A ciência é algo maravilhoso e verdadeiramente importante: não apenas porque é a base da tecnologia moderna, e portanto de toda a economia moderna. Mas ainda por uma razão mais vital: ajuda-nos a purgar as nossas mentes de preconceitos, e assim permite-nos ver o mundo cada vez mais como ele é. Entre todas as grandes aventuras do homem na Terra, a ciência é a maior delas. É uma aventura maior do que escalar o Monte Everest ou circundar a Terra numa nave espacial; não tanto porque, sem a ciência moderna, a moderna tecnologia não seria possível (nem nenhuma das outras aventuras mencionadas), mas antes porque o desenvolvimento de novas ideias, de novas formas de pensar, é uma conquista revolucionária e histórica, a maior conquista humana.
Mas como podemos nós distinguir a ciência da não-ciência — por exemplo, das ideologias especulativas ou das especulações metafísicas ou da astrologia ou de certos sistemas religiosos?
Esta questão é de grande importância; de facto, é uma questão cuja solução afeta o destino da espécie humana. Porque os homens sempre estiveram prontos para lutar até à morte por aquilo que acreditam ser a verdade; e infelizmente estiveram frequentemente dispostos a perseguir, banir, torturar, e matar aqueles que consideraram os inimigos da verdade. E todos sabemos como frequentemente ambas as partes nestes conflitos religiosos ou ideológicos estavam enganadas.
Há muitas guerras religiosas e perseguições, desde as conquistas muçulmanas e as Cruzadas até aos nossos dias. Admite-se que tenham havido causas ou razões económicas por trás das razões religiosas: alguns cruzados tinham a intenção de regressar carregados com riquezas do Oriente. E possivelmente haverão outras razões económicas. Similarmente, alguns dos combatentes na Guerra Civil Americana para a libertação dos escravos negros devem ter tido motivos económicos. Mas ninguém pode negar que ideias como a ideia de liberdade e ideias religiosas tiveram também um papel importante na Guerra Civil. E isto quer dizer que os credos, ou convicções, religiosos ou ideológicos, foram importantes e também causas efetivas; esses acontecimentos foram influenciados pelo que esses homens julgavam saber, pelo que acreditavam ser a verdade.
A importância das ideias, credos ou convicções foi, claro, completamente reconhecida por Marx e pelos seus seguidores. De facto, todos os que escrevem um livro ou um artigo na esperança de poder influenciar algumas pessoas estão tacitamente, ou talvez inconscientemente, a reconhecer o poder das ideias e ideologias.
Assim, quaisquer que sejam as nossas visões sobre a relação entre ideias e condições económicas, não há qualquer razão para duvidarmos da força e da importância das ideias e ideologias — a força das crenças das pessoas ou, por outras palavras, daquilo que elas acreditam ser a verdade.
Mas o que as pessoas acreditam ser verdade é frequentemente falso: na maioria das disputas religiosas ou ideológicas ambas as partes estão erradas. Consequentemente, é importante para nós a distinção entre duas coisas: uma é aquilo que as pessoas acreditam ser verdade; e a outra é o que, de facto, é verdade. Esta distinção é obviamente muito importante, embora não seja fácil fazê-la. Se fosse fácil não haveria tanta gente que acredita conhecer a verdade, mas que está, de facto, errada.
É aqui que entra a ciência. Não porque a ciência seja sempre infalível — claro que não é — mas porque a ciência toma a busca da verdade como a sua principal tarefa, mesmo que a verdade choque com as nossas crenças, as nossas convicções pessoais, as nossas tradições, os nossos preconceitos.
Acabei de dizer que a ciência não é infalível. Se fosse infalível, não haveria revoluções científicas. No entanto, as revoluções científicas acontecem. Houve a revolução coperniciana — a revolução em que Copérnico substituiu o sistema geocêntrico do mundo pelo sistema heliocêntrico. Esta foi uma revolução científica, porque o antigo sistema geocêntrico de Ptolomeu estava consolidado cientificamente: era uma teoria complicada mas bem pensada do movimento das estrelas fixas e dos planetas em torno da Terra, e era capaz de produzir predições destes movimentos que eram tão boas quanto as de Copérnico.
Claro, o sistema de Ptolomeu estava errado: a Terra não é o centro do universo nem está em repouso. Mas depois, o sistema revolucionário de Copérnico estava também errado, embora não tanto quanto o de Ptolomeu. Porque apesar de Copérnico ter razão ao asseverar que a Terra tem um movimento de rotação, e que este planeta é um dos que roda em torno do sol, ele estava claramente errado ao dizer que o Sol estava em repouso e que o Sol era o centro do universo; sabemos hoje que o Sol também tem movimento de rotação, e acreditamos que o universo não tem nenhum centro. Além disso, Copérnico estava errado ao aderir à teoria enganosa de Ptolomeu que considerava que as órbitas dos planetas consistiam em círculos e epiciclos; porque sabemos, desde Kepler e Newton, que consistem, aproximadamente, em elipses e não em círculos.
Assim, não apenas Ptolomeu estava errado como também Copérnico. E Galileu, que foi um dos grandes cientistas,, estava também errado, dado que ele acreditava nos círculos e epiciclos de Copérnico. E o grande Kepler, que substitui os círculos e epiciclos por elipses, estava também errado; porque embora as órbitas dos planetas sejam aproximadamente elípticas, não são rigorosamente elípticas, como Newton mostrou; tal como a órbita de um satélite é aproximadamente, mas não precisamente, elíptica. Mais especificamente, um satélite que se mova para um lugar suficientemente longe da Terra e seja atraído por outro corpo, como a Lua ou, talvez, o Sol, ou Vénus, mover-se-á numa trajetória muito diferente da de uma elipse, de acordo com a teoria de Newton.
A teoria de Newton é maravilhosamente exata; no entanto, até esta teoria não é totalmente verdadeira. O planeta Mercúrio apresenta desvios da órbita newtoniana, que os astrónomos não foram capazes de explicar em termos da teoria de Newton. Foi preciso uma nova revolução científica para explicar isto; e a revolução einsteiniana foi simplesmente tão radical e excitante quanto foram as de Copérnico, Kepler e Newton.
Então a ciência não é certamente infalível. Comete frequentemente erros. Mas progride, e aproxima-se mais e mais da verdade: Copérnico e Galileu estavam certos em se oporem a Ptolomeu, porque o sistema de Copérnico estava mais próximo da verdade do que o sistema de Ptolomeu. Kepler estava certo em substituir os círculos de Copérnico por elipses, e Newton estava certo ao desenvolver uma teoria que foi mais longe que a de Kepler ao permitir a interação mútua entre planetas, e de facto, entre todos os corpos físicos. E Einstein estava certo na sua tentativa de melhorar o sistema newtoniano que tanto admirava, e em criticar o próprio Newton, que era, para Einstein, o maior de todos os cientistas.
Assim, todos os cientistas são falíveis, mesmo o maior de todos eles. Não há, portanto, uma autoridade real em ciência, embora, sem dúvida, haja grandes cientistas e outros menos grandes. O método principal que faz progredir a ciência é o método de criticar teorias científicas. E o progresso será tanto maior quanto mais importante e influente for a teoria criticada com sucesso — a teoria que precisa ser melhorada.
Consequentemente, os maiores cientistas — os responsáveis pelas mais importantes revoluções em ciência — são ao mesmo tempo os que criticaram com sucesso os seus grandes predecessores. Isto mostra que qualquer tipo de autoritarismo em ciência é não apenas absurdo, mas também altamente reacionário, pois impede o progresso científico.
A grande diferença entre as teorias científicas e as ideologias — por exemplo, ideologias religiosas — radica precisamente nisto: as teorias científicas estão sujeitas à crítica revolucionária, a qual conduz a um progresso igualmente revolucionário. As outras ideologias, por seu turno, são dogmáticas: consequentemente, qualquer tentativa de reformar uma religião ou uma ideologia conduz sempre a uma cisão — a um cisma entre fações opostas, e a uma luta pelo poder. E vice-versa: sempre que uma crítica revolucionária, ou uma ideia revolucionária, conduziu a cisões e a uma luta pelo poder, o espírito cientifico passou a estar ausente: o seu lugar foi ocupado por uma ideologia religiosa, dogmática ou metafísica.
Assim, podemos dizer que o espírito da ciência revela-se na atitude crítica e no anti-autoritarismo. Isto, e só isto, marca a diferença entre ciência e pseudociência, ou entre atitude científica e atitude pseudocientífica.
Mas não é o método da ciência principalmente um método de coletar observações e dados experimentais?
Não pode haver dúvidas sobre a importância das observações e das experiências para a ciência. Mas as observações e as experiências são sobretudo importantes porque podem ser usadas como argumentos críticos importantes e, por vezes, mesmo decisivos. A sua função é a de ajudar-nos na crítica e na eliminação das teorias erradas. Kepler, por exemplo, descreve com grande detalhe como rejeitava e inventava constantemente novas teorias, apenas para rejeitar de novo a mais recente, quando percebia que esta era incompatível com as observações de Tycho Brahe. Assim, podemos ver que ele usava estas observações apenas como testes: usava-as para confrontar, criticar, eliminar as suas teorias, mas nunca as usou como ponto de partida de uma teoria nova.
A situação nas ciências sociais é muito semelhante à das ciências naturais: inventam-se teorias, e tenta-se melhorá-las através de um criticismo severo. As observações voltam a desempenhar um papel importante, mas apenas como argumentos críticos: não podem ser usadas para descobrir novas teorias nem para estabelecê-las.
Quase não precisa ser dito que os grandes cientistas sociais são tão falíveis quanto os grandes cientistas naturais. E quase também não precisa ser dito que se nos abstivermos de uma atitude crítica nas ciências sociais e nos agarrarmos dogmaticamente às nossas teorias, então não apenas nos tornaremos reacionários no que diz respeito ao desenvolvimento da ciência, impedindo o progresso das ciências sociais, como as nossas teorias se tornarão não-científicas ou pseudocientíficas. Porque a principal diferença entre ciência e pseudociência radica na abordagem crítica — na prontidão com que abrimos mão de qualquer crença, por mais cara que nos seja, a partir do momento em que ela não resiste à crítica.
Um dos mais importantes e mais perigosos dogmas da ciência social é a ideia de que podemos prever o curso futuro da história. Claro que algum tipo de predições vagas são possíveis: podemos dizer que irão acontecer ciclos económicos em todos os países; que irão acontecer boas colheitas assim como más colheitas, tempos de progresso e tempos de estagnação. Mas isto são afirmações genéricas e, por isso, vazias: dificilmente precisamos de uma ciência social para nos dizer coisas deste tipo.
Mas há dogmas bem mais precisos e perigosos. Um dos mais perigosos é o dogma de que a guerra é inevitável entre países capitalistas e socialistas.
Este dogma é muito perigoso; porque se os líderes políticos de um país poderoso acreditarem que a guerra é inevitável, então esta sua crença pode facilmente ser um fator relevante que conduza à guerra.
Que uma crença, uma expectativa, uma predição, o simples medo podem trazer à luz do dia o que é acreditado, esperado, predito ou temido, é um fenómeno bem conhecido da vida social. Se um número suficiente de pessoas crer, expectar, predizer ou temer, que haverá uma escassez — digamos, de sapatos ou de batatas — então essas pessoas comprarão mais sapatos ou batatas do que fariam normalmente, fazendo assim com que a predita escassez aconteça, ou pelo menos contribuindo para isso. Da mesma forma, se um número suficiente de pessoas, ou de pessoas influentes, acreditar que uma guerra é inevitável, então essas pessoas não farão tudo o que é possível para evitá-la (dado que isto seria uma política fútil e irracional, de acordo com as suas crenças), antes vão preparar-se para ela, armar-se para ela. E ao não fazerem tudo o que é possível para evitá-la, e preparando-se para ela, podem realmente contribuir para que a guerra aconteça.
É portanto da maior importância para todos nós compreendermos que o dogma de que a guerra é inevitável não faz parte das descobertas de nenhuma ciência social crítica, embora possa fazer parte de uma ideologia metafísica com pretensões a ser ciência. Alguns cientistas sociais tentaram apresentar este dogma há anos; mas desde esses dias as condições sociais mudaram num sentido que nenhum cientista social poderia, possivelmente, prever. Nunca é de mais enfatizar que o mundo social muda constantemente como resultado de novas descobertas físicas e técnicas, e que algumas dessas descobertas não podem ser previstas: não podemos antever todas as grandes e revolucionárias descobertas da ciência física, e por isso não podemos antever o rumo que o crescimento do nosso conhecimento científico irá tomar.
Segue-se que nós não podemos antever o curso da história. É certo que podemos ver algumas das forças históricas em ação. No entanto, quem poderia antever, há cem anos, o desenvolvimento dos aviões supersónicos? Foi apenas em 1875 que um dos líderes científicos da Europa, Julius Robert Mayer, um dos descobridores do princípio da conservação de energia, declarou que o problema da construção de um dirigível era tão insolúvel como o da construção de uma máquina de movimento perpétuo. Ninguém pôde naquele tempo antever a rádio ou a televisão ou, mais importante, os grandes avanços na medicina; a conquista sobre a poliomielite, por exemplo, ou o desenvolvimento de novos métodos para o controlo da natalidade. E quem pode negar que estes desenvolvimentos técnicos e médicos imprevistos tiveram, e vão continuar a ter, grandes e inesperadas consequências sociais, políticas e históricas?
Mas se assim é, então é puro dogmatismo pseudocientífico afirmar que algo é inevitável — por exemplo, a guerra; ou a vitória política de um qualquer sistema social. E, claramente, é muito importante realçar o caráter pseudocientífico deste tipo de dogma, estabelecendo uma linha de demarcação entre a ciência crítica e a pseudociência dogmática; pois se as pessoas continuarem a acreditar que a previsão da guerra é científica, a sua crença pode levar-nos a uma catástrofe que poderia, de facto, ser evitada.
Torna-se então óbvio quão importante é reconhecer que a principal característica da ciência é, essencialmente, a atividade crítica, bem como reconhecer a falibilidade de toda a ciência e de todos os cientistas, incluindo os maiores.
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A nossa edição:
Karl Popper, After the Open Society, Routledge, London and New York, 2008, pp. 256-261.
Steven Koonin e o seu livro Unsettled, divulgado neste artigo. (Foto retirada de: https://clintel.org/fact-checking-steven-koonins-fact-checkers/). A opinião pública mainstream considera que as alterações climáticas provocadas pelo homem são uma realidade que não merece contestação. Steven Koonin mostra que, cientificamente, a influência humana sobre o clima está longe de estar estabelecida. É real, mas também muito difícil de avaliar e medir.
O texto que se segue baseia-se no livro de Steven E. Koonin, Unsettled – What Climate Science Tell Us, What it Doesn’t, and why it Matters, publicado em abril de 2021 (ainda não editado em Portugal) e, em linha com os restantes artigos da categoria “Livros”, é uma síntese deste importante e extremamente atual ensaio científico, contendo, em algumas passagens, citações literais (traduzidas por nós), não podendo, em consequência, ser considerado um texto crítico, antes um artigo de divulgação. Os títulos dos capítulos que se seguem são, inclusive, literalmente transpostos desta obra de Steven Koonin, um físico teórico do Caltech, especialista em clima e energia, e um dos mais conceituados cientistas americanos. Mãos à obra.
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Introdução
Apesar de ser verdade que o globo está numa fase de aquecimento, e que os humanos têm alguma influência nisso, sobretudo através da queima de combustíveis fósseis, não é possível confirmar cientificamente, antes pelo contrário, as notícias alarmistas que os media veiculam quase todos os dias, anunciando um desastre ecológico. A ciência climática envolve muitos campos científicos, abrangendo a física quântica das moléculas; a física clássica do ar em movimento, água e gelo; os processos químicos na atmosfera e nos oceanos; a geologia da terra sólida; e a biologia dos ecossistemas. O estudo climático também comporta o uso de tecnologias sofisticadas, incluindo a criação de modelos nos computadores mais rápidos do mundo, controlo remoto de satélites, análise paleoclimática (que estuda os climas antigos), e métodos estatísticos avançados. Finalmente, temos ainda as áreas relacionadas com a ciência climática — política, economia, e tecnologia energética — focadas na redução das emissões de gases com efeito de estufa. Este enorme leque de conhecimentos e metodologias fazem da ciência climática e energética a mais avançada, e também a mais complexa, atividade científica multidisciplinar.
As mais importantes avaliações sobre o clima vêm dos relatórios produzidos pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC – Intergovernmental Panel on Climate Change) das Nações Unidas, criado em 1988. O IPCC (manteremos ao longo do artigo os acrónimos em inglês) produziu o seu primeiro relatório de avaliação em 1990; o quarto relatório (denominado AR4) foi emitido em 2007; o quinto (AR5) em 2013, e o sexto (AR6) em 2021.1 O setor fundamental na elaboração de cada relatório é o chamado “Grupo de Trabalho I” (WG I), que lida com os aspetos físicos do sistema climático, particularmente as alterações observadas em décadas recentes, e com a forma como o clima responde às influências naturais e humanas. Outros grupos de trabalho baseiam-se nas avaliações do WG I para descrever os impactos de um clima em mudança e a resposta da sociedade a esses impactos. Cada grupo de trabalho prepara também uma Síntese para Decisores Políticos (SPM – Summary for Policymakers); uma síntese de todos os setores é também publicada. Além da série de relatórios de avaliação (AR), o IPCC também publica relatórios especiais mais restritos, como sejam “Eventos Extremos”2, “O Oceano e a Criosfera”3, ou “Alterações Climáticas e Terra”4.
Expressão
Probabilidade
Virtualmente certo (Virtually certain)
99-100% de probabilidade
Muito provável (Very likely)
90-100% de probabilidade
Provável (Likely)
66-100% de probabilidade
Tão provável como não provável (About as likely as not)
Escala de probabilidade de IPCC e expressões utilizadas nos relatórios de avaliação (AR).
O governo dos Estados Unidos também emite, independentemente, a sua série de relatórios de avaliação. A Lei de Pesquisa sobre Alterações Globais, de 1990, requer uma Avaliação Climática Nacional (NCA – National Climate Assessment) a cada quatro anos. Esses relatórios são produzidos pelo Programa de Pesquisa sobre Alterações Climáticas dos Estados Unidos (USGCRP)5. Os relatórios da NCA têm, em larga medida, os mesmos propósitos dos ARs do IPCC, embora com um foco maior sobre os Estados Unidos. O conteúdo das NCAs alinha-se, geralmente, com o dos ARs, mas podem ocorrer diferenças de ênfase e linguagem. As três primeiras NCAs foram publicadas em 2000, 2009 e 2014. A quarta, NCA 2014, compreende dois volumes. O volume I, focado na ciência climática física, foi publicado em novembro de 2017, tal como o “Relatório Especial sobre Ciência Climática” (CSSR – Climate Science Special Report)6. O volume II, publicado em novembro de 2018, trata dos impactos e riscos de um clima em mudança, bem como da forma como nos podemos adaptar a essas mudanças7. A quinta NCA é esperada em 2023.
Os AR e NCA são desenhados e revistos por processos semelhantes. A entidade patrocinadora (o IPCC ou o USGCRP) seleciona equipas de especialistas para cada capítulo dos relatórios. Essas equipas produzem esboços sucessivos que são melhorados em resposta a comentários de outros peritos; a NCA também se submete a uma revisão formal levada a cabo por um painel convencionado pelas academias nacionais americanas. O processo completo demora anos. Por exemplo, a primeira reunião dos autores responsáveis pelo AR6 teve lugar em junho de 2018, cerca de três anos antes da data prevista para publicação do relatório. Os relatórios de avaliação apresentam a ciência a não especialistas. Dada a quantidade enorme de autores e de revisões, qualquer leitor poderá, naturalmente, esperar que os relatórios de avaliação e os resumos da literatura de pesquisa são completos, objetivos, e transparentes – o “padrão ouro”. De acordo com Koonin, os relatórios vão de encontro a essa expectativa, e o próprio livro que Koonin escreveu é, em grande parte, baseado neles. Mas uma leitura atenta da maioria dos mais recentes relatórios de avaliação também revela algumas falhas elementares que enganam ou desinformam os leitores em pontos importantes. Quais são essas falhas, como surgiram, como os media as aceitam e divulgam, e o que pode ser feito para as corrigir constitui uma outra dimensão da história da ciência, que importa contar.
Isto mostra que as coisas são bastante mais complexas do que geralmente se pensa. Há, por exemplo, algumas conclusões retiradas dos relatórios de avaliação, quer os das agências governamentais dos Estados Unidos, quer os do IPCC que poderão surpreender muitas pessoas, e que contrariam as manchetes alarmantes e sensacionalistas que quotidianamente vemos na comunicação social. Eis algumas delas.
As ondas de calor nos Estados Unidos não são mais comuns agora do que eram em 1900.
As temperaturas mais elevadas não subiram nos últimos 50 anos nos Estados Unidos.
Os seres humanos não tiveram impacte detectável sobre os furacões nos últimos cem anos.
O lençol de gelo da Gronelândia não está a encolher, hoje, mais rapidamente do que há 80 anos.
O impacte económico global das alterações climáticas induzidas pelo homem será mínimo, pelo menos até ao final deste século.
1- O que se sabe sobre o aquecimento
Uma vez que o clima é definido por médias relativas a muitos anos, ele muda gradual e lentamente. É necessário, pelo menos, uma década de dados para se definir um clima, e duas ou três décadas mais para identificar uma mudança. Isto está, muitas vezes, para além da memória humana e, por isso, precisamos de registos para não nos equivocarmos. Porém, o que conquista a atenção popular são os eventos extremos, como tempestades e ondas de calor, embora o seu número e intensidade variem de ano para ano e seja a sua média, extraída ao longo de décadas, o que define o clima. A tendência de subida da temperatura tem causas diversas. Uma delas relaciona-se com a) a variabilidade interna do sistema climático – fluxos e refluxos durante décadas, maioritariamente associados às correntes lentas dos oceanos; depois, há b) os fenómenos naturais, como mudanças na luminosidade solar, que forçam (influenciam), por sua vez, mudanças no sistema climático; e, finalmente, de grande interesse para nós, há c) as mudanças e tendências que podem ocorrer devido às atividades humanas.
É de realçar que o termo “alterações climáticas” induz a muitas confusões. A convenção-quadro das Nações Unidas define assim “alterações climáticas”: … uma mudança no clima, atribuída direta ou indiretamente à atividade humana, que altera a composição da atmosfera ao nível global, a qual, em conjunto com a variabilidade natural observada durante períodos comparáveis…8
Esta definição exclui explicitamente as alterações devidas a causas naturais e consubstancia, hoje, o entendimento comum sobre o termo. Desta forma, quando as pessoas ouvem falar de “alterações climáticas”, assumem que se trata de alterações provocadas pelo homem. Paradoxalmente, ou não, a Terra arrefeceu um pouco entre 1940 e 1980, embora a atividade humana tenha aumentado, e é por isso vital perceber porque isso aconteceu, para percebermos também qual é efetivamente a influência humana e que mudanças poderão ocorrer no futuro. Por outro lado, o aquecimento global nos últimos 40 anos não é uniforme. A superfície terrestre aquece mais rapidamente que a superfície dos oceanos e as altas latitudes perto dos polos estão a aquecer mais rapidamente que as baixas latitudes perto do equador. Em geral, as temperaturas mais frias (à noite, durante o inverno, etc.) estão a subir mais rapidamente que as temperaturas mais quentes – o clima está ficando mais suave à medida que o globo aquece.
É claro que há outras coisas importantes para o clima, para além das mudanças de temperatura na superfície ou mesmo mudanças na atmosfera. De facto, a atmosfera é uma parte relativamente menor de um muito maior e mais complexo sistema que inclui a água (oceanos, lagos, etc.), neve e gelo, em terra e no mar, a terra sólida, e coisas vivas (micróbios, plantas, animais e humanos). Os oceanos, cuja profundidade média é de 3.700 metros, são a parte mais importante e mais problemática do sistema climático da Terra. Eles detêm mais de 90% do calor climático e são a sua memória de longo prazo. As condições na atmosfera variam, de dia para dia e de ano para ano, em resposta a um grande número de influências. Os oceanos, por seu turno, mudam, e respondem a mudanças, em décadas ou séculos.
Não é fácil recolher dados úteis dos oceanos para avaliar as alterações climáticas, mas a situação melhorou muito a partir do ano 2000, com a criação do programa Argo9 – robôs à deriva nos oceanos para registarem as suas propriedades – que atingiu cobertura global em 2005, com cerca de 3500 em atividade, operando a 1 km de profundidade, mas descendo de 10 em 10 dias a 2 km, para medirem a temperatura e a salinidade, subindo depois à superfície para transmitirem os dados via satélite, antes de regressarem à sua posição normal a 1 km de profundidade. Apesar da dificuldade em recolher dados nos oceanos antes do Argo, é possível dizer que, de facto, os oceanos têm vindo a aquecer, embora muito modestamente (centésimas de grau por década), logo, o planeta também. É difícil, porém, avaliar a influência humana nesta tendência, uma vez que a subida é constante, mesmo em épocas de menor atividade humana, como sejam os anos entre 1921 e 1946.
Há 20 mil anos a Terra começou a aquecer (cerca de 5º) o que permitiu, desde há 10 mil anos, um rápido desenvolvimento da civilização. Desde há milhões de anos, a Terra alterna períodos de rápido aquecimento com períodos de lento arrefecimento. Estas variações são devidas a pequenas alterações da órbita da Terra em torno do Sol e na inclinação do eixo terrestre. O mais recente período de aquecimento, antes do atual, começou há cerca de 127 mil anos e durou 20 mil anos. Nessa altura a superfície terrestre era até 2º-3º mais quente do que é hoje. Em suma, a questão não é a de saber se a Terra está a aquecer – o que é afirmativo – mas saber qual a influência que os humanos têm nesse aquecimento – o que é difícil de avaliar.
2- Fraca influência humana
A temperatura da Terra resulta do balanço entre o aquecimento devido à luz solar e o arrefecimento derivado do calor irradiado para o espaço. Do lado do aquecimento temos a energia solar que o planeta absorve. À medida que aquece, a Terra emite radiação infravermelha para o espaço, o que aumenta a parte de arrefecimento do balanço. A lei Stefan-Boltzmann, descoberta por volta de 1880 por dois físicos a trabalhar na Áustria, diz-nos que a quantidade de radiação infravermelha que um objeto emite aumenta com a temperatura, de uma forma proporcional e bastante precisa. Assim, à medida que a temperatura do planeta aumenta devido ao aquecimento solar, o arrefecimento devido à radiação infravermelha emitida também aumenta, até o arrefecimento infravermelho ser igual ao aquecimento solar. O termo técnico para esta condição goldilock – quando o planeta não ganha nem perde energia e a sua temperatura é estável – é radiative equilibrium.
Olhemos mais atentamente para ambos os lados deste balanço. Uma vez que a Terra não é completamente negra, ela absorve apenas 70% da luz solar que a atinge. Aos 30% refletidos chama-se albedo, (do latim albus, que quer dizer “branco”). Quando o albedo é mais elevado, a Terra reflete mais luz solar e por isso fica um pouco mais fria e, claro, quando o albedo é mais fraco, a Terra absorve mais luz solar e, logo, fica mais quente. Apesar da média do albedo terrestre ser de 30%, o valor do mesmo num determinado momento depende de que parte da planeta está virada para o Sol (os oceanos são escuros, a parte terrestre é mais brilhante, as nuvens mais brilhantes ainda, e a neve e o gelo são ainda mais brilhantes), e a média mensal varia cerca de 0,01 com as estações (maior em março e menor em junho/julho). A precisão com que se mede o albedo é importante para compreendermos o sistema climático. Se o albedo médio aumentasse de 0,30 para 0,31, devido, por exemplo, a um aumento de 5% da nebulosidade, essa reflexividade adicional compensaria largamente a influência de um aumento para o dobro do CO2 presente na atmosfera.
Existem satélites que medem o albedo, mas há um projeto da JASON que pretende cobrir todo o globo com pequenos satélites para que se consiga medir o albedo com maior precisão. Um método mais antigo, mas ainda assim muito interessante, foi usado por André Danjou, um astrónomo francês, no início dos anos de 1930. Consistia em, através de um filtro apropriado, detetar o brilho da luz solar que incide na Terra, refletida na parte escura da Lua, quando esta está em quarto crescente. Compreender as mudanças da luz, refletida da Terra, na Lua pode ser muito útil para estudar outros planetas que orbitam outras estrelas, os quais são visíveis pela luz que refletem.10
Conhecendo o albedo da Terra (a média do globo e os ciclos diários e sazonais), poderemos determinar o seu equilíbrio de temperatura, através do balanço entre a luz solar absorvida contra o arrefecimento dos infravermelhos. Como vimos, o arrefecimento aumenta ao mesmo tempo que a temperatura aumenta – se a Terra ficar mais quente, os infravermelhos libertam mais calor – funcionando como uma espécie de termostato. Calcular o valor deste equilíbrio – a temperatura média da superfície terrestre – constitui o problema básico de qualquer curso sério dedicado ao clima. Esse valor é de -18ºC (0ºF). Mas este valor está errado, muito abaixo de verdadeiro valor médio global de temperatura, que é de 15ºC (59ºF). O que falta é o isolamento provocado pelos gases com efeito de estufa presentes na atmosfera, os quais fazem subir a temperatura da superfície terrestre para o valor observado. Os gases com efeito de estufa funcionam como as roupas isolantes que os exploradores dos polos terrestres usam. Impedem o calor de sair, e os infravermelhos são impedidos de viajar para o espaço.
Os gases mais comuns presentes na atmosfera terrestre são o nitrogénio (78%) e o oxigénio (21%). Juntos, eles constituem, portanto, 99% da atmosfera seca, e devido às peculiaridades das suas estruturas moleculares, o calor passa facilmente através deles. A maior parte do restante 1% é o gás inerte árgon. Mas, embora ainda menos abundantes, alguns dos outros gases – sendo os mais significativos o vapor de água, o dióxido de carbono, o metano, o óxido nitroso e o ozono – intercetam, em média, cerca de 83% do calor emitido pela superfície terrestre11. Destes gases, o que mais contribui para o efeito de estufa é o vapor de água (+ de 90%), depois, o dióxido de carbono (7%) e, finalmente, todos juntos, metano ozono e óxido nitroso, entre outros, com mais ou menos 3%.
Desde 1750, a concentração de dióxido de carbono aumentou de 0.000280 ppm (partes por milhão) até 0.000410 ppm em 2019, continuando a crescer 2.3 ppm a cada ano. Embora a maior parte da concentração de CO2 seja natural, não há dúvida de que este crescimento resulta da atividade humana, sobretudo da queima de combustíveis fósseis. O aumento de CO2 faz com que o efeito de estufa seja maior e a fração de calor intercetado, que era em 1750 de 82,1%, é hoje de 82,7%. Se duplicássemos a concentração de CO2 de 1750, que como vimos era de 280 ppm, isso resultaria numa concentração de 560ppm, a qual aumentaria a capacidade de interceção do calor para 83,2% (isto em condições de céu limpo, porque as humidade, temperatura, nebulosidade, entre outras, têm influência sobre o calor intercetado). Um tal aumento corresponderia apenas a um incremento de 2,8 moléculas de CO2 por 10 mil moléculas de ar.
A primeira questão que aqui se coloca é a de saber como é que um aumento de menos de 3 moléculas em 10.000, ou seja, um aumento de apenas 0,03%, provoca um aumento 30 vezes maior (1%) na interceção do calor libertado pela Terra em forma de radiação infravermelha. Isto acontece porque a radiação é emitida e dispersada em diferentes comprimentos de onda. Pensemos nestes comprimentos de onda como “cores”, embora não captáveis pelos nossos olhos. O vapor de água, o mais importante gás para o efeito de estufa, interceta apenas algumas cores, mas porque bloqueia quase cem por cento destas, acrescentar mais vapor de água à atmosfera não tornará o isolamento mais forte – seria como acrescentar uma camada a uma janela já pintada de preto. Mas isto não acontece com o dióxido de carbono. Esta molécula interceta algumas cores que o vapor de água não atinge, o que quer dizer que poucas moléculas de CO2 podem ter um efeito muito maior (como uma primeira demão de preto numa janela não pintada).
No entanto, embora o efeito da concentração atual de CO2 seja importante (7,6%), a sua duplicação não altera substancialmente as coisas (um aumento de 0,8%) devido ao efeito de “pintar uma janela preta”, já referido. Isto leva-nos à segunda questão. Porque é que um aumento tão modesto, de cerca de 1%, pode ter tanta importância? Acontece que os modelos do IPPC nos dizem que a duplicação dos níveis de CO2 desde os tempos pré-industriais – causando a mudança de 1% na interceção do calor, já discutida atrás – deve aumentar a temperatura da superfície terrestre em cerca de 3ºC (5,5ºF). Uma vez que a temperatura média da superfície terrestre é de 15ºC (59ºF), um aumento de 3ºC representa um aumento de 20% (3ºC em 15ºC). Mas, na escala Fahrenheit, esta mudança é de 5,5ºF, retirada da média de 59ºF, um aumento de 10%. Ora, porque é que a percentagem de subida da temperatura depende da escala que usamos? Como pode uma subida de 1% na captura de calor produzir um tal efeito colateral?
O problema está mesmo na escala que usamos, seja a de Celsius ou a de Fahrenheit, ambas adstritas às propriedades da água – que gela a 0ºC (32ºF) e ferve a 100ºC (212ºF). Ora, a lei Stefan- Boltzmann que, como vimos, descreve a relação entre o calor irradiado pela Terra e a sua temperatura, baseia-se em temperaturas absolutas, que são medidas pela escala de Kelvin, adstrita ao zero absoluto – a temperatura em que a matéria está tão fria que não emite qualquer calor (0K = -273,15ºC ou 459,67ºF). Assim, a temperatura média da superfície terrestre é de 15ºC (59ºF) a que correspondem 288K. A uma subida de 3ºC (5,5ºF) corresponde uma subida de 3K (as escalas Celsius e Kelvin têm intervalos iguais), o que, sobre 288, dá o valor correto de 1% na capacidade de a atmosfera intercetar o calor quando a concentração de CO2 é duplicada. Deste modo, na escala apropriada, a influência humana revela-se muito modesta.
Mas nem todas as influências humanas provocam aquecimento. Os aerossóis, por exemplo, são finas partículas na atmosfera que refletem a luz solar e formam nuvens refletivas. Juntamente com alterações nos terrenos, com a desflorestação (pastagens são mais refletivas que florestas) aumentam o albedo e exercem uma influência para o arrefecimento que anula cerca de metade do aquecimento provocado pelos gases com efeito de estufa. Causas naturais, como os vulcões, que lançam aerossóis para a atmosfera, onde podem permanecer durante vários anos, também contribuem para o arrefecimento. Mudanças na intensidade solar (originadas pela sua variabilidade interna) podem também alterar a quantidade de luz solar que atinge a Terra. Tudo isto torna complicado avaliar as dimensões natural e humana no que diz respeito ao delicado equilíbrio energético do planeta. A maior influência humana sobre o sistema climático prende-se com a emissão de gases com efeito de estufa. Mas a relação entre essa emissão e a influência que ela tem no clima é mais complicada do que se poderia imaginar.
3- Emissões explicadas e extrapoladas
Dos gases com efeito de estufa que sofrem influência da atividade humana, os mais importantes são o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4). Apesar do nosso foco estar centrado na redução de emissões, a correspondência entre concentração e emissão não está, de forma alguma, bem estabelecida. A emissão de CO2 pelos humanos é modesta, no contexto do ciclo natural de carbono que se move sobre a crosta terrestre – oceanos, plantas e atmosfera. Como veremos, o aumento de CO2 provocado pelo homem aumentará, sob qualquer cenário, durante décadas. Mas, apesar da precisão reclamada pelos modelos climáticos, o seu impacto é largamente incerto.
Comecemos pelo princípio. A Terra foi formada há 4,5 mil milhões de anos, com uma dotação fixa de carbono. Esse carbono encontra-se hoje em diversos locais no planeta, nos chamados “reservatórios”. O maior reservatório é de longe a crosta terrestre, que contém quase todo o carbono do planeta, cerca de 1,9 mil milhões de gigatons (1 gigaton, Gt, são mil milhões de toneladas). A segunda maior quantidade, cerca de 40 mil Gt, está nos oceanos, quase todo abaixo da superfície. Há também cerca de 2.100 Gt armazenados nas terras, solos e coisas vivas, e 5.000-10.000 Gt em combustíveis fósseis debaixo dos fundos terrestres e marinhos. Os 850 Gt de carbono presente na atmosfera, quase todo na forma de dióxido de carbono, corresponde a cerca de 25% do carbono presente na, ou perto da, superfície terrestre (em solos, plantas e oceanos pouco profundos), mas representa apenas 2% do carbono presente nos oceanos.
Poderosos processos naturais movimentam o carbono terrestre entre esses reservatórios, transformando frequentemente a sua fórmula química. O mais importante destes processos é o fluxo sazonal de cerca de 1/4 do carbono da atmosfera para as plantas em crescimento – que usam a fotossíntese para transformar o CO2 da atmosfera em matéria orgânica, que depois regressa à atmosfera através da respiração das plantas e à medida que essa matéria orgânica decai. Outros processos bastante mais lentos transportam o carbono da superfície para as profundezas dos oceanos e depois transformam-no em rochas, tais como calcário e mármore, formadas a partir de conchas de animais marinhos.
O CO2 emitido através da queima de combustíveis fósseis altera o equilíbrio deste grande ciclo anual, uma vez que o carbono é retirado das profundezas dos solos onde estava isolado através deste processo natural. O uso de combustíveis fósseis aumenta em 4,5% o carbono que circula no ciclo anual. Cerca de metade deste aumento é absorvido pela superfície terrestre (a subida de CO2 fez aumentar bastante a vegetação do planeta) e o remanescente fica na atmosfera, aumentando por esta via a concentração de CO2. Há 5 linhas independentes que provam a influência humana no aumento da concentração de CO2 nos últimos 150 anos, por isso nenhum cientista contesta essa influência:
as concentrações ao longo dos últimos 10 mil anos variaram entre 260 e 280 ppm, antes de uma forte subida ter ocorrido em meados do século XIX.
esta subida é o que seria expectável pela queima de combustíveis fósseis.
esta subida é antecipada em 2 anos no hemisfério norte, onde a queima de combustíveis fósseis é maior, relativamente ao hemisfério sul.
a subida do carbono é de um tipo de carbono “leve” 12C, presente nos seres vivos, cujos restos são, como se sabe, os constituintes dos combustíveis fósseis.
o oxigénio está a diminuir – embora muito levemente e sem consequências para os humanos – em proporção correspondente ao necessário para transformar o carbono fóssil em CO2.
No entanto, a concentração de CO2 já foi muitíssimo maior do que a que existe hoje. Apenas no período permiano, há 300 milhões de anos, o nível de CO2 era idêntico ao de hoje. De resto, foi sempre muito superior, e apenas há cerca de 175 milhões de anos começou a decrescer até ao século XIX. Nessa altura, em que os níveis de CO2 eram cinco ou dez vezes superiores aos de hoje, a vida de plantas e animais era florescente. Mas eram animais e plantas diferentes. A vida na Terra está agora adaptada a baixos níveis de CO2. O dióxido de carbono é o único gás com efeito de estufa provocado pelo homem com larga influência no clima. E motiva preocupação porque persiste no ciclo atmosfera/superfície terrestre por muito tempo. 60% do CO2 que é produzido hoje permanecerá na atmosfera por mais 20 anos; 30% a 50% permanecerá por um século; e entre 15 a 30% manter-se-á na atmosfera mais de mil anos. Isto quer dizer que pequenas reduções na emissão de CO2 apenas abrandarão o aumento da concentração de CO2 na atmosfera, mas não o anulam. Para estabilizar essa concentração, e consequentemente a sua influência no aquecimento terrestre, teríamos de parar por completo as emissões.
O metano é o segundo gás com efeito de estufa mais importante, no que diz respeito à influência humana. Tem vindo a subir consistentemente desde o início dos anos 80 do século XX, embora um “planalto”, entre 1998 e 2008, intrigue os cientistas e constitua mais uma incerteza no seio da ciência climática. Mas a subida do metano vem de muito mais longe, pelo menos desde há 4 mil anos. As principais diferenças entre o metano e o CO2 são as seguintes.
O metano tem uma concentração na atmosfera muito menor (2.000 partes por bilhão – mil milhões em português – enquanto o CO2 tem cerca de 400 partes por milhão).
O metano dura apenas 12 anos na atmosfera, embora, depois disso, reações químicas o convertam em CO2.
Devido às peculiaridades de como as moléculas interagem com as diferentes cores da radiação infravermelha, cada molécula adicional de metano na atmosfera é 30 vezes mais potente do que a molécula de CO2 no que diz respeito ao efeito de estufa.
As principais fontes de metano na atmosfera são os gases emitidos pelo gado, através da fermentação interna nos seus corpos (29%)12; petróleo e gás (20%); cultivo de arroz (10%); águas residuais (9%); estrume, mineração de carvão, decaimento de materiais em aterros, entre outros.
O futuro do clima terrestre será determinado pela resposta climática, quer à influência humana quer à influência natural, quer à sua variabilidade interna. Vulcões, o Sol e as correntes oceânicas profundas têm mentes próprias, tal como o clima em si mesmo. Quanto a isto, podemos fazer pouco, mas podemos ter uma noção sobre o que os humanos farão nos próximos anos, particularmente no que diz respeito às emissões de gases com efeito de estufa e aerossóis. Face às grandes incertezas sobre as décadas que aí vêm, em vez de fazer previsões credíveis, o IPPC cria cenários que têm o nome complicado de Representative Concentration Pathways ou, simplesmente, RCPs. Um ponto principal a retirar de qualquer cenário é que a influência humana continuará a crescer no curto prazo, mesmo que cessem na totalidade as emissões. Em suma, não é só difícil isolar a influência humana dentro do complexo sistema climático, mas também a relação entre emissões e concentrações na atmosfera torna extremamente difícil moderar as nossas influências.
4- Muitos modelos confusos
Para tentarem perceber como as coisas se vão desenrolar, os cientistas criam em computador os seus famosos modelos. Mas o que são exatamente os modelos climáticos? A resposta curta é que são programas de computador que correm sob simulações matemáticas do sistema climático. Tal como o estatístico George Box, da universidade de Wisconsin, disse em 1978: Todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis. Um problema básico dos modelos climáticos é deduzível das dificuldades atuais das previsões meteorológicas, que não conseguem uma precisão superior a 15 dias, apesar de serem hoje muito mais precisas do que eram há 30 anos. Este problema fundamental foi descrito em 1961 por Ed Lorenz, do MIT. O tempo é caótico e pequenas alterações ao modo como iniciamos o nosso modelo podem conduzir a predições muito diferentes após poucas semanas. Então, não importa quão acuradamente podemos especificar as condições presentes, a incerteza das nossas predições cresce exponencialmente à medida que as projetamos no futuro. Computadores mais poderosos não podem ultrapassar esta incerteza básica.
Todos os modelos climáticos computorizados começam através da cobertura da atmosfera com uma rede tridimensional, tipicamente dez a vinte camadas de caixas empilhadas acima da rede de superfície, em quadrados de 100X100 quilómetros. A rede que cobre os oceanos é semelhante, mas menor, tipicamente 10X10 quilómetros, e mais camadas verticais (até 30 camadas). Com a totalidade da Terra coberta desta forma, há cerca de um milhão de caixas desta rede para a atmosfera e 100 milhões de caixas para o oceano. Uma vez estabelecida esta rede no terreno, os modelos de computador usam as leis da Física para calcular como o ar, água e energia em cada caixa, num dado momento, se movem para as caixas de rede vizinhas, um pouco mais tarde; este lapso de tempo pode ser tão curto quanto dez minutos. Repetindo este processo milhões de vezes, simula-se o clima para um século (pouco mais de 5 milhões de vezes se o lapso de tempo for de 10 minutos). Estes inúmeros lapsos de tempo numa simulação podem dar trabalho, mesmo ao mais poderoso computador do mundo, durante meses. Os investigadores podem alternar entre estes diferentes fatores, dependendo do propósito do modelo em questão. Um dos desafios maiores destes modelos é que apenas usam valores únicos para a temperatura, a humidade, etc., para descrever as condições no interior de uma caixa de rede.
No entanto, vários fenómenos importantes ocorrem numa escala menor do que os 100 kms (60 milhas) das caixas, tais como montanhas, nuvens e trovoadas, e por isso os investigadores têm de construir sub redes para construírem um modelo completo. Por exemplo, fluxos de luz solar e de calor através da atmosfera são influenciados pelas nuvens. Estas desempenham um papel crucial – dependendo do tipo e formação, as nuvens refletem a luz solar ou intercetam o calor, em quantidades variáveis.
Então, porque não construir caixas mais pequenas? Infelizmente, isso iria aumentar dramaticamente a dimensão da computação, desde logo porque teríamos muito mais caixas de rede com que lidar. Mas, além do número de caixas, uma rede mais fina introduz um outro problema: a computação só será acurada se as coisas não mudarem demasiado dentro de um lapso de tempo (ou seja, se não se moverem para lá de uma única caixa de rede). Assim, se a rede for mais fina, o lapso de tempo tem igualmente de ser menor, exigindo mais tempo de computação. Para ilustrarmos isto, uma simulação que dure dois meses para uma rede de 100 kms quadrados, levaria mais de um século se usássemos uma rede de 10 kms quadrados. Este tempo poderia ser reduzido para os mesmos dois meses se tivéssemos um supercomputador cem vezes mais rápido que os atuais – uma capacidade talvez disponível dentro de duas ou três décadas, mas não hoje.
Outro problema que se levanta prende-se com a forma como a nossa grelha divide a Terra em pedaços verticais versus horizontais. A atmosfera e os oceanos são ambos como finas conchas que cobrem a superfície terrestre – a profundidade média dos oceanos (4 kms) é muito pequena quando comparada com o raio da Terra (6.400 kms), bem como a altura da atmosfera (cerca de 100 kms). Para descrever com precisão as variações verticais, as várias dezenas de caixas empilhadas são mais parecidas com panquecas do que com cubos, centenas de vezes maiores em largura do que em altura13. Em geral, as simulações são mais acuradas nas partes superiores da pilha de “panquecas”, mas estas caixas achatadas tornam-se um problema nas partes da atmosfera abaixo dos 10 kms, onde o tempo turbulento ocorre. As trovoadas têm lugar em áreas muito menores do que os 100 kms da nossa rede. Isto é particularmente importante nos trópicos, onde há um significativo fluxo de energia e vapor de água, transportados para a atmosfera pela evaporação da água dos oceanos. Deste modo, são necessárias sub redes que assumam esta “convecção húmida” – a forma como o ar e o vapor de água se movem verticalmente através das caixas achatadas – para se construírem modelos fiáveis. De facto, a maior incerteza da modelagem climática decorre do tratamento das nuvens.14
Qualquer simulação precisa também de ser “iniciada”, ou seja, precisamos de alguma forma especificar as condições do oceano e da atmosfera no início do primeiro lapso de tempo: temperatura, humidade, ventos, etc., em cada caixa da atmosfera, bem como temperatura, salinidade, correntes, etc., em cada caixa de rede do oceano. Infelizmente, mesmo com os meios sofisticados de observação existentes, esse tipo de detalhe não está ao nosso alcance, muito menos estaria nas décadas passadas. Além disso, o nível caótico da simulação tornaria a maioria dos detalhes irrelevantes passadas duas ou três semanas. Assim, a etapa inicial (1º lapso de tempo) capta apenas de forma grosseira as condições de partida. Em cada evento, por razões práticas e fundamentais, é impossível ajustar dezenas de parâmetros para que o modelo corresponda às muito mais numerosas propriedades observadas do sistema climático. As nossas limitações não nos permitem entender as características do clima, nem sequer perto dos níveis de especificidade exigidos.
Entre as coisas mais importantes que um modelo tem de considerar estão os chamados feedbacks. O crescimento da concentração de gases com efeito de estufa que provocam o aquecimento global pode também causar outras mudanças no sistema climático, as quais podem ampliar ou diminuir a sua própria influência nesse aquecimento. Por exemplo, à medida que o globo aquece, há menos neve e gelo na superfície terrestre, o que provoca a diminuição do albedo terrestre. A Terra menos reflexiva irá então absorver mais luz solar, causando ainda mais calor. Um outro exemplo de um feedback é que, à medida que a atmosfera aquece, vai carregar mais vapor de água, o que vai aumentar bastante a sua capacidade de intercetar o calor libertado. Mas mais vapor de água vai também transformar a cobertura de nuvens, aumentando quer a interceção de calor (nuvens altas) quer a reflexividade (nuvens baixas). Neste balanço ganha a reflexividade, e o feedback da rede de nuvens, de alguma forma, diminui o aquecimento direto.
É por tudo isto que os ajustamentos (tuning) são necessários mas perigosos, quer nos modelos climáticos, quer em qualquer sistema complexo. Um artigo de 15 proeminentes cientistas do clima põe as coisas nestes termos:
As escolhas e os compromissos feitos durante os ajustamentos podem significativamente afetar os resultados do modelo… Em teoria o tuning deveria ser levado em conta em qualquer avaliação, comparação ou interpretação dos resultados do modelo… Porquê uma tal falta de transparência? Isto pode acontecer porque a “sintonização” é frequentemente vista como uma parte suja, embora inevitável, da modelação climática, mais engenharia que ciência, um ato de desafinação que não merece ser registado na literatura científica. Também pode haver alguma preocupação em explicar que os modelos são ajustados, pois isto pode fortalecer os argumentos daqueles que questionam a validade das projeções sobre mudanças climáticas. Os ajustamentos podem ser vistos, sem dúvida, como uma inconfessável forma de compensar os erros dos modelos.15
Acresce a tudo isto que os resultados dos diferentes modelos divergem entre si, sendo que, quanto à temperatura média da superfície terrestre, chegam a divergir em 3ºC. Isto é particularmente chocante se tivermos em consideração que 3ºC são três vezes maiores que o valor de aquecimento observado durante o século XXI, valor esse que os próprios modelos buscam explicar e descrever. Dois modelos cuja temperatura de superfície média varie deste modo vai igualmente variar bastante nos seus detalhes. Por exemplo, uma vez que não é possível ajustar a temperatura de congelamento da água (determinada pela natureza), a quantidade de neve e gelo que cobrem a Terra, e consequentemente os albedos, podem ser muito diferentes.
Dado que nenhum modelo bate certo, o resultado médio dos relatórios de avaliação é deduzido de um “conjunto” de algumas dezenas de modelos de diversos grupos de pesquisa espalhados pelo mundo. O CMIP (Coupled Model Intercomparison Project) compila estes conjuntos. O conjunto CMIP3 está na base do relatório de avaliação AR4 do IPCC; por sua vez o CMIP5 sustenta o relatório AR5, de 2013, enquanto o CMIP6 fundamentará o relatório de avaliação conhecido por AR616. Surpreendentemente, alguns dos atuais modelos são menos precisos que modelos antigos, apesar de mais sofisticados. O próprio IPCC, embora numa linguagem asséptica, reconhece não ter ideia do que causa as falhas nos modelos, nomeadamente quando previram metade do aquecimento realmente observado entre 1910 e 1940. Isto é altamente problemático porque o aquecimento observado no início do século XX é comparável ao observado no final do século, o qual, de acordo com os relatórios de avaliação, é atribuído com “elevada confiança” à influência humana. O IPCC reconhece que é difícil quantificar as contribuições da variabilidade interna, das forças naturais ou antropogénicas para este aquecimento.17
A variabilidade interna que o IPCC refere como difícil de quantificar, embora considerado um assunto menor, é de facto um grande problema. Observações climáticas mostram claramente comportamentos repetidos ao longo de décadas e mesmo séculos. Pelo menos alguns deles devem-se a lentas mudanças nas correntes oceânicas e à interação entre o oceano e a atmosfera. O exemplo mais conhecido é o dos fenómenos associados ao El Niño (tecnicamente, El Niño -Southern Oscilation), uma alteração no calor ao longo da região equatorial do Oceano Pacífico, que ocorre irregularmente entre 2 a 7 anos e influencia a meteorologia mundial. Um comportamento lento menos conhecido é a “Oscilação Multidecadal do Atlântico” (Atlantic Multidecadal Oscilation – AMO), que envolve mudanças cíclicas de temperatura (entre 60 a 80 anos) no Atlântico Norte. O Oceano Pacífico mostra um similar, embora não relacionado, comportamento cíclico de cerca de 60 anos. Dado que temos apenas 150 anos de boas observações e registos, comportamentos sistemáticos que ocorrem em escalas de tempo maiores são menos conhecidos – mas podem existir (e quase de certeza que existem) outras variações cíclicas naturais, que ocorrem ao longo de períodos ainda maiores.
Estes ciclos influenciam o clima aos níveis regional e global e sobrepõem-se a qualquer tendência, humana ou natural, como a emissão de gases com efeito de estufa ou os aerossóis de origem vulcânica, e tornam difícil determinar que mudanças observadas se devem à influência humana ou à influência natural. O falhanço, mesmo dos modelos mais recentes, para justificar o rápido aquecimento ocorrido nos anos iniciais do século XX sugere, torna mesmo provável, que a variabilidade interna – os fluxos e refluxos naturais dos sistemas climáticos – tenha contribuído significativamente para o aquecimento que vem ocorrendo nas últimas décadas. O facto de os modelos não conseguirem reproduzir o passado constitui um grande cartão vermelho e degrada a confiança em projeções futuras. Isto reflete-se no ECS – Equilibrium Climate Sensitivity, ou seja, no valor em que subirá a temperatura média da superfície terrestre se a concentração de CO2 hipoteticamente duplicar os 280 ppm da época pré-industrial. Se as emissões se mantivessem ao ritmo atual, essa duplicação aconteceria até ao final deste século. O que acontece é que esse valor não tem agora um grau de certeza maior do que tinha em 1979 (o valor estimado nessa altura era de 3ºC.)
Os modelos dão-nos valores diferentes, que vão dos 2ºC até aos 5,5ºC. Estes altos ECS parecem resultar da sub-rede que inclui a interação das nuvens com os aerossóis nos modelos, algo que não é bem compreendido, mas que inibe o aquecimento, ao aumentar o albedo da Terra. Por outras palavras, os investigadores ajustam os seus modelos ao que eles pensam corresponder ao aumento dos gases com efeito de estufa, ou seja, cozinham os resultados. Num artigo publicado em julho de 2020, vinte cientistas combinaram as abordagens verticais e em grade (juntamente com algumas informações observacionais e de períodos antigos) na tentativa de definir a sensibilidade do clima. Os autores encontraram um intervalo provável para o ECS de 2,6 a 4,1º C, metade do estimado pelo AR5 (1,5-4,5ºC), o que significa que valores extremamente baixos ou extremamente altos são considerados pouco prováveis.18 Não surpreende que tenhamos uma pobre compreensão sobre como o clima vai responder ao aumento das concentrações de gases com efeito de estufa. Quanto mais aprendemos sobre o sistema climático, mais temos noção do quão complicado ele é.
5- Exagerando no calor
O que vemos quase diariamente na comunicação social são notícias sobre secas, incêndios, cheias, tempestades, etc., “sem precedentes”. Dado que a memória humana é relativamente curta, a maioria das pessoas acredita. Mas a ciência conta-nos uma história diferente. Observações desde há um século indicam que a maioria dos fenómenos meteorológicos extremos não mostram qualquer tendência significativa, e alguns destes eventos tornaram-se, na realidade, menos comuns e severos, mesmo com o aumento da influência humana sobre o clima.
Por outro lado, é difícil detetar mudanças em eventos extremos, bem como atribuí-los à influência humana, devido à baixa qualidade dos registos históricos, à elevada variabilidade natural, a influências naturais difíceis de determinar, e ao desacordo sobre os inúmeros modelos usados. Sobre a dificuldade em determinar a influência humana, a Organização Meteorológica Mundial coloca de forma clara a questão: cada evento, por exemplo um ciclone tropical, furacão ou tufão, não pode ser atribuído a mudanças climáticas provocadas pelo homem, tendo em conta o conhecimento científico atual.19
Nos Estados Unidos, país que tem os registos mais extensos e de maior qualidade sobre a temperatura, os recordes de baixas temperaturas são agora menos comuns, e os recordes diários de temperaturas mais altas não são mais frequentes hoje do que eram há um século. Porque temos então a sensação de que as temperaturas extremas estão a aumentar? Uma das razões é que os relatórios são objeto de múltiplas revisões. Por questões ideológicas, muitas vezes, os dados são deturpados. Por exemplo, um quadro apresentado pelo CSSR – Climate Science Special Report (Relatório Especial sobre Ciência Climática), que mostra o racio do registo diário de recordes de altas temperaturas versus o registo diário de recorde de baixas temperaturas, é enganador, pois leva a concluir que o número de recordes da altas temperaturas está a ocorrer com mais frequência, o que não corresponde à verdade, o que acontece é que o número de recordes de temperaturas mínimas está a baixar mais do que o de temperaturas máximas. Chama-se a isto persuadir em vez de informar. Assim, não surpreende que os media desinformem e não digam a verdade, que é a de que, afinal, os recordes de mínimas estão a diminuir e os recordes de máximas temperaturas quase não se alterou nas últimas décadas.
6- Terrores de tempestades
De acordo com os media, as tempestades estão a tornar-se mais comuns e mais intensas, e o aumento dos gases com efeito de estufa estão a tornar tudo isto ainda pior. No entanto, os dados e a literatura de pesquisa estão totalmente em desacordo com esta mensagem. No centro desta confusão estão os relatórios de avaliação, que apresentam sumários inconsistentes em relação às suas próprias conclusões. Mas a verdade é que furacões e tornados não mostram mudanças atribuíveis à influência humana. Tecnicamente, “furacão” é o termo usado para um ciclone tropical no Atlântico ou no leste do Pacífico; estas tempestades são chamadas “tufões” no Pacífico Oeste e apenas “ciclones” na Baía de Bengala e no norte do Oceano Índico. Para evitar confusões, Koonin não se faz essa distinção, considera no livro que todos essas tempestades são furacões. Com uma extensão de até algumas centenas de milhas, estes sistemas de tempestade apresentam um centro (“olho”) de baixas pressões, rodeado por uma espiral (contrária ao sentido dos ponteiros do relógio no hemisfério norte e no sentido dos ponteiros do relógio no hemisfério sul) de trovoadas e tornados, produzindo chuva pesada. Quanto mais baixa for a pressão do olho, mais fortes serão os ventos em seu torno. Um furacão apresenta ventos superiores a 119 km/h; se for mais fraco, é chamado “tempestade tropical”, e se for ainda mais fraco é conhecido por “depressão tropical”. Os furacões são categorizados pela sua intensidade através da escala Saffir-Simpson, que vai de 1 a 5. As maiores tempestades (as de categorias 3 a 5) têm ventos superiores a 179 km/h.20
Os furacões crescem de depressões tropicais (áreas de baixa pressão) nascidas sobre os oceanos ao longo do equador. De seguida movem-se no sentido dos polos, dependendo o seu caminho preciso dos ventos regionais; a maioria nunca chega ao solo. Há cerca de 48 furacões por ano em todo o globo. Dois terços ocorrem no hemisfério norte (onde a temporada de furacões vai de junho a novembro) e um terço no sul (de novembro a maio). Em números redondos, cerca de 60% ocorrem no Pacífico, 30% no Índico, e 10% no Atlântico Norte. São muito raros no Atlântico Sul. Os cientistas desenvolveram outras formas de medir as tempestades. Uma delas é a Energia Acumulada do Ciclone (ACE – Accumulated CycloneEnergy), que combina o número de tempestades com a sua intensidade, e outra é o Índice de Energia de Dissipação (PDI- PowerDissipationIndex), semelhante à ACE, mas que confere um peso ainda maior às tempestades mais intensas (cada tempestade é medida pelo cubo, ou 3ª potência, da sua velocidade de vento).
As áreas de baixas pressões que se transformam em furacões formam-se a partir da evaporação da água do mar numa zona quente; essa água liberta calor à medida que sobe e se condensa na atmosfera. Assim, podemos esperar um incremento na atividade dos furacões à medida que a superfície do mar aquece. Infelizmente, não é assim tão simples, como se pode comprovar pelos registos de longo prazo dos números anuais e da ACE de furacões no Atlântico Norte. As flutuações de longo prazo da Oscilação Multidecadal do Atlântico (AMO – Atlantic Multidecadal Oscillation), atrás referida, afeta a temperatura da superfície do mar onde se formam os furacões e pode, por isso, aumentar ou suprimir a sua atividade. As condições atmosféricas têm que ser precisas para que um furacão se forme, não apenas a temperatura. Há uma série de outros fatores a ter em conta, como a variação da velocidade do vento e a sua direção com a altitude, ou a presença de poeira do Sahara, nenhum dos quais descritos pelos modelos climáticos.
Como é evidente, o facto de a temperatura não ser o único fator a ter em conta na formação de furacões não quer dizer que o aquecimento, natural ou causado pelo homem, não tenha influência. Tem havido, como sempre há em tudo que tem a ver com o clima, oscilações no número e intensidade dos furacões nos últimos anos, talvez porque o ciclo AMO esteja numa fase alta, mas tal já ocorreu no passado e, se alongarmos o período de registos, verificaremos que houve tempos em que a atividade era pelo menos tão grande como a que temos hoje, mesmo antes da influência humana se tornar significativa. Assim, a maioria dos autores tem “baixa confiança” (low confidence) em que alterações na frequência e intensidade dos ciclones tropicais estejam além do que possa ser atribuído à variabilidade natural. No entanto, os media não dão conta desta realidade, preferindo propagar o alarme não fundamentado. É verdade que os danos económicos provocados pelos furacões estão a aumentar, mas isto acontece porque hoje há mais pessoas e mais infraestruturas valiosas nas zonas costeiras, não porque as características das tempestades tenham mudado no longo prazo.
Seja o que for que o futuro nos reserve, as descrições dos dados sobre furacões, presentes nos relatórios de avaliação, pecam por omissão; violam o que Einstein uma vez disse no edifício da Academia Nacional, em Washington: “O direito da busca pela verdade implica também um dever; não devemos esconder nenhuma parte do que reconhecemos ser verdadeiro”. É claro que os furacões não são as únicas tempestades que causam estragos e ganham manchetes. Vejamos os tornados. O seu número tem aumentado significativamente. Mas isto ilustra perfeitamente os perigos da correlação. Uma simples pesquisa no Google revela-nos que também o números de barcos de pesca ou de filmes violentos duplicou desde 1950 e, com certeza, nenhuma destas tendências se deve a alterações climáticas. No caso dos tornados, a chave para esta “tendência” reside na compreensão de como os dados são compilados – o que é frequentemente tão importante quanto os dados em si. Como são, afinal, os tornados contabilizados?
Hoje em dia os radares detetam tornados muito fracos, distantes mais de 160 kms, mas antes dos radares estarem largamente disponibilizados os tornados fracos nem sempre eram registados. Estes tornados mais fracos nem sempre deixam um rastro de destruição, sobretudo nas áreas escassamente povoadas. A força dos tornados é medida na escala Fujita (Enhanced Fujita Scale), originalmente desenvolvida em 1971, com uma versão aumentada em 2007. A categorização dos tornados vai de EF0 para as tempestades mais fracas até ao EF5, para as que têm ventos acima das 260 mph (milhas/hora). Sessenta por cento dos tornados nos Estados Unidos são hoje da categoria EF0, enquanto em 1950 essa categoria representava apenas 20%. Isto sugere que o aumento do número de tornados se deve à maior contagem de fracas tempestades nas décadas recentes, o que, de acordo com a NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), é, de facto, o caso.21 De acordo com os registos no terreno, se tivermos em conta apenas os tornados de força EF1 ou superiores, verifica-se que o seu número não varia muito desde 1974. Mas se tivermos em consideração o número de tornados da categoria EF3 ou de força superior, o que se verifica é que o seu número decresceu em cerca de 40% nos 60 anos que se seguiram a 1954.
Os dados também nos dizem que há menos dias/ano com tornados, mas maior número de tempestades nos dias em que estas ocorrem. As causas, naturais ou humanas, que provocaram estas mudanças ao longo das últimas décadas mantém-se um mistério. No entanto, podemos com confiança atribuir à influência humana uma grande mudança relacionada com os tornados: as mortes provocadas pelos tornados caíram mais de dez vezes desde 1987 nos Estados Unidos, o que se deve, em larga medida, aos avisos dos radares.22
6-Perigos da precipitação – das inundações aos incêndios
As relações entre tempo e clima são complicadas, especialmente para a precipitação, sob a forma de chuva ou de neve. Por exemplo, embora possa parecer contraintuitivo, a subida da temperatura pode afinal contribuir para que neve mais – se um aumento das temperaturas mínimas impedir o congelamento do Oceano Ártico no inverno, mais água será evaporada para a atmosfera. De acordo com os registos, os grandes nevões no mundo desenvolvido têm vindo a decrescer, embora de forma muito lenta e pouco acentuada. Desconhece-se qual a influência humana nesta tendência, se é que existe de todo.
Quanto à precipitação, temos de considerar o seguinte. O volume de água existente na Terra é, essencialmente fixo. Quase todo (cerca de 97%) está nos oceanos, e quase todo o resto encontra-se em Terra – no gelo e na neve (especialmente na Gronelândia e nos lençóis de gelo do Ártico, em lagos e rios, e no subsolo. No entanto, a água terrestre que se encontra na atmosfera tem um papel central no clima, visto que o vapor de água é o mais importante gás com efeito de estufa, e as nuvens contribuem para a maior parte do albedo terrestre. A energia solar movimenta a água entre estes diversos reservatórios e forma o chamado ciclo hidrológico. A maior e mais dinâmica parte deste ciclo é o fluxo de água que sobe da superfície terrestre para a atmosfera (85% deste fluxo advém da evaporação dos oceanos, os outros 15% da superfície terrestre, a maior parte da transpiração das plantas). Essa água mantém-se nas alturas por uma média de 10 dias, antes de condensar e cair de novo, na forma de chuva ou neve (77% cai nos oceanos e 23% no solo terrestre). Globalmente, a chuva é mais intensa perto do equador (onde muita da água evaporada volta à superfície à medida que o ar quente e húmido sobe e arrefece) mas baixa onde o ar seco desce, criando os desertos que flanqueiam o equador.
O lugar mais seco da Terra fica na América do Sul, no extremo norte do deserto de Atacama, no Chile: Arica, onde chove apenas 0,6 mm por ano. O mais húmido é Mawsynram, na Índia, com a média de 11,871 mm/ano. Se todo o resto se mantiver igual, é expectável que o ciclo hidrológico se intensifique à medida que o globo aquece: haverá mais evaporação e o ar quente transportará mais água, conduzindo a mais precipitação. É igualmente expectável que esta precipitação seja mais pesada, com áreas secas a ficarem ainda mais secas e as áreas húmidas ainda mais húmidas, com mais períodos de intensa precipitação. Isto pode levar a inundações em algumas áreas, mas uma vez que as temperaturas mais elevadas devem também aumentar a evaporação, as secas podem também aumentar. Há escasso consenso entre os modelos acerca de como, onde e quando estas alterações têm lugar.
Além disso, é bastante difícil escolher e analisar dados que sejam úteis para testar as expectativas sobre o que pode acontecer, e mesmo até responder a uma questão básica como: “como tem mudado a média de precipitação?” Ao contrário das alterações na temperatura, a precipitação pode variar enormemente em curtas distâncias e em poucos minutos – pode chover em determinado local, embora o tempo esteja perfeitamente seco a 30 kms (ou mesmo 3 kms) de distância. Isto acontece porque, como mencionado atrás, acontecem alterações súbitas nas propriedades da água: em função da temperatura e da quantidade de vapor de água, a água pode condensar e criar precipitação ou não. Assim, ao contrário do que acontece com a temperatura, não há nenhuma forma fácil de combinar os dados sobre precipitação recolhidos pelas estações meteorológicas espalhadas pelo mundo e obter um quadro geral da situação. No entanto, a combinação de dados registados por observações no solo e por satélite permite-nos projetar um quadro global de longo prazo, mais apurado sobre as zonas onde as estações meteorológicas são mais numerosas. Apesar disso, como se mostra num artigo publicado por um grupo de cientistas no Bulletin of the American Meteorological Society, em 2018: … Não parece haver qualquer tendência positiva no volume global de precipitação, devido ao aumento global de temperatura. Porquanto haja tendências regionais, não há evidência de aumento de precipitação à escala global em consequência do aquecimento global observado.23
Outro aspeto de particular importância para o sistema climático, no que diz respeito à precipitação, é a cobertura de neve que aumenta o albedo terrestre. Observações por satélite no hemisfério Norte mostram que há um declínio na cobertura de neve durante a Primavera (e também com algum significado no Verão), como seria expectável num globo a aquecer – especialmente num em que as baixas temperaturas estão a aumentar, enquanto a neve durante o Outono e o Inverno aumentou modestamente. As pequenas alterações no volume de precipitação nos Estados Unidos ao longo dos anos, não alteram a média de incidência de inundações.
As secas são ainda mais difíceis de determinar do que as inundações, uma vez que não resultam apenas da precipitação (ou, antes, da falta dela). Ao contrário, as secas envolvem combinações de temperatura, precipitação, composição e capacidade de escoamento do solo. Atividades humanas, como a irrigação, que esgota a água no solo, ou o esgotamento das terras por excesso de aragem (de “arar” a terra), como aconteceu durante os Grandes Planos americanos nos anos 1930, também jogam um papel. As secas medem-se através do Índice de Gravidade da Seca de Palmer (PDSI – Palmer Drought Severity Index). Secas severas têm acontecido ao longo dos milénios, e os dados, sobretudo através dos registos nos anéis, mostra-nos muitas secas que perduraram por décadas, muitas antes de 1900, incluindo as mega secas de 900 a 1300 AD, e que, portanto, não podem ser atribuídas a influências humanas, mas antes ao aquecimento natural do globo naquela época. O AR5 de 2014 reconhece que “pode dizer-se com elevada confiança que houve secas de maior magnitude e mais longa duração no último milénio, do que aquelas observadas em muitas regiões nos últimos cem anos.
As secas tornam os incêndios mais severos e os grandes incêndios dominam as parangonas dos jornais, que atribuem as causas dos mesmos às alterações climáticas. Apesar disso, os dados mostram-nos que a área ardida, a nível global, diminuiu 25% de 1998 até 2015. Uma das razões para este declínio é atribuída pelos cientistas à atividade humana, nomeadamente à expansão e intensificação da agricultura. Mais uma vez, os modelos são imperfeitos e as previsões incertas. Não se conhece exatamente que papel desempenha a humanidade relativamente a estes aspetos do clima no futuro.
7-O nível do mar assusta
Depois dos oceanos, a maior reserva de água da Terra está nos lençóis de gelo da Gronelândia e do Ártico. Enquanto numerosos fatores contribuem para pequenas alterações do nível do mar, o que conta mais, o que é mesmo mais importante ao longo do tempo geológico, depende do gelo que se encontra nos solos. Ciclos lentos – variações na órbita da Terra e na inclinação do seu eixo ao longo de dezenas de milhares de anos – alteram a quantidade de luz solar absorvida pelos hemisférios Norte e Sul. Essas alterações causaram grandes oscilações na temperatura global durante milhões de anos. E também provocam o crescimento ou a diminuição dos lençóis de gelo que cobrem os continentes (os intervalos são tecnicamente chamados “glaciações” e “interglaciações”, respetivamente), despejando menos ou mais água nos oceanos, e assim causando a descida ou subida dos níveis do mar. Por exemplo, durante o último período interglacial (pouco gelo), há 125 mil anos, conhecido por Eemian (Eemiano), o nível dos mares era cerca de 6 metros mais alto do que é hoje.
O último Glaciar Máximo ocorreu há cerca de 22 mil anos, altura em que os glaciares continentais começaram a derreter de novo. A Terra encontra-se hoje no interglacial Holoceno, que os geólogos acreditam ter começado há 12 mil anos. De acordo com os dados geológicos, o nível do mar subiu cerca de 120 metros desde o Último Glaciar Máximo, muito rapidamente (120mm por década) até cerca de 7 mil anos atrás, tendo depois essa subida abrandado drasticamente. A questão, portanto, não é a de saber se o nível dos mares está subindo, mas de que forma os seres humanos contribuem (ou não) para isso. Nas últimas três décadas o nível do mar subiu cerca de 3mm por ano, mais do que a média de 1,8 mm desde 1880. No entanto, a média não nos diz nada sobre se ocorreram ou não períodos de maiores subidas, como este dos últimos 30 anos.
Para sermos claros, o nível dos mares sobe à medida que a temperatura do globo sobe. Quando a temperatura de superfície terrestre aumenta, o gelo derrete – e à medida que os oceanos aquecem, a água que contêm expande-se. Os níveis sobem e descem sazonalmente no longo prazo, em resposta aos ciclos orbitais discutidos anteriormente, e em resposta às influências naturais ou humanas. Enquanto as taxas de subida ao longo do século passado tiveram significativos altos e baixos, um globo em aquecimento provoca, indubitavelmente, mais água nos oceanos. O que acontecerá, então, ao nível dos mares, no futuro? A resposta depende sobretudo da quantidade de gelo que derrete na superfície terrestre, à medida que as temperaturas sobem, e também do aumento da temperatura dos oceanos.
No entanto, sabe-se que o derretimento do gelo ao nível global diminuiu desde 1900 e é hoje o mesmo que há 50 anos; a contribuição da Gronelândia para este derretimento atingiu um nível mínimo em 1985 e não é agora mais elevado do que era em 1935. Os cientistas que constroem os modelos deparam-se com um problema fundamental: não compreenderam as alterações que ocorrem na Antártida e na Gronelândia que determinaram o volume dos oceanos e, consequentemente, a subida ou descida do nível dos mares. Os dados sugerem que há ciclos que condicionam o nível das águas, nomeadamente o AMO (Oscilação Multidecadal do Atlântico)24, já referido, sendo expectável que esse nível desça durante as próximas décadas, ao contrário do que é divulgado pela comunicação social.
Em suma, não sabemos o quanto da subida do nível global do mar é devida ao aquecimento provocado pelo homem, e quanto é devido aos ciclos naturais de longo prazo. Há poucas dúvidas de que, ao contribuirmos para o aquecimento do planeta, também contribuímos para a subida do nível dos mares. Mas há pouca evidência de que essa contribuição seja significativa, muito menos catastrófica. A tendência dos humanos construírem cidades nas zonas costeiras também tem contribuído para o aumento do nível dos mares.25
8-Apocalipses que não o são
Os supostos apocalipses, que afinal, não o são, são três:
Mortes causadas pelas alterações climáticas.
Desastre na agricultura.
Desastre na economia
Quanto ao primeiro, é preciso reconhecer que as pessoas não morrem por causa do clima. O clima muda devagar e as sociedades adaptam-se ou migram. Mas as pessoas morrem devido a eventos meteorológicos relacionados com o clima – secas e inundações, tempestades, temperaturas extremas e grandes incêndios, embora tenhamos já visto que estamos longe de ter alguma certeza de que alterações no clima provoquem estes fenómenos. Desde 1930, as mortes provocadas por fenómenos meteorológicos decaíram consecutivamente, sendo hoje menos de metade do que as que ocorriam naquela década. Por outro lado, muitas mortes atribuídas ao clima – como aquelas provocadas pelo cozinhar com madeira e restos de animais e plantas – são na realidade causadas pela pobreza. Não há dúvida de que a poluição afeta o clima (como vimos, os aerossóis provocam o arrefecimento do planeta), mas as mortes devidas à poluição não são causadas pelas alterações climáticas, antes pela própria poluição.
Quanto ao suposto desastre na agricultura, é importante começar por referir que o aumento da concentração de dióxido de carbono tem sido um fator muito relevante para o aumento da produção agrícola, uma vez que impulsiona a taxa de fotossíntese e altera a fisiologia das plantas, fazendo com que usem a água de forma mais eficiente.26, 27 2020 foi o ano-recorde da produção de grãos. Em suma, o que a ciência realmente nos diz é que o colapso nas colheitas derivado do clima é outro apocalipse que, simplesmente, não o é. E, consequentemente, nada indica que possa ocorrer, devido às “alterações climáticas”, um desastre económico.
Fica claro que os media, os políticos e frequentemente os próprios relatórios de avaliação desvirtuam descaradamente o que a ciência diz sobre clima e catástrofes. Essas falhas devem ser atribuídas aos cientistas que escrevem ou reveem os relatórios, os repórteres que acriticamente os refletem, os editores que permitem que tal aconteça, os ativistas e as suas organizações que primem os botões de alarme, e os especialistas cujo silêncio público engrossa o engano.
9- Quem degradou a ciência e porquê
Há vários responsáveis pela desinformação que passa para o público sobre as alterações climáticas. Eis os principais: os media; os políticos; as instituições científicas; os cientistas; os ativistas e as ONGs; o próprio público. Claro que nem todos os membros destes grupos alinham no alarme geral, mas os que o fazem são suficientes para sustentar essa tendência, que se tornou maioritária e, mais do que isso, uma verdade incontestável na maior parte da opinião pública mundial. Os media são responsáveis porque destacam, na abertura de telejornais ou em parangonas na imprensa, aquilo que vende mais: o alarmismo. Isto é particularmente verdade no que toca às matérias sobre clima e energia. Informar em profundidade não vende, é muito mais rentável a manchete sensacionalista – sobretudo num mundo onde a partilha de notícias nas redes sociais é a parte mais importante do negócio – até porque há sempre, algures no mundo, uma história sobre um qualquer evento meteorológico extremo para contar.
Por outro lado, a maioria dos jornalistas não tem formação científica. E isto é muito importante porque, como vimos, os próprios relatórios de avaliação podem ser mal interpretados, sobretudo por quem não é especialista. Assim, os jornalistas embarcam facilmente na missão de salvar o mundo da destruição humana, considerando o alarmismo correto, mesmo um dever, o qual se deve, em larga medida, ao desconhecimento que têm do desenvolvimento atual da ciência climática. Quanto aos políticos, é preciso notar que ganham eleições agradando ao público, de alguma forma, dizendo o que este quer ouvir. Isto não é novo. Como notou H. L. Mencken’s no seu livro Em Defesa das Mulheres, de 1918:
Todo o propósito da prática política é manter a populaça alarmada (e, consequentemente, ansiosa por segurança), assustando-a com uma série infindável de duendes, a maioria imaginários.28
As ameaças de catástrofe climática – tempestades, secas, subida dos mares, destruição de colheitas, colapso económico – impacta em toda a gente. E essas ameaças podem ser consideradas urgentes (envolvendo um recente evento climático mortífero, por exemplo), mas também suficientemente distantes para que as terríveis previsões de um político sejam postas à prova apenas décadas depois de ele deixar o cargo. Por outro lado, e embora a ciência climática e as questões energéticas associadas sejam complicadas, a complexidade e as suas nuances não se adequam a mensagens políticas eficazes. Assim, a ciência é descartada em favor da Ciência e “simplificada” para uso na arena política, o que permite que as ações necessárias sejam resumidas de forma simples – basta eliminar os combustíveis fósseis para salvar o planeta. É claro que este não é um problema específico do clima, e o eleitorado – que odeia zonas cinzentas – tem a sua quota-parte de culpa.
Alguns políticos tentaram descaradamente minar o processo científico. Michael Bloomberg e Tom Steyer, dois políticos bilionários, tinham o objetivo de “fazer a ameaça climática parecer real, imediata e potencialmente devastadora para o mundo dos negócios.” Conspiraram com alguns cientistas, entre outros, para produzir uma série de relatórios descaracterizando o cenário de emissões extremas RCP 8.5 como “negócio de sempre” (ou seja, um mundo que não se esforça para conter as emissões). Os relatórios foram acompanhados por uma campanha sofisticada para infundir essa noção em conferências e revistas científicas.29 Aqueles que procuram corromper dessa forma o processo científico jogam o mesmo jogo que a multidão anticientífica que eles condenam em voz alta. Felizmente, a fraude está sendo denunciada agora nas principais revistas científicas.30
Finalmente, é prática comum sugerir que muitos dos políticos de direita, que defendem a ideia de “uma farsa da mudança climática”, são influenciados por vínculos a industriais afetados negativamente pela regulamentação ambiental restritiva. Infelizmente, à medida que a indústria das energias alternativas cresce, há incentivos financeiros para que os políticos também exagerem na tónica da catástrofe climática. A ciência não deve ser partidária, mas a interligação da ciência climática com a política, em geral, e com a política energética, em particular, praticamente garantiu que isso iria acontecer.
Quanto às instituições científicas, deveriam merecer o nosso apoio, pois é nelas que se baseia a nossa confiança – e a dos media e dos políticos – no que nos é apresentado como A Ciência. No entanto, quando se trata de clima, essas instituições parecem, frequentemente, mais preocupadas em fazer a ciência encaixar-se numa narrativa, do que em garantir que a narrativa se encaixe na ciência. Já vimos que as instituições que preparam as avaliações oficiais têm um problema de comunicação, sumariando ou interpretando os dados de formas ativamente enganadoras. Outras instituições, ou os seus líderes, exageram também na sua intenção de persuadir em vez de informar. Vejamos, por exemplo, o que disseram os presidentes das Academias Nacionais de Ciência, Engenharia e Medicina, nos Estados Unidos, em 28 de junho de 2019:
Os cientistas sabem, desde há algum tempo, por múltiplas linhas de evidência, que os humanos estão a alterar o clima da Terra, sobretudo através da emissão de gases com efeito de estufa. A evidência dos impactos das alterações climáticas são igualmente claros bem como o seu crescimento. A atmosfera e os oceanos estão a aquecer, a magnitude e frequência de certos eventos extremos estão a aumentar, e o nível do mar está a subir ao longo das nossas costas.31
Mesmo considerando a necessidade de concisão, esta é uma forma enganadora, incompleta e imprecisa de mostrar o que nos diz a ciência climática. Confunde o aquecimento causado pelo homem com mudanças climáticas em geral, sugerindo, erradamente, que as influências humanas são as únicas responsáveis por essas mudanças. Invoca “certos eventos extremos”, enquanto omite o facto de que a maioria deles (incluindo aqueles que afloram mais rapidamente à mente quando se lê a frase “eventos extremos”, como os furacões) não mostram nenhuma tendência significativa. E afirma que “o nível do mar está a subir” de uma forma que não só sugere que isso também é apenas atribuível ao aquecimento causado pelo homem, mas que também omite o facto de que essa subida não é novidade.
Quando a comunicação da ciência climática é corrompida desta forma, isso mina a confiança que as pessoas têm no que o establishment científico diz sobre outras questões sociais cruciais (o COVID-19 é o notável exemplo recente). Tal como Philip Handler, um ex-presidente da Academia Nacional de Ciências, escreveu num editorial de 1980:
É tempo de regressar à ética e às normas da ciência para que o processo político possa decorrer com maior confiança. O público pode perguntar porque ainda não sabemos o que parece vital para a tomada de decisão – mas a ciência manterá o seu lugar na estima do público apenas se admitirmos firmemente a magnitude das nossas incertezas e, consequentemente, afirmarmos a necessidade de mais pesquisas. E perderemos esse lugar se dissimularmos ou se argumentarmos como se todas as informações e entendimento necessários estivessem disponíveis. Os cientistas servem melhor as políticas públicas cingindo-se à ética da ciência, e não à ética da política.32
A verdade é que os cientistas não deveriam ceder à pressão institucional, seja do governo, de uma empresa ou de uma organização não governamental, e nem sequer deveriam recear a pressão dos seus pares. Tal como Richard Feynman afirmou, a integridade científica tem de ser mantida e isso só pode ocorrer se o cientista for imune a pressões: se tiver a sorte de estar em algum lugar onde seja livre para manter o tipo de integridade que descrevi e onde não se sinta forçado, pela necessidade de manter uma posição, ou de apoio financeiro, ou outra qualquer, a perder a sua integridade.33 Porém, no que concerne ao clima e à energia, os cientistas, de várias áreas, caem frequentemente naquilo que se pode chamar “simplificação climática”. E o que causa isto? Talvez a falta de conhecimento sobre o assunto, ou talvez o medo de falar contra os seus pares científicos. Ou talvez seja simples convicção no proclamado consenso, nascida mais de uma fé do que da evidência.
Quanto às ONGs, a imprensa tende a conferir-lhes uma posição de autoridade. Mas também estes são grupos de interesses, com as suas próprias agendas climáticas e energéticas. E são também atores poderosos, que mobilizam apoiantes, arrecadam dinheiro, realizam campanhas e alcançam poder político. Para muitos, a “crise climática” é a sua completa raison d’être. É claro que não há problema em ser-se ativista, e os esforços das ONGs tornaram o mundo melhor de incontáveis maneiras. Mas distorcer a ciência para seguir uma causa é indesculpável, particularmente com a cumplicidade dos cientistas que trabalham nos seus conselhos consultivos. Finalmente, com toda a distorção que ocorre a montante, não surpreende que o público tenha uma visão pseudocientífica. Deste modo, quem divulgue alguns aspetos menos conhecidos dos relatórios de avaliação é imediatamente rotulado de negacionista ou militante de direita, pois a crença nas alterações climáticas consolidou-se na opinião pública como a única posição politicamente correta.
10-Como restaurar a ciência
A principal proposta de Koonin para restaurar a credibilidade da ciência passa pela criação de uma “Equipa “Vermelha” (Red Team) que deveria ser encarregada de analisar os relatórios de avaliação, tentando identificar e avaliar os pontos fracos. Em contrapartida, outro grupo qualificado, digamos, a “Equipa Azul” (Blue Team), que seria, presumivelmente, constituída pelos próprios autores dos relatórios, teria oportunidade de rebater os pontos fracos encontrados pela Equipa Vermelha. É claro que o IPCC das Nações Unidas, bem como o governo dos Estados Unidos, consideram os seus relatórios incontestáveis, uma vez que são rigorosamente revistos por pares científicos, antes da publicação. Sendo assim, qual a necessidade de um outro nível de revisão? A resposta direta é que – tal como em capítulos precedentes deste artigo foi salientado – esses relatórios apresentam grandes falhas. E uma razão importante para essas falhas prende-se com a forma como os relatórios são revistos. A ciência é um corpo de conhecimento que cresce através de testes, degrau a degrau. Se cada passo for sólido, os investigadores podem alcançar rapidamente resultados espantosos, como o desenvolvimento de vacinas ou moderna tecnologia da informação.
Ao saber que um investigador produziu um novo conhecimento sólido, outros pesquisadores examinam, e muitas vezes desafiam, resultados de experiências ou observações, ou formulam novos modelos e teorias. Foram as medições feitas corretamente? Havia controlos adequados às experiências? São os resultados consistentes com o conhecimento prévio?Quais são as razões para um resultado inesperado? Respostas satisfatórias a questões como estas são indispensáveis para a aceitação de novos resultados no sempre crescente corpo do conhecimento científico. Koonin participou em muitas revisões de pares, ao longo da sua longa carreira científica de 45 anos, às vezes como autor, outras vezes como revisor, outras como árbitro, e umas poucas vezes como editor. O que ele nos diz é que a revisão por pares pode efetivamente melhorar a apresentação de um artigo científico e normalmente captar os erros mais notórios, mas está muito longe de ser perfeita, e não garante de forma alguma que o artigo publicado não contenha erros. Uma avaliação independente dos resultados por outros investigadores, que conduzam estudos alternativos, é uma garantia muito mais forte de que os resultados estão corretos.
Mas um relatório de avaliação não é um artigo de pesquisa – de facto, trata-se de um tipo de documento muito diverso, com um propósito muito diferente. Artigos em revistas científicas são escritos por especialistas para especialistas. Ao invés, os autores dos relatórios de avaliação devem avaliar as validade e importância de uma diversidade de artigos, e depois sintetizá-los num conjunto de declarações importantes, destinadas a não especialistas. Por isso, a “história” do relatório de avaliação importa, como importa a linguagem usada para contá-la – especialmente em algo tão importante como o clima. Os processos para construir e rever os relatórios de avaliação sobre ciência climática não promovem a objetividade. Os funcionários das agências científicas e ambientais do governo (que devem eles próprios ter um ponto de vista) nomeiam ou escolhem os autores, que não estão sujeitos a restrições devidas a conflitos de interesses. Quer dizer, um autor pode trabalhar para uma companhia petrolífera ou para uma ONG que promova a “ação climática”. Isto aumenta as hipóteses de a persuasão ser favorecida, em detrimento da informação.
Um grande número de revisores especializados e voluntários reveem o texto preliminar dos relatórios. Mas ao contrário da revisão por pares dos artigos científicos, os desacordos entre revisores e autores não são resolvidos por um árbitro independente; o autor principal pode optar pela rejeição de uma crítica dizendo, simplesmente, “não concordamos”. As versões finais das avaliações são então objeto da aprovação governamental (através de um processo entre agências para o governo dos Estados Unidos, e reuniões, muitas vezes contenciosas, entre especialistas e políticos, no caso do IPCC). E – um ponto muito importante – os “Resumos para Decisores Políticos” do IPCC são fortemente influenciados, se não mesmo escritos, por governos que têm interesse em promover políticas particulares. Em suma, há muitas oportunidades para corromper a objetividade do processo e da versão final. É por isso que uma Equipa Vermelha é tão necessária. Ela poderia constituir uma importante ferramenta para corrigir os erros no processamento dos relatórios de avaliação.
Seguem-se algumas dicas para quem quer estar bem informado. Se tiver tempo, aprofunde as notícias dos media, pesquisando a fonte da notícia. Resumos dos artigos de pesquisa originais estão disponíveis nas revistas científicas onde aparecem e, para uma pesquisa particularmente importante, o próprio artigo está por vezes disponível online, gratuitamente. Há também alguns blogues que, de uma forma séria e consistente, se debruçam sobre a mais recente ciência climática. Do lado consensual, Real Climate (realclimate.org) é um dos que vale a pena consultar, enquanto o sítio de Judith Curry’s, Climate Etc. (judithcurry.com), alberga discussões sérias de um ponto de vista não consensual.
Mas não há nada como consultar diretamente os dados – que são, afinal, o árbitro de toda a ciência. Dados climáticos são prontamente disponibilizados online pelo governo dos Estados Unidos, pela EPA (em http://www.epa.gov/climate-indicators) e pela NOAA (em http://www.noaa.gov/climate). Assim, se alguém se deparar com uma narrativa acerca da subida do nível do mar, furacões ou temperaturas médias, e quiser escavar mais fundo, pode fazê-lo através de uma simples ligação à internet e uma sensibilidade (que se espera mais apurada após a leitura do presente artigo) sobre quais as questões que verdadeiramente necessitam de resposta.
11- A quimera da descarbonização
Os cientistas não têm bolas de cristal que lhes digam o que vai acontecer no futuro. Têm apenas os dados, com as suas imperfeições, e a maior ou menor capacidade para aplicar o pensamento crítico, e usar esses dados para identificar, ou mesmo antecipar, problemas e construir as soluções necessárias. As pessoas têm muitas ideias diferentes sobre quais devem ser essas soluções. Todos já ouvimos falar de, pelo menos, algumas delas. Numa lado extremo há os que defendem a eliminação completa das emissões de gases com efeito de estufa durante as próximas décadas, tal como é apoiado por muitos governos, a ONU, e virtualmente todas as ONGs. No outro extremo, há os que dizem que devemos continuar com os nossos negócios como habitualmente, assumindo a posição de que o clima é imune à influência humana, e que nós próprios temos a capacidade de nos adaptar a quaisquer mudanças que possam ocorrer.
Os vários relatórios do IPCC dizem-nos que é urgente reduzir as emissões de gases com efeito de estufa para prevenir os piores impactos das mudanças climáticas causados pelo homem. E dizem-nos também que a “mitigação” das emissões deve ser acompanhada por uma transição para fontes de energia e práticas agrícolas de “baixo carbono”. O objetivo central tornou-se atingir a carbonização zero em meados do século. Embora, em princípio, não existam barreiras intransponíveis para esta redução, múltiplos fatores – técnicos, científicos, económicos e sociais – tornam esta pretensão bastante implausível. Felizmente, não só é extremamente incerto que um desastre climático esteja iminente, como temos estratégias alternativas para respondermos às mudanças climáticas, particularmente a adaptação e a geoengenharia. A resposta mais provável da sociedade às alterações climáticas é, efetivamente, a adaptação humana.
O CO2 acumula-se na atmosfera, não desaparece quando paramos de o emitir, permanece na atmosfera durante séculos, absorvido lentamente pelas plantas e os oceanos. Reduções modestas das emissões apenas atrasarão, mas não eliminam o aumento da concentração do CO2. Tendo em conta o desenvolvimento mundial, é virtualmente impossível uma simples estabilização da influência humana. Muitos decisores políticos acreditam de que apenas necessitamos dos incentivos certos para desenvolvermos e aplicarmos novas tecnologias que levem à descarbonização. Mas os cientistas sabem que existem poderosos constrangimentos físicos que qualquer tecnologia tem de respeitar. Por exemplo, nenhuma política pode contornar os limites fundamentais sobre eficiência energética, impostos pela segunda lei da termodinâmica – não se pode “criar” energia, apenas convertê-la de uma forma para outra, e o processo de conversão sempre incluirá, por si só, uma certa quantidade de energia.
De facto, a população terrestre de menos de 8 mil milhões de habitantes humanos, subirá (sobretudo à custa do mundo em desenvolvimento) para 9 mil milhões em meados do século34. Assim, embora alguns vejam no Acordo de Paris um passo crucial para a mobilização geral no sentido de mitigar as emissões, é difícil fazer algo para reduzir a influência humana, tendo em conta a necessidade de uma redução de 100% apenas para estabilizar a concentração de CO2. É por isso que as metas do acordo não estão a ser atingidas. Elas são claramente irrealistas35, porque as energias renováveis estão muito longe de satisfazer a procura.
Por outro lado, mesmo que a transição para energias renováveis realmente aconteça nos países desenvolvidos, isso fará muito pouca diferença, se é que fará alguma, no clima: os Estados Unidos, por exemplo, emitem apenas 13% dos gases com efeito de estufa. É claro que muitos argumentarão que outros países seguirão o seu exemplo. Mas que probabilidade eles têm para fazer isso, quando a pressão sobre a necessidade de energia é tão alta e os benefícios das reduções tão baixos?
Planos B
À medida que a efetiva mitigação dos gases com efeito de estufa se mostrava cada vez mais difícil, cresceu o nosso interesse por estratégias diferentes para responder às alterações climáticas. Uma delas é a geoengenharia. A outra é, simplesmente, adaptarmo-nos ao clima em mudança. São estes os Planos B. Há pelo menos duas formas de contrariar o aquecimento do planeta. Uma é tornar a Terra um pouco mais reflexiva (aumentando o seu albedo), absorvendo um pouco menos de energia solar. Esta estratégia é denominada “Gestão da Radiação Solar” (SRM – SolarRadiation Management) e poderia ser adequada, quer o aquecimento seja natural ou resultado de influências humanas. A outra é retirar CO2 da atmosfera por forma a compensar as emissões provocadas pelo homem. Esta estratégia é conhecida por CDR – Carbon Dioxide Removal (“Remoção de Dióxido de Carbono”).
Comecemos pelo SRM. Há muitas maneiras de aumentar o albedo, incluindo tornar a superfície terrestre mais brilhante, com “telhados brancos” nos edifícios, plantações alteradas para se tornarem mais reflexivas, clarear o oceano com micro bolhas na superfície, e colocando refletores gigantes no espaço, só para citar algumas. No entanto, criar aerossóis na estratosfera pode ser a forma mais plausível de se conseguir um impacto global, à semelhança do que acontece de forma natural com as grandes erupções vulcânicas. Existe tecnologia suficiente para criar neblina estratosférica, incluindo aditivos do combustível para aviões ou projéteis de artilharia que dispersam o gás sulfeto de hidrogénio (que cheira a ovos podres) a elevadas altitudes. Isto não poderia ser feito de uma vez só. A neblina teria de ser renovada regularmente, anualmente ou a cada dois anos. A quantidade de enxofre que teríamos de enviar para a estratosfera seria apenas cerca de um décimo do que os seres humanos emitem quotidianamente em altitudes muito mais baixas, pelo que os impactos na saúde das pessoas seria mínimo. E os custos do projeto são tão reduzidos que um pequeno país ou mesmo um indivíduo abastado poderiam desenvolvê-lo sem problemas.
Mas a “Gestão da Radiação Solar” (SRM) também tem desvantagens significativas. Em primeiro lugar, se não se renovasse a neblina, a temperatura teria um salto súbito quando o efeito de arrefecimento terminasse (seria como fechar um chapéu de sol na praia). Em segundo lugar, aumentar o albedo não significa o fim do aquecimento provocado pelo efeito de estufa. Os gases com efeito de estufa provocam o aquecimento por todo o globo e a todo o tempo, enquanto as alterações no albedo apenas refrescam quando e onde a luz solar que reflete é significativa; não tem relevância à noite e é pouco significativo no inverno, particularmente nas latitudes mais elevadas. Ou seja, provavelmente os efeitos colaterais podem ser piores, pelo menos nalgumas zonas, que o aquecimento do que o aquecimento que combater. Apesar disso, o SRM merece mais investigação, e o Congresso dos Estados Unidos concedeu recentemente fundos para mais trabalho exploratório. Isso poderá conduzir-nos a uma melhor compreensão do sistema climático.
Em vez de tornarmos a Terra mais reluzente, podemos atenuar o aquecimento removendo diretamente o CO2 da atmosfera. A CDR – Carbon Dioxide Removal (“Remoção do Dióxido de Carbono”) retira o carbono da atmosfera em vez de (ou além de) se emitir uma menor quantidade. Há claras vantagens no CDR. Tornaria a questão de “de quem é este CO2” menos relevante e, logo, menos contenciosa. A atribuição de responsabilidades pelas emissões é um dos maiores impedimentos aos esforços internacionais para a sua redução. Também permitiria a exploração de combustíveis fósseis de acordo com a procura necessária ao desenvolvimento económico e tecnológico (embora alguns considerassem isso um retrocesso). Finalmente, uma vez que o CDR anula diretamente as emissões humanas, haveria poucos efeitos colaterais com que nos preocuparmos.
Não é difícil construir uma fábrica química destinada a capturar o CO2 diretamente da atmosfera. Esta tecnologia é similar àquelas usadas nos sistemas de exaustão das centrais nucleares, embora com o desafio adicional de ter de movimentar uma grande quantidade de ar através do sistema. Assim, as verdadeiras questões são acerca da escala e do custo. A quantidade de carbono que necessita de ser removida para reduzir significativamente a influência humana é assustadora. O consumo global de energia é medida em gigatoneladas (mil milhões de toneladas). Anualmente, o mundo consome cerca de 4,5 Gt de petróleo e 8 Gt de carvão. Assim, uma remoção anual de 10 Gt de CO2 (cerca de 1/3 das emissões atuais) requereria uma infraestrutura correspondente só para capturar e manusear o material. É desnecessário dizer que isto não seria barato. Estimativas recentes indicam que custaria até 100 dólares a captura e compressão de uma tonelada de CO2, todos os anos. E depois teríamos o problema adicional de saber que fazer com o CO2, após o removermos da atmosfera. O mundo de hoje utiliza apenas 0,2 Gt de CO2 a cada ano – cerca de 0,13 Gt para produzir ureia (fertilizante) e 0,08 Gt para aumentar a produção de petróleo (bombear CO2 nos campos de petróleo através de “poços de injeção” ajuda a mover o petróleo do subsolo até aos “poços de produção”). Estes usos correntes de CO2 são 100 vezes menores do que a quantidade que seria necessário remover da atmosfera. Infelizmente, é difícil imaginar novas utilizações.
Em vez de se usarem fábricas químicas para remover o dióxido de carbono da atmosfera, poderíamos usar a vegetação natural. Cerca de 200 Gt de carbono flui todos os anos para cima e para baixo, entre a superfície terrestre e a atmosfera, como parte de um ciclo sazonal, mais ou menos em equilíbrio. Ao extrair os combustíveis fósseis do solo, o seres humanos adicionam cerca de 8 Gt de carbono (na forma de 30 Gt de CO2) a esse ciclo anual. Cerca de metade desse excesso é absorvido através da fotossíntese. Se conseguíssemos induzir mais fotossíntese, mais CO2 seria removido. É por isso que existe o apelo à plantação de biliões de árvores para salvar o planeta. Mas embora possamos plantar árvores agora, o crescimento da floresta demora décadas. E temos ainda que compreender a quantidade exata de CO2 que as florestas absorveriam, e os impactos ecológicos derivados de vastas áreas de florestação.
Tem havido nos tempos mais recentes um investimento mais forte do governo americano nas tecnologias que permitem a remoção de dióxido de carbono. Sem dúvida que podem fazer-se progressos. Por exemplo, deverá ser possível modificar plantas geneticamente para melhor capturarem e armazenarem CO2 (embora seguramente se seguissem preocupações ambientais por causa da possível propagação dessas plantas modificadas). Mesmo assim, é difícil aceitar que isto seria feito na escala necessária para mitigar significativamente a influência humana sobre o clima.
Falemos agora de outro – talvez o principal – Plano B: a adaptação. São cinco as razões para pensarmos que a adaptação será a nossa principal resposta às alterações climáticas.
A adaptação é agnóstica. Os seres humanos vêm desde há milénios se adaptando às alterações no clima, a maior parte do tempo sem terem a menor noção (além da vingança dos deuses) do que as causava. A informação que temos hoje ajudar-nos-á na adoção de estratégias, enquanto a sociedade pode adaptar-se às mudanças climáticas, quer sejam naturais ou provocadas pelo homem.
A adaptação é proporcional. Medidas modestas podem ser reforçadas se as mudanças climáticas aumentarem ainda mais.
A adaptação é local. A adaptação é naturalmente ajustável às diferentes necessidades e prioridades das populações locais. Isto torna-a também mais praticável politicamente. A adaptação local não requer consensos, compromissos e coordenação globais, que se têm até agora mostrado ilusórios nos esforços de mitigação.
A adaptação é autónoma. As sociedades têm-no feito desde que a humanidade as formou – os holandeses, por exemplo, construíram e melhoraram diques durante séculos, resgatando terra ao Mar do Norte. A adaptação dar-se-á por si própria, quer a planeemos ou não.
A adaptação é efetiva. As sociedades têm prosperado em ambientes que vão do Ártico aos Trópicos. A adaptação às alterações climáticas sempre contribuíram para reduzir o impacto líquido, relativamente à hipótese de não ser feito nada – ao fim e ao cabo, não iríamos alterar as nossas sociedades para tornar as coisas piores!
Como tantas outras coisas, uma adaptação efetiva é mais fácil nas sociedades mais ricas, que têm os recursos institucionais e económicos para atuarem de acordo com as circunstâncias. Os países menos desenvolvidos são mais frágeis. Assim, a melhor maneira de nos adaptarmos globalmente é encorajar o desenvolvimento económico dos países mais atrasados e fortalecer as suas instituições (tais como o estado de direito ou a capacidade de formular e executar estratégias nacionais). Nesse sentido, a tarefa de reforçar a adaptação acaba por ser a de diminuir a pobreza, o que seria sempre algo benéfico por muitas razões para lá das questões sobre o clima.
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Notas:
1 Dado que o livro de Steven Koonin, aqui divulgado, foi editado em abril de 2021, o autor não tinha ainda conhecimento do AR6, o qual só seria publicado em 7 de agosto de 2022.
2IPCC. “Managing the Risks of Extreme Events and Disasters to Advance Climate Change Adaptation (SREX).” IPCC, January 1, 2000. https://archive.ipcc.ch/report/srex/.
3IPCC. “Special Report on the Ocean and Cryosphere in a Changing Climate.” January 1, 2000. https://www.ipcc.ch/srocc/.
4IPCC. “Climate Change and Land.” Special Report on Climate Change and Land, January 1, 2000. https://www.ipcc.ch/srcel/.
5US Global Change Research Program.
6USGCRP. Climate Science Special Report: Fourth National Climate Assessment, Volume I. US Global Change Research Program, Washington, DC., 2017. https://science2017.globalchange.gov/.
7USGCRP. “Fourth National Climate Assessment, Volume II: Impacts, Risks, and Adaptation in the United States: Summary Findings.” NCA4, January 1, 1970. https://nca2018.globalchange.gov/.
8Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, artigo 1.
11Harde, Hermann. “Radiation Transfer Calculations and Assessment of Global Warming by CO2.” International Journal of Atmospheric Sciences, March 20, 2017. https://www.hindawi.com/journals/ijas/aip/9251034/.
12Ao contrário do que geralmente se pensa, a maior parte do metano é libertado pela parte da frente dos animais e não pela parte de trás.
13Como comparação, um cêntimo é apenas treze vezes mais largo do que espesso.
14Schneider, T., J. Teixeira, C. Bretherton, et al. “Climate goals and computing the future of clouds”. Nature Clim Change 7 (2017): 3-5. https://doi.org/10.1038/nclimate3190.
27Dusenge, M. E., A. G. Duarte, and D. A. Way. “Plant carbon metabolism and climate change: elevated CO2 and temperature impacts on photosynthesis, photorespiration and respiration”. New Phytologist 221 (2019): 32-49.
29Pilke, Roger. “How Billionaires Tom Steyer and Michael Bloomberg Corrupted Climate Science.” Forbes, January 2, 2020.
30Lomborg, Bjorn. False Alarm: How Climate Change Panic Costs Us Trillions, Hurts the Poor, and Fails to Fix the Planet. New York: Basic Books, 2020.
31McNutt, Marcia, C. D. Mote Jr., Victor Z. Dzau. “National Academies Presidents Affirm the Scientific Evidence of Climate Change.” The National Academies of Sciences, Engeneering, and Medicine, June 18, 2019.
32Handler, Philip. “Public Doubts About Science”. Science, June 6, 1980.
33Feynman, Richard P. “Cargo Cult Science”. Caltech 1974 commencement adress, June 1974.
34O desenvolvimento dos países industrialmente mais atrasados, combinado com o crescimento populacional, implicará que a procura energética aumente 50% em 2050.
35Por exemplo, muitos poderão ficar surpreendidos, mas a quantidade de energia proveniente da queima de madeira (a energia por excelência do século XIX) é a mesma hoje do que a utilizada no tempo da Guerra Civil Americana.
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número de volumes da biblioteca, de Jorge e Fla, em: 04/01/2026: 1187.
Adam Smith não foi apenas um economista. Entre outras matérias, escreveu e ensinou sobre Física, Astronomia, Metafísica, Ética, Lógica e Literatura. O saber de Smith era, pois, enciclopédico. Isso ressalta da Riqueza das Nações, uma obra monumental e de referência, hoje clássica, no seio do conhecimento económico. Dada a sua dimensão, é dividida, desde a edição original de 1776, em dois volumes, com um título descritivo e amplo, bem ao gosto da época: Inquérito sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações. O conteúdo faz jus ao título. Smith descreve amplamente os sistemas de organização de diferentes sociedades em diferentes épocas, desde os egípcios, gregos e romanos até aos reinos e repúblicas da sua época, incluindo quase meia centena de referências a Portugal, a maioria destas não muito elogiosa1.
Claro que muitas das ideias de Smith estão ultrapassadas pelos quase 250 anos que entretanto passaram. Muita coisa mudou. As questões comerciais, cambiais, financeiras, demográficas, económicas, sociais e políticas são substancialmente diferentes. E há problemas novos que naquela época nem sequer se imaginavam, como as questões ambientais. Apesar disso, há princípios económicos que se podem deduzir da Riqueza das Nações que não são anacrónicos, pelo contrário, mantêm-se atualíssimos. O principal resulta, sem dúvida, da excessiva intervenção do Estado nas atividades económicas, que deveriam decorrer tão livremente quanto possível entre os cidadãos. Excessiva intervenção que se revela em impostos elevados (que servem para cobrir a ineficiência dos governos), fixação de salários e preços, monopólios2, protecionismo e, sobretudo, numa administração tendenciosa da justiça, protegendo os mais fortes (os que estão próximos do poder), não permitindo que os empreendedores mais humildes criem riqueza e, assim, elevem o nível social de toda a população.
Mas o trabalho de Mr. Smith também é importante porque, além de estabelecer o princípio da liberdade económica, ele foi o primeiro a sistematizar a economia, sendo por isso ainda hoje considerado por muitos o fundador desta disciplina. A Riqueza das Nações acolhe, nos seus dois volumes, cinco “livros”, que correspondem às grandes áreas da economia. O primeiro trata do trabalho, da produção e da distribuição da riqueza; o segundo do capital, sua natureza, acumulação e utilização; o terceiro compara os desenvolvimentos económicos das diferentes nações, numa perspetiva histórica3; o quarto versa sobre os diferentes sistemas de economia política; e o quinto, e último, livro trata das formas como o Estado se financia para prestar os serviços necessários ao bom funcionamento da sociedade. Tudo isto exposto de forma elegante, clara, simples, sem adornos desnecessários. Esta é uma obra pragmática, centrada nos resultados e não nas intenções, fortemente radicada numa moral4, mas sem moralismos ou ideologia.
O liberalismo de Smith está bem expresso na citação seguinte, que, provavelmente, melhor do que qualquer outra, poderá sintetizar o seu paradigma económico: O esforço natural de cada indivíduo para melhorar a sua própria condição, quando lhe é permitido exercê-lo com liberdade e segurança, é um princípio tão poderoso que, só por si e sem qualquer outro contributo, é não só capaz de criar a riqueza e prosperidade de uma sociedade, como ainda de vencer um grande número de obstáculos com que a insensatez das leis humanas tanta vez cumula as suas ações.5 Por outro lado, a sua preocupação com os gastos do Estado é igualmente bastante clara, uma vez que resolver os problemas do momento é sempre a ideia principal daqueles que estão ligados à administração dos negócios públicos, deixando sempre para as gerações vindouras o cuidado de saldar a dívida pública. 6
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Notas:
1Adam Smith faz um retrato negro de Portugal: vida terrível das classes mais desfavorecidas, com pagamento de dízimo aos frades mendicantes, sob pena de quem não o fizer ser considerado pecador; clero como grande proprietário de terras; monopólios no comércio com as colónias, o que faz elevar os preços e os lucros dos mercadores protegidos, enquanto a maioria da população perde poder de compra; protecionismo, com demasiados impostos sobre os produtos importados, fazendo que os produtos nacionais se desvalorizem; e, sobretudo, “administração irregular e parcial da justiça, que muitas vezes protege o devedor rico e poderoso da perseguição do seu prejudicado credor e que faz com que a parte industriosa da nação tema preparar bens para o consumo desses grandes e arrogantes homens a quem não ousam recusar a venda a crédito e de quem não têm qualquer segurança em relação a pagamento” (Ob. cit., vol. II, p. 171).
2“Um monopólio contribui necessariamente para manter a taxa de lucro em todos os ramos do comércio acima do que naturalmente seria se todas as nações possuíssem um comércio livre” (ob. cit., vol. II, p. 154).
3Como já foi dito, Adam Smith era muito mais que um economista. Além de todas as disciplinas, mencionadas neste artigo, em que era versado, ele era ainda um grande conhecedor da história universal.
4Sem dúvida que por toda a obra perpassam os princípios da equidade, da humanidade e da justiça.
5Ob. cit., vol. II, p. 68.
6Ob. cit., vol. II, p. 633.
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A nossa edição:
Adam Smith, Riqueza das Nações, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1981
Matthew Walker fotografado no seu laboratório do sono. Foto de Saroyan Hamphrey.
Podemos pensar que uma ou duas noites mal dormidas não causam grandes problemas, até porque no fim de semana podemos dormir mais tempo e colocar o sono em dia. Puro engano. Os danos no cérebro e no corpo que a privação do sono provoca não são reparáveis com noites em que durmamos mais para compensar o sono perdido. Pelo contrário, o déficit de sono nunca é recuperável, apenas acumulável. Assim, se dormirmos regularmente menos de sete horas por noite, os danos físicos e mentais, mais cedo ou mais tarde, acabarão por surgir1.
Que tipo de danos? Bom, praticamente todos. As doenças mentais causadas pela falta de sono vão desde a esquizofrenia à doença de Alzheimer, passando pela depressão, o distúrbio bipolar, a ansiedade e o suicídio; e as doenças fisiológicas provocadas pela carência de sono passam, entre outras patologias, pelo cancro, a diabetes, os ataques cardíacos, a infertilidade, a obesidade e a imunodeficiência. Pode parecer exagerado, mas não é: estas conclusões são sustentadas por décadas da melhor investigação científica e têm por base um incontável número de experiências, levadas a cabo um pouco por todo o mundo2. De resto, o livro que aqui analisamos, Porque Dormimos?, é fruto de uma longa investigação (de mais de vinte anos) do seu autor, Matthew Walker.
1- Sono, o enigma desvendado
Até há muito pouco tempo, ninguém sabia exatamente porque dormimos. O assunto era demasiado controverso. Um dos problemas é que se procurava uma função única, um “cálice sagrado” que todos queriam encontrar. As teorias eram diversificadas: o sono é um período em que o corpo conserva energia; dormir é uma oportunidade para oxigenar os globos oculares; dormir é um estado não consciente em que realizamos os desejos reprimidos quando estamos acordados… e havia também quem dissesse o que parecia mais óbvio: dormimos para descansar. Mas, afinal, essa resposta não era assim tão óbvia, pois isso implicaria que um lenhador precisasse de muito mais tempo de sono que um empregado de escritório ou um reformado, o que não é o caso.
Nas últimas duas décadas, porém, as neurociências tiveram um desenvolvimento incrível e contribuíram de forma decisiva para tornar essas e outras respostas obsoletas.O sono é infinitamente mais complexo, relevante e interessante do que se pensava. Sobretudo, é vital: o que quer dizer que a sua carência acarreta graves prejuízos para a saúde. Estas descobertas foram possíveis graças a equipamentos que vieram permitir a realização de ressonâncias magnéticas e tomografias, as quais juntamente com o uso de elétrodos3, tornaram possível detetar as regiões do cérebro que estão (ou não) mais activas4 em determinado momento. Por outro lado, a montagem de laboratórios do sono em universidades e centros de investigação proporcionaram o desenvolvimento de estudos sobre os efeitos, no corpo e na mente, provocados pela privação do sono, a maior parte das vezes comparando os resultados obtidos por um grupo de pessoas que dorme normalmente com os de outro grupo de pessoas privadas de um sono completo5.
E não restam dúvidas: dormimos porque dormir é tão vital como comer, beber ou respirar. De acordo com a mais recente investigação, o sono é “a atividade mais eficaz que podemos levar a cabo para repor diariamente a saúde do nosso cérebro e do nosso corpo – até ao momento é o melhor esforço da Mãe Natureza para contrariar a morte”6. Ou seja, para a ciência atual, a questão já não é a de se saber para que é que o sono é benéfico. Em vez disso, a pergunta que se faz é se existirá alguma função biológica que não beneficie de uma boa noite de sono. E a resposta que milhares de estudos já realizados nos dão é: não, não existe. Por outro lado, todas as patologias são agravadas e muitas causadas pela falta de sono.
2 – O que nos leva a dormir ou ter dificuldade em fazê-lo
Há dois fatores paralelos que, combinados, determinam os períodos do dia em que nos sentimos mais despertos ou sonolentos: o ritmo circadiano (Processo-C) e a pressão do sono (Processo-S), esta determinada pela acumulação de um químico no cérebro chamado adenosina7. Quando o ritmo circadiano está alto e o nível de adenosina baixo (por exemplo, de manhã), sentimos um agradável estado de vigília plena, e estamos prontos para enfrentar as vicissitudes do dia; pelo contrário, quando chega a noite, depois de estarmos 15 horas acordados, o nosso cérebro está inundado com altas concentrações de adenosina, enquanto o ritmo circadiano está a diminuir, baixando os níveis de atividade e alerta. São, portanto, estes os fatores naturais que nos induzem à vigília ou ao sono. Qualquer perturbação num destes (ou em ambos os) processos é prejudicial para o nosso sono e para a nossa saúde.
Além destes processos, há ainda outra substância, uma hormona, que dá o “tiro de partida” para o sono – a melatonina. Esta hormona, libertada por uma glândula situada algures nas profundezas da parte de trás do cérebro chamada pineal, sob ordens do núcleo supraquiasmático (ver nota 9), é libertada na corrente sanguínea enviando uma mensagem clara ao cérebro e ao corpo, “está escuro! está escuro!”, assinalando assim a hora de dormirmos. Após começarmos a dormir, a concentração de melatonina vai diminuindo até se desligar completamente quando a luz do dia emerge da noite. A ausência de melatonina informa o nosso corpo de que o sono foi cumprido e é tempo de vigília. Depois, com o anoitecer, os níveis de melatonina começam a subir até atingirem o pico, iniciando-se assim um novo ciclo.
De salientar que o ritmo circadiano8 não regula apenas os horários do sono, mas também os de comer, beber, as emoções, a quantidade de urina que o corpo produz, a temperatura interior do corpo, o metabolismo e, entre outros, a libertação de inúmeras hormonas. Os ritmos circadianos são variáveis entre espécies mas também entre indivíduos9. No que diz respeito ao sono, há três tipos de pessoas, cada uma com o seu cronotipo, de acordo com os diferentes ritmos circadianos: o “tipo matutino” (constituído pelos indivíduos que despertam mais cedo de manhã e se sentem sonolentas não muito depois do início da noite) que engloba cerca de 40% da população; o “tipo vespertino” (constituído por pessoas que adormecem mais tarde e, logo, acordam mais tarde também) que inclui cerca de 30% da população; e um tipo intermédio, algures entre os dois primeiros, com ligeira inclinação para a vivência noturna, que engloba os restantes 30%.
Há sobretudo duas substâncias que, por serem mais comuns, prejudicam o sono. A cafeína e o álcool. A cafeína bloqueia e desativa os recetores da adenosina, bloqueando, assim, o sinais de sonolência que esta envia para o cérebro. Os efeitos da cafeína começam a sentir-se cerca de meia-hora depois de bebermos um café, por exemplo, mas a sua característica mais problemática é o prolongamento desses efeitos no tempo, em qualquer caso, de várias horas. De facto, a eliminação da cafeína do organismo depende de uma enzima produzida pelo fígado, muito diferenciada entre indivíduos, por fatores genéticos. Assim, há pessoas cuja enzima é mais eficaz a eliminar a cafeína, mas a maioria demora mais de sete horas a eliminá-la da corrente sanguínea. Isso quer dizer que a grande maioria das pessoas que bebem café depois do jantar vai certamente ter dificuldades em adormecer. Já o álcool produz um efeito igualmente nocivo, mas muito mais enganador10. Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o álcool não ajuda a adormecer mais depressa e nem sequer proporciona um sono mais profundo. O álcool fragmenta o sono e provoca breves momentos de despertar, embora a pessoa não se aperceba disso. O fígado e os rins demoram horas a degradar e excretar o álcool, de modo que o consumo de bebidas alcoólicas à noite irá inevitavelmente prejudicar o sono.
Para além da cafeína e do álcool (e também outras drogas e o tabaco), outros fatores externos que conflituam com o sono são a iluminação excessiva, sobretudo as luzes LED11, as temperaturas elevadas e os horários prematuros de iniciar as aulas e de pegar ao trabalho. Entrar no trabalho ou na escola às oito da manhã (e às vezes mais cedo) priva milhões de pessoas de dormirem o suficiente, sobretudo os “vespertinos” que, naturalmente, são impelidos a ir para a cama mais tarde. Os prejuízos na saúde das pessoas, e os custos para a sociedade e as empresas, são incalculáveis. É por isso que a fixação de horários diversificados seria uma medida que, além de simples, traria um impacto extremamente positivo, tanto maior quanto mais alargado. Mas existem fatores internos que também prejudicam o sono. Distúrbios psicológicos como a ansiedade e a depressão, entre outros, podem condicionar o sono. Mais grave é quando a falta de sono e esses distúrbios se auto-alimentam, criando um círculo vicioso difícil de quebrar. A solução, de acordo com Walker, não passa pela tomada de comprimidos para dormir, uma vez que estes não nos induzem a dormir naturalmente (impedindo-nos por isso de receber os benefícios do sono), antes funcionam como sedativos e podem mesmo provocar a morte. Mais à frente aludiremos ao que Walker propõe para dormirmos melhor.
3- A ciência do sono
Pode dizer-se que a moderna ciência do sono começou em 1952, quando o professor da Universidade de Chicago Nathamiel Kleitman e o seu aluno Eugene Aserinsky descobriram que temos dois tipos de sono diferentes: NREM e REM12. O primeiro, predominante num primeiro ciclo de sono e o segundo nos últimos ciclos (são considerados cinco ciclos de sono sensivelmente de hora e meia cada, num sono normal de entre sete a oito horas). O sono NREM, quando não existem movimentos rápidos dos olhos, produz ondas cerebrais mais lentas e longas, enquanto o sono REM, quando o movimento ocular é rápido e acompanhado de sonhos, produz ondas cerebrais curtas e rápidas, muito semelhantes às emitidas quando estamos acordados. Ambos os tipos de sono são indispensáveis para a nossa saúde física e mental.
Quando começaram a medir as ondas lentas do sono NREM, nas décadas de 1950 e 1960, os cientistas consideraram que o cérebro estaria ocioso ou até adormecido nesses momentos. Mas isto estava profundamente errado. As ondas cerebrais do sono NREM espalham-se harmoniosamente desde o meio do cérebro, no tálamo, bloqueando a transferência da perceção de sinais exteriores, até ao cimo do cérebro, o córtex. A perda da sensação de consciência explica porque não sonhamos durante o sono NREM e faz com que o córtex descanse, entrando no modo de funcionamento por defeito. É então que as memórias de curto prazo são transportadas do seu local de armazenamento provisório, o hipocampo, para outro mais seguro, o neocórtex. Isto não acontece apenas nos humanos, mas também nos chimpanzés, orangotangos, bonobos, gatos, ratinhos e até nos insetos. Está provado também que o sono NREM, sobretudo na fase 2, melhora as capacidades motoras, daí ser muito importante nas crianças e nos desportistas, entre outros.
É também muito importante perceber o que acontece quando o sono NREM é prejudicado nos indivíduos mais velhos, o que, infelizmente, acontece com grande frequência. Isto tem implicações graves na memória destas pessoas, e está diretamente relacionado com a doença de Alzheimer.13 Finalmente, outro aspeto a ter em conta quanto ao sono NREM é que este atua como calmante, permitindo que o ramo de luta ou fuga do sistema simpático se acalme, diminuindo o risco de pressão alta e a ocorrência de apoplexias. Um bom sono NREM é, portanto, vital.
Sono REM
Sono NREM
Ondas cerebrais com frequência rápida e caótica.
Ondas cerebrais com frequência lenta e sincronizada.
Ondas produzidas em quatro aglomerações distintas do cérebro.
Ondas produzidas no centro dos lobos frontais.
Ondas tipo rádio FM.
Ondas tipo rádio AM .
Entrada sensorial do tálamo aberta.
Entrada sensorial do tálamo fechada.
Corpo totalmente paralisado (atonia).
Corpo não-totalmente paralisado.
Com sonhos.
Sem sonhos.
Indivíduos com potencial criativo elevado se acordados neste período.
Indivíduos pouco ou nada criativos se acordados neste período.
Sem episódios de sonambulismo.
Possibilidade de episódios de sonambulismo.
Pouco sensível à temperatura, ao exercício físico e à alimentação.
Sensível à temperatura, ao exercício físico e à alimentação.
Diferenças entre os sonos REM e NREM.
Como se pode verificar pelo quadro acima, o sono REM tem características bastante diferentes do sono NREM. Desde logo as ondas produzidas pelo cérebro durante o sono REM, de frequência curta e rápida, são mais semelhantes ao estádio de vigília do que ao período de sono NREM. É por isso que o sono REM é muitas vezes chamado de “sono paradoxal”: um cérebro que parece estar acordado (com partes 30% mais ativas do que no estado de vigília) e um corpo claramente adormecido. Durante o sono REM o corpo perde completamente a tonacidade e os músculos pura e simplesmente paralisam, transformando-nos em prisioneiros dentro do próprio corpo. Isto acontece para que possamos sonhar à vontade. Seria muito perigoso se durante alguns sonhos extremamente movimentados nós próprios nos pudéssemos mover. Assim, a Natureza, através do processo evolutivo, resolveu o assunto obrigando-nos à imobilidade durante os períodos de sono REM.
O sono REM é um estado caracterizado por uma forte ativação nas regiões visuais, motoras, emotivas e autobiográficas do cérebro, e por uma desativação relativa nas regiões que controlam o pensamento racional. Uma questão particularmente importante do sono REM está relacionada com os sonhos, uma vez que só neste modo de sono podemos sonhar. Calcula-se que entre 35% a 55% das preocupações e emoções que experimentamos durante o dia reapareçam à noite quando sonhamos.14 A princípio pensou-se que os sonhos fossem um sub-produto do sono REM, mas posteriormente descobriu-se que os sonhos têm uma função própria. Ou melhor, duas.
A primeira tem que ver com a nossa saúde mental e emocional. De facto, os sonhos fazem um trabalho de terapia noturna: quando sonhamos com experiências traumáticas ou dolorosas sentir-nos-emos mais aliviados e calmos quando voltarmos a recordá-las. Isto acontece porque a única altura das 24 horas do dia em que a concentração de um químico relacionado com o stress, a noradrenalina, é completamente desligado no interior do cérebro, é durante o sono REM.15 A segunda tem a ver com a nossa apetência para a interpretação de expressões faciais, a resolução de problemas e a criatividade.
As áreas do nosso cérebro dedicadas à descodificação dos sinais que nos chegam das expressões faciais são as áreas que o sono REM equilibra durante a noite para que possam estar operacionais na manhã seguinte. Experiências com pessoas privadas de sono REM mostraram que estas tiveram dificuldades em ler expressões faciais, vivenciando um mundo adverso e ameaçador que não correspondia à realidade.16 Finalmente, a função mais extraordinária dos sonhos é a de ampliar a criatividade. Quando sonhamos, o nosso cérebro reúne vastos segmentos dos conhecimentos adquiridos, misturando-os de forma inspirada e, enveredando por atalhos, descobre soluções para problemas anteriormente impenetráveis. É por isso que quando acordamos após um sonho temos uma maior probabilidade de criar peças artísticas valorosas, como poemas ou canções, e maior apetência para resolver problemas, como anagramas. Os exemplos são vastos e variáveis, muitos deles famosos: Mendeleev viu a tabela periódica num sonho; Keith Richards compôs os acordes de “Satisfaction” durante o sono REM;17 Paul McCartney acordou com a melodia de “Yesterday” na cabeça. St. Paul Boux, um poeta surrealista francês, colocava na porta do quarto, antes de dormir, uma placa que dizia: “Não perturbar: poeta trabalhando.”
Esta ligação e mistura criativa de informações é o que distingue o nosso cérebro dos computadores. Os nossos “algoritmos” são diferentes e bem podemos falar de um “algoritmo do sonho”. As pessoas que sonham com um problema têm uma probabilidade muito maior de o resolver do que aquelas que não sonham. O cérebro durante o sonho conjuga a memória recente sobre um determinado assunto com outras antigas relacionadas com o mesmo assunto e ainda outras hipotéticas relações, proporcionando respostas altamente criativas, inacessíveis a quem não sonha.18
Tudo isto nos conduz a um grave problema: tendo em conta 1) que os nossos adolescentes acordam cada vez mais cedo para irem para a escola, 2) que o ritmo circadiano na adolescência se adianta algumas horas e que 3) é no final do nosso sono que prevalece o sono REM com sonhos, estamos a privar os adolescentes das nossas sociedades da qualidade de vida que eles, não apenas enquanto adolescentes mas também na idade adulta, merecem. E porque se adianta o ritmo circadiano dos adolescentes algumas horas? A ciência não tem uma resposta inequívoca, mas Walker avança como uma hipótese a ter em conta: ao diferenciar os sonos dos adolescentes e dos pais, a Natureza está a incentivar a emancipação destes iminentes adultos.19
4- Como dormir melhor
No final do livro, Matthew Walker deixa-nos 12 dicas para melhorarmos o nosso sono, dizendo-nos que, se tivéssemos de escolher apenas uma delas, seria a primeira: manter um horário de sono regular. Além disso, devemos: evitar o álcool, a cafeína e a nicotina; fazer exercício físico, mas não a horas tardias; evitar grandes refeições e demasiadas bebidas à noite; evitar medicamentos que de alguma forma perturbem o sono; não fazer sestas depois das três da tarde; descontrair antes de ir para a cama e, se possível, tomar um banho quente e relaxante antes de dormir; escurecer o quarto e mantê-lo não demasiado quente; não ver televisão nem usar o computador ou o telemóvel antes de adormecer (é preferível ler um livro); evitar as luzes LED; manter uma exposição solar adequada, o que quer dizer que devemos receber bastante luz durante a manhã e expor-nos à luz natural durante, pelo menos, meia-hora durante o dia; desligar as luzes antes de ir para a cama; não ficar acordados na cama se não conseguirmos dormir: se nos mantivermos acordados durante mais de 20 minutos devemos levantar-nos e fazer qualquer coisa relaxante até sentir sono. A ansiedade por não conseguirmos dormir pode dificultar ainda mais o adormecer.
Finalmente, recordemos que uma vida com o sono em dia é sinal de uma vida saudável. Catástrofes como o desastre no reator nuclear de Chernobyl e o encalhe do petroleiro Exxon Valdez, entre tantos outros, foram provocados pela falta de sono.20 E, já agora, se algum dia (ou noite) sentir sono enquanto conduz, por favor, pare. A probabilidade de ter um acidente grave é elevadíssima.
Bom dia, boa noite, bom sono e bons sonhos!
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Notas:
1Depois de dez dias de apenas sete horas de sono por noite, o cérebro fica tão disfuncional quanto estaria depois de 24 horas sem dormir.
2 A importância do sono é hoje reconhecida pela OMS que catalogou a falta de sono abrangente como um epidemia global. E o próprio Guiness Book retirou o recorde da privação do sono do seu livro de recordes, por reconhecer o seu caráter nocivo.
3Os elétrodos registam sinais emitidos por três regiões distintas: a atividade das ondas cerebrais, a atividade dos movimentos oculares e a atividade muscular.
4De realçar que o cérebro consome 20% da energia do nosso corpo, embora represente apenas 2% do seu peso total.
5É considerado “sono normal” um sono contínuo com duração entre 7,5 e 9 horas. Uma sesta com duração máxima de hora e meia e que termine antes das 15:00 horas, também é considerada normal e mesmo benéfica.
6Ob. cit., p. 18.
7Logo que acordamos a adenosina começa a acumular-se no cérebro. Quando atinge o seu ponto máximo, sentimos uma vontade irresistível de dormir. Na maior parte das pessoas isto acontece depois de estarem entre 12 a 16 horas acordadas.
8“Circa” (em torno de) e “diam” (dia). Daí deriva o termo circadiano.
9Foi possível determinar o ritmo circadiano humano através de experiências em que indivíduos foram privados da luz solar. A mais famosa foi realizada em 1938, quando o professor da Universidade de Chicago Nathaniel Kleitman e o seu assistente Bruce Richardson estiveram 32 dias mergulhados na escuridão profunda da Caverna Mammoth, no Kentucky, uma das mais profundas do planeta. Sabe-se hoje que o relógio circadiano de um humano adulto é de cerca de 24 horas e 15 minutos. São a luz solar e o núcleo supraquiasmático que ajustam o nosso relógio interior para as 24 horas do dia. “Quiasma” significa ponto de cruzamento, e o núcleo supraquiasmático situa-se mesmo por cima do ponto, no centro do cérebro, onde os nervos óticos, com origem nos globos oculares, se cruzam, “decidindo” quando queremos estar acordados ou a dormir.
10O sono insuficiente durante a infância tem relação direta com o consumo de álcool e drogas na adolescência.“O álcool é um dos repressores mais poderosos do sono REM de que temos conhecimento” (ob. cit., p. 97).
11Apesar de em 2014 Shuji Nakamura, Isamu Akasaki e Hiroshi Amano terem ganhado o Prémio Nobel da Física pela invenção da luz LED, devido à poupança de energia e à maior longevidade das lâmpadas LED, estas emitem luzes azuis de ondas curtas muito mais próximas da luz do dia do que as velhinhas lâmpadas incandescentes de luzes quentes e amarelas, perturbando assim o sono.
13A doença de Alzheimer é provocada pela acumulação de uma proteína chamada beta-amiloide. A Drª Maiken Nedergaard, da Universidade de Rochester, descobriu uma espécie de “rede de esgoto”, a que chamaram sistema glinfático (constituído por células gliais espalhadas pelo cérebro), o qual, à semelhança do que o sistema linfático faz no corpo, limpa as substâncias nocivas do cérebro, nomeadamente os contaminantes metabólicos perigosos gerados pelo trabalho dos neurónios, entre eles a perigosa proteína beta-amiloide, bem como outra proteína denominada “tau” e moléculas de pressão, que se pensa serem a causa da Alzheimer. A carência de sono NREM faz com que essa limpeza não seja eficientemente realizada, provocando a acumulação dos contaminantes metabólicos. Margareth Thatcher e Ronald Reagan, que afirmavam dormir apenas 4 ou 5 horas por noite, contraíram a doença de Alzheimer… Alguém deveria avisar o nosso Presidente!
14O professor da Universidade de Harvard, Robert Stickgold, chegou a esta conclusão após conceber uma experiência com 29 jovens adultos saudáveis, a quem pediu que registassem o que faziam durante o dia, bem como as suas preocupações emocionais. Pediu-lhes também que registassem os sonhos de que se lembrassem, obtendo, assim, 299 relatórios de sonhos ao longo de 14 dias.
15O Dr. Murray Raskind, um médico especialista em PSPT (Perturbação de Stresse Pós-Traumático) e doença de Alzheimer, constatou que um medicamento chamado prozonina, que receitava para controlo da pressão arterial de alguns dos seus pacientes, também lhes aliviavam os pesadelos e sonhos dolorosos recorrentes devidos aos traumas de guerra. Veio a revelar-se que a prozonina tinha também o efeito de suprimir a noradrenalina no cérebro, permitindo que os pacientes dormissem mais tranquilamente.
16Isto é bastante problemático para pessoas que nas suas atividades profissionais, como polícias e pessoal médico, frequentemente têm que avaliar as emoções transmitidas por expressões faciais de inúmeros indivíduos, avaliações em que o erro pode causar uma tragédia.
17Keith costumava deitar-se com uma guitarra e um gravador ligado ao lado da cama. Numa manhã, quando acordou, sem se lembrar de nada, puxou a fita do gravador atrás e ouviu os primeiros acordes de “I Can Get No Satisfaction”.
18Uma descoberta relativamente recente (2013) confirmou que há “sonhadores lúcidos”, ou seja, pessoas que conseguem controlar os próprios sonhos. Estes indivíduos representam quase 20% da população.
19Durante a adolescência, o processo de desenvolvimento da arquitetura cerebral, com a ajuda do sono REM, já está completo. O objetivo agora já não é aumentar a escala, antes reduzi-la, e aqui quem tem o protagonismo é o sono NREM, ajudando na poda das ligações, e no desbaste sináptico que tipicamente acontece na adolescência.
20Ob. cit., pp. 350-51.
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A nossa edição:
Matthew Walker, Porque Dormimos, Editora Desassossego, Lisboa, 2019, 1ª ed.
Homo Biologicus, é o título do primeiro livro do médico francês Pier Vincenzo Piazza.
Todo o organismo tende para um estado de equilíbrio, o estado homeostático. Temos de respirar, comer e beber para manter esse equilíbrio, sendo que a auto-regulação do nosso organismo faz o resto. Há milhões de anos, quando os nossos ancestrais viviam num ambiente em que os recursos alimentares disponíveis eram escassos, a seleção natural, por uma questão de sobrevivência da espécie, “criou” o que hoje chamamos de homem “exostático”, aquele que, em oposição ao homem “endostático” que apenas se alimenta até ficar saciado, come mais do que necessita para repor o equilíbrio momentâneo, isto é, armazena comida no organismo prevenindo momentos futuros de escassez. Tal como beber sem ter sede ou respirar mais do que o necessário, também comer sem ter fome era, naquela período, penoso. Então, a seleção natural teve de “engendrar” uma estratégia para que o organismo dos nossos ancestrais armazenasse o bem mais escasso de que necessitava – comida – e assim nasceu o prazer.
A nossa espécie passou, a partir daí, a ter dois tipos de indivíduos, os “endostáticos” e os “exostáticos”. Estes últimos são os mais propícios a ter todo o tipo de prazeres, desde a vontade incontrolável de comer (daí a praga da obesidade), ao consumo de drogas, passando pelo vício do jogo e a apetência para desportos radicais. Para lá de um sistema endocabinoide mais operante próprio dos “exostáticos”, não existe nada de errado com estes indivíduos. O que acontece é que o processo de seleção natural tem uma escala de milhões de anos e o processo tecnológico humano de transformação dos recursos terrestres (nomeadamente a agricultura) tem uma escala muito menor. Ou seja, os nossos organismos preparados pela natureza para viverem em tempos de escassez, viram-se subitamente rodeados de abundância. Daí que haja tantos indivíduos obesos nas sociedades ocidentais: enquanto “exostáticos”, eles estão “programados” pela natureza para comerem mais do que necessitam e assim armazenarem energia, em prol da sobrevivência da espécie.
Esta dualidade endo/exos da nossa espécie reflete-se também nas visões que temos do mundo. O indivíduo “endostático” tende a ser conservador e o “exostático” progressista. As visões “endostática” e “exostática”, além de se oporem entre si, são limitativas e parciais, não nos permitindo enfrentar com eficácia os graves problemas que o mundo enfrenta, pois tal só é possível se compreendermos, afinal, por que existe essa oposição. Para isso, Piazza, o autor de Homo Biologicus, o livro onde tudo isto se esclarece, propõe um homem novo, com uma nova visão: o homo interstaticus. Com uma abordagem mais abrangente, este novo homem está pronto para sintetizar as visões “endostática” e “exostática”, e assim dar resposta aos problemas que a nossa espécie enfrenta. Por exemplo, não é mais possível, considerar os viciados em drogas (ou noutra coisa qualquer) como pessoas falhas de vontade, uma vez que a sua biologia os impele a ter esse comportamento. Ninguém se lembraria de considerar um esquizofrénico ou um autista como pessoas falhas vontade. Pois o mesmo deve acontecer com os viciados em drogas (das leves às duras, incluindo as mais disseminadas e legais como o álcool e, sobretudo, o tabaco) que, à luz dos conhecimentos científicos contemporâneos, tal como os que padecem de Alzheimer ou Parkinson, são pessoas doentes.
A abordagem aos problemas causados pelas drogas está pois condicionada pelo nosso dualismo. É por isso que a maioria de nós ainda pensa que as drogas consideradas “duras” são as mais perigosas, quando na realidade são as menos tóxicas e as que menos matam. Estas drogas são proibidas em quase todas as sociedades, ao contrário do álcool (proibido apenas em algumas sociedades) e do tabaco (cujo consumo não é proibido em nenhum país), que matam um número de indivíduos muitíssimo superior em todo o mundo, simplesmente por uma razão: porque um viciado em tabaco consegue perfeitamente trabalhar enquanto um viciado em heroína tem grande probabilidade de deixar de ser produtivo. Esta perspetiva utilitarista, que considera o viciado um fraco sem domínio de si mesmo, não nos permite abordar a raiz do problema.
Na verdade, essa visão do homem sem vontade, advém mais uma vez de uma perspetiva dualista ainda presente nas nossas sociedades: a de que somos compostos por duas partes, uma material (o corpo) e outra imaterial (a mente ou a alma). Piazza mostra-nos que tal coisa não existe: a nossa suposta “vontade” é fruto do que se passa no nosso cérebro que, apesar da sua incrível complexidade, é matéria. Somos, de facto, um animal exclusivamente biológico, um organismo com o cérebro proporcionalmente maior, mas ainda assim, um organismo como os outros na natureza. É com consciência das nossas limitações que devemos também abordar o futuro, repensar tudo, incluindo o percurso de guerras e destruição ambiental que vem caracterizando a atividade humana. É necessário um novo ponto de partida e a esperança reside numa abordagem mais abrangente e integral, à luz dos novos conhecimentos científicos sobre a biologia humana, a do homo interstaticus.
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A nossa edição:
Pier Vincenzo Piazza, Homo Biologicus, Bertrand Editora, Lisboa, 2020.
Mario Vargas Llosa, premiado com o Nobel da Literatura em 2010, foi convidado para vir a Lisboa, em outubro de 2016, e encerrar um ciclo de oito conferências dedicadas ao tema “Que Democracia?”, organizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Apesar desta conferência ter quase quatro anos, o seu tema é atual. Decidimos publicá-la na íntegra, porque a influência da filosofia política de Karl Popper, que aliás não é escondida, antes salientada, no discurso de Llosa é notável. Esta charla pode mesmo constituir uma boa introdução ao pensamento político de Popper para um(a) iniciado(a). Lamentavelmente, este vídeo foi apagado do youtube. Em alternativa, deixamos um discurso proferido por Llosa numa cerimónia em que foi agraciado com o título de doutor honoris causa, um dos muitos que lhe foram outorgados, neste caso, na Universidade Diego Portales, no Chile. A influência de Popper no pensamento de Vargas Llosa é iniludível, e está bem patente dentro do minuto 43 deste vídeo quando Llosa afirma: “a leitura de A Sociedade Aberta e Seus Inimigos mudou inteiramente a minha vida”.1
Nota:
1No seu mais recente livro (ver “A nossa edição”), Mario Vargas Llosa refere, além de Popper, outros autores que influenciaram o seu pensamento. São eles, por ordem de apresentação: Adam Smith, José Ortega e Gasset, Friedrich August von Kayek, Raymond Aron, Sir Isaiah Berlin e Jean-François Revel.
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A nossa edição:
Mario Vargas Llosa, O Apelo da Tribo, Quetzal, Lisboa, 2019.
Sócrates, Kant e Popper – uma linha filosófica claramente definível, oposta a todas as outras.
O primeiro livro que li de Karl Popper, no início dos anos 90, foi Em Busca de um Mundo Melhor1. O seu conteúdo é muito diversificado e inclui palestras, artigos, transmissões radiofónicas e até uma carta. Documentos produzidos ao longo de trinta anos. A recolha e seleção do material foi do próprio Popper2, e podemos dizer, sem grande margem de erro, com o intuito de abranger, tanto quanto possível, todas as áreas do seu pensamento.
E que áreas são essas? Bom, Popper interessou-se pelas ciências naturais, sobretudo Física, Biologia e Cosmologia3, disciplinas em que foi inovador, mas também pelas ciências sociais, particularmente pela Sociologia, campo em que produziu, além de A Pobreza do Historicismo, a obra talvez mais odiada pelos inimigos da liberdade e, para mim, o livro de não-ficção mais importante do século XX: A Sociedade Aberta e Seus Inimigos4. Na base do pensamento de Popper encontramos profundas convicções éticas, como mostrou Mariano Artigas em As Raízes Éticas da Epistemologia de Karl Popper5, sendo, por isso, notório o seu comprometimento; e, como um não-positivista, tantas vezes autodeclarado mas nem sempre atendido, Popper não desmerecia a Metafísica como fonte de possibilidades de conhecimento. Podemos ver, assim, que a sua doutrina responde cabalmente às célebres quatro perguntas de Kant6, abrangendo todas as áreas da Filosofia.
Regressemos ao livro e ao primeiro capítulo que se intitula Conhecimento eFormação da Realidade – Em Busca de um Mundo Melhor. O seu conteúdo resume-se à transcrição de uma palestra proferida em Alpabach, uma pequena vila da província de Tirol, na Áustria7, e é apenas sobre ele que nos vamos debruçar. Todos os que estão familiarizados com a obra de Karl Popper conhecem a sua divisão do Real em “mundo 1”, “mundo 2” e “mundo 3”. O mundo 1 é o da realidade física, de tudo o que existe na Terra e fora dela, vivo ou inanimado, é o mundo material, incluindo o universo, seus mecanismos e forças; o mundo 2 é o da consciência, das experiências humanas, da nossa interação com o mundo 1; e o mundo 3 é o das realizações do mundo 2, as produções da mente humana: livros, sinfonias, esculturas, automóveis, escovas de dentes, poemas, enfim, aquilo a que poderíamos chamar “cultura”.
Enquanto elementos físicos do mundo 3, essas produções humanas passam também a pertencer ao mundo 1, o mundo das coisas materiais8. Vemos, assim, que os três mundos estão não apenas interligados, mas também, por vezes, sobrepostos, embora perfeitamente distinguíveis. Além disso, os três mundos têm uma ordenação temporal, daí a clara numeração em 1, 2 e 3: de acordo com o conhecimento científico atual9, podemos afirmar que a parte inanimada do mundo 1 é, de longe, a mais antiga; que depois vem a parte animada do mundo 1 e, quase simultaneamente, o mundo 2, o mundo das experiências; e que só depois, com a chegada do homem, aparece o mundo 3, o mundo dos produtos mentais e da cultura.
Popper liga os três mundos à história da Filosofia. De facto, há filósofos que afirmam existir exclusivamente o mundo 1 – os materialistas – enquanto outros acreditam existir apenas o mundo 2 – os idealistas – e existem ainda os que acreditam nos mundos 1 e 2, os chamados dualistas. Ele vai mais longe, e afirma que não apenas o mundo 1 e o mundo 2 são reais, mas também é real – e deveras importante – o mundo 3, a última etapa (até agora) da evolução.
E porque é tão importante o mundo 3, segundo Popper? Porque uma das mais significativas produções humanas é a formulação de teorias científicas, as quais, ao estarem disponíveis no mundo 3, são suscetíveis de crítica; e esta crítica pode conduzir a teorias científicas concorrentes. A formulação de teorias só é possível porque os seres humanos, num determinado momento da sua caminhada sobre a Terra adquiriram a capacidade de comunicar através de um tipo de linguagem único, diferente da linguagem dos outros animais. Popper denomina esse tipo de linguagem de argumentativa10.
Isto pode parecer relativamente banal, mas é relevante pelo seguinte: todo o conhecimento avança através do velhinho método de tentativa e erro, sendo que, durante um longo período evolutivo, errar significava quase sempre perder a própria vida; porém, na atual fase evolutiva, temos a felicidade de podermos deixar as teorias científicas morrer, em vez de nós. É por isso que este é igualmente o estádio que reúne as condições para que a paz entre os homens seja possível (podemos substituir armas por argumentos), evoluindo de acordo com o impulso natural de qualquer organismo, “desde a amiba a Einstein”, que é o de melhorar a sua condição.
Assim, Karl Popper aceita a teoria da evolução de Darwin apenas em parte. Enquanto o darwinismo, em larga medida sob a influência de Malthus, coloca os seres vivos sobre forte pressão do ambiente que os rodeia – uma força de fora para dentro – Popper considera que todos os seres vivos estão constante e ativamente procurando melhores nichos ecológicos – uma força de dentro para fora – transformando-se, recriando-se, para melhor captarem e utilizarem o que precisam da natureza. Em busca de um mundo melhor11.
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Notas:
1Esse livro era uma edição (portuguesa) da editora Fragmentos, publicado em 1992, que já não possuo. Emprestei-o e não mo devolveram. Recentemente quis comprar um novo exemplar, procurei-o, e verifiquei que o livro está esgotado, não apenas em Portugal, mas também em Espanha e até no Brasil. A solução foi mandá-lo vir do Reino Unido, através da Fruugo. É com base nessa edição inglesa que escrevemos este artigo.
2Em 1989.
3Nas palavras do próprio Popper, “toda a ciência é cosmologia”.
4Popper conta-nos, na sua auto-biografia, que este livro nasceu de apontamentos e reflexões acumulados durante um certo tempo. Esses textos multiplicaram-se de tal forma, que levaram Popper a pensar numa obra, que acabaria por ser “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos” (em dois volumes), escrita na Nova Zelândia e publicada em 1945.
6“O que posso saber?”, “O que devo fazer?”, “O que me é permitido esperar?”, “O que é o homem?”. Através destas 4 perguntas, Kant abarca todas as áreas clássicas da Filosofia.
7A palestra contém as marcas inconfundíveis de Popper: rigor, clareza, elegância e, sempre que a oportunidade surge, uma pitadinha de humor.
8De notar que um poema ou uma música são coisas imateriais enquanto estiverem apenas na nossa cabeça, mas passam a algo físico quando forem transcritas para o papel ou quando forem declamadas ou tocadas (as ondas sonoras pertencem, como é óbvio, ao mundo 1).
9Conhecimento que, para Popper, é sempre conjetural.
10De acordo com Popper, existem quatro tipos de linguagem: da mais básica para a mais complexa, 1) expressiva e 2) comunicativa, comuns aos outros animais e ao homem; 3) descritiva e 4) argumentativa, exclusivamente humanas.
11Esta ideia de Popper baseia-se na “seleção orgânica”, assim denominada originalmente por Lloyd Morgan, Baldwin e outros, mas que teria sido apresentada muito antes, sem essa denominação, pelo geólogo escocês James Hutton. Isto quer dizer que os indivíduos (todos os seres vivos) fazem escolhas por iniciativa própria – por exemplo, a preferência por um novo alimento, por um novo método de caça ou por uma nova árvore onde fazer o ninho. Cada novo comportamento pode ser visto como a seleção de um novo nicho ecológico. Assim, o animal e a sua descendência ficam expostos a um novo ambiente, logo, a uma nova pressão seletiva que guia o desenvolvimento genético dos indivíduos para se adaptarem ao novo ambiente.
Andrew Solomon, ao centro, com a família mais próxima.
O título, “Longe da Árvore”, remete para um provérbio alemão que diz “a maçã nunca cai longe da árvore”, sugerindo que os filhos nunca se afastam muito das características dos pais. Esta ligação (ou continuidade) entre pais e filhos é chamada “identidade vertical”. Mas há casos em que prevalece uma identidade diferente, partilhada por indivíduos com características e personalidades especiais – a “identidade horizontal”. Solomon estudou dez grupos com este tipo de identidade, que correspondem a dez capítulos do livro. São estes: “Surdos”, “Anões”, “Síndrome de Down”, “Autismo”, “Esquizofrenia”, “Deficiência”, “Prodígios”, “Violação”, “Crime” e “Transgéneros”, aos quais acrescentou um primeiro capítulo sobre “Filhos” e um último, intitulado “Pais”.
Solomon descreve os desenvolvimentos que ocorrem dentro de cada grupo, recorrendo a casos reais (centenas deles) que pesquisou, muitas vezes in loco, durante mais de uma dezena de anos, mostrando-nos como, mesmo quando os pais, à partida, pensam não ser capazes de suportar o drama vivido, começam por aceitar aquele indivíduo (filho ou filha) tal como é, acabando, quase sempre por amá-lo e dedicar-lhe, por vezes em exclusividade, a sua própria vida. Esta é a regra, mas, como sempre, há exceções.
Alguns destes filhos excecionais acabam por ser também pais que muitas vezes desejam filhos “perto da árvore”[1]. Alguns destes grupos constituem-se já como subculturas, como é o caso das comunidades surda e gay, por exemplo, e o mesmo começa a acontecer com portadores do síndrome de Down e outros, cujos pais, por razões diversas, não consideram que os filhos tenham qualquer patologia (daí não estarem interessados numa cura), mas apenas uma identidade diferente, que, em nome da diversidade, se deve perpetuar. Até que ponto isto é legítimo e saudável constitui apenas uma das muitas questões controversas que os desenvolvimentos técnicos, científicos e sociais vieram colocar na ordem do dia. Passámos rapidamente de uma época (há uns meros 20 ou 30 anos), em que estas pessoas excecionais eram descartadas pela sociedade, colocadas em instituições, abandonadas ou mesmo mortas, para a época atual, em que as crianças que nascem com identidades horizontais veem reconhecido o seu direito a uma vida digna por parte do Estado e das famílias. Pais extremosos, completamente dedicados a esses filhos invulgares, permitem-nos perspetivar, pela sua luta de hoje, um futuro em que os filhos poderão ter essas (ou outras) características excecionais selecionadas pelos pais. Surdos podem querer ter filhos surdos, anões podem querer filhos anões, etc.
O livro (com mais de mil páginas) é escrito com mestria e elegância, fazendo jus à elevada reputação do autor. No último capítulo, Solomon aborda a sua própria experiência enquanto progenitor, descrevendo o seu trajeto de pai homossexual, sugerindo que o exemplo de tantos outros, que aceitaram as identidades horizontais dos filhos, pode ter sido inspirador.
Uma viagem pode ser mais ou menos interessante, sendo que o mais ou menos, depende em larga medida de ti. Indaga, observa, busca, reflete.
O Êxtase de Santa Teresa.
Embora já tivéssemos estado várias vezes em Roma, nunca tínhamos entrado na belíssima igreja de Santa Maria da Vitória. Em trânsito para Civitavecchia, pouco mais deu para ver. O objetivo era admirar a escultura de Bernini, O Êxtasede Santa Teresa, que é, de facto, sublime. Esta zona, bem próxima da Praça da República e da estação ferroviária Termini, contém várias igrejas e basílicas, pelo que, nas curtas duas horas que estivemos na cidade, pudemos ainda visitar a igreja de São Bernardo (San Bernardo Alle Terme) e a Basílica de Santa Maria dos Anjos e dos Mártires (Santa Maria degli Angeli e dei Martiri), ambas arquitetonicamente grandiosas.
Em Civitavecchia comemos uma pizza simples (Margheritta), mas excelente. Vinha a ferver e, a acompanhá-la, uma cerveja gelada. Era sexta-feira à noite, e as praças e bares da cidade estavam bastante movimentados. Civitavecchia é uma cidade interessante, com boa qualidade de vida e muito turismo. No dia seguinte, sábado, embarcámos no MSC Orchestra, que nos acolheria na longa viagem até Durban, na África do Sul.
Chania, em Creta, não frustrou as nossas expectativas. A zona do porto veneziano é a mais charmosa da cidade: uma baía onde o mar praticamente beija as casas — quase todas restaurantes com esplanadas, onde se come bons peixe e marisco — e, por trás, ruelas coloridas e casas com sacadas floridas (vimos umas, de madeira, muito interessantes), onde uma mesa e duas cadeiras convidam a desfrutar… a dois. Claro que Chania vive sobretudo do turismo que, mesmo nesta altura do ano, face ao clima favorável, é intenso. Mas, se aqui a temperatura estava muito agradável, ela iria subir ainda, à medida que nos deslocávamos para sudeste, em direção ao Canal do Suez.
Agora mesmo vi passar uma ave, um passarinho isolado, que cruzou o navio de bombordo para estibordo. Não era uma gaivota, nem um atobá ou um albatroz; era muito mais pequeno. Haverá alguma espécie de aves que possa viver saltitando de navio em navio? Talvez pudesse haver. Num navio sempre há comida, espaço para dormir e provavelmente algum lugar seguro para construir um ninho.
Descansando um pouco em Chania, Creta.
Mediterrâneo, o centro da Terra, foi aqui que tudo começou. Devido ao seu posicionamento, o clima, aqui, é excecional, com pequenas amostras espalhadas um pouco pelo globo: pequenas partes da Austrália, da Califórnia, da África do Sul e do Chile. O clima, naturalmente, está ligado ao que o solo dá, ou, melhor dizendo, é o solo que se liga ao clima. Por isso a região mediterrânica é tão privilegiada. Aqui encontramos os cereais indicados para produzir o melhor pão, as videiras e oliveiras que originam os melhores vinhos e óleos; e muitos outros frutos típicos, como o figo, o limão e a laranja, a romã, a alfarroba e o tomate. Da melhor agricultura nasce a melhor gastronomia, mas este clima também influencia os animais que habitam terra e mar. Entre eles, homens e mulheres do mais belo que podemos encontrar e que construíram aqui, no Mediterrâneo, as formas mais elevadas de cultura. A propósito: Daniel Zafrani, um artista-mimo israelita, cria sketches plenos de humor, originalidade e beleza. Vimo-lo atuar no navio e tivemos o privilégio de falar com ele, e observar que, além de criativo, é também muito simpático e humilde. Uma pessoa luminosa.
O Canal do Suez é daquelas obras de engenharia universais (Agostinho da Silva escreveu um artigo interessante sobreo construtor francês do canal). Os navios seguem em comboio num único sentido de cada vez, por isso é normal esperar-se horas pelo comboio que vem em sentido contrário ao nosso. Rebocadores e pilotos são necessários em todo o percurso e a velocidade é forçosamente lenta. A meio-caminho há um largo enorme, onde se espera de novo por outro comboio. Normalmente não se consegur percorrer o canal em menos de 24 horas. Do navio podemos ver muitas obras, barcos que cruzam o canal transportando viaturas e pessoas, uma ou outra ponte, linhas de caminhos de ferro, postos de controlo, campos e cidades inteiras.
Canal do Suez.
Saindo do canal, entramos diretamente no Mar Vermelho. O nosso navio não continuou para sul, antes virou à esquerda e subiu pelo Golfo de Aqaba, fazendo um “V”. O golfo é estreito, sendo visíveis, de qualquer ponto, as duas margens — à esquerda o Egito, à direita a Arábia Saudita — até chegarmos ao fim, ou um pouco antes, onde já avistamos lá ao fundo as duas cidades lado-a-lado — Eilat e Aqaba. Agora já é Israel em vez de Egito e Jordânia em vez de Arábia Saudita. As duas cidades estão rodeadas de montanhas de calhaus e areia, onde não há vegetação. Dá para perceber que não chove. O próprio ar é quente e seco, dificilmente aqui haverá um inverno verdadeiro. De facto, a uma semana de novembro, ainda é verão. Nas praias veem-se pessoas a desfrutar da água morna, a 26 graus. Ambas as cidades vivem do turismo associado às atividades náuticas, sobretudo Eilat, uma vez que Aqaba é, além de destino de mar, um excelente ponto de acesso a Petra, Património Mundial pela UNESCO. Há uma notória diferença entre as praias de Eilat e as de Aqaba, as primeiras com excelentes infraestruturas, com pessoas de fatos de banho como se vê nos nossos países, enquanto em Aqaba as mulheres ficam na areia da praia todas cobertas a ver os filhos e os maridos desfrutando na água. Muitos dos homens têm o tronco coberto enquanto tomam banhos de mar.
Apesar das diferenças culturais, Aqaba e Eilat são praticamente iguais do ponto de vista natural, verdadeiras cidades gémeas. Como vimos, ambas se situam na enorme baía formada no final do golfo de Aqaba e, além disso, ambas estão rodeadas por desertos; ambas dão acesso ao Mar Morto, partilhado por Jordânia e Israel; e, claro, ambas estão sujeitas ao mesmo tipo de clima. Estas semelhanças naturais deverão ter alguma influência sobre a boa convivência que parece existir, mas o fator decisivo é o acordo de paz celebrado nos anos 90 entre os dois países, que vem sendo escrupulosamente cumprido até os dias de hoje. A Jordânia tem-se mostrado, inequivocamente, o vizinho mais fiável de Israel.
Passeando ao anoitecer pelo porto de Eilat, Israel.
Que a Jordânia é, entre os países árabes, um estado tolerante, nós já tínhamos constatado numa anterior visita. Mas que os países árabes fossem, em geral, tolerantes e os melhores onde se viver, isso nunca nos passou pela cabeça. Pois foi o que nos disse o chefe da Igreja Ortodoxa de Aqaba (Igreja de São Nicolau), Samih “Basilious” Al-Marji, uma igreja que, segundo Samih, acolhe quinze fiéis. Encontrámos este padre almoçando numa rua de Aqaba. Reparando que o observávamos, ele próprio encetou uma conversa connosco, perguntando de onde éramos. Quando soube que eu era português referiu-se a Fátima com grande simpatia. Disse-nos que tinha um filho que vivia nos Estados Unidos e que ele próprio poderia lá viver, mas que a Jordânia era um país melhor para se morar e que os países árabes eram os mais tolerantes. Disse que a sua igreja estava sempre aberta, jamais a fechava. Ficou visivelmente satisfeito quando lhe pedimos para tirar uma foto com a Fla, dizendo que ela era muito bonita e tanto eu quanto ele tínhamos muita sorte em estar ali com ela. Antes de nos despedirmos fez questão de nos abençoar com o sinal da cruz.
Um dos livros que trouxe para a viagem foi Astrofísica para Gente com Pressa, de Neil de Grasse Tyson, um autor que desconhecia. O livro está dividido em 12 capítulos, adaptados (2017) de ensaios publicados na revista Natural History. É um livro com poucas páginas, sintético, que se lê muito bem. Há uns tempos que não lia um livro sobre astrofísica e foi bom retomar o tema. É notória a admiração do autor por Einstein. Embora isto seja tudo menos invulgar, não deixou de ser um motivo de simpatia para quem, como eu, é igualmente um admirador confesso do grande físico alemão. Apesar da incrível intuição, ou imaginação (o autor deste livro vai mais por aqui), ou inteligência, ou de tudo isso junto, que caracterizava Einstein, este nunca achou, ou sequer sugeriu, que a sua teoria da relatividade fosse a palavra final. Popper admirava muitíssimo a humildade de Einstein. Ambos estavam convencidos de que Einstein tinha razão no confronto que manteve durante grande parte da sua vida com os cientistas aderentes à chamada “interpretação de Copenhaga”, segundo a qual a realidade quântica depende do ponto de vista do observador, ou seja, não é independente de quem a observa. Deus não joga aos dados, a célebre frase de Einstein foi dita em reação a essa interpretação de Copenhaga, Popper foi dos poucos que sempre concordou com Einstein, mas a mecânica quântica funciona e Einstein é geralmente considerado perdedor nesse confronto com Bohr e seus seguidores.
Fla com Samih “Basilious” Al-Marji.
Isto não é dito no livro, mas é algo bem conhecido e considerado pela quase totalidade dos cientistas como ponto assente. Mas talvez a história ainda venha a dar razão a Einstein e a quem com ele concorda, como Popper e eu. A principal objeção de Popper à mecânica quântica, no que toca ao aspeto conceptual e teórico, é a pretensão dos seus autores de que ela é uma teoria definitiva e inquestionável — atitude contrária à de Popper em relação à ciência. Mas se a história nesta questão específica ainda não abonou em favor de Einstein, já o fez em relação a outra questão específica em que se pensava que Einstein se teria enganado (ele próprio, com a sua proverbial humildade, admitiu que errara), mas que agora, com novos dados proporcionados pela tecnologia, tudo indica, veio a verificar-se que Einstein tinha razão.
Esta questão tem a ver com a “constante cosmológica”, ou lambda, uma força oposta à da gravidade que preservava aquilo em que Einstein e a maioria dos físicos da sua época acreditavam — um universo estático. E voltamos ao livro. Tyson faz uma cronologia dos acontecimentos. Em 1916, Einstein publica a Relatividade Geral (RG), incluindo nas suas equações um termo, que apelidou de “constante cosmológica”, representado pela letra maiúscula grega “Λ” — o lambda. Em 1929, treze anos depois, Edwin P. Hubble, um astrofísico norte-americano, descobriu que o universo não era estático, tendo reunido provas convincentes de que as galáxias mais distantes da Via Láctea se afastam desta mais rapidamente (para tentarmos perceber como isto acontece podemos imaginar a expansão de um balão) do que as que lhe estão próximas.
Quando Einstein tomou conhecimento de que o universo estaria em expansão, descartou o lambda, presumindo o seu valor como zero, e chamou à “constante cosmológica” o “maior erro” da sua vida. No entanto, o lambda nunca foi completamente esquecido, ciclicamente voltava à baila. Até que, em 2011, três cientistas foram galardoados com o Prémio Nobel da Física por um trabalho que remonta a 1998 e reabilita o lambda de Einstein. Estes cientistas — Saul Perlmutter, de Berkeley, Brian Schmidt, de Camberra, e Adam Riess, de Maryland — descobriram que o Universo se expande mais rapidamente do que se pensava e que essa “força”, que supera o indicado pela velocidade de recessão, só faz sentido se regressarmos à “constante cosmológica” de Einstein, que prevê uma energia escura responsável por 68% de toda a massa-energia do Universo. Como? Vejamos o que nos diz Tyson.
O contacto com o mar, dentro de um navio seguro, é relaxante.
A forma do nosso Universo a quatro dimensões provém da relação entre a quantidade de matéria e energia que existe no Cosmos e a velocidade a que o Cosmos se está a expandir. Uma medida matemática conveniente para isso é o ómega: Ω, mais uma letra maiúscula grega com um papel bem importante no Cosmos. Se tomarmos a densidade de matéria-energia do Universo e a dividirmos pela densidade matéria-energia necessária para quase travar a expansão (conhecida por “densidade crítica”), obtemos ómega. Uma vez que tanto a massa quanto a energia fazem distorcer, ou curvar, o espaço-tempo, ómega revela-nos a forma do Cosmos. Se ómega é menor do que 1, a massa-energia real situa-se abaixo do valor crítico e o Universo expande-se para sempre em todos os sentidos, tomando a forma de uma sela, onde divergem linhas inicialmente paralelas. Se ómega for igual a 1, o Universo expande-se para sempre, mas não completamente. Nesse caso, a forma é plana, preservando todas as formas geométricas que aprendemos na escola sobre linhas paralelas. Se ómega exceder 1, as linhas paralelas convergem e o Universo curva sobre si próprio, acabando por voltar a entrar em colapso na bola de fogo de onde veio (…)
Entretanto, a partir de 1979, o físico norte-americano do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Alan H. Guth, juntamente com outos colegas, avançou um ajustamento para a teoria do Big Bang que esclarecia alguns problemas de um universo tão suavemente cheio de matéria e energia como o nosso. Um subproduto fundamental desta atualização do Big Bang foi o facto de considerar o valor de 1 para ómega. Não metade. Não dois. não um milhão. Um. (…)
Havia, no entanto, um outro pequeno problema: a atualização previa três vezes mais massa-energia do que a encontrada pelos observadores. Teimosamente, os teóricos afirmaram que os observadores simplesmente não estavam procurando como deve ser. No final das contas, só a matéria visível não representava mais do que 5% da densidade crítica. E a misteriosa matéria escura? Também a acrescentaram. Ninguém sabia o que era e ainda não sabemos o que é, mas contribuiu seguramente para os totais. Daí, obtemos cinco ou seis vezes mais matéria escura do que matéria visível. Mas ainda é muito pouco. Os observadores estavam perdidos e os teóricos respondiam: “continuem a procurar”. Ambos os campos tinham a certeza de que o outro estava errado — até à descoberta da energia escura. Esse componente único, quando adicionado à matéria comum, à energia comum e à matéria escura, fez subir a densidade de massa-energia do Universo para o nível crítico. Satisfazendo quer observadores quer teóricos (…)
Então, que coisa era aquela? Ninguém sabe. A resposta mais próxima que alguém conseguiu foi presumir que a energia escura é um efeito quântico — onde o vácuo do espaço, em vez de ser vazio, na verdade fervilha de partículas e das suas parceiras de antimatéria. Aparecem e desaparecem em pares e não duram tempo suficiente para serem medidas (…) Sim, estamos um bocadinho perdidos. Mas não abjetamente perdidos. A energia escura não anda à deriva, sem uma única teoria em que se ancorar. A energia escura habita um dos portos mais seguros que podemos imaginar: as equações da relatividade geral de Einstein. É a constante cosmológica. É o lambda. O que quer que seja a energia escura, já sabemos como a medir e como calcular os seus efeitos sobre o passado, o presente e o futuro do Cosmos. Sem dúvida que a maior asneira de Einstein foi ter declarado que o lambda fora a sua maior asneira.1
Mar Vermelho: a foto comprova a justeza do nome.
Pois bem, para um grande admirador de Popper, como eu, é gratificante constatar a atualidade do génio de Einstein e do seu espantoso legado. Popper e Einstein são dois dos maiores pensadores do século XX e de toda a história da humanidade, e viam a realidade de ângulos diferentes, mas complementares. Popper estudou (sobre) as implicações filosóficas da relatividade geral de EInstein e procurou, inclusive, que a sua filosofia influenciasse a física einsteiniana nos dois breves encontros que aconteceram entre ambos nos Estados unidos. A admiração de Popper por Einstein era evidente. E tudo indica que Einstein também admirasse Popper. Pela minha parte, admiro ambos.
A maioria da matéria-energia não é, portanto, diretamente visível, mas apenas detetável, pois está abaixo ou acima do espetro visível, nos espetro dos infravermelhos ou ultravioletas.2 Tudo tem que ver com ondas que preenchem o espetro eletromagnético e as suas frequências (descobertas por Hertz), no fundo, com tudo o que vibre, incluindo o som. Quem fala em frequência pode falar igualmente em comprimento de onda, uma vez que são interdependentes, ou seja, para a mesma velocidade, se aumentarmos a frequência diminui o comprimento e vice-versa. A fórmula é simples: velocidade = comprimento x frequência.
Só no século XIX, muito depois dos primeiros telescópios, é que se começaram a construir equipamentos para detetar a luz invisível ao olho nu. Os primeiros foram os radiotelescópios, que têm de ser muito grandes, uma vez que detetam comprimentos de onda igualmente grandes. O maior radiotelescópio do mundo foi construído na China, na província de Guizhou, e tem uma superfície superior a trinta campos de futebol. Outra classe de radiotelescópios são os interferómetros, constituídos por conjuntos idênticos de antenas de prato ligados eletronicamente, cobrindo grandes áreas. O que tem a resolução mais elevada estende-se por oito mil quilómetros, entre o Havai e as Ilhas Virgens, com antenas de 25 metros. Chama-se Very Long Baseline Array.
Por seu turno, na banda das microondas temos on ALMA (Atacama LargeMillimeter Array), com 66 antenas, instalado nas montanhas dos Andes, no norte do Chile. Já na outra onda do espetro eletromagnético, temos as ondas ultracurtas e de alta frequência dos raios gama, medidas por picómetros. Estes são instrumentos sofisticadíssimos de um metro de comprimento. Assim, hoje me dia há telescópios (nome genérico dado a todos estes aparelhos) de todos os tipos, que nos permitem detetar os comprimentos e frequência de ondas que cobrem todo o espetro eletromgnético. Uns estão localizados na Terra, mas a maioria no espaço, permitindo aos astrofísicos explorar o Universo.
Entretanto, enquanto decorria esta incursão pela Astrofísica, fomos nos deslocando para Sul. Descemos rapidamente pelo golfo de Aqaba, mas demorámos dois dias a percorrer o Mar Vermelho. Que mar curioso, estreito e comprido. Não fui pesquisar, mas palpita-me que tenha bem mais de mil quilómetros de comprimento. As águas estão calmíssimas e a temperatura do ar é cálida à noite e inclemente durante o dia. No entanto, é nesta zona de calmaria que atuam grupos de piratas, sobretudo somalis. Há precauções que foram tomadas no nosso navio. Alertas azul, amarelo e vermelho. Pessoal de segurança especializado segue a bordo. As luzes são reduzidas à noite.
Uma noite, no Golfo de Aden, chegámos ao camarote e deparámos com este “miminho” em cima da cama…
Mas já saímos do Mar Vermelho e nada aconteceu. A probabilidade de algo acontecer é, aliás, muito baixa. O nosso navio não é fácil de assaltar e os piratas não são parvos. Claro que a zona de pirataria não se resume ao Mar Vermelho, é muito maior, e aqui no golfo de Aden ainda estamos dentro dela. E o mesmo quando entrarmos no Oceano Índico. A pirataria, aliás, pode ocorrer em qualquer mar do mundo, é uma daquelas práticas antigas que persistem. Mas ninguém aqui dentro parece preocupado, e nós também não.
Quem nunca fez um cruzeiro não faz ideia, ou faz uma ideia errada, do que se passa dentro de um navio Para começar, dentro de um navio de cruzeiro coexistem pessoas de múltiplas nacionalidades. Isso é a primeira coisa boa. Conviver com gente de diferentes raças e culturas torna-nos mais abertos e tolerantes. Depois, é preciso perceber que há sempre coisas a acontecerem no navio que, tal como uma cidade famosa, nunca dorme. Há sempre alguém da tripulação, a todo o momento, a trabalhar para nós, passageiros. A nossa vida a bordo está, por isso, muito facilitada. Na nossa cabina, a cama é grande, o colchão confortável; os lençóis são de algodão de excelente qualidade; as toalhas de banho são trocadas todos os dias; a cabina é limpa, aspirada e arrumada duas vezes por dia, de manhã e à noite. Quanto à comida a bordo, bom, é difícil até falar. O buffet está aberto 20 horas por dia, só encerra entre as 2 e as 6 am. Os horários das refeições são alargados, há sempre algo para comer. Quem quiser comida menos saudável — como cachorros, pizzas, hamburgueres, battatas fritas e uma panóplia enorme de doces — tem tudo isso disponível; e quem quiser algo mais saudável — como todo o tipo de saladas, frutas, ovos de todas as formas e feitios, sopas diferentes a cada 12 horas, arroz integral, leguminosas, etc — também o encontra em abundância. E todos os tipos de pastas, charcutaria, queijos, carnes e peixes. Uma fartura. Come o que quiser, quando quiser, e já está tudo pago à partida. Tem ainda direito a café e chás e, se comprar o cruzeiro nos Estados Unidos (ou através de uma agência online sediada nos Estados Unidos, como foi o nosso caso), tem direito também a água engarrafada, sem pagar mais nada por isso. Apenas se pagam bebidas alcoólicas, refrigerantes e outras bebidas que não água.
Em geral todos os navios de cruzeiro têm vários restaurantes,3 havendo lugar marcado num deles para o jantar, e o passageiro opta por tomar a sua refeição no restaurante ou no buffet. Estão também disponíveis vários bares, alguns temáticos, a maioria com música ao vivo, onde se pode “beber um copo”, dançar, participar em eventos organizados pela equipa de animação, etc. Há espaços dedicados aos adolescentes — salão de jogos, salas de convívio, discotecas — e às crianças, havendo a possibilidade dos pais a deixarem ao cuidado da equipa especializada para o efeito durante várias horas por dia. Há piscinas e jacuzzis (embora não sejam a nossa praia). Há o ginásio, modernamente equipado, spa, salão de massagens, sauna, cabeleireiro, etc, etc. Há boutiques de roupa e lojas onde se podem comprar óculos, relógios, perfumes, jóias, entre vários outros produtos. Há atividades diversas para se participar todos os dias, algumas bem interessantes. Todos os dias há dois espetáculos no Teatro — uma enorme sala com capacidade para muitas centenas de pessoas — com equipas residentes ou artistas convidados. Nós também não sabíamos, nem sequer imaginávamos: alguns destes espetáculos são de grande qualidade, mesmo! Tudo é realizado com extremo profissionalismo. É verdade que nem todos os cruzeiros são propriamente espetaculares, mas se se souber escolher,4 uma viagem de cruzeiro pode ser uma experiência fantástica.
… e, claro, aproveitámo-lo com boa vontade e bastante prazer.
Fim da manhã e eis que uma voz anuncia em várias línguas: ” Bom dia senhores passageiros, vamos dar-lhes algumas informações sobre as condições de navegação. Hoje é o dia 28 de outubro de 2019 e são, neste momento e neste local, 11 horas e 35 minutos. O céu está limpo e a temperatura do ar é de 31 graus celsius, a mesma da água do mar que neste local tem cerca de 500 metros de profundidade. A humidade é de 71% e a pressão atmosférica de 1012 milibares. As ondas são de Leste com força 3 e o vento de força 4. Navegamos a uma velocidade de 19 nós e estamos a 647 milhas de Salalah”.
Hoje faz anos a minha filha, Rita, e não posso dar-lhe os parabéns. Espero fazê-lo amanhã em Salalah. E hoje, também, acordámos com um mar cavado, de ondas largas — o equivalente às ondas de rádio no espetro eletromagnético. Descobrimos um espaço no último deck (superior) do navio, à popa, que funciona como discoteca à noite, mas que durante o dia tem muitos lugares disponíveis onde podemos sentar-nos, colocar as pernas em cima das mesas baixas, ler e apreciar o mar. E hoje vou começar a ler um novo livro, de um autor igualmente novo para mim, mas de quem a Fla gosta muito, Andrew Solomon. Este livro tem o título em português de Longe da Árvore. Vamos a isso.
O funcionário mais simpático do MSC Orchestra é do Zimbabwé, tem 28 anos e chama-se Jabulani (palavra que, segundo o próprio, quer dizer “felicidade”).
Ainda o navio não tinha acostado a Salalah e já tínhamos observado uma coisa: o seu porto é moderno e movimentado, plenamente marítimo, pelo que deve ser de águas profundas. Foram levadas a cabo intervenções de relevo e outras estão em curso, como se pode ver pela imensa maquinaria em laboração. Um enorme quebra-mar foi construído, permitindo a estabilização dos navios. O terminal de contentores é bastante grande — um retângulo comprido perpendicular ao mar, construído de raíz, o que permite a acostagem de navios de um lado e do outro. Quando chegámos estavam três grandes navios carregados de contentores neste cais, mas reparámos que havia, pelo menos, espaço para outros três. Havia também um terminal de granéis com navios a laborar. Noutro cais estava um navio de cruzeiros da Aida Cruises, mas podiam estar dois ou três. O porto faz um grande círculo com uma única saída e está a ser objeto de obras de vulto no seu interior. Esta é outra vantagem de andar de navio — podemos perceber o que se passa num porto. E, uma vez que mais de 80% do comércio mundial se faz por via marítima, isso permite-nos ter uma ideia do que se passa numa dada região (o hinterland do porto), se tivermos olhos suficientemente experimentados. Uma vez que já estivemos na capital de Omã, Muscate, e no porto vizinho de Muttrah, podemos dizer, sem grande margem de erro, que o grande porto de entrada de mercadorias é Salalah, o qual fica fora da cidade, uns 10 quilómetros para Oeste.
Pormenor de Salalah, Omã.
Sobre a cidade propriamente dita não haverá muito a dizer. Prevalece a cor creme dos edifícios sem telhado, calor abrasador (um paquistanês do Punjab disse-nos que Agosto é o melhor mês, quando chove e fica tudo verde), muito comércio no Centro e as omnipresentes mesquitas. À semelhança dos Emirados Árabes ou do Qatar, também em Omã o mais interessante para ver fica fora das cidades.
Dr. Steven Kopits, do hospital Johns Hopkins. Quero ver o rosto dele, preciso ver o rosto dele. E gostava também de conhecer o rosto de Betty Adelson. As redes sociais, tantas vezes diabolizadas (e muitas delas com razão), são uma ajuda tremenda para pessoas que se afastam dos padrões comuns, com identidade horizontal. Tudo isto vem a propósito do livro que comecei a ler — Longe daÁrvore — e será retomada mais à frente.
Hoje é 31 de outubro e vai haver, logo à noite, a festa do Halloween. Vamos a caminho de Malé, numa rota sudeste e, pela primeira vez, apanhámos um mar ligeiramente picado. (Os termos que uso aqui para caracterizar o estado do mar são meus e só em alguns casos coincidirão com os termos técnicos). Lá fora está vento, mas nós estamos confortavelmente instalados no local do costume, no último deck do navio, desfrutando de uma vista invejável sobre o mar. As ondas e o vento vêm de sudoeste.
Antes que me esqueça, quero registar algo, ainda a propósito do livro que estou a ler, Longe da Árvore. Sou daqueles que acham que o mundo está melhor e que nunca existiu uma sociedade tão justa quanto a nossa, apesar dos inúmeros problemas. (É claro que me refiro às sociedades democráticas do tipo “ocidental”). Dada a longevidade (considerável, em muitos casos) das democracias, pode parecer que já quase tudo foi alcançado e que nos últimos anos praticamente não se avançou. Ora, isto não é verdade, bem pelo contrário, e Longe da Árvore comprova-o. A integração de crianças com deficiências pela sociedade, particularmente pelos pais, bem como a denúncia de instituições onde muitas dessas crianças eram simplesmente despejadas e maltratadas, tem sido muitíssimo maior nos últimos anos. Este é um dado incontornável que, só por si, mostra como, para uma parte significativa da humanidade, o mundo está muito melhor.
A palavra “deficiência” quer apenas dizer que não se é eficiente.
O behaviorismo — ao colocar um ênfase extremo na educação — ajudou à integração das crianças deficientes, em oposição ao eugenismo.
Relativamente ao autismo, há uma luta feroz entre os defensores da neurodiversidade e os que são antivacinas.
Jae Davis. Kit Armstrong.
Malé, Maldivas.
A República das Maldivas é um arquipélago constituído por 1190 pequenas ilhas, agrupadas em 28 atóis naturais. Destas ilhas, duzentas são permanentemente habitadas, e apenas umas poucas têm um comprimento superior a dois quilómetros. O território atinge quase 750 kms de norte a sul e cobre uma área total de cerca de 90.000 kms2 . As grandes massas de terra mais próximas são a Índia, a 480 kms e o Sri Lanka, a 650 kms. As Maldivas já eram habitadas quando, no século XVI, foram governadas pelos portugueses, a partir de Goa. Em 1752, houve um período de influência “malabari” (muçulmanos vindos da Índia) de apenas três meses. E em 1887 as Maldivas tornaram-se um Protetorado Britânico. No entanto, durante este período, não se registou presença britânica em Malé e o governo das Maldivas pelos seus sultões continuou até ao final de 1952. A primeira república foi implantada em 1 de janeiro de 1953. Esta administração, no entanto, teve vida curta e o sultanato regressou em 1954, acabando por ser abolido em 1968 com a formação da segunda república. A independência face aos britânicos ocorrera entretanto em 1965. Embora sem qualquer subordinação constitucional à rainha, as Maldivas tornaram-se membro da Commonwealth em 1984.5
O que impressiona quando se chega a Malé e se entra em contacto com a população local — um dos aglomerados mais concentrados do mundo, com 400.000 habitantes — é a sua consistência cultural. A população é 100% muçulmana; não se encontra uma bebida alcoólica em nenhum restaurante (embora nos tivessem dito que se arranja álcool e outras substâncias clandestinamente); mulheres, homens e crianças tomam banho de mar com o corpo coberto, mesmo aos estrangeiros não é permitido tomar banho em biquini ou em tronco nu, em Malé. Claro que nos resorts espalhados pelas outras ilhas os estrangeiros podem banhar-se como fazem nos seus países, caso contrário os maldivianos perderiam as indispensáveis receitas do turismo.
Apesar da rigidez cultural, imposta pela religião, os habitantes são, em geral, extremamente simpáticos e solícitos. Alguns falam inglês, mas a maioria não. Visitámos os mercados de peixe e de fruta, bem como toda uma secção de peixes secos, conservados em sal, dispostos em prateleiras como se fossem tábuas de madeira. Há uma abundância enorme de um tipo de atum, pequeno, que pode ser vendido inteiro ou em filé, depois de lhe retirarem a pele, a cabeça e a espinha central com uma destreza impressionante, em segundos.
Com Jabulani, na pequena lancha que nos transportou de Malé para o MSC Orchestra.
As mulheres andam cobertas da cabeça aos pés sob o intenso calor. A cultura cria uma barreira entre a natureza e as pessoas. Mas ninguém parece incomodar-se com isso. São os estrangeiros (e, bom, claro, alguns habitantes locais privilegiados) que vêm desfrutar destas águas maravilhosas, límpidas e cálidas,6 das areias finíssimas, dos passeios marítimos e aéreos. As Maldivas são, de facto, um dos paraísos terrestres e, a avaliar pelo movimento dos aviões no aeroporto de Malé, há muitas pessoas a descobri-lo, incluindo chineses, com o seu faro natural e o seu capital financeiro. A novíssima ponte — inaugurada há um ano — construída entre a ilha de Hulhumale, onde fica o aeroporto internacional, e a capital Malé, foi financiada pelos chineses: 50% a fundo perdido e 50% para amortizar em suaves prestações anuais.
Oceano Índico. Há vários dias que navegamos nestas águas tão familiares aos portugueses seiscentistas. Ao que parece, eles foram os primeiros europeus a definir rotas e a assentar praças no Índico. Os adversários mais temíveis, no que toca ao domínio comercial da região, eram os árabes.
À meia-noite, entre 4 e 5 de novembro, cruzámos a linha do Equador e já estamos no Hemisfério Sul. Temos visto muitos peixes voadores pelo caminho. E terminei o livro que comecei a ler há seis dias, Longe da Árvore (mais de mil páginas). O título remete para um provérbio alemão que diz “a maçã nunca cai longe da árvore”, o que quer dizer que os filhos nunca se afastam muito do que são os pais. Esta ligação entre pais e filhos transmite aos últimos a chamada “identidade vertical”, embora haja casos excecionais em que prevalece a identidade de grupo, a chamada “identidade horizontal” — longe da árvore, portanto.
Claro que nada disto é a preto e branco, e algumas vezes as duas identidades podem coincidir; por outro lado, todas as identidades são diferentes (como o próprio conceito indica, obviamente), pois dependem de múltiplos fatores, também diferentes. Andrew Solomon estudou dez grupos, que destacou em cada um dos dez capítulos do livro: surdos, anões, síndrome de Down, deficiências, autismo, esquizofrenia, prodígios, violação, crime, transgéneros — aos quais acrescentou um primeiro capítulo sobre “Filhos” e um último intitulado “Pais”.
Baía de Beau Vallon, em Mahé, Seychelles.
Eu diria que há três dimensões, interligadas, neste livro: informativa, formativa e ética. A primeira faz, digamos assim, um ponto da situação sobre os desenvolvimentos que ocorrem dentro de cada grupo — o antes, o agora e o que se pode esperar no futuro — ilustrados com casos reais (centenas deles) que Solomon pesquisou, às vezes in loco, durante mais de uma década. A segunda mostra-nos como, mesmo em casos em que os próprios pais, à partida, pensam não suportar (sobretudo deficiências graves, autismo, esquizofrenia, violação e crime), o amor quase sempre acaba por vencer, através da aceitação da pessoa (filho ou filha) tal como ela é. A terceira coloca a questão dos limites. Passou-se rapidamente, e ainda bem, de uma época em que muitas destas pessoas excecionais eram descartadas pela sociedade (colocadas em instituições ou mesmo mortas), há uns meros trinta anos, para a época atual, em que as crianças que nascem com futuras identidades horizontais, veem reconhecido o seu direito a uma vida digna por parte do Estado e das famílias, perspetivando-se já um futuro em que os filhos poderão ter características de alguns destes grupos, escolhidas pelos pais. Surdos podem querer ter filhos surdos, anões podem querer ter filhos anões, rejeitando qualquer tipo de tratamento.
Alguns destes grupos constituem-se já como subculturas, como é o caso das comunidades surdas e gay, por exemplo, e o mesmo pode acontecer com portadores do síndrome de Down e outros, cujos pais, por razões diversas, não consideram que os seus filhos tenham qualquer patologia. Daí não estarem interessados numa cura, assumindo para os filhos uma identidade própria, que em nome da diversidade, se deve perpetuar. Até que ponto isto é legítimo e saudável constitui apenas uma questão entre muitas controversas que os desenvolvimentos científicos, técnicos e sociais vieram colocar na ordem do dia. No último capítulo, “Pais”, Solomon aborda a sua própria experiência enquanto progenitor, descrevendo o seu trajeto de pai homossexual, mostrando-nos o quanto o exemplo de tantos outros pais, que aceitaram as identidades horizontais dos filhos, foi importante para ele, inspirando-o e mostrando-lhe que só há um caminho justo, entre a rejeição e a idolatria — a via do amor.
A mais badalada praia de Mahé — Beau Vallon.
Seychelles. Só o nome já faz sonhar. As diferenças com as Maldivas são significativas, mesmo que as magníficas águas sejam semelhantes. Enquanto as Maldivas são constituídas por muitas ilhas pequenas, as Seychelles são constituídas por quatro ilhas grandes — Mahé, La Digue, Silhouette e Traslin — e umas cem ilhas pequenas; enquanto as Maldivas são planas (e correm um risco enorme de inundação se as águas do mar subirem devido ao aquecimento global), as Seychelles são montanhosas, com vegetação densa; enquanto as Maldivas são 100% muçulmanas, as Seychelles têm diversidade religiosa; enquanto nas Maldivas muitas pessoas não falavam inglês, nas Seychelles toda a gente fala inglês, além do crioulo. Tudo faz muita diferença em desfavor das Maldivas.
Estivemos dois dias nas Seychelles e a nossa estadia resumiu-se à ilha principal, Mahé, onde se situa a capital, Port Victoria. Alugámos um carro e percorremos toda a ilha. No primeiro dia fomos para Norte, até à praia mais famosa (e, provavelmente a maior) de Mahé, Beau Vallon, muito frequentada por turistas. Às quartas-feiras ocorre aqui uma feira, com música, comidas e bebidas locais e venda de artesanato. Depois do pôr do sol, que observámos de uma praia vizinha, junto a uma aldeia de pescadores, regressámos pela mesma estrada a Port Victoria. As estradas nas Seychelles são estreitas e algumas particularmente perigosas, com curvas apertadas, sem proteção e sem bermas. Acresce que os condutores, sobretudo dos autocarros, também não ajudam. Não estando habituados a estas condições e sendo a primeira vez que conduzíamos com o volante à direita, tivemos alguma dificuldade em adaptar-nos e passámos por alguns calafrios.
No segundo dia em Mahé acordámos às cinco da manhã e apanhámos a estrada que sai de Port Victoria para a costa oeste da ilha, atravessando o maciço central. No topo há um lugar onde se encontram as ruínas de uma antiga missão, chamada Venn’s Town,7 e um lindo miradouro, onde a rainha Isabel II esteve a tomar chá e a apreciar as vistas, em 1972. Depois, percorremos toda a costa oeste, de norte para sul, parando em algumas praias. Já na metade sul da ilha, fizemos um desvio, saindo da estrada principal para visitarmos mais uma praia. Seguimos a indicação da placa que anuncia “Anse du Soleil”. A partir de um certo ponto a descida para a praia é íngreme, mas pode levar-se o carro até lá ao fundo. O estacionamento é que é extremamente reduzido, pelo que, na maioria das vezes o carro terá que ficar um pouco longe da praia. Nós fomos os primeiros a chegar, por isso não tivemos esse problema. Ficámos encantados com a Anse Soleil. A praia é muito bonita, a areia muito branca e fina, o mar transparente. Banhámo-nos, tiramos fotos, e concordámos em como aquela era uma das praias mais belas em que já tínhamos estado.8
Anse Louis, na costa oeste da ilha de Mahé.
Voltámos à estrada, circundando a ilha, até atingirmos a costa leste, menos recortada e mais batida, com algumas boas praias para os surfistas. Seguimos pela estrada paralela ao aeroporto e, pouco depois, estávamos em Port Victoria. Tivemos tempo para entregar o carro e ainda dar uma volta a pé pela cidade. Aqui, os artigos para turistas são caros. A t-shirt mais barata que encontrámos custava o equivalente a 27 euros; um pequeno livro sobre a História da Seychelles, 30 euros. Enfim, nada de surpreendente. Falámos um pouco com um habitante local que conduz pessoas em passeios às outras ilhas e nos forneceu algumas informações interessantes. Perguntámos-lhe se ele sabia quem, antes dos conhecidos períodos francês e britânico, tinha passado pelas ilhas, e ele respondeu: “piratas”. E os portugueses não passaram por aqui? “Sim, sim, o Vasco da Gama também passou por cá mas os portugueses nunca se estabeleceram aqui.”
Estávamos no fim da época das chuvas, que dura até dezembro, e quando o nosso navio largou de Port Victoria, às seis da tarde, não pudemos tirar as fotos da cidade que havíamos planeado fazer ao pôr do sol, como despedida. O poente estava carregado de nuvens escuras. Esse brusco cerrar de pano aliviou de alguma forma a nossa nostalgia.
Primeiro dia no mar, depois das Seychelles. Acordámos com o mar agitado, picado, e um vento de frente para o navio bastante forte. A tripulação distribuiu sacos para o enjoo. A nossa rota é agora sudeste, em direção às Maurícias. E eu vou começar a ler o meu terceiro livro de viagem,9 uma releitura de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Machado é um dos meus dois escritores brasileiros favoritos, em parceria com o grande João Guimarães Rosa.
Hoje é sexta-feira, 8 de novembro de 2019.
Ainda antes de chegar às Maurícias, em dois dias, portanto, acabei de ler o Dom Casmurro. Será que Machado não esclareceu em vida o que pretendeu mostrar-nos através dos ciúmes de Bentinho? Ou preferiu adensar o mistério? Talvez nem uma coisa nem outra. A mim parece-me evidente que ele quis mostrar como uma mente perturbada pode criar uma realidade paralela. E fá-lo magistralmente, de acordo com o extraordinário escritor que é.
Parque Chamarel, Maurícia.
Ficámos dois dias na ilha principal das Maurícias, uma ilha com 1865 km2 e 330 kms de linha costeira, desabitada até 1505, quando aqui chegaram os portugueses. Alugámos um carro, continuámos a conduzir pela esquerda e, em ambos os dias que aqui estivemos, viajámos para Sul. No primeiro, fomos até à praia Flic en Flac, ao Parque Chamarel e terminámos na magnífica praia LeMorne, no sopé do Monte Brabant, Património Mundial pela UNESCO.
No segundo dia fomos até à cratera do extinto vulcão Trou aux Cerfs, de onde se avista praticamente toda a ilha, ao Grand Bassin e às Rochester Falls. Depois de entregarmos o carro, tivemos tempo ainda para passear pela capital, Port Louis. De tudo isto, do que é que gostamos mais? Da praia Le Morne10, sem dúvida. O pôr do sol, ali, foi magnífico.
Pareceu-nos interessante a diversidade cultural da Maurícia, com praticantes de várias religiões a conviverem pacificamente. Quando aqui estivemos, tinham ocorrido há poucos dias eleições legislativas. Uma senhora de uma banca de jornais e um cliente informaram-nos que o rosto que aparecia na capa de todos os jornais era o do primeiro-ministro, reeleito para um segundo mandato. Perguntámos se o partido dele é de esquerda ou de direita e informaram-nos que nas Maurícias só há dois partidos, o do governo e o da oposição, e que nenhum é de esquerda ou de direita. Então são partidos étnicos ou religiosos? Garantiram-nos que “não”. Ficamos sem perceber como se formaram os principais partidos desta república parlamentar e com vontade de esclarecer esta questão.
A dimensão das ilhas que visitamos vem sempre aumentando ao longo da nossa viagem, reparámos agora. Malé, Mahé, Maurícia e Reunião, aonde chegámos hoje. Considerando a posição geográfica, Malé e Mahé estão à mesma distância do Equador, embora a primeira no Hemisfério Norte e a segunda no Hemisfério Sul. Não resistimos à tentação de fazer uma comparação entre ambas. Pois agora o mesmo acontece em relação às Maurícias e à ilha francesa de Reunião.11
No topo do Maïdo. Ao fundo, a costa ocidental de Reunião e as melhores praias da ilha. (Foto de Fla)
Nesta ilha de dimensão considerável, altas montanhas (a mais alta acima dos 3 mil metros) e vulcões ativos, estivemos apenas dez horas, oito das quais com um carro alugado. Como seria de esperar, dado estarmos numa região de França, o ordenamento do território alterou-se significativamente: melhores estradas, melhores edifícios, melhor sinalização, mais riqueza evidente. Depois, a ilha é de uma beleza natural deslumbrante. Pudemos verificar isso do topo do Maïdo — integrado no Parque Nacional de Reunião, Património Mundial pela UNESCO — a 2100 metros de altitude, observando para leste os “três circos” (assim denominados, suponho, devido à sua forma) — Mafate, Salazie e Cilaos — e, do lado oeste, lá bem no fundo, uma porção enorme de costa, orlada por um risco branco — as ondas a baterem no recife de coral — deixando as praias protegidas da rebentação. (Por cima das praias viam-se algumas nuvens brancas, esparsas, bem abaixo de nós).
Foi numa dessas praias, Saline-les-Bains,12 que nos banhámos depois de descermos do Maïdo, por estradas secundárias e sinuosas, via Trois Bassins, fazendo um pequeno desvio para encontrarmos um caminho de tamarindos que a Fla queria ver. A praia, uma das mais badaladas da ilha, é, de facto, belíssima, com a água incrivelmente transparente e de temperatura excelente. A poucos metros da linha de água, ao longo da praia, árvores altas, que não são coqueiros, fornecem sombra refrescante, natural e gratuita. Não soubemos identificá-las. A parte mais profunda das suas raízes está cravada na areia mas a parte superior está a descoberto, provavelmente pela erosão provocada pelo vento, e serve para acomodar os pertences dos banhistas.
Depois da praia passámos por Saint Paul e fomos aos Egrets Les Bassin, onde très cascatas. Tivemos tempo de ver apenas uma.13 A água no lago onde a cascata cai é limpíssima e convida a um banho, mas, mais uma vez, não tivemos tempo. Quando entregámos o carro em La Possession, onde acostou o navio, a Fla reparou que tínhamos feito 150 quilómetros exatos. Apesar do tempo escasso, estávamos muito satisfeitos com a nossa experiência, e um pouco cansados. Tudo o que vimos superou as expectativas e podemos dizer que, se tivéssemos de escolher entre Maurícia e Reunião, a nossa escolha recaíria, sem hesitação, pela última. Reunião deve ser um local fantástico para se viver.
Os portugueses, ao que parece, foram os primeiros europeus a encontrar estas ilhas. À ilha de Reunião — atualmente o mais remoto território da União Europeia — deram-lhe o nome de Santa Apolónia, mas não a povoaram. Aproveitaram os franceses, que tomaram posse da ilha em 1642. Hoje é mais um départment francês.
A magnífica praia de Salines-les-Bains.
Como já referimos, conhecemos um rapaz no navio, um empregado de mesa, chamado Jabulani Gwamuri. Tem 28 anos, é do Zimbabwé e é muito simpático. Ele adora ir a terra “apanhar ar” e procura sempre turnos de trabalho que lho permitam, mesmo que para isso tenha de trabalhar mais horas. Vimo-lo em Malé e também na Maurícia. Foi aqui que nos anunciou que “hoje à noite” (“hoje” é o dia em que o navio esteve em Reunião) haveria um espetáculo no Teatro em que os protagonistas seriam membros da tripulação, e que ele iria atuar. Prometemos-lhe que iríamos assistir e assim o fizemos. Levámos a câmara fotográfica para registarmos a atuação de Jabulani e fazermos-lhe uma surpresa. Quando chegámos procurámos um lugar apropriado, na segunda fila da plateia, e acabámos também por fotografar a atuação de outros “artistas”. Levei a minha lente 1:8 de 50 mm (eu sei que não é nenhum suprassumo, mas faz-se o que se pode), e as fotos ficaram, realmente, muito boas.
O Teatro encheu e o espetáculo acabou por ser surpreendente, com quatro ou cinco cantores e cantoras a destacarem-se pela excelência das interpretações. Jabulani foi o queinto ou sexto a entrar em palco, interpretou uma canção hip-hop e, apesar de nervoso, não desiludiu. Não conseguimos referir-nos a todos, mas, como dissemos, houve excelentes interpretações. Lembramo-nos de um rapaz do Camboja e outro da Indonésia que estiveram muito bem.
Até que entrou em palco um marinheiro, condutor de lanchas, corpulento, mais largo que o Pavarotti mas com menos barriga, e começou a interpretar New York, New York. Infelizmente, logo na segunda frase, esqueceu-se da letra. A música continuou enquanto ele passava a mão pelo rosto, procurando desesperadamente lembrar-se da letra; baixou a cabeça e voltou as costas ao público, curvado, envergonhado. Depois, enquanto grande parte do público cantava em vez dele, incentivando-o, e a música continuava, olhou para a entrada dos bastidores e abriu os braços, desesperado, implorando socorro. Foi quando um colega que já tinha atuado entrou em palco e começou a cantar, conseguindo que o nosso “Pavarotti” retomasse, quase no final, a canção, terminando-a com o público, carinhoso, a aplaudi-lo fortemente. Ainda isto acontecia e eis que se ouvem os primeiros acordes de Nessun Dorma. O condutor de lanchas encetou a interpretação com uma belíssima voz de tenor e arrancou aplausos entusiásticos do público, que continuava a animá-lo; a meio da atuação notámos que se enganou na letra e teve uma ligeiríssima hesitação, mas conseguiu superar rapidamente e seguir em frente; depois, já na parte final, arrancou da caixa torácica um vozeirão incrível, arrebatador, que fez todo o teatro erguer-se em apoteose. Ouviam-se gritos enquanto toda a gente aplaudia, de pé; e o gigante Pavarotti parecia um menino.
Muito simpática e bonita, Nomonde Mdalose é dona de uma voz fabulosa. Que encontre em breve o palco que o seu talento merece – o mundo!
A penúltima atuação foi de uma jovem sul-africana que trabalhava no balcão da Receção do navio, com uma voz incrível. Como, logo desde o início, percebemos que a sua atuação era extraordinária, destámos a fotografá-la. Tudo se conjugou para que as fotos ficassem belíssimas — os movimentos, a roupa, a expressão — e ficaram. Foi, sem dúvida, uma das melhores atuações da noite, a par da do Pavarotti. Houve ainda tempo para ver e ouvir uma excelente cantora e entertainer peruana, após o que subiram ao palco todos os intérpretes da noite para um último aplauso. Foi realmente emocionante.
No dia seguinte, editamos as fotos de Jabulani e da cantora sul-africana, e decidimos levá-as no computador para que ambos as vissem. Fomos à receção e Nomonde Mdalose estava lá a trabalhar. Enquanto pedíamos uma impressão da fatura das nossas despesas no navio, demos-lhe os parabéns pela atuação do dia anterior e, virando o ecrã do computador, que pousáramos em cima do balcão, para ela dissemos-lhe que tínhamos tirado umas fotos — e mostrámos-lhas em tela grande. A minha capacidade descritiva é insuficiente para transcrever em palavras a sua alegria. Disse-nos que não tinha uma única foto cantando, e agradeceu-nos muitíssimo. Entregámos-lhe um cartão SD com 18 fotos que ela depois copiou e guardou.
À noite, após o jantar, pegámos no computador e fomos procurar Jabulani. Encontrámo-lo trabalhando nos bares exteriores do deck 13 e, quando antevimos uma oportunidade, chamámo-lo e começámos a mostrar-lhe as fotos. Ficou louco. That’s me!?, perguntava, Ohohoh! Amazing! Perguntou se podia mostrar as fotos aos colegas e, perante o nosso óbvio assentimento, chamou-os. Estava visivelmente feliz e orgulhoso, e isso deixou-nos também radiantes. Quando o deixámos, ainda se desfazia em mil agradecimentos…
Começo da última noite a bordo. O final de um cruzeiro memorável.
Ficámos muito contentes por termos proporcionado estes momentos de felicidade a estas pessoas. A apresentadora do espetáculo de ontem — uma jovem poliglota que está à frente do departamento de excursões — referiu, antes de chamar todos ao palco para a ovação final, que é preciso coragem para sair da zona de conforto e enfrentar uma audiência de milhares de pessoas; que isso é ainda mais difícil quando se está longe de casa, da família e dos amigos; e que a única coisa que compensava essa ausência era todos os que trabalhavam a bordo serem eles próprios membros de uma outra família, não menos verdadeira, porque real, a “família-tripulação”. Lembrei-me da “identidade horizontal” de Solomon. E pensei que, assim como o talento que vemos em todo o lado, e bem expresso neste espetáculo, também os sentimentos, anseios e esperanças humanos não têm nacionalidade, são universais. Um navio, com a sua diversidade identitária, tal como, em menor escala, uma grande orquestra sinfónica, mostra-nos como o ser humano é um só, independentemente do local onde nasceu ou vive.
E cá estamos a dois dias de navegação do destino final deste cruzeiro, Durban. Ontem e hoje choveu o tempo todo, o mar esteve agitado, o vento forte. Passámos muito perto do extremo sul de Madagáscar.
Último dia de navegação. De manhã passámos abaixo do canal de Moçambique, e o tempo melhorou gradualmente. Entretanto, disseram-nos que a SAA (Southern African Airways) está em greve, pelo que muitos voos foram cancelados. Embora os nossos voos não sejam através dessa companhia, estamos um pouco apreensivos, com receio de sermos afetados. Mas não adianta stressar.
No Jardim Municipal Tunduru, Maputo.
Quando chegámos a Durban o tempo estava nublado. Depois de uma enorme fila para o controlo de passaportes, apanhámos um shutlle para o aeroporto por 10€/pessoa. Talvez por ser sábado, não tivemos dificuldade em atravessar a cidade. O nosso cruzeiro terminara, mas ainda não a nossa viagem. Antes do regresso a casa, ainda havia Moçambique e Eswatini. Saímos de Civitavecchia no dia 19 de outubro; hoje é o dia 16 de novembro. A nossa viagem por mar durou 29 dias. Daqui a uma semana estaremos em casa.
Na estrada, em Eswatini.
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Notas:
1 “Astrofísica para Gente com Pressa”, Neil deGrasse Tyson, Gradiva, Lisboa, 2017, 1ª ed., pp. 77-81.
2Para lá dos infravermelhos, as microondas e as ondas de rádio; e para lá dos ultravioletas, os raios-x e os raios gama.
3Alguns com cozinheiros premiados com estrelas Michelin, como são os casos de Harald Hohlfarht, alemão, com três estrelas e Ramón Freixa, espanhol, com duas estrelas.
4Há que ter em conta preço, navio, companhia, itinerário e vendedor.
5Fonte: “Mysticism in the Maldives”, Ali Hussein, Novelty Printers, Malé, 1991.
6Águas plenas de golfinhos alegres que nos dão as boas-vindas, como aconteceu aquando da chegada do nosso navio.
7Em tributo a Henry Venn, secretário da Missão entre 1841 e 1873.
8A Anse Soleil faz parte da nossa lista de praias mais belas do mundo (aqui).
9Também trouxe na bagagem dois livros sobre fotografia, mas não posso dizer que os li, pois são sobretudo livros de “consulta”, não propriamente de leitura.
10Também a Le Morne faz parte da nossa lista de praias mais belas do mundo (ver nota 8).
11 Até porque as ilhas Reunião, Maurícias e Rodrigues pertencem ao mesmo arquipélago — o Arquipélago de Mascarenhas. (Os nomes denunciam a presença portuguesa).
12Mais uma da nossa lista (nota 8).
13A mais bela e espetacular cascata de Reunião é a do Vale de Langevin.