Alfama descobriu o mundo. O mundo descobre Alfama.
Autor: Jorge Costa
Fez percursos académicos nas áreas das Filosofia, Comunicação Social, Economia, Gestão dos Transportes Marítimos e Gestão Portuária, e estuda outras disciplinas científicas. Interessa-se igualmente por Arte, nas suas diversas manifestações, e também por viagens. Gosta de jogar xadrez. O seu autor preferido, desde que se lembra, é Karl Popper. Viveu em locais diversos, sobretudo em Portugal e no Brasil, pelo que se considera um cidadão do mundo. Atualmente vive em Cabanas, no Sotavento algarvio. Gosta de revisitar, sempre que pode, a bela cidade de Lisboa e, nela, o bairro onde nasceu, Alfama, o mais popular da capital, de traça árabe, debruçado sobre o Tejo — esse rio mítico, imortalizado por Camões e Pessoa, poetas maiores da Língua Portuguesa. Não é, porém, um bairrista, característica que deplora, a par dos clubismo, partidarismo e nacionalismo. Ama a Liberdade.
A Rússia é um país com recursos naturais imensos e uma dimensão que abarca não só o heartland terrestre, mas também 11 fusos horários — uma imensidão que torna praticamente inexpugnável o seu território. Os russos têm, portanto, todas as condições de partida para serem um povo pacífico, próspero e feliz mas, apesar destas vantagens, vivem há séculos na miséria.1
As causas da triste vida do povo russo (que suporta um desdém criminoso dos sucessivos governantes autocratas pelo valor da vida humana) resultam da opressão a que tem sido sujeito dentro da própria Rússia, desde os tempos dos czares até Putin, passando pelo horrífico regime soviético, com um ou outro vislumbre ilusório de democracia.
Quando a derrota da União Soviética na Guerra Fria aconteceu, isso não implicou — apesar do que alguns, replicando Putin, querem fazer crer — uma tentativa de assalto do Ocidente. Não há, nunca houve, nem nunca se equacionou, neste período, um avanço ocidental sobre o território russo. O “Ocidente”, pelo contrário, deslumbrou-se com a potencial transição soviética para a democracia, sonhou com a paz (e, sim, também com os negócios), e mesmo quando Putin deu os primeiros sinais de despotismo, não quis acreditar que a Rússia regressava a passos largos ao seu estado ancestral, de onde, de resto, nunca saíra totalmente.
Assim, se pode até ser compreensível que muitos russos atuais, intoxicados pela propaganda, aceitem as falsidades de Putin e culpem o Ocidente pelas supostas ameaças à Federação Russa e pela Guerra na Ucrânia, apenas por cegueira ideológica homens e mulheres de sociedades livres podem engolir tal patranha.
A causa profunda da agressão de Putin à Ucrânia não deriva do exterior: é a mesma que viabilizou a cultura de opressão russa, e a mesmíssima que permite a Putin roubar o povo a seu bel-prazer — referimo-nos, claro, ao poder absoluto, hoje nas mãos de um ditador déspota, corrupto e sanguinário, com o beneplácito de alguns extremistas ideológicos que, um ano após esta “Operação Militar Especial”, continuam a culpar o Ocidente.
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Nota:
1 Alguns dados que suportam a nossa afirmação:
No início do século XIX, o PIB per capita do Império Russo era, em média, duas vezes menor que o da Europa Ocidental e a produção industrial cerca de 2,5 vezes menor. Apenas 2% a 6% das mulheres e 4% a 8% dos homens eram alfabetizados na Rússia (40% a 50% na Europa; 25% a 35% no Japão; 15% a 25% na China). O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) estimado era 1,8 a 2,5 vezes menor do que os do Japão e do Ocidente.
No início do século XX, a esperança de vida à nascença no Ocidente era de 50 anos, ao passo que na Rússia era de 34 anos. A diferença absoluta entre os anos de escolaridade no Ocidente e na Rússia aumentara exponencialmente em um século: 1.9 em 1800 (2.2/0.3) e 5.8 em 1913 (7.3/1.5). 1% da população russa detinha 16% a 20% da totalidade da riqueza do país. Os níveis empresarial, administrativo e cultural da população russa, em geral, eram terrivelmente baixos.
Na época soviética os gastos com a defesa aumentaram terrivelmente chegando a uns incríveis 50/60% do PIB na década de 1980. Pelo contrário, as qualificações dos recursos humanos eram terrivelmente baixas em comparação, por exemplo, com os padrões dos EUA e Alemanha (70% a 80% de profissionais altamente qualificados nestes países, contra 15% na União Soviética). O PIB per capita ajustado mostra uma queda acentuada de 1913 (28/30% dos países desenvolvidos) para 1990 (16/18% dos países desenvolvidos e 10% do norte-americano), apesar da União Soviética ser, nos últimos anos antes do seu desmembramento, a maior produtora mundial de petróleo bruto e gás natural. Após este longo período de decadência, o sistema económico soviético colapsou.
Escusado será dizer que Putin — ao gastar uma percentagem enorme da riqueza nacional na indústria da guerra, em detrimento do desenvolvimento do país — repete os erros do período soviético e sujeita o povo ainda a mais miséria. Ele, porém, é provavelmente o homem mais rico do planeta.
Fonte da nota:
Meliantsev, Vitali A, Russia’s Comparative Economic Development in the Long Run, Lomonossov University, Moscow, 2004.
Muitos dos que culpam os Estados Unidos, a NATO e a União Europeia pela atual guerra na Ucrânia apoiam-se em autores antiamericanos. Um destes, particularmente famoso, é Noam Chomsky — um suposto filósofo da linguagem e da política.
Do ponto de vista académico, as teses de Chomsky sobre a linguagem passam por algumas banalidades (tais como a afirmação de que a estrutura mental humana está adaptada ao desenvolvimento da linguagem) ou hipóteses amplamente contraditadas (como por exemplo, a pretensão de que todas as línguas têm uma estrutura comum e que existe uma gramática universal), sustentadas por um ego inflado, suscetível de impressionar os mais incautos.
Esta confiança é contrariada por inúmeros trabalhos, dos quais destacamos o artigo publicado na Frontiers in Psychology1 pela polaca Ewa Dabrowska, uma investigadora a quem foi atribuído em 2018 o mais prestigiado prémio de investigação da Alemanha (Alexander Von Humboldt), no valor de 3,5 milhões de euros, para dar continuidade à sua investigação empírica sobre a forma como a linguagem é adquirida em crianças e adultos (em contextos linguísticos e culturais específicos), e como os indivíduos diferem nas suas capacidades de linguagem.2 Tal como afirma Dabrowska: “Os argumentos a favor do inatismo de categorias ou princípios linguísticos específicos são irrelevantes (são argumentos para o inatismo geral e não para o inatismo linguístico), baseados em premissas falsas ou circulares”. Os investigadores Andrew Nevins, David Pesetsky e Cilene Rodrigues corroboram a afirmação de Dabrowska: “não existe um modelo geral de gramática universal (…), apenas uma panóplia de hipóteses diversas sobre GU [Gramática Universal] e o seu conteúdo”3.
Apesar das posições destes e tantos outros autores, que demonstram a vacuidade científica das propostas de Chomsky, muitos se indignarão com a nossa ousadia de colocar em causa um intelectual de alto gabarito, que escreveu dezenas de livros, supostamente científicos. Mas nada disto é inédito. Já foram escritas milhares de páginas, e mesmo milhares de livros que em nada contribuíram para o progresso da humanidade, embora os seus autores sejam quase todos, precisamente, da área das humanidades. Popper — que considera a gramática “escondida” de Chomsky algo que pura e simplesmente não existe, e afirma que este não poderia estar certo quanto à sua alegação de que todas as línguas têm uma estrutura comum4 — exemplifica, ao citar Hegel, como se podem juntar palavras, numa algaraviada que ninguém entende e que muitos, talvez por isso, considerem interessante.5 Mas o que Chomsky e Hegel têm sobretudo em comum — juntamente com Heidegger, Sartre, Foucault, Zizek6 e tantos, tantos outros — é que são contrários ao espírito do Iluminismo, aos ideais da razão, da ciência, do humanismo e do progresso7, e é por isso que Chomsky condena o chamado “Ocidente”, o bloco mundial que defende os ideais e valores iluministas.
Isto conduz-nos diretamente ao comportamento político de Chomsky, que usa e abusa da liberdade de expressão de que desfruta para acusar o país em que nasceu e vive de ser o pior do mundo8, apoiando outros, como a Rússia de Putin, onde a liberdade de expressão é um mito. Se vivesse nas ditaduras que apoia e falasse recorrentemente contra o regime, como faz nos Estados Unidos, Chomsky seria preso ou morto — e é por isso que, apesar de tudo, ele continua a viver na América. Chomsky — que curiosamente é filho de um ucraniano — era lido pelo terrorista mais famoso do mundo9 e continua a inspirar tantos outros antiamericanos, ilustres ou anónimos, um pouco por todo o lado, incluindo, é claro, Portugal.
Chomsky é um extremista encapotado que começou por defender a violência da anarquia, acabando a defender a violência da tirania. Tudo isto na paz e segurança do sistema democrático que o protege. Chomsky declara-se um libertário e um anarquista, mas defende os regimes mais autoritários e assassinos da história humana. A sua hipocrisia é incomensurável.10, 11, 12
5 “O som é a mudança verificada na condição específica de segregação das partes materiais e da negação dessa condição; é meramente uma idealidade abstracta ou ideal, por assim dizer, dessa especificação. Mas esta mudança é, por consequência, em si mesma imediatamente a negação da substância material específica; o que é, portanto, a idealidade real da gravidade específica e da coesão, isto é, o calor. O aquecimento de corpos sonoros, assim como dos corpos percutidos ou friccionados, é a aparência de calor que surge conceptualmente juntamente com o som” (Popper citando Hegel em“A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”, Vol. II, Editora Fragmentos, Lisboa, 1993, p. 34).
Pode parecer estranho, mas há de facto uma tendência nefasta para admirarmos aquilo que é escrito (ou dito) de forma obscura, densa, rebuscada, muitas vezes incompreensível, pois confundimos frequentemente um estilo indigerível com erudição. É por isso que Popper realça a importância de escrever de forma simples, clara e compreensível, e considera a clareza de discurso uma obrigação que qualquer intelectual que se preze deve impor a si próprio.
7Valores ou ideais inscritos no subtítulo do livro de Steven Pinker “O Iluminismo Agora — Em Defesa da Razão, Ciência, Humanismo e Progresso” (Editorial Presença, Lisboa, 2018).
11 Vaclav Smil, em livro recente, (“Como o Mundo Realmente Funciona”, Crítica, Lisboa, 2022, p. 235), escreve o seguinte: “Não faltam por aí celebridades, autores best-seller e meios de comunicação social a repetir, apoiar e amplificar estas afirmações, desde a Rolling Stone ao New Yorker, de Noam Chomsky (que adiciona a energia como o mais recente campo de especialização) a Jeremy Rifkin, que acredita que, sem este tipo de intervenção, a civilização à base dos combustíveis fósseis colapsará em 2028” .
12Azar Gat escreve em “Ideological Fixation” (Oxford University Press, 2022, pp. 183-4): “Chomsky lançou dúvidas e procurou ativamente desacreditar e bloquear as notícias sobre os assassinatos em massa perpretados pelo regime Khmer Vermelho comunista, no Camboja (1975-1979). Estima-se que entre 1,6 e 1,9 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população à data, tenham sido assassinadas.” (Tradução nossa).
Para 494 dos 596 deputados europeus, sim, a Federação Russa é um estado patrocinador do terrorismo e um estado que usa meios terroristas. 58 deputados votaram contra a resolução. Ou seja, cerca de 83% votaram a favor e apenas 10% contra. Os restantes 10% correspondem aos 44 deputados que se abstiveram. A resolução foi, assim, aprovada por uma larguíssima maioria e reiterou o apoio inabalável às independência, soberania e integridade territorial da Ucrânia, no interior das suas fronteiras internacionalmente reconhecidas, e a condenação da guerra ilegal de agressão, não provocada e injustificada, da Federação Russa.
O Parlamento Europeu exortou a União Europeia e os seus estados membros a desenvolverem um quadro jurídico para a designação de estados patrocinadores do terrorismo e estados que usam meios do terrorismo, e instou os líderes europeus a considerarem a inclusão da Rússia nessa lista europeia de estados patrocinadores do terrorismo e instou os estados membros a contribuírem para o isolamento internacional abrangente da Rússia. A resolução pedia também que o grupo Wagner, apoiado pelo estado russo, e os kadyrovites, bem como outros grupos armados financiados pela Rússia e em atividade na Ucrânia, fossem incluídos na lista europeia de pessoas, grupos e entidades envolvidos em atos de terrorismo. Foi pedido um nono pacote de sanções, alargando o número de indivíduos sujeitos a essas medidas sancionatórias. Foi solicitada a prevenção, investigação e processamento de quaisquer formas de ludibriar as sanções.
Os eurodeputados apelaram ainda a um renovado apoio às investigações independentes em curso sobre crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos pela Rússia, e realçaram que a vertente guerra de agressão sobre a Ucrânia “destaca a necessidade de uma avaliação histórica e jurídica completas e um debate público transparente sobre os crimes do regime soviético, sobretudo na própria Rússia, porque a falta de responsabilidade e justiça só conduz à repetição de crimes semelhantes”.
Analisando a votação da resolução c9-0482/2022, aprovada por larga maioria, como já foi dito, constatam-se duas coisas — uma que já se previa à partida e outra verdadeiramente surpreendente.
A primeira é que os votos contra a resolução vieram quase todos dos extremos políticos à esquerda e à direita do Parlamento.
A segunda é que, para além dos votos contrários à resolução dos dois deputados portugueses do PCP, já esperados, e da posição tipicamente hipócrita dos deputados do Bloco de Esquerda, que se abstiveram, houve cinco deputados do Partido Socialista que também se abstiveram.
Não sabemos se isto é de alguma forma embaraçoso para o PS. Só sabemos que é uma vergonha para o país.
Com a maré vazia é muito fácil descer da aldeia de Cacela Velha, cruzar o pequeno canal com água pelo joelho (se a maré estiver mais cheia o nível pode subir até â cintura ou mesmo ao pescoço — mas isso não é impeditivo para os mais aventureiros) e chegar ao mar.
Este ano o Verão de São Martinho veio com tanta força, e a água do mar estava tão apetecível no Sotavento Algarvio, que, durante quatro dias seguidos (10, 11, 12, 13 de novembro) fomos à praia, banhámo-nos, ao sol e no mar, e fizemos longas caminhadas pelos areais de Manta Rota e Cacela Velha. Quatro dias consecutivos com tempo super agradável não é assim tão comum em novembro, por isso quisemos que este magnífico período ficasse registado, para mais tarde o recordarmos.
A praia de Cacela Velha é pouco frequentada. Tem de se fazer uns 500 metros a pé, a partir da bela aldeia de Cacela Velha (onde se tem vistas fantásticas sobre a ria, o mar e toda a zona costeira, incluindo o litoral fronteiriço de Espanha), descer uma longa escadaria e atravessar a Ria Formosa — o que nem sempre é fácil porque a maré pode não estar vazia — para se alcançar a praia. Também se pode aceder à praia de Cacela Velha via Manta Rota, localidade onde já não é preciso cruzar a Ria Formosa para chegar ao mar, caminhando ao longo da praia uns 20 minutos para oeste e atravessando um pequeno canal que une o mar e a ria (canal constantemente em mudança face a ventos e marés, mas que se ultrapassa facilmente sobretudo na baixa mar), e alcançando assim a praia de Cacela Velha. No verão há alguns barqueiros que levam as pessoas à praia, nomeadamente no sítio da Fábrica. Uma vez chegados, estamos no paraíso.
A pequena ondulação acontece porque o vento está de leste/sudeste, o que no sotavento significa que vem do lado do mar. Ao fundo a aldeia de Cacela Velha.
Além de pouco frequentada, a praia é enorme, a areia dourada e a água límpida. Temperaturas em torno da que consideramos ideal (23,5º) são bastante comuns no verão, estação em que a água do mar chega a atingir os 26º. As mais altas temperaturas ocorrem quando o vento está do quadrante leste, o que proporciona uma tipologia de tempo que aqui se chama levante. É quando o mar tipicamente calmo do sotavento se torna agitado com ondulação mais ou menos significativa. A temperatura do mar fica então mais alta e assim se mantém por alguns dias, mesmo depois de o levante passar. A temperatura média do mar no sotavento, ao longo do ano, ronda os 18º/19º, o que permite banhos de mar praticamente em qualquer mês do calendário. Nestes quatro dias de São Martinho a temperatura da água do mar rondou os 20º.
É muito difícil dizer qual a melhor praia do sotavento algarvio. Cabanas, Ilha de Tavira, Terra Estreita, Barril, Fuzeta, as ilhas de Armona, Farol e Faro são todas elas (sobretudo, para nós, a Terra Estreita) praias magníficas. Mas se tivéssemos de escolher uma, essa seria Cacela Velha. Sem quaisquer apoios de praia, principalmente sem gente na maior parte do ano, na praia de Cacela Velha podemos relaxar, sentir a natureza em estado puro e, se nos apetecer, tirar a roupa toda e mergulhar num mundo azul.
A capela de Cacela Velha debruçada sobre a Ria Formosa e o Oceano Atlântico.
Os ucranianos libertaram este fim de semana a estratégica cidade de Kherson, que estava há meses sob jugo das forças russas. Apesar das desastrosas perdas humanas que esta guerra sem sentido já provocou, a chegada dos soldados ucranianos foi saudada com júbilo em Kherson e um pouco por todo o mundo, pelo menos entre os que amam a liberdade. Para estes é incompreensível que alguém possa tolerar ou apoiar uma potência invasora que pretende pura e simplesmente varrer do mapa um estado soberano, aniquilando, se para tal for necessário, todo um povo.
Porém, o que é incompreensível para uns é perfeitamente justificável para outros: ao mesmo tempo que os ucranianos libertavam Kherson, reuniam numa conferência no Seixal largas centenas de militantes comunistas que, ao invés de condenarem Putin pela ignóbil invasão russa, condenam os americanos, a NATO e a União Europeia.
Muitos perguntarão como tal é possível, mas a razão fundamental é simples. O comunismo, mais propriamente a ideologia em que se apoia — o marxismo-leninismo — é uma religião. Não uma religião que promete o paraíso num lugar distante, mas antes uma religião que promete o paraíso na Terra. O caráter religioso do marxismo foi já dissecado por vários autores e revela-se em múltiplos aspetos. Alguns deles patentes na conferência levada a cabo pelos comunistas, este fim de semana, no Seixal.
Desde logo, (1) a despersonalização: pouco importa o que cada indivíduo pensa, os comunistas orgulham-se de que o que conta, independentemente das pessoas, é o dogma ideológico, a doutrina do partido e a autoridade do coletivo; depois, (2) o maniqueísmo: de um lado, os bons — os trabalhadores — do outro os maus — o Grande Capital e seus esbirros; finalmente, (3) a ritualização: símbolos, cânticos, palavras de ordem, toda uma velha liturgia, seguida com convicção absoluta, quando não, com o mais puro fanatismo.
A total submissão à ideologia (a unanimidade de que tanto se orgulham) é, entre todos, o aspeto mais pernicioso da doutrina comunista. Dissidências não são admitidas. Discordância implica expulsão. E uma vez no poder, seja em que lugar do planeta for, a perseguição aos hereges será efetiva e implacável. Os comunistas condenam o Ocidente porque, mais do que o capitalismo, a burguesia ou a desigualdade, o que, acima de tudo, os comunistas odeiam nas democracias liberais é a primazia que nestas é conferida à liberdade.
Liberdade celebrada em Kherson, ausente no Seixal.
O caminho percorrido pelo homem até chegar à sociedade moderna é caracterizado pela luta contra a Natureza, sendo que a luta principal é contra a sua própria natureza.
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Todos os organismos buscam um mundo melhor. Todos os animais se alimentam de outras espécies. Mas o homem é o único que se mata a si próprio por puro prazer.
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A chamada “Guerra Fria” foi, de facto, uma guerra quente que se propagou pelo mundo inteiro e causou imensas vitímas. Muitas pessoas têm um sentimento antiamericano por não terem compreendido todas as implicações dessa guerra escaldante — uma guerra motivada pelo medo, a pior de todas as motivações.
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Há a boa e a má filosofia, a boa e a má política, a boa e a má história, e por aí fora… O que é bom deriva da ciência e o que é mau deriva da pseudociência.
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A comunicação social informa ou desinforma; os livros formam ou deformam.
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Curioso que, em Filosofia Política, os otimistas não esperem grandes feitos, e sejam os pessimistas os profetas das grandes mudanças.
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Não é difícil — ainda que discutível — eleger Bach, Mozart, Beethoven, Mahler, Shostakovitch, como os grandes músicos, ou Homero, Camões, Cervantes, Dostoievsky, Guimarães Rosa, como os grandes escritores, e outro tanto para pintores, cientistas, entre tantos outros. Da mesma forma, não deveria ser — e não é — difícil eleger Sócrates, Kant, Voltaire, Popper, como os grandes filósofos. Se no campo da Filosofia (logo, da Filosofia Política) a escolha parece mais difícil, tal deve-se ao mesmo empecilho de sempre — a ideologia.
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O antiamericanismo vem sempre acompanhado do antiliberalismo.
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Progresso é o resultado das vitórias da ciência sobre a ideologia e a idolatria.
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A razão é a sebe que erguemos entre o que sentimos e o que fazemos.
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O mundial 2022 no Qatar veio pôr em evidência, uma vez mais, através da polémica em torno de Ronaldo, a clubite (inflamação neuronal aguda) que grassa em Portugal. Os sportinguistas não querem aceitar que Ronaldo não seja, afinal, o melhor futebolista do mundo; e os benfiquistas não querem aceitar que o mesmo Ronaldo seja, afinal, o melhor futebolista português de todos os tempos.
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Nas ditaduras importam as personalidades; nas democracias, as instituições.
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A iliteracia científica das populações — potenciada pelo nacionalismo romântico (direita) ou pelo internacionalismo utópico (esquerda) — constitui um campo fértil para a implementação de ideologias totalitárias.
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A narrativa de Putin sobre o Ocidente é um sofisma, porque nunca houve uma ameaça ocidental à Rússia depois da Guerra Fria. A Alemanha, que fora combatida pelos americanos na II Guerra Mundial, foi fortemente apoiada por estes aquando da sua transição para um estado de direito democrático. O mesmo aconteceria com a Rússia pós-soviética, mas Putin optou pela autocracia, e precisa alimentá-la com a narrativa antiamericana.
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Não deixa de ser irónico — ainda que trágico — que a palavra “Ucrânia” signifique “fronteira”.
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Uma vez que somos todos diferentes, só se consegue implantar a igualdade pela força, ou seja, com uma ditadura. Mas uma vez o ditador no poder o que cresce não é a igualdade, é a desigualdade.
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Sábio é aquele cuja sede de captar o desconhecido é superior à de verter o que conhece.
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Sou politicamente um individualista não porque me considere diferente ou melhor que os outros, mas porque considero que um coletivo de pessoas é mais rico se muitas delas pensarem de forma diferente do que se pensarem todas da mesma maneira.
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Os intelectuais marxistas do Ocidente são maioritariamente burgueses ou, à boa maneira do Mestre, vivem à conta dos amigos.
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O problema que se passa com os profetas da desgraça é que ficam torcendo que as suas profecias se concretizem e por todo o lado veem tendências dessa concretização. E mesmo que as desgraças não aconteçam, está criado o estado de ansiedade e medo que junta cada vez mais crentes, incluindo muitos jovens desamparados, à tribo da desesperança.
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Parece que está na moda seguir influencers. Já eu sigo influencers que são avessos a modas.
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Há mil e uma maneiras de ver um problema. Mas sempre aparece um idiota ou um génio com a milésima segunda.
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O romantismo transposto para a política converte-se em nacionalismo.
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Antes da ciência atual — altamente teórica — houve uma ciência diferente, baseada no desbravamento da natureza, uma ciência descritiva, catalogadora, protagonizada por verdadeiros heróis, intrépidos aventureiros, que enfrentaram grandes perigos e adversidades nas suas viagens à descoberta do mundo natural. Essa ciência — assaz contraditória em seus termos, aos olhos de hoje — era a ciência romântica.
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As sociedades mais atrasadas são exclusivas — prevalece a visão de que existe uma parte da humanidade boa e outra parte da humanidade má. Pelo contrário, as sociedades mais avançadas são inclusivas — todas as pessoas são iguais na sua dignidade e, boas ou más, são parte do conjunto da família humana.
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Foi Cedric Price, um celebrado arquiteto inglês, quem disse um dia que as cidades são como os ovos. Primeiro apareceram as cidades ovo cozido, as cidades antigas e medievais, muralhadas. Depois apareceram as cidades ovo estrelado, com os serviços no centro e os dormitórios na periferia. Hoje em dia as cidades mais cosmopolitas são do tipo ovo mexido, com polos de serviços e habitações espalhados por todo o lado.
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Bom dia Mr. Dawkins, é um prazer pôr os meus genes a falar com os seus.
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A liberdade não tem cor. Não adianta pintá-la.
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Tenho ideias. Tenho até ideais. Mas não tenho ideologia.
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Quando a liberdade é relativa a ideologia é absoluta. E vice-versa.
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O aspeto mais deplorável das ideologias românticas é a prevalência das intenções sobre os resultados.
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O Universo pode expandir-se e contrair-se, existindo por ciclos consecutivos de nascimento e morte, tipo ovo e galinha. Ou pode o tempo não ser linear, mas circular, e não haver morte nem nascimento do Universo.
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O gesto elegante pode até ser pura hipocrisia. Mas isso não lhe retira o encanto.
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Embora cada ciência tenha o seu objeto próprio, já todas estiveram integradas numa única disciplina – a Filosofia. Isto quer dizer que todas mantêm uma ligação entre si, apesar da sua autonomia. A disciplina que trata dessa ligação, que une todas as ciências, é precisamente a Filosofia.
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O ser humano que se aventura no desconhecido, qual passarinho lançado no espaço antes do acordo da mãe, é, em geral, o mais nobre e generoso.
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O milagre económico da Direita redunda, em geral, em desastre social; o milagre social da Esquerda redunda, em geral, em desastre económico.
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Os sintomas de clubite aguda são, amiúde, a ponta do iceberg de uma patologia crónica, por definição incurável, face à incapacidade do indivíduo reconhecer — e tão pouco admitir — o seu estado de mania ou depressão.
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Clubite é a forma socialmente aceite de desejarmos o pior aos nossos vizinhos e amigos.
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A Liberdade, individual ou coletiva, é algo tão amplo, profundo e desconhecido que chega a ser assustador. É por isso que as regras sociais não são suficientes, precisamos de outras balizas para não nos sentirmos perdidos no mundo. A adoção de dogmas, pessoais ou coletivos, é o preço a pagar pelo medo à Liberdade.
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São desinteressantes as entrevistas em que os convidados falam de si próprios. As vidas privadas têm, por vezes, interesse público, mas quase nunca quando analisadas em causa própria. É entediante a conversa sobre idiossincrasias de personalidades infladas pelo sopro mediático. Fernando Pessoa tinha razão: a publicidade da vida privada é, não apenas esteticamente, algo desprovido de valor.
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Nenhuma carreira produz resultados tão definidos como a de advogado — 1% de heróis, 99% de cretinos.
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Esquerda e Direita são como dois sacos onde cada um — de acordo com o trajeto pessoal — coloca o que quer. Eu há muito que despejei cada um deles. E para que não restassem dúvidas, lancei os sacos no lixo.
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É verdade, às vezes, fico hesitante. É que vejo tanta gente com ar professoral, convencida da sua sapiência, que fico de pé atrás — quem me diz que não acontece o mesmo comigo?
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Não é procurando provas que confirmem a nossa posição que a fortalecemos. Fazêmo-lo buscando provas contrárias à nossa posição.
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Os ideólogos mais empolgados continuam falando como se estivéssemos ainda na Guerra Fria. Entretanto o mundo “pula e avança”.
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Há filósofos que nos dizem como devemos pensar (ou comportar-nos) e há filósofos que não nos dizem como devemos pensar (ou comportar-nos). Só estes últimos são filósofos verdadeiros.
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Há três obras que nos proporcionam um melhor entendimento sobre o que são historicismo, totalitarismo e coletivismo, todas escritas na ressaca da II Guerra Mundial. Refiro-me aos trabalhos monumentais de Karl Popper e Hannah Arendt, respetivamente, A Sociedade Aberta e Seus Inimigos e Origens do Totalitarismo, e ao trabalho não tão monumental mas igualmente indispensável de Friedrich Hayek, O Caminho da Servidão, três das obras mais importantes do século XX. Quem as não leu terá certamente uma perspetiva mais pobre sobre a centúria em que tantos milhões de seres humanos pereceram, face à incúria de políticos irresponsáveis.
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Em matéria política, a sabedoria está tanto do lado do homem comum como do dos intelectuais.
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As melhores sociedades humanas são aquelas onde se tenta minimizar o mal. As piores são aquelas onde se pretende maximizar o bem.
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Governar um país é como navegar à bolina. Ora para estibordo, ora para bombordo, apenas o tempo necessário para manter o rumo.
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Manuel Teixeira-Gomes renunciou ao cargo de Presidente da República, em protesto contra a falta de ética dos políticos do seu tempo. Manuel Teixeira-Gomes era um algarvio culto, leal, altruísta e um excelente escritor. Já outro algarvio, também Presidente da República, Cavaco Silva, é tecnocrata, conspirador, egocêntrico e calculista — o pior presidente da história portuguesa. Não poderia haver contraste maior.
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Pouco importa teres muitos conhecimentos se não tiveres com quem os discutir; pouco importa estares num lugar paradisíaco se não tiveres com quem o partilhar; pouco importa o amor que tens no coração se não tiveres a quem o dar. As únicas coisas que te consomem sozinho são o ódio e a inveja.
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John Stuart Mill disse uma vez o seguinte ao liberal francês Alexis de Tocqueville: ” o gosto em fazer com que os outros se submetam a um modo de vida que consideramos mais útil para eles do que eles próprios consideram não é muito comum na Inglaterra”. Eis por que gosto tanto dos liberais ingleses.
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Dois dos maiores países do mundo transformaram-se em estados comunistas na sequência da Grande Guerra. A Rússia pela ajuda que a Alemanha deu a Lenine e a China por se sentir injustiçada com os termos do Tratado de Versalhes.
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Se algum pensamento te perturba, lembra-te que sentimentos negativos atingem a todos. Alguns ultrapassam-nos mais facilmente porque não são tão exigentes com eles próprios como tu és contigo.
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Muitas obras antigas não teriam sido realizadas se naquele tempo já existissem psicólogos.
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As ideologias são medicamentos fora de prazo.
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Gosto de pessoas que falham, que erram, que se enganam. Gosto de pessoas humanas. Mas pior que os infalíveis são os moralistas. Estes são os seres mais perniciosos em sociedade.
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A moral não se apregoa, pratica-se — e é tudo. Jesus foi revolucionário porque rejeitou a moral vigente; por isso era conhecido como o “amigo dos pecadores”; e por isso foi condenado à morte.
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Para Einstein o tempo é aquilo que se mede com um relógio e o espaço o que se mede com uma régua. E como se medem as teorias políticas? O instrumento adequado para medi-las é a História.
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Escrever bem implica dizer o que se pretende usando o menor número de palavras dentro do leque mais vasto possível.
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Que coisa é essa do comunismo, senão um regresso ao passado, ao tempo da gens, quando não existia ainda a propriedade privada, o casamento monogâmico, o comércio, o dinheiro vil? Os comunistas discordam da civilização, mas servem-se dela. Nenhum comunista larga tudo para viver em grupo fechado, na natureza.
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O excesso de culpa pode fazer-nos virar contra nós próprios até ao insuportável, e levar-nos a cometer um crime; a ausência de culpa pode transformar-nos em loucos psicopatas. Em nenhum outro lugar, como dentro de nós, é tão importante o equilíbrio.
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Acontece com frequência conceder-se maior tolerância a alguns seres humanos prolixos, extravagantes ou geniais, a quem não se leva a mal o exagero, a indelicadeza quando não a ofensa. A tolerância que eu possa ter — e tenho — não tem a ver com esses critérios. Em mim, os extraordinários não têm sobre os ordinários qualquer privilégio.
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O tempo é um imenso rolo compressor que tudo nivela.
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O princípio da morte sem dor deveria ser consagrado numa sociedade verdadeiramente humana, como o é o “não matarás”, por exemplo. O verdadeiro salto civilizacional dar-se-á quando dedicarmos a quem parte a mesma atenção e cuidado que dedicamos a quem entra na vida.
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Nada pode mostrar-nos melhor a importância do equilíbrio do que um bom vinho.
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Nenhuma outra palavra é mais adequada como sinónimo de bode expiatório: judeu.
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Envelhecemos e tornamo-nos mais pragmáticos, menos idealistas; ficamos mais tolerantes, mas jamais menos sensíveis.
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A terminologia social e política é fértil em equívocos. Por exemplo, é comum considerar os partidos marxistas-leninistas, e a esquerda mais radical, como “progressistas”. Ora, isto é uma enorme falácia, frequentemente ignorada. De facto, a génese dos pensamentos de Marx e Engels (e antes deles de Platão e Rousseau, entre outros) é conservadora e retrógrada: representa o regresso ao passado, ao tempo sem Estado, sem propriedade privada, sem pensamento crítico, sem ciência e filosofia – é o regresso ao tribalismo mágico. E se é legítimo querer e defender este regresso, já é completamente ilegítimo querer impô-lo aos outros, mesmo que para tal se use os mais variados subterfúgios, como o de apelidar esse caminho de “progressista”.
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Faz-me confusão a militância canina; o fervor de testemunha de Jeová; o comportamento tribal; a completa ausência de autocrítica; a realidade distorcida e falseada pela cegueira ideológica (ou religiosa, ou clubística, ou outra qualquer); a incapacidade de perceber que são aqueles que mudam da direita para a esquerda e da esquerda para a direita quem faz o caminho, porque a vida é uma navegação à bolina, não uma viagem a favor do vento.
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Há três tipos de marxistas: 1) Os que nunca leram “O Capital”; 2) Os que leram “O Capital” e não o entenderam; 3) Os que leram e entenderam “O Capital”. Noventa e nove por cento dos marxistas atuais pertencem aos dois primeiros grupos. Isso explica, em larga medida, porque existe um abismo entre a doutrina de Marx e os diversos marxismos.
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Os melhores medidores do desenvolvimento social de um Estado são as prisões, os hospitais psiquiátricos e os lares de idosos.
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Por princípio não sou anti-comunista, sou anti-ditadores. Dado que a ditadura engloba vários géneros (fascismo, comunismo, nazismo, etc.), sou, subsidiariamente, anti-fascista, anti-comunista, etc.
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Todos precisamos de reconhecimento e os que afirmam o contrário são porventura os mais carentes. Então, por que Pessoa detestava ser reconhecido? Em primeiro lugar, por uma questão de pudor; em segundo, porque, como qualquer perfeccionista, era inseguro. Insegurança e pudor — eis as características do esteta.
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O bom político é aquele que adapta as suas ideias à realidade e o mau político aquele que adapta a realidade às suas ideias.
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A diferença entre o grande e o pequeno artista é que o primeiro tenta compreender enquanto o segundo procura ser compreendido.
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A História da Filosofia é a história das ideias de Platão, Aristóteles, uma legião de seguidores e meia dúzia de contestatários. São estes últimos os que me interessam.
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Há no mundo inúmeros artistas. Talvez haja mesmo um artista escondido em cada um de nós. Mas não devemos esperar que o Estado sustente a nossa vocação artística. A primeira vocação que se exige a cada um(a) é aquela de sustentar-se honestamente.
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Mais do que um ato de liberdade, a adesão a um partido político ou a uma ideologia, é a entrada numa prisão.
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Quem te convenceu de que o teu governo é melhor que o teu patrão?
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A água da nascente cai, provocando milhares de milhões de bolhinhas que logo desaparecem. Estas bolhas somos nós. Umas duram mais uma fração de segundo que outras. A diferença de duração pode equivaler à diferença entre vivermos 10 ou 90 anos. O tempo real é o da água que corre. Se a nascente secar o tempo é finito, caso contrário, eterno.
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Não basta proclamar o amor para se ser nobre. Isso seria demasiado fácil e criaria a ilusão de que somos todos iguais, o que manifestamente não somos. Pelo contrário, algo nos diferencia nos esforços que fazemos (ou não) para aceitarmos, compreendermos e minimizarmos as nossas raiva, frustração e impotência e, quantas vezes, o ódio — irmão gémeo do tão banalizado amor. É esse esforço — que quanto mais árduo for maior valor humano conterá — que pode, surpreendentemente, conduzir-nos ao amor verdadeiro. Aliás, ele é já, em si mesmo, um genuíno ato de amor.
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A principal diferença entre o idealista e o realista é que o primeiro valoriza as intenções e o segundo os resultados.
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Há ideias perversas que veiculam a mensagem de que existem nações melhores que outras. Mas o que existe apenas são nações piores, no período determinado em que, nestas, aquelas ideias proliferam.
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A Esquerda acredita que o homem nasceu bom e foi a sociedade que o corrompeu. A Direita, pelo contrário, acha que o homem é um ser imperfeito por natureza. É curioso que este pessimismo da Direita permita, no entanto, acreditar numa sociedade satisfatória; e que o otimismo original da Esquerda se transforme num permanente pessimismo (quando não, desespero) face à impossibilidade de reconduzir o homem ao seu estádio natural.
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Apesar dos graves problemas, vivemos no melhor mundo de sempre, um mundo maravilhoso. É esta mensagem simples e verdadeira que temos o dever de transmitir aos vindouros.
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Nada se pode sobrepor à minha experiência (adoto aqui a frase de Carl Rogers), nem sequer uma teoria científica. É com base naquela que, crítica e racionalmente, aceito ou rejeito esta.
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Há dois tipos de inflamação neuronal — a clubite e a partidarite. E desiluda-se quem ache que os sintomas são dissemelhantes. Ambas tornam o paciente acrítico relativamente à realidade.
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Se tivesse de escolher uma ciência puramente humana, não me viraria para a Medicina, a Filosofia ou a Psicologia. Escolheria outra muito mais paradoxal. Uma ciência que, criada, desenvolvida e reinventada por nós, ganhou uma “vida” que todos os dias procuramos desvendar: a Economia.
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A maior contradição das religiões cristãs, e sobretudo da católica, prende-se com a ritualização da morte. Existe uma contradição insanável entre a crença na vida após a morte e a tristeza profunda a que se assiste nos velórios e funerais. Essa contradição é ainda mais paradoxal quando — o que acontece frequentemente — a morte traz consigo a libertação, após um sofrimento atroz.
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Nenhuma questão macroeconómica se pode explicar e, sobretudo, antever apenas pelos números. Há sempre uma variável largamente indeterminada que influencia as decisões dos agentes económicos: as célebres expectativas. Nenhum político devia ignorá-las.
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Só sendo independente se pode ser convergente. O dependente é sempre divergente.
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Há várias formas de te dedicares à causa pública e de ajudares o próximo. A pior delas é alistares-te num partido político.
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Aprecio formas. Detesto formalismos.
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Não admira aquele impulso que nos conduz à taberna após o funeral de um amigo. A vida não é mais que uma curta bebedeira em que nos esquecemos que o nosso lugar não é aqui: estamos apenas no pequeno intervalo de uma peça que durará eternamente sem nós.
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A Literatura realista é bem mais interessante que a fantástica. É mais ampla, complexa, divertida, dramática, empolgante e, afinal, fantástica pela simples razão de que a realidade é sempre mais surpreendente que a nossa imaginação.
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Às vezes apetece perguntar aos jovens de vinte e de trinta anos: já pensaram como vão ser daqui a outros vinte, trinta anos? Não? Pois eu digo-vos o seguinte: ou vão pensar exatamente o mesmo que pensam hoje — o que significará que se quedaram estupidamente petrificados — ou vão pensar algo completamente diferente — o que significará que a vida vos ensinou alguma coisa e devem, por isso, ser mais calmos, contidos e prudentes, relativamente ao que julgam saber, pois a vossa perspetiva inevitavelmente se transformará.
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Dois modelos económicos são confrontados, em geral, nas eleições democráticas: o keynesiano e o liberal. Muitos são fiéis a um ou outro desses modelos. Mas alguns dividem-se e votam de acordo como que acham melhor em cada momento eleitoral. Estes têm razão. A teoria económica é como a teoria da luz. Tal como esta pode ser onda ou partícula, também a economia é, consoante as circunstâncias, keynesiana ou liberal.
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Houve em tempos em Portugal um grande humorista chamado Herman José. Algumas das personagens que criava eram tão interessantes que ele, no meio delas, nos parecia absolutamente banal.
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O problema do exímio contador de histórias é ser primo do boateiro.
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Não são apenas o clima, a luz, as frutas, os queijos, o azeite, o vinho e o pão mediterrânicos que são os melhores do mundo. As mulheres são também as mais belas.
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Uma sociedade decente não é uma sociedade de iguais, pois todos somos diferentes e à diferença temos direito. Uma sociedade decente é uma sociedade de homens e mulheres livres.
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Brincar é bonito. Zombar é feio. A linha divisória entre uma ação e outra é marcada pelas educação e sensibilidade.
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O problema do utópico é que, de tanto elevar o olhar, deixa escapar a realidade que lhe escapa debaixo dos pés.
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O que fundamentalmente caracteriza a atividade humana é a sua luta contra a Natureza. Pares de óculos, preservativos e deuses não passam de armas diversas de uma mesma luta pela emancipação. Uma luta interminável, à qual não podemos pôr cobro. Se isso acontecesse, pura e simplesmente extinguir-se-ia a Humanidade.
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Gosto dos dias largos da Primavera quando o tempo não corre, escorre.
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Não tenho nada contra os que invocam o seu direito ao irracionalismo desde que não protestem quando o irracionalismo um dia lhes cair em cima.
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O caráter efémero, superficial e ilusório da moda não se manifesta apenas no mundo das passarelas e do design. Toda a sociedade é afetada pelo fenómeno do modismo.
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De todas as modas, as mais perniciosas são as modas intelectuais.
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O problema da sexologia é que vê o sexo como uma espécie de tecnocracia. Ora no sexo, como em qualquer arte — e o sexo nos humanos é também arte — a técnica é, sem dúvida, importante, mas a técnica sem expressão é vazia. O mais importante no sexo é a alma.
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O nacionalismo é um mito e os mitos são como os cogumelos: há os comestíveis e os venenosos.
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Racionalistas não sabem prever o futuro.
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Podes estar convencido de que és um inteligente acima da média. E, se reparares à tua volta, em círculos cada vez mais largos, é bem provável que a maioria pense como tu. O cerne da questão, porém, não consiste nessa impossibilidade estatística (de facto, não é possível a maioria estar acima da média) mas na tua convicção: com ela já pisaste, pelo menos com um pé, o terreno lúbrico da estupidez.
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O pioneirismo do que chamamos de Descobrimentos Portugueses tem pouco que ver com “descobertas”. Feitos muito mais extraordinários foram levados a cabo por diversos povos, muitos séculos antes da epopeia portuguesa – os Polinésios, por exemplo, que, em simples canoas, percorreram mais de mil milhas marítimas para colonizarem terras, como a Ilha de Páscoa, ou os Vikingues, que, nos seus navios rudimentares chegaram à América. A grande novidade dos chamados Descobrimentos foi o estabelecimento regular do comércio de longa distância, que impulsionou um novo período, mercantilista, que viria a culminar no que hoje se conhece por globalização.
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As notas de rodapé são como os acabamentos de uma casa: pormenores importantes.
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Kant e Popper correspondem, na Filosofia, a Newton e Einstein, na Física. Outro grande filósofo aparecerá quando houver uma nova revolução na Física.
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A presunção e o convencimento são, respetivamente, a estupidez dos ignorantes e a dos eruditos.
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Crer ou não crer, eis a questão.
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O ódio é um amor magoado.
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Num país de (péssimos) críticos, nada mais natural do que um país crítico.
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Abril não tem cor. Trouxe-nos a liberdade para o pintarmos como quisermos.
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Não são as leis progressistas que tornam melhor o Povo. É o Povo progressista que torna as leis melhores (a propósito da eutanásia).
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Dois intelectuais, dois ganhadores do Nobel, dois escritores, dois famosos interventores sociais do início do século XXI: Llosa e Saramago. Os pensamentos de ambos estão nos antípodas. Mostrará a história, um dia, quem tinha razão? Não sei, talvez ninguém saiba ou talvez seja impossível saber. Mas sei que, apesar de saber muitíssimo pouco, sou Llosa e não Saramago.
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A estupidez é provocada tanto pela carência de inteligência como pelo seu excesso.
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O historicista tem horror da mudança. Procura pará-la (Platão), domá-la (Hegel) ou prevê-la (Marx).
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Divulgar o que te vai na cabeça, sim. Desde que tenhas em consideração o que vai na cabeça de muitos outros.
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Apregoar uma moral ou impô-la a si próprio. Eis a diferença entre o ideólogo e o filósofo.
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Jesus foi não apenas um judeu, mas um judeu cheio de zelo. Um zelota.
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Liberdade não é ideologia. Liberdade é o que possibilita termos, ou não, uma ideologia.
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Bendito aquele que não precisa de ser pai para gostar de crianças e bendito o que não precisa de ser idoso para respeitar os mais velhos. Benditos todos os que não precisam de ser mudos para amarem os que não têm voz.
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A verdadeira oposição não é entre esquerda e direita, pois as esquerda e direita moderadas estão ambas no campo da democracia, do direito e do respeito pelo indivíduo, bem como a extrema-esquerda e a extrema-direita estão ambas no campo da tirania. A verdadeira oposição é entre liberdade e opressão, entre isonomia e injustiça. E sim, sim, os extremos tocam-se.
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Há lugares no mundo que podemos amar, embora só os conheçamos de passagem. Como uma mulher inesquecível com quem estivemos uma única vez.
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Tal como algumas pessoas correm 10 kms por dia para manterem a boa forma física, eu pronuncio dez vezes por dia a frase “não julgues ninguém exceto a ti mesmo” para manter a boa forma mental.
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Gosto tanto do equilíbrio que eu próprio não passo de um mediano.
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Apesar das nossas melhores intenções, não desejo influenciar o comportamento das pessoas, ajudá-las a mudar num sentido melhor, porque, além de me sentir demasiado ignorante para isso, sempre haverão grandes diferenças entre todos nós, e o mundo seria mais desinteressante se essa heterogeneidade diminuísse ou acabasse. Genética e ambiente fazem de cada ser, único no mundo. O nosso dever, portanto, só pode ser o de respeitar cada pessoa na sua singularidade. E as nossas melhores intenções devem dirigir-se não para o indivíduo, mas para melhorar e garantir uma sociedade em que cada um, no respeito pelo outro, possa ser plenamente quem é.
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Tenho um problema antigo com o conceito mais comum de “coerência”, que geralmente quer dizer: “acreditar no mesmo até ao fim”.
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Não há discurso mais odioso do que aquele baseado na (suposta) superioridade moral.
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Freud = fraude.
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O maior absurdo da vida reside no contraste entre a consciência humana e a inconsciência da Natureza.
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Há pessoas más com más ideias, pessoas más com boas ideias, pessoas boas com más ideias e pessoas boas com boas ideias (simplificando, claro). Se a primeira e última categorias não suscitam dúvidas, as duas intermédias dão aso a inúmeras confusões.
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Não deixa de ser curiosa esta aparente contradição: os coletivistas preocupam-se sobretudo com os comportamentos individuais, enquanto os individualistas se preocupam sobretudo com o comportamento das instituições.
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Sem futebol, vai morrer muito mais gente de desespero e de tédio do que do novo corona vírus.
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As redes sociais vieram infantilizar um público ávido de fait-divers.
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Beethoven ficaria furioso se soubesse que a sua sonata “Quase uma Fantasia” fora rebatizada de “Sonata ao Luar”. O “delito”, ocorrido dez anos após a sua morte foi perpretado pela imaginação do crítico alemão Heinrich Rellstab, que associou o início da famosa peça à imagem de um barquinho navegando no lago de Lucerna numa noite de lua cheia.
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O elogio fúnebre é-me impossível. Fico sem ar, sem ânimo, sem palavras. E quanto maior a intimidade, maior o pudor.
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A Filosofia Oriental debruça-se sobretudo sobre o indivíduo, por forma a que a sua vida seja a mais apropriada para viver em qualquer tipo de sociedade. A Filosofia Ocidental debruça-se sobretudo sobre a sociedade, por forma a que esta seja a mais apropriada para que nela viva qualquer tipo de indivíduo.
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Os países depauperados são aqueles onde o papão “Grande Capital” tem maior acolhimento.
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Detesto tanto a rotina que um dia destes morro só para saber como é.
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O sábio é um eterno aprendiz.
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Há mulheres muito bonitas que são como a fruta normalizada: sem cheiro, sem sabor, sem substrato.
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São três as características das teorias sociológicas:
1- Não nascem do nada, têm sempre algo em que se baseiam — outras ideias ou teorias;
2- São resposta a questões sociais concretas: por isso aparecem sempre em períodos de convulsão social;
3- São datadas no tempo: como qualquer produto humano, não podemos extrapolá-las para o futuro, pois ficam fora de prazo.
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Quem é o liberal? Um indivíduo que sabe:
1- Que o poder político (entenda-se, o Estado) é sempre um mal;
2- Que o poder político é sempre um mal, mas é, também, sempre um mal necessário.
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Só há uma possibilidade de eternidade: o nada. Uma vez que existe alguma coisa, nada é eterno.
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Tudo o que não precisamos é destes aparentes cinismo e frieza que bailam no lábio inferior de António Costa. (Em tempos de catástrofe).
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Para perceber quem somos temos de sair da nossa paróquia, abarcar o mundo.
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Há algo mais importante que a revolução: a vida!
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Em tempos difíceis, duros, catastróficos, precisamos mais de estadistas (Marcelo) do que de políticos (Costa). Políticos há muitos, estadistas há poucos. Mas quem é, afinal, o estadista? Aquele que sofre as penas do povo, com o povo.
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Não gosto de utopias nem de distopias. Prefiro o otimismo militante na luta por um mundo melhor.
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Uma das razões porque não sou um crítico ainda mais severo da política externa da maior potência mundial — os Estados Unidos — é porque penso sobre as alternativas. Serão preferíveis a Rússia, ou a China, ou uma grande coligação islâmica liderada pela Turquia?
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O liberal não defende apenas as liberdades política e económica. Defende de igual forma a liberdade de pensamento. Ele não é fiel a nenhum partido, nenhuma ideologia, nenhuma moda, nenhum dogma, apenas à sua consciência.
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Para conheceres o teu país precisas de conhecer o mundo.
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Quase nunca se parte para uma discussão com a atitude construtiva de aprender; quase sempre se parte com a atitude destrutiva de vencer o interlocutor.
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Não há romantismo sem heróis, nem heróis sem romantismo.
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Os Bem-Intencionados, na Rua do Paraíso, nos arrabaldes de Alfama, era uma coletividade onde todos os dias se jogava à batota. Foi assim durante décadas, o que corrobora a ideia de que os bem-intencionados são com frequência batoteiros.
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A grande diferença entre as ciências ditas “naturais” e as apelidadas “humanas”, é que estas estão impregnadas de ideologia. Não admira, é por isso mesmo que são “humanas”.
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Um ideólogo é uma pessoa que sabe como o mundo vai funcionar, mas que, curiosamente, não faz a mínima ideia de como o mundo funciona.
Depois de mais de dez anos de reformulação, abriu finalmente ao público o Munch, um dos maiores museus do mundo dedicados a um único pintor.
Bem no centro de Oslo, a dez minutos a pé da Estação Central, encontramos, muito perto da Casa da Ópera de Oslo, talvez o mais moderno, arrojado, icónico e, também, controverso1 edifício da capital norueguesa — o museu MUNCH. Uma manhã inteira (ou uma tarde) não é de mais para uma visita a este magnífico museu de doze andares (incluindo um restaurante no terraço), onde além da exposição permanente das obras de Edvard Munch, é possível apreciar trabalhos de outros pintores, como Van Gogh, Salvador Dali, Auguste Rodin ou Pablo Picasso. Pelo menos foi o que aconteceu quando ali estivemos, em abril de 2022. Este espaço museológico é enorme, por isso não surpreende que, apesar de ser dedicado a um único artista, os seus responsáveis possam organizar, em paralelo, exposições com obras vindas do exterior.
Edvard Munch foi extremamente produtivo. Ele manteve a sua atividade artística durante mais de seis décadas — desde os anos oitenta do século dezanove até ao ano da sua morte, em 1944 — e é considerado um dos autores mais importantes do modernismo. No início do seu percurso artístico, destacou-se como membro integrante do simbolismo2 e tornar-se-ia um pioneiro da arte expressionista a partir do início do século XX. A incansável persistência na experimentação de diferentes motivos e técnicas garantiu-lhe um lugar de destaque na História da Arte norueguesa, e também mundial.
Cavalo Galopante (1910-1912), óleo sobre tela, de Edvard Munch.
Essa característica experimental da obra de Munch não permite que encaixemos o seu trabalho num único movimento ou estilo. Mais conhecido como simbolista e, sobretudo, expressionista, ele fez também incursões pelo universo surrealista3. Em 1930, sofreu um acidente que lhe provocou uma lesão ocular, ficando temporariamente cego de uma vista. Durante esse período, Munch produziu vários trabalhos simbólicos e abstratos, derivados das visões que o ferimento lhe tinha provocado na retina. Estes trabalhos podem ser enquadrados na ideia então contemporânea de “olho interno”, algo que o próprio Munch definiu da seguinte forma: “A natureza não é apenas aquilo que é visível pelo olho, é também o que é reproduzido pelas imagens internas da alma — imagens da parte de trás do olho”. Em 1944, o biógrafo de Munch, Rolf Stenersen, sustentou que as obras produzidas por Edvard, quando estava parcialmente cego, poderiam ser interpretadas como representações do inconsciente. Stenersen defendeu que esses trabalhos eram surrealistas, pois resultavam de impulsos do inconsciente.
O Assassino (1910), óleo sobre tela, de Edvard Munch.
Edvard Munch viveu em vários lugares, mas a maior parte do tempo na Noruega natal, num raio de poucos quilómetros em torno da capital, Oslo, onde também viveu e se formou, na Escola de Artes e Ofícios. Tendo nascido em Löten (em 12 de dezembro de 1863), 120 quilómetros a norte de Oslo, Munch veio estudar para a capital, onde foi bastante influenciado pelo Kristiania Bohème, um círculo cultural de escritores e artistas, particularmente por um dos seus membros mais antigos, o pintor Christian Krohg, que incentivou e orientou o jovem Edvard Munch. A estética naturalista deste movimento foi rapidamente ultrapassada por Munch quando, aos 26 anos, fez uma viagem a Paris e passou a conhecer de perto o impressionismo francês, sobretudo através dos trabalhos de Paul Gaughin e Henri de Toulouse-Lautrec.
Apesar de ter vivido em Berlim (1892-95) e Paris (1896-97), os locais onde Munch mais pintou foram na sua Noruega natal. Ele passou vários verões em Åsgårdstrand, cerca de 100 quilómetros a sul de Oslo. O primeiro verão que passou em Åsgårdstrand foi em 1889, e, em 1897, Munch comprou uma pequena cabana de pescadores, à qual passou a referir-se como o seu “lugar feliz”. As linhas costeiras desta pequena e tranquila localidade logo atraíram a atenção de Munch e ainterpretação estilizada dessas margens, muitas vezes combinada com o luar, tornou-se um elemento recorrente do seu grande projeto existencial O Friso da Vida.
Em 1909, após um longo período de doença, Munch foi viver para Kragerø, na margem ocidental do fiorde de Oslo, onde alugou uma casa com vista para o mar. Foi nesta localidade que passou um dos períodos mais alegres e produtivos da sua vida artística.
O Sol (1910-1911) é um quadro gigante exposto no sexto andar do museu, que é consagrado às obras monumentais de Munch. Esta obra, produzida originalmente para os murais da Universidade de Oslo é especialmente importante porque é também um marco da aceitação tardia do trabalho de Munch na Noruega.
A natureza de Kragerø inspirou Munch a pintar o grande mural vitalista O Sol — o nascimento do astro-rei, símbolo mais puro da força da vida, retratado com pinceladas ousadas e vigorosas. Outros temas de Kragerø, que também aparecem na arte de Munch, são as ruas pitorescas, a alternância das estações, e cenas do dia-a-dia dos habitantes.
Em 1913, ainda dentro do Fiorde da Noruega, Munch subiu para Jeløya, nos arredores de Moss, onde morou durante três anos, até 1916. Os anos em Jeløya foram altamente produtivos e intensos, e Munch trabalhou avidamente com pinturas e xilogravuras coloridas. Uma das pinturas mais famosas de Munch, Trabalhadores a Caminho de Casa, foi produzida em Moss. Munch também representou, neste período, as belas paisagens culturais de Jeløya.
Mais tarde, já em Oslo, onde cresceu e se iniciou como jovem artista, Munch desenvolveu uma relação tensa com a cidade, tendo encontrado na capital os seus rivais mais ferozes e também os críticos mais severos da sua obra4.
Trabalhadores a Caminho de Casa (1915), óleo sobre tela, de Edvard Munch.
Mas os problemas de Munch já vinham de longe. Ele foi atormentado por doenças persistentes e também por uma infância difícil — com lutos e doenças mentais na família5 — as quais tiveram grande influência no seu trabalho artístico. Desde o ultrafamoso O Grito, até aos muitos milhares de esboços que produziu, a obra de Munch está repleta de emoções e traumas psicológicos. Várias versões de O Grito6 estão guardadas no MUNCH, incluindo desenhos, uma versão posterior pintada, e seis litografias.
O Grito é, sem dúvida, a obra mais famosa de Munch, um trabalho incrivelmente intemporal. Trata-se de uma narrativa aberta, em que o principal protagonista é estranhamente enigmático — não pertencendo a nenhuma classe, ou género, ou cultura, ou raça. O tema resulta de um passeio que Munch fez com amigos, num fim de tarde de 1891, quando o sol caía sobre o fiorde de Oslo. Todas as versões de O Grito são diferentes, mas igualmente poderosas. Há quem diga, provavelmente com razão, que O Grito manifesta a angústia do artista, provocada por decepções na sua vida pessoal, quer no que diz respeito ao amor, quer no que toca aos amigos. O quadro mostra-nos uma criatura enigmática em pânico — cuja forma pode sugerir, de algum modo, um feto, ou mesmo um espermatozoide (símbolos da extrema fragilidade da vida) — e cujos contornos se projetam no fundo avermelhado do horizonte; dois transeuntes seguem o seu caminho, indiferentes.
A célebre pintura O Grito (têmpera e óleo sobre cartão, provavelmente de 1910). Munch criou todas as versões desta obra em cartão ou papel, tornando-as mais frágeis do que seriam se tivessem sido produzidas em óleo sobre tela. É por isso que as três versões7 patentes na sala do museu dedicada a OGrito — uma pintura (na foto), um desenho a pastel (1893) e uma litografia (1895) — são apresentadas rotativamente, uma de cada vez, apenas por uma hora, sendo depois encerradas numa câmara escura até nova apresentação.8 Ou seja, há sempre uma das versões exposta, enquanto as outras duas permanecem no escuro.
É de notar que a estrada onde esses homens estão segue em linha reta para o infinito, o que torna ainda mais notória a distância que os separa do protagonista. Isto reforça a ideia de que a angústia e o desespero de uma pessoa pode ser completamente indiferente para outras. Embora o próprio Munch tenha escrito sobre a sua obra mais famosa9, O Grito continua, apesar de tudo, a ser um enigma, tanto no conteúdo como na forma. Não há uma interpretação única sobre a obra, antes inúmeras interpretações. Uma delas, verdadeiramente surpreendente, foi publicada em 2003, na revista Sky and Telescope por um grupo de professores de Física e Astronomia da Universidade Estadual do Texas, que se deslocaram até Oslo para perceberem onde teria sido o local exato onde Munch observara o tal céu vermelho-sangue. Depois de determinada a localização, os investigadores americanos concluíram que um céu semelhante ao descrito por Munch pode de facto ter sido observado naquela zona do globo, resultante da grande erupção do vulcão da ilha de Krakatoa, na Indonésia, em 1883 — uma das mais terríveis erupções vulcânicas registadas, que provocou o desaparecimento da ilha. Os investigadores concluíram assim que Munch estaria a olhar para sudoeste, exatamente o quadrante onde o clarão do Krakatoa apareceu, naquele inverno de 1883-1884. Isto parece vir ao encontro das próprias palavras de Munch (ver nota 9) quando este refere que sentiu um imenso grito infinito através da natureza.
Todas as versões de O Grito são diferentes. Mas todas são igualmente poderosas. Na foto, a litografia de 1895.
É, pois, impressionante como uma pequena obra pode dizer-nos tanto. E seja qual for a interpretação que tenhamos, nenhuma vai retirar o lugar que O Grito conquistou na História da Arte, um dos mais altos, senão o mais elevado, da corrente conhecida como Expressionismo.
Uma das características da arte de Munch é a atenção que dedica ao movimento, criando drama e intensidade nas suas obras: as linhas diagonais chamam a nossa atenção, puxando-nos, e provocando um movimento das figuras na nossa direção, gerando um confronto. Podemos reconhecer tais recursos desde os primeiros tempos da fotografia e do cinema — novos meios de imagem que ganharam destaque no tempo de Munch. Ele próprio experimentou a fotografia10e deslocava-se com certa frequência ao cinema, tendo além disso realizado pequenos filmes em torno de Oslo e no jardim da sua casa. Por isso se pensa que estas novas tecnologias influenciaram a sua arte. Porém, é preciso dizer que, com Munch, o movimento está sempre associado à emoção. Ele procura agarrar o espectador, imprimindo ao seu trabalho uma carga intensa e dramática. Munch pinta para criar a sensação de movimento dentro do próprio espectador.
A intensa produção de artes gráficas de Edvard Munch — gravuras, xilografias, litogravuras — começou em 1894. No MUNCH, os visitantes podem experimentar algumas técnicas utilizadas pelo pintor. Munch não tinha grande experiência gráfica, o que constituiu o principal motivo para a criação de técnicas inovadoras.
De acordo com Gray F. Watson, professor da Wimbledon School of Art, de Londres, Munch foi um líder na revolta contra os ditames naturalistas da pintura académica do século XIX e também foi além do naturalismo ainda inerente ao impressionismo. A sua concentração nos fundamentos emocionais levava-o por vezes a simplificações radicais da forma e a uma abordagem expressiva, em vez de descritiva, da cor. Estas tendências foram a dotadas por artistas mais jovens, nomeadamente os principais proponentes do expressionismo alemão. Talvez a sua influência formal mais direta na arte posterior possa ser vista na área da xilogravura. Mas o seu legado mais profundo para a arte moderna estava no seu propósito de abordar aspetos universais da experiência humana. Munch herdou o misticismo tradicional e a ansiedade da pintura do norte da Europa, que recriou numa arte altamente pessoal. O seu trabalho continua a expressar a situação tipicamente moderna do indivíduo diante da incerteza de um mundo contemporâneo em rápida mudança.11
A exposição patente no MUNCH está dividida em doze temas, que podem ser visitados pela ordem que se quiser — Só; Morrer; O Grito; Amor; Género; Outdoors; Nu; Outros; O Eu; Em Movimento; À Superfície; Variações.
Terminamos com uma frase retirada da exposição que tivemos a felicidade de visitar seis meses após a inauguração deste novo museu:
Não existe uma verdade única sobre Edvard Munch e o seu trabalho. A obra de Munch e a nossa compreensão da mesma podem ser consideradas infinitas.
No terraço do icónico e controverso edifício que acolhe e é, ele próprio, o museu MUNCH.
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Notas:
1A fase mais recente do projeto de renovação da zona ribeirinha de Oslo, que já dura há décadas, tem sido, de facto, controversa. O projeto do Munch, de autoria do renomado estúdio de arquitetos Herreros, com sede em Madrid, foi também criticado por alguns moradores nos meios de comunicação locais, sobretudo devido à forma “vertical” incomum e à fachada cinza do edifício.Os arquitetos disseram que se inspiraram, sobretudo, nas impressionantes torres do edifício da Câmara Municipal de Oslo.
2O termo “simbolismo” foi cunhado pela primeira vez pelo crítico francês Jean Moréas, em 1886, e rapidamente usado para caracterizar artistas e escritores que rejeitavam as representações realísticas do mundo exterior, em favor da exploração da vida interior da alma humana. O objetivo destes artistas era o de expressarem as ideias que estão por trás da realidade visível, ou, tal como o autor Knut Hamsun referiu em 1890, “mostrar a vida inconsciente da alma”. O movimento representava uma nova e radical compreensão do “eu”, que em vez de ser algo estável e constante, era visto como fluído e fragmentado. Na década de 1890, o simbolismo desenvolveu-se como um movimento cultural abrangente, que incluía Arthur Rimbaud, Paul Gauguin, Auguste Rodin, James Ensor, August Strindberg, Vincent Van Gogh e Edvard Munch.
3O surrealismo surgiu na ressaca da Primeira Guerra Mundial, após milhões de mortos e uma Europa em ruínas. Simultaneamente, Sigmund Freud e a psicanálise aportaram uma visão inovadora sobre a mente humana. Dedicando-se às questões do inconsciente — sonhos, desejos e impulsos inconscientes — os artistas, na opinião de André Breton, deveriam liderar o caminho para uma nova ordem mundial. Durante os anos 20 e 30 do século XX, Breton atraiu um vasto conjunto de escritores, artistas plásticos e realizadores cinematográficos, disposto a desafiar a moralidade, a tradição e a própria racionalidade. Entre estes estavam Max Ernst, Dora Maar, René Magritte, Leonora Carrington, Claude Cahun, Salvador Dalí e Luis Buñuel.
4Munch esteve várias vezes envolvido em polémicas com outros autores. Uma luta física com um pintor rival obrigou-o a ausentar-se da Noruega durante 4 anos. Vários dos seus quadros refletem estas disputas.
5A mãe e a irmã de Munch faleceram de tuberculose quando ele tinha, respetivamente, 5 e 14 anos.O pai e o irmão também morreram quando ele era jovem. A única irmã sobrevivente desenvolveu uma doença mental pouco depois.Munch foi várias vezes hospitalizado entre 1905 e 1909 por problemas de alcoolismo, depressão e comportamento suicida.
6Quando abordamos as obras de Munch, geralmente não falamos de uma imagem, mas de várias. Ao longo de toda a sua carreira artística, Munch regressa aos mesmos temas para abordá-los de uma nova forma. Ele produzia uma versão, depois outra, e depois outra ainda. Ao revisitar os temas, novas possibilidades se revelam. Por vezes eles capta-as com um simples desenho ou, ocasionalmente, com uma escultura. Apesar de Munch nem sempre estar contente com o resultado, ele preservava todas as tentativas. Para ele não havia uma forma certa ou errada de pintar, apenas formas novas de o fazer.
7Edvard Munch produziu quatro versões coloridas de “O Grito” — duas pinturas com têmpera e dois desenhos com pastel e lápis de cera. Dois deles permaneceram na sua posse e estão hoje na coleção do Museu MUNCH. Das duas versões restantes do famoso motivo, uma faz parte da coleção do Museu Nacional da Noruega e a outra é de propriedade privada (foi comprada em leilão pelo investidor e colecionador de arte norte-americano Leon Black, em 2012, por 119,9 milhões de dólares). Munch também criou uma litografia de “O Grito”. Não se sabe quantas litografias foram impressas, mas estima-se que existam cerca de 30 impressões. Seis destas — incluindo uma colorida à mão por Munch — estão hoje na coleção do Museu MUNCH.
8 Além do cuidado necessário com os fatores climáticos, como os níveis de temperatura, humidade e oxigénio, a exposição à luz tem de ser evitada. A luz afeta os pigmentos coloridos e danifica o papel e a cartolina ao longo do tempo.
9Em 1892, na Riviera francesa, mais propriamente em Nice, Munch escreveu um poema no seu diário, descrevendo uma caminhada com os seus amigos. Ele sentiu-se cativado pela visão das nuvens flamejantes e da cidade e da água azul-negras. Escreveu Munch: “Eu estava a andar por uma estrada com dois amigos quando o sol se pôs. Senti uma rajada de melancolia e de repente o céu ficou vermelho-sangue. Eu parei, encostei-me ao gradeamento, cansado de morte, enquanto os céus flamejantes pendiam sobre o fiorde azul e negro e sobre a cidade. Os meus amigos continuaram, eu permaneci ali a tremer de ansiedade e senti um imenso grito infinito através da natureza.” Nesse mesmo ano, Munch traduziu a experiência relatada no diário visualmente. Assim nascia “O Grito”.
10Foi um dos primeiros artistas a explorar o auto-retrato fotográfico, após ter comprado uma câmara Kodak, em 1902.
House on Fire, em Eswatini. Um espaço magnífico, quer na parte coberta, quer nas zonas ao ar livre.
Eswatini é um pequeno reino situado no sudeste africano, um enclave sem acesso ao mar, envolvido por dois países bastante maiores, Moçambique e África do Sul. O porto mais próximo, que permite ao país importar e exportar produtos por via marítima, é o de Maputo, na capital moçambicana. Eswatini chamava-se antes de 2018 Suazilândia, mas o rei Mswati III decidiu nesse ano alterar o nome do país, que queria dizer “terra dos zwazis”, os descendentes de povos que vieram do norte, em vagas sucessivas.
Desde que começaram a praticar a agricultura até hoje, passando pela autonomia (finais do século XIX) e a independência (1968) ambas concedidas pelos britânicos, esta foi sempre a principal atividade económica dos habitantes do atual Eswatini (se a ela juntarmos a criação de gado), embora se note uma crescente aposta em algumas pequenas indústrias, sobretudo na construção (obras públicas) e no turismo. Embora Eswatini e Moçambique sejam dois dos países mais pobres do planeta, nota-se um diferença considerável entre ambos, sendo Eswatini palpavelmente mais desenvolvido que Moçambique, embora este tenha condições naturais, geográficas e dimensionais para ser mais desenvolvido do que aquele.
Eventos diversos ocorrem no espaço aberto: festivais, concertos, casamentos, festas de aniversário, entre outros. O mais famoso é o MTN Bushfire Festival.
House on Fire é uma instalação que se enquadra numa tentativa de desenvolvimento do país, impulsionado pelo turismo, uma aposta dos responsáveis de Eswatini, embora seja uma iniciativa privada. Situada 20 kms a sudeste da capital, Mbabane, aqui se realizam eventos diversos, incluindo, anualmente, em finais de maio, o MTN Bushfire, um dos mais conceituados festivais de música africanos. (https://youtu.be/nYhCAy9xZUE).
Idealizado pelos irmãos, Jiggs Thorne e Sholto Thorne, a House of Fire foi construída numa exploração de cana-de-açúcar e inaugurada no ano 2000. As suas esculturas ao ar livre refletem influências da Owl House, em Neiu Bethesda (África do Sul), e do Rock Garden, em Chandigarh (Índia). Apesar das diferenças, fez-nos lembrar Casapueblo, de Carlos Páez Vilaró (nosso artigo aqui).
Pormenor de um ponto de iluminação no espaço interior da House on Fire. (Foto: Fla).
A primeira das construções — o teatro — foi projetada com a colaboração da arquiteta sul-africana Sarah Calburn, tendo as posteriores evoluído para um espaço multifuncional em constante evolução, onde artistas locais, com destaque para Noah Mduli, continuam a dar asas à criatividade.
A intenção é a de apresentar uma filosofia de “harmonia em contraste”, com ícones e símbolos de todo o mundo. Um exemplo, bem interessante, sobretudo para nós, é o de um pequeno mural, erguido no jardim, onde se pode observar, por cima de uma frase de Einstein, uma imagem de Fernando Pessoa.
Aldeia em Eswatini.
A prova de que a House on Fire não para, é o último grande evento organizado pela sua equipa: o Festival conhecido como Standard Bank Luju Food & Lifestyle Festival, iniciado em 2018, que dedica dois dias às comida, moda e música, apresentando os melhores chefes gastronómicos da região.
House on Fire, independentemente dos eventos que ali se realizam (http://www.house-on-fire.com), é um espetáculo por si só.
Paisagem do Eswatini profundo.
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Fontes:
Recordações de viagem realizada em finais de 2019.
Alfred Nobel foi um empresário, inventor e cientista sueco que acumulou uma fortuna considerável ao longo da sua vida de 63 anos. Para lá dos bens materiais, como dinheiro, títulos e imóveis, Alfred possuía igualmente bens que ultrapassavam o puro valor material; o seu amor pela literatura1 compelia-o a comprar muitos livros, pelo que possuía uma biblioteca vasta e valiosa. Parece que Alfred Nobel era um indivíduo empreendedor e confiante, mas simultaneamente reservado e tímido; de acordo com as suas próprias palavras, “misantropo e idealista”. É consensual que tinha um feitio difícil e não se sabe se por isso mesmo, ou por excesso de trabalho, nunca teve vontade ou oportunidade de constituir família. Alfred não teve filhos e não deixou herdeiros diretos.
Em 27 de novembro de 1895, um ano e 13 dias antes de morrer, Alfred Nobel assinou, em Paris, o último testamento. Logo após a sua morte, um número considerável de pessoas, familiares e amigos, aguardavam ansiosamente por conhecerem o teor desse documento, uma vez que todos tinham consciência de que era possuidor de uma das maiores fortunas mundiais privadas. Para grande desapontamento de muitos deles, declarava o seguinte na sua última vontade:
Porta de entrada do Comité do Nobel Norueguês
A totalidade do meu património remanescente realizável será alienada da seguinte forma: o capital, investido em títulos seguros pelos meus testamenteiros, constituirá um fundo, cujos juros serão atribuídos anualmente a título de prémio àqueles que, durante o ano anterior, terão conferido o maior benefício à humanidade. Os juros serão divididos em cinco partes iguais, a serem repartidos da seguinte forma: uma parte à pessoa que tiver feito a descoberta ou invenção mais importante no campo da física; uma parte à pessoa que tiver feito a descoberta ou invenção química mais importante; uma parte para a pessoa que tiver feito a descoberta mais importante no domínio da fisiologia ou medicina; uma parte à pessoa que no campo da literatura tenha produzido a obra mais destacada de tendência idealista; e uma parte à pessoa que tiver feito mais ou melhor trabalho pela fraternidade entre as nações e pela abolição ou redução dos exércitos permanentes e pela formação e difusão de congressos de paz. Os prémios de física e química serão concedidos pela Academia Sueca de Ciências; para trabalhos fisiológicos ou médicos pelo Instituto Caroline, em Estocolmo; para a literatura pela Academia em Estocolmo, e para os defensores da paz por um comité de cinco pessoas a serem selecionadas pelo parlamento norueguês. É meu desejo expresso que na atribuição dos prémios não seja dada qualquer consideração a filiações nacionais de qualquer tipo, para que o mais digno receba o prémio, seja escandinavo ou não.2
Cópias das primeira e última páginas do testamento de Alfred Nobel, no Instituto Nobel Norueguês.
Alguns dos familiares de Alfred Nobel solicitaram a invalidade do testamento e nessa luta conseguiram o apoio de rei Oscar II, que considerou “fantasiosas” as pretensões de Alfred. Além destes, também muitos conservadores desejavam impedir a realização do testamento, considerado “antipatriótico”, uma vez que os prémios deveriam ter sido reservados para os suecos. Só após longas e difíceis negociações, que envolveram o governo, os executores Ragnar Sohlman e Rudolf Lilljequist conseguiram desatar os nós jurídicos envolvidos. Finalmente, em 29 de junho de 1900, os estatutos da recém criada Fundação Nobel foram aprovados pelo relutante rei Oscar II; e em 10 de dezembro de 1901 foram concedidos em Estocolmo e Oslo os primeiros prémios Nobel.3
O que teria levado um cientista e inventor da dinamite a uma decisão tão altruísta em favor da espécie humana, ao expressar a sua vontade de que fossem premiados anualmente os mais destacados no benefício da humanidade, incluindo quem “fez mais ou melhor para promover a comunhão entre as nações, a abolição ou redução de exércitos permanentes e o estabelecimento e promoção de congressos de paz”? Os biógrafos indicam que por trás dos ideais pacifistas de Alfred Nobel estava uma mulher. Não uma mulher com quem ele tivesse uma relação amorosa, mas uma amiga com quem se correspondeu durante anos e que, sendo ela própria pacifista, teve uma forte influência sobre o empreendedor sueco. Essa mulher chamava-se Bertha von Sutnner4 e, curiosamente, conheceu Nobel ao responder a um anúncio de jornal de “um senhor muito culto, rico e idoso, morando em Paris, que deseja encontrar uma senhora também de idade madura, familiarizada com idiomas, como secretária”.5
O desenho da medalha do Nobel da Paz foi realizado por Gustav Vigeland, um escultor norueguês de nomeada. A medalha pesa 196 gramas em ouro de 18 quilates. Esta é uma cópia da medalha que foi atribuída ao político sueco Christian Lous Lange, premiado em 1921. Patente no Centro Nobel da Paz, em Oslo
Não se conhece exatamente a razão pela qual Alfred Nobel optou, no seu testamento, pela criação de um comité, designado pelo parlamento norueguês (Storting), para a atribuição do prémio da paz. Trata-se de um facto e não adianta muito especular sobre ele. No entanto, Geir Lundestad, ex-secretário do Comité Nobel Norueguês e diretor do Instituto Nobel, resume no seu artigo O Prémio Nobel da Paz, 1901-2000, as suposições mais frequentes e melhor fundamentadas: Nobel, que escreveu o testamento no Clube Sueco-Norueguês de Paris, pode ter sido influenciado pelo facto de que, até 1905, a Noruega ter estado em união com a Suécia; ele pode também ter considerado a Noruega um país mais orientado para a paz e mais democrático que a Suécia; finalmente, Nobel pode ter sido influenciado pela sua admiração pela ficção norueguesa, particularmente por Bjornstjerne Bjornson, conhecido ativista da paz na década de 1890; ou pode ter sido uma combinação destes três fatores.6
A verdade é que os noruegueses levaram essa incumbência muito a sério, e o Nobel da Paz é um prémio com significado e importância muito especiais. Em Oslo há dois locais onde podemos perceber isto, e nós visitámos ambos na nossa mais recente visita. Falamos do Instituto Nobel Norueguês e do Centro Nobel da Paz. O primeiro é onde trabalham os membros do Comité Nobel Norueguês7 e o seu secretariado; o segundo é um museu onde podemos percorrer, através da exposições ali patentes, partes das vidas e dos pensamentos quer de Alfred Nobel, quer dos muitos laureados com o Nobel da Paz, com destaque lógico para os últimos ganhadores8: uma ala do museu estava no momento da nossa visita dedicada aos laureados com o Nobel da Paz de 2021, o russo Dmitry Moratov e a filipina Maria Ressa.
Moratov e Fla.
Dmitry Moratov e Maria Ressa são jornalistas e ambos vivem em países onde não há liberdade de imprensa. Tal como outros colegas, arriscam a vida por exercerem uma profissão incómoda para o poder. O caso russo é mais grave que o filipino e, além disso, tem relação direta com a guerra que Vladimir Putin decidiu fazer à Ucrânia. É por isso que, nesta ala do museu, o enfoque está todo na falta de liberdade que se vive na Rússia, onde vigora um regime autocrático que piorou muito ao longo dos últimos vinte anos. Há uma relação inequívoca entre paz e liberdade, e os responsáveis pela exposição quiseram realçá-la, conduzindo o visitante a uma importante conclusão: não pode haver paz onde não há liberdade. Este é o primeiro ponto a considerar em relação à paz.
O segundo ponto, que também tem relação direta com a atual guerra iniciada por Putin, tem a ver com a grave ameaça que representam para a humanidade as armas nucleares. Cabe aqui dizer que em 2017 a ICAN – International Campaign to Abolish Nuclear Weapons (Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares), uma organização fundada em 2007 em Melbourne, na Austrália, ganhou o Prémio Nobel da Paz de 2017. A ICAN é uma organização global, composta por mais de 600 ONGs, com presença em 108 países. Por razões óbvias, é natural que o Comité Norueguês do Nobel e o Centro do Nobel da Paz dediquem uma especialíssima atenção à verdadeira espada de Dâmocles que pende sobre a cabeça de todos os seres humanos — as armas nucleares.
Nesta sala do museu estão fotografados todos os laureados com o Nobel da Paz.
Em 7 de junho de 2017, após uma década de intensos trabalhos da ICAN e seus parceiros, a maioria das nações do mundo adotou um acordo global histórico para proibir as armas nucleares conhecido oficialmente como Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares9. Entrou em vigor em 22 de janeiro de 2021. No sítio da organização, numa página cujo título é Porquê um banimento?, a ICAN explica porque se bate não apenas pela proibição, mas pelo banimento completo das armas nucleares: As armas nucleares são as armas mais desumanas e indiscriminadas jamais criadas. Têm consequências humanitárias e ambientais catastróficas que se estendem por décadas e atravessam gerações; geram medo e desconfiança entre as nações, já que alguns governos podem ameaçar destruir cidades inteiras num piscar de olhos; o alto custo da sua produção, manutenção e modernização desvia fundos públicos da saúde, educação, socorro em desastres e outros serviços vitais. Proibir essas armas imorais e desumanas sob a lei internacional foi um passo crítico no caminho para exterminá-las, antes que elas acabem connosco.10
O museu apresenta algumas citações dos laureados. Esta pareceu-nos particularmente interessante.
A guerra infligida à Ucrânia é uma das maiores calamidades deste século, bem como a chantagem nuclear de Putin. Trata-se de uma ameaça muito séria à paz na Europa e no mundo. Nas bibliotecas e livrarias que visitámos na Noruega, as obras destacadas são todas sobre os temas do momento: a Ucrânia, a Rússia, as relações internacionais e, sobretudo, Putin. As cores da bandeira ucraniana são visíveis nas cidades da Noruega (e da Dinamarca). O apoio do povo norueguês à Ucrânia e à liberdade sente-se não apenas no Centro Nobel da Paz e no Instituto Nobel Norueguês, mas, podemos constatá-lo, um pouco por todo o lado.
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Fontes:
nobelpeacecenter.org
nobelprize.org
Biblioteca do Instituto Nobel Norueguês
Centro Nobel da Paz
icanw.org
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Responsáveis do museu trabalham num tema sobre a Rússia. Em cima da mesa, uma marioska com o retrato de Putin.
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Notas:
1Alfred Nobel escreveu poemas durante juventude.
2nobelpeacecenter.org.
3Embora a maioria das pessoas pense que existem 6 diferentes prémios Nobel, a área da Economia não foi, como vimos, contemplada no testamento de Alfred Nobel. Só em 1968 o Banco da Suécia instituiu o “Prémio de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel”. A atribuição deste prémio segue todos os critérios de atribuição dos prémios Nobel, por isso é muitas vezes confundido e considerado como tal, mas é, na realidade, um prémio similar, mas diferente à sua criação e ao seu financiamento.
4Bertha von Suttner era escritora e ela própria ganhou o Nobel da Paz em 1902.
5nobelpeacecenter.org.
6nobelprize.org
7Como se disse, os cinco membros do comité são designados pelo parlamento. Embora sejam normalmente políticos, não podem estar na política ativa, isto é, não podem ser deputados ou membros do governo.
8Podemos dividir as exposições do museu em quatro partes: o historial do Nobel da Paz; a vida de Alfred Nobel (passamos por uma réplica do interior da casa onde morreu, em San Remo, na Riviera Italiana); os laureados; os últimos contemplados com o Nobel da Paz. Há também, como em quase todos os museus, uma loja onde se podem comprar artigos alusivos ao Nobel da Paz.
A zona a norte da cidade, onde fica a praia, foi motivo de grande parte das obras dos Pintores de Skagen, várias das quais patentes no museu. Na foto podem ver-se um bunker usado pelos alemães na Segunda Guerra Mundial e, ao fundo, a língua de areia onde convergem o Mar Báltico e o Mar do Norte.
Skagen é uma pequena cidade situada no extremo norte da Dinamarca. Acima da cidade há uma praia que apresenta uma forma muito curiosa, pois na extremidade tem o que parece um espigão de areia que entra pelo mar dentro e separa, supostamente, o Mar do Norte do Mar Báltico. Dada a sua condição geográfica, não surpreende que as principais atividades estejam ligadas à pesca e ao turismo: Skagen é o principal porto de pesca da Dinamarca e o turismo atrai à cidade cerca de dois milhões de pessoas por ano. Aqui, neste pequeno burgo, está situado um importante museu.
Na viragem do século XIX para o século XX, a região de Skagen foi uma importante zona de veraneio para os próprios dinamarqueses, atraindo artistas de todas as áreas e inclusive a família real. O rei Cristiano X e sua mulher Alexandrina mandaram aí construir uma residência de Verão, onde recebiam os amigos, incluindo membros de outras monarquias europeias. Vários pintores dinamarqueses também descobriram os encantos deste local, ainda durante os últimos anos do século XIX, seduzidos pela vida ao ar livre e motivados pela pintura naturalista.
P.S. Kroyer, Fogueira de Verão na Praia de Skagen (1906). Museu de Skagen.
Alguns deles, oriundos da Real Academia Dinamarquesa de Belas Artes, em Copenhaga, estão entre os maiores pintores modernos da Dinamarca. No século XIX, aquela escola foi o local onde pintores masculinos estudavam e expunham os seus trabalhos. As mulheres não tinham acesso à academia, até 1908, e só em 1925 lhes foi permitido estudarem em conjunto com os homens. Em alternativa, podiam recorrer às escolas privadas de Copenhaga, ou ir para o estrangeiro, para aprenderem a desenhar com modelos vivos. Foi assim que desde os anos de 1880 muitas mulheres dinamarquesas intervieram em colónias artísticas de outros países, onde puderam trabalhar e participar nos debates sobre arte e cultura em pé de igualdade com os homens.
Michael Ancher, Anna, Helga e Michael Ancher no Pântano (1905). Museu de Skagen.
Mas já na década de 1870 fermentava uma rebelião entre os jovens artistas masculinos que se encontravam na fase final de graduação na Real Academia Dinamarquesa de Belas Artes. Insatisfeitos com o ensino antiquado e fora de moda desta escola, aspiravam por novas vias no estrangeiro. As viagens de estudo a França tornaram-se, por isso, cada vez mais populares. Muitos pintores escandinavos e dinamarqueses tiveram acesso ao Atelier Bonnat, em Paris, onde pintaram desenfreadamente, enquanto nos tempos livres se deslocavam para fixar em tela as paisagens francesas, experimentando o prazer da moderna pintura ao ar livre. Colónias artísticas foram estabelecidas fora das grandes cidades, não só em França, mas também noutros países mediterrânicos, como Espanha e Itália. Skagen transformou-se numa réplica desses modelos europeus.
Michael Ancher, O Pescador Afogado (1886). Museu de Skagen.
Foi então que os jovens pintores começaram a romper com os ensinamentos da academia, focando-se em novos e diversos motivos. Este era o tempo de captar a vida do dia-a-dia e retratar a realidade nua e crua, sem embelezamentos. Entre estes artistas encontravam-se dois grandes pintores: Michael Ancher (que não chegou a completar o curso na Real Academia) e P.S. Kroyer. Ambos viveram largos períodos de suas vidas nesta cidade. Michael visitou Skagen pela primeira vez em 1874, acabando por casar em 1880 com a pintora Anna Brondum, cujo pai era o dono do hotel Bromdums, onde normalmente se hospedavam os apelidados Pintores de Skagen, que ali passavam todos os verões. O casal de pintores passou a viver em Skagen num local que hoje se situa no jardim do museu.
P.S. Kroyer, Barco Branco na Praia (1895). Museu de Skagen.
Por seu turno, P. S. Kroyer (que nasceu em Stavanger na Noruega) veio pela primeira vez a Skagen em 1882 e, durante outros 22 anos, passou temporadas na cidade, quase sempre no verão, incluindo todo o ano de 1908, vindo a falecer, aqui, em 1909. Não surpreende, por isso, que o Museu de Skagen possua no seu acervo significativas obras, quer dos Ancher (Michael e Anna), quer de Kroyer, sobretudo pinturas realistas cujos motivos se relacionam com a praia e a sua envolvente natural. As nuances de luz nos vários períodos do dia e nas diversas condições do tempo, inspiraram estes e outros pintores a mostrarem as atividades que decorriam na praia, fossem de trabalho (pescadores, pintores, transportadores) ou de lazer (crianças banhistas, pessoas passeando na praia, festividades), entre outros motivos.
Quem for a Skagen tem de visitar o seu magnífico museu. É obrigatório!
Carl Locher, A Carruagem do Correio (1885). Museu de Skagen.
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Fontes:
Exposição patente no Museu de Skagen.
“Kroyer – An International Perspective”, The Hirschsprung Collection & Skagens Museum, 2011.