São Luís e Lençóis Maranhenses, Brasil

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Vista aérea da região de São Luís.

Apesar do Maranhão ser, tradicionalmente, uma das regiões mais pobres do Brasil, as edificações do centro histórico de São Luís mostram que a cidade já foi importante. No último quartel do século XVIII, o Marquês de Pombal ajudou os colonos maranhenses a verem-se livres dos jesuítas. Criou uma companhia de comércio altamente capitalizada, aproveitando as alterações no mercado mundial do algodão, cuja procura crescia intensamente: essas alterações deveram-se sobretudo à Guerra da Independência dos EUA e à Revolução Industrial inglesa. Foi uma empresa muito bem sucedida. Porém, ultrapassadas as condições de anormalidade que prevaleciam no mercado mundial de produtos tropicais, não só o Maranhão mas o próprio Brasil regressariam a um sistema económico precário, que mantêm até hoje.

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Centro histórico de S. Luís.

Essa precariedade é notória em São Luís, “a ilha do amor”, mas que bem poderia chamar-se “da pobreza”, “do desmazelo” ou “da corrupção”. Com efeito, a experiência ensina-nos a reconhecer o cheiro corrupto quando este paira no ar. Em São Luís ele brota dos buracos das ruas, dos edifícios degradados, dos semblantes resignados das pessoas comuns. Aqui, a população é sobretudo negra ou mestiça, prova de que a escravatura no Maranhão, embora tardia, foi bastante intensa.

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Rio Preguiças, em Barreirinhas.

Escapam da degradação geral do centro histórico de São Luís alguns oásis, quase sempre geridos pelo governo do Estado e não pela Prefeitura, como são os casos dos Teatro Artur Azevedo, Museu Histórico e, sobretudo, o conjunto edificado do bairro Praia Grande. Neste último é agradável passear à noite, ouvir música ao vivo, tomar um copo e associar-se aos transeuntes, turistas e locais. Atravessando o rio Anil, pela ponte José Sarney (a família Sarney é omnipresente no Maranhão), chega-se à parte mais moderna da cidade, onde encontramos praias consideradas impróprias para banhos e edifícios recentes, porém sem a vitalidade de outras capitais nordestinas.

Se a convivência com São Luís ficou aquém das expectativas, a chegada a Barreirinhas, para compensar, foi uma agradável surpresa. Aqui, o turismo e a pesca são as principais atividades económicas, e parecem chegar para que se respire um ar mais puro. O autocarro demora umas cinco horas para percorrer os cerca de 300 kms que medeiam entre as duas cidades. O bilhete custa 30 reais, mas é preferível pagar 40 e viajar numa “van” que transporta os passageiros até a porta dos hotéis ou das pousadas das duas cidades. Dado que o autocarro estaciona nas estações rodoviárias, além do trajeto mais rápido, poupa-se também no custo do táxi entre estas e o hotel. Existem várias empresas que fazem o transporte por “van”, o qual pode ser comprado em qualquer um dos hotéis ou pousadas de Barreirinhas e São Luís.

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Pequenos Lençóis.

Barreirinhas é banhada pelo rio Preguiças, que é lindo de verdade. O nome advém do serpentear calmo e lânguido do rio. Dado que o seu curso é praticamente plano, as correntes são fracas, facto que pudemos testemunhar ao atravessá-lo a nado, nos dois sentidos, em Barreirinhas. A água é morna, deliciosa, e a praia é sobretudo frequentada pela população local; os turistas ficam espalhados pelas pousadas da periferia, cada qual com seu espaço privativo. Face à qualidade da água e às tranquilidade e beleza desses lugares ao longo do Preguiças, é altamente recomendável pagar um pouco mais e ficar numa dessas pousadas à beira-rio, em vez de ficar alojado no centro da cidade.

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Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses.

Em Barreirinhas existem agências especializadas nos diversos passeios possíveis, entre os quais se destacam o dos Grandes lençóis Maranhenses, feito de jipe e depois a pé, e o da descida do Preguiças até Caburé (margem direita) ou Atins (margem esquerda), povoados que se situam na foz do rio, junto ao mar. A melhor época para visitar os Lençóis é em julho (mês da “Vaquejada”) e agosto, quando já não chove e as lagoas estão cheias pelas chuvas de inverno (janeiro a junho). Uma vez que 2012 foi um ano pouco chuvoso, agora apenas uma lagoa tem água (Lagoa do Peixe), todas as outras estão secas por força da evaporação. Mesmo assim, vale a pena caminhar naquele meio desértico, sentir a imensidão do espaço de areia branca e fina, ver o pôr do sol por trás das dunas, viajar aos solavancos nos potentes veículos “todo terreno”, cruzar o Preguiças de balsa e comer uma deliciosa tapioca, feita por uma das vendedoras do outro lado do rio.

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Rio Preguiças.

Já os passeios no Preguiças não dependem da chuva e são, em qualquer época, muito interessantes. Desde logo, pela beleza do próprio rio, mas também pela interessante fauna e flora, pela vida das populações semi-isoladas, pelas já referidas tranquilidade e beleza dos lugares, e pelo seu exotismo. De Barreirinhas a Atins demoramos cerca de quatro horas de lancha rápida. Isto porque paramos em vários povoados pelo caminho: Vassouras, uma localidade minúscula, que dá acesso aos Pequenos Lençóis, na margem direita do Preguiças, e onde alguns macacos vêm ter com os visitantes, em busca de comida; Mandacarú, na margem esquerda, onde se situa o Farol Preguiças, com os seus 160 degraus e 35 metros de altura, e uma vista magnífica sobre a região; e, finalmente, Caburé, situado numa língua de areia entre o rio e o mar, na margem direita, onde podemos desfrutar de um delicioso banho e almoçar um belo robalo no restaurante Península de Caburé.

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Vista que se observa do Farol das Preguiças.

A paisagem onde quer que estejamos e para onde quer que olhemos é deslumbrante. Palmeiras de buriti, açaí e carnaúba; manguezais, como os mangue-vermelho, mangue-branco e mangue-siriúba; capim-de-areia, alecrim-da-praia, pimenteira e carrapicho-da-praia, que crescem perto do mar, onde, nas praias quase desertas, podemos observar tartarugas marinhas e várias espécies de caranguejos; e, na restinga (terreno arenoso e salino), a erva-de-cascavel, a orquídea da restinga e o cipó-de-leite, entre outros. Nos manguezais podemos encontrar o jacaré-tingá, a paca e o veado-mateiro; e também aves migratórias, como o maçarico-rasteirinho, as marrecas-de-asa-azul e o trinta-réis-boreal.

Um dado muito curioso sobre o Parque Nacional do Lençóis Maranhenses (fundado em 1981) é que, para além dos 155.000 hectares de dunas e mais dunas de areia branca e fina e dos oásis de lagoas coloridas, existe ali um povo nómada, cuja vida é regida pelo ciclo das chuvas e das areias. Dentro do parque vivem diversas famílias, em alguns pequenos povoados de pescadores, como são os casos de Canto de Atins, Baixa Grande ou Queimada dos Britos. A mobilidade das dunas, provocada pelo vento, provoca muitas vezes o soterramento de casas e utensílios, obrigando ao deslocamento dos pescadores.

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Mandacaru.

Na costa do Maranhão o vento predominante é de leste, como pudemos comprovar, literalmente, na pele. Este vento está na origem da criação de uma colónia, independente do Brasil, em 1621, dado que o vento de leste dificultava a navegação entre a costa norte do território e as demais capitanias. Assim, foi decidido criar uma colónia diretamente ligada a Lisboa, compreendida entre o Ceará e o Amazonas, precisamente, o Estado do Maranhão. Isto (e também as informações sobre o mercado de algodão a que aludimos no início do texto) pudemos conhecer através do clássico Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado, que afortunadamente transportámos na mochila. Apesar disto, não se pense que o clima aqui é agreste, bem pelo contrário: é generoso, suave, doce, refletindo-se nas pessoas.

Os Lençóis Maranhenses, mais que São Luís, são um destino que vale a pena. Lá cada um pode optar, todos os dias, por fazer algo diferente. Ou, simplesmente, não  fazer. É bom preguiçar no Preguiças.

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2012 – Uma Espécie de Balanço

Depois da descoberta das partículas sub-atómicas, vivemos num mundo onde imperam a probabilidade e a estatística. O mundo natural é indeterminista; e, curiosamente ou não, o mundo social também. Só uma ditadura pode ser determinista e, mesmo assim, até certo ponto. A democracia é, sem dúvida, indeterminista.

Em termos simples, pode dizer-se que, num mundo indeterminista, nada pode prever-se com precisão – prevalecem as probabilidades, as médias, os arredondamentos. Na política, ao determinismo dos extremos, sejam de direita ou de esquerda, opõe-se o indeterminismo do centro, uma espécie de tendência estatística para a média, como na lei dos grandes números [1]. Claro que há uma pequena probabilidade de haver uma ocorrência fora da curva [2]. Isso dependerá, essencialmente, das “condições objectivas” [3] de um dado momento. A votação em Hitler foi um desse momentos: um raro – e trágico – evento.

Em geral, porém, seja no nosso ou em qualquer outro país, a tendência, propensão ou probabilidade é que a maioria das pessoas vote no chamado “centrão”. Os anglo-saxónicos, com seu sentido prático, sabendo disto, poupam tempo, dinheiro e paciência com seu bipartidarismo de há centenas de anos. De uma penada, evitam distorções, coligações e mais tachos.

Esta evidência do indeterminismo na vida social foi algo que cresceu rapidamente com a globalização. O debate, a circulação de ideias, a simples opinião aumentaram notoriamente com o advento da internet e, sobretudo, com as chamadas redes sociais, fazendo com que as decisões políticas sejam hoje escrutinadas praticamente em tempo real.

Mas, agora mais que nunca, num mundo ameaçado por uma crise grave, cujas causas e consequências as teorias de esquerda denunciam tão claramente, o que levará, ainda assim, as pessoas a optar pelo centrão? Mais: o que leva um país, onde vigora há décadas um dos melhores sistemas sociais do mundo, como é o caso da Suécia, a querer mudar para uma sociedade mais liberal, teoricamente bem mais incerta? Haverá mesmo uma tendência social – acompanhando o que acontece nas outras ciências [4] – para o indeterminismo?

Eu acredito que sim. E acredito também que isso acontece, não porque as pessoas sejam estúpidas [5]. Quanto a mim, a razão principal não reside numa influência exterior, mas dentro delas. Talvez mais do que na Ciência Política, encontremos pistas na Psicologia e na Filosofia [6]. Trata-se de aceitar (aquilo que é) e de interpretar (aquilo que gostaríamos que fosse) a realidade. Aqui reside, nos subtis mecanismos internos das aceitação e interpretação, a tendência humana para o voto ao centro. Talvez, quem sabe, uma tendência secreta das massas para o realismo [7], para uma queda dentro da curva…

Posto isto, eu que nunca votei no PSD (outrora PPD) nem no CDS, tenho de reconhecer uma coisa. O atual primeiro-ministro, apesar do coro de protestos, insultos e insinuações, está a percorrer o seu caminho, afinal, o caminho traçado pela Troika, depois do célebre resgate, já que é esta quem define a política económica do nosso país. A única alternativa de Passos Coelho seria convencer espanhóis, italianos, irlandeses e, eventualmente, franceses de que as condições impostas pela Troika têm de ser alteradas, suavizadas e que, para isso, alemães (sobretudo) e outros países do norte da Europa têm de se mostrar mais solidários. Isso é possível de realizar, simplesmente porque seria melhor do que um desmembramento de consequências imprevisíveis, onde certamente todos perderiam, e muito. Até agora, porém, nenhum líder mostrou ter coragem suficiente para enveredar por este caminho, nem mesmo aqueles de países de maior dimensão e peso, e de famílias políticas bem mais distantes de Merkel do que Passos Coelho [8].

Claro que, tal como todos os que o antecederam, Passos não cumpriu uma série de promessas. Nisso, realmente, ele não se distingue dos demais. Mas destaca-se pelas postura, determinação e caráter – mesmo se levarmos em conta (e temos de levar) as más companhias, como é o caso clamoroso de Miguel Relvas.

Além disso, a missão de Passos é patriótica, pois, neste momento, ninguém está verdadeiramente interessado em pegar no país. Não concordo com a sua política, mas ela enquadra-se numa ideologia liberal que ele sempre defendeu, não constitui novidade. E é por isso que não é expectável (nem está minimamente ao seu alcance) uma contribuição sua para aquilo que seria a verdadeira solução do problema europeu: uma inversão da política alemã e do seu braço financeiro, o BCE. Para isso teriam de abandonar este caminho de austeridade sem saída, que só leva a mais e mais recessão.

É bem possível que o diagnóstico sobre Portugal piore em 2013, pelo menos em parte. Mas eu ainda não ouvi, ou li, qualquer proposta alternativa (e realista) que me fizesse crer na existência de um caminho substancialmente melhor, a não ser o que apontei acima. Era por ele que se deveria bater, sem desvios, uma oposição credível. Pior que o desgoverno de Coelho, só a total ausência de uma verdadeira alternativa.

Aquilo que eu gostaria que fosse não resiste à evidência daquilo que é.

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Notas:

[1] A lei dos grandes números diz-nos que quanto maior for uma série de eventos aleatórios, mais certa se torna a média esperada. O exemplo clássico é o do lançamento de uma moeda: num número suficientemente grande de lançamentos a tendência será para que se registe 50% para cada uma das possibilidades (cara ou coroa).

[2] Os eventos aleatórios são muitas vezes representados graficamente numa curva de sino. Os eventos esperados caem dentro da curva. Mas há sempre uma probabilidade, ainda que ínfima, de uma ocorrência inesperada. Por exemplo, em mil lançamentos saírem 900 coroas e apenas 100 caras ou, mais raro ainda, 990 coroas e 10 caras (ou vice-versa).

[3] “condições objectivas” é uma expressão cara aos marxistas e demonstrativa de seu espírito determinista.

[4] Toda a ciência contemporânea (e a consequente parafernália técnica, incluindo os poderosos computadores atuais) se baseia nos princípios indeterministas.

[5] Acontece que muitas vezes se chamam as pessoas de estúpidas, indiretamente. É como eu vejo, por exemplo, quando se diz que as pessoas votaram em determinado partido porque foram enganadas pela “propaganda” e/ou pelas “mentiras” desse mesmo partido.

[6] Não tem a filosofia como objeto, em última análise, o homem? A resposta, afirmativa, é dada por Kant.

[7] Não será por acaso que muitos intelectuais, sobretudo de esquerda, reivindicam o direito ao sonho e à utopia. Por outro lado, realismo e indeterminismo não são de forma alguma incompatíveis.

[8] François Hollande representa a maior desilusão quando pensamos numa real oposição à política europeia de Merkel.

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João e Maria

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Talvez a maioria não saiba, quando ouve Chico Buarque interpretando-a, que esta canção não foi feita por ele. Muitos menos imaginarão que a melodia em causa tem a bonita idade de 65 anos, ou seja, foi composta em 1947! O autor desta valsinha – que foi a sua primeira composição – chamava-se Severino Dias de Oliveira, mas ficou mundialmente conhecido como Sivuca. A letra, sim, é da autoria de Chico Buarque e, segundo o próprio, baseia-se numa conversa de crianças. Chico, na época (1976), compunha algumas canções infantis, e parece ter sido influenciado por esse facto.

Fica o registo desta canção interpretada precisamente por Sivuca e Chico Buarque. Curiosidade: A técnica de Sivuca é tão boa no violão, que, logo após o início, Chico se concentra apenas na interpretação vocal…

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Gaivota

Alain Oulman
Alain Oulman

Dizem que o triângulo é a figura geométrica perfeita. Está na base das pirâmides, da Santíssima Trindade, do mistério das Bermudas, do fogo, da fertilidade… Mas a prova final do poder simbólico de um triunvirato, embora não necessária, foi-nos dada por Alexandre O’ Neill, Alain Oulman e Amália Rodrigues, em forma de palavras, música e voz.

Alexandre O' Neill
Alexandre O’ Neill

Não há muito mais a dizer. O poema é lindo, a composição brilhante e a voz de Amália sublime – impossível de imitar ou comparar. Eu costumo dizer que a voz de Amália é como a velocidade da luz – absoluta; e não é preciso ser português ou amante do fado para o constatar.

Fica o registo do poema e do fado.

Triângulo, voo, perfeição!
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“Gaivota”, de Alexandre O’ Neill

Se uma gaivota viesse 
trazer-me o céu de Lisboa 
no desenho que fizesse, 
nesse céu onde o olhar 
é uma asa que não voa, 
esmorece e cai no mar. 

Que perfeito coração 
no meu peito bateria, 
meu amor na tua mão, 
nessa mão onde cabia 
perfeito o meu coração. 

Se um português marinheiro, 
dos sete mares andarilho, 
fosse quem sabe o primeiro 
a contar-me o que inventasse, 
se um olhar de novo brilho 
no meu olhar se enlaçasse. 

Que perfeito coração 
no meu peito bateria, 
meu amor na tua mão, 
nessa mão onde cabia 
perfeito o meu coração. 

Se ao dizer adeus à vida 
as aves todas do céu, 
me dessem na despedida 
o teu olhar derradeiro, 
esse olhar que era só teu, 
amor que foste o primeiro. 

Que perfeito coração 
no meu peito morreria, 
meu amor na tua mão, 
nessa mão onde perfeito 
bateu o meu coração.

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Runaway

Esta canção, originalmente interpretada por Del Shannon, ficou mundialmente conhecida por fazer parte do genérico da série televisiva “Crime Story”.

Criada por Gustave Reininger e Chuck Adamson, a série tinha como produtor executivo Michael Mann e contava com a participação de Dennis Farina, no papel do detetive Mike Torello. Existem várias  versões do tema “Runaway”, inclusive uma dos Beach Boys, quase todas com mais de 20, 30 ou 40 anos. Ultimamente saiu uma nova versão (penso que em 2007) interpretada pelos Queen e Paul Rodgers.

Há canções que nasceram para ser recriadas de tempos a tempos. Esta é uma delas.

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Um encontro memorável

Kissin é um dos meus pianistas preferidos. Tive a sorte de o ver atuar há tempos na Gulbenkian, num recital memorável, quando ele deveria andar pelos seus 30 anos. Ainda hoje, com 41, Evgeny Kissin, moscovita de origem judaica, mantém a sua expressão de adolescente.

O episódio que quero relatar passou-se em 1988 e trata de um daqueles encontros felizes e raros que acontecem uma vez na vida. Neste caso, na vida de duas pessoas — Evgeny Kissin e Herbert Von Karajan. Se a elas juntarmos, através do seu famoso e arrebatador concerto nº1 para piano e orquestra,  Tchaikovsky, teremos o encontro de três génios. Kissin com 17 anos, Karajan no fim da vida (um anos antes) e Tchaikovsky, presente com sua música.

Para nosso deleite, esse episódio foi gravado, e aqui fica o registo do 1º andamento, sendo que podem encontrar, na mesma fonte, todo o concerto e ainda uma reportagem sobre este encontro feliz. Nessa reportagem, Kissin recorda o momento em que, após o concerto, quando sua mãe se aproximou, Karajan afirmou, apontando para ele:

Genius.

Poderíamos ainda alargar esta onda de felicidade  à excecional Filarmónica de Berlim. Como se sabe, esta orquestra foi talhada durante 35 anos pela batuta implacável de Herbert Von Karajan. Depois, seguiram-se Claudio Abbado e o diretor atual, Sir Simon Rattle (eleito pelos membros da própria orquestra), maestros que tive o prazer de ver atuar ao vivo.

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A Ideia de Justiça

Sen
Amartya Sen

A edição original é de 2009, pela Penguin Books, Grã-Bretanha, e a edição que temos em mãos é de 2012, Companhia das Letras, Brasil.

Nesta categoria (“Livros”), a nossa ideia é mais de divulgação do que de crítica. Entretanto, eis a nossa síntese de “A Ideia de Justiça” em seis linhas-mestras.

1- A ideia de justiça deve ser sobretudo uma prática;

2- Os comportamentos são mais importantes do que instituições e regras;

3-  A uma estrutura “transcendental” devemos opor uma estrutura comparativa;

4- A uma perspetiva paroquial devemos opor uma visão universalista;

5- O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) é mais importante que o PIB (Produto Interno Bruto) para o desenvolvimento de um país;

6- É muito importante trabalhar as “capacidades” – em vez de basearmos a realização do indivíduo no rendimento, devemos baseá-la na perspetiva de lhe proporcionar autonomia, para que ele tenha oportunidade e liberdade de optar por empreendimentos que o realizem enquanto ser humano e não apenas enquanto assalariado/consumidor.

Além disto (o livro é todo baseado em dicotomias, que revelam duas visões opostas sobre a justiça), os exemplos históricos mencionados por Sen são muito interessantes, sobretudo a abordagem à cultura oriental, nomeadamente a indiana, de onde Amartya Sen é oriundo. Estamos de acordo com Sen – pouco importa ter leis muito avançadas se não tivermos pessoas educadas e esclarecidas para as pôr em prática. A ação (praxis) é que importa ou, por outras (e nossas) palavras, mais vale minimizar efetivamente a injustiça, do que maximizar uma justiça que fica apenas no papel.

E daqui partima para uma crítica simples, que é, afinal, apenas um reparo. É que sobre este assunto – acho nós- é impossível ignorar um filósofo como Karl Popper. (É curioso notar que Amartya Sen refere ter sido primeiro matemático, depois físico, economista e, por último, filósofo). O tema da justiça é caríssimo, como não poderia deixar de ser, a Popper. Não interessa agora para o caso o que este autor pensa sobre o assunto, mas, pode dizer-se, está, substancialmente, em linha com a visão de Sen.

Neste livro, Sen cita cerca de 700 autores (além de 450 nos “Agradecimentos”), mas nem uma única vez Popper. No meio de tanta erudição, será Popper um filósofo desconhecido? Ou, sendo conhecido, apenas desprezado?

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A nossa edição:

Amartya Sen, A Ideia de Justiça, Editora Companhia das Letras, 1ª edição, São Paulo, 2012.

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Foto retirada de www.scoopwhoop.com

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Doutor Maluco

Alguns dos meus amigos de infância ainda se devem lembrar dele. E talvez haja algum que se lembre de quem lhe colocou a alcunha — Doutor Maluco — não sei se por ser diferente de todos os comuns mortais conhecidos no bairro, se pela figura eminente e misteriosa.

Passava pela Rua dos Remédios com ar altivo, ele que, de facto, era alto, distinto; fato preto, boina preta, sapatos pretos que riscavam o ar, impecavelmente engraxados.

(O negro contrastando com a alvura da pele).

Passava depressa, direito, flutuando — sempre pelo meio da rua, jamais sobre o passeio.

– “Então ó Doutor Maluco!”

E o Doutor Maluco — eu nunca soube o verdadeiro nome dele — continuava imperturbável o seu caminho, olhando em frente, por cima de todos, jamais baixando os olhos ou a cabeça, o rosto correctíssimo, impenetrável e sereno.

Lembro-me que numa tarde de Carnaval alguém lhe acertou com um ovo. O Doutor estancou, sacudiu a boina, limpou-a com um lenço alvíssimo que tirou duma algibeira, e sem enfado, sem olhar para nós ou para alguém, retomou seu caminho.

O tempo passou e nós teríamos, talvez, uns 18 anos quando um dia o encontrámos, no Largo da Graça. Vimo-lo à distância, e logo o Rui exclamou, “olha o Doutor Maluco!”

O Chico, que também ia connosco e sempre se saía com tiradas surpreendentes, sem mais, perguntou:

– Sr Doutor, o que é um homem que injeta heroína?

A resposta saiu pronta, natural, suave, como lhe houvessem perguntado as horas — e foi a única vez que ouvi a sua voz:

– É um herói.

Nunca mais vi o Doutor Maluco, que seguiu, olhando por cima dos transeuntes.

Cinco anos depois, o Rui e o Chico morreram, vítimas da heroína. Jovens, belos e audazes — como os heróis.

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Ranking dos 10 políticos portugueses mais detestáveis

1º Cavaco Silva,”O Conspirador”

2º Francisco Louçã, “O Moralista”

3º Miguel Relvas, “O Hedonista”

4º Paulo Portas, “O Oportunista”

5º Passos Coelho, “O Liberal”

6º Alberto João Jardim, “O Troglodita”

7º Marcelo Rebelo de Sousa, “O Quadrilheiro”

8º Nuno Melo, “O Malandreco”

9º Bernardino Soares, “O Ortodoxo”

10º Manuel Maria Carrilho, “O Cínico”

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Face à classificação de há 5 meses (29/05/2012), releva o seguinte: entrada directa, para o 5º lugar, de Passos Coelho; manutenção firme nos dois primeiros lugares de Cavaco e Louçã; subidas de Relvas ao terceiro posto e Portas ao quarto; saída de Pacheco Pereira.

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