Como sobreviver aos nossos pais

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Mony Elkaïm.

É incrível como transportamos pela vida fora, quantas vezes sem nos apercebermos, a visão do mundo que nos foi incutida na infância por nossos pais. O pequeno livro de Mony Elkaïm, “Como Sobreviver à Própria Família” (Comment survivre à sa propre famille, Seuil, Paris, 2006) mostra, claramente, como isso se manifesta nas relações familiares e, particularmente, nas relações conjugais. A visão que carregamos choca com a visão que o nosso parceiro (ou parceira) transporta também e isso provoca, em situações de conflito, respostas repetidas, segundo o padrão de cada indivíduo. Cada um(a), aprisionado(a) na sua visão, espera que o(a) outro(a) mude e fecha-se mais ainda em seu mundo. E vice-versa. Entra-se num círculo vicioso.

A única solução possível passa por conseguirmos mudar nós próprios. Só assim o outro (ou outra) mudará também. Nas palavras de Elkaïm, “cada um de nós desempenha um papel no palco familiar: se conseguirmos mudar esse papel, talvez possamos transformar a peça inteira”.

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A nossa edição:

Mony Elkaïm, Como Sobreviver à Própria Família, Editora Sinais de Fogo, 1ª edição, Lisboa, 2007.

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Formação Económica do Brasil

celso furtado
Celso Furtado (1920-2004).

Trata-se de um clássico. Este livro é muito interessante para nós, portugueses, pois explica, bem melhor do que todos os livros de história que lemos até hoje, como e por que razão Portugal nunca foi o principal beneficiado com as riquezas da sua colónia americana. É muito comum ouvir alguém dizer, em Portugal, “nunca soubemos aproveitar as riquezas, sempre esbanjámos tudo, desde o ouro do Brasil”. Ora, Celso Furtado demonstra-nos, através deste magnífico livro, que essa história do esbanjamento tem muito pouco de verdadeira. O ouro apenas passava por Lisboa – o seu destino final era Londres, na Inglaterra.

É isso que iremos ver em seguida, pois optámos por nos debruçar, neste apontamento, exclusivamente sobre as duas principais riquezas brasileiras da época colonial: primeiro o açúcar e depois o ouro.

A – Quanto ao açúcar

1 – Foi devido à exploração da cana de açúcar que os portugueses puderam implantar-se no Brasil. Não fora essa exploração e jamais os portugueses conseguiriam ocupar o território e cobrir os enormes gastos com a defesa do mesmo – muito cobiçado, sobretudo pelos franceses. Foi um grande êxito essa empresa agrícola do século XVI – única na época.

2 –  O conhecimento técnico por parte dos portugueses – que já tinham experiência de produção de açúcar nas ilhas atlânticas – permitiu-lhes ocupar boa parte do território do nordeste brasileiro, que rapidamente foi aumentando, dado que a exploração da cana é extensiva. O negócio do açúcar expandiu-se enormemente, sobretudo a partir da segunda metade do século XVI, graças à colaboração dos flamengos, sobretudo, holandeses. Estes recolhiam o produto em Lisboa, refinavam-no e faziam a distribuição por toda a Europa, particularmente o Báltico, a França e a Inglaterra. Os holandeses eram grandes comerciantes e tinham o tipo de organização ideal para distribuir um produto novo, como o açúcar, pela Europa.  A contribuição dos holandeses não se limitou, porém, à refinação e comercialização do açúcar. Eles financiaram a instalação de engenhos produtivos no Brasil e também a importação de mão de obra escrava. Além disso, parte do transporte do produto para Lisboa era também realizado por eles. Logicamente, obtinham em todo este processo bons lucros, e o negócio acabava por ser mais deles do que dos portugueses.

3 – Este negócio foi praticamente um monopólio, durante muitos anos, porque a outra potência colonizadora, a Espanha, estava concentrada na extração de metais preciosos. Isso provocou um enorme poder económico no estado espanhol, que cresceu desmesuradamente, o que provocou um enorme aumento dos gastos públicos e privados subsidiados pelo governo. Consequência: inflação, que chegou a propagar-se por toda a Europa, traduzida em persistente déficit da balança comercial, via aumento das importações. Assim, os metais preciosos recebidos da América provocavam um fluxo de importação de efeitos negativos sobre a produção interna, altamente estimulante para as demais economias europeias. A decadência económica de Espanha prejudicou enormemente suas colónias americanas e nenhuma exploração de envergadura, fora da mineira, chegou a ser encetada. As exportações agrícolas de toda a imensa região não alcançaram importância significativa durante os três séculos do império espanhol. Um factor importante do êxito da colonização agrícola portuguesa foi, assim, a decadência da economia espanhola, que se deveu principalmente à descoberta precoce dos metais preciosos.

4 – O sistema, montado pelos colonos portugueses e pelos comerciantes e investidores holandeses, desarticular-se-ia quando Portugal perdeu sua independência sendo integrado na Espanha. Os holandeses que controlavam todo o comércio europeu por mar, incluindo o do açúcar, logo se envolvem em guerra com a Espanha, vindo a ocupar (por um quarto de século) a região produtora de açúcar, no Brasil. Aqui os holandeses adquiririam  os conhecimentos técnicos e organizacionais da indústria, que mais tarde constituiriam a base para a implantação e desenvolvimento de uma indústria concorrente na região do Caribe. Estava perdido o monopólio de que beneficiaram o portugueses e holandeses nos três quartos de século anteriores. Na segunda metade do século XVII os preços do açúcar reduzir-se-iam a metade e permaneceriam baixos durante todo o século seguinte. Perdeu-se o monopólio, mas a produção de cana manteve-se no Brasil até hoje.

B – Quanto ao ouro

1 – A corrida ao ouro brasileiro começou no início do século XVIII e proporcionou o primeiro grande fluxo de imigração de origem europeia, nomeadamente portuguesa, para o Brasil. Era possível pessoas de recursos limitados se aventurarem na mineração, pois aqui não se exploravam grandes minas – como ocorria com a prata no Perú e no México – mas o ouro de aluvião, que se encontrava depositado no fundo dos rios. Calcula-se que a população de origem europeia (e das ilhas atlânticas) tenha decuplicado no decorrer do século da mineração, no Brasil. A exportação de ouro cresceu em toda a primeira metade do século XVIII e alcançou seu ponto máximo em torno de 1760, quando atingiu o valor de 2,5 milhões de libras. A partir daí decresceu e, por volta de 1780, já não alcançava 1 milhão de libras.

2 – Depois da restauração da independência, Portugal encontrava-se numa situação muito difícil. Havia perdido os melhores entrepostos orientais e a melhor parte da colónia americana havia sido ocupada pelos holandeses. A situação interna era muito complicada também, com os espanhóis, durante mais de um quarto de século, não reconhecendo a independência. Portugal compreendeu que para sobreviver como metrópole colonial tinha de se aliar a uma grande potência, o que significaria necessariamente alienar parte da sua soberania. Tentou em primeiro lugar aliar-se aos holandeses, inclusive propondo a divisão do Brasil, mas a Holanda rejeitou a proposta, talvez demasiado confiante no seu poder marítimo. A solução acabaria de vir pelo lado dos ingleses, através de sucessivos acordos (1642-54-61) que estruturaram uma aliança que marcaria profundamente a vida política e económica de Portugal e do Brasil durante os dois séculos seguintes.

3 – Assim, tal como não se poderia explicar o grande êxito da empresa açucareira sem ter em conta a cooperação comercial-financeira com os holandeses, também só pode explicar-se a persistência do pequeno e empobrecido reino português como grande potência colonial na segunda metade do século XVII, bem como sua recuperação no século XVIII – durante o qual manteve sem disputas a colónia mais lucrativa da época –  se tivermos em conta a situação especial de semi-dependência que aceitou como forma de soberania. Portugal fazia concessões económicas e a Inglaterra pagava com promessas ou garantias políticas. Os ingleses conseguiam o privilégio de manter comerciantes residentes em praticamente todas as praças portuguesas e Portugal conseguia, através de uma cláusula secreta do acordo de 1661, que os ingleses se comprometessem a defender as colónias portuguesas contra quaisquer inimigos.

4 – Mas o acordo que haveria de ser determinante sobre o percurso do ouro foi o acordo comercial de 1703 (Tratado de Methuen). Portugal abria o seu mercado às lãs inglesas e a Inglaterra dava preferência aos vinhos portugueses. O acordo foi ruinoso para Portugal, que se viu obrigado a transferir para Inglaterra o impulso dinâmico criado pela produção aurífera no Brasil para pagar o deficit comercial. Em contrapartida, porém, conseguia manter uma sólida posição política, consolidando definitivamente seu território americano.O mesmo agente inglês que negociou o acordo comercial de 1703 (John Methuen) também tratou das condições que garantiriam a Portugal uma sólida posição na conferência de Utrecht. Aí conseguiu o governo lusitano que a França renunciasse a quaisquer reclamações sobre a foz do Amazonas e a quaisquer direitos de navegação nesse rio. Igualmente nessa conferência Portugal conseguiu da Espanha o reconhecimento de seus direitos sobre Colónia do Sacramento. Ambos os acordos tiveram a garantia direta da Inglaterra.

5 – Assim, enquanto a economia do ouro brasileiro proporcionou a Portugal apenas uma aparência de riqueza, trouxe à Inglaterra um forte estímulo ao desenvolvimento manufactureiro (e o oposto a Portugal), uma grande flexibilidade à capacidade de importar, permitindo uma concentração de reservas que fizeram do sistema bancário inglês o principal centro  financeiro da Europa, que se transferiu de Amsterdam para Londres. Recebendo a maior parte do ouro que então se produzia no mundo, os bancos ingleses reforçaram a sua posição. Segundo fontes inglesas, as entradas de ouro brasileiro em Londres chegaram a atingir as 50 mil libras por semana, permitindo uma acumulação substancial de reservas metálicas, sem as quais a Grã-Bretanha dificilmente poderia ter atravessado as guerras napoleónicas.

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A nossa edição:

Celso Furtado, Formação Econômica do Brasil, Editora das Letras, 24ª edição, São Paulo, 2011.

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Foto retirada de jornalggn.com.br

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AO90

Algumas considerações sobre o tão badalado e tão atacado Acordo Ortográfico de 1990 (adiante “AO90”), que entrou em vigor, no Brasil e em Portugal, em 2009, no momento em que uma nova investida está patente em alguns artigos na blogosfera e nos jornais, desta vez à boleia da recente decisão da Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, de adiar para 2016 a aplicação plena do AO90.

1 – Jamais se produzirá um Acordo Ortográfico que seja do agrado de todos e jamais se produzirá um acordo perfeito ou completamente coerente, sem qualquer ponto polémico.  Daqui se deduz que, fosse qual fosse o AO90, haveria sempre quem o contestasse. Porém, a maioria dos erros apontados, inclusive muitos que pretendem caricaturar o AO90 – como é o caso, entre outros, de “o cagado anda de fato na praia” – são falsos. Não sendo eu especialista, remeto os interessados para um sítio onde poderão, provavelmente, esclarecer algumas dúvidas: http://emportuguezgrande.blogspot.com.br/%5B1%5D. Dado que os argumentos técnicos estão suportados até a exaustão nos conteúdos dos “links” que aqui apresento, remeter-me-ei a outros aspetos e dimensões do problema.

2 – A discussão sobre o AO90 não deve restringir-se às questões técnico-científicas, apesar da inquestionável importância destas, mas estender-se a outras mais abrangentes e relevantes: políticas, sobretudo, mas também sociais e culturais, entre outras. Embora no caso do AO90, como se sabe, não tenha havido um escrutínio popular sobre o assunto[2], o princípio geral deve ser o de que os especialistas servem para nos ajudar a decidir, não para decidirem por nós. Como afirmou Péricles, ” se só alguns estão aptos a gizar uma política, todos são capazes de a julgar”. Todos temos o direito – e o dever – de formar uma opinião, porque, afinal, a língua é de nós todos.

3 – Os especialistas[3] não são, portanto, os donos da língua, mesmo que através de algumas opiniões – como as evidenciadas por sumidades como Vasco da Graça Moura – tentem fazer-nos crer o contrário. E se é verdade que a Língua Portuguesa não é património dos especialistas, é igualmente verdade que não é também património exclusivo de Portugal ou de qualquer outro país. A Língua Portuguesa é património de todos os que a usam, seja qual for a sua nacionalidade.

4 – O conteúdo do ponto anterior será, sem dúvida, melhor entendido por aqueles que falam, ouvem, escrevem e leem não apenas em português de Portugal (ou de outro qualquer país lusófono), mas também no de outros países, mormente aqueles que, por razões diversas, viajam pelo mundo da lusofonia e, sobretudo, aqueles que aprenderam a amar as culturas desses mesmos países e não consideram a cultura do seu país superior às dos outros.

5 – O AO90 é mais vantajoso para Portugal do que para o Brasil. É óbvio que a relevância relativa da nossa Língua é maior se tiver 250 milhões de falantes (inclui-se neste número aproximado todos os lusófonos do mundo) do que 10 ou 11 milhões. É uma estupidez pensar que os brasileiros nos querem impor as suas regras. A polémica sobre o AO90 é muitíssimo menor no Brasil do que em Portugal. E, ao contrário do que o oportunismo de Vasco Graça Moura sugere, o adiamento da aplicação plena do AO90, no Brasil, para 1 de janeiro de 2016 (afinal, em consonância com Portugal) não representa uma “reviravolta” na posição dos brasileiros. No Brasil, toda a comunicação social, todos os orgãos do poder político, todos os concursos públicos, todas as editoras e todos os estabelecimentos de ensino já adotaram o AO90.

6 – É um erro transformar a discussão sobre o AO90 numa guerra entre Portugal e Brasil. Mas é isso que Vasco Graça Moura faz quando escreve, por exemplo, “haverá sempre umas baratas tontas disponíveis para se sujeitarem ao que quer que o Brasil venha a resolver” ou “o Acordo Ortográfico é tão mal feito que nem o Brasil o aceita” ou, ainda, “se Portugal nada fizer, o comando das operações ficará nas mãos do Brasil”[4]. Brasil que, claro, também tem os seus (poucos) guerreiros, como é o caso de um tal Felipe Lindoso[5]. Estes, ao contrário de VGM, acham que são os portugueses que querem impor as suas leis. E, como numa guerra vale tudo, o recurso às mentira, demagogia e ameaça é frequente de ambos os lados. Ora, um acordo, como toda a gente sabe, implica tolerância, compromisso e responsabilidade. E não se trata de uma originalidade dos países lusófonos, outras línguas passaram recentemente por reformas ortográficas: o alemão em 1996; o neerlandês em 1996 e 2006; o espanhol em 2010; o francês em 1990, aplicando-a, como nós, só agora.

7 – Os detratores portugueses do AO90 deveriam observar também que forma tão indesejada de escrever é já, em larga medida, paticada por escritores como Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, Nelida Piñon, Dalton Trevisan, só para citar alguns grandes brasileiros, vivos. E, já agora, que Fernão Lopes, Camões, Fernando Pessoa e Mário Cesariny escreveram de formas diferentes na mesma língua – o português – só para citar alguns grandes escritores portugueses desaparecidos[6]. Isto para dizer o óbvio: a Língua não é uma coisa estática, evolui ou, para quem não queira ver as mudanças como evolução, simplesmente muda, se transforma, pelas mais variadas razões.

8 – Posto isto, talvez cheguemos à razão principal da oposição ao AO90: a resistência à mudança. Uma resistência já constatada por Wittgenstein quando escreveu: “Pensa no mal-estar que se sente quando a ortografia de uma palavra é alterada. (E nos sentimentos ainda mais profundos que foram suscitados por questões de caligrafia)”[7]. É esta resistência à mudança que está na base da atitude conservadora de alguns, atitude que, a generalizar-se, poderá conduzir mais rapidamente[8] à desintegração da Língua Portuguesa no mundo. As posições empedernidas mostram que quem é contra o AO90 será até morrer. Eu sou a favor. A mim, interessa-me manter e aprofundar a internacionalidade do português. Dentro de dez anos, todo o ruído agora provocado pelos opositores ao AO90 desaparecerá na poeira do tempo[9],[10].

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[1] Sobre as comparações entre os casos da língua inglesa e da portuguesa, ver:

http://ciberduvidas.pt/textos/controversias/11324

[2] Aos que reclamam não terem sido ouvidos sobre o AO90 convém recordar-lhes que este faz parte de uma política prosseguida por governos democraticamente eleitos e que desde a sua assinatura em 1990, todos os responsáveis políticos eleitos em Portugal o apoiaram e incluíram várias vezes nos programas eleitorais que levaram a sufrágio.

[3]  Os especialistas veem-se frequentemente como autoridades únicas e máximas, e esta perspetiva pode ser caracterizada como “especialismo” – uma doença, cada vez mais comum, que não se restringe à linguística, mas que alastra a todos os ramos do conhecimento. A tendência do especialismo é a de fechar-se sobre si próprio, rejeitando todo e qualquer argumento vindo do exterior. Felizmente, alguns especialistas não sofrem desta doença.

[4] Ver artigos no Diário de Notícias de 02/01/2013, e no mesmo jornal do dia 09/01/2013, ambos p. 54.

[5] http://www.publishnews.com.br/telas/colunas/detalhes.aspx?id=71969.

[6] Realço, também, já que se fala de Literatura, ou seja, de uma forma de expressão artística, que muitos artistas – incluindo muitos escritores – não são especialistas, no sentido académico do termo, e isso não impede que alguns deles sejam geniais. A história é até fértil em criadores que subverteram as regras do seu tempo, cometendo, do ponto de vista dos especialistas seus contemporâneos, autênticas heresias. Algumas delas, porém, estão hoje entre as maiores obras da humanidade.

[7] Ludwig Wittgenstein, Tratado Lógico-Filosófico/Investigações Filosóficas, Fundação Calouste Gulbenkian, p. 295.

[8] A autonomia do português do Brasil, de Angola ou de qualquer outro é, a prazo, uma inevitabilidade.

[9] Gostava de deixar, por último, um texto excelente de Henrique Monteiro, sobre o AO90, publicado no Expresso de 22 de fevereiro de 2012 e dedicado, precisamente, a Vasco Graça Moura. Não poderia estar mais de acordo: http://expresso.sapo.pt/o-acordo-20-anos-depois=f706306.

[10] Dada a sua relevância, remeto ainda, a posteriori, para um texto, também publicado no Expresso, em 2 de março de 2013, por Margarita Correia: http://www.ciberduvidas.com/textos/acordo/13941.

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São Luís e Lençóis Maranhenses, Brasil

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Vista aérea da região de São Luís.

Apesar do Maranhão ser, tradicionalmente, uma das regiões mais pobres do Brasil, as edificações do centro histórico de São Luís mostram que a cidade já foi importante. No último quartel do século XVIII, o Marquês de Pombal ajudou os colonos maranhenses a verem-se livres dos jesuítas. Criou uma companhia de comércio altamente capitalizada, aproveitando as alterações no mercado mundial do algodão, cuja procura crescia intensamente: essas alterações deveram-se sobretudo à Guerra da Independência dos EUA e à Revolução Industrial inglesa. Foi uma empresa muito bem sucedida. Porém, ultrapassadas as condições de anormalidade que prevaleciam no mercado mundial de produtos tropicais, não só o Maranhão mas o próprio Brasil regressariam a um sistema económico precário, que mantêm até hoje.

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Centro histórico de S. Luís.

Essa precariedade é notória em São Luís, “a ilha do amor”, mas que bem poderia chamar-se “da pobreza”, “do desmazelo” ou “da corrupção”. Com efeito, a experiência ensina-nos a reconhecer o cheiro corrupto quando este paira no ar. Em São Luís ele brota dos buracos das ruas, dos edifícios degradados, dos semblantes resignados das pessoas comuns. Aqui, a população é sobretudo negra ou mestiça, prova de que a escravatura no Maranhão, embora tardia, foi bastante intensa.

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Rio Preguiças, em Barreirinhas.

Escapam da degradação geral do centro histórico de São Luís alguns oásis, quase sempre geridos pelo governo do Estado e não pela Prefeitura, como são os casos dos Teatro Artur Azevedo, Museu Histórico e, sobretudo, o conjunto edificado do bairro Praia Grande. Neste último é agradável passear à noite, ouvir música ao vivo, tomar um copo e associar-se aos transeuntes, turistas e locais. Atravessando o rio Anil, pela ponte José Sarney (a família Sarney é omnipresente no Maranhão), chega-se à parte mais moderna da cidade, onde encontramos praias consideradas impróprias para banhos e edifícios recentes, porém sem a vitalidade de outras capitais nordestinas.

Se a convivência com São Luís ficou aquém das expectativas, a chegada a Barreirinhas, para compensar, foi uma agradável surpresa. Aqui, o turismo e a pesca são as principais atividades económicas, e parecem chegar para que se respire um ar mais puro. O autocarro demora umas cinco horas para percorrer os cerca de 300 kms que medeiam entre as duas cidades. O bilhete custa 30 reais, mas é preferível pagar 40 e viajar numa “van” que transporta os passageiros até a porta dos hotéis ou das pousadas das duas cidades. Dado que o autocarro estaciona nas estações rodoviárias, além do trajeto mais rápido, poupa-se também no custo do táxi entre estas e o hotel. Existem várias empresas que fazem o transporte por “van”, o qual pode ser comprado em qualquer um dos hotéis ou pousadas de Barreirinhas e São Luís.

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Pequenos Lençóis.

Barreirinhas é banhada pelo rio Preguiças, que é lindo de verdade. O nome advém do serpentear calmo e lânguido do rio. Dado que o seu curso é praticamente plano, as correntes são fracas, facto que pudemos testemunhar ao atravessá-lo a nado, nos dois sentidos, em Barreirinhas. A água é morna, deliciosa, e a praia é sobretudo frequentada pela população local; os turistas ficam espalhados pelas pousadas da periferia, cada qual com seu espaço privativo. Face à qualidade da água e às tranquilidade e beleza desses lugares ao longo do Preguiças, é altamente recomendável pagar um pouco mais e ficar numa dessas pousadas à beira-rio, em vez de ficar alojado no centro da cidade.

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Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses.

Em Barreirinhas existem agências especializadas nos diversos passeios possíveis, entre os quais se destacam o dos Grandes lençóis Maranhenses, feito de jipe e depois a pé, e o da descida do Preguiças até Caburé (margem direita) ou Atins (margem esquerda), povoados que se situam na foz do rio, junto ao mar. A melhor época para visitar os Lençóis é em julho (mês da “Vaquejada”) e agosto, quando já não chove e as lagoas estão cheias pelas chuvas de inverno (janeiro a junho). Uma vez que 2012 foi um ano pouco chuvoso, agora apenas uma lagoa tem água (Lagoa do Peixe), todas as outras estão secas por força da evaporação. Mesmo assim, vale a pena caminhar naquele meio desértico, sentir a imensidão do espaço de areia branca e fina, ver o pôr do sol por trás das dunas, viajar aos solavancos nos potentes veículos “todo terreno”, cruzar o Preguiças de balsa e comer uma deliciosa tapioca, feita por uma das vendedoras do outro lado do rio.

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Rio Preguiças.

Já os passeios no Preguiças não dependem da chuva e são, em qualquer época, muito interessantes. Desde logo, pela beleza do próprio rio, mas também pela interessante fauna e flora, pela vida das populações semi-isoladas, pelas já referidas tranquilidade e beleza dos lugares, e pelo seu exotismo. De Barreirinhas a Atins demoramos cerca de quatro horas de lancha rápida. Isto porque paramos em vários povoados pelo caminho: Vassouras, uma localidade minúscula, que dá acesso aos Pequenos Lençóis, na margem direita do Preguiças, e onde alguns macacos vêm ter com os visitantes, em busca de comida; Mandacarú, na margem esquerda, onde se situa o Farol Preguiças, com os seus 160 degraus e 35 metros de altura, e uma vista magnífica sobre a região; e, finalmente, Caburé, situado numa língua de areia entre o rio e o mar, na margem direita, onde podemos desfrutar de um delicioso banho e almoçar um belo robalo no restaurante Península de Caburé.

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Vista que se observa do Farol das Preguiças.

A paisagem onde quer que estejamos e para onde quer que olhemos é deslumbrante. Palmeiras de buriti, açaí e carnaúba; manguezais, como os mangue-vermelho, mangue-branco e mangue-siriúba; capim-de-areia, alecrim-da-praia, pimenteira e carrapicho-da-praia, que crescem perto do mar, onde, nas praias quase desertas, podemos observar tartarugas marinhas e várias espécies de caranguejos; e, na restinga (terreno arenoso e salino), a erva-de-cascavel, a orquídea da restinga e o cipó-de-leite, entre outros. Nos manguezais podemos encontrar o jacaré-tingá, a paca e o veado-mateiro; e também aves migratórias, como o maçarico-rasteirinho, as marrecas-de-asa-azul e o trinta-réis-boreal.

Um dado muito curioso sobre o Parque Nacional do Lençóis Maranhenses (fundado em 1981) é que, para além dos 155.000 hectares de dunas e mais dunas de areia branca e fina e dos oásis de lagoas coloridas, existe ali um povo nómada, cuja vida é regida pelo ciclo das chuvas e das areias. Dentro do parque vivem diversas famílias, em alguns pequenos povoados de pescadores, como são os casos de Canto de Atins, Baixa Grande ou Queimada dos Britos. A mobilidade das dunas, provocada pelo vento, provoca muitas vezes o soterramento de casas e utensílios, obrigando ao deslocamento dos pescadores.

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Mandacaru.

Na costa do Maranhão o vento predominante é de leste, como pudemos comprovar, literalmente, na pele. Este vento está na origem da criação de uma colónia, independente do Brasil, em 1621, dado que o vento de leste dificultava a navegação entre a costa norte do território e as demais capitanias. Assim, foi decidido criar uma colónia diretamente ligada a Lisboa, compreendida entre o Ceará e o Amazonas, precisamente, o Estado do Maranhão. Isto (e também as informações sobre o mercado de algodão a que aludimos no início do texto) pudemos conhecer através do clássico Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado, que afortunadamente transportámos na mochila. Apesar disto, não se pense que o clima aqui é agreste, bem pelo contrário: é generoso, suave, doce, refletindo-se nas pessoas.

Os Lençóis Maranhenses, mais que São Luís, são um destino que vale a pena. Lá cada um pode optar, todos os dias, por fazer algo diferente. Ou, simplesmente, não  fazer. É bom preguiçar no Preguiças.

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2012 – Uma Espécie de Balanço

Depois da descoberta das partículas sub-atómicas, vivemos num mundo onde imperam a probabilidade e a estatística. O mundo natural é indeterminista; e, curiosamente ou não, o mundo social também. Só uma ditadura pode ser determinista e, mesmo assim, até certo ponto. A democracia é, sem dúvida, indeterminista.

Em termos simples, pode dizer-se que, num mundo indeterminista, nada pode prever-se com precisão – prevalecem as probabilidades, as médias, os arredondamentos. Na política, ao determinismo dos extremos, sejam de direita ou de esquerda, opõe-se o indeterminismo do centro, uma espécie de tendência estatística para a média, como na lei dos grandes números [1]. Claro que há uma pequena probabilidade de haver uma ocorrência fora da curva [2]. Isso dependerá, essencialmente, das “condições objectivas” [3] de um dado momento. A votação em Hitler foi um desse momentos: um raro – e trágico – evento.

Em geral, porém, seja no nosso ou em qualquer outro país, a tendência, propensão ou probabilidade é que a maioria das pessoas vote no chamado “centrão”. Os anglo-saxónicos, com seu sentido prático, sabendo disto, poupam tempo, dinheiro e paciência com seu bipartidarismo de há centenas de anos. De uma penada, evitam distorções, coligações e mais tachos.

Esta evidência do indeterminismo na vida social foi algo que cresceu rapidamente com a globalização. O debate, a circulação de ideias, a simples opinião aumentaram notoriamente com o advento da internet e, sobretudo, com as chamadas redes sociais, fazendo com que as decisões políticas sejam hoje escrutinadas praticamente em tempo real.

Mas, agora mais que nunca, num mundo ameaçado por uma crise grave, cujas causas e consequências as teorias de esquerda denunciam tão claramente, o que levará, ainda assim, as pessoas a optar pelo centrão? Mais: o que leva um país, onde vigora há décadas um dos melhores sistemas sociais do mundo, como é o caso da Suécia, a querer mudar para uma sociedade mais liberal, teoricamente bem mais incerta? Haverá mesmo uma tendência social – acompanhando o que acontece nas outras ciências [4] – para o indeterminismo?

Eu acredito que sim. E acredito também que isso acontece, não porque as pessoas sejam estúpidas [5]. Quanto a mim, a razão principal não reside numa influência exterior, mas dentro delas. Talvez mais do que na Ciência Política, encontremos pistas na Psicologia e na Filosofia [6]. Trata-se de aceitar (aquilo que é) e de interpretar (aquilo que gostaríamos que fosse) a realidade. Aqui reside, nos subtis mecanismos internos das aceitação e interpretação, a tendência humana para o voto ao centro. Talvez, quem sabe, uma tendência secreta das massas para o realismo [7], para uma queda dentro da curva…

Posto isto, eu que nunca votei no PSD (outrora PPD) nem no CDS, tenho de reconhecer uma coisa. O atual primeiro-ministro, apesar do coro de protestos, insultos e insinuações, está a percorrer o seu caminho, afinal, o caminho traçado pela Troika, depois do célebre resgate, já que é esta quem define a política económica do nosso país. A única alternativa de Passos Coelho seria convencer espanhóis, italianos, irlandeses e, eventualmente, franceses de que as condições impostas pela Troika têm de ser alteradas, suavizadas e que, para isso, alemães (sobretudo) e outros países do norte da Europa têm de se mostrar mais solidários. Isso é possível de realizar, simplesmente porque seria melhor do que um desmembramento de consequências imprevisíveis, onde certamente todos perderiam, e muito. Até agora, porém, nenhum líder mostrou ter coragem suficiente para enveredar por este caminho, nem mesmo aqueles de países de maior dimensão e peso, e de famílias políticas bem mais distantes de Merkel do que Passos Coelho [8].

Claro que, tal como todos os que o antecederam, Passos não cumpriu uma série de promessas. Nisso, realmente, ele não se distingue dos demais. Mas destaca-se pelas postura, determinação e caráter – mesmo se levarmos em conta (e temos de levar) as más companhias, como é o caso clamoroso de Miguel Relvas.

Além disso, a missão de Passos é patriótica, pois, neste momento, ninguém está verdadeiramente interessado em pegar no país. Não concordo com a sua política, mas ela enquadra-se numa ideologia liberal que ele sempre defendeu, não constitui novidade. E é por isso que não é expectável (nem está minimamente ao seu alcance) uma contribuição sua para aquilo que seria a verdadeira solução do problema europeu: uma inversão da política alemã e do seu braço financeiro, o BCE. Para isso teriam de abandonar este caminho de austeridade sem saída, que só leva a mais e mais recessão.

É bem possível que o diagnóstico sobre Portugal piore em 2013, pelo menos em parte. Mas eu ainda não ouvi, ou li, qualquer proposta alternativa (e realista) que me fizesse crer na existência de um caminho substancialmente melhor, a não ser o que apontei acima. Era por ele que se deveria bater, sem desvios, uma oposição credível. Pior que o desgoverno de Coelho, só a total ausência de uma verdadeira alternativa.

Aquilo que eu gostaria que fosse não resiste à evidência daquilo que é.

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Notas:

[1] A lei dos grandes números diz-nos que quanto maior for uma série de eventos aleatórios, mais certa se torna a média esperada. O exemplo clássico é o do lançamento de uma moeda: num número suficientemente grande de lançamentos a tendência será para que se registe 50% para cada uma das possibilidades (cara ou coroa).

[2] Os eventos aleatórios são muitas vezes representados graficamente numa curva de sino. Os eventos esperados caem dentro da curva. Mas há sempre uma probabilidade, ainda que ínfima, de uma ocorrência inesperada. Por exemplo, em mil lançamentos saírem 900 coroas e apenas 100 caras ou, mais raro ainda, 990 coroas e 10 caras (ou vice-versa).

[3] “condições objectivas” é uma expressão cara aos marxistas e demonstrativa de seu espírito determinista.

[4] Toda a ciência contemporânea (e a consequente parafernália técnica, incluindo os poderosos computadores atuais) se baseia nos princípios indeterministas.

[5] Acontece que muitas vezes se chamam as pessoas de estúpidas, indiretamente. É como eu vejo, por exemplo, quando se diz que as pessoas votaram em determinado partido porque foram enganadas pela “propaganda” e/ou pelas “mentiras” desse mesmo partido.

[6] Não tem a filosofia como objeto, em última análise, o homem? A resposta, afirmativa, é dada por Kant.

[7] Não será por acaso que muitos intelectuais, sobretudo de esquerda, reivindicam o direito ao sonho e à utopia. Por outro lado, realismo e indeterminismo não são de forma alguma incompatíveis.

[8] François Hollande representa a maior desilusão quando pensamos numa real oposição à política europeia de Merkel.

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João e Maria

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Talvez a maioria não saiba, quando ouve Chico Buarque interpretando-a, que esta canção não foi feita por ele. Muitos menos imaginarão que a melodia em causa tem a bonita idade de 65 anos, ou seja, foi composta em 1947! O autor desta valsinha – que foi a sua primeira composição – chamava-se Severino Dias de Oliveira, mas ficou mundialmente conhecido como Sivuca. A letra, sim, é da autoria de Chico Buarque e, segundo o próprio, baseia-se numa conversa de crianças. Chico, na época (1976), compunha algumas canções infantis, e parece ter sido influenciado por esse facto.

Fica o registo desta canção interpretada precisamente por Sivuca e Chico Buarque. Curiosidade: A técnica de Sivuca é tão boa no violão, que, logo após o início, Chico se concentra apenas na interpretação vocal…

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Gaivota

Alain Oulman
Alain Oulman

Dizem que o triângulo é a figura geométrica perfeita. Está na base das pirâmides, da Santíssima Trindade, do mistério das Bermudas, do fogo, da fertilidade… Mas a prova final do poder simbólico de um triunvirato, embora não necessária, foi-nos dada por Alexandre O’ Neill, Alain Oulman e Amália Rodrigues, em forma de palavras, música e voz.

Alexandre O' Neill
Alexandre O’ Neill

Não há muito mais a dizer. O poema é lindo, a composição brilhante e a voz de Amália sublime – impossível de imitar ou comparar. Eu costumo dizer que a voz de Amália é como a velocidade da luz – absoluta; e não é preciso ser português ou amante do fado para o constatar.

Fica o registo do poema e do fado.

Triângulo, voo, perfeição!
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“Gaivota”, de Alexandre O’ Neill

Se uma gaivota viesse 
trazer-me o céu de Lisboa 
no desenho que fizesse, 
nesse céu onde o olhar 
é uma asa que não voa, 
esmorece e cai no mar. 

Que perfeito coração 
no meu peito bateria, 
meu amor na tua mão, 
nessa mão onde cabia 
perfeito o meu coração. 

Se um português marinheiro, 
dos sete mares andarilho, 
fosse quem sabe o primeiro 
a contar-me o que inventasse, 
se um olhar de novo brilho 
no meu olhar se enlaçasse. 

Que perfeito coração 
no meu peito bateria, 
meu amor na tua mão, 
nessa mão onde cabia 
perfeito o meu coração. 

Se ao dizer adeus à vida 
as aves todas do céu, 
me dessem na despedida 
o teu olhar derradeiro, 
esse olhar que era só teu, 
amor que foste o primeiro. 

Que perfeito coração 
no meu peito morreria, 
meu amor na tua mão, 
nessa mão onde perfeito 
bateu o meu coração.

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Runaway

Esta canção, originalmente interpretada por Del Shannon, ficou mundialmente conhecida por fazer parte do genérico da série televisiva “Crime Story”.

Criada por Gustave Reininger e Chuck Adamson, a série tinha como produtor executivo Michael Mann e contava com a participação de Dennis Farina, no papel do detetive Mike Torello. Existem várias  versões do tema “Runaway”, inclusive uma dos Beach Boys, quase todas com mais de 20, 30 ou 40 anos. Ultimamente saiu uma nova versão (penso que em 2007) interpretada pelos Queen e Paul Rodgers.

Há canções que nasceram para ser recriadas de tempos a tempos. Esta é uma delas.

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Um encontro memorável

Kissin é um dos meus pianistas preferidos. Tive a sorte de o ver atuar há tempos na Gulbenkian, num recital memorável, quando ele deveria andar pelos seus 30 anos. Ainda hoje, com 41, Evgeny Kissin, moscovita de origem judaica, mantém a sua expressão de adolescente.

O episódio que quero relatar passou-se em 1988 e trata de um daqueles encontros felizes e raros que acontecem uma vez na vida. Neste caso, na vida de duas pessoas — Evgeny Kissin e Herbert Von Karajan. Se a elas juntarmos, através do seu famoso e arrebatador concerto nº1 para piano e orquestra,  Tchaikovsky, teremos o encontro de três génios. Kissin com 17 anos, Karajan no fim da vida (um anos antes) e Tchaikovsky, presente com sua música.

Para nosso deleite, esse episódio foi gravado, e aqui fica o registo do 1º andamento, sendo que podem encontrar, na mesma fonte, todo o concerto e ainda uma reportagem sobre este encontro feliz. Nessa reportagem, Kissin recorda o momento em que, após o concerto, quando sua mãe se aproximou, Karajan afirmou, apontando para ele:

Genius.

Poderíamos ainda alargar esta onda de felicidade  à excecional Filarmónica de Berlim. Como se sabe, esta orquestra foi talhada durante 35 anos pela batuta implacável de Herbert Von Karajan. Depois, seguiram-se Claudio Abbado e o diretor atual, Sir Simon Rattle (eleito pelos membros da própria orquestra), maestros que tive o prazer de ver atuar ao vivo.

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