A arte xávega consiste numa técnica específica da pesca de arrasto, na qual a rede é puxada de terra, antigamente à força de braços, hoje por meios mecânicos. Da mesma forma, as embarcações que dantes eram puxadas pelos remos dos homens a bordo, hoje são movidas a motor.
O barco tem de passar a zona de rebentação para se afastar, 1 500, 2 000 e às vezes ainda mais metros, e fazer o “cerco”, regressando à praia com uma das pontas do cabo que, de imediato, começa a ser puxado. Este tipo de pesca pratica-se ao longo de toda a costa portuguesa e o termo “xávega”, que deriva do árabe e quer dizer “rede”, era usado apenas no Sul de Portugal, acabando, por necessidade de unificação, de se estender ao Norte do país, onde o mar é mais alteroso e os barcos, consequentemente diferentes, com a proa muito mais alta, própria para cortar as vagas.
A maior tranquilidade do mar, a Sul, nem sempre é real, sendo a pesca pela arte xávega uma atividade arriscada onde quer que ocorra, como prova o acidente de há 50 anos na costa alentejana, mais propriamente em Santo André, onde pereceram dezassete homens, que puxavam a rede, em terra, atingidos por uma onda gigante. Devido a essa tragédia não mais se praticou a arte xávega naquela praia. [1]
Na Costa da Caparica, porém, são muitas as embarcações que todos os dias se fazem ao mar, fazendo várias viagens de ida e volta (lances) na esperança de uma boa pescaria. Claro que um bom lance acontece quando o peixe mais valioso, que é também o mais raro, é aprisionado na rede (robalo, linguado, sargo, etc). As espécies são variadas, sendo as mais comuns a cavala e a sardinha, logicamente, as de menor valor comercial. A sardinha da Costa da Caparica, muito grande, é de qualidade inferior, não sendo a mais indicada para grelhar no carvão – a forma como os portugueses, sobretudo no verão, adoram comê-la. Ao invés, o carapau é de excelente qualidade.
Dizem que a melhor sardinha – talvez o peixe mais popular, em Portugal, a par do bacalhau – é pescada no Algarve (Sul) e em Matosinhos (Norte). Talvez. Seja como for, assistir ao pôr-do-sol, comprar peixe fresco aos pescadores e assistir à gritaria e ao esvoaçar das gaivotas é um ritual – e um espetáculo! – que repito, várias vezes, ano após ano, nos fins de tarde cálidos, no verão, na Costa da Caparica — onde tirámos as fotos incluídas neste artigo.
O acesso a São Francisco faz-se, normalmente, por Joinville, uma cidade próspera, ordenada, limpa e a maior, em número de habitantes, do estado catarinense. Um exemplo que os prefeitos de todas as cidades brasileiras deveriam seguir. A influência alemã faz-se sentir fortemente aqui, nas pessoas, nas edificações e nos costumes.
Ao chegar ao centro de São Francisco, após uns 30 kms, tem-se aquela sensação que experimentamos em cidades como Colónia del Sacramento, Olinda, Parati ou João Pessoa – as ruas empedradas, as sacadas, os telhados, às vezes um rio fazem lembrar Alfama (Lisboa e Portugal, também). Na verdade, São Francisco do Sul é mais um dos irmãos que Alfama tem por esse mundo fora.
O casario colonial estende-se ao longo da baía da Babitonga e guarda um dos últimos núcleos açorianos do país (tal como Ribeirão da Ilha ou Santo Antônio de Lisboa, em Florianópolis). Aqui encontramos o Museu Nacional do Mar, que reúne embarcações de todo o Brasil. O acesso pode fazer-se de carro, mas é mais bonito quando se realiza pelas balsas ou lanchas que asseguram a ligação ao continente.
São Francisco do Sul é uma vila belíssima e merece visita detalhada. Restaurantes e cafés, no centro histórico, permitem matar a fome. Um deles, São Francisco Panificadora, serve umas sopas consistentes que reconfortam o estômago e animam o espírito para a viagem de regresso. Experimentámos a sopa de costela com aipim e a de frutos do mar, já de noite, olhando, de quando em vez, pelo vidro embaciado, para vultos ondulantes e indecifráveis na baía da Babitonga.
Sai-se da BR 101, em Tubarão, correm-se 17 quilómetros para o interior, no sentido NW, e chega-se a Gravatal. Nesta cidade tudo gira em torno das águas termais, que aqui jorram a uma temperatura média de 36º, 40 litros por segundo. Dizem que a água termal de Gravatal é a segunda melhor do mundo em propriedades terapêuticas, superada apenas pela do complexo de Aux-Les-Thermes, em França.
Mera propaganda? Não sabemos. O que é certo é que a água mineral do Gravatal é captada e aproveitada por três hotéis. Nós estivemos num deles: da rotunda central da cidade (que logo se percebe onde fica) viramos à direita e, depois de uma pequena estrada de terra batida e uma alameda verdejante, chegamos. Não tem engano possível e, se tiver, toda a gente conhece o Hotel Internacional…
Dois conjuntos edificados desde logo se destacam: um, térreo, com cobertura ondulada, onde se encontram a receção, salas de convívio e de jogos, um bar, um amplo salão de refeições e uma sala infantil; outro, com quatro pisos e de linhas direitas, com os quartos de alojamento (118), as salas de sauna, de terapias, de banhos e de consultas.
Água é um bem que não falta por aqui. Além de duas piscinas exteriores, o hotel possui também uma piscina interior, vários tanques de hidromassagem, salas com enormes banheiras e, nos próprios quartos, piscinas ou banheiras de imersão, tudo com água termo mineral. As torneiras são gigantes, mais parecem bocas de incêndio, e delas jorra tal quantidade de água que uma banheira grande enche-se em três minutos.
No espaço envolvente predomina o verde, cortado por trilhas, de onde avistamos pássaros, patos e até macacos de popa! Estão disponíveis campos de ténis e de futebol. Durante a nossa estadia, um simpático galo, que apelidámos de Zeca, rondava pela porta do hotel e pelas redondezas do restaurante, debicando aqui e ali, convivendo com os hóspedes, fazendo as delícias da Rafaela.
Aqui descansa-se e, verdadeiramente, relaxa-se; e corre-se sério risco de abalar com mais uns quilinhos; o conforto é total, tanto nos quartos como nas outras instalações; a comida é excelente; o ar estimula o apetite; e a água termal puríssima serve para nos lavarmos por fora e por dentro: dado que ela jorra a uma temperatura tépida, bebe-se com gelo feito da mesma, única e abundante água do Gravatal.
O Hotel Internacional e sua envolvente são ideais para umas pequenas férias em família e uma boa alternativa à praia, sobretudo em dias de chuva (o que não é nada raro no sul do Brasil), como foi o caso. Alojamento, café da manhã, almoço e jantar, para um casal com filho, menor de 5 anos, ficou por 330 reais/dia (cerca de 140 euros). Valeu cada centavo!
Apesar do Maranhão ser, tradicionalmente, uma das regiões mais pobres do Brasil, as edificações do centro histórico de São Luís mostram que a cidade já foi importante. No último quartel do século XVIII, o Marquês de Pombal ajudou os colonos maranhenses a verem-se livres dos jesuítas. Criou uma companhia de comércio altamente capitalizada, aproveitando as alterações no mercado mundial do algodão, cuja procura crescia intensamente: essas alterações deveram-se sobretudo à Guerra da Independência dos EUA e à Revolução Industrial inglesa. Foi uma empresa muito bem sucedida. Porém, ultrapassadas as condições de anormalidade que prevaleciam no mercado mundial de produtos tropicais, não só o Maranhão mas o próprio Brasil regressariam a um sistema económico precário, que mantêm até hoje.
Centro histórico de S. Luís.
Essa precariedade é notória em São Luís, “a ilha do amor”, mas que bem poderia chamar-se “da pobreza”, “do desmazelo” ou “da corrupção”. Com efeito, a experiência ensina-nos a reconhecer o cheiro corrupto quando este paira no ar. Em São Luís ele brota dos buracos das ruas, dos edifícios degradados, dos semblantes resignados das pessoas comuns. Aqui, a população é sobretudo negra ou mestiça, prova de que a escravatura no Maranhão, embora tardia, foi bastante intensa.
Rio Preguiças, em Barreirinhas.
Escapam da degradação geral do centro histórico de São Luís alguns oásis, quase sempre geridos pelo governo do Estado e não pela Prefeitura, como são os casos dos Teatro Artur Azevedo, Museu Histórico e, sobretudo, o conjunto edificado do bairro Praia Grande. Neste último é agradável passear à noite, ouvir música ao vivo, tomar um copo e associar-se aos transeuntes, turistas e locais. Atravessando o rio Anil, pela ponte José Sarney (a família Sarney é omnipresente no Maranhão), chega-se à parte mais moderna da cidade, onde encontramos praias consideradas impróprias para banhos e edifícios recentes, porém sem a vitalidade de outras capitais nordestinas.
Se a convivência com São Luís ficou aquém das expectativas, a chegada a Barreirinhas, para compensar, foi uma agradável surpresa. Aqui, o turismo e a pesca são as principais atividades económicas, e parecem chegar para que se respire um ar mais puro. O autocarro demora umas cinco horas para percorrer os cerca de 300 kms que medeiam entre as duas cidades. O bilhete custa 30 reais, mas é preferível pagar 40 e viajar numa “van” que transporta os passageiros até a porta dos hotéis ou das pousadas das duas cidades. Dado que o autocarro estaciona nas estações rodoviárias, além do trajeto mais rápido, poupa-se também no custo do táxi entre estas e o hotel. Existem várias empresas que fazem o transporte por “van”, o qual pode ser comprado em qualquer um dos hotéis ou pousadas de Barreirinhas e São Luís.
Pequenos Lençóis.
Barreirinhas é banhada pelo rio Preguiças, que é lindo de verdade. O nome advém do serpentear calmo e lânguido do rio. Dado que o seu curso é praticamente plano, as correntes são fracas, facto que pudemos testemunhar ao atravessá-lo a nado, nos dois sentidos, em Barreirinhas. A água é morna, deliciosa, e a praia é sobretudo frequentada pela população local; os turistas ficam espalhados pelas pousadas da periferia, cada qual com seu espaço privativo. Face à qualidade da água e às tranquilidade e beleza desses lugares ao longo do Preguiças, é altamente recomendável pagar um pouco mais e ficar numa dessas pousadas à beira-rio, em vez de ficar alojado no centro da cidade.
Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses.
Em Barreirinhas existem agências especializadas nos diversos passeios possíveis, entre os quais se destacam o dos Grandes lençóis Maranhenses, feito de jipe e depois a pé, e o da descida do Preguiças até Caburé (margem direita) ou Atins (margem esquerda), povoados que se situam na foz do rio, junto ao mar. A melhor época para visitar os Lençóis é em julho (mês da “Vaquejada”) e agosto, quando já não chove e as lagoas estão cheias pelas chuvas de inverno (janeiro a junho). Uma vez que 2012 foi um ano pouco chuvoso, agora apenas uma lagoa tem água (Lagoa do Peixe), todas as outras estão secas por força da evaporação. Mesmo assim, vale a pena caminhar naquele meio desértico, sentir a imensidão do espaço de areia branca e fina, ver o pôr do sol por trás das dunas, viajar aos solavancos nos potentes veículos “todo terreno”, cruzar o Preguiças de balsa e comer uma deliciosa tapioca, feita por uma das vendedoras do outro lado do rio.
Rio Preguiças.
Já os passeios no Preguiças não dependem da chuva e são, em qualquer época, muito interessantes. Desde logo, pela beleza do próprio rio, mas também pela interessante fauna e flora, pela vida das populações semi-isoladas, pelas já referidas tranquilidade e beleza dos lugares, e pelo seu exotismo. De Barreirinhas a Atins demoramos cerca de quatro horas de lancha rápida. Isto porque paramos em vários povoados pelo caminho: Vassouras, uma localidade minúscula, que dá acesso aos Pequenos Lençóis, na margem direita do Preguiças, e onde alguns macacos vêm ter com os visitantes, em busca de comida; Mandacarú, na margem esquerda, onde se situa o Farol Preguiças, com os seus 160 degraus e 35 metros de altura, e uma vista magnífica sobre a região; e, finalmente, Caburé, situado numa língua de areia entre o rio e o mar, na margem direita, onde podemos desfrutar de um delicioso banho e almoçar um belo robalo no restaurante Península de Caburé.
Vista que se observa do Farol das Preguiças.
A paisagem onde quer que estejamos e para onde quer que olhemos é deslumbrante. Palmeiras de buriti, açaí e carnaúba; manguezais, como os mangue-vermelho, mangue-branco e mangue-siriúba; capim-de-areia, alecrim-da-praia, pimenteira e carrapicho-da-praia, que crescem perto do mar, onde, nas praias quase desertas, podemos observar tartarugas marinhas e várias espécies de caranguejos; e, na restinga (terreno arenoso e salino), a erva-de-cascavel, a orquídea da restinga e o cipó-de-leite, entre outros. Nos manguezais podemos encontrar o jacaré-tingá, a paca e o veado-mateiro; e também aves migratórias, como o maçarico-rasteirinho, as marrecas-de-asa-azul e o trinta-réis-boreal.
Um dado muito curioso sobre o Parque Nacional do Lençóis Maranhenses (fundado em 1981) é que, para além dos 155.000 hectares de dunas e mais dunas de areia branca e fina e dos oásis de lagoas coloridas, existe ali um povo nómada, cuja vida é regida pelo ciclo das chuvas e das areias. Dentro do parque vivem diversas famílias, em alguns pequenos povoados de pescadores, como são os casos de Canto de Atins, Baixa Grande ou Queimada dos Britos. A mobilidade das dunas, provocada pelo vento, provoca muitas vezes o soterramento de casas e utensílios, obrigando ao deslocamento dos pescadores.
Mandacaru.
Na costa do Maranhão o vento predominante é de leste, como pudemos comprovar, literalmente, na pele. Este vento está na origem da criação de uma colónia, independente do Brasil, em 1621, dado que o vento de leste dificultava a navegação entre a costa norte do território e as demais capitanias. Assim, foi decidido criar uma colónia diretamente ligada a Lisboa, compreendida entre o Ceará e o Amazonas, precisamente, o Estado do Maranhão. Isto (e também as informações sobre o mercado de algodão a que aludimos no início do texto) pudemos conhecer através do clássico Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado, que afortunadamente transportámos na mochila. Apesar disto, não se pense que o clima aqui é agreste, bem pelo contrário: é generoso, suave, doce, refletindo-se nas pessoas.
Os Lençóis Maranhenses, mais que São Luís, são um destino que vale a pena. Lá cada um pode optar, todos os dias, por fazer algo diferente. Ou, simplesmente, não fazer. É bom preguiçar no Preguiças.
Fortaleza é definitivamente uma cidade musical. Seja no Mercado dos Pinhões, na Praça dos Mártires, no Centro Cultural Dragão do Mar, em Juracema ou mesmo na praia, todos os dias a música paira no ar, gratuita e harmoniosamente. Às sextas à noite o Mercado dos Pinhões enche-se de alegres convivas (sobretudo acima dos quarenta) para ouvirem e dançarem o choro. Uma vez por mês — tivemos a sorte de ser no dia da nossa visita — uma banda interpretando êxitos dos anos sessenta e setenta, os Falcões, entra em cena, após a actuação do grupo de choro, e, posso testemunhá-lo, leva o ambiente ao rubro. O vocalista, um misto de Del Shannon com Paul Anka, deixa-se fotografar com senhoras eufóricas que não resistem a subir ao palco, e atira pelas potentes colunas sonoras uma voz surpreendente. A alegria, regada com muito álcool, é contagiante — e o velho mercado bombeia música.
Trio de David Calandrine.
No sábado, durante o almoço no jardim da Praça dos Mártires (a mais antiga praça de Fortaleza, também conhecida por Passeio Público e um dos lugares mais bonitos da cidade), num restaurante/buffet, onde aliás se come muito bem, assistimos à actuação do excelentíssimo trio do guitarrista David Calandrine. Músicas cujo repertório vai de Villas-Lobos a Milton Nascimento, passando por composições próprias, tudo interpretado com um toque distinto e profissional, que poderíamos designar, genericamente, por “jazz”. Ao fundo o mar verde-azulado transmite sua beleza ao nosso olhar, como que concorrendo com a beleza que aquela música é para os nossos ouvidos. Tudo é sensualidade. E neste jardim refrescante o que apetece mesmo é ficar, esquecer o relógio e fruir.
Centro Cultural Dragão do Mar.
No domingo fomos ao Dragão do Mar. Este centro cultural é constituído por auditórios, salas de espectáculos, pracinhas ao ar livre e vários edifícios estilo arte-deco, que funcionam como restaurantes e bares. Aqui pode-se assistir a música ao vivo, teatro, cinema, exposições, conferências e é possível também jantar ou simplesmente tomar um copo ou um sorvete numa das esplanadas. Jantámos no Alma Gêmea: uma bela galinha, ao molho tártaro, e uma excelentíssima torta de limão gelada, como sobremesa, desta vez acompanhados pela Orquestra de Sopros de Mulungu. Seguiu-se a peça “História de São Francisco segundo Dona Cremilda”, um conto de José Mapurunga, adaptado, encenado e interpretado pela actriz Katiana Monteiro. Tudo sem sair da mesa do jantar…
Praia de Meireles.
Além de cidade virada para as artes, Fortaleza é também uma cidade desportiva. Iracema e Beira-Mar, locais quase desertos durante o dia, enchem-se, ao crepúsculo, com praticantes de jogging, patinadores, ciclistas, ginastas e todo o tipo de transeuntes. Milhares e milhares de pessoas. Talvez as mesmas, ou pelo menos algumas delas, que mais tarde enchem as barracas de praia e os bares circundantes; vendedores de tudo e mais alguma coisa tentam também retirar o melhor deste espaço, onde o mar está sempre presente e o frio nunca vem.
E tal como o mar vai e volta, também o vento sopra forte e recolhe, numa sequência perpétua: Fortaleza respira! Este bafo quente dá-nos até coragem para um mergulho na praia de Meireles, embora saibamos que tanto aqui, como em Iracema, as águas não são as melhores para banhos. A praia do Futuro, que a Deus pertence, e, sobretudo, outras das redondezas cumprem bem melhor essa função. Porém, em Fortaleza, mesmo não lavando o corpo, pode sempre lavar-se a vista – e a alma. É o que acontece na Beira-Mar quando, de repente, na mesa ao lado, debaixo das castanholas (árvores muito comuns aqui), duas mulheres e um homem fazem maravilhas com um simples cavaquinho que passa de mão em mão.
Vista de Fortaleza.
Por fim, e como não podia deixar de ser, o Pirata. O espaço e a maioria das pessoas são bonitos. A música, se tivermos em conta que serve, ali, essencialmente para dançar, é excelente e a quadrilha junina que se apresenta a rigor é deslumbrante – a sua actuação foi uma agradabilíssima surpresa. E apesar da ordem ser dançar, dançar, dançar, ainda se pode petiscar ali com qualidade: a carne de sol que degustámos estava mesmo muito boa! A gastronomia popular não é, porém, maravilhosa nem muito diversificada em Fortaleza, e não difere muito da de outras zonas do Nordeste: peixe frito, arroz, feijão (aqui é comum o “baião-de-dois”: o feijão vem já misturado no arroz, aos que se acrescentam ainda queijo, creme de leite salgado e salsa ), carne de sol, água de coco, paçoca, tapioca, mandioca, lagosta, camarão. Pena que algum do camarão seja de viveiro (aqui dizem “cativeiro”) e que, apesar de por vezes ser grande e de bom aspecto, não tenha sabor a mar, o que é, de facto, bastante frustrante. Não se compreende também como, com tanto mar à volta, a maioria dos restaurantes serve tilápia, um peixe de rio, e, ainda por cima, a preços exorbitantes. Isto acontece, porém, sobretudo nos locais mais turísticos; comemos muito bem quando deambulámos pelos restaurantes frequentados pelos residentes.
Teatro José de Alencar.
Fortaleza é ainda uma cidade onde se pode passear agradavelmente pelo centro histórico. Aqui estão localizadas as construções mais bonitas, as principais praças e jardins, e o comércio tradicional, como naturalmente seria expectável. As pessoas são simpáticas, acessíveis e alegres. Construções como a Catedral Metropolitana, o Mercado dos Pinhões, o conjunto do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, o Mercado Central e, sobretudo, o lindíssimo teatro José de Alencar, entre outros, valem bem uma visita.
Numa semana os sentidos saciam-se plenamente em Fortaleza, uma das mais interessantes cidades no Nordeste do Brasil.
Foi em Dezembro de 2011, mas está bem vivo na memória o curto salto a Santiago, Valparaíso e Viña del Mar. Deu para perceber que o Chile, quando comparado com outros países da América do Sul, é um país bem organizado, com adequadas infraestruturas, nomeadamente (e neste aspecto contrasta drasticamente com o Brasil) as rodoviárias.
Trata-se de um país peculiar, com os seus 4300 kms de comprimento e apenas 180 (em média) de largura, em que se destaca a indústria do cobre, representando 50 % de toda a economia chilena. Aqui se situam as duas maiores minas de cobre do mundo, uma a céu aberto e outra subterrânea, com mais de 2000 kms de túneis. O Chile é o maior exportador do mundo deste produto. 80% do país é composto por montanhas, com destaque para os Andes. O Chile é também um país onde ocorrem muito terramotos e erupções vulcânicas (2000 vulcões conhecidos), pois está situado no chamado Anel de Fogo do Pacífico. Todos os dias ocorrem abalos e, em média, de 28 em 28 anos, um grande terramoto, como o ocorrido em 1960, o maior do mundo desde que há registos, atingindo 9,5 graus na escala de Ritcher.
Mercado em Santiago.
O Chile é também um produtor privilegiado de frutas (segundo maior exportador mundial de kiwis, depois da Nova Zelândia), madeiras e vinho. A exportação de madeiras é muito importante, sendo o segundo maior item exportado do Chile. No sul do país encontram-se enormes plantações de pinheiros (vindos do Canadá) e eucaliptos (vindos da Austrália). O vinho chileno é bom, cultivando-se castas de qualidade, provenientes da Europa. Com vinho branco, cerveja, sumo de ananás e rum, os chilenos produzam uma bebida a que chamam “terramoto”. Quando se repete é uma “réplica”. À terceira vez, é um “tsunami”. Já que falamos de bebidas, deixamos aqui um apontamento sobre a “chicha”, uma bebida muito popular nos meios rurais, inicialmente importada do Norte (Colômbia e Peru), onde é produzida do arroz, sendo que no centro do Chile é produzida da uva e, no sul, de maçã.
Estátua de Allende, em Santiago.
Pelo que pude apurar, a sociedade chilena está bastante dividida, com uma forte clivagem esquerda/direita. Há um conflito permanente entre os sucessivos governos e os estudantes. Um dos principais pontos de discórdia tem a ver com o pagamento dos cursos superiores. Todos os estudantes têm de pagá-los (cerca de 650 euros/mês, na nossa moeda!), sendo que o governo financia, mas os estudantes têm de reembolsar esse valor, ficando muitas vezes 30 anos a pagá-lo.
Em Santiago pudemos experimentar o famoso ceviche, prato de peixe misturado com cebola, azeitonas verdes e amendoins, tudo cortado em pedacinhos, limão, salsa e mais um ou outro ingrediente que não consegui descobrir. É servido frio e parece uma sopa. Na verdade, embora popular, este foi um petisco alternativo, pois o que eu queria mesmo era provar “locos”, um marisco que dizem ser muito bom. Mas, segundo me informaram, não era época deles.
Pormenor do anfiteatro da Quinta Vergara.
Dois dias depois viajámos para Viña del Mar e Valparaíso. A história da fundação de Viña é bem curiosa. O fundador da cidade, José Francisco Vergara, que mandou construir um belo palácio, inserido numa charmosa quinta, os quais têm ambos, hoje, o seu nome, não ficou famoso por acaso. Ele casou com uma moça que era filha do homem mais rico da região, possuidor de grande extensão de terras. Acontece que este homem era português. (Sempre há um português metido na história…)
Inserido na Quinta Vergara, está um dos mais emblemáticos espaços para espetáculos de toda a América do Sul, um anfiteatro de arquitectura arrojada, com capacidade para mais de 15.000 espectadores. Ainda em Viña del Mar, não percebemos por que a praia, mesmo em frente ao restaurante onde comemos um excelente peixe grelhado e tomámos um bom vinho branco, estava deserta. A água, onde molhámos os pés depois do almoço nem sequer estava muito fria.
Casa de Neruda em Valparaíso.
Em Valparaíso, como não poderia deixar de ser, visitámos a casa do grande poeta Neruda. Valparaíso perdeu muita da sua importância depois da construção do Canal do Panamá. Os navios deixaram de circundar o continente para passarem do Atlântico para o Pacífico (e vice-versa) e o porto de Valparaíso, importantíssimo para a economia local, perdeu quase totalmente o fulgor de outrora.
De referir que Valparaíso e Viña del Mar são cidades praticamente coladas, viradas ambas para o oceano Pacífico. As águas por serem frias não são boas para banhos, mas generosas no que toca a peixe e marisco. Nunca tinha visto tanta variedade e, sobretudo, uma panóplia de moluscos e bivalves, cujas dimensões, de tão grandes, não estamos habituados a ver em Portugal.
Rua de Santiago.
O Chile está dividido administrativamente em regiões; as regiões em províncias; e as províncias em municípios. Cada município cobra os seus próprios impostos e, por isso, há diferenças significativas entre uns e outros, em termos de riqueza e desenvolvimento.
Quando regressámos a Santiago, no fim do dia, o trânsito estava caótico e perdemos um tempo infinito nas filas. Aproveitei para sair antes do centro e tomar uma cerveja no boémio bairro de Bellavista. Acabei por regressar ao hotel a pé, entretido com a animação que se sentia pelas ruas, própria do início de um fim-de-semana.
Uma das coisas que nos impressionaram em Santiago foi a segurança. Por todo o lado – a pé, de carro, a cavalo – se veem polícias. Pareceu-nos que, quanto a isso, ali não se brinca em serviço.
O povo é afável e educado. Gostámos do Chile. Esperamos voltar.