Os cruzeiros de reposicionamento

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O Splendida, no Dubai, já com os caracteres apropriados à nova temporada na China.

Os cruzeiros de reposicionamento são cruzeiros mais longos (excetuando os de “volta ao mundo”) e servem para os navios se deslocarem para zonas do globo (por exemplo do Mediterrâneo para as Caraíbas ou vice-versa) onde operam durante alguns meses, normalmente em condições climatéricas (e, claro, económicas) favoráveis à sua atividade. Daí a expressão: reposicionamento. São cruzeiros com menos procura e, por isso, mais baratos (se tivermos em consideração o custo unitário/dia). O principal problema é a época em que se realizam: em geral, quando as pessoas não estão de férias. Mas, desde que se tenha disponibilidade, valem a pena. O cruzeiro que aqui resumidamente relatamos teve origem em Génova, no dia 6 de dezembro, e terminou no Dubai, 18 dias depois, contemplando sete países. Vejamos os principais lugares por onde passámos.

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Génova. Chegámos à cidade de comboio, vindos de Milão. Optámos por um voo de Lisboa para Milão, onde dormimos uma noite, por ser muitíssimo mais barato do que para Génova. Na manhã do dia seguinte visitámos Milão (deu tempo para entrar no Alla Scala e tudo) e depois do almoço partimos para a estação de Génova-Principe, que fica muito perto do porto, pelo que passámos do comboio para o navio a pé. Este partiu já de noite, às 18:00 horas.
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No dia seguinte, às sete da manhã, acostámos em Civitavecchia, onde apanhámos o comboio até Roma (e volta), numa pequena viagem de cerca de uma hora até a estação de Roma-Termini. Estivéramos em Roma há dois anos e encontráramos alguma degradação. A situação agravou-se: a cidade está suja, esburacada, cheia de mendigos e sem-abrigo, pontuada de obras por todo o lado, um tanto ou quanto caótica. Isto está relacionado com a crise dos refugiados, com a qual a Itália (país muito sobrecarregado, a par das Grécia e Turquia), sem uma efetiva política solidária europeia, dificilmente poderá lidar.
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Saímos de Civitavecchia no segundo dia do cruzeiro e chegámos a Heraklion, em Creta, quase dois dias depois, às 12:00 horas do quarto dia. Ficámos apenas seis horas em Heraklion e optámos por vaguear pela cidade. Aqui pudemos captar (pelos menos, assim nos pareceu) o pulsar económico desta mítica ilha mediterrânica: pesca, turismo e serviços. A foto mostra um aspeto curioso das montanhas de Creta, que denominámos “O Homem que Dorme”. Creta – a quinta maior ilha do Mediterrâneo, com mais de 600.000 habitantes – é muito montanhosa e avistámos do navio (que percorreu toda a costa norte da ilha) vários cumes cobertos de neve.
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Um dia depois, já à noite (19:00 horas), chegámos à entrada do Canal do Suez, que percorremos em cerca de 18 horas. No início (descendente) do canal encontra-se a cidade de Port Said e, no final, a cidade de Suez, já em pleno Mar Vermelho. Pelo caminho, vimos pescadores, barcos tradicionais, ferries de transporte entre margens, pontes, postos de patrulhamento, comboios, transeuntes e cidades inteiras, como Ismailia (na foto), a cidade natal de um dos maiores burlões de arte de sempre – Fernand Legros. Os navios passam pelo Suez em comboios alternados, descendentes ou ascendentes, acompanhados por rebocadores e pilotos egípcios, a uma velocidade reduzida para não provocarem o assoreamento do canal.
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No sétimo dia, às 08:00 horas, depois de descermos o Golfo de Suez e subirmos o de Aqaba, chegámos à cidade com este nome, na Jordânia. Cidade imortalizada pela película de David Lean, “Lawrence da Arábia”, na qual se mostra como Thomas Lawrence (22 cms mais pequeno que o igualmente genial Peter O’Toole, que o representou no filme), à frente de um  pequeno exército de tribos árabes, tomou Aqaba aos Turcos, em plena Grande Guerra, chegando pelo caminho menos esperado – o deserto.
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A viagem de Aqaba até Petra faz-se cruzando uma região semi-árida, quase desértica, com muitos quilómetros quadrados de calhaus e pó. Mas vale a pena. O turismo em Petra está a ser aproveitado para desenvolver a região e, tanto quanto pudemos ver, os locais estão a fazê-lo bem. Agradou-nos muito perceber que a Jordânia, apesar do fervor religioso, bem presente nas inúmeras mesquitas que vimos, é um país diferente de todos os outros desta conturbada região – e para melhor. É um país surpreendentemente tolerante, que privilegia a paz, em larga medida devido à orientação política dos seus monarcas – descendentes diretos do profeta Maomé – que governam o país desde 1921.
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Os cinco dias seguintes foram passados a navegar. Descemos o Mar Vermelho, até entrarmos no Golfo de Aden, e, pouco depois, no Mar Arábico (onde tirámos esta foto), já em pleno Oceano Índico. Apesar dos divertimentos a bordo, cinco dias no mar são de mais, pelo que há que gerir bem o tempo, aproveitando ginásio e piscinas para exercitar um pouco o corpo, não abusando dos momentos de descanso e relax, como este, em que assistimos, da nossa cabina, ao pôr-do-sol. Embora esta seja uma zona de atuação dos piratas somalis, passámo-la, felizmente, sem qualquer problema.
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E assim chegámos, na manhã do 13º dia, à vila e porto de Muttrah, que se insere na província de Muscat, capital de Omã. O centro de Muttrah (na foto) e o de Muscat distam uns 3 kms um do outro. No primeiro encontra-se o comércio local (encontrámos no mercado muitos peixes nossos conhecidos, incluindo sardinhas), e no segundo os serviços administrativos, bem como alguns museus e monumentos interessantes. As pessoas são simpáticas, apesar de muito poucas falarem inglês. Como de costume, partimos às 18 horas.
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O dia seguinte foi passado entre poços de petróleo, em ambas as margens do Golfo Pérsico, à direita os xiitas do Irão e à esquerda os sunitas dos Emirados, até atingirmos, no 15º dia, Doha (na foto), capital do Qatar. São notórios os efeitos do petróleo, desde os arranha-céus aos carros de alta cilindrada, passando pelas fotos omnipresentes dos membros (masculinos) da família real e os edifícios públicos de grandes dimensões, como o magnífico e imponente Museu de Arte Islâmica, que vale, sem dúvida, uma visita.
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O Golfo Pérsico alberga, assim, alguns dos países mais ricos do mundo (Irão, Iraque, Bahrain, Kuwait, Qatar, Emirados Árabes Unidos), graças ao “ouro negro”. De noite é possível ver-se, um pouco por todo o lado, a chama dos poços de petróleo. O Splendida zarpou de Doha, como de costume às 18:00 horas e navegou muito lentamente (cerca de 10 nós) para chegar à ilha de Sir Bani Yas – pertencente aos Emirados Árabes Unidos, e com uma praia privativa (na foto) para os passageiros de algumas companhias de cruzeiro, incluindo a MSC – às 8:00 horas do dia seguinte.
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E depois de um dia de praia, rumámos a uma nova grande metrópole, destino final do nosso cruzeiro: o Dubai. O “petromoney” tornou-a uma cidade de fachada. Arranha- céus (pediram-nos o equivalente a 300 euros para subirmos ao edifício mais alto do mundo!), grandes avenidas, veículos potentes, uma larga maioria de trabalhadores estrangeiros – sobretudo indianos, paquistaneses e africanos – e poucas ruas onde se possa circular naturalmente, a pé. Ao 18º dia regressámos, de avião, a casa. A melhor parte do cruzeiro foi o primeiro terço.

O navio (MSC Splendida) ficará agora cerca de três meses e meio no Golfo Pérsico até partir para o Mar da China, onde cumprirá mais uma temporada, circulando entre países como o Japão, a Coreia do Sul e, claro, a própria China. Nessa nova viagem de reposicionamento, de Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos) a Yokohama (Japão), durante 26 dias, visitará mais nove países – do Médio ao Extremo-Oriente. Mais um cruzeiro de reposicionamento muito atrativo para quem tiver disponibilidade de viajar em abril, mês em que decorrerá a viagem.

Entretanto, seria muito interessante que uma indústria tão próspera quanto o é a dos cruzeiros marítimos e fluviais, mostrasse uma maior (e efetiva) preocupação ambiental. Um grande navio de cruzeiro (e há que ter em conta que eles são cada vez maiores) polui o equivalente a mais de 100.000 automóveis, algo inconcebível numa época em que as questões ambientais constituem uma prioridade a nível mundial.