Considerado o Delfim do PS, Pedro Nuno Santos tem nesta crise a oportunidade de ascender à liderança do partido.
António Costa demite-se com dignidade após saber que está a ser investigado num processo autónomo, paralelo ao que constituiu arguidos o seu chefe de gabinete, o seu “melhor amigo” e um ministro do seu governo, entre outros.
Depois de aceitar a demissão do primeiro-ministro, Marcelo Rebelo de Sousa vai ouvir os partidos, convocar o Conselho de Estado e tomar uma decisão que deverá passar pela dissolução do parlamento e a convocação — a partir daí, dentro de 60 dias — de eleições antecipadas.
A data de dissolução será importante, não se sabendo ainda se o Presidente da República aguentará o governo e o parlamento até a aprovação final do orçamento de 2024 (marcada para 29 de novembro) ou não o fará, e o país será gerido por duodécimos.
Seja como for, um novo ciclo político se abre. Tendo em conta que o Partido Socialista, que ainda detém a maioria absoluta dos deputados no parlamento, não poderá contar com António Costa para as novas eleições, a questão é: quem lhe sucederá como líder do PS?
Entre os mais bem posicionados está Pedro Nuno Santos. Considerado por muitos um político brilhante, parece quase certo que irá avançar. A nossa posição relativamente a Nuno Santos é conhecida (https://ilovealfama.com/2023/07/09/a-prova-do-bilhete/) e uma coisa é certa: não votaremos no PS se, e enquanto, ele for líder desse partido. Em contrapartida, veríamos com bons olhos as candidaturas de António José Seguro, Álvaro Beleza, Francisco Assis, Mariana Vieira da Silva ou José Luís Carneiro.
Entretanto, a direita democrática, que procurará afirmar-se nas próximas eleições, após 8 anos afastada do poder, tem um enorme elefante na sala chamado Chega, partido de extrema-direita que se destaca, desde já, como o maior beneficiário líquido desta crise política.
Algo que caracteriza fortemente a humanidade é a luta contra uma natureza indiferente às suas necessidades, sonhos e ambições. Habitações, saneamento básico, vacinas e tantos outros instrumentos são invenções humanas que tentam limitar os danos que a natureza impõe.
Mas a maior vitória sobre as forças naturais é, sem dúvida, o controlo do poder (logo, da violência). Uma limitação de danos imposta a nós próprios, que somos também “natureza” — um autocontrolo que nos distingue dos outros animais.
Este autocontrolo pode ser individual ou, desde que os gregos antigos inventaram a democracia, abranger toda a sociedade. Com a separação dos poderes legislativo, executivo e judicial, a democracia atingiu a maturidade.
Nas atuais democracias desenvolvidas o controlo do poder (individual e social) é efetivo, enquanto nas democracias menos desenvolvidas o abuso do poder, seja através da corrupção ou do autoritarismo, é bastante mais elevado.
(Não será necessário falar das ditaduras, onde são cometidas as maiores atrocidades).
É também nas democracias maduras que aqueles sem qualquer poder — crianças, presos, doentes mentais, idosos em fim de vida — são tratados com dignidade.
O controlo do poder é a marca de água da humanidade, libertada da força bruta; é o alicerce indispensável para a construção da tão almejada e sempre adiada Paz.
Um bilhete eletrónico da Air France e um bilhete eletrónico da TAP. No primeiro vemos rapidamente o que nos interessa — o código de reserva, as datas de viagem, os horários, a bagagem contratada — no segundo não há qualquer destaque destes elementos básicos, perdidos numa sopa de letras.
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Pedro Nuno Santos, o promissor delfim do PS, prepara-se para concorrer à liderança do partido em 2026 “seja contra quem for” (capa do Expresso, última edição). Ambicioso, convencido (tem os tiques, o ar altivo e a plasticidade de José Sócrates) e aparentemente competente, PNS levou os comentadores encartados, a imprensa em peso e os muitos atónitos cidadãos a uma espécie de idolatria com o seu regresso à Assembleia da República.
Este retorno triunfal deve-se quase exclusivamente ao desempenho de PNS perante a CPI à gestão da TAP, que muitos consideram ter reabilitado completamente o antigo ministro. Para lá das conclusões preliminares da CPI — que, na mesma edição do Expresso, o economista Luís Marques considera “um verdadeiro manifesto contra a propriedade pública de empresas, principalmente as que operam em sectores sujeitos à concorrência” — em que PNS é ilibado de qualquer ação suspeita, além do seu aval à polémica indemnização a Alexandra Reis, vejamos que papel teve, de facto, PNS enquanto responsável máximo do ministério que tutela a TAP.
Em primeiro lugar, Pedro Nuno Santos defendeu com unhas e dentes o resgate financeiro da TAP, alegando que a companhia é indispensável ao país, social e economicamente. Mas tal como o deputado Carlos Guimarães Pinto tantas vezes esclareceu, se a TAP falisse, outra companhia ocuparia o seu espaço, certamente com muitas empresas nacionais a prestarem os habituais serviços complementares. Com isso poupar-se-iam milhares de milhões de euros ao erário público (os portugueses já enterraram mais de 3,2 mil milhões de euros na TAP).
Em segundo lugar, Pedro Nuno Santos argumenta que, tal como Portugal, todos os estados apoiaram financeiramente as suas companhias aéreas. Mas esquece-se de referir que o apoio de Portugal é, em percentagem do Orçamento de Estado, mais de quatro vezes superior ao de qualquer outro país, e que várias companhias aéreas internacionais já ressarciram os respetivos estados pelo apoio prestado, o que não se verifica e ninguém acredita que se venha a verificar em breve em Portugal.
Em terceiro lugar, sob a tutela política de PNS, a TAP continuou a prestar um serviço péssimo aos seus clientes.
Vejamos o caso simples, mas sintomático, de um bilhete eletrónico. A TAP, ao contrário das outras companhias aéreas, não consegue apresentar um bilhete eletrónico facilmente legível (ver imagem). O bilhete eletrónico da TAP é um amontoado de caracteres que o cidadão comum tem dificuldade em compreender. Se durante 3 anos PNS não teve a capacidade nem a sensibilidade para alertar os gestores da companhia para algo tão simples e necessário como atualizar um bilhete eletrónico, que capacidade e sensibilidade terá para resolver as coisas mais prementes que atormentam o povo português?
Mas, para lá do bilhete eletrónico, os viajantes portugueses da TAP sabem que, embora a tenham financiado generosamente, continuam a contar com um péssimo serviço: viagens caríssimas, opacidade na relação com o cliente, reclamações sem resposta, indemnizações tardias, greves, atrasos crónicos nos voos de longo curso. E nada disto foi resolvido durante a tutela de PNS.
Pedro Nuno Santos é o ideólogo de uma ala do PS próxima da esquerda mais radical. Manipulador (lembremo-nos que mentiu comprovadamente no “caso Alexandra Reis”) e antiliberal, tem uma conceção estatizante da política e da economia. Extremamente convencido, PNS é um homem de convicções fortes e de grandes causas, mas falta-lhe o sentido prático e a sensibilidade para as coisas concretas que podem melhorar a vida das pessoas.
Dizem-nos que é inteligente, e talvez seja. Mas de que serve ao povo uma grande inteligência, prisioneira de uma ideologia qualquer?
Pormenor de uma rua em Cabanas de Tavira (foto de 2022).
Trata-se apenas de um número simbólico porque amanhã passará a 501 e assim sucessivamente, ninguém sabe até quando durará a Guerra da Ucrânia. E trata-se sobretudo de muitos milhares de mortos e de um sofrimento imenso provocados pela eterna estupidez humana.
(Sim, toda a gente sabe como somos capazes do melhor e do pior).
Aqueles que apoiam, toleram ou compreendem — descarada ou envergonhadamente — o criminoso que iniciou esta guerra, são coniventes.
Dizem-nos que Putin é um ser racional e que há alguns bem piores do que ele. É verdade. Hitler também era racional e também tinha comparsas ainda piores do que ele.
Mas isso não quer dizer que ambos não sejam dois dos piores assassinos em série da história da humanidade. E também não quer dizer que estes verdadeiros assassinos algum dia parariam de matar se não fossem travados.
Querer isentar de responsabilidade o dono da Rússia por estes 500 dias de sofrimento, transferindo-a para quem quer que seja — incluindo essa entidade (que tantos desconhecem nas suas origem, diversidade e profundidade) apelidada “Ocidente” — é uma ignomínia sem nome.
A Estónia obteve a independência em 24 de Fevereiro de 1918, mas foi invadida de novo durante a II Guerra Mundial (na sequência de um célebre acordo entre Hitler e Estaline), e apenas reconquistaria a independência em 1991, após o colapso da União Soviética.
Durante esses 52 anos, mais de 130 mil estonianos (a população atual é cerca de um milhão e 200 mil) foram mandados para a Sibéria, onde muitos morreram, e o KGB manteve um regime de terror, interrogando, prendendo e torturando a população dentro da própria Estónia.
É natural que, tal como nós, justamente, detestamos fascistas, os estonianos — mas também letões, lituanos, georgianos, entre vários outros povos com experiências semelhantes — justamente, detestem comunistas.
Tanto os povos subjugados pelos fascistas quanto os povos subjugados pelos comunistas viveram experiências traumáticas, e cada qual elegeu o seu demónio político de acordo com a realidade que viveu. Em contrapartida, cada qual elegeu também os seus heróis.
Esta atitude paroquial era já conhecida há 2500 anos, quando Xenófanes cantava:
Dizem os Etíopes que os seus deuses são pretos e de nariz chato, enquanto os Trácios dizem que os seus têm olhos azuis e cabelo ruivo. Mas se os bois, ou os cavalos, ou os leões, tivessem mãos e soubessem desenhar, e pudessem esculpir como os homens, os cavalos desenhariam os seus deuses como cavalos, e os bois como bois; e cada qual daria forma ao corpo dos deuses à sua própria semelhança.1
Quase meio século depois do 25 de abril não há qualquer razão válida para nos comportarmos como os bois e os cavalos de Xenófanes. Alarguemos, pois, nossos horizontes e sejamos verdadeiramente livres!
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1 Citado por Karl Popper em A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, Vol. II, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1993, p. 372.
A polémica sobre a participação de Lula nas comemorações do 25 de Abril teria sido evitada se quem o convidou não tivesse cometido esse erro. A partir daí, mesmo depois dessa participação ter sido acomodada para um momento anterior à sessão solene na AR, era previsível o que viria a acontecer: o agravamento da partidarização de uma data que simboliza a liberdade e que não pode — por mais que tentem, não pode — ser aprisionada por nenhum quadrante político.
A responsabilidade desta polémica não deve, assim, ser assacada a Lula. Só um néscio poderia esperar que este, defensor de regimes como os venezuelano e cubano, alinhasse com o Ocidente na condenação da Rússia pela agressão à Ucrânia. A posição do atual presidente do Brasil — que, curiosamente, não difere muito da do seu antecessor, Bolsonaro — era mais do que expectável.
Cair em cima de Lula é por isso um nonsense. Perguntem antes ao Marcelo e ao PS porque é que engendraram este embrulho.
A Rússia é um país com recursos naturais imensos e uma dimensão que abarca não só o heartland terrestre, mas também 11 fusos horários — uma imensidão que torna praticamente inexpugnável o seu território. Os russos têm, portanto, todas as condições de partida para serem um povo pacífico, próspero e feliz mas, apesar destas vantagens, vivem há séculos na miséria.1
As causas da triste vida do povo russo (que suporta um desdém criminoso dos sucessivos governantes autocratas pelo valor da vida humana) resultam da opressão a que tem sido sujeito dentro da própria Rússia, desde os tempos dos czares até Putin, passando pelo horrífico regime soviético, com um ou outro vislumbre ilusório de democracia.
Quando a derrota da União Soviética na Guerra Fria aconteceu, isso não implicou — apesar do que alguns, replicando Putin, querem fazer crer — uma tentativa de assalto do Ocidente. Não há, nunca houve, nem nunca se equacionou, neste período, um avanço ocidental sobre o território russo. O “Ocidente”, pelo contrário, deslumbrou-se com a potencial transição soviética para a democracia, sonhou com a paz (e, sim, também com os negócios), e mesmo quando Putin deu os primeiros sinais de despotismo, não quis acreditar que a Rússia regressava a passos largos ao seu estado ancestral, de onde, de resto, nunca saíra totalmente.
Assim, se pode até ser compreensível que muitos russos atuais, intoxicados pela propaganda, aceitem as falsidades de Putin e culpem o Ocidente pelas supostas ameaças à Federação Russa e pela Guerra na Ucrânia, apenas por cegueira ideológica homens e mulheres de sociedades livres podem engolir tal patranha.
A causa profunda da agressão de Putin à Ucrânia não deriva do exterior: é a mesma que viabilizou a cultura de opressão russa, e a mesmíssima que permite a Putin roubar o povo a seu bel-prazer — referimo-nos, claro, ao poder absoluto, hoje nas mãos de um ditador déspota, corrupto e sanguinário, com o beneplácito de alguns extremistas ideológicos que, um ano após esta “Operação Militar Especial”, continuam a culpar o Ocidente.
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Nota:
1 Alguns dados que suportam a nossa afirmação:
No início do século XIX, o PIB per capita do Império Russo era, em média, duas vezes menor que o da Europa Ocidental e a produção industrial cerca de 2,5 vezes menor. Apenas 2% a 6% das mulheres e 4% a 8% dos homens eram alfabetizados na Rússia (40% a 50% na Europa; 25% a 35% no Japão; 15% a 25% na China). O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) estimado era 1,8 a 2,5 vezes menor do que os do Japão e do Ocidente.
No início do século XX, a esperança de vida à nascença no Ocidente era de 50 anos, ao passo que na Rússia era de 34 anos. A diferença absoluta entre os anos de escolaridade no Ocidente e na Rússia aumentara exponencialmente em um século: 1.9 em 1800 (2.2/0.3) e 5.8 em 1913 (7.3/1.5). 1% da população russa detinha 16% a 20% da totalidade da riqueza do país. Os níveis empresarial, administrativo e cultural da população russa, em geral, eram terrivelmente baixos.
Na época soviética os gastos com a defesa aumentaram terrivelmente chegando a uns incríveis 50/60% do PIB na década de 1980. Pelo contrário, as qualificações dos recursos humanos eram terrivelmente baixas em comparação, por exemplo, com os padrões dos EUA e Alemanha (70% a 80% de profissionais altamente qualificados nestes países, contra 15% na União Soviética). O PIB per capita ajustado mostra uma queda acentuada de 1913 (28/30% dos países desenvolvidos) para 1990 (16/18% dos países desenvolvidos e 10% do norte-americano), apesar da União Soviética ser, nos últimos anos antes do seu desmembramento, a maior produtora mundial de petróleo bruto e gás natural. Após este longo período de decadência, o sistema económico soviético colapsou.
Escusado será dizer que Putin — ao gastar uma percentagem enorme da riqueza nacional na indústria da guerra, em detrimento do desenvolvimento do país — repete os erros do período soviético e sujeita o povo ainda a mais miséria. Ele, porém, é provavelmente o homem mais rico do planeta.
Fonte da nota:
Meliantsev, Vitali A, Russia’s Comparative Economic Development in the Long Run, Lomonossov University, Moscow, 2004.
Para 494 dos 596 deputados europeus, sim, a Federação Russa é um estado patrocinador do terrorismo e um estado que usa meios terroristas. 58 deputados votaram contra a resolução. Ou seja, cerca de 83% votaram a favor e apenas 10% contra. Os restantes 10% correspondem aos 44 deputados que se abstiveram. A resolução foi, assim, aprovada por uma larguíssima maioria e reiterou o apoio inabalável às independência, soberania e integridade territorial da Ucrânia, no interior das suas fronteiras internacionalmente reconhecidas, e a condenação da guerra ilegal de agressão, não provocada e injustificada, da Federação Russa.
O Parlamento Europeu exortou a União Europeia e os seus estados membros a desenvolverem um quadro jurídico para a designação de estados patrocinadores do terrorismo e estados que usam meios do terrorismo, e instou os líderes europeus a considerarem a inclusão da Rússia nessa lista europeia de estados patrocinadores do terrorismo e instou os estados membros a contribuírem para o isolamento internacional abrangente da Rússia. A resolução pedia também que o grupo Wagner, apoiado pelo estado russo, e os kadyrovites, bem como outros grupos armados financiados pela Rússia e em atividade na Ucrânia, fossem incluídos na lista europeia de pessoas, grupos e entidades envolvidos em atos de terrorismo. Foi pedido um nono pacote de sanções, alargando o número de indivíduos sujeitos a essas medidas sancionatórias. Foi solicitada a prevenção, investigação e processamento de quaisquer formas de ludibriar as sanções.
Os eurodeputados apelaram ainda a um renovado apoio às investigações independentes em curso sobre crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos pela Rússia, e realçaram que a vertente guerra de agressão sobre a Ucrânia “destaca a necessidade de uma avaliação histórica e jurídica completas e um debate público transparente sobre os crimes do regime soviético, sobretudo na própria Rússia, porque a falta de responsabilidade e justiça só conduz à repetição de crimes semelhantes”.
Analisando a votação da resolução c9-0482/2022, aprovada por larga maioria, como já foi dito, constatam-se duas coisas — uma que já se previa à partida e outra verdadeiramente surpreendente.
A primeira é que os votos contra a resolução vieram quase todos dos extremos políticos à esquerda e à direita do Parlamento.
A segunda é que, para além dos votos contrários à resolução dos dois deputados portugueses do PCP, já esperados, e da posição tipicamente hipócrita dos deputados do Bloco de Esquerda, que se abstiveram, houve cinco deputados do Partido Socialista que também se abstiveram.
Não sabemos se isto é de alguma forma embaraçoso para o PS. Só sabemos que é uma vergonha para o país.
Os ucranianos libertaram este fim de semana a estratégica cidade de Kherson, que estava há meses sob jugo das forças russas. Apesar das desastrosas perdas humanas que esta guerra sem sentido já provocou, a chegada dos soldados ucranianos foi saudada com júbilo em Kherson e um pouco por todo o mundo, pelo menos entre os que amam a liberdade. Para estes é incompreensível que alguém possa tolerar ou apoiar uma potência invasora que pretende pura e simplesmente varrer do mapa um estado soberano, aniquilando, se para tal for necessário, todo um povo.
Porém, o que é incompreensível para uns é perfeitamente justificável para outros: ao mesmo tempo que os ucranianos libertavam Kherson, reuniam numa conferência no Seixal largas centenas de militantes comunistas que, ao invés de condenarem Putin pela ignóbil invasão russa, condenam os americanos, a NATO e a União Europeia.
Muitos perguntarão como tal é possível, mas a razão fundamental é simples. O comunismo, mais propriamente a ideologia em que se apoia — o marxismo-leninismo — é uma religião. Não uma religião que promete o paraíso num lugar distante, mas antes uma religião que promete o paraíso na Terra. O caráter religioso do marxismo foi já dissecado por vários autores e revela-se em múltiplos aspetos. Alguns deles patentes na conferência levada a cabo pelos comunistas, este fim de semana, no Seixal.
Desde logo, (1) a despersonalização: pouco importa o que cada indivíduo pensa, os comunistas orgulham-se de que o que conta, independentemente das pessoas, é o dogma ideológico, a doutrina do partido e a autoridade do coletivo; depois, (2) o maniqueísmo: de um lado, os bons — os trabalhadores — do outro os maus — o Grande Capital e seus esbirros; finalmente, (3) a ritualização: símbolos, cânticos, palavras de ordem, toda uma velha liturgia, seguida com convicção absoluta, quando não, com o mais puro fanatismo.
A total submissão à ideologia (a unanimidade de que tanto se orgulham) é, entre todos, o aspeto mais pernicioso da doutrina comunista. Dissidências não são admitidas. Discordância implica expulsão. E uma vez no poder, seja em que lugar do planeta for, a perseguição aos hereges será efetiva e implacável. Os comunistas condenam o Ocidente porque, mais do que o capitalismo, a burguesia ou a desigualdade, o que, acima de tudo, os comunistas odeiam nas democracias liberais é a primazia que nestas é conferida à liberdade.
Liberdade celebrada em Kherson, ausente no Seixal.
O caminho percorrido pelo homem até chegar à sociedade moderna é caracterizado pela luta contra a Natureza, sendo que a luta principal é contra a sua própria natureza.
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Todos os organismos buscam um mundo melhor. Todos os animais se alimentam de outras espécies. Mas o homem é o único que se mata a si próprio por puro prazer.
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A chamada “Guerra Fria” foi, de facto, uma guerra quente que se propagou pelo mundo inteiro e causou imensas vitímas. Muitas pessoas têm um sentimento antiamericano por não terem compreendido todas as implicações dessa guerra escaldante — uma guerra motivada pelo medo, a pior de todas as motivações.
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Há a boa e a má filosofia, a boa e a má política, a boa e a má história, e por aí fora… O que é bom deriva da ciência e o que é mau deriva da pseudociência.
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A comunicação social informa ou desinforma; os livros formam ou deformam.
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Curioso que, em Filosofia Política, os otimistas não esperem grandes feitos, e sejam os pessimistas os profetas das grandes mudanças.
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Não é difícil — ainda que discutível — eleger Bach, Mozart, Beethoven, Mahler, Shostakovitch, como os grandes músicos, ou Homero, Camões, Cervantes, Dostoievsky, Guimarães Rosa, como os grandes escritores, e outro tanto para pintores, cientistas, entre tantos outros. Da mesma forma, não deveria ser — e não é — difícil eleger Sócrates, Kant, Voltaire, Popper, como os grandes filósofos. Se no campo da Filosofia (logo, da Filosofia Política) a escolha parece mais difícil, tal deve-se ao mesmo empecilho de sempre — a ideologia.
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O antiamericanismo vem sempre acompanhado do antiliberalismo.
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Progresso é o resultado das vitórias da ciência sobre a ideologia e a idolatria.
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A razão é a sebe que erguemos entre o que sentimos e o que fazemos.
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O mundial 2022 no Qatar veio pôr em evidência, uma vez mais, através da polémica em torno de Ronaldo, a clubite (inflamação neuronal aguda) que grassa em Portugal. Os sportinguistas não querem aceitar que Ronaldo não seja, afinal, o melhor futebolista do mundo; e os benfiquistas não querem aceitar que o mesmo Ronaldo seja, afinal, o melhor futebolista português de todos os tempos.
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Nas ditaduras importam as personalidades; nas democracias, as instituições.
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A iliteracia científica das populações — potenciada pelo nacionalismo romântico (direita) ou pelo internacionalismo utópico (esquerda) — constitui um campo fértil para a implementação de ideologias totalitárias.
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A narrativa de Putin sobre o Ocidente é um sofisma, porque nunca houve uma ameaça ocidental à Rússia depois da Guerra Fria. A Alemanha, que fora combatida pelos americanos na II Guerra Mundial, foi fortemente apoiada por estes aquando da sua transição para um estado de direito democrático. O mesmo aconteceria com a Rússia pós-soviética, mas Putin optou pela autocracia, e precisa alimentá-la com a narrativa antiamericana.
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Não deixa de ser irónico — ainda que trágico — que a palavra “Ucrânia” signifique “fronteira”.
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Uma vez que somos todos diferentes, só se consegue implantar a igualdade pela força, ou seja, com uma ditadura. Mas uma vez o ditador no poder o que cresce não é a igualdade, é a desigualdade.
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Sábio é aquele cuja sede de captar o desconhecido é superior à de verter o que conhece.
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Sou politicamente um individualista não porque me considere diferente ou melhor que os outros, mas porque considero que um coletivo de pessoas é mais rico se muitas delas pensarem de forma diferente do que se pensarem todas da mesma maneira.
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Os intelectuais marxistas do Ocidente são maioritariamente burgueses ou, à boa maneira do Mestre, vivem à conta dos amigos.
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O problema que se passa com os profetas da desgraça é que ficam torcendo que as suas profecias se concretizem e por todo o lado veem tendências dessa concretização. E mesmo que as desgraças não aconteçam, está criado o estado de ansiedade e medo que junta cada vez mais crentes, incluindo muitos jovens desamparados, à tribo da desesperança.
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Parece que está na moda seguir influencers. Já eu sigo influencers que são avessos a modas.
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Há mil e uma maneiras de ver um problema. Mas sempre aparece um idiota ou um génio com a milésima segunda.
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O romantismo transposto para a política converte-se em nacionalismo.
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Antes da ciência atual — altamente teórica — houve uma ciência diferente, baseada no desbravamento da natureza, uma ciência descritiva, catalogadora, protagonizada por verdadeiros heróis, intrépidos aventureiros, que enfrentaram grandes perigos e adversidades nas suas viagens à descoberta do mundo natural. Essa ciência — assaz contraditória em seus termos, aos olhos de hoje — era a ciência romântica.
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As sociedades mais atrasadas são exclusivas — prevalece a visão de que existe uma parte da humanidade boa e outra parte da humanidade má. Pelo contrário, as sociedades mais avançadas são inclusivas — todas as pessoas são iguais na sua dignidade e, boas ou más, são parte do conjunto da família humana.
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Foi Cedric Price, um celebrado arquiteto inglês, quem disse um dia que as cidades são como os ovos. Primeiro apareceram as cidades ovo cozido, as cidades antigas e medievais, muralhadas. Depois apareceram as cidades ovo estrelado, com os serviços no centro e os dormitórios na periferia. Hoje em dia as cidades mais cosmopolitas são do tipo ovo mexido, com polos de serviços e habitações espalhados por todo o lado.
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Bom dia Mr. Dawkins, é um prazer pôr os meus genes a falar com os seus.
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A liberdade não tem cor. Não adianta pintá-la.
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Tenho ideias. Tenho até ideais. Mas não tenho ideologia.
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Quando a liberdade é relativa a ideologia é absoluta. E vice-versa.
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O aspeto mais deplorável das ideologias românticas é a prevalência das intenções sobre os resultados.
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O Universo pode expandir-se e contrair-se, existindo por ciclos consecutivos de nascimento e morte, tipo ovo e galinha. Ou pode o tempo não ser linear, mas circular, e não haver morte nem nascimento do Universo.
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O gesto elegante pode até ser pura hipocrisia. Mas isso não lhe retira o encanto.
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Embora cada ciência tenha o seu objeto próprio, já todas estiveram integradas numa única disciplina – a Filosofia. Isto quer dizer que todas mantêm uma ligação entre si, apesar da sua autonomia. A disciplina que trata dessa ligação, que une todas as ciências, é precisamente a Filosofia.
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O ser humano que se aventura no desconhecido, qual passarinho lançado no espaço antes do acordo da mãe, é, em geral, o mais nobre e generoso.
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O milagre económico da Direita redunda, em geral, em desastre social; o milagre social da Esquerda redunda, em geral, em desastre económico.
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Os sintomas de clubite aguda são, amiúde, a ponta do iceberg de uma patologia crónica, por definição incurável, face à incapacidade do indivíduo reconhecer — e tão pouco admitir — o seu estado de mania ou depressão.
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Clubite é a forma socialmente aceite de desejarmos o pior aos nossos vizinhos e amigos.
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A Liberdade, individual ou coletiva, é algo tão amplo, profundo e desconhecido que chega a ser assustador. É por isso que as regras sociais não são suficientes, precisamos de outras balizas para não nos sentirmos perdidos no mundo. A adoção de dogmas, pessoais ou coletivos, é o preço a pagar pelo medo à Liberdade.
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São desinteressantes as entrevistas em que os convidados falam de si próprios. As vidas privadas têm, por vezes, interesse público, mas quase nunca quando analisadas em causa própria. É entediante a conversa sobre idiossincrasias de personalidades infladas pelo sopro mediático. Fernando Pessoa tinha razão: a publicidade da vida privada é, não apenas esteticamente, algo desprovido de valor.
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Nenhuma carreira produz resultados tão definidos como a de advogado — 1% de heróis, 99% de cretinos.
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Esquerda e Direita são como dois sacos onde cada um — de acordo com o trajeto pessoal — coloca o que quer. Eu há muito que despejei cada um deles. E para que não restassem dúvidas, lancei os sacos no lixo.
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É verdade, às vezes, fico hesitante. É que vejo tanta gente com ar professoral, convencida da sua sapiência, que fico de pé atrás — quem me diz que não acontece o mesmo comigo?
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Não é procurando provas que confirmem a nossa posição que a fortalecemos. Fazêmo-lo buscando provas contrárias à nossa posição.
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Os ideólogos mais empolgados continuam falando como se estivéssemos ainda na Guerra Fria. Entretanto o mundo “pula e avança”.
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Há filósofos que nos dizem como devemos pensar (ou comportar-nos) e há filósofos que não nos dizem como devemos pensar (ou comportar-nos). Só estes últimos são filósofos verdadeiros.
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Há três obras que nos proporcionam um melhor entendimento sobre o que são historicismo, totalitarismo e coletivismo, todas escritas na ressaca da II Guerra Mundial. Refiro-me aos trabalhos monumentais de Karl Popper e Hannah Arendt, respetivamente, A Sociedade Aberta e Seus Inimigos e Origens do Totalitarismo, e ao trabalho não tão monumental mas igualmente indispensável de Friedrich Hayek, O Caminho da Servidão, três das obras mais importantes do século XX. Quem as não leu terá certamente uma perspetiva mais pobre sobre a centúria em que tantos milhões de seres humanos pereceram, face à incúria de políticos irresponsáveis.
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Em matéria política, a sabedoria está tanto do lado do homem comum como do dos intelectuais.
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As melhores sociedades humanas são aquelas onde se tenta minimizar o mal. As piores são aquelas onde se pretende maximizar o bem.
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Governar um país é como navegar à bolina. Ora para estibordo, ora para bombordo, apenas o tempo necessário para manter o rumo.
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Manuel Teixeira-Gomes renunciou ao cargo de Presidente da República, em protesto contra a falta de ética dos políticos do seu tempo. Manuel Teixeira-Gomes era um algarvio culto, leal, altruísta e um excelente escritor. Já outro algarvio, também Presidente da República, Cavaco Silva, é tecnocrata, conspirador, egocêntrico e calculista — o pior presidente da história portuguesa. Não poderia haver contraste maior.
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Pouco importa teres muitos conhecimentos se não tiveres com quem os discutir; pouco importa estares num lugar paradisíaco se não tiveres com quem o partilhar; pouco importa o amor que tens no coração se não tiveres a quem o dar. As únicas coisas que te consomem sozinho são o ódio e a inveja.
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John Stuart Mill disse uma vez o seguinte ao liberal francês Alexis de Tocqueville: ” o gosto em fazer com que os outros se submetam a um modo de vida que consideramos mais útil para eles do que eles próprios consideram não é muito comum na Inglaterra”. Eis por que gosto tanto dos liberais ingleses.
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Dois dos maiores países do mundo transformaram-se em estados comunistas na sequência da Grande Guerra. A Rússia pela ajuda que a Alemanha deu a Lenine e a China por se sentir injustiçada com os termos do Tratado de Versalhes.
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Se algum pensamento te perturba, lembra-te que sentimentos negativos atingem a todos. Alguns ultrapassam-nos mais facilmente porque não são tão exigentes com eles próprios como tu és contigo.
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Muitas obras antigas não teriam sido realizadas se naquele tempo já existissem psicólogos.
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As ideologias são medicamentos fora de prazo.
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Gosto de pessoas que falham, que erram, que se enganam. Gosto de pessoas humanas. Mas pior que os infalíveis são os moralistas. Estes são os seres mais perniciosos em sociedade.
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A moral não se apregoa, pratica-se — e é tudo. Jesus foi revolucionário porque rejeitou a moral vigente; por isso era conhecido como o “amigo dos pecadores”; e por isso foi condenado à morte.
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Para Einstein o tempo é aquilo que se mede com um relógio e o espaço o que se mede com uma régua. E como se medem as teorias políticas? O instrumento adequado para medi-las é a História.
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Escrever bem implica dizer o que se pretende usando o menor número de palavras dentro do leque mais vasto possível.
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Que coisa é essa do comunismo, senão um regresso ao passado, ao tempo da gens, quando não existia ainda a propriedade privada, o casamento monogâmico, o comércio, o dinheiro vil? Os comunistas discordam da civilização, mas servem-se dela. Nenhum comunista larga tudo para viver em grupo fechado, na natureza.
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O excesso de culpa pode fazer-nos virar contra nós próprios até ao insuportável, e levar-nos a cometer um crime; a ausência de culpa pode transformar-nos em loucos psicopatas. Em nenhum outro lugar, como dentro de nós, é tão importante o equilíbrio.
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Acontece com frequência conceder-se maior tolerância a alguns seres humanos prolixos, extravagantes ou geniais, a quem não se leva a mal o exagero, a indelicadeza quando não a ofensa. A tolerância que eu possa ter — e tenho — não tem a ver com esses critérios. Em mim, os extraordinários não têm sobre os ordinários qualquer privilégio.
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O tempo é um imenso rolo compressor que tudo nivela.
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O princípio da morte sem dor deveria ser consagrado numa sociedade verdadeiramente humana, como o é o “não matarás”, por exemplo. O verdadeiro salto civilizacional dar-se-á quando dedicarmos a quem parte a mesma atenção e cuidado que dedicamos a quem entra na vida.
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Nada pode mostrar-nos melhor a importância do equilíbrio do que um bom vinho.
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Nenhuma outra palavra é mais adequada como sinónimo de bode expiatório: judeu.
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Envelhecemos e tornamo-nos mais pragmáticos, menos idealistas; ficamos mais tolerantes, mas jamais menos sensíveis.
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A terminologia social e política é fértil em equívocos. Por exemplo, é comum considerar os partidos marxistas-leninistas, e a esquerda mais radical, como “progressistas”. Ora, isto é uma enorme falácia, frequentemente ignorada. De facto, a génese dos pensamentos de Marx e Engels (e antes deles de Platão e Rousseau, entre outros) é conservadora e retrógrada: representa o regresso ao passado, ao tempo sem Estado, sem propriedade privada, sem pensamento crítico, sem ciência e filosofia – é o regresso ao tribalismo mágico. E se é legítimo querer e defender este regresso, já é completamente ilegítimo querer impô-lo aos outros, mesmo que para tal se use os mais variados subterfúgios, como o de apelidar esse caminho de “progressista”.
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Faz-me confusão a militância canina; o fervor de testemunha de Jeová; o comportamento tribal; a completa ausência de autocrítica; a realidade distorcida e falseada pela cegueira ideológica (ou religiosa, ou clubística, ou outra qualquer); a incapacidade de perceber que são aqueles que mudam da direita para a esquerda e da esquerda para a direita quem faz o caminho, porque a vida é uma navegação à bolina, não uma viagem a favor do vento.
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Há três tipos de marxistas: 1) Os que nunca leram “O Capital”; 2) Os que leram “O Capital” e não o entenderam; 3) Os que leram e entenderam “O Capital”. Noventa e nove por cento dos marxistas atuais pertencem aos dois primeiros grupos. Isso explica, em larga medida, porque existe um abismo entre a doutrina de Marx e os diversos marxismos.
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Os melhores medidores do desenvolvimento social de um Estado são as prisões, os hospitais psiquiátricos e os lares de idosos.
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Por princípio não sou anti-comunista, sou anti-ditadores. Dado que a ditadura engloba vários géneros (fascismo, comunismo, nazismo, etc.), sou, subsidiariamente, anti-fascista, anti-comunista, etc.
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Todos precisamos de reconhecimento e os que afirmam o contrário são porventura os mais carentes. Então, por que Pessoa detestava ser reconhecido? Em primeiro lugar, por uma questão de pudor; em segundo, porque, como qualquer perfeccionista, era inseguro. Insegurança e pudor — eis as características do esteta.
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O bom político é aquele que adapta as suas ideias à realidade e o mau político aquele que adapta a realidade às suas ideias.
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A diferença entre o grande e o pequeno artista é que o primeiro tenta compreender enquanto o segundo procura ser compreendido.
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A História da Filosofia é a história das ideias de Platão, Aristóteles, uma legião de seguidores e meia dúzia de contestatários. São estes últimos os que me interessam.
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Há no mundo inúmeros artistas. Talvez haja mesmo um artista escondido em cada um de nós. Mas não devemos esperar que o Estado sustente a nossa vocação artística. A primeira vocação que se exige a cada um(a) é aquela de sustentar-se honestamente.
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Mais do que um ato de liberdade, a adesão a um partido político ou a uma ideologia, é a entrada numa prisão.
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Quem te convenceu de que o teu governo é melhor que o teu patrão?
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A água da nascente cai, provocando milhares de milhões de bolhinhas que logo desaparecem. Estas bolhas somos nós. Umas duram mais uma fração de segundo que outras. A diferença de duração pode equivaler à diferença entre vivermos 10 ou 90 anos. O tempo real é o da água que corre. Se a nascente secar o tempo é finito, caso contrário, eterno.
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Não basta proclamar o amor para se ser nobre. Isso seria demasiado fácil e criaria a ilusão de que somos todos iguais, o que manifestamente não somos. Pelo contrário, algo nos diferencia nos esforços que fazemos (ou não) para aceitarmos, compreendermos e minimizarmos as nossas raiva, frustração e impotência e, quantas vezes, o ódio — irmão gémeo do tão banalizado amor. É esse esforço — que quanto mais árduo for maior valor humano conterá — que pode, surpreendentemente, conduzir-nos ao amor verdadeiro. Aliás, ele é já, em si mesmo, um genuíno ato de amor.
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A principal diferença entre o idealista e o realista é que o primeiro valoriza as intenções e o segundo os resultados.
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Há ideias perversas que veiculam a mensagem de que existem nações melhores que outras. Mas o que existe apenas são nações piores, no período determinado em que, nestas, aquelas ideias proliferam.
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A Esquerda acredita que o homem nasceu bom e foi a sociedade que o corrompeu. A Direita, pelo contrário, acha que o homem é um ser imperfeito por natureza. É curioso que este pessimismo da Direita permita, no entanto, acreditar numa sociedade satisfatória; e que o otimismo original da Esquerda se transforme num permanente pessimismo (quando não, desespero) face à impossibilidade de reconduzir o homem ao seu estádio natural.
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Apesar dos graves problemas, vivemos no melhor mundo de sempre, um mundo maravilhoso. É esta mensagem simples e verdadeira que temos o dever de transmitir aos vindouros.
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Nada se pode sobrepor à minha experiência (adoto aqui a frase de Carl Rogers), nem sequer uma teoria científica. É com base naquela que, crítica e racionalmente, aceito ou rejeito esta.
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Há dois tipos de inflamação neuronal — a clubite e a partidarite. E desiluda-se quem ache que os sintomas são dissemelhantes. Ambas tornam o paciente acrítico relativamente à realidade.
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Se tivesse de escolher uma ciência puramente humana, não me viraria para a Medicina, a Filosofia ou a Psicologia. Escolheria outra muito mais paradoxal. Uma ciência que, criada, desenvolvida e reinventada por nós, ganhou uma “vida” que todos os dias procuramos desvendar: a Economia.
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A maior contradição das religiões cristãs, e sobretudo da católica, prende-se com a ritualização da morte. Existe uma contradição insanável entre a crença na vida após a morte e a tristeza profunda a que se assiste nos velórios e funerais. Essa contradição é ainda mais paradoxal quando — o que acontece frequentemente — a morte traz consigo a libertação, após um sofrimento atroz.
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Nenhuma questão macroeconómica se pode explicar e, sobretudo, antever apenas pelos números. Há sempre uma variável largamente indeterminada que influencia as decisões dos agentes económicos: as célebres expectativas. Nenhum político devia ignorá-las.
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Só sendo independente se pode ser convergente. O dependente é sempre divergente.
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Há várias formas de te dedicares à causa pública e de ajudares o próximo. A pior delas é alistares-te num partido político.
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Aprecio formas. Detesto formalismos.
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Não admira aquele impulso que nos conduz à taberna após o funeral de um amigo. A vida não é mais que uma curta bebedeira em que nos esquecemos que o nosso lugar não é aqui: estamos apenas no pequeno intervalo de uma peça que durará eternamente sem nós.
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A Literatura realista é bem mais interessante que a fantástica. É mais ampla, complexa, divertida, dramática, empolgante e, afinal, fantástica pela simples razão de que a realidade é sempre mais surpreendente que a nossa imaginação.
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Às vezes apetece perguntar aos jovens de vinte e de trinta anos: já pensaram como vão ser daqui a outros vinte, trinta anos? Não? Pois eu digo-vos o seguinte: ou vão pensar exatamente o mesmo que pensam hoje — o que significará que se quedaram estupidamente petrificados — ou vão pensar algo completamente diferente — o que significará que a vida vos ensinou alguma coisa e devem, por isso, ser mais calmos, contidos e prudentes, relativamente ao que julgam saber, pois a vossa perspetiva inevitavelmente se transformará.
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Dois modelos económicos são confrontados, em geral, nas eleições democráticas: o keynesiano e o liberal. Muitos são fiéis a um ou outro desses modelos. Mas alguns dividem-se e votam de acordo como que acham melhor em cada momento eleitoral. Estes têm razão. A teoria económica é como a teoria da luz. Tal como esta pode ser onda ou partícula, também a economia é, consoante as circunstâncias, keynesiana ou liberal.
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Houve em tempos em Portugal um grande humorista chamado Herman José. Algumas das personagens que criava eram tão interessantes que ele, no meio delas, nos parecia absolutamente banal.
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O problema do exímio contador de histórias é ser primo do boateiro.
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Não são apenas o clima, a luz, as frutas, os queijos, o azeite, o vinho e o pão mediterrânicos que são os melhores do mundo. As mulheres são também as mais belas.
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Uma sociedade decente não é uma sociedade de iguais, pois todos somos diferentes e à diferença temos direito. Uma sociedade decente é uma sociedade de homens e mulheres livres.
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Brincar é bonito. Zombar é feio. A linha divisória entre uma ação e outra é marcada pelas educação e sensibilidade.
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O problema do utópico é que, de tanto elevar o olhar, deixa escapar a realidade que lhe escapa debaixo dos pés.
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O que fundamentalmente caracteriza a atividade humana é a sua luta contra a Natureza. Pares de óculos, preservativos e deuses não passam de armas diversas de uma mesma luta pela emancipação. Uma luta interminável, à qual não podemos pôr cobro. Se isso acontecesse, pura e simplesmente extinguir-se-ia a Humanidade.
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Gosto dos dias largos da Primavera quando o tempo não corre, escorre.
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Não tenho nada contra os que invocam o seu direito ao irracionalismo desde que não protestem quando o irracionalismo um dia lhes cair em cima.
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O caráter efémero, superficial e ilusório da moda não se manifesta apenas no mundo das passarelas e do design. Toda a sociedade é afetada pelo fenómeno do modismo.
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De todas as modas, as mais perniciosas são as modas intelectuais.
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O problema da sexologia é que vê o sexo como uma espécie de tecnocracia. Ora no sexo, como em qualquer arte — e o sexo nos humanos é também arte — a técnica é, sem dúvida, importante, mas a técnica sem expressão é vazia. O mais importante no sexo é a alma.
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O nacionalismo é um mito e os mitos são como os cogumelos: há os comestíveis e os venenosos.
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Racionalistas não sabem prever o futuro.
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Podes estar convencido de que és um inteligente acima da média. E, se reparares à tua volta, em círculos cada vez mais largos, é bem provável que a maioria pense como tu. O cerne da questão, porém, não consiste nessa impossibilidade estatística (de facto, não é possível a maioria estar acima da média) mas na tua convicção: com ela já pisaste, pelo menos com um pé, o terreno lúbrico da estupidez.
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O pioneirismo do que chamamos de Descobrimentos Portugueses tem pouco que ver com “descobertas”. Feitos muito mais extraordinários foram levados a cabo por diversos povos, muitos séculos antes da epopeia portuguesa – os Polinésios, por exemplo, que, em simples canoas, percorreram mais de mil milhas marítimas para colonizarem terras, como a Ilha de Páscoa, ou os Vikingues, que, nos seus navios rudimentares chegaram à América. A grande novidade dos chamados Descobrimentos foi o estabelecimento regular do comércio de longa distância, que impulsionou um novo período, mercantilista, que viria a culminar no que hoje se conhece por globalização.
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As notas de rodapé são como os acabamentos de uma casa: pormenores importantes.
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Kant e Popper correspondem, na Filosofia, a Newton e Einstein, na Física. Outro grande filósofo aparecerá quando houver uma nova revolução na Física.
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A presunção e o convencimento são, respetivamente, a estupidez dos ignorantes e a dos eruditos.
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Crer ou não crer, eis a questão.
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O ódio é um amor magoado.
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Num país de (péssimos) críticos, nada mais natural do que um país crítico.
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Abril não tem cor. Trouxe-nos a liberdade para o pintarmos como quisermos.
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Não são as leis progressistas que tornam melhor o Povo. É o Povo progressista que torna as leis melhores (a propósito da eutanásia).
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Dois intelectuais, dois ganhadores do Nobel, dois escritores, dois famosos interventores sociais do início do século XXI: Llosa e Saramago. Os pensamentos de ambos estão nos antípodas. Mostrará a história, um dia, quem tinha razão? Não sei, talvez ninguém saiba ou talvez seja impossível saber. Mas sei que, apesar de saber muitíssimo pouco, sou Llosa e não Saramago.
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A estupidez é provocada tanto pela carência de inteligência como pelo seu excesso.
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O historicista tem horror da mudança. Procura pará-la (Platão), domá-la (Hegel) ou prevê-la (Marx).
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Divulgar o que te vai na cabeça, sim. Desde que tenhas em consideração o que vai na cabeça de muitos outros.
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Apregoar uma moral ou impô-la a si próprio. Eis a diferença entre o ideólogo e o filósofo.
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Jesus foi não apenas um judeu, mas um judeu cheio de zelo. Um zelota.
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Liberdade não é ideologia. Liberdade é o que possibilita termos, ou não, uma ideologia.
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Bendito aquele que não precisa de ser pai para gostar de crianças e bendito o que não precisa de ser idoso para respeitar os mais velhos. Benditos todos os que não precisam de ser mudos para amarem os que não têm voz.
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A verdadeira oposição não é entre esquerda e direita, pois as esquerda e direita moderadas estão ambas no campo da democracia, do direito e do respeito pelo indivíduo, bem como a extrema-esquerda e a extrema-direita estão ambas no campo da tirania. A verdadeira oposição é entre liberdade e opressão, entre isonomia e injustiça. E sim, sim, os extremos tocam-se.
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Há lugares no mundo que podemos amar, embora só os conheçamos de passagem. Como uma mulher inesquecível com quem estivemos uma única vez.
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Tal como algumas pessoas correm 10 kms por dia para manterem a boa forma física, eu pronuncio dez vezes por dia a frase “não julgues ninguém exceto a ti mesmo” para manter a boa forma mental.
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Gosto tanto do equilíbrio que eu próprio não passo de um mediano.
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Apesar das nossas melhores intenções, não desejo influenciar o comportamento das pessoas, ajudá-las a mudar num sentido melhor, porque, além de me sentir demasiado ignorante para isso, sempre haverão grandes diferenças entre todos nós, e o mundo seria mais desinteressante se essa heterogeneidade diminuísse ou acabasse. Genética e ambiente fazem de cada ser, único no mundo. O nosso dever, portanto, só pode ser o de respeitar cada pessoa na sua singularidade. E as nossas melhores intenções devem dirigir-se não para o indivíduo, mas para melhorar e garantir uma sociedade em que cada um, no respeito pelo outro, possa ser plenamente quem é.
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Tenho um problema antigo com o conceito mais comum de “coerência”, que geralmente quer dizer: “acreditar no mesmo até ao fim”.
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Não há discurso mais odioso do que aquele baseado na (suposta) superioridade moral.
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Freud = fraude.
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O maior absurdo da vida reside no contraste entre a consciência humana e a inconsciência da Natureza.
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Há pessoas más com más ideias, pessoas más com boas ideias, pessoas boas com más ideias e pessoas boas com boas ideias (simplificando, claro). Se a primeira e última categorias não suscitam dúvidas, as duas intermédias dão aso a inúmeras confusões.
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Não deixa de ser curiosa esta aparente contradição: os coletivistas preocupam-se sobretudo com os comportamentos individuais, enquanto os individualistas se preocupam sobretudo com o comportamento das instituições.
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Sem futebol, vai morrer muito mais gente de desespero e de tédio do que do novo corona vírus.
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As redes sociais vieram infantilizar um público ávido de fait-divers.
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Beethoven ficaria furioso se soubesse que a sua sonata “Quase uma Fantasia” fora rebatizada de “Sonata ao Luar”. O “delito”, ocorrido dez anos após a sua morte foi perpretado pela imaginação do crítico alemão Heinrich Rellstab, que associou o início da famosa peça à imagem de um barquinho navegando no lago de Lucerna numa noite de lua cheia.
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O elogio fúnebre é-me impossível. Fico sem ar, sem ânimo, sem palavras. E quanto maior a intimidade, maior o pudor.
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A Filosofia Oriental debruça-se sobretudo sobre o indivíduo, por forma a que a sua vida seja a mais apropriada para viver em qualquer tipo de sociedade. A Filosofia Ocidental debruça-se sobretudo sobre a sociedade, por forma a que esta seja a mais apropriada para que nela viva qualquer tipo de indivíduo.
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Os países depauperados são aqueles onde o papão “Grande Capital” tem maior acolhimento.
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Detesto tanto a rotina que um dia destes morro só para saber como é.
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O sábio é um eterno aprendiz.
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Há mulheres muito bonitas que são como a fruta normalizada: sem cheiro, sem sabor, sem substrato.
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São três as características das teorias sociológicas:
1- Não nascem do nada, têm sempre algo em que se baseiam — outras ideias ou teorias;
2- São resposta a questões sociais concretas: por isso aparecem sempre em períodos de convulsão social;
3- São datadas no tempo: como qualquer produto humano, não podemos extrapolá-las para o futuro, pois ficam fora de prazo.
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Quem é o liberal? Um indivíduo que sabe:
1- Que o poder político (entenda-se, o Estado) é sempre um mal;
2- Que o poder político é sempre um mal, mas é, também, sempre um mal necessário.
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Só há uma possibilidade de eternidade: o nada. Uma vez que existe alguma coisa, nada é eterno.
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Tudo o que não precisamos é destes aparentes cinismo e frieza que bailam no lábio inferior de António Costa. (Em tempos de catástrofe).
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Para perceber quem somos temos de sair da nossa paróquia, abarcar o mundo.
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Há algo mais importante que a revolução: a vida!
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Em tempos difíceis, duros, catastróficos, precisamos mais de estadistas (Marcelo) do que de políticos (Costa). Políticos há muitos, estadistas há poucos. Mas quem é, afinal, o estadista? Aquele que sofre as penas do povo, com o povo.
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Não gosto de utopias nem de distopias. Prefiro o otimismo militante na luta por um mundo melhor.
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Uma das razões porque não sou um crítico ainda mais severo da política externa da maior potência mundial — os Estados Unidos — é porque penso sobre as alternativas. Serão preferíveis a Rússia, ou a China, ou uma grande coligação islâmica liderada pela Turquia?
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O liberal não defende apenas as liberdades política e económica. Defende de igual forma a liberdade de pensamento. Ele não é fiel a nenhum partido, nenhuma ideologia, nenhuma moda, nenhum dogma, apenas à sua consciência.
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Para conheceres o teu país precisas de conhecer o mundo.
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Quase nunca se parte para uma discussão com a atitude construtiva de aprender; quase sempre se parte com a atitude destrutiva de vencer o interlocutor.
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Não há romantismo sem heróis, nem heróis sem romantismo.
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Os Bem-Intencionados, na Rua do Paraíso, nos arrabaldes de Alfama, era uma coletividade onde todos os dias se jogava à batota. Foi assim durante décadas, o que corrobora a ideia de que os bem-intencionados são com frequência batoteiros.
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A grande diferença entre as ciências ditas “naturais” e as apelidadas “humanas”, é que estas estão impregnadas de ideologia. Não admira, é por isso mesmo que são “humanas”.
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Um ideólogo é uma pessoa que sabe como o mundo vai funcionar, mas que, curiosamente, não faz a mínima ideia de como o mundo funciona.