18
7
6
9
190
12
Áustria
20
14
29
27
12
13
28
6
16
16
4
10
195
13
Alemanha
4
19
27
22
16
8
35
10
13
13
22
17
206
14
Bélgica
17
6
48
46
15
23
9
15
9
33
18
18
257
15
Reino Unido
15
27
7
8
23
14
63
4
33
14
45
15
268
16
Luxemburgo
21
16
19
72
3
6
69
2
17
12
23*
14
274
17
Estónia
30
21
10
18
31
15
26
30
11
27
37
55
311
18
Eslovénia
24
12
52
37
21
35
1
18
34
36
8
44
322
19
República Checa
26
35
23
41
28
21
29
20
40
32
10
20
325
20
Coreia do Sul
22
10
25
5
23
27
30
28
39
23
49
69
350
21
Japão
19
23
30
29
12
25
44
12
67
24
9
58
352
22
Espanha
25
15
58
30
16
29
60
14
29
16
32
30
354
23
França
26
8
64
32
16
33
37
5
32
20
60
24
357
24
Portugal
40
17
56
37
31
26
52
27
12
22
3
66
389
25
Lituânia
34
33
16
11
45
22
70
35
30
36
38
42
412
Quadro onde se mostra as pontuações obtidas pelos primeiros 25 países do nosso ranking em cada um dos doze relatórios selecionados.
O relatório do ranking anterior, sobre os países mais felizes, já nos deu algumas indicações quanto aos motivos porque certos países são, de facto, mais desenvolvidos que outros. Não, evidentemente, porque seus territórios ou habitantes sejam melhores, mas porque o seu grau de desenvolvimento atingiu um estádio mais racional. Gostaríamos de salientar algo que pode parecer pueril, mas que é importante: todos esses países são democráticos.9 E isto não é pueril pelo seguinte. Mais de metade dos países do mundo são ditaduras, e é sempre melhor um país democrático, seja ele qual for, do que uma ditadura. Os Estados Unidos, por exemplo, têm bastantes problemas e a sua democracia está longe de atingir, por razões que não vamos discutir agora, o desenvolvimento dos estados membros dos nossos dos países-modelo. O mesmo poderíamos dizer de Israel. Mas mesmo assim são democracias e, portanto, melhores que qualquer ditadura. Esta é a regra de ouro: a democracia, o estado de direito, a separação de poderes são a base da nossa civilização. Tudo o que viole a regra de ouro atrapalha o desenvolvimento social. Vamos então ao nosso ranking, mas antes temos de referir o seguinte.
O Luxemburgo não faz parte do Relatório sobre a Paz Mundial, por isso a pontuação que lhe atribuímos corresponde à média que este país obteve nos restantes 11 relatórios (23 pontos). Isto poderá ser injusto para o Luxemburgo que certamente — como país pacífico que é — obteria uma excelente classificação no ranking da Paz Mundial e, muito provavelmente, ficaria à frente de Bélgica e Reino Unido no nosso ranking, na 14ª posição. Mas a alternativa seria não incluir o Luxemburgo no nosso ranking (ou não incluir o Índice da Paz Global), o que não nos pareceu a melhor opção. Por outro lado, Taiwan e Hong Kong, considerados como territórios autónomos nalguns relatórios, não constam de outros, certamente por influência da China, por isso, não podem, também, figurar do nosso ranking, apesar das excelentes classificações em alguns relatórios. Cumpre ainda esclarecer que estados muito pequenos, como San Marino, Ilhas Faroé, Andorra, Liechtenstein e mesmo Malta, entre outros, também não são avaliados em todos os relatórios, pelo que também não podem ser contemplados no nosso ranking dos países-modelo.
Rank
País
Score
Rank
País
Score
1
Dinamarca
8.1
7
Países Baixos
14.6
2
Noruega
10.6
8
Irlanda
16.7
3
Finlândia
10.9
9
Austrália
18.3
4
Islândia
11.5
10
Nova Zelândia
18.7
5
Suécia
12.3
11
Canadá
19.0
6
Suíça
13.4
12
Áustria
19.5
Os “países-modelo”.
Conclusões
O que este ranking mostra é, desde logo, a consistência dos “países-modelo”, com relevância para os do Norte da Europa, excelentíssimos nas diferentes áreas. É essa consistência que faz a diferença – uma grande diferença! Se repararmos bem, a Bélgica, no 14º lugar, tem o triplo da pontuação da Dinamarca. Daí, ter-nos parecido interessante não alargar muito o número de “países-modelo”. Se são “modelos”, não deve haver demasiadas discrepâncias entre eles. As diferenças de pontuação, porém, correspondem a diferenças efetivas, nunca é de mais realçar isto. Não há países melhores ou piores, mas há, de facto, países atrasados — alguns muitíssimo — em relação a estes que consideramos os “países-modelo”.
Quanto a Portugal e Brasil, há que realçar a boa pontuação de Portugal (36.2) a que corresponde, de acordo com a metodologia que usámos, a 24ª posição no nosso ranking. Portugal beneficiou muito da sua classificação nos relatórios que abordam questões relacionadas com liberdades, direitos e garantias, provando ser uma democracia plenamente consolidada. Pelo contrário, obteve classificações medíocres no que toca a questões económicas (a sua grande pecha)10 e, além de ser, economicamente, um estado pobre e endividado, é também muito desigual e tem um sistema de justiça demasiado ineficiente (ver ponto 7). Isto é um forte desincentivo ao investimento, num país que tem tudo para ser atrativo se fizer as reformas adequadas: bom clima, boa gastronomia, hospitalidade e segurança. Para os mais desatentos, é bom realçar que não é despicienda a questão da segurança nem a classificação que Portugal obtém como terceiro país menos violento do mundo. De facto, são tremendos os custos da violência. Desde logo, custos em vidas humanas perdidas, outras destroçadas e todas, de uma forma ou de outra, afetadas pela violência. Mas também custos económicos: o custo da violência no Brasil, por exemplo, equivale a 10% do seu PIB, e não há tendência para que diminua, antes pelo contrário11. O resultado geral das classificações do Brasil, refletido no nosso ranking, é desastroso (109.3), o triplo da pontuação de Portugal, sendo que esta é, por sua vez, o triplo da pontuação média dos doze países-modelo. Assim, o Brasil dista de Portugal tanto quanto este dista dos “países-modelo”. A situação geral brasileira é tão problemática, que se torna difícil dizer por onde começar. Talvez ajude transcrever o que o britânico Paul Collier, especialista em Economia do Desenvolvimento, considera básico para o estabelecimento do Estado de Direito: a) redução da violência; b) proteção dos direitos de propriedade; c) controlos institucionais sobre o governo; d) combate à corrupção no setor público. Voltando a Portugal, seria bom que os nossos governantes olhassem para as reformas e os grandes progressos realizados pela Estónia nas áreas das fiscalidade, economia, educação, competitividade digital e justiça, que guindaram, em poucos anos, este país à décima-sexta posição mundial entre os países socialmente mais desenvolvidos.
Estas recomendações são válidas também para todos os estados lusófonos, entre um lote porventura demasiado elevado de países com problemas tremendos. Não adianta construir a casa pelo telhado, há etapas a cumprir, etapas há muito “queimadas” pelos países mais avançados. Embora não haja povos piores ou melhores, há claramente povos mais ou menos atrasados em relação aos que atingiram estádios sociais mais elevados. É por isso que são os países mais desenvolvidos são também os que estão mais preparados para inovações e melhorias sociais, algumas sobre as quais já muitos falam — como a semana de 15 horas de trabalho ou o rendimento básico incondicional — e outras que ninguém consegue ainda antever. E é por isso, ainda, que vale a pena segui-los como modelos, em vez de se seguirem ideologias duvidosas. O peso das ideologias, aliás, é muito menor nos países socialmente desenvolvidos, relativamente aos mais atrasados. Há um retalho ideológico onde políticos moderados convivem pacificamente e não uma polarização onde políticos extremistas se digladiam mutuamente.
Vejamos então com mais detalhe o que faz com que estes países conquistem por direito próprio o estatuto de, na nossa terminologia, “país-modelo”.
1- Confiança nas instituições, inclusão e igualdade
A confiança advém, em larga medida, de um baixo nível de corrupção. Um relatório da Transparency International e o seu respetivo Índice de Perceção da Corrupção — 2019, ainda não abordado neste artigo,12 confirma que os nossos “países-modelo” são os menos corruptos. Os vinte países menos corruptos são, de acordo com esse relatório: Dinamarca, Nova Zelândia, Finlândia, Singapura, Suécia, Suíça, Noruega, Países Baixos, Alemanha, Luxemburgo, Islândia, Austrália, Áustria, Canadá, Reino Unido, Hong Kong, Bélgica, Estónia, Irlanda e Japão. Podemos verificar que os 12 “países-modelo” estão todos incluídos nestes vinte. Já os países com as piores classificações no nosso ranking são, como seria de esperar, os mais corruptos.13 O reduzido nível de corrupção tem um efeito positivo sobre os cidadãos: há um incentivo para cumprir com as obrigações fiscais porque se sabe que o dinheiro arrecadado vai ser bem aplicado. Por outro lado, essa confiança nas instituições, ou seja, no país, tende a generalizar-se: os indivíduos passam a confiar mais uns nos outros, a aceitar-se nas suas diferenças, e a sociedade torna-se cada vez mais inclusiva e coesa. Tudo isto é um incentivo à participação. E a participação reflete-se, claro, na qualidade da democracia.14
Há inúmeros estudos e pesquisas que comprovam a importância da inclusão e da coesão sociais, fazendo uma ligação direta entre laços sociais e bem-estar: o sentimento de comunhão com os outros dá sentido e propósito às vidas de todos nós, reduz o stress, aumenta a longevidade e reforça o sistema imunitário. Por outro lado, os fortes laços sociais que se estabelecem nas sociedades mais desenvolvidas só são possíveis porque estas são relativamente igualitárias, como vimos pelo índice do coeficiente de Gini. Vários estudos comprovam que a desigualdade é causadora de graves problemas sociais, como depressão, esgotamento, toxicodependência, obesidade, altos níveis de abandono escolar, infâncias infelizes e baixa participação cívica.15 É por isso que o primeiro país do nosso ranking — a Dinamarca — combina, de forma exemplar, igualdade, prosperidade e felicidade. Os dinamarqueses podem assim dar-se ao luxo de serem dos povos mais descontraídos e tranquilos do mundo, de fruírem do lado bom da vida, um privilégio que na Dinamarca tem um termo próprio: hygge.16
2- Estado Social
Mas esse ambiente descontraído só é possível porque os cidadãos sabem que a sociedade em que vivem é uma sociedade altamente protegida. Falamos, evidentemente, dos benefícios sociais do Estado – aquilo que os ingleses designam por welfare state. Pensões de reforma, subsídios de desemprego e de doença, serviços de educação e saúde (incluindo saúde mental), lares de idosos, prisões e até transportes públicos de qualidade. E, ao contrário do que por vezes se pensa, embora estes benefícios ou serviços sejam garantidos pelo Estado, não quer dizer que sejam sempre prestados pelo Estado, muito pelo contrário. Nos países mais avançados (excetuando, talvez, a Finlândia e o seu sistema educativo exclusivamente público) há uma cooperação virtuosa entre os setores privado e público.17 Este estado social de grande qualidade implica necessariamente um financiamento e gestão eficazes e, como já vimos, um baixo nível de corrupção; mas implica também pragmatismo político, em detrimento da extrema polarização ideológica própria dos países mais atrasados. Os cidadãos dos países nórdicos, socialmente mais desenvolvidos, sabem que os seus filhos terão acesso universal à educação, que serão bem tratados se estiverem doentes e que não necessitam de se preocupar com a velhice porque terão a assistência apropriada. Ninguém fica para trás nestas sociedades, nem sequer os que não têm voz, como os presos18, os doentes psiquiátricos ou os idosos com problemas de saúde graves, em final de vida.
Cela da prisão de alta segurança de Halden, Noruega. Os presos cozinham as próprias refeições, fazem desporto, recebem formação, têm aulas de música e um estúdio de gravação ao dispor. Os guardas não estão armados e participam nas atividades de equipa, ajudando a criar um sentimento de comunidade e a preparar o recluso para a integração na sociedade. (Foto: STR News/Reuters).
3- Competitividade Fiscal
Apesar do encargo social, e embora os impostos sobre o rendimento das famílias sejam relativamente elevados em alguns dos nossos “países-modelo” e sobretudo nos países nórdicos, a carga fiscal não é excessivamente alta, pois a composição dos impostos é construída de forma inteligente e simples, de maneira a não dificultar a atividade económica nem a criatividade das empresas. De acordo com a OCDE, os impostos sobre as empresas são os que mais dificultam o crescimento económico de um país, enquanto os impostos sobre as pessoas individuais e sobre o consumo são menos prejudiciais ao crescimento económico, sendo que os impostos sobre os bens imobiliários têm ainda menos impacto sobre esse crescimento. Como seria de esperar, entre os países desenvolvidos, os 12 “países-modelo” estão entre os mais competitivos no que diz respeito à tributação.19 Este não é o caso de Portugal, onde os impostos sobre as empresas são dos mais altos entre os países desenvolvidos (o nosso IRC, com sobretaxas, é o segundo mais elevado da Europa), fazendo com que muitas empresas não queiram investir no nosso país.20 A Estónia é, desde há sete anos consecutivos, o país mais competitivo da União Europeia em termos fiscais. Partindo de um ponto muito atrás, aquando da sua adesão à União Europeia em 2004, a Estónia é hoje um país mais desenvolvido, economicamente mais robusto e mais igualitário que Portugal. Os países avançados sabem que sem uma economia saudável torna-se muito difícil cobrar impostos. Por isso elaboram códigos tributários bem estruturados, cujas normas os contribuintes têm facilidade em cumprir, códigos que promovem o crescimento económico e asseguram, assim, as receitas que os governos necessitam para as suas prioridades políticas.
Critérios tributários que não atrapalhem a economia são, portanto, fundamentais. E é isso que acontece nos nossos “países-modelo”, que estão entre as mais pujantes do mundo, de acordo com o Relatório da Competitividade Global 2017-2018, do Fórum Económico Mundial,21 pois não seria possível garantir os excelentes benefícios sociais já referidos se não houvesse dinheiro para os sustentar. O nível da riqueza produzida nos nossos “países-modelo”, facilitada pela liberdade económica, é dos mais altos do mundo (ver nota 3), o que se reflete no PIB per capita. Uma economia pujante é uma economia onde existe capital para investir, incluindo pessoas qualificadas (capital humano) e recursos financeiros. Países altamente endividados ficam limitados na sua capacidade de investir, e isto constitui um problema gravíssimo em estados muito endividados, como é o caso de Portugal. É por isso que os 12 “países-modelo” têm das mais baixas dívidas públicas em percentagem do PIB de todo o mundo, com a exceção do Canadá. Todos os outros têm dívidas públicas perfeitamente controladas, sendo que o primeiro — a Dinamarca — tem uma dívida pública de apenas 34,5%.22
Países da União Europeia, como Grécia, Itália, Portugal, Espanha e mesmo França, têm problemas com dívidas públicas elevadas (já para não falar das dívidas privadas que são igualmente problemáticas). Nos casos particulares dos nossos países, Portugal e Brasil,23 o problema da dívida é ainda agravado por uma enorme carga fiscal: praticamente não há margem para o Estado obter financiamento suplementar subindo ainda mais os impostos.
A dívida pública global vem aumentando e no último ano cresceu ainda mais devido à pandemia da covid-19. Este é um problema sério, negligenciado por políticos irresponsáveis, que oneram com os seus gastos excessivos as gerações futuras.24 Não é o caso, como vimos, dos nossos “países-modelo”, onde a solidariedade geracional funciona em pleno; eles são, de facto, também no que toca à gestão financeira, um exemplo para o mundo.
5- Educação e Competitividade Digital
Claro que nada disto seria possível sem recursos humanos altamente qualificados, sem um sistema educativo de excelência, em todos os graus de ensino. Não é fácil avaliar com rigor quais os melhores sistemas, mas a maioria dos estudos apontam para que, mais uma vez, os nossos “países-modelo” se encontrem na linha da frente. De acordo com os resultados do teste PISA-2018, que avaliou as capacidades de alunos de 15 anos em leitura, matemática e ciência, publicado pela OCDE, todos os nossos “países-modelo” se encontram entre os 20 primeiros na disciplina de matemática.25 Se, noutra perspetiva, analisarmos o ensino superior, veremos que, de acordo com um relatório, patrocinado e publicado pela Universitas 21, e coordenado por Ross Williams e Anne Leahy da Universidade de Melbourne, na Austrália, a Suíça tem o 2º melhor sistema do mundo (depois do Estados Unidos), a Dinamarca o 3º, a Suécia o 5º, o Canadá o 7º, a Finlândia o 8º, a Austrália o 9º, os Países Baixos o 10º, a Noruega o 11º, a Áustria o 12º, a Nova Zelândia o 14º e a Irlanda o 19º (a Islândia não foi contemplada neste estudo).26 Como consequência de tudo isto, o número de profissionais altamente qualificados é bastante elevado nos nossos “países-modelo”. De acordo com a OCDE, o país com maior número de cientistas empregados a tempo inteiro por mil habitantes é — uma vez mais — a Dinamarca. Seguem-na, imediatamente, os “suspeitos do costume”.27
Mas a educação vai, cada vez mais, além das disciplinas tradicionais. As competências digitais são hoje indispensáveis num mundo global. Se repararmos na figura acima, retirada de um relatório do IMD World Competitiveness Center , sobre competitividade digital,28 verificaremos que os 12 “países-modelo” estão entre os 23 melhores classificados. Os fatores de competitividade digital analisados foram três: conhecimento (a intangível infraestrutura necessária para a aprendizagem e descoberta da tecnologia), tecnologia (quantificação do desenvolvimento de tecnologias digitais) e preparação para o futuro (nível de preparação de uma economia para assumir a sua transformação digital). Estes fatores ou parâmetros de competitividade digital foram sustentados por 9 sub-fatores, que o relatório foca em cada país avaliado. Por exemplo, a Dinamarca ocupa o primeiro lugar no que toca a atitudes face à globalização e e-governo e a Suécia é a melhor em desenvolvimento e aplicação de tecnologia. O relatório é exaustivo e mostra claramente que os nossos “países-modelo” não são apenas os socialmente mais avançados, estão também melhor preparados para enfrentar um futuro em aceleração tecnológica. Portugal, pelo contrário, está a perder competências neste domínio, sendo um dos piores países da União Europeia.29
Por outro lado, se tivermos em consideração a literacia financeira, verificaremos que os resultados obtidos pelos diferentes países se enquadram no padrão sobejamente confirmado no presente artigo. As populações dos “países-modelo” são as que possuem maiores competências financeiras. Portugal, por seu turno, demonstra graves lacunas nesta área, algo que é deveras preocupante porque segue em linha, desde sempre, com os graves problemas económicos do país. A imagem que se segue mostra claramente a existência de uma correlação positiva entre a literacia financeira das populações e o desenvolvimento social dos respetivos países.
6- Sistemas de justiça eficazes, credíveis e céleres30
Estudos diversos levam a concluir que sistemas judiciais eficazes e defensores do Estado de Direito produzem efeitos económicos benéficos: o crédito é facilitado; as empresas são dissuadidas de comportamentos oportunistas e tornam-se mais propensas a inovar e investir; os custos de transação são diminuídos. Está igualmente provado que as empresas analisam a eficácia e a independência dos sistemas de justiça dos países onde pretendem investir: um inquérito a pequenas e médias empresas revela que mais de metade considera o custo e a duração dos processos judiciais como o principal motivo para não interpor uma ação por violação dos direitos de propriedade intelectual. Outro documento importante sobre sistemas de justiça que consultámos foi o relatório de 2019 do Painel de Avaliação de Justiça da União Europeia. Este relatório avalia a independência, a eficiência e a qualidade dos sistemas judiciais dos países da União, bem como as reformas efetuadas e previstas para a sua melhoria.31
Na vertente da independência dos tribunais, infelizmente, ainda há problemas com alguns países, sobretudo com a Polónia (daí a sua 57ª posição no Índice da Democracia), mas também com a Hungria. Como seria de esperar os nossos “países-modelo” estão muito longe de problemas tão básicos para o Estado de Direito, como sejam a independência do sistema judicial. Já quanto à eficiência dos sistemas de justiça, esta é avaliada segundo três critérios: a) a duração dos processos (tempo médio de dias para resolver um caso), b) a taxa de resolução dos processos (o rácio entre casos resolvidos/recebidos) e c) o número de processos pendentes (que ainda precisam ser tratados no final do ano). Os resultados mostram que os países do Sul da Europa têm os sistemas de justiça mais lentos e os do Norte os sistemas mais céleres e eficazes. No que toca ao tempo de resolução de processos civis, comerciais, administrativos e outros, em tribunais de primeira instância, apenas o Chipre está pior que Portugal. Grécia, Itália, Malta, França e Espanha acompanham-nos nos últimos lugares, mas enquanto a maioria destes tem vindo a reduzir a ineficiência (excetuando o Chipre), Portugal não. O sistema mais eficaz dentro da União Europeia (e do mundo) é o do nosso primeiro “país-modelo”, o sistema dinamarquês, que é também aquele que tem a maior percentagem de confiança dos cidadãos.32 Os nossos “países-modelo” têm os sistemas de justiça mais eficientes do mundo.
7- Liberdadee Ambiente
Não poderia ser de outra maneira: uma característica fundamental dos “países-modelo” é o seu amor à liberdade. São estados verdadeiramente livres e democráticos, respeitadores dos direitos humanos e das liberdades individuais. De acordo com o relatório sobre a felicidade mundial (o último que analisámos), a sensação de liberdade depende de três fatores principais que interagem entre si: o bem-estar material, que liberta as pessoas da escassez; as instituições políticas democráticas, que libertam as pessoas da opressão política; e os valores tolerantes e liberais, que dão mais espaço às pessoas para expressarem as suas identidades únicas. Este sentimento de autonomia e liberdade reflete-se numa imprensa verdadeiramente independente, imune a pressões políticas ou económicas, na linha da frente do jornalismo livre, como mostra o relatório que abordámos sobre liberdade de imprensa. Por outro lado, as autonomia e liberdade são igualmente a base para o associativismo, ou seja, para a criação de instituições, independentes do Estado, que nas mais diversas áreas contribuem para sociedades mais coesas, interventivas, inclusivas e esclarecidas. Essas sociedades são, no seu estádio mais avançado, as dos “países-modelo”.
Para além do Índice de Desempenho Ambiental que usámos para a elaboração do nosso ranking, consultámos também um relatório sobre a problemática das alterações climáticas, que contempla apenas 58 países33. (Não inclui, por exemplo, a Islândia, certamente um dos países mais avançados no que toca a políticas ambientais). Mesmo assim, este Climate Change Performance Index (que contém 4 parâmetros de avaliação: “emissão de gases com efeito de estufa”, “energias renováveis”, “uso da energia” e “política climática”)34 mostra-nos o que já esperávamos – as melhores políticas ambientais são as dos países nórdicos, todos no nosso grupo dos “países-modelo”. Suécia (o melhor), Dinamarca, Noruega e Finlândia estão entre os oito primeiros países.
8- Controlo da violência e contributo para a paz mundial
Os apoiantes das ideologias mais extremistas manifestam pouco interesse pela paz. Dado que as ideologias radicais prevalecem sobretudo nos países menos desenvolvidos, é nas zonas do globo onde estes países se localizam que assistimos às maiores ameaças à paz mundial. E é no seio desses países que se verificam os maiores índices de violência de todo o tipo. De entre todas as utopias, a paz é não só a mais importante, como aquela que mais depende de nós; é, pois, uma utopia realizável, tal como foi idealizada por Kant e também por Popper e é, ou deveria ser, um dos principais objetivos da política internacional. Foi o motivo fundamental da criação da Sociedade das Nações, posteriormente transformada na Organização das Nações Unidas. É pena que a paz esteja tão esquecida, tão fora dos temas mais urgentes da agenda política. De acordo com o relatório da Vision of Humanity sobre a paz mundial, que analisámos, a violência tem um custo anual de 14,5 biliões de dólares, o que equivale a 10,6% do PIB mundial ou 1.909 dólares por pessoa. Se reduzíssemos em 10% a violência no mundo, pouparíamos 1,5 biliões de dólares, valor que poderia ser usado para outras atividades económicas. Os nossos “países-modelo” são os mais pacíficos do mundo e podem, assim, canalizar recursos para atividades mais produtivas. Além disso — e isto é muito importante em tempos de pandemia — os países mais pacíficos e com melhores condições financeiras são os que obtêm melhores resultados em tempos de crise.
No entanto, mesmo nestes países, nem tudo são rosas, e há sempre campo para avançar no campo social, nomeadamente no que toca aos direitos humanos. É isso que nos mostra o investigador norte-americano Christopher J. Fariss, que usou dados sobre violação dos direitos humanos e empregou técnicas estatísticas num modelo chamado de “padrão dinâmico” para medir a proteção dos direitos humanos nos diversos países do mundo. Fariss centrou-se na proteção da integridade física dos cidadãos, considerando parâmetros com a tortura, os assassinatos governamentais, as prisões políticas, as execuções extrajudiciais, os assassínios em massa e os desaparecimentos. Verificamos pelo mapa abaixo, que reflete as pontuações dos países, que apesar dos nossos “países-modelo” estarem como de costume no topo da classificação, há muitos países que se intrometem, como é o caso salutar de São Tomé e Príncipe — à frente da Suécia, da Finlândia e da própria Dinamarca. Em parte, as pontuações dos países-modelo (nomeadamente da Suécia)35refletem a maior transparência das suas instituições, que não escondem os casos de violação, mas, apesar de tudo, refletem igualmente, como ficou dito, que há sempre espaço para melhorar. Por outro lado, este estudo mostra-nos também que a segurança que ocorre nas ruas de Portugal não ocorre, necessariamente, dentro das esquadras de polícia. Portugal fica mal nesta fotografia, para lá da quadragésima posição; mas pior ainda estão França, Austrália, Espanha e Itália, entre tantos outros; a posição do Brasil, quase no último lugar, é deveras deplorável.
1- Luxemburgo (5.13); 2- Islândia (4.94); 3- Liechtenstein (4.37); 4- Mónaco (4.29): 4- Palau (4.29); 6- San Marino (4.27); 7- Andorra (4.22); 8- Kiribiti (4.11); 9- Tuvalu (4.07); 10- Noruega (4.00); 11- Ilhas Salomão (3.76); 12- Nova Zelândia (3.45); 13- Países Baixos (3.41); 14- S. Tomé e Príncipe (3.33); 15- Finlândia (3.15); 16- St. Kitts and Nevis (3.05); 17- Dinamarca (3.04); 18- República Checa (2.99); 19- Alemanha (2.93); 20- Suécia (2.84). Portugal (1.94); Brasil (-1,70); Coreia do Norte (-2.44). Fonte: https://ourworldindata.org/human-rights.
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Em suma, alonga tradição democrática dos nossos “países-modelo” é mais importante do que as políticas de quem provisoriamente ocupa o poder. As instituições são igualmente mais importantes que as personalidades ou as ideologias. Por isso, o bom rumo (a boa gestão) vai-se mantendo, apesar da alternância das cores políticas no poder. “Bom rumo” significa, acima de tudo, conciliar sustentabilidade económica com proteção social, preservando o pacto entre gerações. Uma vez que é difícil equilibrar, num único partido político, os valores económicos e sociais, torna-se extremamente importante a alternância no poder, uma das grandes vantagens da democracia. Isto deveria fazer-nos atentar no seguinte: nenhuma ideologia é sempre melhor que todas as outras, nem nenhum partido político é sempre melhor que todos os outros. Há momentos em que, pelas mais variadas razões, é necessário mudar de rumo; e essa necessidade é uma coisa boa, pois evita que pessoas, partidos e ideologias se eternizem no poder. Os políticos dos países socialmente mais avançados são pessoas comuns, não afetadas pelo culto de personalidade, pela megalomania ou pela sumptuosidade que condicionam os governantes dos países atrasados. É por isso que nestes países o poder está solidamente descentralizado, com larga autonomia regional e local, multiplicando o número de participantes políticos, um sinal claro de confiança entre os cidadãos.
Atualmente, nos doze “países-modelo”, há governos com participação de conservadores, liberais, democratas-cristãos, sociais-democratas, populares, verdes, socialistas, entre outros, em doses variadas36. E quase metade deles (Noruega, Islândia, Finlândia, Dinamarca e Nova Zelândia) são chefiados por mulheres.Ao contrário dos países menos desenvolvidos, nas democracias socialmente mais avançadas, o extremismo e as ideologias radicais esbarram nas sólidas cultura democrática e tradição liberal. As sociedades desenvolvidas são menos radicais, violentas e ideológicas; e, pelo contrário, mais racionais, tolerantes, responsáveis e livres.
2A divisão entre países lusófonos e países governados por ditadores não é clara uma vez que também há países lusófonos com graves problemas no que diz respeito aos valores democráticos.
3O conceito de “desenvolvimento social” não é tão consensual quanto à primeira vista possa parecer. Para avaliar as diferenças entre as culturas Oriental e Ocidental, Ian Morris, em Why the West Rules – for Now. The Patterns of History and What They Reveal About the Future (traduzido em Portugal como O Domínio do Ocidente, Bertrand Editora, 2017, Lisboa) avalia precisamente o desenvolvimento social de ambas ao longo do tempo. Mas “desenvolvimento social” no contexto desta obra de Morris é sinónimo de “grandeza” e “poder”. Não é evidentemente o caso neste artigo. Aqui, “desenvolvimento social” é sinónimo de “qualidade de vida”; os países socialmente mais desenvolvidos não são os politica e militarmente mais poderosos, como no livro de Morris, mas aqueles onde as pessoas são mais felizes e vivem melhor. Com isto não quero dizer, evidentemente, que Ian Morris esteja errado, pelo contrário. A distância temporal que o seu trabalho abrange é muitíssimo maior do que a nossa, por isso as ferramentas que usa têm também que ser diferentes.
5Para o índice de 2020, a maioria dos dados abrange o segundo semestre de 2018 e o primeiro semestre de 2019. No entanto, os autores do estudo alertam para o facto de alguns fatores se basearem em informações históricas. Um exemplo é o fator de política monetária, que é uma taxa média ponderada de inflação de três anos: de 1 de Janeiro de 2016 a 31 de Dezembro de 2018.
6Recentemente, o Presidente desta ex-república soviética, Gurbanguly Berdymukhammedov, proibiu os cidadãos seus compatriotas de falarem sobre o corona vírus, sob pena de serem detidos. As máscaras também são proibidas no país, onde, oficialmente, não existe ninguém doente com Covid-19.https://observador.pt/2020/04/02/presidente-do-turquemenistao-bane-a-palavra-coronavirus/.
7Deixamos, como curiosidade, um mapa publicado pelo Washington Post sobre a recetividade a estrangeiros nos diferentes países do mundo, que pode ser consultado no seguinte artigo do nosso blogue:https://ilovealfama.com/2013/08/16/alfama-anfitria/.
8É comum encontrarmos quem pense que a taxa de suicídios nos países nórdicos é muito elevada. Isto não corresponde à verdade, embora haja uma maior taxa de suicídios nos países ricos em relação com os países mais pobres. Nas últimas décadas do século passado houve, sim, altas taxas de suicídio nos países nórdicos, mas medidas muito incisivas no âmbito da saúde mental (que é levada a sério nesses países), fizeram cair drasticamente essas taxas. As autoridades escandinavas tomaram consciência da desordem afetiva sazonal (SAD-seasonal affective disorder) que afeta as populações nas longas noites de inverno (20 horas sem luz natural), e atuaram em conformidade. Para saber mais: https://worldpopulationreview.com/countries/suicide-rate-by-country/.
9Não vamos entrar aqui numa discussão estéril sobre o conceito de democracia, muito útil a demagogos. É fácil perceber que a democracia é sinónimo de liberdade. Liberdade de criticar e de ser criticado. Liberdade de reunião e associação. Liberdade de escolha. Liberdade de eleger e, consequentemente, demitir os políticos que nos representam. Só com estas liberdades poderemos garantir os direitos humanos e a separação de poderes. E só com liberdade poderemos reformar e melhorar.
10 O Better Life Index 2020 da OCDE (http://www.oecdbetterlifeindex.org/pt/) vem corroborar o que sustentamos neste artigo: “Portugal apresenta um bom desempenho em apenas algumas medidas de bem-estar em comparação com outros países no Índice para uma Vida Melhor. Portugal está acima da média nos quesitos “moradia”, “equilíbrio vida-trabalho”, “segurança pessoal” e “qualidade do meio ambiente”, porém está abaixo da média em “renda e riqueza”, “condições de saúde”, “conexões sociais”, “engajamento cívico”, “educação e qualificações”, “bem-estar social” e “emprego e rendimentos””.
14Apesar das eleições não serem o único meio de participação democrática, devemos esclarecer que a taxa de participação nas últimas eleições gerais na Suíça, um dos primeiros países do nosso ranking, se quedou pelos 45,1%. Isto, porém, não é surpreendente pois a Suíça é talvez o país mais descentralizado do mundo, um país onde as políticas dos cantões são as que mais afetam os cidadãos.
15O britânico Richard Wilkinson afirma que quem vive em sociedades desiguais perde mais tempo a preocupar-se com a forma como os outros os veem. Isso degrada a qualidade das relações e o stress que daí resulta é, por sua vez, um notório fator de patologias e problemas de saúde crónicos(https://www.ted.com/talks/richard_wilkinson_how_economic_inequality_harms_societies#t-53727). Já em 2009, Richard Wilkinson publicara um livro, em parceria com Kate Pickett – The Spirit Level (editado em Portugal pela Presença com o título O Espírito da Igualdade e no Brasil pela Civilização Brasileira com o título O Nível)- onde mostram que as sociedades igualitárias têm menos problemas sociais. Estudos posteriores vieram confirmar as teses de Wilkinson e Pickett, entre eles este de Karen Rowlingson: file:///C:/Users/User/Downloads/inequality-income-social-problems-full.pdf.(Os interessados podem consultar a ampla bibliografia indicada no final deste relatório).
16Não há uma única palavra noutra língua que traduza fielmente o significado de hygge. Mas algumas ajudam; entre elas: divertimento, ambiente acolhedor, conforto, boa atmosfera social, satisfação, felicidade, relaxamento, lazer.
23Embora a atual dívida pública brasileira (101,4 % do PIB) seja menor que a dívida pública portuguesa (137,2% do PIB), esta vinha decrescendo (antes da pandemia) enquanto aquela vinha aumentando significativamente (em 2014 a dívida pública brasileira era de 62,5% do PIB).
24A este respeito escreveu, em Reflexões Sobre a Revolução em França (1790), Edmund Burke: “um dos primeiros e mais importantes princípios com base no qual a comunidade e as leis são consagradas é que, a fim de evitar que os detentores temporários e arrendatários vitalícios sejam negligentes em relação ao que receberam dos seus ancestrais ou para com o que devem à posteridade, não ajam como se fossem os donos absolutos, para que não pensem que está entre os seus direitos repartir ou desperdiçar a herança, destruindo, a seu bel-prazer, todo o tecido original de sua sociedade, arriscando a deixar aos que vêm depois uma ruína em vez de uma moradia – e ensinando esses sucessores a respeitar tão pouco as suas ideias quanto eles próprios respeitaram as instituições de seus antepassados […] A Sociedade é, com efeito, um contrato […] o Estado […] é uma parceria não só entre os que estão vivos, mas entre os que estão vivos, os que estão mortos e os que estão por nascer”. Para Burke, o verdadeiro contrato social não é o contrato de Jean-Jacques Rousseau, entre o soberano e o povo ou a “vontade geral”, mas a “parceria” entre as gerações. (Edmund Burke citado do livro de Niall Ferguson, A Grande Degeneração, Planeta, São Paulo, 2013, pp. 38-9).
29Uma das recomendações da União Europeia para Portugal, no seu Jornal Oficial de 10/09/2018, é: “Aumentar o nível de competências da população adulta, incluindo a literacia digital, reforçando e alargando para o efeito a cobertura da componente de formação nos programas de qualificação da população adulta. Aumentar o ingresso no ensino superior, em especial nos domínios científicos e tecnológicos“.
30https://worldjusticeproject.org/sites/default/files/documents/WJP-ROLI-2020-Online_0.pdf. De acordo com este relatório (que não inclui a Suíça), os doze melhores Estados de Direito são: 1- Dinamarca; 2- Noruega; 3- Finlândia; 4- Suécia; 5- Holanda; 6- Alemanha; 7- Nova Zelândia; 8- Áustria; 9- Canadá; 10- Estónia; 11- Austrália; 12- Singapura. Como se vê, no topo, os “suspeitos” do costume…
32Para se ter uma ideia, o tempo médio de resolução deste tipo de processos na 1ª instância é na Dinamarca de cerca de um mês e meio, enquanto em Portugal pode chegar aos três anos. Porém, a Dinamarca tem um rácio de 6 juízes e 100 advogados por 100.000 habitantes enquanto Portugal precisa de 20 juízes e 300 advogados por 100.000 habitantes. Por outro lado, a Dinamarca tem 100% dos seus juízes em formação contínua sobre as leis da União Europeia ou de outro estado-membro, enquanto Portugal tem apenas 12%… E o que estudam os juízes dinamarqueses e portugueses? Respetivamente, tecnologias da informação e gestão de tribunais. 40% dos dinamarqueses consideram o seu sistema de justiça muito bom e 50% suficientemente bom, enquanto em Portugal as percentagens são de 1% e 30%, respetivamente. A taxa a pagar para uma ação de baixo valor é na Dinamarca de cerca de 5% e em Portugal de 20%.
33Os 57 países contemplados no estudo são responsáveis por 90% das emissões globais de gases com efeito de estufa.
36Desde há muito que procuramos falhas no pensamento de Karl Popper. Finalmente, pensamos ter encontrado uma. Popper defende o sistema bipartidário (cujos exemplos mais evidentes são os dos Estados Unidos e do Reino Unido) por razões que se prendem, sobretudo, com a estabilidade governativa e com a limitação da importância dos pequenos partidos (que nos sistemas multipartidários podem chegar ao poder, através de coligações, apesar da sua reduzida expressão eleitoral). A argumentação de Popper parece-nos sólida e teoricamente inatacável. No entanto, o que a realidade mostra é que na esmagadora maioria dos países socialmente mais desenvolvidos, vigoram sistemas multipartidários, o que parece indicar, de acordo com a metodologia do próprio Popper, que a sua teoria não resiste ao confronto com a experiência. Visões diversificadas dentro dos governos parecem, assim, ser benéficas para o desenvolvimento social, algo que Popper não considera. Confirmar a posição de Popper em: https://ilovealfama.com/2021/04/25/sobre-a-liberdade-um-texto-de-karl-popper/.