Chile

Foi em Dezembro de 2011, mas está bem vivo na memória este curto salto a Santiago, Valparaíso e Viña del Mar.

Deu para perceber que o Chile é comparativamente a outros países da América do Sul, um país bem organizado, com adequadas infraestruturas, nomeadamente (e neste aspecto contrasta drasticamente com o Brasil) as rodoviárias.

A cordilheira dos Andes.

O Chile é um país peculiar, com os seus 4300 kms de comprimento e apenas 180 (em média) de largura. A indústria do cobre é muito importante, e representa 50 % da economia chilena. Aqui se situam as duas maiores minas de cobre do mundo, uma a céu aberto e a outra subterrânea, com mais de 2000 kms de túneis. O Chile é o maior exportador do mundo deste produto. 80% do país é composto por montanhas, com destaque para os Andes. O Chile é também um país onde ocorrem muito terramotos e erupções vulcânicas (2000 vulcões conhecidos), pois está situado no chamado anel de fogo do Pacífico. Todos os dias ocorrem tremores e, em média, de 28 em 28 anos, um grande terramoto, como o ocorrido em 1960, o maior do mundo desde que há registos, e que atingiu 9,5 graus na escala de Ritcher.

Mercado em Santiago.

O Chile é também um produtor privilegiado de frutas (2º maior exportador mundial de kiwis, depois da Nova Zelândia), madeiras e vinho. A exportação de madeiras é muito importante, sendo a segunda maior do Chile. No sul do país encontram-se enormes plantações de pinheiros (vindos do Canadá) e eucaliptos (vindos da Austrália). O vinho chileno é bom, cultivando-se castas de qualidade, provenientes da Europa. Com vinho branco, cerveja, sumo de ananás e rum, os chilenos produzam uma bebida a que chamam “terramoto”. Quando se repete é uma “réplica”. À terceira vez, é um “tsunami”. Já que falo de bebidas, deixo aqui um apontamento para a “chicha”, uma bebida muito popular nos meios rurais, inicialmente importada do Norte (Colômbia e Peru), onde é produzida do arroz, sendo que no centro do Chile é produzida da uva e, no sul, de maçã.

Estátua de Allende, em Santiago.

Pelo que pude apurar do contacto com as pessoas, a sociedade chilena está bastante dividida, com uma forte clivagem esquerda/direita. Há um conflito permanente entre os sucessivos governos e os estudantes. Um dos principais pontos de discórdia tem a ver com o pagamento dos cursos superiores. Todos os estudantes têm de pagá-los (cerca de 650 euros/mês, na nossa moeda!), sendo que o governo financia, mas os estudantes têm de reembolsar o valor, ficando muitas vezes 30 anos com esse encargo.

Em Santiago pude experimentar o famoso ceviche, prato de peixe que talvez seja cozido no vapor, misturado com cebola, azeitonas verdes e amendoins, tudo cortado em pedacinhos, limão, salsa e mais um ou outro ingrediente que não consegui descobrir. É servido frio e parece uma sopa. Na verdade, embora popular, este foi um prato alternativo, pois o que eu queria mesmo era provar “locos”, um marisco que dizem ser muito bom. Mas, segundo me informaram, não era época deles.

Aspeto do anfiteatro da Quinta Vergara.

Dois dias depois viajei para Viña del Mar e Valparaíso. A história da fundação de Viña é bem curiosa. O fundador da cidade, José Francisco Vergara, que mandou construir um belo palácio, inserido numa charmosa quinta, os quais têm ambos, hoje, o seu nome, não ficou famoso por acaso. Ele casou com uma moça que era filha do homem mais rico da região, possuidor de grande extensão de terras. Este homem era português. (Sempre há um português metido na história…)

Inserido na quinta Vergara, está um dos mais emblemáticos espaços para espetáculos de toda a América do Sul, um anfiteatro de arquitectura arrojada, com capacidade para mais de 15000 espectadores. Ainda em Viña del Mar, não percebi por que a praia, mesmo em frente ao restaurante onde comi um excelente peixe grelhado e tomei um bom vinho branco, estava deserta. A água, onde fui molhar os pés depois do almoço, nem sequer estava muito fria.

Casa de Neruda em Valparaíso.

Em Valparaíso, como não poderia deixar de ser, visitei a casa do grande poeta Neruda. Valparaíso perdeu muita da sua importância depois da construção do Canal do Panamá. Os navios deixaram de circundar o continente para passarem do Atlântico para o Pacífico ( e vice-versa) e o porto de Valparaíso, importantíssimo para a economia local, perdeu quase totalmente o fulgor de outrora.

De referir que Valparaíso e Viña del Mar são cidades praticamente coladas, viradas ambas para o oceano Pacífico. As águas frias não são boas para banhos, mas generosas no que toca a peixe e marisco. Nunca tinha visto tanta variedade e, sobretudo, uma panóplia de moluscos e bivalves, cujas dimensões, de tão grandes, não estamos habituados a ver em Portugal.

Santiago do Chile.

O Chile está dividido administrativamente em regiões; as regiões em províncias; as províncias em municípios. Cada município cobra os seus próprios impostos e, por isso, há diferenças significativas entre uns e outros, em termos de riqueza e desenvolvimento.

Quando regressámos a Santiago, no fim do dia, o trânsito estava caótico e perdemos um tempo infinito nas filas. Aproveitei para sair antes do centro e tomar uma cerveja no boémio bairro de Bellavista. Acabei por regressar ao hotel a pé, entretido com a animação que se sentia pelas ruas, própria do início de um fim de semana.

Uma das coisas que me impressionaram em Santiago foi a segurança. Por todo o lado – a pé, de carro, a cavalo – se veem polícias. Pareceu-me que, quanto a isso, ali não se brinca em serviço.

O povo é afável e educado. Gostei do Chile. Espero, um dia, voltar.