Lisboa a Santos, a bordo do “Preziosa” (13/26 de novembro de 2013)

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Alfama vista do Preziosa, à saída de Lisboa.

DIA 1 – LISBOA

O primeiro dia no Preziosa foi muito curto. Após as formalidades de embarque, entrei pela primeira vez a bordo por volta das 19:30. Fiquei feliz por, após ter ultrapassado o átrio de entrada, um elevador panorâmico e um corredor interminável, ter chegado finalmente à cabina 13214, sem me ter enganado no caminho. De imediato tive a agradável sensação de que a cabina era ampla, limpa, bonita, bem iluminada, com uma cama king size só para mim. Abri as cortinas e a portada para aceder à varanda, e espreitei a água escura do rio lá em baixo. Voltei para dentro, depositei a mochila em cima da cama e saí do navio para jantar com o meu amigo António, num restaurante do cais, em frente à minha casa dos próximos 14 dias. Saboreei a comida, o vinho, o momento, e regressei a bordo às 21:20, com o coração alvoroçado. Precisamente às 22:00, o navio fez meia-volta e zarpou, rumo a Sul. Despedi-me de Alfama, de Lisboa e do Tejo, pela primeira vez, do 13º deck de um gigante dos mares…

Por volta da 1:00 deixei de discernir as luzinhas em terra, lá atrás. Desliguei a tv e a luz – e adormeci.

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Gaivota sobrevoando o navio.

DIA 2 – NAVEGANDO

Acordei por volta das 8:00. O sol nascera já do lado oposto ao da minha cabina, o que queria dizer que, mais tarde, veria deste lado o pôr do sol. Mar calmo, céu limpo. Tomei a primeira refeição a bordo. Muita gente. Segundo me disseram, estão mais de 3.000 passageiros no navio. Fiz a minha primeira exploração, depois do pequeno-almoço, no 14º andar. É aqui que estão as principais áreas de lazer, sobretudo as piscinas – uma coberta e duas ao ar livre. Muita gente tomando sol. Depois de escrever estas linhas, ou talvez só à tarde (agora são 11:00), vou experimentar as piscinas e uma das inúmeras espreguiçadeiras que circundam o amplo deck. Mais tarde, talvez, o ginásio. Há muita coisa para explorar…

Afinal, acabei por ficar na varanda da cabina, após o almoço e algumas fotos no tal deck 14. Estava um sol delicioso, e acabei por me despir completamente e saborear a temperatura agradável no corpo todo, em todos os poros. À minha frente o mar a perder de vista; atrás, a cabina; e, dos lados, duas paredes que isolam esta das outras contíguas. Navegamos ao largo da costa africana e estamos precisamente, neste momento, a 32º 21.90’ N e 012º00.82’ W. Se a terra não fosse redonda e a minha vista fosse de longo alcance, observaria, à direita do navio (estibordo), as ilhas da Madeira e do Porto Santo. O espaço interior da embarcação é grande e não sinto, muitas vezes, que estou no alto mar. Precisava de um amigo, de um amor, alguém que me mostrasse que tudo isto é real.

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A cidade de Arrecife, em Lanzarote, a ilha onde viveu Saramago.

DIA 3 – LANZAROTE, ARRECIFE

Acordei ainda antes do sol nascer (07:14) para observar a aproximação a Lanzarote. Outros passageiros tiveram a mesma ideia e foi bonito ver o astro-rei subir no mar, do lado oposto à ilha. Tomei o pequeno-almoço e fui visitar a cidade de Arrecife, que é, numa primeira observação (necessariamente superficial) pequena, vulcânica, morna e limpa. O mar está sempre presente, como seria impossível não estar, numa ilha, e apresenta-se calmo, transparente e tépido, ainda que eu não o tenha provado. Visitei um local de pescadores, uma pequena feira sobre o desenvolvimento sustentável, e falei com pessoas que protestavam contra o Banco Popular. Vi gente pobre nas ruas. Notei que a cidade não é rica, com pouco comércio e turismo (tem pouquíssimos hotéis, comparativamente a locais semelhantes), mas digna e agradável, precisamente por ser simples, natural e genuína. Bem no centro, encontra-se uma bonita praia, onde encontrei bastantes banhistas, de sol e, alguns, de mar, em pleno novembro. Adoro cidades com praias à mão. Claro que perguntei por Saramago. Segundo me disseram, morava fora da cidade. Seja como for, foi mesmo só curiosidade, pois eu não fui, não sou e não me vejo ser fã do José, que me desculpem os indefetíveis.

Regressei ao navio e, como tinha dormido pouco, passei pelas brasas. Por volta das 17:00 subi ao ginásio e pratiquei 20 minutos de bicicleta e 20 minutos de corrida. Em frente, uma enorme superfície de vidro que deixa ver a imensidão do mar: o ginásio fica bem na proa do navio, lá no alto, com uma vista soberba. A sensação é a de que estamos galgando sobre as ondas, e a verdade é que estamos mesmo. Agora são quase 23:00 e ainda não decidi se vou hoje visitar a discoteca. Uma coisa é certa: subirei ao andar imediatamente superior ao meu (nem preciso de elevador) para comer qualquer coisa no Buffet Inca & Maya, antes de me recolher, definitivamente, por hoje. Agrada-me bastante este serviço pois não preciso de esperar, como nos restaurantes, e posso comer o que (e a que horas) quiser, durante 20 horas por dia, das 6:30 às 2:30 do dia seguinte. A variedade é grande e acho que estou a comer de mais.

O navio desloca-se lentamente, a uma velocidade de 12 nós. Tenerife fica apenas a 150 milhas náuticas de Lanzarote, e nós só temos de lá chegar às 8:00 horas.

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La Laguna, na ilha de Tenerife.

DIA 4 – TENERIFE, SANTA CRUZ

Ainda a alguns quilómetros da costa já dá para perceber que a ilha de Tenerife é muito maior que a de Lanzarote. Proporcionalmente, também a cidade de Santa Cruz é muito maior que a de Arrecife. Maior e, logicamente, com mais habitantes, turistas e atividades. Aportámos às 8:00, como previsto, e eu já estava no deck 14 para poder observar quer a estibordo, quer a bombordo1. A cidade de Santa Cruz está bem organizada e, pareceu-me, tem um bom sistema de transportes. Prova disso foi o elétrico rápido que apanhei até a cidade de La Laguna. Uns 25, 30 minutos, sempre a subir, com várias paragens pelo caminho. O preço – 1, 30 euro por percurso – é um convite à utilização do transporte público, e um exemplo para cidades portuguesas, como Lisboa.

La Laguna foi uma surpresa muito agradável. Originalmente chamada de Villa de San Cristóbal de La Laguna, foi fundada em 1497, após a conquista da ilha de Tenerife por Don Alonso Fernández de Lugo2. La Laguna foi capital e centro administrativo de Tenerife até o século XVIII, quando esse estatuto passou a pertencer a Santa Cruz. Mantém até hoje, no entanto, o seu caráter cultural, intelectual e artístico. É, apropriadamente, considerada Património Mundial pela UNESCO. Vagueei com prazer pelas suas ruas e encantei-me com seu património edificado. Falei com algumas pessoas, todas bastante simpáticas.

Era já tarde quando regressei para o almoço no navio. Depois disto, fiz mais uma sesta: parece que está a tornar-se um hábito, mas, se o for, é um hábito que me dá prazer. Fiquei pela cabina até a hora prevista da partida de Santa Cruz, às 18:00, mas, devido a uma avaria numa das portas do Preziosa, só saímos do cais por volta das 21:45, estava eu, de novo, no ginásio.

Agora são 23:40 (hora local e de Lisboa) e continuo a ver, à minha direita, as luzes de Tenerife. A ilha é grande, sim. O navio navega agora a mais de 21 nós, talvez para recuperar o tempo perdido, e eu reparo que quanto mais depressa se move, menos se nota a ondulação. Outra coisa que reparo também é que, à semelhança do que se passa nas orquestras ou nas equipas de futebol, também a equipa de um navio é formada por elementos de muitas nacionalidades.

Não sei o que farei, ainda, esta noite. Ontem fui ver como é a discoteca, mas acabei por me vir embora. Não quis fazer companhia ao único mirone, sentado ao balcão; nem ao pequeno grupo, de cinco ou seis pessoas, que dançava sob um som bastante duvidoso. Hoje não vou. Daqui a nada subo ao Buffet Inca & Maya para trincar qualquer coisa suave, e depois regresso aos meus aposentos. Acho eu. Boa noite!

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A cabina 13214 do Preziosa.

DIA 5 – NAVEGANDO

Não me considero particularmente inteligente, mas devo dizer que eu não escolhi este cruzeiro por acaso. Havia um conjunto de coisas que eu procurava. Em primeiro lugar, queria um cruzeiro grande, onde pudesse passar despercebido no meio da multidão. Não estou interessado em conhecer pessoas nesta viagem, a não ser aqueles conhecimentos de circunstância. Vim para me encontrar a mim mesmo, para pôr as leituras em dia, para descansar, para refletir, para me reposicionar nesta nova fase da minha vida, depois da morte da minha mãe. Sempre fiz minhas introspeções junto ao mar. É muito bom, verifico agora, encontrar-me no meio do mar. Em segundo lugar, sempre quis fazer, pelo menos, uma viagem marítima transatlântica, no oceano que tanto tem a ver com os portugueses – aquele que contém no seu sal, certamente, a maior parte das “lágrimas de Portugal”. É verdade que o meu sonho é fazer uma viagem à vela, mas enquanto não se tem um sonho inteiro, é melhor que nada realizar meio sonho. Agora eu sei que o conceito é substantivo. Em terceiro lugar, eu queria um espaço de liberdade. Pode dizer-se que não existe liberdade alguma quando se está confinado num espaço de onde não se pode sair, como se se estivesse numa prisão. Mas a minha cabina é uma barca, dentro de um navio gigante, onde vivo como quero. Aqui ando completamente nu, sempre. Sinto o mar, o sol, as estrelas, quando me apetece. Leio, escrevo, observo. Como quando tenho fome. Durmo quando tenho sono. Saio, e volto, quando quero. Não dependo de ninguém a não ser de mim. Em quarto lugar, o tempo de viagem, a duração do cruzeiro, pareceram–me bem: duas semanas é um período ideal. O necessário para cumprir aquilo a que me tinha proposto. Pelo menos, é isto que me parece.

É claro que tenho as piscinas, os bares, os shows, o ginásio, o casino, etc. Tenciono usufruir um pouco de tudo isso ou, pelo menos, da maior parte de tudo isso. Mas não quero ficar escravo de qualquer obrigação. Irei quando me apetecer, se me apetecer. E a vantagem é que posso ir quando quiser. Sem correr.

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Na piscina da proa do navio.

DIA 6 – NAVEGANDO

Hoje atrasámos o relógio uma hora e, também por isso, acordei cedo. Mal acordei, abri de imediato as portadas da varanda – como faço sempre – e fui ver o mar. Hoje notava-se uma grande diferença de temperatura, estava mais quente, tudo se conjugava para uma ida à piscina, ainda de manhã. E foi o que fiz. O tempo estava excelente, quente, quase sem vento e com muito sol. Estive na piscina toda a manhã, mergulhando, tomando banhos de sol e cavaqueando com duas senhoras muito simpáticas de Ribeirão Preto, Leila e Maria Helena. Por volta do meio-dia avistámos a bombordo, a cerca de 11 milhas náuticas3, a Ilha do Sal. Ainda estamos ao largo do arquipélago de Cabo Verde e, segundo o comandante, avistaremos pelas 16:00 a ilha de Santiago, a umas 16 milhas de distância, e, por volta das 17:00, passaremos bem perto da ilha do Fogo, apenas a duas milhas náuticas. Claro que já tenho a câmara fotográfica preparada.

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Ilha do Fogo, Cabo Verde (um ano depois aquele vulcão entraria em erupção).

Afinal, não avistámos a ilha de Santiago, mas passámos bem perto da ilha do Fogo. Entretanto, eu que várias vezes no mesmo dia perscruto o mar, avistei da balaustrada da minha cabina uns pássaros brancos, voando bem rente ao mar. Não só voavam como mergulhavam e que grande fôlego tinham, pois não os via regressar! Eram bandos que vinham voando, uns atrás dos outros e, zás, mergulhavam no mar. Comecei, em vez de seguir o seu movimento para a frente, a olhar para trás e então descobri: eles saíam do mar, voavam largos metros e regressavam ao mar. Eu via claramente as suas asas, mas não eram pássaros, eram peixes voadores! Mais tarde, entre o navio e a ilha do Fogo, avistámos um grupo de golfinhos saltando, como se estivessem nos dando as boas-vindas. Pareciam bem alegres. A ilha do Fogo é pequena mas imponente, com a sua boca vulcânica, lá no alto, apontada ao céu. Parece impossível como alguém pode viver num local aparentemente tão inóspito, mas vimos várias casas na encosta leste da ilha, aquela que estava virada para nós. Toda a gente veio para a amurada, feliz por ver aquele pedaço de terra, e eu pensei que se era assim connosco, que não víamos terra há apenas 43 horas e tendo todo o conforto a bordo, o que sentiriam, ao avistar terra firme, os marinheiros de outrora, passados 43 dias a navegar e tantas, tantas vezes muito mais tempo. Nem dá para imaginar.

Agora é precisamente meia-noite e estamos em pleno Atlântico. Não há internet, não há rede de telemóvel e, dos cerca de 30 canais de TV a que podíamos assistir no início da viagem, apenas um funciona, não me perguntem porquê4. É o canal alemão, ZDF. O navio ruma a Sul a uma velocidade de 20 nós5. Não sei se cruzaremos amanhã a linha do Equador, mas suspeito que ainda não. Pelas minhas contas, será depois de amanhã.

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Uma piscina no meio do oceano.

DIA 7 – NAVEGANDO

Desde ontem que a temperatura subiu acentuadamente. São agora 17:20 e estão 30 graus. Com um tempo destes não há como resistir – hoje fui de manhã e de tarde para a piscina. Escolhi a da popa do navio porque, além de ficar muito perto da minha cabina, tem uma vista fabulosa sobre o mar.

(Domino já na perfeição alguns trajetos que se transformaram em rotina: da cabina para a piscina, para o ginásio ou, claro, para o Buffet, e vice-versa.)

Entretanto, os mergulhos na água salgada e os banhos de sol levaram-me a recordar que, há dias, em Lanzarote, referi não ser “fã de José” (Saramago)…

Sei que esta afirmação é bastante polémica, se bem que se enquadre no perfil do visado, ele próprio reconhecidamente polémico. Sei também, por outro lado, que muitos – incluindo alguns meus bons amigos – ficarão escandalizados por alguém com estatuto irrelevante criticar uma personalidade influente e que tanto prezam. Devo dizer que os compreendo, apesar de, desde há muitos anos, eu não simpatizar com José Saramago. Já agora vou tentar, em poucas palavras, dizer porquê.

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A piscina da proa.

Sei que a maioria das pessoas – entre as que o conhecem, claro – gosta de Saramago. Imagino que não apenas pelos livros que escreveu, mas também – e sobretudo – pela sua personalidade: a relação amorosa com Pilar del Rio; as ideias políticas; a defesa dos mais desfavorecidos; a denúncia das prepotências das grandes potências, sobretudo da grande potência EUA; a indignação perante as injustiças – isto para não falar da guerra particular com a Igreja ou da militância comunista, as quais, certamente, também agradarão a muitos.

Para além disto, que penso ser o mais conhecido, em larga medida devido à grande divulgação das ideias de Saramago pela comunicação social (incluindo, ultimamente, as redes sociais), existem também os livros que escreveu.

Sobre estes, a minha opinião não é certamente a mais avalizada, embora não reconheça em José Saramago o estatuto que, para mim, alcançaram escritores como Jorge de Sena, Aquilino Ribeiro ou o seu arquirrival (dele, Saramago) António Lobo Antunes, só para falar de portugueses que foram ainda, em períodos diferentes, seus contemporâneos.

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Os meus companheiros de cabina.

Saramago teve, porém, o mérito de criar um estilo e soube desenvolvê-lo, trabalhou incansavelmente para isso. O seu virtuosismo resulta da disciplina e do trabalho árduo, não do talento inato. A isto junta-se uma boa dose de imaginação, desenvolvida a partir de temas que o autor engendraria através de um processo de busca apurada, minuciosa, inventariada, obsessiva. Saramago viveu para construir um mito. A prova disto é a sua obra tardia, fruto de toda uma maturação. Não sou eu quem vai contestar o seu mérito, o seu valor artístico. Embora a sua prosa não me seduza tanto como a de muitos outros autores, não tenho dúvidas sobre a excelência da mesma, e sou o primeiro a reconhecer um certo preconceito, porventura fruto do que vou expor a seguir.

A par da obra, Saramago soube também construir uma imagem pessoal – a imagem do homem político. E tenho para mim que não foi tanto o político que serviu a obra, mas muito mais a obra que serviu o político. Notoriamente, este usou o prestígio angariado com aquela em prol da construção da imagem e do mito de lutador incansável contra a injustiça no mundo.

Do ponto de vista teórico, a luta de Saramago não foi contra uma qualquer visão da sociedade, contra uma ideologia específica. A luta de Saramago foi contra toda uma civilização, afinal, aquela na qual ele próprio nasceu, viveu e morreu. De facto, atacar a religião cristã6, a Liberdade e a Democracia é atacar os alicerces da nossa sociedade, é querer romper a nossa ligação a um passado do qual fazemos parte, como somos parte – e fruto – de nossos pais e estes de nossos avós.

E do ponto de vista prático, em que baseava Saramago essa sua luta? Supostamente numa moralidade superior – a sua. José foi um moralista, sem dúvida, um dos maiores do início deste século e, como qualquer moralista, a sua moral era bastante duvidosa. Numa entrevista, justificou o despedimento de um grupo de jornalistas, quando era Diretor do “Diário de Notícias”, como uma decisão coletiva, colegial, e não apenas dele próprio. Uma atitude destas está muito mais próxima de Cavaco Silva7,8 do que de Nelson Mandela, este sim, um exemplo moral para o mundo, não tanto por aquilo que diz, mas sobretudo por aquilo que faz9. E não seria preciso procurarmos Nelson Mandela para encontrarmos alguém que assumisse toda a responsabilidade, naquele caso, onde José Saramago a enjeitou. Muitos cidadãos comuns, não-moralistas, seriam capazes de o fazer. A moralidade não se apregoa, pratica-se, e quanto mais se apregoa menos se pratica, e vice-versa.

Receio bem que a admiração por Saramago resida, para muito boa gente, em coisas demasiado vagas e ambíguas como, por exemplo, o amor pela humanidade10 ou a sua luta por um mundo melhor — algo, felizmente, imensurável, subjetivo e até imprevisível na maioria dos casos.

Se pudéssemos medir, a priori, o tamanho dos corações humanos, suspeito que teríamos muitas surpresas. É que também não adianta muito apregoar o nosso amor pela humanidade – é preciso praticá-lo.
Et voilá. São 19:20, o céu encheu-se de nuvens escuras, mas ainda não chove. Estamos, neste momento, a 06º52.05’ N e 027º12.43’ W, bem entre a África e a América do Sul, e eu estou com fome.

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Já em águas brasileiras.

DIA 8 – NAVEGANDO

Choveu durante toda a última noite e hoje está um vento de sudeste bastante forte11. O céu mantém-se encoberto, embora não chova. Nestas condições não me apeteceu ir à piscina. São 17:30 (acabo de ver uma baleia agora mesmo – o comandante avisou e eu vi-a saltando no mar!), e estou na varanda da minha cabina. Está-se bem aqui, abrigado do vento. Olhando o mar, continuo vendo, de quando em vez, peixes voadores. Lá em baixo eles parecem muito pequenos, mas na realidade são muito maiores. É curioso como, navegando no alto-mar, não temos bem a noção da altura em que nos encontramos. Penso que isto acontece por estarmos rodeados de mar por todos os lados e por não termos os pontos de referência habituais. Assim, pensamos que os peixes voadores são mais pequenos do que na realidade são. Pelo contrário, se o navio estiver acostado e olharmos para baixo, temos uma noção mais clara da altura a que nos encontramos, pois as pessoas, os carros, etc – tudo é minúsculo em relação ao tamanho habitual12. Aqui, no mar alto, acontece de facto esse fenómeno estranho: parece que o mar está muito mais perto do que na realidade está.

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O amigo Jefferson Farias.

Hoje de manhã, após o pequeno-almoço, fui dar uma volta pelo navio. Descobri que no deck 7 se pode fazer caminhada ou jogging, junto da amurada, em ambos os lados do navio. Observei também muita gente trabalhando, aqui e ali. Ouvi várias versões sobre o número de tripulantes, mas é certo que são mais de 1.500. Manter um navio destes funcionando exige uma grande organização. Não deve ser fácil gerir o dia-a-dia de um monstro flutuante de 137.000 toneladas. O serviço de quartos, por exemplo, é melhor do que o da esmagadora maioria dos hotéis. A minha cabina é limpa duas vezes por dia e são mudadas todas as toalhas utilizadas. A alcatifa é aspirada diariamente. Como já sei as horas a que o simpático camareiro vem fazer a limpeza, nunca estou na cabina nesse horário. No final de cada dia ele sempre trás o Daily Program, onde podemos ler sobre tudo o que se passará a bordo no dia seguinte.

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Ilhota de São Paulo, Brasil.

Por falar em jornais, hoje conheci o rapaz que tem a seu cargo a distribuição de toda a imprensa a bordo, Jefferson Farias. Há vários jornais que são impressos a bordo e que podem ser adquiridos pelos passageiros13. Eu queria comprar um para saber qual fora o resultado do jogo entre a Suécia e Portugal, mas logo Jefferson me tranquilizou, dizendo que Portugal vencera a Suécia, com três golos de Cristiano Ronaldo. Perguntei-lhe se tinha a certeza e ele respondeu que sim, que estava muito feliz porque também era português e que vivera dez anos em Portugal, em Sintra. Para mo provar mudou rapidamente o sotaque para português de Portugal, de uma forma tão perfeita que me surpreendeu de verdade14. A partir dali sempre falou com aquele sotaque, excetuando quando tinha de se dirigir a brasileiros. Não pude deixar de rir. Foi uma agradável surpresa conhecer este jovem. Ele é a prova de como, de facto, somos povos irmãos e (mais) um exemplo vivo do espírito deste blogue. Fiquei realmente feliz por conhecê-lo e trocámos, com um aperto de mãos, um caloroso “até sempre”.

Agora, há cerca de meia-hora atrás, o comandante anunciou que chegáramos às ilhas de São Pedro e São Paulo15, uns rochedos a cerca de 510 milhas de Natal, já em território brasileiro. Para nossa surpresa, veio ao encontro do navio uma pequena embarcação (é difícil não ser “pequena”, comparada com o Preziosa) e desta fizeram descer uma ainda mais pequena (um pequeno bote de borracha), onde dois homens transportaram peixe para o nosso navio – cavala e atum. O comandante do Preziosa e o capitão do rochedo são amigos, o que podemos verificar pela comunicação entre ambos, perfeitamente audível pelos altifalantes a bordo. Despediram-se, até Abril.

Este momento foi muito interessante, com toda a gente assistindo da amurada, acenando para os homens do Transmar-III, e vice-versa. Quando o Preziosa retomou a marcha, o comandante fê-lo apitar fortemente três vezes, como sempre faz nas despedidas.

(Agora é mesmo um pássaro que avisto lá em baixo, rente ao mar. Parece uma espécie de gaivota ou um corvo marinho, não sei… consegui fotografá-lo, mas a distância era grande. Isto deve querer dizer que há terra não muito longe).

Posto isto, estamos bem perto do Equador e, afinal de contas, já estamos no Brasil. Logo, pelas 22:00, passaremos o Equador. E antes de dormir temos de atrasar os relógios uma hora. O horário será a partir de hoje o do Brasil.

DIA 9 – NAVEGANDO

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A célebre e belíssima ilha Fernando de Noronha.

Acordei cedo e fui inspecionar o céu e o mar, como sempre faço. O dia prometia ser agradável, com sol e calor. Depois da rotina de todos os dias, banho, pequeno-almoço, etc, dirigi-me à piscina da proa,16 como já referi, a minha favorita. Mal cheguei, comecei a ver umas aves muito elegantes sobrevoando o navio. São brancas, mas algumas têm as asas negras na parte interior, enquanto outras têm apenas um rebordo negro. Talvez umas sejam machos e outras fêmeas, não sei. Sei que, como disse, são muito elegantes, esguias, com o bico comprido, cónico e reto, e cada uma das asas em forma de boomerang. Algumas pairavam sobre o navio, acompanhando-o sem um movimento, só planando, enquanto outras voavam mais baixo, a uma velocidade, por vezes, estonteante. Nunca tinha visto um pássaro voar tão depressa. A cauda é bifurcada, mas, quando voa a alta velocidade, fica unida, formando um elemento só com o tronco e a cabeça, que termina naquele bico comprido e cónico — e, em cada lado, as asas em formato boomerang, de enorme envergadura. O cúmulo da aerodinâmica. Não admira que tenhamos visto estas aves tão longe de terra, pois, à velocidade a que se deslocam, percorrem rapidamente grandes distâncias. Estes simpáticos seres, que vim a descobrir serem atobás, acompanharam-nos durante todo o dia, inclusive, quando passámos, cerca das 12:30, por Fernando de Noronha.

Navegámos bem perto do arquipélago, e foi possível observar um mar tranquilo e límpido, praias de areia branca, com dimensões, formas e exposições ao mar variáveis, alguma vegetação nas escarpas, um porto de abrigo para embarcações de recreio e, sobretudo, deu para perceber que ali é, para quem goste do mar, o verdadeiro paraíso. O comandante Giuliano Bossi fez o navio deslocar-se lentamente para que pudéssemos apreciar toda a costa norte da ilha, após o que, como habitualmente, obrigou o Preziosa a soltar, por três vezes, aquele ronco imenso que parece vir das suas entranhas. De uma embarcação pequenina, lá em baixo, acenavam-nos vigorosamente, dizendo adeus, e eu imagino o espetáculo que deve ser alguém observar dali a lenta passagem desta imensa montanha flutuante. O Preziosa tem mesmo que ir muito devagar, pois a ondulação que a sua passagem rápida provoca poderia virar um barquinho daqueles. Ao que parece, moram em Fernando de Noronha cerca de 3.400 pessoas. Com os turistas que estarão visitando a ilha neste momento, imagino que ali estarão, mais ou menos, tantas pessoas quanto as que seguem a bordo do nosso navio.

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O waterslide do Preziosa tem uma parte transparente que sai fora no navio.

Depois do almoço, decidi experimentar a piscina de proa, aquela que fica coberta quando está mau tempo, o que não foi o caso de hoje, claro. Esta piscina é mais comprida e, num dos lados, mais profunda, com 1,90 m. Sempre dá para umas braçadas. Hoje apetecia-me variar e, vai daí, fui experimentar um equipamento que faz a delícia do pessoal mais novo a bordo – O Vertigo Waterslide. Trata-se de um tubo com uns 80 metros de comprimento e água sempre correndo, que vem, entre curvas e contra-curvas, desde o topo do Preziosa até o 15º deck17. O tubo é negro quando visto de fora, mas, quando fazemos o slide, vemos uma sucessão de desenhos geométricos muito coloridos, numa sequência tão rápida quanto a velocidade a que descermos. Para tornar a descida ainda mais emocionante, há uma curva do tubo que é transparente e sai fora do navio. Se der tempo para nos apercebermos, ficamos literalmente no espaço, só com o oceano por baixo de nós. A descida deve demorar uns 25 segundos, mas é pura adrenalina. Repeti três vezes, e amanhã quero mais.

Navegamos sobre um mar profundo. Como eu desejo que seja o sono em que vou mergulhar agora.

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Safari Lounge. Um dos bares e sala de espetáculos do navio.

DIA 10 – NAVEGANDO

Hoje acordei quando já nos encontrávamos bem perto da costa brasileira, ao largo de Recife/Maceió. Fiquei impressionado por navegarmos numa zona onde a profundidade do mar é muito reduzida, por volta dos 50, 60 metros, inferior à altura do Preziosa18. O tempo estava quente, bem quente e, claro, pensei logo num mergulho na minha piscina favorita, a Garden Pool, mas, entretanto, fui dar uma volta pelos decks inferiores para tirar umas fotos. Os espaços públicos do navio estão muito bem iluminados e decorados, sendo os tons ocre e o dourado, opções bastante utilizadas. É o que se pode observar, por exemplo, nas cabinas e no Safari Lounge19. Os italianos, quando se trata de design, não brincam em serviço. O Preziosa é, além de tudo o mais, uma obra de arte.

Depois do almoço regressei à piscina, mas passado pouco tempo, não sei porquê, pus-me a olhar os velhinhos dentro de água, ali há que tempos, e pensei com os meus botões que era impossível eles não mijarem dentro de água20. Entretanto outros entravam, estavam um pouquinho, e saíam – e, na minha cabeça, notoriamente tinham ido mijar. Decidi ir-me embora e fazer umas descidas no waterslide. Pelo menos ali, a água sempre corre continuamente e eu estou a tomar o gosto pelo slide, apurando a técnica, descendo mais rapidamente.

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Fim do dia em alto mar.

Por volta das 16:00 estava na minha cabina terminando de ler um livro muito especial e que, desde já, recomendo vivamente. O título é A Mulher que Amou o Faraó21, um romance emotivo, belo e interessante, que prende o leitor22. A autora é Helena Trindade Lopes, uma historiadora que, entre muitos outros cargos e funções, é presidente da Associação Portuguesa de Egiptologia. Acontece que conheço a Helena desde os sete, oito anos de idade. Passávamos juntos as férias grandes, no povoado de Passos, perto de Viseu, no interior norte de Portugal, de onde os meus pais (e não sei se apenas um ou ambos os pais dela) eram oriundos, isto nos anos sessenta do século passado. A casa da minha avó era contígua à casa da avó dela, e a Lena conheceu muito bem a minha mãe, que nos obrigava a dormir a sesta — um hábito que, pelos vistos, estou a recuperar — num quarto da casa da minha avó. Lena gostava de mim e eu gostava dela.

Todos os verões eu e a Lena nos encontrávamos, brincávamos, e eu recordo com nostalgia esses tempos de infância. Nossos percursos não mais se cruzaram com aquela regularidade, mas permanecemos amigos até hoje.

(Agora me lembro de que, naquela época eu tinha um padrinho americano que me mandava roupa e dólares, pelo Natal, que eu ia receber a casa dos pais dele, ali ao bairro América, a Sapadores. Os pais morreram. E o meu padrinho – será vivo ainda?)

E enquanto viajo no tempo para trás, o Preziosa continua em frente. Amanhã aportaremos em Salvador.

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Pelourinho, em Salvador.

DIA 11 – SALVADOR

Já tinha visitado Salvador, em março de 2006, por isso, desta vez, foquei-me em duas ou três coisas muito específicas, que quis analisar mais profundamente. Como não podia deixar de ser, fui para o Pelourinho23, certamente a zona melhor preservada e mais interessante, o centro histórico de Salvador. Visitei a antiga igreja dos jesuítas, hoje catedral, localizada no Terreiro de Jesus, antes de cumprir o primeiro objetivo a que me havia proposto que era visitar a igreja de São Francisco. Exemplar notável do início do período barroco, o interior da igreja é todo revestido com talha dourada, e ali estão aplicados mais de 800 quilos de ouro. O resultado é uma das igrejas mais bonitas do Brasil, quiçá, do mundo. Ao lado, no convento da Ordem Terceira, podemos observar, no átrio, um conjunto notável de azulejos com cenas de Lisboa, ainda antes do terramoto de 1755.

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Início da noite em Salvador.

Após a visita, que se fez demorada, pois há muita coisa para ver, veio a hora do almoço e do segundo objetivo: comer uma boa moqueca. Quem procura sempre alcança, e eu, posso dizê-lo, procurei e alcancei, provavelmente, a melhor moqueca do Pelourinho. Ainda por cima, o restaurante é um buffet e, assim sendo, há a possibilidade de provar várias moquecas, que se revelaram todas excelentes, diga-se, mas a melhor, sem dúvida, uma que nunca tinha provado até hoje – moqueca de bacalhau. Divinal. Quem quiser experimentar só tem de dirigir-se ao Museu de Gastronomia Baiana – Senac, onde se formam cozinheiros para os melhores restaurantes de comida típica da Bahía. O almoço não é barato, rondará os 50 reais por cabeça, mas garanto que vale a pena.

Depois do almoço fui dar uma volta a pé pelo Pelourinho, gostei, está bem preservado, melhor do que há sete anos. Uma característica do “Pelô” é que sempre se houve algum tipo de música. Na volta para o navio tive que regressar pelo Lacerda e, claro, passar mais uns minutos numa fila.

Passado pouco tempo depois de ter entrado no navio, estava o sol a pôr-se, o Preziosa começou a afastar-se muito devagarinho do cais, rodou e rumou a Sul.

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Sobrevoo de inspeção.

DIA 12 – NAVEGANDO

O Brasil é um país imenso, toda a gente sabe disso, não admira que o dia de hoje fosse passado a navegar, sem paragens, pois entre Salvador e Búzios, aonde chegaremos amanhã cedo, distam 660 milhas náuticas. Durante quase todo o dia navegámos na zona costeira da Bahía, zona tradicionalmente com bom tempo, por isso não admira que as piscinas hoje estivessem cheias de gente. Eu fui para a Garden Pool bem cedo, por volta das 8:15, a fim de conseguir uma espreguiçadeira não muito longe da água, e alternei, toda a manhã, banhos na piscina com descidas no water slide. Por volta das 10:00 avistámos o arquipélago de Abrolhos, já no sul da Bahía, e também, várias baleias.

O sol estava bem forte, e às 15:00, já depois de ter almoçado, vim até a cabina tomar um banho de água doce, manter-me à sombra e reler “O que diz Molero”, de Dinis Machado, uma obra-prima da Literatura mundial. E tudo ali, numa novela que se lê num dia. Sem parar.

Agora, já depois do sol se pôr, temos passado por muitas plataformas petrolíferas, que o navio vai ultrapassando a uma velocidade entre 17 e 18 nós. O tempo começou progressivamente a ficar cinzento, e chove.

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O Preziosa em Salvador.

Os preços a bordo, como seria de esperar, são puxadinhos. Normalmente tomo um copo de vinho tinto às refeições, um copo bem pequeno, cujo preço varia entre os 4,5 e os 6 euros, consoante a marca24. Mas devo dizer que o vinho é bom, aliás, o vinho italiano, em geral, é excelente.

A bordo não se movimenta dinheiro, a não ser na entrada do navio e na saída. Quando se entra no navio tem de se depositar no mínimo 150 euros, em dinheiro ou através de cartão de crédito, sendo então entregue o MSC Card, que serve para tudo a bordo, desde abrir a porta da cabina até comprar bebidas, lembranças, ir ao cabeleireiro ou, simplesmente, pedir uma toalha emprestada para estender numa espreguiçadeira da piscina. O cartão serve para tudo e, através dele, tudo está controlado. No fim do cruzeiro dirigimo-nos ao Serviço de Contabilidade para acertar as contas. Se gastarmos mais que os 150 euros, pagamos o excesso; se gastarmos menos (o que em 99% dos casos não acontece) a MSC devolve-nos o valor não utilizado. Convém dizer que são cobrados 6 euros diários por “service charge”.

Porém, se só se beber água25, café e chá (disponíveis 24 horas por dia) e não se utilizar qualquer serviço pago, como o SPA ou o cabeleireiro, por exemplo, não se comprar qualquer artigo a bordo (roupa, perfumes, relógios, lembranças do navio, fotos que os fotógrafos de bordo tirem, etc), não se utilizar a Internet, nem se fizer qualquer excursão em terra, em princípio só será cobrada a tal taxa diária.

E agora que, como disse, o tempo está cinzento e chuvoso, vou deitar-me e ver, pelo serviço de DVD a bordo, para puxar o sono, pela enésima vez e em italiano, um dos filmes da saga “O Padrinho”.

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Búzios, no estado do Rio de Janeiro.

DIA 13 – BÚZIOS

Chegámos a Búzios por volta das 8:00, com o dia cinzento e uma chuva miudinha, persistente. Não existem infraestruturas em terra para receber navios grandes, por isso, O Preziosa ancorou ao largo. A propósito disso, houve um momento em que o navio, depois de parar, abanou todo, num estremecimento ruidoso, que parecia um tremor de terra. Achei aquilo estranho, mas logo percebi o que estava acontecendo – estavam a lançar ferro para prender o navio ao fundo do mar… Faço uma pequena ideia do tamanho e do peso das âncoras do Preziosa!

Passado pouco tempo, já quatro ou cinco lanchas do navio desciam para o mar, e os passageiros começaram o embarque com destino a terra. Cada lancha leva 120 passageiros e, em pouco tempo, todos os que queriam pisar terra firme estavam em Búzios, município celebrizado por Brigitte Bardot, que ali viveu numa determinada época e que ali tem uma estátua, numa rua que tem o seu nome.

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Praia da Azedinha, em Búzios.

Há praias bonitas em Búzios e eu, apesar de não ter visto todas, gostei muito da praia da Azedinha, mesmo ao lado da Azeda, mas, como o nome indica, mais pequena e, também, mais graciosa. Nota-se que Búzios, no verão, fica sobrelotado. Falei com pescadores, gente afável e simpática, que, enquanto amanhavam o peixe e lançavam, para a areia da praia, os restos a gaivotas e urubus, me foram elucidando sobre as denominações das diversas espécies, desde o bonito, “sobrinho do atum”, até a anchova, o cação, a maria-mole, a corvina e a curuvinota.

Ainda fui a tempo de almoçar a bordo. Não tardou muito que levantássemos ferro e rumássemos ao destino final deste cruzeiro – Santos. O que é bom acaba depressa e, não sei se por não querer pensar nisso ou se por causa dos mar e terra e céu cinzentos, deu-me um sono tão grande que, mesmo com a porta da sacada aberta, adormeci.

DIA 14 – SANTOS

A chuva e o céu cinzento não mais nos deixaram até o fim. Hoje tivemos de nos levantar cedo, muito cedo mesmo, pois o navio chegou a Santos às 6:00 e nós tivemos de deixar as cabinas às 7:15. Pouco mais há a relatar, a não ser um desembarque caótico, com as malas espalhadas num armazém imenso, o navio longe desse armazém e o transporte realizado entre um e outro, por dezenas de autocarros, entre trabalhadores, máquinas, silos, obras, ferramentas, viaturas, poças de água, óleo e o persistente céu cinzento cobrindo tudo.

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O meu camareiro indonésio, I Gede Yudana Putra.

É tempo de recordar algumas pessoas, sobretudo da tripulação, aquelas com quem mantive mais contacto. O meu simpático e eficiente camareiro, indonésio, I Gede Yudana Putra; o já referido Jefferson Farias; e também Janio B Costa, um jovem cearense a quem auguro um grande futuro; as paulistas de Ribeirão Preto, Leila e Maria Helena; a santista que conheci na última hora, quase no último minuto, mas ainda a bordo, Sónia Parolari.

No Preziosa, a qualquer hora do dia ou da noite, há gente a trabalhar e o essencial é cada um saber o que tem de fazer. Para isso, é importante o papel dos chefes de equipas, numa função que, reconheço, nem sempre será fácil, uma vez que, como já referi atrás, trabalham a bordo pessoas de múltiplas nacionalidades. Entre aqueles que contactei, havia na tripulação do navio26 representantes dos seguintes países: Itália (sobretudo oficiais), Brasil, Indonésia, Montenegro, Finlândia, Filipinas, Honduras, Ilhas Maurícias, Índia, Rússia, Roménia, Guatemala, Ilhas Samoa, Peru e Israel.

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1 “Bombordo”, como a palavra indica, quer dizer “bordo bom”, ou seja, o bordo do navio de onde se avista terra. Isto deve-se às primeiras viagens dos portugueses, pois, a costa africana ficava do lado esquerdo do navio, o lado bom.

2 Alguns historiadores compartilham a ideia de que as Canárias foram descobertas pelos portugueses ainda na primeira metade do século XIV (1336).

3 Uma milha náutica corresponde a 1.852 metros.

4 A MSC disponibiliza dois canais de DVD, mas os filmes são sempre os mesmos, passando em sessões contínuas.

5 20 nós correspondem a 23,0156 milhas/hora. E como surgiu a denominação “nó”? É devida aos portugueses. Estes jogavam ao mar um pedaço de madeira amarrado a uma corda cheia de nós. Depois contavam o número de nós que passavam por entre os dedos durante meia-hora. O tempo era medido com uma ampulheta. Até hoje, a velocidade dos navios é medida em “nós”.

6 Repare-se que não é, restritamente, a Igreja Católica, nem, irrestritamente, qualquer religião que Saramago ataca. O seu alvo específico é o Cristianismo, base da civilização ocidental.

7 Aquele que nunca tem dúvidas e raramente se engana. O mesmo que afirmou, recentemente, não haver alguém mais honesto do que ele.

8 Muitos ficarão ainda mais chocados depois desta comparação entre Saramago e Cavaco, tão distantes ideologicamente. Mas a mim cada vez me interessam menos as ideologias e cada vez me interessam mais as pessoas. Deviam ser estas a criar todos os dias novas “ideologias” e não aquelas a formatarem as pessoas.

9 Infelizmente, hoje, Mandela já pouco diz e faz. Como se sabe este homem tolerante (e extraordinário) – que sempre se considerou falível e que nunca se achou exemplo para os outros – está, desde há bastantes meses, muito doente.

10 Ficou também célebre o amor, idealizado, entre Saramago e Pilar del Rio. O filme (documentário) “Pilar e José” mostra, porém, uma realidade diferente.

11 Dado que o navio segue na direção Sul, é normal que o vento pareça ainda mais forte. A isto chama-se “vento aparente”. Como é evidente, se o vento vier da popa do navio (neste caso, de Norte) o vento aparente será mais fraco que o vento real.

12 Para se ter uma ideia, a altura do Preziosa é de 67,69 metros.

13 A minha dúvida permanece sobre como chegam os jornais ao navio, dado que não consigo aceder à Internet. Mas o facto é que hoje comprei o “Folha de São Paulo”, e na última página estava inscrito em grande destaque o nome do sítio da Internet onde supostamente se pode aceder para imprimir mais de 2.000 jornais de 95 países, em 52 línguas: www.newspaperdirect.com.

14 Na realidade, Jefferson nasceu em Fortaleza e é filho de mãe brasileira e pai português. Nada que me não seja familiar, pois tenho uma filha em idênticas circunstâncias.

15 Charles Darwin visitou estas ilhas em 16 de Fevereiro de 1832.

16 The Garden Pool.

17 O deck mais alto do navio é o 18º, mas o topo do tubo – onde começa a vertiginosa descida, e a que se acede por uma escadaria, em armação, com vários lanços, do género daquelas estruturas por onde se sobe para chegar às pranchas de salto de algumas piscinas – fica ainda um pouco mais alto.

18 Porém, por volta da hora do almoço, já navegávamos numa zona mais profunda, em torno dos 1.700 metros.

19 Espaço situado no 7º deck onde se realizam espetáculos e reuniões, com palco, pista de dança, bar e cabina de apoio, multimédia.

20 Todas as piscinas são esvaziadas e lavadas, à noite, sendo, manhã cedo, de novo enchidas com água bombeada do mar. Este processo repete-se todos os dias.

21 Helena Trindade Lopes, “A Mulher que Amou o Faraó”, Esfera dos Livros, Lisboa, 2011.

22 Uma análise mais detalhada será, provavelmente, publicada na categoria “Livros”.

23 Ainda não percebi por que não construíram um outro acesso (têm espaço para isso), desde cá de baixo, em alternativa ao elevador Lacerda. Bem sei que o preço da subida (e descida) é praticamente insignificante (15 centavos), mas o custo das filas justifica a construção de uma escadaria – o que além de ficar bonito, incentivava as pessoas a praticarem exercício físico.

24 A bordo tenho bebido: Regale Rosso Toscana IGT, “Tinimenti Andrenci”; Chianti Leonardo DOCG “Dalle Vigne”; Báron de Pardo Crianza DOCA “Nava-Rioja”.

25 No Buffet Inca & Maya existem várias máquinas das quais se pode retirar água e gelo, a qualquer hora. Vi muita gente levar garrafas de plástico, enchê-las com água e levá-las para a cabina ou mesmo para fora do navio. Porém, de acordo com o meu amigo Jefferson, aquela água contém demasiado cloro e não deve ser bebida em excesso.

26 A legislação brasileira obriga que, nos cruzeiros no Brasil, pelo menos 30% da tripulação seja nacional, razão pela qual estavam muitos tripulantes brasileiros a bordo.

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Alfama anfitriã

recetividade a visitantes estrangeiros

Muito curioso este mapa publicado pelo Washington Post [1]. Podemos verificar que são poucos os países que atingem o nível mais elevado de recetividade a visitantes estrangeiros. Em toda a América, apenas o Canadá. Na Europa, oito países tão diversos quanto o são Portugal, a Islândia, a Bélgica, a Irlanda, a Áustria, a Bósnia-Herzgovina, a Macedónia e Malta. Em África, Marrocos, Mali, Senegal e Bukkina Faso. No Médio Oriente, o Yemen e os Emiratos Árabes Unidos. Na Ásia, apenas a Tailândia e Singapura. Por fim, a Nova Zelândia, na longínqua Oceania… ao todo, 18 países.

Numa segunda linha, aparecem países como o Brasil, a Austrália, o México, a Turquia, a Finlândia e a Suécia.

A leitura deste mapa suscita-nos duas reflexões, que gostaria de partilhar aqui. Em primeiro lugar, mostra-nos que a diferença entre os dois países ibéricos, Portugal e Espanha, se reflete na diferença entre o Brasil e os restantes países da América do Sul. Há uma correlação positiva entre Portugal e Brasil, países claramente bons anfitriões, e chega a ser surpreendente, a baixa recetividade a estrangeiros de países como a Argentina, o Equador e, sobretudo, a Bolívia e a Venezuela. Isto está de acordo – ou, pelo menos, não é contraditório – com a ideia, defendida por muitos, de que a colonização portuguesa foi bastante mais tolerante do que a colonização espanhola.

Por outro lado, este mapa mostra-nos que existe uma outra riqueza no mundo que não apenas a riqueza material.  Tal como as pessoas que concluem com êxito cursos de ciência e tecnologias são, em geral, financeiramente mais ricas do que aquelas que concluem cursos de humanidades ou letras, também os países podem ser, económica e financeiramente, muito ricos, sendo, ao nível humano, relativamente pobres.   E tanto mais pobres quanto mais basearem as suas estratégias exclusivamente nas questões económicas. A riqueza humana não é transacionável nos mercados.

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Miradouro das Portas do Sol. Um dos pontos obrigatórios, com vista fantástica sobre Alfama e o Tejo, para quem visita Lisboa.

Por fim, tudo isto me leva a pensar no grande número de estrangeiros que visitam diariamente Alfama. Na maioria das ruas de Alfama vemos, hoje em dia, mais estrangeiros que portugueses. Muitos voltam. E muitos, ainda, decidem aqui viver. Alfama, com sua multiplicidade de visitantes e habitantes, é a prova provada da ancestral hospitalidade portuguesa[2].

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[1] Ver em http://www.washingtonpost.com, “40 maps that explain the world”.

[2] Vale a pena conferir aqui

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Portugal, esse retângulo velhinho e independente

Portugal é um país pequeno. Para se ter uma ideia, o Brasil é cem vezes maior que Portugal. Apesar disso, este pequeno país sempre quis ser independente. É um dos países mais antigos do mundo e o Estado que mantém as atuais fronteiras há mais tempo na Europa. Resistiu, desde a sua fundação por D. Afonso Henriques, às ocupações de castelhanos e de franceses, quer no seu território peninsular, quer nas colónias espalhadas pelo mundo, estas muito cobiçadas também pelos holandeses.

Apesar do reduzido território, Portugal teve “engenho e arte” para se expandir além fronteiras. A história não é totalmente clara, mas para além das ilhas Canárias, Madeira, Açores,  das costas leste e oeste africanas, da Índia, Malásia, Brasil etc. — aquelas terras cujas descobertas é consensual atribuí-las aos lusitanos —  há quem defenda que os portugueses chegaram também primeiro à China, à Austrália, ao Japão e mesmo à América do Norte [1].

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Em 1494, o Papa dividiu o mundo ao meio atribuindo metade aos espanhóis e a outra metade aos portugueses. O povo desse pequeno retângulo “à beira-mar plantado” virara-se para o mar ignoto e conquistara-o. Ninguém pode duvidar dos feitos desses navegadores oriundos da Escola de Sagres (que, na verdade, parece ter-se localizado mais para os lados de Lagos), os maiores da história marítima mundial. Isto cingindo-nos aos livros de história oficiais, porque, com maior ou menor credibilidade, muitos autores apresentam evidências do pioneirismo português noutras paragens. O caso da Austrália (e da Nova Zelândia) é paradigmático, dado que existem mapas portugueses da costa deste continente 250 anos antes da chegada do capitão Francis Cook [2].

Seja como tenha sido, um país tão pequeno, com número tão reduzido de habitantes, dificilmente poderia dar-se ao luxo de ter tão vastas e dispersas colónias, num mundo onde outros países muito maiores emergiam: o feito de manter essas terras não foi, talvez, menor do que aquele de as encontrar. Para o efeito, Portugal usou uma estratégia baseada em dois pontos essenciais:

1º A miscigenação com os povos nativos e também com os escravos, para fazer face à escassez de indivíduos.

2º A aliança com outros países, nomeadamente a Inglaterra, para fazer face às ameaças aos territórios encontrados.

A consequência do primeiro ponto foi o aparecimento do mulato, do caboclo, de povos e países interraciais, cujo paradigma é, sem dúvida, o Brasil, talvez o povo com mais mistura genética recente do mundo, fruto da miscigenação de portugueses, índios e negros. Os portugueses são, sem dúvida, um dos povos mais exogâmicos do mundo. E muitos brasileiros e portugueses, quando se afastam afetivamente uns dos outros, talvez desconheçam que as culturas de ambos têm necessariamente muito em comum e que, mesmo biologicamente, existe uma ligação fortíssima entre os dois povos. Portugal e Brasil são literalmente países irmãos[3].

A consequência do segundo ponto foram a pobreza e a estagnação económica patentes durante séculos em Portugal. A aliança com a Inglaterra permitiu que conservássemos integralmente o Brasil, mas esta proteção política e militar teve graves contrapartidas económicas. Portugal foi obrigado a comprar os tecidos ingleses, pagando-os com o ouro do Brasil: manter este território saiu muito caro a Portugal! Porém, só assim seria possível conservar o Brasil; e só assim foi possível chegar ao grandioso Brasil atual.

Hoje Portugal é de novo apenas aquele quadrado debruçado sobre o Atlântico, ao qual se acrescentam uns pontinhos no meio do mesmo oceano – os arquipélagos da Madeira e dos Açores (embora tenhamos uma vasta e estratégica ZEE ainda não explorada). E mais uma vez passamos por uma grave crise, depois dos anos eufóricos que se seguiram ao 25 de abril, e do sonho europeu. O país que abriu o caminho da globalização torna-se numa das suas maiores vítimas. Aderindo de boa fé ao projeto europeu pela mão de um dos maiores europeístas de sempre, Mário Soares, vê-se agora esmagado por regras impostas pela cúpula europeia, que se mostra renitente em avançar para uma união política e fiscal, única forma de construir uma Europa mais solidária.

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Notas:

[1] Em Dighton, Massachussets, nos EUA, existe uma rocha, com cerca de 40 toneladas de peso, que contém uma série de inscrições, as quais vêm, desde há séculos, sendo alvo de várias tentativas de decifração. A teoria mais recente, enunciada em 1918 pelo americano Edmund B. Delabarre e mais tarde defendida em obra do mesmo autor, publicada em 1929 (“Dighton Rock”), sugere que parte dessas inscrições foram feitas, em 1502, por Miguel Corte Real, um açoriano que teria embarcado de Lisboa em busca de seu irmão que partira desta mesma cidade um ano antes. Esta teoria foi retomada e desenvolvida pelo historiador e médico luso-americano Manuel Luciano da Silva. Devemos, obviamente, nós ainda mais, pois não somos historiadores e não tivemos acesso às fontes, ter cuidado com a divulgação destas teorias. De forma alguma queremos deixar a impressão de que as mesmas têm rigor científico. A verdade é que, pura e simplesmente, não podemos aquilatar esse rigor, pelo que as apresentamos a título meramente informativo.

[2] A teoria de que foram os portugueses os primeiros a chegar às Austrália e Nova Zelândia pode ler-se no livro (2007) do australiano Peter Trickett, “Beyond Capricorn: How Portuguese adventurers secretly discovered and mapped Australia and New Zealand 250 years before Captain Cook”, entre outras obras anteriores. Tudo leva a crer, porém, que esta obra tem pouco rigor científico e (apesar dos aplausos – e condecorações – que Trickett obteve em Portugal), apesar das pistas que levanta, não passa de uma obra de ficção. Isto mesmo refere o historiador português Paulo Jorge de Sousa Pinto no excelente artigo, A Austrália descoberta pelos portugueses? Ficções aquém e além de Capricórnio, publicado na revista Brotéria, volume de maio/junho de 2014, nº 178. (Esta nota foi acrescentada ao presente artigo em data posterior à primeira edição do mesmo).

[3] Estudos coordenados pelo conceituado professor Sérgio Pena da UFMG, mostram que 50% dos cromossomas y (masculino) da população negra brasileira são de origem portuguesa: http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/05/070326_dna_estudo_pena_cg.shtml o mesmo se verificando em relação à população brasileira, em geral: http://brasileconomico.ig.com.br/index.php/noticias/agenda-lusobrasileira_108858.html

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Brasil e protecionismo

A atual política económica brasileira é claramente protecionista. Esta política defende as empresas e indústrias brasileiras – sobrecarregando com impostos os produtos importados — e visa manter baixa a taxa de desemprego. Porém, há que considerar algumas consequências perniciosas do protecionismo, dado que as empresas:

– acomodam-se e não investem na formação e qualificação dos seus quadros, tornando-se obsoletas;

– contratam funcionários em número excessivo, de baixa produtividade e auferindo baixos salários;

– praticam preços elevados para cobrirem o custo da ineficiência e obterem, ainda assim, lucros chorudos, face à ausência de verdadeira concorrência;

– prestam, em geral, serviços de baixa qualidade [1].

Quem paga esta ineficiência é o consumidor. Porém, quem tem muito dinheiro não tem problema, mesmo que o preço a pagar seja exorbitante, e pode até dar-se ao luxo de comprar mais barato no exterior, quando viaja pela Europa ou pelos EUA. Do outro lado da moeda ficam os menos abastados, que compram a prestações (parcelado) e que, para pagarem carro, celular, etc, têm de muitas vezes cortar em bens de consumo básicos[2]. A estes, chamam aqui no Brasil, “classe média”, mas a verdade é que – em comparação com os países mais desenvolvidos – se tratam de pobres encapotados[3]. O Brasil ainda é, em larga medida, um país de (poucos) ricos e (muitos) pobres.

No protecionismo não existe uma justa concorrência de preços e o ambiente económico torna-se pernicioso para os mais pobres dado que, com o aumento dos preços, é inevitável a subida da inflação. Assim, mesmo com programas destinados a acabar com a pobreza extrema, o fosso entre ricos e pobres não diminui[4]; ou diminui apenas aparentemente, pois, como se sabe, a inflação afeta sobretudo os mais desfavorecidos. Um outro efeito desta política protecionista é que ela se torna viciosa, difícil de eliminar a curto prazo, a não ser com elevado custo social (sobretudo, desemprego).

Com a deterioração do tecido empresarial, cai enormemente a taxa de exportação de produtos de maior valor acrescentado, permanecendo o Brasil um exportador de matérias-primas, como sempre foi no passado, vulnerável às grandes flutuações dos preços nos mercados internacionais, vivendo quase em exclusivo, nos outros setores, do consumo interno.

Talvez o protecionismo alguma vez tenha feito sentido. Mas o Brasil — este extenso, rico e belo país — precisa criar as condições para abandoná-lo, caso queira finalmente dar o salto para a modernidade.

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Notas:

[1] É o caso, por exemplo, das empresas de comunicação (telefonia), particularmente daquelas que prestam serviços de internet: caros e muito longe dos padrões dos países desenvolvidos. Porém, quando as empresas brasileiras têm de se abrir à concorrência as coisas melhoram, como é o caso do mercado da aeronáutica, só para citar outro exemplo.

[2] A classe média no Brasil tem renda per capita entre R$ 291 e R$ 1.019 e representa 54% da população do país: http://g1.globo.com/economia/noticia/2012/05/classe-media-tem-renda-entre-r-291-e-r-1019-diz-governo.html

[3] Para se ter uma ideia, compare-se os salários desta “classe média” brasileira e os das suas congéneres norte-americanas ou europeias. Verificar-se-á que no Brasil os salários são muitíssimo menores e que o custo de vida – que há meia-dúzia de anos era, generalizadamente, bem menor aqui – é hoje, em vários bens, mais caro no Brasil do que naqueles países.

[4] A desigualdade entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres, no Brasil, é de 50 para 1. Maior do que a mais elevada entre os países da OCDE: http://economia.uol.com.br/ultimas-noticias/infomoney/2011/12/05/desigualdade-entre-ricos-e-pobres-no-brasil-e-maior-do-que-a-mais-alta-da-ocde.jhtm

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São Francisco do Sul, Santa Catarina, Brasil

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O acesso a São Francisco faz-se, normalmente, por Joinville, uma cidade próspera, ordenada, limpa e a maior, em número de habitantes, do estado catarinense. Um exemplo que os prefeitos de todas as cidades brasileiras deveriam seguir. A influência alemã faz-se sentir fortemente aqui, nas pessoas, nas edificações e nos costumes.

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Ao chegar ao centro de São Francisco, após uns 30 kms, tem-se aquela sensação que experimentamos em cidades como Colónia del Sacramento, Olinda, Parati ou João Pessoa – as ruas empedradas, as sacadas, os telhados, às vezes um rio fazem lembrar Alfama (Lisboa e Portugal, também). Na verdade, São Francisco do Sul é mais um dos irmãos que Alfama tem por esse mundo fora.

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O casario colonial estende-se ao longo da baía da Babitonga e guarda um dos últimos núcleos açorianos do país (tal como Ribeirão da Ilha ou Santo Antônio de Lisboa, em Florianópolis). Aqui encontramos o Museu Nacional do Mar, que reúne embarcações de todo o Brasil. O acesso pode fazer-se de carro, mas é mais bonito quando se realiza pelas balsas ou lanchas que asseguram a ligação ao continente.

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São Francisco do Sul é uma vila belíssima e merece visita detalhada. Restaurantes e cafés, no centro histórico, permitem matar a fome. Um deles, São Francisco Panificadora, serve umas sopas consistentes que reconfortam o estômago e animam o espírito para a viagem de regresso. Experimentámos a sopa de costela com aipim e a de frutos do mar, já de noite, olhando, de quando em vez, pelo vidro embaciado, para vultos ondulantes e indecifráveis na baía da Babitonga.

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Formação Económica do Brasil

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Celso Furtado (1920-2004).

Trata-se de um clássico. Este livro é muito interessante para nós, portugueses, pois explica, bem melhor do que todos os livros de história que lemos até hoje, como e por que razão Portugal nunca foi o principal beneficiado com as riquezas da sua colónia americana. É muito comum ouvir alguém dizer, em Portugal, “nunca soubemos aproveitar as riquezas, sempre esbanjámos tudo, desde o ouro do Brasil”. Ora, Celso Furtado demonstra-nos, através deste magnífico livro, que essa história do esbanjamento tem muito pouco de verdadeira. O ouro apenas passava por Lisboa – o seu destino final era Londres, na Inglaterra.

É isso que iremos ver em seguida, pois optámos por nos debruçar, neste apontamento, exclusivamente sobre as duas principais riquezas brasileiras da época colonial: primeiro o açúcar e depois o ouro.

A – Quanto ao açúcar

1 – Foi devido à exploração da cana de açúcar que os portugueses puderam implantar-se no Brasil. Não fora essa exploração e jamais os portugueses conseguiriam ocupar o território e cobrir os enormes gastos com a defesa do mesmo – muito cobiçado, sobretudo pelos franceses. Foi um grande êxito essa empresa agrícola do século XVI – única na época.

2 –  O conhecimento técnico por parte dos portugueses – que já tinham experiência de produção de açúcar nas ilhas atlânticas – permitiu-lhes ocupar boa parte do território do nordeste brasileiro, que rapidamente foi aumentando, dado que a exploração da cana é extensiva. O negócio do açúcar expandiu-se enormemente, sobretudo a partir da segunda metade do século XVI, graças à colaboração dos flamengos, sobretudo, holandeses. Estes recolhiam o produto em Lisboa, refinavam-no e faziam a distribuição por toda a Europa, particularmente o Báltico, a França e a Inglaterra. Os holandeses eram grandes comerciantes e tinham o tipo de organização ideal para distribuir um produto novo, como o açúcar, pela Europa.  A contribuição dos holandeses não se limitou, porém, à refinação e comercialização do açúcar. Eles financiaram a instalação de engenhos produtivos no Brasil e também a importação de mão de obra escrava. Além disso, parte do transporte do produto para Lisboa era também realizado por eles. Logicamente, obtinham em todo este processo bons lucros, e o negócio acabava por ser mais deles do que dos portugueses.

3 – Este negócio foi praticamente um monopólio, durante muitos anos, porque a outra potência colonizadora, a Espanha, estava concentrada na extração de metais preciosos. Isso provocou um enorme poder económico no estado espanhol, que cresceu desmesuradamente, o que provocou um enorme aumento dos gastos públicos e privados subsidiados pelo governo. Consequência: inflação, que chegou a propagar-se por toda a Europa, traduzida em persistente déficit da balança comercial, via aumento das importações. Assim, os metais preciosos recebidos da América provocavam um fluxo de importação de efeitos negativos sobre a produção interna, altamente estimulante para as demais economias europeias. A decadência económica de Espanha prejudicou enormemente suas colónias americanas e nenhuma exploração de envergadura, fora da mineira, chegou a ser encetada. As exportações agrícolas de toda a imensa região não alcançaram importância significativa durante os três séculos do império espanhol. Um factor importante do êxito da colonização agrícola portuguesa foi, assim, a decadência da economia espanhola, que se deveu principalmente à descoberta precoce dos metais preciosos.

4 – O sistema, montado pelos colonos portugueses e pelos comerciantes e investidores holandeses, desarticular-se-ia quando Portugal perdeu sua independência sendo integrado na Espanha. Os holandeses que controlavam todo o comércio europeu por mar, incluindo o do açúcar, logo se envolvem em guerra com a Espanha, vindo a ocupar (por um quarto de século) a região produtora de açúcar, no Brasil. Aqui os holandeses adquiririam  os conhecimentos técnicos e organizacionais da indústria, que mais tarde constituiriam a base para a implantação e desenvolvimento de uma indústria concorrente na região do Caribe. Estava perdido o monopólio de que beneficiaram o portugueses e holandeses nos três quartos de século anteriores. Na segunda metade do século XVII os preços do açúcar reduzir-se-iam a metade e permaneceriam baixos durante todo o século seguinte. Perdeu-se o monopólio, mas a produção de cana manteve-se no Brasil até hoje.

B – Quanto ao ouro

1 – A corrida ao ouro brasileiro começou no início do século XVIII e proporcionou o primeiro grande fluxo de imigração de origem europeia, nomeadamente portuguesa, para o Brasil. Era possível pessoas de recursos limitados se aventurarem na mineração, pois aqui não se exploravam grandes minas – como ocorria com a prata no Perú e no México – mas o ouro de aluvião, que se encontrava depositado no fundo dos rios. Calcula-se que a população de origem europeia (e das ilhas atlânticas) tenha decuplicado no decorrer do século da mineração, no Brasil. A exportação de ouro cresceu em toda a primeira metade do século XVIII e alcançou seu ponto máximo em torno de 1760, quando atingiu o valor de 2,5 milhões de libras. A partir daí decresceu e, por volta de 1780, já não alcançava 1 milhão de libras.

2 – Depois da restauração da independência, Portugal encontrava-se numa situação muito difícil. Havia perdido os melhores entrepostos orientais e a melhor parte da colónia americana havia sido ocupada pelos holandeses. A situação interna era muito complicada também, com os espanhóis, durante mais de um quarto de século, não reconhecendo a independência. Portugal compreendeu que para sobreviver como metrópole colonial tinha de se aliar a uma grande potência, o que significaria necessariamente alienar parte da sua soberania. Tentou em primeiro lugar aliar-se aos holandeses, inclusive propondo a divisão do Brasil, mas a Holanda rejeitou a proposta, talvez demasiado confiante no seu poder marítimo. A solução acabaria de vir pelo lado dos ingleses, através de sucessivos acordos (1642-54-61) que estruturaram uma aliança que marcaria profundamente a vida política e económica de Portugal e do Brasil durante os dois séculos seguintes.

3 – Assim, tal como não se poderia explicar o grande êxito da empresa açucareira sem ter em conta a cooperação comercial-financeira com os holandeses, também só pode explicar-se a persistência do pequeno e empobrecido reino português como grande potência colonial na segunda metade do século XVII, bem como sua recuperação no século XVIII – durante o qual manteve sem disputas a colónia mais lucrativa da época –  se tivermos em conta a situação especial de semi-dependência que aceitou como forma de soberania. Portugal fazia concessões económicas e a Inglaterra pagava com promessas ou garantias políticas. Os ingleses conseguiam o privilégio de manter comerciantes residentes em praticamente todas as praças portuguesas e Portugal conseguia, através de uma cláusula secreta do acordo de 1661, que os ingleses se comprometessem a defender as colónias portuguesas contra quaisquer inimigos.

4 – Mas o acordo que haveria de ser determinante sobre o percurso do ouro foi o acordo comercial de 1703 (Tratado de Methuen). Portugal abria o seu mercado às lãs inglesas e a Inglaterra dava preferência aos vinhos portugueses. O acordo foi ruinoso para Portugal, que se viu obrigado a transferir para Inglaterra o impulso dinâmico criado pela produção aurífera no Brasil para pagar o deficit comercial. Em contrapartida, porém, conseguia manter uma sólida posição política, consolidando definitivamente seu território americano.O mesmo agente inglês que negociou o acordo comercial de 1703 (John Methuen) também tratou das condições que garantiriam a Portugal uma sólida posição na conferência de Utrecht. Aí conseguiu o governo lusitano que a França renunciasse a quaisquer reclamações sobre a foz do Amazonas e a quaisquer direitos de navegação nesse rio. Igualmente nessa conferência Portugal conseguiu da Espanha o reconhecimento de seus direitos sobre Colónia do Sacramento. Ambos os acordos tiveram a garantia direta da Inglaterra.

5 – Assim, enquanto a economia do ouro brasileiro proporcionou a Portugal apenas uma aparência de riqueza, trouxe à Inglaterra um forte estímulo ao desenvolvimento manufactureiro (e o oposto a Portugal), uma grande flexibilidade à capacidade de importar, permitindo uma concentração de reservas que fizeram do sistema bancário inglês o principal centro  financeiro da Europa, que se transferiu de Amsterdam para Londres. Recebendo a maior parte do ouro que então se produzia no mundo, os bancos ingleses reforçaram a sua posição. Segundo fontes inglesas, as entradas de ouro brasileiro em Londres chegaram a atingir as 50 mil libras por semana, permitindo uma acumulação substancial de reservas metálicas, sem as quais a Grã-Bretanha dificilmente poderia ter atravessado as guerras napoleónicas.

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A nossa edição:

Celso Furtado, Formação Econômica do Brasil, Editora das Letras, 24ª edição, São Paulo, 2011.

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Foto retirada de jornalggn.com.br

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Fortaleza, Brasil

Os Falcões.

Fortaleza é definitivamente uma cidade musical. Seja no Mercado dos Pinhões, na Praça dos Mártires, no Centro Cultural Dragão do Mar, em Juracema ou mesmo na praia, todos os dias a música paira no ar, gratuita e harmoniosamente. Às sextas à noite o Mercado dos Pinhões enche-se de alegres convivas (sobretudo acima dos quarenta) para ouvirem e dançarem o choro. Uma vez por mês — tivemos a sorte de ser no dia da nossa visita — uma banda interpretando êxitos dos anos sessenta e setenta, os Falcões, entra em cena, após a actuação do grupo de choro, e, posso testemunhá-lo, leva o ambiente ao rubro. O vocalista, um misto de Del Shannon com Paul Anka, deixa-se fotografar com senhoras eufóricas que não resistem a subir ao palco, e atira pelas potentes colunas sonoras uma voz surpreendente. A alegria, regada com muito álcool, é contagiante — e o velho mercado bombeia música.

Trio de David Calandrine.

No sábado, durante o almoço no jardim da Praça dos Mártires (a mais antiga praça de Fortaleza, também conhecida por Passeio Público e um dos lugares mais bonitos da cidade), num restaurante/buffet, onde aliás se come muito bem, assistimos à actuação do excelentíssimo trio do guitarrista David Calandrine. Músicas cujo repertório vai de Villas-Lobos a Milton Nascimento, passando por composições próprias, tudo interpretado com um toque distinto e profissional,  que poderíamos designar, genericamente, por “jazz”. Ao fundo o mar verde-azulado transmite sua beleza ao nosso olhar, como que concorrendo com a beleza que aquela música é para os nossos ouvidos. Tudo é sensualidade. E neste jardim refrescante o que apetece mesmo é ficar, esquecer o relógio e fruir.

Centro Cultural Dragão do Mar.

No domingo fomos ao Dragão do Mar. Este centro cultural é constituído por auditórios, salas de espectáculos, pracinhas ao ar livre e  vários edifícios estilo arte-deco, que funcionam como restaurantes e bares. Aqui pode-se assistir a música ao vivo, teatro, cinema, exposições, conferências e é possível também jantar ou simplesmente tomar um copo ou um sorvete numa das esplanadas. Jantámos no Alma Gêmea: uma bela galinha, ao molho tártaro, e uma excelentíssima torta de limão gelada, como sobremesa, desta vez acompanhados pela Orquestra de Sopros de Mulungu. Seguiu-se a peça “História de São Francisco segundo Dona Cremilda”, um conto de José Mapurunga, adaptado, encenado e interpretado pela actriz Katiana Monteiro. Tudo sem sair da mesa do jantar…

Praia de Meireles.

Além de cidade virada para as artes, Fortaleza é também uma cidade desportiva. Iracema e Beira-Mar, locais quase desertos durante o dia, enchem-se, ao crepúsculo, com praticantes de jogging, patinadores, ciclistas, ginastas e todo o tipo de transeuntes. Milhares e milhares de pessoas. Talvez as mesmas, ou pelo menos algumas delas, que mais tarde enchem as barracas de praia e os bares circundantes; vendedores de tudo e mais alguma coisa tentam também retirar o melhor deste espaço, onde o mar está sempre presente e o frio nunca vem.

E tal como o mar vai e volta, também o vento sopra forte e recolhe, numa sequência perpétua: Fortaleza respira! Este bafo quente dá-nos até coragem para um mergulho na praia de Meireles, embora saibamos que tanto aqui, como em Iracema, as águas não são as melhores para banhos. A praia do Futuro, que a Deus pertence, e, sobretudo, outras das redondezas cumprem bem melhor essa função. Porém, em Fortaleza, mesmo não lavando o corpo, pode sempre lavar-se a vista – e a alma. É o que acontece na Beira-Mar quando, de repente, na mesa ao lado, debaixo das castanholas (árvores muito comuns aqui), duas mulheres e um homem fazem maravilhas com um simples cavaquinho que passa de mão em mão.

Vista de Fortaleza.

Por fim, e como não podia deixar de ser, o Pirata. O espaço e a maioria das pessoas são bonitos. A música, se tivermos em conta que serve, ali, essencialmente para dançar, é excelente e a quadrilha junina que se apresenta a rigor é deslumbrante – a sua actuação foi uma agradabilíssima surpresa. E apesar da ordem ser dançar, dançar, dançar, ainda se pode petiscar ali com qualidade: a carne de sol que degustámos estava mesmo muito boa! A gastronomia popular não é, porém, maravilhosa nem muito diversificada em Fortaleza, e não difere muito da de outras zonas do Nordeste: peixe frito, arroz, feijão (aqui é comum o “baião-de-dois”: o feijão vem já misturado no arroz, aos que se acrescentam ainda queijo, creme de leite salgado e salsa ), carne de sol, água de coco, paçoca, tapioca, mandioca, lagosta, camarão. Pena que algum do camarão seja de viveiro (aqui dizem “cativeiro”) e que, apesar de por vezes ser grande e de bom aspecto, não tenha sabor a mar, o que é, de facto, bastante frustrante. Não se compreende também como, com tanto mar à volta, a maioria dos restaurantes serve tilápia, um peixe de rio, e, ainda por cima, a preços exorbitantes. Isto acontece, porém, sobretudo nos locais mais turísticos; comemos muito bem quando deambulámos pelos restaurantes frequentados pelos residentes.

Teatro José de Alencar.

Fortaleza é ainda uma cidade onde se pode passear agradavelmente pelo centro histórico. Aqui estão localizadas as construções mais bonitas, as principais praças e jardins, e o comércio tradicional, como naturalmente seria expectável. As pessoas são simpáticas, acessíveis e alegres. Construções como a Catedral Metropolitana, o Mercado dos Pinhões, o conjunto do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, o Mercado Central e, sobretudo, o lindíssimo teatro José de Alencar, entre outros, valem bem uma visita.

Numa semana os sentidos saciam-se plenamente em Fortaleza, uma das mais interessantes cidades no Nordeste do Brasil.

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