
Investe-se uma grande quantidade de
inteligência na ignorância quando se sente
uma profunda necessidade de ilusão.1
Saul Bellow
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1. Introdução
Temos nos debruçado, e já lá vão alguns anos, sobre uma questão, intrigante e complexa, que é a seguinte: porque algumas pessoas admiram ou toleram líderes e regimes autoritários, e outras não? Um indivíduo sensato e realista não poderia (ou não deveria) admirar um ditador — mas isso é apenas o que alguns pensam. Porque o que acontece, com uma frequência que desafia a racionalidade, é que a admiração por líderes autoritários está mais difundida do que, à primeira vista, poderíamos pensar. O que vem ocorrendo um pouco por todo o mundo democrático, por exemplo nos Estados Unidos, no Brasil e na Hungria, com as eleições de Donald Trump, Jair Bolsonaro e Viktor Orbán, todos eles líderes autoritários, é algo que inquieta e deixa apreensivas as pessoas de boa vontade. O caso de Trump — um líder boçal, mentiroso, instável, inculto, vaidoso, corrupto, chantagista, autoritário e intolerante (e talvez algo mais: veja-se o caso Epstein) à frente da maior potência militar mundial é particularmente preocupante.
Torna-se, assim, urgente perceber porque a admiração por governantes autoritários está tão disseminada, e para isso precisamos de recorrer a algumas áreas de conhecimento. Desde logo aquelas que se debruçam sobre a evolução da nossa espécie. Mas também precisamos de estudar algo mais específico: perscrutar o interior do próprio cérebro humano. Necessitamos ainda de avaliar a forma como avança o conhecimento científico, o único factual e, logo, verdadeiro. Será necessário ainda conhecer as principais teorias da ciência política até agora inventadas e compará-las entre si. Tentaremos perceber a influência que o ambiente tem na formação da mente ideológica — desde a educação em casa aos livros que se leem (ou não), passando pelo meio social e académico, pelas crises económicas e sociais que ciclicamente ocorrem, sem esquecer a influência do fenómeno mais recente das redes sociais. E, finalmente, iremos analisar como se formou na opinião publica mainstream, ao longo de um século, essa excrescência do marxismo cultural chamado wokismo (quando se abre muito os olhos só se vê aquilo que se quer) . É isto que tentaremos fazer mais abaixo, mas antes, para que não restem dúvidas, vejamos, através da análise histórica, porque todos os ditadores são maléficos, pois revelam quatro características que tentaremos expor de seguida.
2. A personalidade do autocrata
Em primeiro lugar, todos os ditadores adoram o poder. Logo que o alcançam não querem largá-lo, ou seja, só podem ser afastados à força, o que implica que eles próprios a usem para reprimir ou eliminar quem quer afastá-los do poder. Daqui resulta que qualquer sociedade onde exista um ditador seja uma sociedade violenta, com todo o sofrimento associado. Em segundo lugar, quase todos os grandes ditadores amam a sumptuosidade. Salvo raras exceções (como a de Salazar, em Portugal, e, ao que parece, do atual líder chinês Jinping), os ditadores, sobretudo os que mais clamam serem representantes do povo, deixam esse mesmo povo na miséria enquanto levam uma vida de luxo, e amiúde de luxúria e perversidade. Em terceiro lugar, a vida humana não tem qualquer valor para a maioria dos ditadores; eles não sentem empatia com o próximo e muitos evidenciam sintomas claros de psicopatia, enquanto alimentam o mito do herói, amiúde explorado na imprensa que controlam e nos manuais escolares que definem. Em quarto lugar, todos os ditadores odeiam a liberdade. Os espíritos liberais, críticos, tolerantes e autónomos são os seus principais inimigos e, consequentemente, são perseguidos, detidos e eliminados. De facto, a realidade histórica mostra-nos que fascistas, nazis e comunistas tinham e têm como inimigo principal os liberais. Isto acontece hoje, com ideólogos russos, como os ultranacionalistas Dugin, Limonov e Kholmogorov (aqui), ou com marxistas, como os anticapitalistas Zlavoj Zizek (aqui), Perry Anderson e David Harvey, tal como acontecia há cem anos, quando nacionalistas e socialistas alemães, se uniram contra o mercantilismo e liberalismo ocidental (a Inglaterra era, na altura, a nação mais odiada) através da criação do partido nacional-socialista alemão, mais conhecido por partido nazi (Hayek, 1944).
2.1. Adoração do poder
Consideremos, brevemente, alguns casos de líderes autoritários, para mostrarmos como apresentam as características comportamentais apresentadas no parágrafo anterior. Relativamente ao fascínio pelo poder, os números não enganam. Kim Il-sung, apropriadamente designado como o “Presidente Eterno da República”, inaugurou uma dinastia, continuada por seu filho, Kim Jong-Il, e seu neto, Kim Jong-un, que dura há 78 anos. Fidel Castro governou Cuba durante 49 anos e a ditadura prolongou-se com seu irmão, Raúl, e continua até hoje. Tito governou a Jugoslávia por 35 anos. Estaline esteve à frente da União Soviética durante 30 anos. Salazar e Franco estiveram no poder 36 anos, Mao, 27 anos, e Putin já vai em 25. Xi Jinping alterou as reformas iniciadas por Deng Xiaoping no interior do Partido Comunista Chinês para se manter mais tempo no poder (Dillon, 2024). Muitos outros ditadores não se perpetuaram no poder porque foram depostos pela força (Hitler, Mussolini, Pal Pot).
Claro que, para quem adora o poder, o principal medo é perdê-lo. É por isso que os ditadores contam com a proteção de guarda-costas, exércitos pessoais, carros blindados, bunkers, residências secretas, disfarces e até sósias, ao contrário do que se passa na maioria dos países livres, sobretudo na Europa, onde os governantes andam à vontade no meio do povo (Marcelo Rebelo de Sousa) e se deslocam em transportes públicos ou de bicicleta (Olaf Palme). Fidel Castro, por exemplo, tinha à sua disposição um centro de investigação bactereológico para analisar todos os alimentos que consumia, além de um provador permanente. A sua paranóia era tal que até os quartos de hotel onde as personalidades estrangeiras pernoitavam quando visitavam Cuba estavam equipados com câmeras de filmar. E não era apenas por uma questão de controlo, era também um meio de chantagem: muitos recebiam prostitutas de luxo fornecidas pelo regime, e isso poderia ser usado para obter vantagens em caso de necessidade (Sánchez, 2014).
2.2. Viver em grande
Quanto ao gosto dos ditadores pela sumptuosidade, vejamos brevemente alguns exemplos. Lenine, o líder revolucionário dos trabalhadores, era transportado num Rolls-Royce Silver Ghost, equipado com esquis e correntes para superar as estradas com neve, e vivia numa sumptuosa mansão em Gorki, nos arredores de Moscovo (Kershaw, 2022). Fidel Castro, por seu turno, era proprietário de um património fabuloso, incluindo a ilha paradisíaca Cayo Piedra e o iate Aquarama II — para além de um número incontável de imóveis e do controlo de toda a economia cubana — enquanto o povo vivia (e vive ainda) na miséria, sendo que era também psicopata, pois descartava, quando já não lhe interessavam, mesmo os seus mais fiéis servidores, não sentindo qualquer remorso pelo sofrimento infligido (Molina, 2010). Reinaldo Arenas, um poeta cubano, várias vezes preso em Cuba, que conseguiu fugir da ilha, escreveu na sua autobiografia, já no exílio:
Descobria agora uma fauna que em Cuba me era desconhecida; a dos comunistas de luxo. Lembro-me de que, no meio de um banquete na Universidade de Harvard, um professor alemão me disse: “Eu de certo modo compreendo que possas ter sofrido em Cuba, mas eu sou um grande admirador de Fidel Castro e estou muito satisfeito com o que ele fez em Cuba.” O homem tinha naquele momento um grande prato de comida à sua frente e eu disse-lhe: “Acho muito bem que você admire Fidel Castro, mas nesse caso não pode continuar com esse prato de comida, porque nenhuma das pessoas que vivem em Cuba, salvo a oficialidade cubana, pode comer comida dessa.” Peguei no prato e atireio-o contra a parede.2
Achamos que esta declaração merece uma pausa, antes de continuarmos para outro psicopata, um dos homens mais ricos do planeta (quiçá, o mais rico)… Falamos, claro, de Vladimir Putin, possuidor de vários palácios soberbos, um deles na região de Krasnodar, na costa do Mar Negro, o maior edifício residencial privado da Rússia. Mas a jóia da coroa parece ser “a pequena Versalhes” em Valdai, nas margens do Lago Valdaiskoye. Isolada no meio de uma reserva natural, entre Moscovo e S. Petersburgo, a propriedade estende-se por 250 hectares. É difícil e seria até fastidioso descrever todo o luxo instalado nesta propriedade que conta com uma mansão para Putin e outra mansão para a sua namorada — a multimedalhada ginasta russa, Alina Kabaeva — e uma linha férrea exclusiva.3 Enquanto isso, muitos russos morrem de frio em regiões remotas do país.
Por seu turno, Nicolae Ceausescu, o “Génio dos Cárpatos” e líder comunista que governou a Roménia durante 24 anos, detinha um Palácio de Primavera com 80 salas, piscina interior, salão de cinema e casas de banho com torneiras de ouro. Enquanto isso, o povo romeno vivia na mais extrema miséria. Daniel Ortega e a mulher, Rosario Murillo, “socialistas” que governam em conjunto a Nicarágua desde 2006, possuem uma fortuna estimada em mais de 2.500 milhões de dólares, controlando o mercado de combustíveis, a comunicação social e um grande número de empresas, algumas das quais através de testas de ferro. Como habitualmente acontece com estes defensores do povo, o povo, propriamente dito, vive na miséria. É o que acontece também com Kim Jong-un, líder incontestado da Coreia do Norte, possuidor de uma fortuna fabulosa, detentor de 17 palácios e amante de luxos requintados como carros opulentos (mais de uma centena), aviões a jato, carro blindado com casa de banho, cavalos puro-sangue, uma coleção de relógios avaliada em 8 milhões de dólares e um iate de luxo. A morte por fome na Coreia do Norte é cíclica, mas Kim adora caviar preto iraniano, porcos dinamarqueses, conhaque francês e uisque americano.4
Temos depois os aspirantes a ditadores, como Trump ou Orbán. A fortuna de Trump, que, apenas desde que iniciou o segundo e atual mandato como presidente dos Estados Unidos, há pouco mais de um ano, aumentou mais de mil milhões de dólares (um bilião para para os padrões brasileiros e americanos)5 está avaliada em quase 6 mil milhões (6 biliões) de dólares. Orbán é o político mais bem pago do mundo e as empreses que giram em torno do governo húngaro, que lidera, viram os seus lucros aumentados exponencialmente. Este aumento súbita da riqueza de empresários amigos, bem como de familiares, adensam a suspeita de recurso a testas de ferro por parte de Orbán.
Claro que a lista de ditadores “afortunados” é muito mais longa e poderíamos continuar com vários outros, como Lukashenko, Mbasogo (o ditador atualmente há mais tempo no poder: 47 anos) e muitos outros líderes africanos, ou o novo líder religioso iraniano, Mojtaba Khamenei, detentor de um património que inclui mansões em Londres, hotéis de luxo e campos de golfe em várias cidades europeias, e contas chorudas na Suíça.6 Mas talvez possamos ficar por aqui.
2.3. Psicopatia
Hitler (15 a 20 milhões), Estaline (mais de 40 milhões) e Mao (estima-se que mais de 50 milhões) são responsáveis, em conjunto, por mais de 100 milhões de mortes, constituindo-se como três dos maiores assassinos da história da humanidade. Hitler inspirou-se em Benito Mussolini para cultivar a aura de herói de que necessitava para galvanizar as massas alemãs (Rees, 2012). Pol Pot, um líder cambojano comunista, considerado, em alguns meios de comunicação social, “a maior máquina de matar do século XX”,7 conseguiu a “proeza” de liquidar 1/4 da população do seu próprio país em cerca de três anos — milhões de pessoas.
Putin, que age como chefe de uma máfia, controlando toda a economia russa (Kasparov, 2015), não hesita em enviar para a morte certa centenas de milhares dos seus jovens concidadãos. Tendo em conta que nas guerras modernas é muito difícil ocupar com tropas outro país ou região, dada a grande concentração populacional em cidades, a estratégia de Putin é a de arrasar indiscriminadamente esses centros urbanos reduzindo-os a escombros. É uma estratégia recorrente utilizada na Chechénia, na Síria e na Ucrânia. Se lhe derem tempo, Putin chegará facilmente ao patamar dos milhões de mortes.
Apesar de estes ditadores terem sido, ou serem, responsáveis por um número inacreditável de vítimas mortais, o sofrimento que outros líderes autocráticos infligiram, através da repressão generalizada, não pode ser negligenciado. Salazar, em Portugal, Franco, em Espanha, os ditadores militares da América Latina (Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, etc.), geralmente de “direita”, ou os ditadores africanos, geralmente de “esquerda” foram, ou são, responsáveis por incontáveis mortes e por episódios de tortura e encarceramento de seres humanos inocentes. Como se pode ver, o número de vítimas da chamada esquerda é bastante superior ao da chamada direita. Mas este não é um problema quantitativo e muito menos um problema entre esquerda e direita, como veremos mais à frente, antes pelo contrário.
2.4. Ódio à liberdade
Todos os ditadores odeiam a liberdade e gostam de ser obedecidos. É precisamente por isso que são ditadores. E se é verdade que nem todos eles possuem as características apresentadas no ponto 2 — há alguns, poucos, ditadores que têm uma vida relativamente modesta — e em relação ao ponto 3 há gradação relativamente à psicopatia, todos, absolutamente todos, preenchem as condições dos pontos 1 e 2 — todos adoram e poder e odeiam a liberdade.
É por isso que se munem de todos os meios repressivos possíveis para se manterem no poder. Isto deveria alertar-nos para a extrema importância das instituições democráticas e para a necessidade de manutenção da independência institucional em relação ao poder executivo. Tribunais e imprensa são geralmente os primeiros alvos dos pré-ditadores — como Trump, hoje, ou Putin, na fase anterior à do poder absoluto — e a sua autonomia deve ser assegurada, pois são dois dos mais importantes pilares da liberdade. (Enquanto escrevemos este artigo, o governo golpista da Guiné-Bissau — um país de língua oficial portuguesa — mandou espancar até à morte o ativista Vigário Luís Balanta, de 35 anos, e prepara-se para fechar vários órgãos de comunicação social).
Os liberais, com a sua tolerância, o seu desapego, e mais do que desapego a sua desconfiança do poder (daí a ênfase que colocam na limitação dos governos), bem como o seu amor à liberdade (individual e de associação), ao livre mercado, à propriedade privada e à autonomia contratual são os maiores inimigos de todos os ditadores, sejam de esquerda ou de direita. É por isso que a verdadeira dicotomia da ciência política atual não é entre esquerda e direita, mas entre democracia e ditadura, liberdade e opressão, tolerância e autoritarismo. (Ramón, 2024; Applebaum, 2020).
É fácil ver, pelo último parágrafo, que quando nos referimos a liberalismo, não estamos a pensar em nenhum tipo de programa político-partidário, nenhum tipo de liberalismo específico, económico ou outro, como é o caso do conhecido termo inventado pejorativamente — o neoliberalismo — para desacreditar o liberalismo. O liberalismo não dispensa a ação do Estado nem é alheio aos direitos sociais conquistados pelos indivíduos. Muito pelo contrário. Quando nos referimos a liberalismo, estamos a falar de uma doutrina geral que visa garantir as liberdades acima referidas, defendendo, para isso, instituições que controlem o poder. O liberal é um indivíduo atento aos abusos de poder, que considera a liberdade um fim em si mesmo — uma vez que sem liberdade o ser humano deixa de ter responsabilidade pelos seus atos (passa a ser um escravo do poder estabelecido) e todos os avanços sociais (incluindo a diminuição da desigualdade) conquistados pelas democracias liberais são perdidos.
3. A dicotomia esquerda/direita é anacrónica
Apesar da capacidade destrutiva das ditaduras, é de certa forma natural que a maioria dos súbditos dos ditadores, intoxicados com propaganda, admirem os seus líderes. Mas como entender, sem nos indignarmos, que nos países democráticos, com imprensa livre, algumas pessoas sintam admiração, quando não verdadeira veneração, por líderes autocratas? E assim regressamos à nossa questão fundamental. Trata-se de uma questão intrigante, sobretudo porque as respostas simplistas — que as pessoas são estúpidas ou ignorantes — são redutoras. Há muita gente inteligente e erudita que defende ideologias antidemocráticas.
Esta é, portanto, a grande questão que se coloca, num mundo onde os regimes autoritários ganham terreno aos democráticos, onde a polarização, o extremismo e a aversão a tudo o que é liberal crescem, tal como aconteceu há um século quando líderes totalitários aspiraram a controlar o mundo. Vivemos de novo umas dessas crises provocadas pelo desespero. As crises económica, social, habitacional, conduzem inevitavelmente a uma crise de valores.
Neste contexto, a velhinha dicotomia esquerda/direita que dominou o debate político da segunda metade do século XX, perde sentido. Não há grandes diferenças entre um social-democrata, um democrata-cristão ou um liberal-social. Todos eles defendem as instituições democráticas e sabem que elas são mais importantes do que qualquer indivíduo, por mais popular que seja. Da mesma forma, não há grandes diferenças entre um simpatizante fascista, ou nazi, ou marxista. Todos eles tenderão a apoiar qualquer político disposto a pôr em prática as correspondentes ideologias, pouco lhes importando se há separação de poderes ou se os poderes estão concentrados num único indivíduo providencial.
A verdadeira dicotomia é, portanto, a que separa defensores da democracia dos apoiantes de autocracias, porque é entre eles que existe uma verdadeira clivagem, não entre os democratas de esquerda ou direita. Além disso, sabe-se que uma vez iniciada a radicalização de qualquer um dos lados dos extremos políticos, ela tende a agravar-se do outro lado, e vice-versa. Alimentado pelo ódio ao outro extremo, o nosso ódio aumenta também. E, assim, insaciáveis, estamos dispostos a aceitar tudo: fantasias, distorções, mentiras e calúnias. Não é preciso esperar muito tempo até que a maioria se movimente apenas no espaço das redes sociais, circunscrita a uma tribo radical.
Habituados aos soundbites das redes, deixamos de ter paciência para ler um livro e tolerância para ouvir uma crítica. Qualquer dissonância é tida como hostil e considerada uma ameaça. A tendência é considerar quem não alinha connosco como inimigo e empurrá-lo para o extremo oposto. Não há mais lugar para a crítica, para a tolerância, para o razoável. E com isto não nos apercebemos que somos iguaizinhos aos do outro lado, pois utilizamos precisamente os mesmos métodos. Desprezamos o autocrata inimigo mas apoiamos outro — o nosso. Perante tudo isto, é lícito concluir que a rigidez ideológica remete para a teoria da ferradura na política, onde o fascismo e o comunismo acabam por se encontrar nos extremos. A ideologia incentiva o dogmatismo do crente, num efeito de autorreforço: os avanços para o extremismo são tanto mais fáceis quanto mais profundamente envolvido se estiver (Zmigrod, 2025).
4. A mente ideológica
A ideologia nasceu com boas intenções. Como a palavra indica, estava destinada a ser a ciência das ideias, mas transformou-se numa guerra de ideologias, tal como aconteceu com as religiões. É bastante curioso que tenha sido um pensador iluminista, condenado à morte por “aristocracia” e encarcerado numa prisão de Paris nos tempos tenebrosos pós Revolução Francesa, Antoine Destutt de Tracy, o homem que cunhou o termo “ideologia”. Tracy queria tornar científico o estudo da formação das ideias — como nascem e se desenvolvem em nós através da “sensação” e da “dedução” —, orientá-lo para a verdade e afastá-lo da superstição.
O Reinado de Terror terminou antes da prevista execução de Tracy (mas com a execução do sanguinário Robespierre), que acabou por ser libertado. Poucos anos depois, Destutt de Tracy publicou a sua obra de referência, Elementos de Ideologia, que viria a ser traduzida para inglês por Thomas Jefferson, o terceiro presidente americano.
A louvável intenção de livrar as ideias de superstições, crenças, influências metafísicas e tradições bafientas não vingou. Pelo contrário, a “ciência das ideias” não tinha as ferramentas necessárias para ser realmente uma ciência e foi tomada de assalto por pensadores dogmáticos que reclamaram o estatuto de ciência para as suas doutrinas pseudo-científicas. A ideologia foi perdendo o estatuto de ciência, sendo atacada primeiro por Napoleão e, mais tarde, por Marx, até se transformar numa espécie de idolatria —a veneração de pensadores ou líderes dogmáticos e autoritários — atingindo o máximo grau negativo que tem hoje.
Tracy não dispunha das ferramentas realmente científicas que possuímos agora, pois não estavam disponíveis no seu tempo. Referimo-nos a áreas do conhecimento que vão das ciências naturais à psicologia, passando pela filosofia do conhecimento e pela filosofia política. É através delas que vamos analisar mais detalhadamente a mente ideológica, tendo em conta o que se consideram ser as ideologias mais extremistas (embora, claro, nenhuma delas o reconheça), casos do fascismo, nazismo, nacionalismo, comunismo e islamismo radical. Os crentes destas ideologias odeiam a nossa civilização: a liberdade, a democracia, a tolerância, a justiça, o bem-estar social.8
4.1. Biologia evolucionista — da Idade da Pedra às redes sociais
Do ponto de vista evolutivo, foi muito importante para os humanos, ainda em tempos remotos, juntarem-se em grupos. Só através de coligações foi possível sobreviverem e defenderem-se, quer de outros grupos rivais — algo que também acontece com outros primatas — quer de membros violentos dentro do próprio grupo. Mas apenas na nossa espécie se desenvolveu até níveis de destruição inimagináveis este enorme esforço coletivo para atacar outros grupos e defender-se dos ataques contrários. A população humana tem sido consistentemente perturbada por rivalidades e conflitos étnicos e religiosos, que muitas vezes escalam para guerras civis e genocídios. O antagonismo racial na América, a história dos pogroms na Europa, a carnificina que se seguiu à dissolução da Jugoslávia, os inumeráveis conflitos étnicos em África, como, por exemplo, o massacre racial no Rwanda, mostram-nos a relevância que a pertença ao grupo tem na evolução da humanidade (Boyer, 2018).
Com a passagem do tempo e o desenvolvimento tecnológico e científico, acabaram por aparecer as coligações de agressão proativa (Wrangham, 2019), que culminaram em forças armadas com grande poderio bélico, as quais, quando comandadas por líderes autoritários, têm uma maior probabilidade de usar o seu potencial de destruição. Daí a apetência muito enraízada para nos alistarmos em agremiações, sejam religiosas, ideológicas, clubísticas ou outras. Somos animais sociais e isso implica que a nossa individualidade não pode permanecer isolada, necessita identificar-se com outras individualidades — as nossas mentes têm de interagir com outras mentes — e isso impele-nos à integração no grupo, satisfazendo o sentimento de pertença que nos é tão característico. Devido à predominância da vida coletiva na evolução humana, o sentimento de pertença ao grupo e os aspetos normativos dessa pertença tendem a ter precedência na nossa mente em relação às questões factuais (Gat, 2022). A individualidade e o pensamento livre surgiram muito mais tarde na evolução humana e não estão, por isso, tão enraízados nos nossos genes. É por isso que toda a luta humana é uma luta contra a natureza, sobretudo contra a nossa própria natureza. E é também por isso, que um extremista consegue entender outro extremista, mas dificilmente entenderá um liberal.
Isto é confirmado pela história e pelo que se passa no mundo, hoje. Hitler pactuou secretamente com Estaline para dividirem a Europa entre eles (Molotov-Ribbentrop); Putin, Lukashenko, Jinping, Jong-un e Khamenei dão-se todos bem, apesar de dois deles serem fascistas (ou nacional-populistas), dois serem comunistas e outro ser um teólogo autocrata. Basta ver as votações nas Nações Unidas para se perceber a convergência dos ditadores (incluindo alguns aspirantes a ditadores, como Trump ou Orbán). Em geral, estes ditadores têm como principal inimigo o que genericamente é designado por Ocidente, ou, em termos ideológicos, as democracias liberais.
O que acontece, muitas vezes, é que os Estados Unidos são confundidos como o expoente máximo deste tal Ocidente, mas os Estados Unidos, de acordo com o Índice da Democracia publicado por The Economist, entre outros estudos, são uma democracia imperfeita. Os países ocidentais socialmente mais desenvolvidos são as democracias liberais nórdicas (Dinamarca, Noruega, Suécia, Finlândia e Islândia) às quais poderíamos juntar outras democracias europeias, como a Suíça, os Países Baixos e a Irlanda, e, fora da Europa, países como o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia — os socialmente mais avançados, mais pacíficos e mais felizes do planeta. A prova final dessa superioridade social é a forma como as pessoas sem voz — doentes mentais, presos e idosos em fim de vida — são tratados nestes países: com a dignidade que merecem. (Um artigo nosso sobre esses países-modelo pode ser lido aqui).
No entanto, o ódio que muitas pessoas têm aos Estados Unidos leva-as a juntarem-se às ditaduras e a virarem-se não apenas contra os Estados Unidos mas contra a democracia liberal, que representa, em termos ideológicos, o grande inimigo desses regimes autoritários. Claro que os ditadores conhecem isto muito bem e exploram as fragilidades internas das democracias para as atacarem. É o que se passa com os exércitos de trolls, financiados por partidos políticos e até por países, como a Rússia (talvez a maior fábrica mundial de trolls) e a China, que alimentam o radicalismo nas redes sociais. Uma vez mentalmente radicalizado, o crente não procura a verdade, apenas busca a confirmação das suas convicções — e essas ele encontra por toda a parte. Em vez de modificarmos as nossas crenças à luz de novas informações, utilizamos as nossas crenças para julgar essas novas informações.9 O espírito crítico fica definitivamente obliterado. O homo da Idade da Pedra e o sapiens sapiens da internet patilham a mesma mentalidade tribal.

4.2. Psicologia social
Alguns autores distinguem entre razão epistemológica — a necessidade de seguirmos a verdade — e a razão social — a necessidade de nos identificarmos com um grupo — sendo que, em conflito, a segunda geralmente prevalece sobre a primeira, ou seja, frequentemente, adaptamos a realidade à nossa ideologia e não o contrário (Fitoussi, 2025). É por isso que as ideologias mais radicais, sejam de esquerda ou de direita, são tão parecidas no ódio que sentem umas pelas outras.
E uma vez adotada uma ideologia, o custo social e psicológico de voltar atrás é muito elevado. A posição adotada condiciona a posição futura, e é por isso que a inteligência passa a ser usada para justificar a ideologia e não para procurar a verdade. Entra-se num círculo vicioso. A razão social prevalece e a lucidez é trocada pelo bem estar psicológico. Não é possivel ajustar a ideologia à realidade (por isso esta é tão diabolizada), então ajusta-se a realidade à ideologia. Karl Popper descreveu assim o processo pelo qual nos envolvemos mais e mais:
Uma vez que tenha sacrificado a sua consciência intelectual em relação a um ponto pouco importante, um indivíduo não quer ceder com demasiada facilidade; o indivíduo deseja justificar o auto-sacrifício convencendo-se da bondade fundamental da causa, que é vista como pesando mais do que qualquer pequeno compromisso moral ou intelectual que possa ser requerido. Com cada um desses sacrifícios morais ou intelectuais, o indivíduo fica cada vez mais profundamente envolvido, fica pronto a apoiar os seus investimentos morais ou intelectuais na causa com mais investimentos.10
Além dos mecanismos psicológicos sobre a cegueira ideológica, vários estudos sugerem que certas pessoas têm uma tendência natural para o autoritarismo. Uma psicóloga judia, fugida do nazismo, Else Frenkel-Brunswik, intrigada (como nós) com o que levaria as pessoas a se tornarem extremistas (ela estudava, sobretudo, os nazismo e fascismo), publicou, em conjunto com outros autores, no já longínquo ano de 1950, um livro que é uma referência incontornável na área da psicologia social — A Personalidade Autoritária. Nos seus estudos, Else descobriu várias clivagens interessantes entre crianças com personalidades autoritárias e crianças com personalidades liberais; descobriu que as crianças “liberais” eram mais flexíveis e adaptáveis à realidade do que as “autoritárias”. A personalidade autoritária é convencional, rígida e intolerante à ambiguidade.
Os estudos de Frenkel-Brunswik confirmaram o que o psicólogo nazi, Erich Ludolf Jaensch, já havia descoberto na década de 1930: algumas pessoas tinham as qualidades do alemão ideal e outras possuíam as características de uma pessoa que poderia constituir um perigo para o regime nazi. O tipo “J” era o de indivíduos cuja perceção era inequívoca, bem definida, firme, maquinal e integrada — eram indivíduos rígidos, masculinos, agressivos e membros fiáveis do Partido Nazi. Em contraste, Jaensch postulou um tipo “S” — indivíduos propensos à sinestesia, com tendências sensoriais mais soltas e fragmentadas, mais contaminados pelas emoções, liberais de todas as formas que os nazis detestavam.
No seguimento destes estudos, Leor Zmigrod, uma cientista da área da neurociência política, constatou, num estudo em Inglaterra com centenas de participantes, e, em 2016, noutro estudo que envolveu mais de 700 americanos, que os indivíduos mais extremistas, fossem de esquerda ou de direita, tinham uma flexibilidade mental diminuída quando lhes eram apresentadas tarefas que avaliam a adaptabilidade na perceção visual e em quebra-cabeças linguísticos. Ela descobriu ainda que os indivíduos mais radicais são extremamente confiantes quanto à certeza das suas opiniões. Isto reforça o que David Dunning e Justin Kruger descobriram em 1999: os indivíduos com classificações mais baixas em testes de conhecimento têm mais confiança nas provas realizadas do que os indivíduos que revelam maiores conhecimentos através desses mesmos testes11. Ou seja, os mais ignorantes são igualmente os mais convencidos. O neurocientista Dean Burnett sintetiza o fenómeno desta maneira:
Reconhecer as suas próprias limitações e as capacidades superiores dos outros é algo que requer inteligência. Daí haver pessoas que discutem acaloradamente com outras sobre assuntos dos quais não têm qualquer experiência direta, mesmo que a outra pessoa tenha estudado a matéria durante a vida inteira. O nosso cérebro só tem as nossas próprias experiências em que se basear, e os nosso pressupostos de referência são que toda a gente é igual a nós. Portanto, se formos idiotas…12
Além disso, investigações recentes com recurso a aparelhos de neuroimagiologia mostraram que as pessoas mais conservadoras tendem a ter a amígdala direita (fundamental na geração de emoções) maior do que as politicamente liberais. Outros estudos revelam que experiências traumáticas também podem causar radicalismo ideológico. E estudos sobre criminosos condenados por crimes com convicção ideológica — cometidos por extremistas de esquerda ou de direita e islamitas — mostram que muitos deles sofreram experiências de rejeição ou de fracasso — no trabalho, nas amizades ou em relacionamentos românticos (Zmigrod, 2025).
4.3. Filosofia do conhecimento (epistemologia)
De acordo com os filósofos e cientistas liberais, o conhecimento científico avança pondo em questão as teorias científicas estabelecidas, refutando-as. Pelo contrário, o “conhecimento” ideológico visa confirmar as próprias convicções, procurando a verificação e não a refutação das mesmas, não podendo, portanto, ser considerado científico. Pode parecer complicado, mas é bastante simples. É sempre possível melhorar uma teoria científica. Isto é óbvio porque é assim que a ciência avança. Pelo contrário, as ideologias radicais são dogmas, não são refutáveis — tal como uma religião não é refutável, é uma questão de fé — e, por isso, não são científicas.
Esse critério de demarcação começou a ser traçado em finais de 1919 por um jovem austríaco de 17 anos, desiludido com o marxismo, chamado Karl Popper. Popper começou a estudar a teoria marxista e percebeu que a pretensão científica do marxismo não passava disso mesmo: uma pretensão. Ele observou um antagonismo profundo entre, por exemplo, as atitudes de Marx e Einstein. Nas suas próprias palavras:
O que mais me impressionou foi a afirmação clara do próprio Einstein de que consideraria a sua teoria como indefensável se ela falhasse em certos testes. Assim, escreveu, por exemplo: “Se a deslocação para o vermelho das linhas espectrais devido ao potencial gravitacional não existir, então a teoria da relatividade geral será indefensável”. Aqui estava uma atitude completamente diferente da atitude dogmática de Marx, Freud, Adler, e ainda mais da dos seus seguidores. Einstein estava à procura de experiências cruciais, cuja concordância com as suas previsões de modo algum estabeleceria a sua teoria; ao passo que o desacordo, como foi o primeiro a sublinhar, mostraria que a sua teoria era indefensável. Esta, achei eu, era a verdadeira atitude científica. Era absolutamente diferente da atitude dogmática que constantemente proclamava ter encontrado “verificações” para as suas teorias favoritas. Assim, para o fim de 1919, cheguei à conclusão de que a atitude científica era a atitude crítica, que não procurava verificações mas testes cruciais; testes que pudessem refutar a teoria testada, embora nunca pudessem estabelecê-la.13
Alguns anos mais tarde Popper tinha desenvolvido completamente o seu critério de demarcação entre ciência e pseudociência, o qual publicou na obra de referência A Lógica da Descoberta Científica, em 1934. De acordo com esse critério, uma teoria científica tem de ser testável ou refutável ou falsificável. É isso que acontece nas ciências empíricas, mas não ocorre nas pseudociências, seja a interpretação marxista da História (vulgo, marxismo) a interpretação racista da História (vulgo, nazismo) ou a interpretação nacionalista (vulgo, fascismo). O critério de demarcação de Popper é reconhecido por um conjunto de cientistas que conhecem a sua obra (incluindo vários prémios Nobel), entre eles, Richard Feynman, John Eccles, David Deutch e Hermann Bondi, que afirmou: “Nada mais há para a ciência do que o seu método, e nada mais há para o seu método do que o que foi dito por Popper”.14
O desconhecimento do critério de demarcação leva muita gente a aceitar teorias falsas, sejam de esquerda ou de direita. Estas teorias são, em geral, populistas, com respostas simples e dogmáticas para problemas complexos, e são demasiadas vezes encaradas como uma revelação entre os fracos de espírito. Daí o fechamento em tribos, a que se assiste nos partidos mais extremistas, onde se procuram constantemente verificações em vez de refutações, mas também no comentário político e no fenómeno mais recente das redes sociais — sem dúvida, o principal centro de radicalização e polarização nas nossas sociedades atuais.
Do ponto de vista epistemológico, as ideologias radicais situam-se no campo religioso e não no campo científico, como (pelo menos, algumas) pretendem.15 O islamismo radical, com as suas componentes religiosa e ideológica é, quanto a isto, paradigmático. A fidelização ao grupo é mais uma característica (entre muitas outras) que as ideologias partilham com a religião. É preciso fazer sacríficios para demonstrar a fidelidade. E tal como nas religiões se pratica o jejum, se ora regularmente, se cumprem promessas ou se fazem peregrinações, o crente ideológico participa em manifestações, faz campanha, distribui propaganda ou ataca violentamente os adversários em debates. “Tal como a utilização de tatuagens distintivas no mundo do crime serve para impossibilitar que um indivíduo seja recrutado por outra rede mafiosa, certas declarações públicas são, acima de tudo, promessas de lealdade eterna a um clã”.16 O carácter religioso das ideologias radicais é algo há muito estudado, não restando dúvidas de que a mente ideológica é, no seu mecanismo, similar à mente religiosa. Estaline, por exemplo, encontrou no marxismo uma nova fé, logo após ter abandonado os estudos no seminário teológico de Tbilissi (Kershaw, 2022). A ostracização dos não-crentes é outra característica comum a religião e ideologia.
4.4. Ciência política
O que caracteriza a dicotomia verdadeira em ciência política, aflorada acima, a saber, a divergência entre visões democráticas e visões autoritárias, é que para as primeiras o mais importante são as instituições, enquanto para as segundas o mais importante são os indíviduos capazes de levar a cabo o que propõe determinada ideologia.
Para percebermos isto temos de recuar aos primórdios da ciência política e à questão primordial com que os teóricos se confrontavam e que era a seguinte: Quem deve governar? Claro que as respostas a esta pergunta dependem das ideologias. Platão disse que devem governar são os sábios (o filósofo-rei); Marx disse que a dinâmica da História catapultará a classe operária ao poder; e a resposta mais comum é que deve governar o povo.
O governo do povo denominou-se, na Grécia Antiga, democracia, mas é reconhecido que o povo nunca governou em lado nenhum porque, simplesmente, isso é uma impossibilidade. O povo só pode “governar” através de representantes que, tendo em conta estudos e inquéritos realizados ao longo do tempo, um pouco por todo o mundo — raramente se elevam acima da mediania, quer moral, quer intelectualmente. Assim sendo, a pergunta que se deve colocar é a seguinte: de que forma podemos livrar-nos, por meios pacíficos, de políticos nefastos? Esta questão evita confusões entre as definições (sempre improdutivas) de “democracia” (pois todos se consideram verdadeiros democratas) e consagra como resposta a democracia liberal, aquela onde ocorrem eleições e existe separação de poderes, imprensa livre e respeito pelos direitos humanos, incluindo os das minorias.
É por isso que as instituições são tão importantes para os democratas liberais, enquanto os pseudo-democratas populistas e autoritários tendem a admirar personalidades. A importância das instituições democráticas fica bem patente quando olhamos para alguns líderes autoritários — como Donald Trump, Viktor Orbán, Benjamin Netanyahu ou Jair Bolsonaro — todos eles aspirantes a ditadores, mas que podem ser (ou já foram) afastados do poder graças, precisamente, às instituições democráticas. Nada garante que escolhamos bons governantes em democracia; mas a democracia é o único regime que garante a possibilidade de corrigirmos o erro. O desconhecimento sobre o papel crucial das instituições democráticas é uma das razões que podem facilitar o surgimento de personalidades ideológicas.
4.5. Psicologia ambiental
A vida familiar, escolar e, em geral, social, a (des)informação recolhida, o percurso académico, os livros que se leem (ou não), tudo isso pode influenciar a tendência para o autoritarismo ou para o espírito liberal. E não basta os autores que rejeitam as ideologias totalitárias para se amar a democracia e a liberdade. Vários estudos indicam que uma educação familiar muito rígida pode gerar mentes igualmente rígidas, dogmáticas, ideológicas. E uma vez formada, uma mente ideológica dificilmente se deforma. As crises sociais, e a ocorrência de períodos significativos de pobreza, desemprego e desigualdade, ou de imigração em massa, quando a crise é no exterior, também radicalizam as pessoas, as quais se revoltam contra o sistema e contra os políticos democráticos (nas ditaduras as revoltas são reprimidas), sendo que esse descontentamento é naturalmente aproveitado pelos políticos populistas. As crises económicas são cíclicas e embora as suas consequências venham sendo minimizadas, com um crescente apoio dos governos, quem as sofre não quer saber disso.
Poder-se-ia pensar que tudo se resolveria com uma boa formação escolar e académica, afinal, é tudo uma questão de Educação. Sim, mas qual? Muitas das nossas universidades, sobretudo nas áreas sociológicas, são escolas ideológicas. Essa tradição é bastante antiga e remonta à primeira academia, fundada por Platão, como forma de difundir as suas ideias. A esmagadora maioria dos alunos destas universidades ficará, eventualmente para sempre, condicionada pela linha ideológica da sua escola. Isto acontece porque a necessidade de aceitação social é particularmente forte na adolescência e no início da fase adulta, bem como a necessidade de aceitação em grupos de amizade. Além disso, estes cursos nas áreas das ciências sociais nem sempre conduzem a empregos bem remunerados — o que gera, muitas vezes, ressentimento contra o sistema e radicalização —, e por isso muitos alunos optam por um percurso académico mais longo, no decurso do qual têm de produzir trabalhos que são avaliados por professores da linha ideológica da escola, e produzem artigos “científicos” que são avaliados pelos seus pares, igualmente formados na mesma linha ideológica. Entra-se num círculo vicioso que se autoalimenta, onde, entre a ideologia e a realidade, a primeira sai sempre vencedora. Por estranho que pareça, muitas universidades são verdadeiros “templos de irracionalidade”.17
Pode realmente parecer estranho para os mais incautos, mas se pensarmos que a revolta de muitos intelectuais — nomeadamente os que vamos analisar de seguida como precursores do wokismo — se dirigiu, precisamente, contra a razão, chegaremos à conclusão de que não há qualquer exagero em considerar um número significativo de universidades de estudos sociais como templos de irracionalidade. É a pura verdade.
4.6. Wokismo e reacionarismo — os extremos autoalimentam-se
Um dos fenómenos ideológicos mais debatidos, muito influenciado pela academia, é o chamado wokismo. Para entender este fenómeno temos de recuar um século, até 1923 e ao Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, na Alemanha, onde se encontraram vários intelectuais marxistas, desiludidos com a pouca adesão dos operários ocidentais à ideologia que defendiam. Estes intelectuais chegaram à conclusão de que a fraca adesão dos operários à teoria de Marx se devia ao domínio cultural exercido pelas instituições ocidentais onde viviam.18 Se o problema era cultural, a resposta tinha de ser cultural. Unindo marxismo e psicanálise, duas pseudociências então em voga (ver citação de Popper acima), os intelectuais daquela que anos mais tarde (anos 60) ficou conhecida como Escola de Frankfurt chegaram à conclusão de que as instituições culturais do Ocidente — família tradicional, moral sexual, educação, arte — funcionam como um mecanismo de dominação psicológica, forçando os trabalhadores a aceitar essa dominação como natural. O que era necessário, então, não era uma revolução económica violenta, mas uma revolução cultural gradual. Esta abordagem “filosófica” e sociológica ficou conhecida como Teoria Crítica, em homenagem a Max Horkheimer, que a apresentou pela primeira vez em 1937.
Assim começou o ataque às instituições culturais do Ocidente que culminou no wokismo — um ataque deveras eficaz, pois conduziu ao domínio da academia, da linguagem usada nos meios de comunicação tradicionais, da política cultural de governos e da forma politicamente correta como nós próprios devemos comunicar. Os intelectuais da Escola de Frankfurt tiveram que fugir da Alemanha após a ascenção de Hitler e refugiaram-se nos Estados Unidos. Em 1934, o Instituto de Pesquisa Social reabre em Nova Iorque, afiliado à Universidade de Columbia. Dez anos depois, Max Horkheimer e Theodor Adorno publicam Dialética do Esclarecimento. A sua tese fundamental é que a ilustração, o progresso, a razão e a ciência não libertaram a humanidade, antes a escravizaram. Herbert Marcuse, em 1955, publica Eros e Civilização, afirmando que a repressão sexual é a base do capitalismo, e advoga a libertação sexual total. Cria a Nova Esquerda e ensina política de identidade nas universidades americanas. Em 1964, Marcuse publica O Homem Unidimensional: a sociedade capitalista controla-nos com consumo, entretenimento, comodidade — pensamos ser livres, mas somos apenas escravos.
A única solução é a destruição completa do sistema cultural vigente. Marcuse torna-se o herói intelectual das revoltas estudantis de 1968: o Ocidente é opressivo; a família é a célula do fascismo capitalista; a moral tadicional é dominação. Entretanto, outro elemento da Escola de Frankfurt, Walter Benjamin, justifica a morte da arte tradicional — a fealdade (honesta) passa a ser uma virtude enquanto a beleza (suspeita) é malvista, e o único critério estético é o da provocação. Nos anos 80 e 90 do século XX as ideias da teoria crítica são assimiladadas pelos pós-modernistas franceses (Foucault, Derrida, Lyotard), que as radicalizam. Michel Foucault afirma: “todo o conhecimento é poder”. Nos anos 90 surge a Teoria Crítica da Raça, advogando que a sociedade americana está estruturada para oprimir minorias raciais. Judith Butler afirma que o género de um indivíduo é uma criação social performativa e que o sexo biológico é uma construção social; não há mulher nem homem naturais, apenas papéis impostos pelo poder. Para Edward Said, professor de literatura da Universidade de Columbia, toda a cultura ocidental é imperialismo disfarçado. O Ocidente deveria envergonhar-se permanentemente da sua história.
Eis a origem histórica do wokismo, o seu percurso e o seu padrão claro — o ódio ao Ocidente. Não deixa de ser irónico que intelectuais fugidos de uma atroz ditadura totalitária, refugiados num país livre, tenham atacado de forma tão violenta e injustificada a própria liberdade. As suas ideias são um excelente exemplo do papel nocivo das ideologias radicais. As suas teorias não passam de dogmas, de pseudo-ciência, de formas insidiosas e engenhosas de construção de carreiras académicas. E têm como consequência o aumento exponencial, que se verifica um pouco por todo o lado, das contrapartidas de extrema-direita. De facto, nas universidades de ciências sociais não há liberdade, antes há temas proibidos, perguntas censuradas e autores malditos. O pensamento pseudo-científico, mas politicamente correto, é mais uma das formas pelas quais se condiciona a mente ideológica.
5. Conclusão
O futuro é aberto. Ninguém sabe se a radicalidade ideológica irá crescer ou diminuir, ou se passará por fases de crescimento e de decréscimo (o mais provável). A consequência mais importante da subsistência da radicalidade ideológica e da prevalência em largas zonas do globo do autoritarismo é a ausência de paz no mundo. Os estados democráticos têm medo dos estados autoritários e vice-versa, e por isso rearmam-se. A experiência da Guerra Fria mostra-nos como o medo impulsionou a corrida aos armamentos e como a corrida aos armamentos exponencia a capacidade de destruição dos estados (incluindo a capacidade nuclear).
Poderíamos esperar que, com o reforço de uma educação para a liberdade, com o passar do tempo, esse amor pela liberdade prevalece-se nos nossos genes. Mas o mais provável é que essa visão seja demasiado ingénua, pelo menos nos curto e médio prazos. Assim sendo, só nos resta defender a liberdade nos nossos países de tradição judaico-cristã, genericamente conhecidos, no seu conjunto, por Ocidente. Defender a liberdade significa lutar por ela todos os dias.19 O que está a acontecer nos Estados Unidos e na guerra da Rússia contra a Ucrânia (só para citar dois exemplos) lembra-nos que a democracia tanto pode implodir por dentro, como pode ser destruída por fora.
Provavelmente, a maioria dos cidadãos comuns das nossas sociedades, cujas tendências autoritárias analisámos acima, sentiriam a falta da liberdade a partir do momento em que a perdessem. As redes sociais onde alimentam a sua raiva deixariam de existir. No entanto, muitos não têm sequer noção desse perigo, outros terão mas não se importam — pois consideram a democracia liberal um sistema injusto e corrupto ou, simplesmente hipócrita — e outros, ainda, têm uma vida tão desoladora que nem sequer pensam nisso.
Independentemente destas considerações, os factos dizem-nos que vivemos, nas nossas sociedades ocidentais e capitalistas (para usar um termo do marxismo)20, no melhor mundo de sempre. Já nos referimos aos países socialmente mais desenvolvidos — os mais justos, igualitários e felizes; aqueles onde os que não têm voz são tratados com dignidade. Isso deveria bastar como prova definitiva, mas não é isso que acontece, graças às distorções ideológicas da realidade. Steven Pinker apelidou estas distorções de contrailuminismos, uma vez que foi o grande movimento iluminista — esse verdadeiro Renascimento político, depois do primeiro ensaio democrático realizado na Grécia Antiga — que nos conduziu, como já realçámos, às sociedades mais prósperas, progressistas e livres de sempre (Pinker, 2018).
Abramos os nossos olhos para o mundo belo que criámos — esse verdadeiro milagre da multiplicação — dos pães,21 dos cuidados de saúde, da água potável, dos transportes, das férias pagas, das aposentadorias, dos direitos humanos universais, da paz! (Sim, os países socialmente mais desenvolvidos são também os mais pacíficos). Isso não prova que as nossas sociedades sejam perfeitas, mas deveria alertar-nos para que só através delas podemos aspirar a sermos ainda melhores.
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Notas:
1 Saul Bellow, Jerusalém — Ida e Volta, Tinta da China, Lisboa, 2011 (ed. orig., 1976), p. 205.
2 Reinaldo Arenas, Antes que Anoiteça, Asa, Lisboa, Porto, 1993 (ed. orig. 1992), p. 273.
7 https://observador.pt/programas/e-o-resto-e-historia/pol-pot-a-maior-maquina-de-matar-do-seculo-xx/
8 Não apenas odeiam, como, em muitos casos, sentem inveja do nosso sucesso. O caso islamista é paradigmático. A civilização islâmica foi na Idade Média a mais avançada e, curiosamente, uma das mais tolerantes. Quando perdeu esse protagonismo e o Ocidente conquistou a supremacia económica, científica, tecnológica e cultural, a reação islamista foi de negação. Ao contrário de países como a Coreia do Sul, o Japão e Singapura, com culturas diferentes da nossa, mas que adotaram rapidamente os nossos métodos económicos e prosperaram em poucos anos, os países islâmicos mais fundamentalistas fecharam-se em si próprios e refugiaram-se na suposta superioridade da sua cultura. Vivem no mundo de outrora, reforçam as tradições religiosas anacrónicas e diabolizam a cultura ocidental. Em vez de corrigirem os próprios erros, apontam os erros dos ocidentais, fomentando guerras religiosas que deveriam ter terminado há bastante tempo (Lewis, 2002). Esta atitude de culpar o Ocidente por tudo o que corre mal é típica dos inimigos das sociedades abertas.
9 Samuel Fitoussi, Porque se Enganam os Intelectuais, Bertrand, Lisboa, 2025, p. 131.
10 Karl Popper, Busca Inacabada – Uma autobiografia intelectual, Esfera do Caos, Lisboa, 2008 (ed. orig. 1974), p. 54.
11 O resultado deste estudo deu origem ao célebre Efeito Dunning-Kruger.
12 Dean Burnett, O Cérebro Idiota, Presença, Lisboa, 2017, p. 123.
13Karl Popper, ob. cit., p. 60.
14 Brian Magee, Popper, Fontana Press, London, 1985, p. 9.
15 Sobre o carácter religioso do marxismo, ver nosso artigo aqui
16 Samuel Fitoussi, ob. cit., p. 151.
17 Samuel Fitoussi, ob. cit., p. 89.
18 Antonio Gramsci, um intelectual italiano preso pela ditadura de Mussolini, já havia adiantado o conceito de “hegemonia cultural” nos seus Cadernos do Cárcere (iniciados em 1929).
19 Popper alertou-nos para este problema através da sua formulação do paradoxo da tolerância. Não podemos ser tolerantes com os intolerantes, sob pena de estes abolirem a própria tolerância. É por isso que muitos partidos e organizações extremistas, que defendem ideologias autoritárias, deveriam ser constitucionalmente ilegalizados.
20 Roger Scruton, em Against the Tide, pp. 19-20, interroga-nos sobre a propriedade de descrever as nossas sociedades como “capitalistas” e se, em vez disso, não seria mais esclarecedor descrevê-las como elas realmente são — democracias liberais.
21 Isto é literalmente verdade. O pai da Revolução Verde, Norman Borlaug, desenvolveu, na segunda metade do século XX, estirpes de trigo, milho e arroz com uma produtividade muito superior à dos seus antepassados. Isto combinado com novas técnicas de fertilização, irrigação e gestão de colheitas multiplicou a produtividade alimentar de forma exponencial, contrariando as anteriores previsões pessimistas de Malthus.
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Referências:
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- Arenas, Reinaldo, Antes que Anoiteça, Edições Asa, Porto, 1993 (ed. ori., 1992).
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