A Ilha Dourada

IMG_0643A Ilha Dourada andava nas bocas do mundo. Para alcançá-la era necessário atravessar o longuíssimo e escarpado estreito de Überfluss, quase sempre assolado por ventos terríveis e correntes cruzadas que atiravam as embarcações contra as extremidades afiadas dos grandes rochedos. Para lá dos problemas com o temível estreito, os capitães dos navios, que sempre pareciam extremamente solidários em terra firme, transformavam-se durante as viagens nos piores piratas dos oceanos, e muitos marinheiros eram postos a ferros ou mortos – e outros, ainda, simplesmente atirados borda fora para servirem de alimento aos tubarões. A maioria dos navios afundava e não havia notícia de algum ter alcançado a célebre ilha, desde que o comandante Rizzo Artington dela dera conta.

A notícia que se espalhou foi a de que ali vivia um povo pacífico, próspero e feliz; não havia patrões, nem proprietários, nem capatazes; e também não havia conhecimento do dinheiro. O clima era generoso, a água puríssima, a terra fértil – e todos viviam em comunhão com a natureza-mãe. Além disso, o mais fantástico é que não existia, no seio da sociedade, lugar para o egoísmo, a avareza ou a simples ambição. Tudo o que cada um dos seus habitantes desejava era ser mais um, uma peça única e igual, do todo harmonioso e feliz.

O fascínio que a ilha provocava era enorme – embora muitos duvidassem da sua existência – e não diminuiu após a morte de Artington. Fizeram-se planos para uma viagem vitoriosa sobre ventos e correntes e marés, e a discussão sobre quem comandaria a armada foi longa e truculenta. Finalmente, um capitão se impôs como o mais capaz de conduzir uma armada de 140 navios. Seu nome era Joseph Hoffen – e o entusiasmo que a sua presença provocava era contagiante. A esquadra partiu num dia luminoso, sob um céu todo azul, e os primeiros dias de viagem foram de calmaria e paz. Na frente seguia o magnífico navio-almirante do capitão Hoffen, com 300 ocupantes, entre os quais os seus principais assessores e conselheiros; vinte navios fortemente armados e comandados por leais servidores seguiam logo atrás – entre o navio-almirante e os demais elementos do comboio.

Dezassete dias após a partida, atingiram o estreito de Überfluss. Um vento forte e endiabrado atingiu-os pela proa, como se o Adamastor soprasse do lado de lá da fresta, entre os rochedos gigantes. O ar tornou-se pesado como chumbo; do céu tombavam uma chuva cortante e o som de pedra rachando sob raios de fogo; as nuvens carregadas estavam tão perto que parecia, a todo o instante, irem despenhar-se sobre as embarcações. As águas estavam enlouquecidas, correndo em todos os sentidos, provocando oscilações inesperadas e bruscas nos navios, ameaçando quebrá-los ao meio; vinte foram atirados contra os rochedos sem que nenhum tripulante sobrevivesse; os restantes conseguiram aguentar até o dia seguinte, quando, subitamente, o vento amainou. Continuaram, muito lentamente, durante dez dias. O vento agora quase parara e os navios também; um bando de atobás acompanhava-os, curioso; o mar era um espelho onde se refletia a linha azul do céu, cortando a mancha escura das escarpas rochosas. Assim prosseguiram por 30 dias, avançando 120 milhas.

Entretanto, a água potável começou a escassear e a comida também. Era impossível escalar aquelas escarpas para procurar fosse o que fosse; começaram a ocorrer as primeiras mortes por doenças e má nutrição. Hoffen ordenou que os víveres de vinte embarcações fossem apreendidos, em nome da sobrevivência das restantes – e afundou-as em seguida com todos os que estavam a bordo.

Dias depois, chegaram a um ponto onde a escarpa a bombordo se abria num largo semicírculo e onde o sol entrava como o foco de uma lanterna colossal. As margens ali eram mais acessíveis, mas a vegetação era pobre, escassa e de pequeno porte. Hoffen mandou executar os tripulantes de mais trinta navios, lançou-os ao mar e aproveitou a madeira para construir as primeiras habitações daquele lugar, junto a uma nascente de água que haviam descoberto. Alguns dos seus mais próximos colaboradores começaram a discordar daquelas decisões, sobretudo da de ficar por ali, uma vez que o objetivo era chegar à Ilha Dourada. Hoffen prometeu que não se desviaria jamais desse caminho, mas asseverou que aquela era a única forma de o prosseguirem. E mandou executar os críticos.

Depois deu ordens para que fossem abatidos mais 20 navios. Uma enorme paliçada foi construída em torno das habitações, e torres de vigia erguidas em pontos estratégicos. No interior viviam Hoffen e seus colaboradores mais diretos e do lado de fora, abandonados à sua sorte, os sobreviventes. A maioria destes morreu de fome e alguns foram executados por se revoltarem ou tentarem fugir. Entre eles, já ninguém falava da Ilha Dourada.

Os anos passaram e um dia Joseph Hoffen morreu de uma apoplexia. Os que ainda permaneciam vivos eram tão poucos que cabiam num único navio. Decidiram, então, regressar ao continente.

À chegada, a surpresa foi enorme para muitos, mas não para aqueles que nunca acreditaram que fosse possível chegar à ilha. A discussão reacendeu-se intensamente. Outras frotas – embora bem menores que a de Hoffen, e até navios isolados – partiram. Diz-se que uma delas atingiu uma pequena ilha onde as pessoas tentaram viver de forma semelhante ao que pensavam ser a vida na Ilha Dourada. Mas não foi conseguido um acordo entre todos, e acabaram por ali ficar, isolados do mundo, longe da civilização, da paz e da prosperidade prometidas.

Hoje, já quase não partem navios em busca da ilha paradisíaca: ninguém parece ter argumentos, carisma ou força para angariar uma frota adequada ao empreendimento. Ainda assim, muitos almejam alcançá-la, acreditando na versão de Rizzo Artington.

Para a maioria, porém, a Ilha Dourada é apenas um mito e, na realidade, nunca existiu.