Como conheci Popper

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Estávamos no início da década de noventa e eu abandonara há dois ou três anos o curso de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa. Não que não gostasse de filosofia, pelo contrário, frequentei o curso por gosto, influenciado por um excelente professor dessa disciplina, no 12º ano, um tipo ainda muito novo, na casa dos vinte, que dava aulas livres aos sábados sobre música clássica, e que, quando havia ópera no São Carlos, aparecia na escola dentro de um elegante smoking.


Mas as disciplinas na faculdade não me diziam grande coisa. Tínhamos um sacerdote em Filosofia da Religião, José Trindade Santos em Filosofia Antiga, e José Barata-Moura, ainda hoje um conhecido e inflexível marxista, em Filosofia do Conhecimento. Resumindo: absorvi doses absurdas de Platão, Aristóteles, Hegel e Marx, autores com os quais não me identificava, aborreci-me e vim embora.


Entretanto, o “bichinho” da filosofia continuava cá e continuei lendo. Gostava sobretudo de Kant e foi nessa época que li A Crítica da Razão Pura, mas também alguns diálogos platónicos (aprendi a separar os primeiros, onde aparecia o verdadeiro espírito socrático, dos posteriores, em que Platão usou Sócrates para divulgar as suas ideias reacionárias) e várias obras de outros autores.

Até que conheci Popper1.


Lembro-me perfeitamente: entrei na Livraria Portugal (hoje um café junto ao elevador de Santa Justa) e comprei o livro Em Busca de Um Mundo Melhor. Aquilo foi uma revelação para mim. Desde então, li (e reli) mais de vinte obras de Popper, edições portuguesas e estrangeiras, tudo o que foi possível adquirir.


Com o advento da internet, encomendei pela Amazon a sua autobiografia, Unended Quest (que não fora ainda editada em Portugal), e encontrei outras coisas interessantes – entrevistas, documentários, artigos – como é o caso do seguinte (e excelente) ensaio, onde se mostra como a epistemologia de Popper assenta em profundas raízes éticas (é minha intenção traduzi-lo em breve para português). http://www3.nd.edu/Departments/Maritain/ti/artigas.htm.

Com Popper aprendi a importância da crítica, mas sobretudo da autocrítica. Aprendi que uma teoria só é científica se for refutável. Aquilo que é certo, indiscutível e irrefutável não é ciência (isto Popper descobriu ainda muito cedo através de experiências com pseudociências, como a Psicanálise e o Marxismo, experiências que moldaram para sempre o seu pensamento). Então, o papel dos cientistas é o de criticarem as teorias vigentes (que não passam, afinal, de hipóteses não-contraditadas), para ver se encontram falhas, e as melhorarem – ou criarem teorias novas. É assim que progride a Ciência. Esse método (o velhinho método de tentativa e erro) é válido para qualquer ciência, incluindo ciências humanas, como a Sociologia – e é por isso que Popper prefere as reformas (aquilo que ele chamou de “engenharia social parcelar”) às visões utópicas, holísticas e historicistas da sociedade. Precisamente porque estas visões radicais, conceptualmente, não são criticáveis: os dogmas são crenças, acreditamos neles ou não, mas não podemos melhorá-los.


A partir de certo ponto, comecei a aplicar o método popperiano ao próprio Popper. Comecei a criticá-lo e a procurar falhas no seu sistema. Houve vários momentos em que pensei tê-las encontrado. Mas quando escavava um pouco mais, acabava por reconhecer que me enganara.
É por isso que mantenho a minha busca, não apenas sobre as propostas dele mas também de outros, sobretudo dos que mais admiro, pois é a estes que a nossa crítica deve ser dirigida, mais do que aos de quem discordamos.
Evidentemente, Popper não tinha a sabedoria no bolso. É ele quem nos diz: “aquilo que nos diferencia uns dos outros – os nossos conhecimentos individuais – é ínfimo em relação ao que nos une a todos – a nossa suprema ignorância”.

Esta afirmação é, para mim, uma norma. Procuro tê-la sempre presente na minha vida.


É pena que Popper seja tão mal conhecido. De facto, para a maioria esmagadora das pessoas, trata-se de um ilustre desconhecido, às vezes um nome que não é totalmente estranho (e há quem lembre uma frase perdida, um chavão – e quem faça muita, muita confusão, por exemplo, considerando-o um “ultraliberal”)2, mas pouco mais do que isso.

Alguns falam da sua obra, mas quase ninguém a lê3.


Por outro lado, não admira que a Academia portuguesa (e a brasileira) o ignorasse e ainda ignore. Um autor tão heterodoxo – que desmascara “monstros” como Heráclito, Platão, Aristóteles, Rousseau, Fichte, Hegel (o maior charlatão de todos4) Marx e Heidegger, só para citar os mais conhecidos, numa linha (crono)lógica que resume o pior do pensamento ocidental, não pode ser amado por instituições dirigidas por gente com mente formatada. Os amores de Trindade dos Santos por Platão e de Barata-Moura por Marx são para toda a vida5. Como o próprio Popper referiu: As escolas (em particular as Universidades) mantiveram, desde sempre, certas caraterísticas do tribalismo. Contudo, não devemos pensar somente nos seus emblemas ou na velha fita da escola com todas as suas implicações sociais de casta, etc., mas igualmente no caráter patriarcal e autoritário de tantas delas. Não foi por acaso que Platão, ao fracassar na reinstauração do tribalismo, fundou uma escola; assim como não é por acaso que as escolas são frequentemente bastiões de reação e os professores ditadores em edição de bolso6.


Como é óbvio, Karl Popper está condenado a ser, durante ainda bastante tempo, talvez para sempre, uma personalidade incómoda. Foi um lutador incansável pela paz no mundo e pelo fim da violência entre os homens – para ele, os grandes objetivos da Filosofia Política. A sua Epistemologia é profundamente inovadora e, tal como demonstra Mariano Artigas7, baseia-se em profundas raízes éticas. Com a sua teimosia em virar as coisas de pernas para o ar fê-lo também na Biologia, considerando, ao contrário de Darwin, que a busca por novos nichos ecológicos (uma força de dentro para fora) se sobrepõe à pressão do ambiente (uma força de fora para dentro). Todos os seres vivos buscam ativamente um mundo melhor e nós temos a sorte de vivermos no único estádio evolutivo em que podemos deixar morrer as ideias que criamos em vez de nós próprios.

Além de tudo isto e muitíssimo mais, Popper foi também o maior humanista da História da Filosofia, o mais original, o mais fascinante.

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Notas:

1 Como se poderá constatar através do texto, não conheci Popper pessoalmente, mas apenas através dos seus livros. Infelizmente, só tive conhecimento da sua existência pouco tempo depois da sua vinda (em 1987) a Portugal.

2Para evitar mal entendidos, quero deixar bem claro que emprego sempre os termos “liberal”, “liberalismo”, etc., no sentido em que ainda são geralmente usados em Inglaterra (embora, talvez, não nos Estados Unidos). Com “liberal” não me refiro a um simpatizante de um qualquer partido político, mas simplesmente a um homem que valoriza a liberdade individual e está desperto para os perigos inerentes a todas as formas de poder e autoridade”. (Karl Popper, Conjecturas e Refutações, Almedina, Lisboa, 2003, p. 10).

3 Diz-nos Popper: “Nunca encontrei ninguém que houvesse reparado nessas duas linhas [“Posso estar enganado e tu certo, mas, pelo esforço, podemos aproximar-nos da verdade”], as quais, segundo eu pretendia, constituíam o meu credo moral – linhas que, em meu ver, excluiriam a possibilidade de uma interpretação dogmática do “racionalismo crítico””. (in O Mito do Contexto, Edições 70, Lisboa, 1999, p.16).

4 O termo “charlatão”, para caracterizar Hegel, foi pela primeira vez usado por Schopenhauer. A charlatanice ou desonestidade intelectual revela-se também pela linguagem deliberadamente obscura, dúbia, incompreensível. Veja-se este exemplo, retirado do parágrafo 302, da Filosofia da Natureza, de Hegel: ” O som é a mudança verificada na condição específica de segregação das partes materiais e na negação dessa condição; é meramente uma idealidade abstrata ou ideal, por assim dizer, dessa especificação. Mas esta mudança é, por consequência, em si mesma imediatamente a negação da subsistência material específica; o que é, portanto, a idealidade real da gravidade específica e da coesão, isto é, o calor. O aquecimento de corpos sonoros, assim como dos corpos percutidos ou friccionados, é a aparência de calor que surge concetualmente juntamente com o som”. Por esta pequena amostra, se pode ver que não é exagero classificar como uma “autêntica tortura” o estudo da filosofia hegeliana, nas faculdades.

5 As pessoas têm muita dificuldade em libertar-se daquilo que estudaram e daquilo em que acreditaram uma vida inteira, e não querem saber do que possa de alguma forma contrariar a visão que construíram ao longo desse processo. Os psicólogos explicarão muito melhor do que eu por que a mente humana tem enorme facilidade em acreditar naquilo que quer. Crer ou não crer, eis a questão.

6 nota 38, alínea 2, ao capítulo 10 da Sociedade Aberta e Seus Inimigos.

7 Um interessante trabalho de Mariano Artigas sobre este assunto, traduzido por mim, pode ler-se aqui.

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Foto retirada de: https://it.wikipedia.org/wiki/Karl_Popper

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Nova guerra ou mais uma batalha?

atentados paris

Uma série de atentados concertados voltaram a ocorrer há poucas horas em Paris, provocando, segundo as informações apuradas até agora, quase uma centena e meia de mortos. É difícil dizer seja o que for, após uma carnificina desta dimensão. O espanto e a impotência invadem-nos, e cruzam-se com uma raiva dificilmente contida. Há que fazer qualquer coisa, há que travar esta barbaridade.

Não são raros os autores que veem no radicalismo islâmico dos nossos dias o prolongamento de uma guerra santa entre islâmicos  e cristãos – uma guerra iniciada no século oitavo, após a invasão berbere da Península Ibérica (711) – como é o caso do historiador britânico, Nigel Cliff, na sua obra de 2011, intitulada, precisamente, Holy War (já em 2001, Peter Bergen havia publicado Holy War, Inc.).

Após a invasão muçulmana, a resistência cristã manteve-se no Norte da Península, nas Astúrias, e, logo em 722, a vitória de Pelágio e seus seguidores, em Covadonga, haveria de marcar o início da reconquista, continuada por Afonso II e Afonso III, do reino das Astúrias, que poucos anos depois haveria de ter a sua sede em Leão, e mais tarde, depois da morte de Afonso IX, em 1230, de se unir com Castela.

(Não se pense, porém, que os árabes se detiveram na Península Ibérica. Em 732, os Francos (povos germânicos ocidentais), liderados por Carlos Martel (o “Martelo”), derrotaram os muçulmanos às portas de Poitiers, em França. Foi para descrever os homens de Martel que um cronista usou pela primeira vez o termo “europenses” – europeus).

Na Península, a guerra com os mouros prolongou-se por centenas de anos, incluindo aqueles em que Portugal nasceu, primeiro como condado e depois como reino – o mais antigo da Europa com as fronteiras atuais. O primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, acabaria por conquistar, com a ajuda dos cruzados (alemães, ingleses e normandos, entre outros), a importante cidade de Lisboa, em 1147. A Alfama árabe de então, o bairro mais populoso, comercial e contrabandista de Lisboa, foi, certamente, palco de lutas ferozes.

Mas as conquistas e reconquistas continuaram, e a reação islâmica, através dos Almorávidas, tribos berberes fundamentalistas, e mais tarde dos Almóadas, ambos povos aguerridos que lutavam ardentemente pelo Islão, foi brutal. Só no final do século XV, em 1492, os últimos muçulmanos, do reino de Granada, foram definitivamente expulsos da Ibéria.

Entretanto, as Cruzadas, que se iniciaram em 1098, com uma primeira expedição de peregrinos desarmados – a “Cruzada do Povo” – e que haveria de ter um fim trágico às mãos dos Turcos (só no ano seguinte se realizaria a verdadeira Primeira Cruzada, que conquistaria Jerusalém), continuariam até 1291.

A guerra entre cristãos e muçulmanos não terminaria aqui. Em 1415, uma expedição comandada por D. João I e seus filhos conquistou a cidade de Ceuta aos mouros. A partir daí, os portugueses começaram, através dos Descobrimentos, a exportar o cristianismo para partes longínquas, quer do Oriente, quer do Novo Mundo. No Oriente, a guerra santa não parou, pois os portugueses continuaram, ali, a combater os “infiéis”. A ânsia religiosa culminaria, como se sabe, em 1570, com o desastre de D. Sebastião em Alcácer-Quibir.

Já antes entrara em cena a nefasta Inquisição. A perseguição aos não-cristãos, nessa época, marcou um dos períodos mais obscuros, tenebrosos e fundamentalistas da história ocidental. Depois disso, como é sabido, as diversas tendências cristãs – católica, ortodoxa, protestante, etc. – parecem ter ultrapassado o fundamentalismo e a violência, muito por influência do desenvolvimento político que atingiu o Ocidente, com os seus estados laicos e democráticos, primeiro no Norte e depois no Sul da Europa.

Curiosamente, houve períodos em que os muçulmanos conviveram pacificamente com membros de outras religiões, numa demonstração de grande tolerância e de avanço civilizacional, relativamente aos ocidentais. Hoje, porém, o radicalismo islâmico, como tragicamente se (re)confirmou há poucas horas, é uma triste realidade.

Nestas poucas linhas, tentámos elaborar um pequeno esboço histórico, que poderia continuar, por exemplo, com a luta contra o Império Otomano (curiosamente apoiado pelos franceses até o século XIX) o qual apenas foi derrotado na sequência da Grande Guerra, sobretudo com a intenção de mostrar que a História nem sempre segue em linha reta (e nem sequer falámos nos judeus, grandes intervenientes nesta “história”). O caos instalado no Médio Oriente iniciou-se com o desmantelamento do Império Otomano, e a instituição de protetorados ou possessões ocidentais – britânicos, franceses e italianos. Temos, como é evidente, grandes responsabilidades sobre o que está a acontecer.

Apesar de termos o dever de aprender com os nossos erros do passado (remoto ou recente), não podemos esquecer-nos que temos pela frente um enorme problema. A grande questão é: perante o aumento drástico do radicalismo islâmico, conseguiremos manter a nossa tolerância religiosa, tão laboriosamente conquistada, ou seremos forçados a retomar a “Guerra Santa”, a qual, para muitos, afinal, ainda não terminou? Este parece ser, cada vez mais, no presente contexto histórico, o nosso grande desafio.

Cremos que a primeira hipótese vencerá. Os líderes políticos e religiosos ocidentais parecem conscientes da importância de mantermos as nossas conquistas civilizacionais, face a um evidente fundamentalismo religioso protagonizado pelo ISIS e outros radicais islâmicos. Mas o medo, a raiva, o sentimento de vingança e outras forças negativas poderão abrir frestas nas nossas democracias, abrindo espaço para a entrada em cena de líderes radicais e de um novo espírito de cruzada. Não devemos esquecer nunca as nefastas consequências da ação desse “cruzado” recente, que dá pelo nome de George W. Bush.

“Santa”, “civilizacional” ou outra, o facto é que estamos numa guerra com treze séculos e, quem sabe, ainda longe do fim. Uma guerra que, em nome dos nossos valores – liberdade, democracia, tolerância e paz – urge vencer.

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Foto retirada de http://www.lefigaro.fr.

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Arquipélago Fernando de Noronha

A praia do Leão vista do ar.
A praia do Leão vista do ar.

O arquipélago Fernando de Noronha – Património da Humanidade – faz parte do estado brasileiro de Pernambuco e dista cerca de 540 quilómetros da capital, Recife, embora a distância mais curta até o continente seja bastante menor, cerca de 300 quilómetros até o Rio Grande do Norte, estado que fica na mesma latitude. São, portanto, menos de 60 minutos de avião, quer do Recife quer de Natal, até se atingir o arquipélago.

As ilhas têm origem vulcânica e, no seu conjunto, uma área de 26 km2, sendo 9 da plataforma marinha e 17 da superfície emersa. O arquipélago é a parte emersa de um enorme edifício vulcânico, cuja base se encontra no fundo do mar, a quatro mil metros de profundidade, com cerca de 70 quilómetros de diâmetro. Faz parte de uma estrutura alinhada de diversos montes vulcânicos submarinos, que se estendem desde a Dorsal Atlântica até a plataforma continental brasileira, próximo do litoral do Ceará.

Praia da Baía do Sancho.
Praia da Baía do Sancho.

As sucessivas erupções vulcânicas, que decorreram ao longo de milhões de anos, proporcionaram o aparecimento de montes acima do nível do mar, como são os casos de Fernando de Noronha e do Atol das Rocas. As ilhas não foram, portanto, criadas de uma só vez. No caso de Fernando de Noronha, há pelo menos três formações diferentes: Remédios, Quixaba e Caracas.

Posteriormente, quando o vulcanismo cessou, processos erosivos e a variação do nível do mar atuaram sobre a ilha, conferindo-lhe o aspeto atual.  Ao chegar ao arquipélago, quem conseguir viajar do lado esquerdo do avião terá uma vista melhor, dado que o avião tem de descrever uma curva larga para esse lado e enfrentar o vento predominante de sul na aterragem. Já à saída terá uma vista melhor quem viajar do lado direito da aeronave. Vale a pena viajar à janela.

Baía dos Porcos e Dois Irmãos.
Baía dos Porcos e Dois Irmãos.

A ilha principal de Fernando de Noronha, a única habitada, é relativamente pequena, com uns 14 quilómetros de ponta a ponta. Além disso, tudo se concentra na metade oriental da ilha, onde fica a Vila dos Remédios, o porto e todos os outros pequenos povoados. É natural que, à chegada, o visitante apanhe um táxi (seja para onde for não deverá pagar mais de 30 reais), dado que não conhece os locais, mas, depois disso, não vale a pena gastar dinheiro em táxi ou aluguer de carro. Muitos dos trajetos podem fazer-se a pé e os mais longos podem fazer-se através de um meio de transporte excelente, disponível na ilha: a bicicleta. Há uma loja na Vila dos Remédios – a Ricaom – onde se podem alugar bicicletas por 60 reais/dia.

Foi o que fizemos no segundo dia na ilha. Percorremos todos os locais mais conhecidos de bicicleta e ainda tivemos tempo de dar uns belos mergulhos na praia do Sancho – a melhor do mundo, dizem. As praias mais próximas da Vila dos Remédios – Cachorro, Meio e Conceição – já tínhamos visitado no dia da chegada, aproveitando a tarde para fazer um primeiro reconhecimento, incluindo a subida do morro onde se encontra o forte dos Remédios, ponto privilegiado de observação para o chamado Mar de Dentro.

Melhor forma de conhecer a ilha: pedalando.
Melhor forma de conhecer a ilha: pedalando.

É aqui que se encontram as melhores praias, normalmente calmas, mas que podem ter mar agitado entre outubro e março, período em que é mais frequente o “swell”, um tipo de ondulação que pode ser moderado ou severo. É o período preferido dos surfistas, mas menos bom para os banhistas comuns e para quem quer mergulhar – uma das atividades mais apreciadas e indispensáveis de Fernando de Noronha.

Já as praias do Mar de Fora, expostas ao vento sul, são em geral impróprias para banhos e perigosas (sobretudo nas marés altas), devido às fortes correntes que se formam em todas elas, excetuando a abrigada Baía do Sueste. É o caso da bonita praia do Leão, onde as tartarugas desovam entre dezembro e junho.

Praia do Leão.
Praia do Leão.

Além de percorrer a terra firme de Fernando de Noronha, é indispensável fazer um passeio pelo mar. O arquipélago é constituído por dezanove ilhas e dezenas de rochedos isolados. Mas a parte mais bonita de qualquer passeio de barco é, sem dúvida, o trajeto pelo Mar de Dentro, percorrendo as onze praias de areia, com mar verde-esmeralda, e parando na Baía do Sancho para banhos e snorkeling, observando belos peixes coloridos. O snorkeling também pode realizar-se na praia da Atalaia, no mar de Fora, quando ali se forma uma piscina natural, na maré baixa, sendo possível observar lagostas, polvos, inúmeras espécies de peixes e até mesmo pequenos tubarões. Durante os passeios de barco que se realizam de manhã há maior probabilidade de observar os golfinhos rotadores, dentro da Baía dos Golfinhos.

Por sua vez, o mergulho é feito em outros pontos do arquipélago (de acordo com o estado do tempo), e é praticamente obrigatório, uma vez que Fernando de Noronha está entre os melhores lugares do mundo para essa prática. É possível fazer o batismo de mergulho por cerca de 400 reais. A profundidade pode atingir os nove metros – e convém não esquecer que durante as 24 horas que se seguem ao mergulho, não se deve viajar de avião.

Mar de Fora. O azul profundo em vez do verde-esmeralda do Mar de Dentro.
Mar de Fora. O azul profundo contrasta com o verde-esmeralda do Mar de Dentro.

Cinco dias são suficientes para se fazer tudo isto e algo mais. A comida não é o mais caro em Noronha, e há excelentes pratos de peixe, sobretudo a barracuda. Come-se muito bem no Museu dos Tubarões, nos restaurantes Cacimba e Mergulhão, e em vários outros, incluindo o famoso Zé Maria. O que é estupidamente caro é o alojamento. Não dá para entender por que é tão caro. Ficámos numa pousada mais do que básica, com um café da manhã mais do que pobre e pagámos, por noite, 400 reais!

Apesar de tudo, uma visita a Fernando de Noronha é uma excelente opção de viagem. Mas conhecidas essas belas ilhas, não vale a pena repetir. O custo da estadia é absurdo e incompreensível. A alternativa seria morar no arquipélago. Para tal teria de se conseguir trabalho ou casar com um(a) residente. Mas quem quer morar num lugar isolado, caríssimo, sem infraestruturas e, sobretudo, nos dias que correm, sem internet? O “custo-Brasil”, patente em todo o território, atinge, aqui, um nível absurdo.

Dedo de Deus. A referência natural da ilha.
Dedo de Deus. A referência natural da ilha.

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Ranking dos 10 políticos portugueses mais detestáveis

1- Cavaco Silva, “O Conspirador”.

2- Nuno Crato, “O Contabilista”.

3- António Costa, “O Náufrago”.

4- Raquel Varela, “A Anarquista”.

5- Paulo Portas, “O Oportunista”.

6-Marcelo Rebelo de Sousa, “O Quadrilheiro”.

7- Catarina Martins, “A Sonhadora”.

8- Jerónimo de Sousa, “O Petrificado”.

9- Passos Coelho, “O Liberal”.

10- Sampaio da Nóvoa, “O Citador”

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E este é já o nosso oitavo ranking, o que significa, dada a periodicidade semestral, que já passaram quatro anos desde o primeiro. O último, antes do de hoje, foi no dia 10 de abril de 2015. Nesse constavam os nomes de Marques Mendes, “O Concentrado”, Poiares Maduro, “O Infrassumo” e José Sócrates, “O Engenhocas”. Foram substituídos no presente ranking por Jerónimo de Sousa, “O Petrificado”, Sampaio da Nóvoa, “O Citador” e António Costa, “O Náufrago”. Cavaco Silva, “O Conspirador”, mantém a liderança, consecutivamente, desde o primeiro ranking.

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Christopher Nupen

Documentário sobre Daniil Trifonov, um pianista que já ouvimos ao vivo, realizado por Christopher Nupen.

Christopher Nupen é um documentarista sul-africano que se dedicou a realizar (e produzir) filmes sobre músicos. Ele próprio quis ser músico, e teve aulas de guitarra clássica com Andres Segóvia, tal como John Williams (não o compositor americano, mas o guitarrista australiano), o mais famoso aluno do famosíssimo mestre.

Foi através de Williams que Nupen conheceu vários músicos importantes, como Daniel Barenboim, Jacqueline du Pré e Vladimir Ashkenazy, todos ainda muito jovens, pouco conhecidos, mas cheios de talento; tornou-se amigo deles e decidiu começar a gravar a música que tocavam, primeiro para a rádio e depois, convidado por Huw Wheldon, para a BBC Television.

Assim nasceu o seu primeiro filme, Double Concerto, com os pianistas Ashkenazy e Barenboim (gravado com as novas câmaras silenciosas de 16 mm, desenvolvidas nos anos sessenta), que logo venceu dois prémios internacionais (Praga e Monte Carlo). Mais tarde, em Cannes, Chris receberia também o prémio para o melhor DVD do ano (2005), com Jacqueline du Pré in Portrait, troféu que voltaria a conquistar em 2006, com We Want the Light, (título extraído de um poema escrito por uma menina de 12 anos, Eva Pickova, no campo de concentração de Theresienstadt), um documentário que explora a complexa relação entre judeus e música alemã.

Christopher Nupen estabeleceu com a maioria dos músicos uma relação de amizade, e isso permitiu-lhe realizar filmes profundamente biográficos e intimistas, e muito belos. 

Seria fastidioso citar todos os super-talentos retratados por este magnífico realizador. Podemos encontrá-los em DVDs que valem cada cêntimo que possamos gastar. A nonagésima quinta produção é sobre Daniil Trifonov, um jovem russo de 24 anos que Martha Argerich (ela também retratada num documentário de Nupen) considera o melhor pianista de sempre.

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Jacqueline du Pré

Concerto para violoncelo de Edward Elgar.

Jacqueline du Pré ganhou o seu primeiro violoncelo aos 4 anos de idade. A partir daí, passou a viver em dois mundos – aquele em que era uma criança como todas as outras e um outro em que só existiam ela e o seu violoncelo.
Com o tempo, Jacqueline tornou-se uma instrumentista fantástica, mas a sua carreira seria interrompida aos 28 anos, devido à esclerose múltipla que lhe haviam diagnosticado. As últimas atuações foram dramáticas. Conduzia com o olhar os próprios dedos, isentos de sensibilidade.
Jackie morreu em 1987, aos 42 anos.
É uma figura cativante, uma das maiores da história da música.

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Concerto para a mão esquerda, de Ravel

O pianista Paul Wittgenstein, irmão mais velho do filósofo Ludwig, perdeu o braço direito na Grande Guerra, onde ambos combateram. Maurice Ravel escreveu este concerto tendo em conta a mão esquerda (e única) de Paul. A interpretação que aqui apresentamos está a cargo da Filarmónica de Zagreb, com Brigita Vilc ao piano.

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Pianos

O primeiro vídeo deste artigo pretende ilustrar, em poucos minutos, o processo de fabrico de um piano, no caso, um Bösendorfer. Como música de fundo a “Campanella” de Liszt, interpretada pela ucraniana/americana, Valentina Lisitsa.

O austríaco Bösendorfer é o principal rival do americano Steinway (fabricado nos EUA e na Alemanha). Estes dois pianos são bastante diferentes no que concerne à construção e, obviamente, na sonoridade. O Steinway parece ter maior versatilidade e um som mais “redondo”, enquanto há quem diga que o Bösendorfer tem um som mais “puro”.

As opiniões são diversificadas. Certo, é que o Steinway está mais difundido pelas salas de concerto de todo o mundo. A confirmação do Steinway decorreu paulatinamente, após as fábricas europeias de pianos terem sido destruídas durante a II Guerra Mundial.

A marca Bösendorfer foi comprada em 2008 pela companhia japonesa Yamaha, também ela uma referência no universo pianístico. Outros concorrentes de peso (como fica bem a qualquer piano) são o americano Baldwin (atualmente fabricado na China) o italiano Fazioli (ver segundo vídeo deste artigo, com o excelente pianista russo Daniil Trifonov interpretando o segundo andamento da Sinfonia nº1 de Tchaikovsky).
Entre as marcas referidas encontramos os melhores pianos (verticais e de cauda) do mundo.

Mas a busca pelo melhor som talvez seja interminável. Daniel Barenboim partiu nessa aventura e conseguiu que fosse construído um piano com um design arrojado e um som mais “quente”. Ao novo piano, que se mostra no terceiro e último vídeo, foi naturalmente atribuída uma marca que homenageia esse grande maestro e pianista – simplesmente, “Barenboim”.

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O Trout Quintet

Schubert escreveu o “Trout Quintet” em 1819, com 22 anos de idade.
Um século e meio depois, Christopher Nupen, cineasta sul-africano, realizou o documentário “The Trout”, sobre um concerto que ocorreu no Queen Elizabeth Hall, em Londres, em 30 de agosto de 1969[1]. Ali se reuniram, para interpretar o famoso quinteto de Schubert, Daniel Barenboim (piano), Zubin Mehta (baixo), Itzhak Perlman (violino), Pinchas Zuckerman (viola ou violeta) e Jacqueline du Pré (violoncelo). É um curtíssimo e divertido excerto desse documentário (gravado nos ensaios) que aqui apresentamos. Conseguir melhores intérpretes, seria tarefa impossível.

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[1] Como se indica no vídeo, a gravação deste concerto está disponível em DVD.

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O Mito do Herói

A função mais básica ao nível interno de um estado é a salvaguarda da segurança entre os seus cidadãos. Apesar disso, a violência continua a ser um dos principais problemas do mundo. Há países em guerra e há países que, apesar de não estarem em guerra, estão entre os países mais violentos do planeta.

Mesmo nos estados mais desenvolvidos, onde a criminalidade violenta é menor (se excetuarmos os EUA), há ainda resquícios dos tempos mais conturbados do passado. Esse vestígio do passado violento está patente, na cultura ocidental, no culto do herói, veiculado pelas mitologia, história, artes, filosofia, pelos meios de comunicação social e, no fundo, por cada um de nós.

Tal generalização moldou o inconsciente coletivo, adormeceu o espírito crítico e fez com que olhássemos (e olhemos) o herói com veneração.

Tal como demos um salto civilizacional ao conseguirmos baixar os índices de violência, daremos igualmente um salto significativo quando abandonarmos o culto do herói.

Não precisamos subir ao Everest, nem saltar de paraquedas, nem meter-nos numa rixa, para despertarmos o herói que transportamos, e desafiarmos o perigo e a morte. A verdadeira luta contra a morte está reservada para a grande maioria de nós (não é preciso ser herói para lhe escapar) e cada um a travará o melhor que puder e souber, pois, ao contrário do que em geral é veiculado, não há quem seja mais digno perante a morte, há apenas formas diferentes de morrer.

(Ninguém se lembraria de considerar um bebé “digno” por nascer mais sereno do que outro que protesta persistentemente por ter sido tirado da barriga da mãe).

Hegel, com o seu lema de vida, sob o qual as palavras “paixão”, “espírito”, “destino”, “fama”, “herói” e “glória” foram amplamente divulgadas, além de ter sido um dos maiores charlatães da história das ideias (se não o maior), contribuiu para que o mundo fosse muitíssimo mais violento que o necessário, se é que há necessidade do mundo ser violento.

Talvez o culto da violência (e do herói) jamais seja erradicado da face da Terra. Mas esperamos que o peso que ainda detém diminua drasticamente. Isso corresponderá, seguramente, a uma sociedade mais pacificada, menos mítica e mais humana.

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