Maja Milinkovic

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Maja no seu bar, em Alfama, com o nosso amigo João Alvarez.

Encontramo-la na Rua dos Remédios, em Alfama, num  bar onde, enquanto não serve um mojito ou uma imperial, canta o fado – a sua paixão.

Vive em Portugal há seis meses e é natural da Bósnia-Herzegovina.

Alma grande, enorme, desmedida – é assim a bela Maja Milinkovic.

Deixamos uma interpretação de “Loucura”, por Maja, gravada em dezembro de 2012, em Sarajevo.

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Alfama anfitriã

recetividade a visitantes estrangeiros

Muito curioso este mapa publicado pelo Washington Post [1]. Podemos verificar que são poucos os países que atingem o nível mais elevado de recetividade a visitantes estrangeiros. Em toda a América, apenas o Canadá. Na Europa, oito países tão diversos quanto o são Portugal, a Islândia, a Bélgica, a Irlanda, a Áustria, a Bósnia-Herzgovina, a Macedónia e Malta. Em África, Marrocos, Mali, Senegal e Bukkina Faso. No Médio Oriente, o Yemen e os Emiratos Árabes Unidos. Na Ásia, apenas a Tailândia e Singapura. Por fim, a Nova Zelândia, na longínqua Oceania… ao todo, 18 países.

Numa segunda linha, aparecem países como o Brasil, a Austrália, o México, a Turquia, a Finlândia e a Suécia.

A leitura deste mapa suscita-nos duas reflexões, que gostaria de partilhar aqui. Em primeiro lugar, mostra-nos que a diferença entre os dois países ibéricos, Portugal e Espanha, se reflete na diferença entre o Brasil e os restantes países da América do Sul. Há uma correlação positiva entre Portugal e Brasil, países claramente bons anfitriões, e chega a ser surpreendente, a baixa recetividade a estrangeiros de países como a Argentina, o Equador e, sobretudo, a Bolívia e a Venezuela. Isto está de acordo – ou, pelo menos, não é contraditório – com a ideia, defendida por muitos, de que a colonização portuguesa foi bastante mais tolerante do que a colonização espanhola.

Por outro lado, este mapa mostra-nos que existe uma outra riqueza no mundo que não apenas a riqueza material.  Tal como as pessoas que concluem com êxito cursos de ciência e tecnologias são, em geral, financeiramente mais ricas do que aquelas que concluem cursos de humanidades ou letras, também os países podem ser, económica e financeiramente, muito ricos, sendo, ao nível humano, relativamente pobres.   E tanto mais pobres quanto mais basearem as suas estratégias exclusivamente nas questões económicas. A riqueza humana não é transacionável nos mercados.

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Miradouro das Portas do Sol. Um dos pontos obrigatórios, com vista fantástica sobre Alfama e o Tejo, para quem visita Lisboa.

Por fim, tudo isto me leva a pensar no grande número de estrangeiros que visitam diariamente Alfama. Na maioria das ruas de Alfama vemos, hoje em dia, mais estrangeiros que portugueses. Muitos voltam. E muitos, ainda, decidem aqui viver. Alfama, com sua multiplicidade de visitantes e habitantes, é a prova provada da ancestral hospitalidade portuguesa[2].

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[1] Ver em http://www.washingtonpost.com, “40 maps that explain the world”.

[2] Vale a pena conferir aqui

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Açores, São Miguel

Uma belíssima embarcação oriunda das Bermudas e estacionada na marina de Ponta Delgada fez-nos pensar na localização estratégica dos Açores, no centro do Atlântico, entre a Europa e a América.

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Pedacinhos de terra perdidos na imensidão do oceano. Pedacinhos que, vistos de dentro, são mundos inteiros de beleza e diversidade: um desses mundos é a ilha de São Miguel.

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Verde em terra, azul no mar, areia negra que a espuma branca das ondas cobre e descobre, céu azul ou cinzento, consoante o local da ilha em que nos encontremos – em São Miguel, dez quilómetros, apenas, podem separar um dia luminoso de um outro cinzento e triste.

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As águas são virtuosas, tanto em terra quanto no mar. Quentes ou tépidas, elas teimam em aquecer o corpo, literalmente, em todos os sentidos. Sentidos que se abrem naturalmente, sem esforço, despertos e dilatados…

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Na ilha vulcânica de São Miguel lagoas se formaram em velhas crateras, criando espelhos de água de rara beleza: Furnas, Sete Cidades, Fogo.

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A gastronomia está de acordo com o local: simples, natural, viva. O peixe é fresquíssimo, com destaque para os “chicharros”, carapaus pequenos, que aqui se comem, em geral, fritos ou cozidos (alimados). Os mariscos tradicionais são as lapas e os cavacos. O cozido das Furnas, embora sem tradição antiga, é bom, ficando a carne tenrinha pelo cozinhar lento. Pena não incluir farinheira… A cerveja Especial é excelente e a água potável que brota e corre é variada e medicinal.

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Mas o estômago quase que é esquecido em São Miguel… Aqui come-se e bebe-se o ar que se respira! E o tempo é, sobretudo, de contemplar, não de comer.

Assim nos pareceu São Miguel.

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Arte Xávega

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A arte xávega consiste numa técnica específica da pesca de arrasto, na qual a rede é puxada de terra, antigamente à força de braços, hoje por meios mecânicos. Da mesma forma, as embarcações que dantes eram puxadas pelos remos dos homens a bordo, hoje são movidas a motor.

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O barco tem de passar a zona de rebentação para se afastar, 1 500, 2 000 e às vezes ainda mais metros, e fazer o “cerco”, regressando à praia com uma das pontas do cabo que, de imediato, começa a ser puxado. Este tipo de pesca pratica-se ao longo de toda a costa portuguesa e o termo “xávega”, que deriva do árabe e quer dizer “rede”, era usado apenas no Sul de Portugal, acabando, por necessidade de unificação, de se estender ao Norte do país, onde o mar é mais alteroso e os barcos, consequentemente diferentes, com a proa muito mais alta, própria para cortar as vagas.

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A maior tranquilidade do mar, a Sul, nem sempre é real, sendo a pesca pela arte xávega uma atividade arriscada onde quer que ocorra, como prova o acidente de há 50 anos na costa alentejana, mais propriamente em Santo André, onde pereceram dezassete homens, que puxavam a rede, em terra, atingidos por uma onda gigante. Devido a essa tragédia não mais se praticou a arte xávega naquela praia. [1]

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Na Costa da Caparica, porém, são muitas as embarcações que todos os dias se fazem ao mar, fazendo várias viagens de ida e volta (lances) na esperança de uma boa pescaria. Claro que um bom lance acontece quando o peixe mais valioso, que é também o mais raro, é aprisionado na rede (robalo, linguado, sargo, etc). As espécies são variadas, sendo as mais comuns a cavala e a sardinha, logicamente, as de menor valor comercial. A sardinha da Costa da Caparica, muito grande, é de qualidade inferior, não sendo a mais indicada para grelhar no carvão – a forma como os portugueses, sobretudo no verão, adoram comê-la. Ao invés, o carapau é de excelente qualidade.

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Dizem que a melhor sardinha – talvez o peixe mais popular, em Portugal, a par do bacalhau – é pescada no Algarve (Sul) e em Matosinhos (Norte). Talvez. Seja como for, assistir ao pôr-do-sol, comprar peixe fresco aos pescadores e assistir à gritaria e ao esvoaçar das gaivotas é um ritual – e um espetáculo! – que repito, várias vezes, ano após ano, nos fins de tarde cálidos, no verão, na Costa da Caparica — onde tirámos as fotos incluídas neste artigo.

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Nota:

[1] http://expresso.sapo.pt/santiago-do-cacem-homenageia-17-pescadores-que-morreram-durante-a-faina-ha-50-anos=f777780

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Marcha d’Alfama 2013

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Um dos momentos mais interessantes do Santo António, em Alfama, é quando a marcha sai do bairro, no dia 12, para o desfile na Avenida da Liberdade. Os moradores vêm em peso para a rua e juntam-se aos turistas formando uma claque sempre diferente em cada ano e sempre vibrando com a alegre passagem dos marchantes e músicos da grande Marcha de Alfama.

Marcha de Alfama que, por sinal, foi a grande vencedora da edição deste ano do concurso das marchas populares, que já vai na 81ª edição. Desde 1932 que existe o concurso da Marchas de Lisboa, o qual, nesse ano, foi organizado por Leitão de Barros.

Atualmente, as Marchas Populares são avaliadas com uma pontuação de 0 a 20 e em dois momentos, no Meo Arena, antigo Pavilhão Atlântico, este ano nos dias 7, 8 e 9 de Junho e na Avenida da Liberdade, dia 12 de Junho, nas categorias de Coreografia, Cenografia, Figurino, Melhor Letra, Musicalidade, Melhor Composição Original e Desfile da Avenida.

Resultados das Marchas Populares de Lisboa 2013[1]:

1º lugar – Alfama

2º lugar – Alto do Pina

3º lugar – Bica

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Nota:

[1] Alfama só não participou em quatro edições das marchas – 1969, 1981, 1982 e 1983. Até hoje o concurso realizou-se por 46 vezes (teve várias interrupções, embora se realize ininterruptamente desde 1988), tendo Alfama conquistado 17 primeiros lugares, 11 segundos e 4 terceiros. É de longe a Marcha com mais títulos e também a única que venceu em cinco anos consecutivos (1996 a 2000).  

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Portugal, esse retângulo velhinho e independente

Portugal é um país pequeno. Para se ter uma ideia, o Brasil é cem vezes maior que Portugal. Apesar disso, este pequeno país sempre quis ser independente. É um dos países mais antigos do mundo e o Estado que mantém as atuais fronteiras há mais tempo na Europa. Resistiu, desde a sua fundação por D. Afonso Henriques, às ocupações de castelhanos e de franceses, quer no seu território peninsular, quer nas colónias espalhadas pelo mundo, estas muito cobiçadas também pelos holandeses.

Apesar do reduzido território, Portugal teve “engenho e arte” para se expandir além fronteiras. A história não é totalmente clara, mas para além das ilhas Canárias, Madeira, Açores,  das costas leste e oeste africanas, da Índia, Malásia, Brasil etc. — aquelas terras cujas descobertas é consensual atribuí-las aos lusitanos —  há quem defenda que os portugueses chegaram também primeiro à China, à Austrália, ao Japão e mesmo à América do Norte [1].

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Em 1494, o Papa dividiu o mundo ao meio atribuindo metade aos espanhóis e a outra metade aos portugueses. O povo desse pequeno retângulo “à beira-mar plantado” virara-se para o mar ignoto e conquistara-o. Ninguém pode duvidar dos feitos desses navegadores oriundos da Escola de Sagres (que, na verdade, parece ter-se localizado mais para os lados de Lagos), os maiores da história marítima mundial. Isto cingindo-nos aos livros de história oficiais, porque, com maior ou menor credibilidade, muitos autores apresentam evidências do pioneirismo português noutras paragens. O caso da Austrália (e da Nova Zelândia) é paradigmático, dado que existem mapas portugueses da costa deste continente 250 anos antes da chegada do capitão Francis Cook [2].

Seja como tenha sido, um país tão pequeno, com número tão reduzido de habitantes, dificilmente poderia dar-se ao luxo de ter tão vastas e dispersas colónias, num mundo onde outros países muito maiores emergiam: o feito de manter essas terras não foi, talvez, menor do que aquele de as encontrar. Para o efeito, Portugal usou uma estratégia baseada em dois pontos essenciais:

1º A miscigenação com os povos nativos e também com os escravos, para fazer face à escassez de indivíduos.

2º A aliança com outros países, nomeadamente a Inglaterra, para fazer face às ameaças aos territórios encontrados.

A consequência do primeiro ponto foi o aparecimento do mulato, do caboclo, de povos e países interraciais, cujo paradigma é, sem dúvida, o Brasil, talvez o povo com mais mistura genética recente do mundo, fruto da miscigenação de portugueses, índios e negros. Os portugueses são, sem dúvida, um dos povos mais exogâmicos do mundo. E muitos brasileiros e portugueses, quando se afastam afetivamente uns dos outros, talvez desconheçam que as culturas de ambos têm necessariamente muito em comum e que, mesmo biologicamente, existe uma ligação fortíssima entre os dois povos. Portugal e Brasil são literalmente países irmãos[3].

A consequência do segundo ponto foram a pobreza e a estagnação económica patentes durante séculos em Portugal. A aliança com a Inglaterra permitiu que conservássemos integralmente o Brasil, mas esta proteção política e militar teve graves contrapartidas económicas. Portugal foi obrigado a comprar os tecidos ingleses, pagando-os com o ouro do Brasil: manter este território saiu muito caro a Portugal! Porém, só assim seria possível conservar o Brasil; e só assim foi possível chegar ao grandioso Brasil atual.

Hoje Portugal é de novo apenas aquele quadrado debruçado sobre o Atlântico, ao qual se acrescentam uns pontinhos no meio do mesmo oceano – os arquipélagos da Madeira e dos Açores (embora tenhamos uma vasta e estratégica ZEE ainda não explorada). E mais uma vez passamos por uma grave crise, depois dos anos eufóricos que se seguiram ao 25 de abril, e do sonho europeu. O país que abriu o caminho da globalização torna-se numa das suas maiores vítimas. Aderindo de boa fé ao projeto europeu pela mão de um dos maiores europeístas de sempre, Mário Soares, vê-se agora esmagado por regras impostas pela cúpula europeia, que se mostra renitente em avançar para uma união política e fiscal, única forma de construir uma Europa mais solidária.

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Notas:

[1] Em Dighton, Massachussets, nos EUA, existe uma rocha, com cerca de 40 toneladas de peso, que contém uma série de inscrições, as quais vêm, desde há séculos, sendo alvo de várias tentativas de decifração. A teoria mais recente, enunciada em 1918 pelo americano Edmund B. Delabarre e mais tarde defendida em obra do mesmo autor, publicada em 1929 (“Dighton Rock”), sugere que parte dessas inscrições foram feitas, em 1502, por Miguel Corte Real, um açoriano que teria embarcado de Lisboa em busca de seu irmão que partira desta mesma cidade um ano antes. Esta teoria foi retomada e desenvolvida pelo historiador e médico luso-americano Manuel Luciano da Silva. Devemos, obviamente, nós ainda mais, pois não somos historiadores e não tivemos acesso às fontes, ter cuidado com a divulgação destas teorias. De forma alguma queremos deixar a impressão de que as mesmas têm rigor científico. A verdade é que, pura e simplesmente, não podemos aquilatar esse rigor, pelo que as apresentamos a título meramente informativo.

[2] A teoria de que foram os portugueses os primeiros a chegar às Austrália e Nova Zelândia pode ler-se no livro (2007) do australiano Peter Trickett, “Beyond Capricorn: How Portuguese adventurers secretly discovered and mapped Australia and New Zealand 250 years before Captain Cook”, entre outras obras anteriores. Tudo leva a crer, porém, que esta obra tem pouco rigor científico e (apesar dos aplausos – e condecorações – que Trickett obteve em Portugal), apesar das pistas que levanta, não passa de uma obra de ficção. Isto mesmo refere o historiador português Paulo Jorge de Sousa Pinto no excelente artigo, A Austrália descoberta pelos portugueses? Ficções aquém e além de Capricórnio, publicado na revista Brotéria, volume de maio/junho de 2014, nº 178. (Esta nota foi acrescentada ao presente artigo em data posterior à primeira edição do mesmo).

[3] Estudos coordenados pelo conceituado professor Sérgio Pena da UFMG, mostram que 50% dos cromossomas y (masculino) da população negra brasileira são de origem portuguesa: http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/05/070326_dna_estudo_pena_cg.shtml o mesmo se verificando em relação à população brasileira, em geral: http://brasileconomico.ig.com.br/index.php/noticias/agenda-lusobrasileira_108858.html

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