Saramago, como todos os radicais, era um pessimista militante que queria salvar o mundo.
Se fosse vivo, completaria hoje 92 anos o aclamado escritor português, vencedor do Nobel da Literatura de 1998, José Saramago. Muito apreciado, não apenas pelos livros que escreveu, mas também pelos ideais políticos, o pensamento de Saramago tem sido dissecado, em posts, nas redes sociais: as críticas ao sistema capitalista e à globalização; a defesa dos mais desfavorecidos; a denúncia das prepotências das grandes potências, sobretudo da grande potência EUA; a indignação perante as injustiças; a “guerra” contra a Igreja; a militância comunista; etc. Para além disto, que penso ser o mais conhecido, em larga medida devido à grande divulgação das ideias de Saramago pela comunicação social, existem também os livros que escreveu1. Sobre estes, a minha opinião não é certamente a mais credenciada, embora não reconheça em José Saramago o brilhantismo que, para mim, alcançaram escritores como Eça de Queirós, Aquilino Ribeiro, Machado de Assis ou Guimarães Rosa, só para referir nomes de prosadores de língua portuguesa. (Deixemos os poetas fora disto).
Saramago teve, porém, o mérito de criar temas e estilo, e soube desenvolvê-los. Trabalhou incansavelmente para isso. O seu virtuosismo resulta da disciplina e do trabalho árduo, minucioso, inventariado, obsessivo, não tanto do talento inato. Saramago viveu para construir um mito. A prova disto é a sua obra tardia, após o 55 anos, fruto de toda uma maturação. Não sou eu quem vai contestar o seu mérito, o seu valor artístico, o seu estatuto de eminente e consagrado escritor.
Porém, se a apreciação da obra é subjetiva, a par dela Saramago construiu uma imagem pessoal – a do homem político – essa sim, bem mais objetiva. E tenho para mim que não foi tanto o político que serviu a obra, mas muito mais a obra que serviu o político. Notoriamente, este usou o prestígio angariado com aquela em prol da construção do mito do lutador social. Do ponto de vista teórico, a luta de Saramago não foi contra uma qualquer visão da sociedade, contra uma ideologia específica. A luta de Saramago foi contra toda uma civilização – afinal, aquela na qual ele próprio nasceu, viveu e morreu.
Mas, afinal, em que baseava Saramago a sua luta? Supostamente numa moralidade superior: a sua. José foi um moralista, sem dúvida, um dos maiores do início deste século. Como a maior parte dos moralistas, porém, a sua moral era bastante duvidosa. Numa entrevista, justificou o saneamento de vinte e dois jornalistas, quando era diretor-adjunto do “Diário de Notícias”, como uma decisão coletiva, colegial, na qual não teve qualquer responsabilidade particular2. Não seria preciso procurarmos muito até encontrarmos alguém que assumisse toda a responsabilidade num caso semelhante – a responsabilidade que José Saramago enjeitou. Na verdade, muitos cidadãos comuns seriam capazes de o fazer. A posição rígida de Saramago e a sua incapacidade de reconhecer um erro, constituem uma prova de que a moralidade, de facto, não se apregoa, pratica-se. E quanto mais se apregoa, menos se pratica e vice-versa.
Pouco antes de escrever este artigo, assisti ao filme “José & Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes. Um filme interessante mas tristíssimo, na verdade, tétrico, que retrata a vida de um homem em seu estádio final – sem esperança, sem alegria, nas suas próprias palavras, “sem tempo” – um homem totalmente dependente de uma mulher. Isto sobrepõe-se, surpreendentemente, ao que seria expectável, até pelo título da película, e de que não se pode duvidar – o amor entre Pilar e José. Aquela foi – e continua a ser através da sua qualidade de Presidente3 da Fundação Saramago – a eterna secretária deste. Numa passagem do filme, antes ainda de ficar doente, Saramago conta que a mulher uma vez lhe perguntou o que deveria fazer no futuro, ao que ele respondeu, sem hesitar: “continuar-me”. Noutra, ainda, vê-se Pilar abrindo cartas, anunciando remetentes e assuntos a Saramago. Uma delas era do Dalai-Lama, que convidava o escritor para uma comissão de honra. Este comentou que não gostava do líder budista – e passou-se à carta seguinte.
Antes de Pilar, Saramago viveu com outras mulheres, como se sabe. Uma delas, Isabel da Nóbrega (ainda viva), era já escritora4 quando Saramago nem sequer se aventurara na ficção. Foi ela quem sugeriu o nome de Blimunda para a protagonista de Memorial do Convento5 e foi nela que o escritor se inspirou para a referida personagem. De tal forma que lhe dedicou a obra, escrevendo: “À Isabel, porque nada pede ou repete, porque tudo cria e renova”. Em edição posterior, porém, já separado da escritora, haveria de apagar a dedicatória, numa atitude estalinista, típica da sua personalidade.
Nada disto parece surpreendente, sobretudo se falamos de alguém que, além de não gostar do Dalai-Lama, era também um crítico severo da humanidade. Humanidade exemplarmente retratada, em suas contradições, na frase que o próprio Saramago produziu numa entrevista, em 2003, ao programa de televisão brasileiro, Roda Viva: “Sou capaz de perdoar, mas também sou capaz de um eterno rancor!”
Ao contrário da maioria dos meus concidadãos, não gosto do discurso político (e moral) de Saramago. Gostaria de citar alguns nomes de diversificadas personalidades contemporâneas de Saramago – Karl Popper, Nelson Mandela, Tenzin Gyatso, José Mujica, Jorge Mario Bergoglio, e (o portuguesíssimo e brasileiríssimo) Agostinho da Silva – cujos pensamento e ação estão nos antípodas do pessimismo de José Saramago. Admiro-as por uma razão bem simples: suas vidas inspiram os mais novos. E a transmissão de esperança e otimismo constitui, essa sim, uma obrigação moral – talvez a maior – que temos, todos, relativamente às gerações vindouras.
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Notas:
1Eis a pequena lista dos (cinco) livros completos que li de Saramago. Memorial do Convento, História do Cerco de Lisboa, Viagem a Portugal, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Ensaio sobre a Cegueira.
2Um discurso inflamado de Saramago, num plenário que antecedeu a votação sobre a expulsão dos vinte e dois trabalhadores, influenciou claramente o sentido de voto, dado o prestígio que o diretor-adjunto gozava; e, no dia da votação, o próprio Saramago votou pela expulsão.
3Pilar del Rio rejeita o termo “presidente” e, tal como Dilma Rousseff, afirma-se “presidenta”.
4Escritora cuja obra vale a pena revisitar. Publicou romances, contos, peças de teatro e crónicas diversas. O seu romance mais conhecido é Viver com os Outros, de 1964.
O último ranking fora publicado em janeiro de 2014 e, daí para cá, há a registar a entrada de José Sócrates, “O Engenhocas”, e logo para o segundo lugar. Cavaco, “O Conspirador”, mantém-se na primeiríssima posição, pelo quinto ranking consecutivo. Paulo Portas, “O Oportunista”, trocou de posição com Nuno Crato, “O Contabilista”. João Semedo, “O Acusador”, subiu da nona para a quinta posição. Regresso de Marques Mendes, “O Concentrado”. Saídas de Aguiar-Branco, “O Consultor”, e António José Seguro, “O Desastrado”.
Do sul de Portugal é facílimo dar um salta à Andaluzia, ali mesmo ao lado, e conhecer belas cidades como Huelva, Sevilha, Cádiz, Málaga, etc. Nesta pequena viagem de três dias optamos por duas cidades espanholas, Córdoba e Granada, e uma do Reino Unido – um verdadeiro espinho cravado no corpo de Espanha – Gibraltar.
Algo ressalta, desde logo, quando se termina uma viagem por estes três lugares, geograficamente bem próximos: o seu passado árabe. De facto, Córdoba foi no século X sede do esplendoroso califado Omíada, Granada foi o último reduto árabe na Península Ibérica, e Gibraltar foi o lugar onde, em 711, o berbere Tariq ben Ziad desembarcou com sua tropas e abriu caminho para os árabes conquistarem a Ibéria. São, por isso, cidades não apenas históricas, mas também carregadas de simbolismo.
Pormenor de uma porta, em Córdoba.
Em Córdoba visitámos a Judiaria, a Mesquita-Catedral, a Alcazar dos reis cristãos, a ponte romana, a rua das Flores e a estátua de Maimónides. Este é o nome grego do rabino, professor, mestre, filósofo e médico judaico, Moshe Ben Maimon. A sua vasta obra, ainda hoje estudada e comentada, teve e continua a ter um impacto tão importante na religião judaica que ficou célebre o epitáfio medieval que dizia: “Desde Moisés (da Bíblia) até Moisés (Maimónides) não houve ninguém como Moisés”1
Por seu turno, Granada é uma cidade maravilhosa. O bairro antigo e árabe, chamado Albaicín, é encantador. Subindo-o, desde o centro da cidade, pode observar-se, na colina oposta, tendo por trás a Serra Nevada, a célebre Alhambra, que inclui um castelo cristão, um complexo palaciano e fortaleza de origem árabe, da dinastia Nasrida, e ainda jardins e hortas circundantes, a que chamam Generalife.
Azulejo do palácio árabe de Alhambra, em Granada.
Em Albaicín, a comparação com Alfama é quase inevitável. E, lamentavelmente para nós, Alfama fica a perder. Albaicín é muito mais limpo e preservado. As suas casas com pátios, interiores ou exteriores, sempre floridos, são muitas vezes autênticos miradouros de onde os olhos pousam e repousam sobre a cidade. Claro que o pequeno rio Darro que corre entre as colinas de Alhambra e Albaicín não tem a grandiosidade do Tejo. Mas só talvez se um dia Alfama se tornar património mundial, a gente possa aqui viver com o orgulho que se sente em Granada.
Por fim, Gibraltar: um daqueles lugares que fascinam geólogos, físicos e outros cientistas: uma montanha de rocha calcária elevada do fundo do mar pelas forças descomunais da Natureza. Gibraltar pertence ao Reino Unido desde 1713, ano em que os espanhóis cederam o território à Inglaterra, a título perpétuo, após a Guerra da Sucessão.
Pormenor de coluna no palácio árabe de Alhambra, em Granada.
Subir o rochedo de Gibraltar não deixa de ser uma aventura, mesmo que o façamos de carro, como foi o nosso caso. A estrada é estreita e íngreme, e o esforço a que obrigam os troços que têm de ser feitos a pé é compensado com vistas deslumbrantes em todas as direções, destacando-se as montanhas do norte de África (o Atlas) que se impõem a Sul. Pelo caminho vêem-se famílias inteiras de macacos da berberia, tão habituados aos turistas, que chegam a posar para as fotografias. Como o nome indica, foram aqui introduzidos pelos berberes e são hoje protegidos pelo governo local.2
Neste percurso ascendente – que é a principal atração turística do rochedo – podem visitar-se grutas, castelos e monumentos, mas o mais impressionante são sem dúvida os túneis cavados na rocha pelos britânicos, aquando do grande cerco feito pela Espanha (1779-1883) e também durante a II Guerra Mundial. Um dos túneis corta o rochedo de sul para norte, tendo pelo meio aberturas que deixam passar apenas o olhar humano (por vezes ajudado por binóculos) e os canos dos canhões. Dali é possível controlar o território espanhol, a baía de Algeciras e o próprio Mediterrâneo.
Gibraltar. Ao fundo, África.
Gibraltar e o monte Musa, em África, constituíam na Antiguidade as chamadas Colunas de Hércules. Entre elas ficava uma porta para o desconhecido3, – uma passagem que liga o Mediterrâneo ao Atlântico e onde passa hoje um navio a cada seis minutos. Não é difícil calcular a importância estratégica de Gibraltar. Nem surpreende que tanto o Reino Unido quanto os gibraltinos não queiram abrir mão deste simbólico território.
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Notas:
1“Raízes dos Judeus em Portugal”, Inácio Steinhardt.
2De acordo com a lenda, o Reino Unido perderá Gibraltar quando o último macaco desaparecer. Não admira, por isso, que os macacos sejam protegidos.
3De facto, como o próprio nome indica, o Mediterrâneo era o centro do mundo. Para além, ficava o desconhecido.
Parece-me evidente que o antiamericanismo tem crescido no mundo. Não sei se tem crescido também nos países ocidentais. Sei, porque o vejo todos os dias, que é efetivo, quer no Brasil, quer em Portugal.
Se, por um lado, esse sentimento é compreensível – sobretudo em tempos de grave crise económica e financeira – por outro, é completamente ilógico. Em primeiro lugar, porque os EUA são compostos por várias gerações de homens e mulheres do mundo inteiro – europeus, sul-americanos, portugueses, brasileiros, etc. Em segundo lugar, e principalmente, porque a partir do momento em que os EUA se tornaram o país dominante no mundo este ficou, de facto, melhor.
Os que criticam a política internacional americana esquecem-se de que, não muito antes dos EUA se tornarem a maior potência mundial, os países que o antecederam nesse papel dividiram entre si um inteiro continente, sentados confortavelmente, em torno de uma mesa, numa reunião em Berlim[1]. E que, para manterem seus impérios, alguns deles praticaram o extermínio sobre milhões de seres humanos[2]. Essa partilha imperial, inicialmente traçada a lápis, culminaria numa guerra fratricida, com duas partes distintas, traçada, desta vez, com projéteis de diversas dimensões – as primeira e segunda Guerras Mundiais. E o extermínio ampliou-se, brutalmente, até o inconcebível.
Se os EUA se demitissem do papel de líder mundial, é quase certo que a potência que ocupasse o seu lugar – e só um sonhador pode imaginar um mundo sem nenhum país mais poderoso, pois não há no mundo vazios de poder – seria pior. Claro que o exercício do poder, por mais democrático que seja, contém sempre alguma arbitrariedade e, consequentemente, alguma injustiça; e é ainda verdade que alguns presidentes americanos interpretaram de forma muito negativa, e por vezes trágica, o papel dos EUA no mundo[3]. Mas isso não invalida que a supremacia militar dos EUA (entre outras) seja muito menos agressiva do que todas as que a antecederam no decorrer dos últimos séculos.
Essa supremacia iniciou-se ainda no decorrer da Grande Guerra e consolidar-se-ia com a Conferência de Paz que se lhe seguiu, em Paris[4], onde as ideias e propostas do presidente democrata Woodrow Wilson prevaleceram – ideias e propostas que defendiam a autodeterminação dos povos, a proteção das minorias étnicas e a criação da Liga das Nações[5]. Foi o estertor dos estados imperiais[6].
Apesar do desmantelamento dos impérios, muitos consideram, hoje, os EUA um país imperial. Isso deve-se sobretudo à ação americana durante a Guerra Fria e, mais recentemente, às intervenções no Médio Oriente, nomeadamente no Iraque[7]. Cumpre dizer que esta foi, de facto, completamente despropositada, imprudente e injusta – uma reação irrefletida aos atentados de 11 de setembro[8]. Tal não invalida, porém, que outras intervenções se justifiquem, como é o caso da presente luta contra o ISIS – o Estado Islâmico no Iraque e na Síria.
A grande diferença entre os americanos e os outros é que, nos EUA, em qualquer decisão, participam sempre várias pessoas que pensam de forma diferente entre si. Nos países seus inimigos, sejam governados por radicais islâmicos pela esquerda radical marxista ou por autocratas como Putin, quem participa das decisões são pessoas que pensam da mesma forma[9], subjugadas, sempre, seja por um ditador, seja pela crença cega numa religião ou ideologia, sendo que ambos quase sempre se confundem. Os EUA – e os países ocidentais que partilham os mesmos valores – são a expressão última de um tipo de sociedade que se iniciou há 2.500 anos na Grécia Antiga, e o resultado de uma luta constante e interminável pela Liberdade e pela Democracia.
[1] Conferência de Berlim, realizada entre 19 de novembro de 1884 e 26 de fevereiro de 1885. Curiosamente, foi proposta por Portugal. Participaram Grã-Bretanha, Bélgica, Dinamarca, Holanda, França, Espanha, Estados Unidos, Itália, Suécia, Áustria-Hungria, Império Otomano, Alemanha e Portugal.
[2] Na verdade, os negros exterminados em África eram considerados seres inferiores aos brancos pela maioria dos colonizadores da época.
[3] Os casos mais evidentes são os de Richard Nixon (Guerra do Vietnam) e George W. Bush (Guerra do Iraque).
[4] A Conferência de Paz de Paris decorreu durante cerca de um ano, entre janeiro de 1919 e janeiro de 1920.
[5] As ideias de Wilson foram anunciadas pela primeira vez ao Congresso dos Estados Unidos num discurso realizado em 8 de janeiro de 1918. Esse discurso ficou célebre e conhecido pelo discurso dos “quatorze pontos”. Ver em http://pt.wikipedia.org/wiki/Quatorze_Pontos. Apesar das boas intenções de Wilson, há (e houve, claro) quem ponha em causa a aplicação do conceito de “estado-nação”, sobretudo porque contribuiu para o aumento dos problemas, relativamente aos impérios tradicionais.
[6] Um livro interessante sobre esta matéria é “Impérios em Guerra: 1911-1923”, org. de Robert Gerwarth e Erez Manela, Editora D. Quixote, Lisboa, 2014.
[7] Como é evidente, os americanos são também muito criticados por intervirem militarmente na defesa de seus interesses económicos. Mas, tal como o mundo está organizado hoje – e convém dizer que essa organização deve muito aos EUA – essas intervenções arbitrárias são cada vez mais difíceis, dado que são objecto de escrutínio por parte da comunidade internacional. e também da imprensa mundial, incluindo a própria imprensa (livre) norte-americana.
[8] Foi depois do 11 de setembro que John Perkins, um auto-intitulado “pistoleiro económico” (economic hit man) americano escreveu o seu polémico livro Confessions Of An Economic Hit Man, publicado em 2004. Perkins relata os episódios vividos enquanto consultor da empresa norte-americana Main, junto de alguns governantes de países em desenvolvimento. O papel dessas empresas era o de facilitar o empréstimo de dinheiro para infraestruturas, o qual mais tarde retornaria, naturalmente, aos EUA. Caso não fossem aceites as condições propostas, usava-se a força, ora assassinando esses líderes, ora, em último recurso, intervindo militarmente. Como seria de esperar, o livro é muito polémico, e Perkins não apresentou qualquer documento que envolva o governo americano. Esse facto é realçado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, que rejeita todas as acusações e afirma que o livro de Perkins é “pura ficção”. A propósito duma edição desta obra, em 2006, no Reino Unido, veraqui um excelente artigo de Gary Youngue, no The Guardian.
[9] De facto, os membros dos partidos marxistas/leninistas orgulham-se de pensarem todos da mesma maneira e de eclipsarem a sua individualidade no coletivo superior do Partido. Sobre este tema “individualismo/coletivismo”, ver artigo deste blog, https://ilovealfama.com/2012/10/19/por-que-deixei-de-ser-marxista/.
Parece haver apenas duas formas de nos posicionarmos face aos Descobrimentos Portugueses. Uma é considerada conservadora, atrasada, imperialista, de Direita. Outra, anti-patriótica, ignorante, leviana, de Esquerda. Estes sentimentos antagónicos acirram-se ainda mais em tempos de crise, como o que vivemos atualmente.
No entanto, factos são factos, e os Descobrimentos foram efetivamente um feito extraordinário, não apenas da História de Portugal, mas também da História Universal[1]. Portugal alargou o mundo para lá do Mediterrâneo que – como o nome indica – era até então o centro da Terra. África, América, Ásia e, ao que parece, a própria Austrália[2] foram alcançadas pelos navios portugueses. Tal feito é ainda mais extraordinário se considerarmos a pequena dimensão de Portugal e o seu reduzido número de habitantes. A solução para o problema populacional foi encontrada através da miscigenação, por um lado, e pelo comércio de escravos (sobretudo para o Brasil), por outro.
Portugal foi no século XVI talvez o país mais rico do mundo. Não apenas o mais rico, mas também bastante avançado nos campos científico e tecnológico. O conhecimento era “de experiência feito”, como escreveu Camões, e essa experiência entrava pelo Tejo num número impressionante de navios, oriundos de todas as partes do mundo.
As embarcações lusas eram as melhores e as maiores que existiam e ainda hoje algumas delas são procuradas, como é o caso do galeão Flor de la Mar, afundado em 1511 nas águas costeiras de Sumatra, antes de concluir meio-dia de viagem. Em 1992, a casa de leilões de arte Sotheby’s avaliou o tesouro afundado com o Flor de la Mar, a preços desse ano, em 2,5 mil milhões de dólares[3]. Outro navio, o Madre de Deus, capturado nos Açores pelos ingleses[4], em 1592, foi conduzido a Inglaterra. Este navio era três vezes maior que qualquer navio britânico e vinha da Índia carregado de tesouros. A carga foi avaliada em meio milhão de libras esterlinas, uma soma astronómica, equivalente a quase metade de todo o tesouro inglês[5].
O império português foi um império marítimo, tal como o inglês, mas no caso português essa denominação é ainda mais verdadeira pois, como vimos, os portugueses não tinham homens em número suficiente para ocupar as terras. Estabeleceram-se várias praças nas zonas costeiras, através das quais os portugueses controlavam e faziam o comércio. Ainda assim, em todos os lugares por onde passaram, deixaram legados culturais, seja no património edificado, seja na língua[6], nas artes, na religião ou em outras manifestações, como a gastronomia.
Portugal é um país voltado para o mar. Espanha, o único país com quem tem fronteiras terrestres, constituiu sempre uma espécie de barreira que obrigou Portugal a enfrentar o desafio marítimo. Nunca se procurou a expansão continental, nem isso seria possível. Portugal abriu caminho para que outros impérios marítimos surgissem, sobretudo o holandês e, com uma implantação posterior mas também mais forte, o inglês. Portugal e Inglaterra foram velhos aliados contra espanhóis, holandeses e franceses. Claro que a Inglaterra, como país muito maior, se aproveitou muitas vezes das nossas fraquezas[7]. Mas é também verdade que mantivemos algumas colónias (sobretudo, o gigante Brasil) graças à proteção dos ingleses.
Outros países europeus, mais virados para o continente do que para o oceano, procuraram construir impérios pela via terrestre – sobretudo os casos russo e alemão[8] – e estes impérios terrestres haveriam de ser bem mais destrutivos que os marítimos, custando muito caro à Eurásia, dizimada pelos regimes nazi e estalinista. Quando no final do século XIX os europeus decidiram repartir entre si o continente africano, Portugal já ali se implantara há 500 anos. A colonização africana foi brutal, sobretudo a belga e a alemã[9] – e isso conduz por vezes à discussão sobre colonizações “suaves” (se é que existem) e “brutais”.
A colonização portuguesa, apesar das idiossincrasias locais, foi, em alguns períodos, brutal. Há relatos de atrocidades cometidas pelos portugueses, praticamente em todos os lugares onde se estabeleceram. Mas nunca praticaram o extermínio. Até porque precisavam dos habitantes locais para se multiplicarem e para conseguirem a mão-de-obra necessária à manutenção dos territórios. A escassez de mão-de-obra foi, aliás, sobretudo no Brasil, uma das razões principais da prática da escravatura – o que pode ser considerado a maior pecha da colonização portuguesa. Apesar da escravatura sempre ter existido e continuar a existir, talvez sob formas piores, tal não constitui desculpa para uma prática, sem dúvida, infame.
Hoje esse grande país chamado Brasil é o resultado da miscigenação de índios, negros e portugueses, pontuada por habitantes de outros povos – um exemplo para o mundo de uma sociedade verdadeiramente inter e intra-racial. É por isso que faz todo sentido uma expressão popularizada, não apenas em Portugal: “Deus criou o branco e o preto. Os portugueses criaram o mulato”.
O espírito português está bem retratado no livro A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto[10], um aventureiro que percorreu todo o sudeste asiático e viveu as mais incríveis peripécias até regressar a Portugal, passados 21 anos. Durante algum tempo pensou-se que esse relato fosse no mínimo exagerado e até fantasioso, mas os japoneses sempre confirmaram os episódios narrados que lhes diziam respeito e muitos historiadores – como é o caso da americana, Rebecca Catz, professora da Universidade da Califórnia, em Los Angeles – chegaram à conclusão de que o relato é verdadeiro[11]. Aliás, só poderia ser verdadeiro, dado que o que se conta na Peregrinação apenas chegou ao conhecimento dos europeus vários anos depois da morte de Fernão Mendes Pinto. Ora, este não podia ter conhecimento daqueles factos se não os tivesse presenciado[12].
Hoje o império marítimo português não passa de uma memória. Mas o fascínio pelo mar continua intacto. Nas artes, na gastronomia, no lazer, no imaginário, na memória e no horizonte de Portugal.
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Notas:
[1] Adam Smith, o célebre economista liberal escocês, considerou os Descobrimentos Portugueses como um dos maiores feitos da humanidade.
[2] Também a América do Norte tem sido reclamada como uma descoberta dos portugueses. Ver artigo deste blog sobre a Pedra de Dighton.
[3] Martin Page, “Portugal e a Revolução Global”, Nova Fronteira, Brasil, 2011.
[4] Apesar de os ingleses terem sido quase sempre nossos aliados, isso não aconteceu durante os 60 anos em que fomos governados pela Espanha, após a crise dinástica provocada pela morte de D. Sebastião, dado que a Espanha era inimiga da Inglaterra.
[5] Nigel Cliff, “Guerra Santa”, Globo Livros, Brasil, 2013.
[6] “Obrigado”, por exemplo, deu origem, no Japão, a “arigato” e “pão” a “pan”.
[7] Ver artigo deste blog.
[8] Também o francês (com Napoleão) e outros, embora não tão devastadores.
[9] Os belgas mataram milhões de seres humanos, no Congo, e os alemães quase exterminaram o povo herero, na atual Namíbia, além de terem dizimado cerca de 300.000 maji-maji, na África Oriental Alemã. Os alemães, embora tardiamente, também quiseram ter o seu império marítimo mundial e, de certa forma, conseguiram-no, embora por um curto período que terminou na Primeira Guerra Mundial.
[12] Não devemos ser ingénuos e considerar que tudo o que é relatado na “Peregrinação” é verdadeiro (no sentido de “exato”). Seria impossível Mendes Pinto recordar (a obra foi escrita vários anos após os acontecimentos narrados) tantos pormenores. A “Peregrinação” continua a ser um desafio, sobretudo no que toca às fontes a que Mendes Pinto recorreu, sendo certo que recorreu a várias, mais ou menos identificáveis, e a algumas (muitas) de impossível identificação. Sobre este assunto, ver o excelente artigo de Rui Manuel Loureiro, “Missão Impossível: em Busca das Fontes da Peregrinaçam de Fernão Mendes Pinto”, inserido no livro, organizado por Virgínia Soares Pereira, “Fernão Mendes Pinto e a Projeção de Portugal no Mundo”, editado pela Universidade do Minho (2013). No entanto, tal como referimos no texto, parece que Pinto “mente cada vez menos” (“Fernão Mentes? Minto”) tal como refere, ainda na obra aqui citada, o investigador holandês, Arie Pos, através do seu artigo “Imagens da China na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto”. Ver também a obra de António Rosa Mendes, “A Peregrinação e a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto”, Gente Singular Editora, Olhão, 2011, onde o autor discorda de Rebecca Catz, desmontando e negando a tese de que a Peregrinação seria essencialmente uma sátira.
Pelo segundo ano consecutivo, Alfama vence o concurso das Marchas Populares de Lisboa, com o tema Gira o Sol sobre Alfama. Predominaram as cores amarela e verde – o que fez lembrar inevitavelmente o Brasil…
Orfeu era filho de uma Musa e de um príncipe da Társia. Herdou da mãe o dom da música e ninguém podia resistir à sua arte de tocar e cantar. As suas melodias eram tão belas que faziam mover os rochedos dos montes e mudavam o curso dos rios. Um dia, Orfeu conheceu a bela Eurídice, acabou por casar com ela e ambos eram muito felizes. Passado pouco tempo, porém, Eurídice foi mordida por uma serpente, e morreu. A dor de Orfeu foi tão intensa que resolveu descer aos Infernos, numa tentativa desesperada de recuperar a sua amada. Empreendeu então uma temível viagem ao mundo das profundezas, algo que jamais alguém se atrevera fazer. Tangeu a sua lira e conseguiu que todos os vigilantes o deixassem passar. Ali chegado, cantou uma canção tão bela e pungente que o senhor do Hades e sua mulher se aproximaram para escutar melhor… “Ninguém, sob a magia de sua voz, era capaz de lhe recusar fosse o que fosse; arrancou lágrimas de ferro a Plutão e moveu o Inferno a restituir o que o Amor procurava”. Entregaram-lhe Eurídice, mas com uma condição. Não devia olhar para trás, enquanto ela o seguisse, durante o retorno à superfície terrestre. Saíram ambos pelos portões do Hades e encetaram a subida pelo caminho que os conduziria ao mundo dos vivos. Orfeu ia na frente e sentia, por entre as trevas, que Eurídice o seguia, mas ansiava por olhar de relance para certificar-se de que assim era. Estavam quase chegando, a luz do dia já inundava o caminho e Orfeu rejubilava de alegria. Olhou para trás… cedo de mais! Eurídice ainda vinha na caverna. Estendeu os braços numa tentativa desesperada de agarrá-la, mas o vulto da amada esgueirara-se de novo para o mundo subterrâneo. Orfeu só conseguiu ouvir uma voz débil dizer “Adeus”! Tentou segui-la, mas tal não era permitido. Os deuses não consentiam duas entradas no reino dos mortos a alguém ainda vivo. Vagueou então pelo mundo, sem nada para além da sua lira, que tocava continuamente. Seus únicos companheiros eram os rochedos, os rios e as árvores, que o escutavam deleitados. Assim passou muito tempo até que, enfim, um bando de Ménades foi ao seu encontro. Assassinaram-no, despedaçando-o, membro após membro, acabando por atirar a cabeça ao tumultuado rio Hebro, que a transportou rio abaixo, até a foz, e daí às praias de Lesbos, onde as Musas a recolheram e enterraram, no santuário da ilha, ainda perfeitamente intacta, apesar da força corrosiva das águas. Reuniram os membros desconjuntados do seu corpo e depositaram-nos num túmulo, no sopé do monte Olimpo. É aí que ainda hoje os trinados dos rouxinóis são mais melodiosos do que em qualquer outro lugar.
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A nossa edição:
Edith Hamilton, A Mitologia, Dom Quixote, Lisboa, 1983
Desde há muitos anos que ouço o Concerto nº2 para Piano e Orquestra1 de Rachmaninoff2, em disco e ao vivo. Lembro-me bem, a primeira audição foi de uma gravação que tem como pianista Vladimir Ashkenazy3, numa interpretação, aliás, excelente. Depois assisti ao vivo a interpretações dos pianistas Evgeny Kissin4 (a minha preferida), Mikhail Pletnev5 e Nelson Freire6. Em disco, as audições distribuem-se por dezenas de interpretações diferentes, de grandes maestros, orquestras e pianistas, entre as quais, uma do próprio Sergei Rachmaninoff.
Estamos obviamente perante um grande clássico desse tardio e ultrarromântico compositor. Talvez o concerto mais romântico de sempre. Tanto que serviu de banda sonora a um filme que também é justamente considerado por muitos o mais romântico de todos os tempos – “Brief Encounter”7 (Breve Encontro), do magnífico realizador britânico David Lean8.
Aqui fica um registo dessa peça imortal, com a Filarmonica Teatro Regio Torino, dirigida por Ginandrea Noseda e com a excelente e bela Khatia Buniatishvili, ao piano. Para desfrutar.
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Notas:
1A palavra “concerto” deriva do termo latino “concertare” que significa “dialogar”. Concerto para piano (ou outro qualquer instrumento) e orquestra não é mais, pois, do que um diálogo entre esse instrumento e a orquestra respetiva.
2Compositor e maestro russo (1873-1943) que se exilou nos EUA, onde faleceu, tendo vivido também na Suíça.
3Pianista e maestro russo (1937), que se exilou, no tempo da União Soviética, no Ocidente. É o atual presidente da Sociedade Rachmaninoff.
4 Outro pianista russo. Começou muito jovem a ter contacto com o piano. É considerado um dos maiores pianistas do mundo. Tem hoje 42 anos de idade.
5 Russo, igualmente. E também um dos grandes pianistas mundiais. Nasceu em 1957 (14 de abril).
6 Brasileiro, natural de Boa Esperança, Minas Gerais. Hoje, com 69 anos, é um pianista com excelente reputação mundial.
7 Filme ainda a preto-e-branco, de 1945. Como protagonistas desse encontro breve, Celia Johnson e Trevor Howard.
8Um dos meus realizadores (diretores) favoritos. Entre outros, dirigiu “Doutor Jivago”, Lawrence da Arábia”, “A Ponte sobre o rio Kwai”, “Passagem para a Índia”, “A Filha de Ryan”. Privilegiava nos seus filmes os grandes cenários naturais. É considerado um mestre da montagem cinematográfica.
Visitar Casapueblo, em Punta Ballena, no Uruguai, é uma extraordinária surpresa, comparável ao que sentimos na oficina de Francisco Brennand, em Recife, ou no espaço onde se situa a Sagrada Família, de Gaudí, em Barcelona. Casapueblo é um conjunto habitacional, construído numa encosta, fronteira ao Rio da Prata, sob orientação de Carlos Páez Vilaró. Hoje o conjunto abriga um hotel, um museu com obras daquele artista plástico, escritor, compositor e cineasta, e a casa onde ele vivia. Vilaró faleceu em fevereiro deste ano, com 90 anos, mas antes conheceu o mundo. Era um viajante assumido e consagrado.
Nascido em Montevideo, no bairro de Los Pocitos, passou parte da infância brincando nas areias do rio da Prata, sendo aí que pensou pela primeira vez cruzá-lo e chegar a Buenos Aires. E foi ainda nesse bairro, embora numa casa mais no interior, na rua Santiago Vásquez (para onde a família se havia mudado, devido às atividades políticas do pai) que terá nascido a obsessão de Carlos pelo Sol, ao vê-lo representado na primeira bandeira do Partido Agrário, bordada por sua mãe, Rosita Vilaró, numa máquina Singer. Partido Agrário fundado por seu pai, que se demitiu do Partido Nacional, para lutar pela gente do campo. O sol seria para sempre elemento essencial na arte de Carlos Vilaró.
Os telheiros são construídos com canas de pesca.
Outro episódio interessante ocorreu já na adolescência, quando mais uma vez devido à atividade política do pai, a família se mudara para o bairro El Cordón. Carlos Páez deparou-se com uma empregada negra em casa de um amigo, onde costumavam brincar. O fascínio foi imediato e, desde aí, ele se interessaria para sempre pelas coisas de África, pelos negros e sua cultura. Mais tarde, nos anos sessenta do século XX, Vilaró se embrenharia pela África – Libéria, Camarões, Gabão, Congo, Quénia – e foi no Gabão, em Lambaréné, que conheceu e ficou amigo do doutor Albert Schweitzer[1]. Já no Quénia, pintou um mural no palácio do presidente Fulbert Youlú. Pintar em África enriqueceu-lhe a experiência e excitou-lhe a imaginação.
Antes de se mudarem definitivamente para a casa que estavam construindo em Nuevo Malvín, ainda em Montevideo, os Páez Vilaró (pai, mãe e três filhos) habitaram em outros locais, e haveria de ser na praia del Buceo que Carlos faria os seus primeiros rabiscos, desenhando, em forma de caricatura, os pescadores. Os seus desenhos tinham sucesso pois os pescadores pagavam-lhe os desenhos com peixe e marisco. Com tudo isto, Carlos ia se desinteressando da escola… Em algumas visitas periódicas, nas férias, a uma estância (El Ombú) de seu tio Alfredo Puig, começou a desenhar também cenas campestres que o impressionavam.
Há quem encontre semelhanças com Santorini, na Grécia.
Até que chegou a hora de cruzar o Prata, chegar à Argentina e cumprir aquele sonho de criança. Um dia Carlos acercou-se da margem do Prata e tomando com a mão um pouco de espuma da água do rio, fez o sinal da cruz e pediu a Deus que o ajudasse a fazer a travessia. E assim tomou a decisão de se emancipar e trabalhar em Buenos Aires. Nessa época, ele não podia imaginar que aquele salto se prolongaria em outros mil, numa viagem permanente que seria toda a sua vida. Depois de se despedir de amigos, familiares e de uma menina muito especial que morava num bairro de lata e se chamava Valentina, acompanhado pela mãe, apanhou um táxi para o porto e, com o coração apertado e as lágrimas da mãe na lapela, embarcou. Estávamos em 1941 e Carlos tinha dezanove anos de idade.
Em Buenos Aires, seu primeiro trabalho foi numa fábrica de fósforos. Paralelamente, começou a desenvolver os primeiros esboços, que retratavam a atmosfera das gentes trabalhadoras. Não se interessou por estudar, agradava-lhe o desafio de avançar tateando, sem a ajuda de um mestre. Pouco tempo depois de iniciar o trabalho na fábrica de fósforos, conseguiu um novo emprego, melhor remunerado, numa empresa de artes gráficas, La Fabril, onde se imprimiam as melhores revistas argentinas. Isso foi muito útil, pois permitiu-lhe conhecer o trabalho dos melhores cartonistas daquela época, alguns dos quais se tornaram seus amigos. Começou a frequentar a animada vida noturna portenha. Comprou uma máquina de escrever e continuou desenhando.
O Sol é omnipresente na obra de Vilaró.
Os anos passaram até que uma doença aftosa, provocada pela ingestão de leite deteriorado, o obrigou a regressar a Montevideo. Na cidade natal fundou duas empresas de publicidade em cinema com seu irmão Miguel, até que um incêndio destruiu o armazém onde guardavam o material cinematográfico, mais de trezentos mil metros de fita. Continuou buscando temas para pintar, mas Montevideo não tinha a chama de Buenos Aires, a inspiração tardava, até que uma noite, por volta do Natal, um grupo de negros, cantando e dançando pelas ruas, o impressionou de tal forma que o seguiu até o local humilde onde habitava – o Mediomundo – e aí sentiu de forma redobrada a vontade de pintar, encontrando finalmente dentro de si motivo para o fazer. Seu entusiasmo foi tal, que invariavelmente levava os amigos que chegavam ao país a conhecerem Mediomundo[2]. Jorge Luis Borges, Joséphine Baker e Ernesto Sábato[3] estão entre eles. E foi ali que expôs suas obras de homenagem às delegações da UNESCO quando estas se reuniram, naquela época, em Montevideo.
Além disso, passou a integrar as atividades culturais daquela comunidade, sendo percussionista e chegando a compor várias músicas. Entrou assim a fundo no universo do candombe, um tipo de música que nasceu no seio das populações de escravos negros que foram transportadas para o Uruguai a partir do fim do século XVIII e que é, hoje, Património Cultural da Humanidade, reconhecido pela UNESCO.
Cúpulas que escrevem no céu.
Os candombes que compôs chegaram a ser interpretados e gravados por artistas de renome uruguaios. Foram figuras de comparsas[4] negras, percussionistas e bailarinas, que representou nos quadros de sua primeira exposição, em Punta del Este. Continuou a pintar em Mediomundo até que em meados dos anos cinquenta um empresário o procurou e convidou para expor em Buenos Aires, na maior galeria da Argentina. A exposição foi um sucesso e consagrou-o definitivamente como artista de craveira mundial.
A partir daí desenhou, pintou e expôs um pouco por todo o mundo. O branco fascinava-o e sempre queria preencher seus espaços com formas e cores que lhe povoavam a imaginação. Gostava de pintar pratos brancos quando visitava pela primeira vez um restaurante. Mas seu maior fascínio eram os muros brancos. Pintou murais em inúmeros países, no total, cerca de trezentos, em hotéis, hospitais, prisões, asilos, aeroportos, palácios presidenciais, casas particulares, muitos deles deteriorados ou destruídos por vandalismo ou por incúria das autoridades locais. Para além do Uruguay, pintou murais em países tão díspares como os EUA[5], Panamá, Japão, Ceilão, Quénia, Congo, Camarões, Tahití, Austrália, Argentina e Brasil[6], entre outros.
A foto foi tirada por Douglas Duncan, herói da Guerra da Coreia.
Conheceu e foi amigo de gente famosa, sobretudo ligada às artes, quer nos muitos países que visitou, quer em Casapueblo, Punta Ballena[7]. Um episódio interessante ocorreu quando visitou Picasso (1957), em Villefranche-sur-Mer, na França. Vilaró tomara contacto com vinte sete peças de Picasso (vasos e pratos), em cerâmica, numa exposição em Montevideo. Quando se encontraram falou a Picasso sobre a excelente impressão que essas peças lhe tinham causado, mas que não pôde comprar nem uma, dado o valor elevadíssimo das mesmas. Picasso quis saber de qual peça ele tinha gostado mais.
– Todas, don Pablo!
– Tens preferência por alguma em especial?
– Na verdade, comprá-las-ia todas, se pudesse – respondeu Vilaró.
Picasso pegou no telefone, ligou para alguém e disse: “Estou aqui com Páez Vilaró, um pintor do Uruguai… Deve estar louco, pois gosta de todas as minhas cerâmicas. Por favor, embale-as bem e remeta-as ao consulado uruguaio em Cannes”. Ainda atordoado pela surpresa, Vilaró percebeu que do outro lado da linha perguntavam qual o preço, ao que Picasso respondeu, de imediato: “Esqueça isso. É uma oferta minha”.
As cerâmicas estão hoje em Casapueblo e são (foram, para Páez Vilaró) o tesouro mais precioso de todas as peças ali expostas.
Monumento de homenagem aos pescadores.
Um dos traços mais marcantes da multifacetada personalidade de Vilaró era a abrangência de seus interesses e amizades. Longe de se dar apenas com pessoas famosas, ele era amigo de gente bem humilde, como já vimos pelo que se passou em Mediomundo. Outro grupo de onde extraiu vários amigos foram os pescadores. Quando chegou a Punta Ballena e se propôs ali construir a sua casa, o local não tinha qualquer edifício, apenas lá viviam alguns pescadores, bem perto do mar, em grutas que lhes serviam de habitação, sem água canalizada ou luz elétrica. Vilaró foi à gruta de um deles, o que ali se radicara há mais anos, chamado Abdón Ramos, para lhe pedir permissão para construir a casa. O pescador pensou que fosse alguma piada, não compreendia a intenção de Vilaró, pois era apenas um humilde habitante do lugar. Este respondeu-lhe que o fazia porque ele era “o verdadeiro dono da paisagem”. Ficaram amigos. Abdón Ramos e outros dois pescadores, Agustín e el Dios Verde, estavam presentes sempre que se inaugurava uma exposição em Casapueblo, em representação do povo do mar. Um pequeno monumento pode ser visto hoje, no local, em homenagem aos pescadores.
Ali sentimo-nos um pouco Vilaró.
A construção de Casapueblo realizou-se por fases. Primeiro havia que adquirir o terreno. Dado que não haviam lotes pequenos para compra e Vilaró não dispunha de dinheiro para comprar um terreno de quarenta hectares, o seu irmão Miguel teve a ideia de conseguir uma sociedade, a qual acabou por ser constituída por quinze argentinos e quinze uruguaios. A terra custava quatro pesos uruguaios por metro quadrado, o preço de um maço de cigarros. Primeiro foi construída uma casa de lata, com chapas de zinco presas a toros de madeira. Mais tarde, Carlos Vilaró ergueu uma casa de madeira (La Pionera) e ofereceu a casa de lata aos pescadores, que ficaram felizes. Porém, com o advento da ditadura militar, a casa de lata foi considerada refúgio de terroristas e as autoridades locais ordenaram a sua demolição em quarenta e oito horas.
A construção de La Pionera foi realizada à revelia das autoridades. O local era tão inacessível que nenhum inspetor se atrevia a visitá-lo. Cedo, porém, a casa se revelou pequena para armazenar todo o material de Vilaró e para acolher os amigos que frequentemente o visitavam. Era necessário algo maior, e assim, com a ajuda dos pescadores, começou a nascer Casapueblo, em torno de La Pionera, até que esta desapareceu por completo, engolida por aquela. Vilaró não era arquiteto e a construção não obedeceu a qualquer plano prévio. Ele e seus amigos pescadores ergueram Casapueblo respeitando os contornos que a natureza desenhou, utilizando materiais antigos, como portas e janelas, construindo de dentro para fora e do centro para a periferia, criando à medida que avançavam. Casapueblo tem um pouco de cada operário, sendo Vilaró um deles.
Aspeto do museu.
Face aos rigores climáticos próprios de um local aberto sobre o mar, as janelas e portas revelaram-se uma necessidade, sendo que Casapueblo deve possuir mais de quinhentos espaços que se abrem e fecham. A construção acompanha a encosta desde o topo até o mar e foi por isso necessário esculpir uma longa escadaria. Esse trabalho foi efetuado por um crioulo, especializado na construção de fornos de pão. A iluminação está incrustada na pele do cimento, evitando-se assim o uso de apliques. Durante o dia passa despercebida, integrada no corpo da casa, mas à noite transforma Casapueblo numa nave incandescente, dormitando na borda do oceano. Foram construídos cem respiradouros e vinte chaminés, e a água corre por intermináveis canalizações, alimentando oito bebedouros, cinco piscinas e as mais de trezentas saídas de bronze que permitem a rega dos jardins.
Cada terraço, varanda ou ruela tem uma identidade própria, e a alguns deles foram atribuídos nomes, como John Lennon, Mario Benedetti ou Pelé, entre muitos mais, mas, no seu conjunto, Casapueblo é, nas palavras do próprio Páez Vilaró, uma “homenagem ao sol e uma oferenda à mulher”. As cúpulas representam a sua maneira de “escrever contra o céu”. Todo o espaço é branco, puro, imaculado, como não podia deixar de ser e como o autor quis que fosse, desde o início. Belo e impactante, sobretudo em jornadas límpidas, luminosas, como foi o caso do dia da nossa visita, quando aquela harmoniosa massa branca reforça ainda mais o azul profundo do céu, e vice-versa. Existem mais de cinquenta quartos em todo aquele imenso espaço curvo, como o próprio universo, que inclui a residência de Vilaró, o museu e um hotel.
O hotel.
A vida de Carlos Páez Vilaró foi, pois, aventurosa, mas não apenas plena de venturas[8]. Os filhos de seu primeiro casamento, durante toda a infância, raramente viam um pai em constantes viagens e empreendimentos; o primeiro filho de seu terceiro casamento, foi alvo de uma disputa sobre a paternidade, provocada pelo ex-marido da então sua futura mulher, um jovem e poderoso empresário de Buenos Aires, que ficou com a custódia da criança durante mais de quinze anos, até a paternidade ser finalmente concedida por meios legais a Vilaró[9]; e, finalmente, o seu filho Carlos Miguel foi um dos passageiros (e um dos dezasseis sobreviventes) do avião uruguaio que se despenhou na cordilheira dos Andes, num acidente que ficou conhecido como a “Tragédia dos Andes”, em 1972[10]. Partiu de imediato para o Chile, mas teve de passar por tempos muito difíceis, pois os últimos sobreviventes, entre os quais estava seu filho, só foram resgatados setenta e dois dias depois.
Podemos encontrar muito do que foram as vida e obra de Páez Vilaró espelhado em Casapueblo. A sua arte tem alguma coisa de pop art, mas é mais do que isso, até porque lhe é anterior. Vilaró apelidou-a de Plac-art, “uma criação que escapa às linhas tradicionais para entrar num mundo libertado, explodindo em luzes, sons, cor e objetos em movimento”. É por isso que é imprescindível conhecê-la, em Casapueblo, nem que seja por uma vez.
Carlos Páez Vilaró.
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A nossa edição:
Carlos Páez Vilaró, Posdata, Autobiografia, Prisa Ediciones, 2012, Montevideo,Uruguay.
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Notas:
[1] Teólogo, filósofo e músico alsaciano (na época de seu nascimento a Alsácia fazia parte do Império Alemão, mas hoje faz parte da França), iniciou já depois dos trinta anos o curso de medicina e após concluí-lo casou e partiu para África, tendo montado em Lambaréné, no Gabão, num ambiente inóspito, um hospital que inicialmente funcionou num galinheiro. Preso durante a guerra, voltaria a Lambaréné, onde ergueu um novo hospital e viveu até o fim. Foi autor de várias obras importantes e laureado com o Prémio Nobel da Paz, em 1952 (1875-1965).
[2] Mediomundo era um grande edifício retangular, de dois andares, com quarenta habitações em torno de um grande pátio interior. Tinha ainda um cisterna de água, trinta e dois lavadouros e duas casas de banho. Foi projetado por Alejandro Canstatt e inaugurado em 1885. Era conhecido como Conventillo de Risso e só depois de demolido, em dezembro de 1978, passaram a chamar-lhe Mediomundo. Situava-se na rua Cuareim, hoje, Zelmar Michelini, em Montevideo, Uruguay. Em Lisboa existiram edifícios do género. Lembro-me, por exemplo, do Convento das Bernardas, no bairro da Madragoa, onde habitavam muitas famílias de baixo extrato social.
[3] Evidentemente, toda a gente sabe quem foi o grande escritor argentino Jorge Luís Borges; Josephine Baker foi uma dançarina norte-americana, naturalizada francesa, que participou em vários filmes; Ernesto Sábato foi igualmente um grande escritor argentino, que morreu em 2011, com noventa e nove anos de idade, dois meses antes de completar um século de vida.
[4] Comparsa é um grupo de tocadores e bailarinos, uma trupe, essencialmente de percussão, que sai atuando pelas ruas, sobretudo no Carnaval.
[5] Um dos murais mais interessantes pintado por Vilaró foi num asilo para idosos latinos, em Washington. Chamou-lhe “Mural Infinito”. Os anciãos puderam pintar o mural com ele e continuar todos os dias, alterando-o e recriando-o. De acordo com Vilaró, este foi o mural em que obteve maior prazer.
[6] Hotel Delfim, em Guarajá; Yate Club, em Florianópolis; Hotel Casacolina, em Búzios; Hotel Hilton e Edifício Scarpa, em São Paulo.
[7] Eis algumas das personalidades com quem conviveu, para além dos já citados no texto: Astor Piazzola, Juscelino Kubitschek, Oscar Niemeyer, Fidel Castro, Che Guevara, Peron, Quinquela Martín, Brigitte Bardot, Lech Walesa, Plácido Domingo, Andy Wharol, Aristóteles Onassis, Pablo Neruda, Eduardo Galeano. Entre os convidados que recebia em Casapueblo, contam-se Henry Ford, Vinicius de Moraes, Omar Shariff, Robert de Niro, Mercedes Sosa, João Goulart, Bo Derek, Tony Curtis e Kurt Jurgens, entre muitos outros. Os convidados sentavam-se sempre nos lugares de onde se avistava o mar, em torno de uma velha mesa que tinha à cabeceira, desde o início da construção de Casapueblo, uma estátua africana de madeira, representando uma mãe negra.
[8] De acordo com as palavras do próprio Vilaró, suas mãos “acariciaram e pintaram corpos de mulheres de todas as raças”.
[9] Vilaró foi casado três vezes e teve seis filhos, três argentinos e três uruguaios.
[10] Este acidente foi muito falado na época. Ao fim de alguns dias as buscas foram suspensas e os passageiros dados como mortos. Estes tinham um pequeno rádio e souberam da suspensão das buscas através das notícias, o que aumentou ainda mais o seu desespero. Logo depois reuniram-se e tomaram a decisão de se alimentarem dos corpos dos companheiros que haviam morrido. Alguns passageiros morreram logo na hora do acidente (caso do piloto) e outros foram morrendo ao longo do tempo. De um total de 45 sobreviveram 16. Só passados mais de dois meses dois destes conseguiram chegar a uma zona onde se encontravam outros seres humanos e assim dar o alerta para que os restantes fossem salvos.
Quarenta anos! Há quarenta anos eu tinha dezasseis, quase dezassete. Vivi o dia 25 de abril intensamente, desde cedo, até ao anoitecer. Posso dizer, sem qualquer dúvida, que foi o dia mais extraordinário da minha vida. Lembro-me de ver Salgueiro Maia, embora na altura nem imaginasse quem era, no Terreiro do Paço e mais tarde no Largo do Carmo; lembro-me sobretudo da alegria espelhada nos rostos de todos – uma alegria que vinha de dentro e irradiava por fora, e que inundava as ruas de Lisboa como uma maré.
Hoje, quarenta anos depois, sinto orgulho de ser português, como não poderia deixar de orgulhar-se alguém que teve um compatriota chamado Salgueiro Maia. Se todo o povo necessita de um herói, nós não precisamos de ir muito longe para buscarmos o nosso. Ele é, de facto, o meu herói. (Aristides de Sousa Mendes, também).
Salgueiro Maia foi generoso, altruísta, corajoso, humilde e honesto. Retirou-se após nos devolver a Liberdade e morreu, quase ignorado, jovem e belo, como os heróis dos sonhos e da ficção. Apesar de personagem idílica, quase irreal, Salgueiro Maia existiu mesmo. Pelo menos tanto quanto essa outra personalidade, esta de pesadelo, chamada Cavaco Silva. Este, Cavaco, que negou àquele, Maia, em 1989, uma pensão, “por serviços excecionais e relevantes”, mas que concederia, pelas mesmos motivos, em 1992, pensões a dois ex-inspetores da PIDE-DGS. Cavaco está nos antípodas de Salgueiro Maia. É egoísta, arrogante, presunçoso e conspirador. Temos, portanto, do melhor e do pior. E, se sinto um imenso orgulho por Salgueiro Maia, sinto também uma imensa vergonha por Cavaco Silva. Além de Salgueiro Maia, não devemos esquecer os 240 homens da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, que o acompanharam até Lisboa, os militares que se lhes juntaram, o povo que esteve nas ruas e tornou o 25 de abril irreversível, e todos os que lutaram (e quantos morreram!) pela Liberdade. Hoje, passados 40 anos, muitos criticam o estado a que o país chegou. Como diz o sábio povo, “casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão”. É importante, porém, salientar que Salgueiro Maia nunca manisfestou ser de Esquerda ou de Direita, nem nunca apontou um rumo para o país. Eis as suas palavras: “não precisamos de ter qualquer ação política, nem devemos, o Povo português é que tem de se entreter com isso”. Pois bem, não é o que temos feito – nos entretendo “com isso”? O que há, afinal, de errado com o pós 25 de abril? Em minha opinião, nada. Fizemos o que fizemos, somos o que somos. Continuamos, como é próprio dos países atrasados, a colocar a culpa nos outros. A desresponsabilizarmo-nos. Para a Direita a culpa é da Esquerda e para a Esquerda a culpa é da Direita. Certamente haverão mais do que culpas, responsabilidades em ambos os lados. E, certamente, caberão responsabilidades a cada um de nós e a todos, enquanto Povo. Somos nós, Esquerda, Direita ou Centro quem continua a usar o Estado não como uma coisa de todos, mas como algo para nos servirmos, para encher os bolsos, a nós, aos nossos amigos, familiares e, sobretudo, aos nossos colegas de partido. E digo “sobretudo” porque são esses milhares e milhares de militantes partidários que preenchem os quadros do Estado (sem esquecer os seus satélites) e continuam a viver da mama, como, aliás, sempre fizeram, desde o 25 de abril de 1974. Os números, multiplicados, são astronómicos. Salgueiro Maia não era de nenhum partido e eu estou com ele. Acho que mais do que partidos e ideologias, precisamos de homens como Salgueiro Maia dentro e fora dos partidos. Ele que recusou, por exemplo, ser Governador Civil de Santarém ou Chefe Militar da Presidência da República, que nunca se serviu do Estado em benefício próprio. É disso que precisamos. De mudar algo em nós. Mas esse 25 de abril, ao contrário do de 1974, não se faz num só dia.