Darwin

Charles-Darwin-1880-631
Darwin dedicou a vida toda à ciência.

A autobiografia de Darwin foi editada em Portugal, pela Relógio D’Água, em 2004. Escrito seis anos antes da sua morte, e dedicado aos filhos e netos, é um livrinho interessante, sincero, um balanço de vida. Lendo-o, descobrimos que Darwin foi um homem atreito a doenças, muito metódico, persistente e viajado, agnóstico, simples e modesto. Esta característica – a modéstia – foi mesmo a principal que retirámos da leitura do texto, para lá de muitas curiosidades. De facto, os intelectuais verdadeiramente grandes – pelo menos os que mais apreciamos – são todos modestos. Escreve Darwin: A minha capacidade de seguir um raciocínio longo e abstracto é muito limitada; por esta razão nunca poderia ter sido bem sucedido em metafísica ou matemática (…) a minha memória é tão fraca sob um certo aspecto que nunca fui capaz de me lembrar de uma data ou de um verso durante mais de alguns dias[1]. Vale a pena refletir. Darwin, um homem que privou e se correspondeu com os maiores intelectuais do seu tempo, venerado por muitos deles, não se tinha em grande conta (com capacidades tão moderadas como as minhas, é na verdade surpreendente que tenha assim influenciado de modo considerável as opiniões dos homens de ciência sobre alguns pontos importantes[2]) e o seu maior orgulho era o de ter tido pela ciência natural um amor invariável e ardente[3].

Um dos aspetos interessantes desta pequena autobiografia é, precisamente, a referência a inúmeras personalidades contemporâneas do autor, o que confere a este documento uma importância histórica (sobretudo, para a história da ciência) significativa. Por coincidência, hoje mesmo saiu um artigo na revista “E”, do semanário “Expresso”, da autoria de Francisco Louçã[4], onde este conhecido economista, político e comentador refere o “fascínio” que Marx e Engels, nutriam por Darwin, chegando Engels ao ponto de apresentar Marx como o Darwin das ciências sociais, para reforçar a sua reivindicação científica. Ainda de acordo com Louçã, Marx chegou a remeter a Darwin um exemplar do Capital (enviou, na mesma altura, outro exemplar a Spencer, acrescentamos nós), mas apenas obteve uma resposta polida, referindo que os assuntos tratados ultrapassavam o conhecimento do biólogo. Verifica-se, assim, que a admiração de Marx por Darwin não era recíproca. É isso que esta Autobiografia confirma: dos mais de cem nomes citados não consta o de Marx (nem o de Engels), apesar de o “Doutor Vermelho” ter convivido mais de 30 anos, no mesmo país (a Inglaterra), com o autor da Teoria da Evolução.

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Notas:

[1] P. 129.

[2] P. 134.

[3] P. 130.

[4] O título do artigo é “O Detetive que Queria Decifrar a Suprema Intriga”, edição 2367 da Revista do Expresso, de 10 de março de 2018. Na mesma edição saiu outro artigo sobre Marx e o marxismo, mais curto mas mais interessante que o de Louçã (muito mais independente e realista), da autoria de Luciano Amaral (professor-assistente da Nova School of Business & Economics), sob o título “Somos Todos Marxistas”.

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A nossa edição:

Charles Darwin, Autobiografia, Relógio D’Água, 2004.

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Foto retirada de: www.smithsonianmag.com

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A Crítica da Razão Pura

Kant
A Crítica da Razão Pura foi editada pela primeira vez na cidade de Riga, em 1781.

Kant é um autor reconhecidamente difícil e a Crítica da Razão Pura é, provavelmente, a sua obra mais complexa. O seu estilo — talvez o único aspeto em que possamos compará-lo a outros filósofos alemães — é denso e enredado1, já para não referir os imensos termos latinos e conceitos novos, as frases, períodos e parágrafos longuíssimos. A própria estrutura do texto é complexa, com “secções”, “livros”, “divisões”, “partes”, para lá dos tradicionais capítulos. Em suma, esta obra é para ser estudada, não apenas lida. E quem quiser compreender minimamente a doutrina expressa na Crítica da Razão Pura deverá procurar algum registo introdutório, que aclare o sinuoso texto de Kant. Este não escreveu, certamente, para o cidadão comum, não teve a preocupação de descer à terra, estava, claro, absolutamente focado no seu trabalho. Coube a outros, na verdade, a muitos outros, descodificar a sua obra. Não se sabe quantos textos já se escreveram sobre a Crítica nem quantos se escreverão ainda. Muitos, certamente, pois a fonte é inesgotável. O nosso pequeno artigo é apenas mais um, modesto, não dedicado a especialistas, mas a pessoas comuns, como nós.

Kant trabalhou muito tempo na preparação desta sua primeira grande produção filosófica, certamente mais de uma década, como provam vários documentos, conhecidos dos muitos estudiosos desta obra2. Entre estes, há quem defenda3 que o que começou por ocupar a mente de Kant, quando este já pensava num livro que, na verdade, ainda não sabia vir a chamar-se Crítica da Razão Pura4, foram os assuntos da Metafísica, sobretudo a questão cosmológica relativa ao possível início do universo ou, em contrapartida, à sua infinitude. Debruçando-se sobre esse problema, Kant descobriu que a razão humana não pode decidir sobre uma tese (o universo teve um início) e uma antítese (o universo sempre existiu), ambas provadas logicamente. Para a prova (da primeira parte) da tese da primeira antinomia, consideremos um universo infinito: até um dado momento, por exemplo o instante presente, terá que ter decorrido um tempo infinito, o que não é logicamente possível, porque o tempo infinito não pode ser limitado. Assim sendo, o universo teve que ter um início. Para a prova (da primeira parte) da antítese da primeira antinomia, consideremos que o universo teve um início: neste caso, antes do início do universo não existia tempo, ou seja, havia um tempo vazio, o nada. Ora, tem de ter existido alguma coisa antes do início do universo (algo entre o não-existente e o existente) que tornasse esse universo possível, o que, na verdade, é impossível, pois o nada não pode conter alguma coisa. Assim sendo, o universo não pode ter tido um início, pelo contrário, sempre existiu. Não temos espaço, nem tempo (permita-se-nos o trocadilho brejeiro), para considerar as teses e antíteses das outras (três) antinomias5, nem a segunda parte da primeira, pois isso ocuparia um artigo inteiro. Para o nosso propósito, o que analisámos, relativamente à primeira antinomia, é suficiente. Além disto, basta ter em consideração que, em todas as antinomias, a razão (razão “pura”, pois não tem o apoio da experiência) entra em contradição com ela própria.

Kant vai retirar uma consequência radical da primeira antinomia: o espaço e o tempo não são coisas reais como os objetos do mundo sensível; antes, eles fazem parte, respetivamente, da nossa intuição externa e interna, e constituem as condições para que os objetos sejam percecionados por nós. Uma segunda consequência é que, não sendo o espaço e o tempo parte do mundo exterior a nós, mas parte da nossa sensibilidade, os objetos do mundo sensível são condicionados pela nossa capacidade de os intuir de uma forma peculiar, de acordo com a nossa intuição externa (espaço) e interna (tempo). Essa forma peculiar que os objetos tomam para nós por força da intuição a priori (prévia ao seu aparecimento), que sobre eles projetamos, chama-se fenómeno6; o que o objeto é em si mesmo (e que Kant denominou númeno) nós não podemos conhecer. É isto que se passa na sensibilidade, o primeiro patamar do edifício kantiano do conhecimento, e é por ele que, naturalmente, começa a Crítica. O segundo patamar, que analisaremos de seguida, é o entendimento; o terceiro e último patamar, que abordaremos mais à frente, é a razão7.

Visto o que se passa na sensibilidade, é preciso prosseguir para dizer que a sensibilidade não atua sozinha. Se nós tivéssemos apenas sensibilidade, em pouco nos distinguiríamos dos outros animais, os objetos do mundo sensível quedar-se-iam dispersos e desordenados, porque estaríamos privados do entendimento. Como já deu para entender, é o entendimento (perdoe-se-nos uma vez mais o trocadilho fácil), que regulamenta e legisla sobre a multiplicidade do mundo. O entendimento faz parte da capacidade intelectual específica dos seres humanos. Ele encerra, em conjunto com a sensibilidade e através das suas categorias de quantidade, qualidade, relação e modalidade8, os objetos da intuição sensível numa unidade percetiva, os quais, sem esta unificação, permaneceriam dispersos. Pode dizer-se que nós impomos as leis do entendimento à natureza e esta capacidade é independente (a priori) da experiência, isto é, não depende da observação do que se passa na natureza, antes lhe impõe uma certa visão. Só assim se explicam ciências como a Matemática e a Física. Esta capacidade de impor regras aos objetos (a célebre “revolução copernicana”) foi apresentada no Prefácio à segunda edição da Crítica da seguinte forma: Tentemos, pois, uma vez, experimentar se não se resolverão melhor as tarefas da metafísica, admitindo que os objetos se deviam regular pelo nosso conhecimento, o que assim já concorda melhor com o que desejamos, a saber, a possibilidade de um conhecimento a priori desses objetos, que estabeleça algo sobre eles antes de nos serem dados. Trata-se aqui de uma semelhança com a primeira ideia de Copérnico; não podendo prosseguir na explicação dos movimentos celestes enquanto admitia que toda a multidão de estrelas se movia em torno do espectador, tentou se não daria melhor resultado fazer antes girar o espectador e deixar os astros imóveis9.

Muito bem. Resta-nos abordar o último patamar do edifício kantiano do conhecimento: a razão. Tínhamos visto já que Kant divide o objeto entre fenómeno e númeno. Ora, se a sensibilidade juntamente com o entendimento tratam dos fenómenos, a razão, por seu turno, trata de ideias transcendentes, as coisas em si e não dos fenómenos; como escreve Kant: os conceitos da razão servem para conceber, assim como os do entendimento para entender (as percepções)10. Assim, a razão pura nunca se refere directamente a objectos, apenas aos conceitos que o entendimento tem desses objectos11. Estamos, como já se deve ter percebido, no campo espinhoso da Metafísica. E, para que não restem dúvidas, Kant delimita com exatidão o campo da Metafísica, escrevendo o seguinte: a Metafísica tem como objeto próprio da sua investigação apenas três ideias: Deus, a liberdade e a imortalidade, de tal modo que o segundo conceito, ligado ao primeiro, deve conduzir ao terceiro, como conclusão necessária12. Kant percebe que a razão humana precisa remontar à origem de todas as coisas, à unidade absoluta, precisa saber o que originou o universo, e conceber um ser indeterminado e necessário que seja a causa primeira e motor de toda a determinação no mundo, o Ser supremo, enfim, admitir a existência de Deus. No entanto, a crítica de Kant à metafísica tradicional (dogmática ou cética) vai mostrar a impossibilidade racional de provar a existência de Deus13, precisamente porque todos os princípios sintéticos do entendimento são de uso imanente e para o conhecimento de um Ser supremo requere-se o seu uso transcendente, para o qual o nosso entendimento não está equipado14. Em suma, a razão especulativa, sem o apoio da experiência, entra em conflito com ela própria, pisa um terreno movediço que a impede de progredir, pois não é capaz de formar, por meio de ideias, nenhum juízo sintético que tenha validade objectiva15.

Mas as ideias são inevitáveis para a razão, como os conceitos o são para o entendimento e os fenómenos para a sensibilidade. As ideias da razão, embora inconsequentes na vertente especulativa, podem constituir princípios válidos, aliás, necessários, no campo prático, ou seja, nesse importante ramo da Filosofia que se chama Ética. Este campo fértil para a razão não foi explorado por Kant no livro analisado neste artigo, mas seria objeto de uma obra importantíssima, posterior, a Crítica da Razão Prática.

Para concluir, diríamos que há dois aspetos em que a crítica de Kant se mostra incrivelmente certeira. O primeiro tem que ver com a sua convicção de que é o entendimento humano que impõe as suas regras à natureza (a “revolução copernicana”) e não o inverso. De facto, toda a ciência moderna se baseia na formulação de hipóteses (teorias), que procuram ajustar-se ao comportamento da natureza, e que esta confirma (ainda que provisoriamente) ou desmente quando submetida à experimentação (em sentido lato). Mas a iniciativa é sempre nossa16, somos nós a “fonte das leis da natureza”17. O segundo tem a ver com a Metafísica. De facto, como Kant demonstrou, a razão pura especulativa, sem o apoio da experiência, não pode conhecer o transcendente18. Os limites da razão pura ficaram bem estabelecidos. O aspeto mais difícil de analisar prende-se com o espaço e o tempo. Terá Kant razão (parcial ou completa) ao afirmar que o espaço e o tempo pertencem à nossa intuição e nada representam fora de nós? A evolução da ciência, particularmente a teoria da relatividade de Einstein (Einstein, que estudou a obra de Kant),  parece reconduzir o espaço e o tempo (em Einstein, o espaço-tempo) à sua condição de “absolutos” (fora de nós). E dizemos “parece” porque, ainda assim, continuamos a ser nós os sujeitos-autores das teorias sobre o espaço e o tempo, e não é fácil assegurar que estes tenham realidade exterior (uma coisa é certa: se não existíssemos não haveria espaço nem tempo, pelo menos para nós). Estaremos aqui, afinal, perante uma nova antinomia, que Kant não previu? Tese: o tempo e o espaço são intuições nossas; Antítese: o espaço e o tempo são absolutos e independentes da nossa existência. Ou ambas as hipóteses têm algo de verdade?

Já nos referimos, no início deste artigo, ao difícil estilo de Kant, que embora possa justificar-se pela complexidade dos temas tratados19, configura, em nosso entender, um aspeto negativo. O outro é o seguinte. Kant foi notoriamente influenciado pela mecânica celeste de Newton. Esta descrevia perfeitamente o movimento dos astros, de acordo com forças universais. Kant convenceu-se da verdade absoluta da teoria de Newton e tornou-se um determinista: o nosso entendimento podia impor à natureza leis a priori necessariamente verdadeiras. Ora, Einstein, ao aperfeiçoar a teoria de Newton, introduzindo o conceito de espaço-tempo curvo, veio mostrar que não existem teorias absolutamente verdadeiras; que as teorias científicas podem sempre ser melhoradas. Por outro lado, o considerado idealismo de Kant – apesar de refutado pelo próprio numa segunda edição da Crítica20 – abriu portas a excessos e abusos, desde Fichte e Hegel, ainda seus contemporâneos, aos irracionalistas de hoje. Quanto a isto, não podemos, obviamente, atribuir responsabilidades ao ilustre filósofo de Konigsberg.

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Notas:

1 Este estilo, tão típico dos autores alemães, constitui talvez o motivo mais justo de crítica à doutrina de Kant, ou melhor, à forma como ela é apresentada.

2 Entre esses documentos destacam-se a carta a Marcus Herz, de 21 de fevereiro de 1772 (editada em Portugal, juntamente com a Dissertação de 1770, pela Imprensa Nacional Casa da Moeda – a edição que temos, a segunda, revista, é de 2004), e a carta a C. Grave, de 21 de setembro de 1798, onde Kant afirma: “foram as antinomias que primeiro me despertaram do meu sono dogmático e me conduziram à crítica da razão” (citação retirada de Conjecturas e Refutações, de Karl Popper, Editora Almedina, 2003, p. 244).

3 Karl Popper, por exemplo.

4 Na carta a Marcus Herz, já referida em nota anterior, Kant refere que fez “então o plano para uma obra que poderia ter mais ou menos o título: Os limites da sensibilidade e da razão.

5 As quatro antinomias são as seguintes.

  • Primeira antinomia. Tese: O mundo tem um começo no tempo e é também limitado no espaço. Antítese: O mundo não tem nem começo nem limites no espaço; é infinito tanto no tempo como no espaço.
  • Segunda antinomia. Tese: Toda a substância composta, no mundo, é constituída por partes simples e não existe nada mais que o simples ou o composto pelo simples. Antítese: Nenhuma coisa composta, no mundo, é constituída por parte simples, nem no mundo existe nada que seja simples.
  • Terceira antinomia. Tese: A causalidade segundo as leis da natureza não é a única de onde podem ser derivados os fenómenos do mundo no seu conjunto. Há ainda uma causalidade pela liberdade que é necessário admitir para os explicar. Antítese: Não há liberdade, mas tudo no mundo acontece unicamente em virtude das leis da natureza.
  • Quarta antinomia. Tese: Ao mundo pertence qualquer coisa que, seja como sua parte, seja como sua causa, é um ser absolutamente necessário. Antítese: Não há em parte alguma um ser absolutamente necessário, nem no mundo, nem fora do mundo, que seja a sua causa. (Pp. 392-418 da nossa edição – ver fim do artigo).

6 De facto, é perfeitamente concebível um ser, diferente dos humanos, que apreenda dos objetos “fenómenos” diferentes dos que nós, com a nossa especificidade, apreendemos.

7 “O entendimento constitui um objecto para a razão, do mesmo modo que a sensibilidade para o entendimento” (p. 547).

8 A lista de todos os conceitos puros da “síntese que o entendimento a priori contém em si” (p. 111), constante da “Tábua das Categorias” é a seguinte: 1. De quantidade: unidade, pluralidade, totalidade; 2. Da qualidade: realidade, negação, limitação; 3. Da relação: inerência e subsistência, causalidade e dependência (causa e efeito), comunidade (acção recíproca entre o agente e o paciente); 4. Da modalidade: possibilidade-impossibilidade, existência – não-existência, necessidade-contingência (pp. 110-111).

9 P. 20.

10 p. 307.

11 p. 322.

12 p. 323.

13 Kant mostra a impossibilidade das provas físico-teológica, cosmológica e ontológica (a mais importante) da existência de um ser único originário como Ser supremo (pp. 499-524).

14 p. 528.

15 p. 595.

16 Nem sempre é devidamente realçada, parece-nos, esta solução kantiana. Tendo em conta a época em que foi formulada, e o entendimento que se tinha do método científico, trata-se realmente de uma “revolução”.

17 p. 170.

18 Curiosamente, acabáramos de ler a autobiografia de Charles Darwin, imediatamente antes de trabalharmos neste artigo (Autobiografia, Charles Darwin, Relógio D’Água, 2004). Darwin, que foi crente durante parte significativa da sua vida, afastou-se gradualmente da religião: “O mistério do início de todas as coisas é insolúvel para nós; e por mim contento-me em permanecer Agnóstico” (ob. cit. nesta nota, p. 84). 

19 O próprio Kant tinha consciência desta dificuldade. Em carta a Mendelssohn, de 16 de agosto de 1783, Kant afirma ter posto “grande atenção no conteúdo, mas pouco cuidado na forma e em tudo o que respeita à fácil intelecção do leitor” (citado no Prefácio da Tradução Portuguesa da “nossa edição”).

20 Kant acrescentou, na segunda edição da Crítica, publicada em 1787, uma “Refutação do Idealismo”, onde procura demarcar-se do “idealismo problemático de Descartes” e do “idealismo dogmático de Berkeley”, afirmando que “temos também experiência e não apenas imaginação das coisas exteriores” (p. 243).

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A nossa edição:

Crítica da Razão Pura, Immanuel Kant, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1985.

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Foto retirada de:

https://bluelabyrinths.com

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Palácio de Estoi

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O Algarve não é só mar e serra, não tem somente belezas naturais. Entre as inúmeros exemplos do magnífico património edificado algarvio, temos de considerar o belíssimo palácio de Estoi.
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Virado para o jardim, para o mar e para o Sul, o Palácio de Estoi é um belo edifício para fotografar ao fim do dia, em qualquer época do ano, quando as cores ficam mais puras.
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E não são apenas os materiais inertes que vale a pena fotografar. A atmosfera cinematográfica enquadra muito bem os seres vivos fotogénicos, que aqui parecem (e são) ainda mais belos.

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Ideologia/Religião versus Ciência/Filosofia

Há quem pense que pode perfilhar uma filosofia segundo os mesmos critérios com que adota uma ideologia qualquer. Mas há aqui uma diferença radical. Como o termo indica, “ideologia” vem de “ideia”, e as nossas ideias são subjetivas, dependem das influências ambientais e culturais que se exercem em cada um de nós, bem como dos nossos sonhos, das nossas esperanças e aspirações. Já a Filosofia, no que toca ao conhecimento, parte sempre da realidade e a ela sempre regressa, pois só no real pode haver uma aproximação objetiva à verdade, e em mais lado nenhum. É por isso que não pode haver uma Filosofia digna desse nome sem Ciência, pois uma e outra colaboram na busca da verdade, ainda que esta, na sua plenitude, seja inatingível: as ciências experimentais laborando nas suas quase infinitas ramificações e especializações, e as teóricas buscando a sistematização, a unidade, a teoria, a fórmula matemática ideal; a Filosofia investigando como evolui a Ciência, quais os seus limites, qual o seu método, que validade tem, como é ela possível, que consequências acarreta. Essa relação ocorre entre a Teoria da Gravitação de Newton e a filosofia de Kant ou entre a Relatividade de Einstein e a filosofia de Popper. Filosofia e Ciência são indissociáveis.

As ideologias, pelo contrário (e embora alguns as queiram elevar ao estatuto de “científicas”), têm pouco a ver com ciência e muito mais com religião. O seu caráter profético retira-lhes a componente de incompletude inerente a qualquer ciência, e aproxima-as das crenças religiosas. Mais: como a verdade da ideologia (e da religião) é ou evidente ou revelada ou “científica”, ela contrasta com a verdade da ciência, que é aproximativa, provisória e incerta. Cientistas e filósofos têm consciência da sua ignorância. Ideólogos e profetas, não. Claro que há muitos ideólogos com estatuto de “filósofos”, e isso só tem contribuído para aumentar quer a confusão entre ideologia e filosofia, quer o número de crentes (os discípulos) e de oportunistas (os profetas).

“Filosofia”, como todos sabem, quer dizer “amizade à sabedoria”. Ora, não há sabedoria sem racionalidade; e não há nenhuma área do conhecimento humano mais racional que a Ciência, pois esta baseia-se na objetividade do mundo e não na subjetividade das mentes, embora uma e outra sejam necessárias para haver conhecimento. E o (pouco ou muito, é difícil de dizer) que o mundo nos revela é o seguinte: quanto mais problemas vamos solucionando, muitos mais problemas novos se nos deparam. Daí, termos de reconhecer que, apesar de nossos imensos esforços e extraordinárias conquistas científicas e técnicas, somos, relativamente às questões fundamentais, absolutamente ignorantes. Eis a razão da impopularidade dos filósofos em contraste com profetas e ideólogos: o sacrifício das boas intenções em prol da realidade.

E não deixa de ser verdade que personalidades como Platão, Maomé e Marx estão mais próximos da categoria de “ideólogos-profetas” enquanto outras como Kant, Einstein e Popper estão mais próximos da de “cientistas-filósofos”. Os primeiros mostram-nos o suposto caminho da verdade e os segundos incitam-nos a procurar esse caminho, advertindo-nos que (mesmo que o encontremos) provavelmente não chegaremos ao seu termo, mas mostrando-nos a razão pela qual, ainda assim, vale a pena continuar caminhando.

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Foto retirada de iainews.iai.tv

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A Queda dos Machos

ionline.sapo.pt
Pio Abreu, um psiquiatra politicamente incorreto.

Não podemos generalizar. Mas no que toca ao mundo socialmente mais desenvolvido – e quanto à igualdade de género, Portugal é um país relativamente desenvolvido – as mulheres têm ganhado cada vez mais poder. São a maioria nas faculdades, nos tribunais, nas redações, etc. E embora estejam ainda em larga minoria nos lugares de topo, dominam em todo a linha as chefias intermédias (Pio Abreu acredita que aí reside o verdadeiro poder). Este movimento de emancipação e domínio femininos iniciou-se a partir do surgimento da pílula, nos anos sessenta do século passado, e pode dizer-se, sem risco de errar, que a pílula libertou a mulher. O reverso da medalha é que esta rápida mudança deixou muitos homens perdidos, sem capacidade de adaptação.

O antagonismo entre biologia e cultura foi acentuado pela emancipação da mulher. Verificou-se um afastamento crescente entre ambas, percecionável pelo protagonismo excessivo e crescente das ciências humanas (onde as mulheres são maioritárias) relativamente às suas homónimas naturais. Ora, este afastamento não é benéfico. Provoca tensões, antagonismos, radicalismos e, nos homens, muita insegurança relativamente à sua identidade heterossexual (obviamente, quando é o caso). Isso é notório nos jovens de hoje (mas não só), cada vez mais perdidos em relacionamentos virtuais ou, pura e simplesmente, indiferentes ao sexo (sobretudo ao sexo oposto), como mostra uma pesquisa realizada no Japão em 2015. Mais de 40% dos jovens japoneses entre os 18 e os 34 anos não tinha tido ainda relações sexuais[1].

Esta questão identitária é deveras importante[2].  A integração numa família, num círculo de amigos, num país, numa cultura, etc., são partes constitutivas da nossa identidade. E também existe, obviamente, uma identidade de género. Ora, o que acontece é que essa identidade, no que toca à masculinidade, está posta em causa. “Existe actualmente toda uma cultura, difundida pelas universidades, que, por um lado, pretende a abolição da identidade de género, mas por outro propõe várias outras identidades, incluindo lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros e, evidentemente, feministas, mas onde não se pode falar de machistas, contra os quais todos se opõem”[3].

É precisamente essa identidade de “homem masculino heterossexual” que Pio Abreu assume neste livro, contra o “mainstream cultural” do presente, representativo, em sua opinião, de uma sociedade “enferma”, cujos indícios dificilmente se podem ignorar: a baixa natalidade (metade de há 30 anos), o isolamento dos idosos, a fraqueza dos laços familiares, a instabilidade das relações, amorosas ou de outro tipo qualquer. As manifestações de histeria (e a histeria não tem género, a não ser na gramática) a propósito da recente “revolta” de algumas vedetas puritanas em Hollywood tornam a posição de Pio Abreu e este seu livro ainda mais atuais.

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Notas:

[1] https://g1.globo.com/mundo/noticia/por-que-os-jovens-japoneses-estao-cada-vez-menos-interessados-em-sexo.ghtml.

[2] “Os grande problemas do mundo contemporâneo, senão todos os problemas humanos, têm a ver com a identidade. É por ela que se vive, se mata e se morre” (p. 14).

[3] p. 16.

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Foto retirada de: ionline.sapo.pt

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A nossa edição:

“A Queda dos Machos”, J. L. Pio Abreu, Dom Quixote, Alfragide, 2016.

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O Cérebro Idiota

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A faceta humorística do neurocientista Dean Burnett transparece em cada página de Idiot Brain.

Certamente não será novidade afirmar que o cérebro é um órgão extremamente complexo. Afinal, é “como um rolo de luzinhas da árvore de Natal do tamanho do universo conhecido”. A sua história é também muito antiga, remonta pelo menos ao tempo dos répteis, a avaliar pela designação de uma das suas partes mais importantes: “o cérebro reptiliano”, responsável, por assim dizer, pelas funções básicas e de manutenção. Em contrapartida, o neo-cortex assegura as suas funções mais ativas (e mais recentes), como a atenção, a consciência, a perceção, o racíocínio, etc.

A colaboração entre estas partes do cérebro – uma muito antiga e outra relativamente mais recente – nem sempre é a melhor, e essa é uma das duas grandes razões do “comportamento” estranho que, na expressão de Burnett, torna o nosso “cérebro idiota”. A outra grande razão, ligada à anterior, deve-se à diferença de ritmos, verificada nos últimos milénios, entre os hábitos dos humanos – que mudaram muito rapidamente, graças à cultura – e o seu cérebro que, em termos evolutivos, se mantém inalterável.

Por outro lado, como é evidente, o cérebro não trabalha sozinho. Faz parte, com a espinal medula, do sistema nervoso central e conta com a colaboração do sistema nervoso periférico (somático e autónomo) para manter os nossos corpos em correto funcionamento. É esse funcionamento, controlado pelo sistema nervoso, e em última análise pelo cérebro, que é analisado neste livro. E, claro, as suas falhas. O último capítulo é dedicado, precisamente, aos colapsos cerebrais: as depressões debilitantes, o Alzheimer, os distúrbios psicóticos. E apesar de tudo, para lá da ironia adjacente ao título da obra, podemos retirar-lhe a conclusão de que o nosso cérebro, pese embora os desajustes, é uma máquina maravilhosa, sobre cujo funcionamento temos ainda muito que aprender. O cérebro condenado à autoanálise.

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Foto retirada de: http://www.cbc.ca

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A nossa edição:

Dean Burnett, O Cérebro Idiota, Editorial Presença, Lisboa, 2017.

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Armas, Germes e Aço

jared diamond
Jared Diamond tem uma larga experiência académica e também junto de comunidades remotas, nomeadamente na Nova Guiné.

Por que razão o mundo está estruturado (grosso modo) desta maneira: um Ocidente desenvolvido, uma parte do Oriente em desenvolvimento e um “terceiro mundo”, em África? As razões prendem-se quase exclusivamente com questões ambientais, e muito pouco com a genética. Há razões climáticas, geográficas, demográficas, geológicas, para que as primeiras civilizações tivessem nascido numa determinada zona do globo (Mediterrâneo e Levante) e, por isso, permitissem que os povos da Eurásia tivessem ganhado uma vantagem inicial, importante e significativa, relativamente a povos de outras zonas (como a Austrália, o continente africano ou as Américas). Essa vantagem inicial veio a refletir-se na colonização moderna. Não foi por acaso que os povos da Eurásia colonizaram outros povos, dando origem à globalização, em vez de ocorrer o inverso.

Civilizações avançadas, como os aztecas ou os incas, foram exterminadas por um punhado de europeus porque, além de não possuírem armas de fogo, estavam indefesas relativamente a armas muito mais mortíferas – os vírus de doenças epidémicas, como as varíola e sarampo, aos quais os europeus eram imunes. Porquê? Porque já tinham sido vítimas de vírus do mesmo tipo e ganhado imunidade (pelo menos até que uma nova estirpe surgisse). Na verdade, os povos da Eurásia reuniram as duas condições básicas para que tal tivesse acontecido: a) convívio com animais domesticados dos quais receberam os vírus; b) populações suficientemente grandes para que, apesar de uma percentagem muito grande de mortes, muitos, ainda assim, ganhassem imunidade.

E este convívio com os animais só foi possível porque na Eurásia existiam espécies domesticáveis (ao contrário do que as pessoas podem pensar, a maioria não o é), na fauna local, mas também na flora, o que não ocorria em outras zonas do globo. A Eurásia tinha também (ainda tem, mas isso hoje é irrelevante) outra vantagem relativamente aos restantes continentes: estende-se em longitude e não em latitude como acontece em África e na América (onde existem diferenças climáticas extremas, desde o Equador aos Pólos). Essa extensão longitudinal, permitiu que as deslocações humanas se realizassem com maior facilidade e, através delas, o intercâmbio e a difusão, não apenas de produtos materiais, mas, o que é mais importante, de conhecimentos científicos e técnicos.

Diamond conclui, assim, que as diferenças de desenvolvimento se prendem com as vantagens e desvantagens iniciais determinadas pelo ambiente, num período histórico de grande transformação (agricultura–> sedentarização–> crescimento e concentração populacionais–> cidades–> cultura) e não com quaisquer diferenças entre as potencialidades genéticas de povos ou raças, as quais, em termos cognitivos, são insignificantes. E esta talvez seja a principal conclusão deste excelente livro (vencedor de um Prémio Pulitzer, em 1998) do não menos excelente Jared Diamond.

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A nossa edição:

Jared Diamond, Armas, Germes e Aço – Os Destinos das Sociedades Humanas, Editora Temas e Debates – Círculo de Leitores, 1ª edição, Lisboa, 2015.

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Sapiens, de Animais a Deuses

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A ciência será talvez a arma com a qual a nossa espécie provocará a sua própria destruição. Eis a inquietação principal subjacente a este livro de Yuval Harari.

Yuval Noah Harari é um académico e historiador israelita que, na esteira de Jared Diamond, aborda a história humana de uma perspetiva holística, reunindo conhecimento de várias ciências, como a biologia, a sociologia, a economia e a psicologia evolutiva, entre outras. É isso que faz em Sapiens, Uma Breve História da Humanidade, a sua obra mais conhecida (um bestseller), não incluindo, porém, no vasto leque de disciplinas, aquela que poderia “colar” todas as outras num todo homogéneo: a filosofia (particularmente, a filosofia da ciência, ou epistemologia, sem a qual, dificilmente, qualquer obra que reúna várias ciências poderá constituir uma unidade). Temos, pois, um conjunto de informações, algumas de indiscutível interesse (e que, sem dúvida, revelam a erudição do autor), e uma linha pessimista, bastante popular, que acredita na degenerescência humana, desde os tempos da chamada “Revolução Cognitiva” até os dias de hoje. O futuro do novo e autocriado “homem-deus” apresenta-se, assim, sombrio.

Resumamos, em breves pontos, as informações e interrogações de Harari.

  1. Os biólogos organizam os organismos em espécies; as espécies são reunidas em géneros[1]; e os géneros são englobados em famílias[2]. Dois animais pertencem à mesma espécie se tenderem a acasalar entre si, dando origem a crias férteis. Neste sentido, o homo sapiens é uma espécie única, mas isto é assim apenas desde há cerca de 10 mil anos. Antes disso havia mais espécies humanas (o verdadeiro significado de “humano” é o de “espécie pertencente ao género Homo“), como por exemplo, os neandertais, os desinovas, os ergasteres, os solensis ou os erectus. O conhecimento científico atual aponta para que os sapiens tenham exterminado as outras espécies homo, apesar de uma percentagem muito pequena de misturas. Depois, uma mutação terá impossibilitado a reprodução entre o sapiens e os outros homo.
  2. Uma das principais características da nossa espécie é a criação de mitos[3]. Essa criação de mitos – de ficções – permitiu-nos fazer revoluções culturais, provocando alterações sociais profundas, só possíveis às outras espécies através de alterações genéticas ou ambientais. O sapiens, através da cultura, ultrapassou a genética. A capacidade ficcional, por sua vez, permitiu aos sapiens colaborarem entre si. Os mitos e os símbolos são o motivo pelo qual milhares ou mesmo milhões de sapiens se reúnem num mesmo local. Isso não acontece com qualquer outra espécie. Esta cooperação entre os seres humanos é fundamental para o avanço científico, tecnológico, político, social, cultural, e constituiu a base da chamada Revolução Cognitiva, iniciada há cerca de 70 mil anos. Depois disso deu-se a Revolução Agrícola, há 12 mil anos; a Revolução Industrial, há 500 anos; e estamos a viver hoje em plena Revolução Científica (digital, genética, etc.).
  3. Antes da Revolução Agrícola éramos caçadores-recoletores. Os psicólogos evolutivos acham que a nossa mente atual se formou nesse período. É por isso que devoramos alimento doces e gordurosos, uma praga nos tempos modernos, mas que constituía o único meio de sobrevivência, além da caça, nos tempos de recoleção: ficou gravado nos nossos genes o instinto de devorar alimentos calóricos. Há também psicólogos evolutivos que acreditam que a nossa tendência para a poligamia se deve ao facto de as sociedades primitivas crerem que as mulheres eram fertilizadas por vários homens e que as crianças podiam nascer com as melhores qualidades de cada um deles. Para estes cientistas, proponentes da “comuna ancestral”, as nossas famílias monogâmicas são incompatíveis com o software biológico que carregamos. Outros académicos rejeitam veementemente esta teoria, frisando que a nossa tendência para a monogamia, uma das mais importantes características humanas, é praticamente universal.
  4.  O sapiens-recoletor tinha um vasto conhecimento sobre o ambiente em que vivia, muito mais que o sapiens atual. Existem provas de que o tamanho médio do nosso cérebro diminuiu desde os tempos da recoleção. Fisicamente, éramos também mais dotados que atualmente. Hoje em dia, dado que passámos a depender muito mais da capacidade dos outros, formam-se novos “nichos de imbecis”, com a transmissão de genes banais à geração seguinte. Os recoletores tinham uma dieta mais rica e variada que os seus descendentes agrícolas. Tinham também menos doenças infecciosas, pois estas surgiram apenas com a domesticação de animais, depois de se iniciar a revolução agrícola. O único animal domesticado nos tempos da recoleção era o cão.
  5. Os recoletores eram animistas, mas pouco mais podemos saber sobre as suas mentes. Interpretações sobre artefactos e pinturas rupestres revelam mais os preconceitos dos cientistas do que a realidade. Esta é uma importante lacuna na nossa compreensão da história humana. Seriam os recoletores pacíficos ou violentos? O mais provável é que a resposta dependa do local e da época, mas, na verdade, não se sabe. Há uma cortina de silêncio que nos separa desses 60 mil anos de história humana, anteriores à Revolução Agrícola.
  6. Só a partir da Revolução Cognitiva é que os seres humanos saíram da região afro-asiática. A primeira grande travessia marítima foi até a Austrália, há cerca de 45 mil anos, a partir da Indonésia. O momento em que os caçadores-recoletores pisaram pela primeira vez uma praia australiana, foi quando o homo sapiens subiu ao último patamar da cadeia alimentar, tornando-se, a partir daí, a espécie mais mortífera do planeta. A fauna australiana era constituída por animais de grande porte, sobretudo mamíferos, mas o sapiens conseguiu destruí-la em 90%. O mesmo aconteceu na Nova Zelândia, há 800 anos, quando os maoris, os primeiros colonizadores sapiens, chegaram à ilha; ou quando os primeiros sapiens chegaram à ilha de Wrangel, no Ártico, há 4.000 anos, e exterminaram os mamutes.
  7. Os registos históricos indicam que o homo sapiens é, em termos ecológicos, um homicida em série, tal como provou, igualmente, na América, o último continente colonizado, e por todo o lado. E isto aconteceu em todos os períodos históricos, sobretudo nas áreas terrestres. No entanto, hoje em dia também os grandes animais marinhos se encontram em perigo, graças à ação humana. É duvidoso que baleias, golfinhos, algumas espécies de tubarões e outros animais marinhos escapem à extinção.
  8. A agricultura terá começado entre 9.500 e 8.500 a.C. na zona que corresponde ao atual Sudeste da Turquia, o Oeste do Irão e do Levante, e, mais tarde, de forma independente, noutros locais. Houve zonas do globo onde a agricultura não vingou naquela época, nomeadamente na Austrália e na África do Sul, simplesmente porque há plantas e animais (na verdade, a maioria) que não são domesticáveis. Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, a agricultura não trouxe uma maior qualidade de vida, apesar do aumento da produção de alimentos (sobretudo, trigo) e do exponencial aumento da população. A sedentarização não constituiu, por si só, uma vantagem, e a dieta do sapiens tornou-se mais pobre, embora mais abundante. As colheitas ficaram sujeitas a epidemias e a espécie humana também, sobretudo devido ao convívio com os animais domésticos. Não houve, assim, um salto qualitativo com a passagem da sociedade recoletora para a sociedade agrícola. E hoje já se sabe, com a descoberta das estruturas de Göbekli Tepe, no Sudeste da Turquia, que algumas sociedades recoletoras tinham culturas complexas e sistemas religiosos ou ideológicos sofisticados.
  9. Do ponto de vista dos animais, a sua vida a partir da Revolução Agrícola foi uma catástrofe. Embora nunca tenha havido um número tão grande de galinhas (25 mil milhões), bois, porcos e ovelhas como hoje, a verdade é que a vida destes animais é um verdadeiro inferno. O mesmo se passa com os animais de carga, cujos instintos naturais tiveram que ser quebrados para possibilitar a domesticação. A Revolução Agrícola marca o início de um período extremamente controverso; há quem defenda que colocou a humanidade no caminho do progresso, e outros dizem que a conduziu à perdição.
  10. A Revolução Agrícola, permitiu a sedentarização, a criação de grandes urbes e os impérios. O primeiro grande império foi o acadiano, forjado por Sargão, o Grande, em 2.250 a.C.; só depois, entre 1.000 a.C e 500 d.C, terão surgido os mega-impérios do Médio Oriente: o Império Assírio tardio, o Império Babilónico e o Império Persa. Em 221 d.C. a dinastia Qin uniu a China e, pouco depois, Roma unificava a bacia do Mediterrâneo. Os mitos sustentavam estes impérios. O exemplo de um mito é o Código de Hammurabi, de há cerca de 1776 a.C., quando a Babilónia era a maior cidade do mundo, juntamente com o seu império (Irão, Iraque e Síria atuais). Outro, a Declaração de Independência americana, de 4 de julho de 1776. Os mitos passaram a difundir-se com uma eficácia muito maior a partir da invenção da escrita.
  11. Tudo começou com os números sumérios. Depois desenvolver-se-iam as escritas cuneiforme (na Mesopotâmia) e hieroglífica (no Egito), e outras na China e na América Central. No entanto, a especialização tornou a linguagem matemática a mais universal, após os árabes inventarem os números de 0 a 9 que, na verdade, haviam descoberto na Índia.
  12. Parece haver um sentido para a História, pelo menos a avaliar o que tem acontecido no passado, ou seja, uma tendência para a unificação. Praticamente já não existem sociedades isoladas; há uma tendência clara para a globalização (iniciada pelos euroasiáticos – mas também por partes do Norte de África), como por exemplo, as viagens do tangerino Ibn Battuta, ainda no século XIV. Hoje em dia, a maioria dos seres humanos partilham os mesmos sistemas geopolítico e económico, legal e científico. Isto nasce, talvez, de uma peculiar faceta humana: dar-se com estranhos, cooperar, ter uma noção da espécie, da humanidade. Isto só foi possível após deixarmos de considerar aqueles que pensam de forma diferente da nossa como bárbaros.
  13. Foi no primeiro milénio antes de Cristo que surgiram três ordens potencialmente universais: monetária (económica), imperial (política) e religiosa. Os primeiros unificadores foram os mercadores, os conquistadores e os profetas. Mas o que unificou a humanidade, acima de todas as coisas, foi o dinheiro. A tendência é para o dinheiro ser cada vez mais imaterial, um mero registo num servidor de um banco. O dinheiro físico (em papel) não representa mais do que 10% (10 biliões de dólares) do total (60 biliões) em circulação. O dinheiro virtual será o futuro e um bom exemplo é o bitcoin. “O dinheiro é o mais universal e eficiente dos sistemas de confiança mútua alguma vez criados”. A primeira moeda que, de alguma forma, se assemelha ao conceito de moeda que temos hoje em dia foi criada na antiga Mesopotâmia – o shekel de prata – que, de facto, não era uma moeda mas, simplesmente, 8,33 gramas de prata. Só por volta de 640 a.C. apareceram as primeiras moedas cunhadas, no reino de Aliates da Lídia, na Anatólia Ocidental. Todas as moedas hoje existentes são descendentes destas moedas da Lídia.
  14. Depois da moeda, o maior fator de união entre os povos foram os impérios. “A maior parte da população mundial nos últimos 2.500 anos viveu sob um império”. Há uma certa aversão à palavra “império”, talvez apenas “fascista” a supere em negatividade. Mas isto é injusto e não corresponde à realidade. Imperadores generosos, como Ciro, preocupavam-se genuinamente com o povo. Além disso, os impérios são, sem dúvida, mais integradores que os estados-nação, e opõem-se de múltiplas formas ao nacionalismo. A visão de Ciro foi passada para Alexandre, o Grande, e para vários imperadores romanos, entre outros. Na China, os períodos de fragmentação política eram vistos como idades das trevas, de caos e injustiça. Parece já ter começado um império global onde dominarão padrões mundiais de comportamento financeiro, políticas ambiental e de justiça. Crescentes correntes de informação, trabalho e capitais circulam já pelo mundo, indiferentes a fronteiras e estados.
  15. Além do dinheiro e dos impérios, a religião tem sido, também ela, um fator de união da humanidade. Ou desunião. As religiões monoteístas revelar-se-iam bem menos tolerantes (em geral) que as suas antecessoras politeístas e, antes destas, animistas. Há também que considerar, ainda hoje, alguns resquícios de religiões dualistas (o duelo entre as duas forças universais – Bem e Mal), sobretudo a veiculada pelo profeta Zaratustra, entre 1500 e 1000 a.C. Existem, depois, as religiões baseadas nas leis da Natureza, sendo destas a mais conhecida, o Budismo. E, claro, as religiões não-teístas, como o marxismo e outras religiões “humanistas” como o liberalismo e o nazismo (o “humanismo evolutivo”)[4].
  16. Até à Revolução Científica, a maioria das culturas não acreditava no progresso; achavam que a idade de ouro se encontrava no passado. Hoje não é assim: há uma confiança desmedida nas possibilidades científicas e técnicas (áreas que até há uns meros 300 anos estavam separadas), sendo o projeto mais ambicioso o chamado “Projeto Gilgamesh”, através do qual, supostamente, o homem atingirá a eternidade. Mas como foi possível chegarmos a este ponto? Através da combinação, na Europa oitocentista e mesmo antes, de três elementos essenciais: ciência, capitalismo e imperialismo. Os imperialistas levaram a destruição consigo – como foram os casos de Cortés, em relação aos aztecas[5], e Pizarro sobre os incas – mas também o conhecimento: vejam-se os casos dos britânicos Henry Rawlinson e William Jones.
  17. O oficial britânico Henry Rawlinson, enviado para a Pérsia em 1830, haveria de decifrar a escrita cuneiforme e, assim, abrir uma nova luz sobre o mundo antigo. E William Jones, chegado à Índia em 1783, fundou, pouco depois, a Sociedade Asiática, acabando por descobrir, ao estudar o sânscrito antigo, a origem comum das chamadas línguas indo-europeias. Claro que os académicos quiseram saber que povo falava essa língua original; chegaram à conclusão de que os mais antigos falantes de sânscrito, que tinham invadido a Índia a partir da Ásia Central há mais de 3.000 anos, se autodenominavam Arya. O povo que falava essa língua primordial, que dera origem a todas as línguas indo-europeias, era, portanto, o povo ariano. Não demorou muito até que alguns biólogos, sob a influência de Darwin, afirmassem que os arianos eram também uma raça, casando a linguística com a seleção natural. Esse povo “puro”, de indivíduos altos, louros, de olhos azuis, inteligentes e trabalhadores, ter-se-ia, infelizmente, misturado com os indianos e persas, aquando das suas incursões para Sul. Enquanto ali as civilizações indianas e persas declinaram, na Europa, onde a raça ariana se manteve intacta, a civilização progrediu. Os resultados destas teorias são por demais conhecidos…
  18. Se estas questões relacionadas com as raças estão de certa forma ultrapassadas, há que contar, atualmente, com um outro tipo de discurso xenófobo, o “culturalismo”: não são as raças que são superiores ou inferiores, mas sim as culturas. É por isso que a extrema-direita explora o discurso da inadaptação de certos povos aos nossos valores ocidentais (democracia, direitos humanos, liberdade, tolerância, etc.).
  19. Como vimos, a ciência e o capitalismo estiveram na base do imperialismo moderno. E o capitalismo só se desenvolveu porque a ciência trouxe consigo a ideia de progresso, de confiança no futuro. Antes da ideologia capitalista pensava-se que a riqueza era sempre a mesma, apenas mudava de mãos: para uns ficarem mais ricos, outros tinham de ficar mais pobres. Com a confiança no progresso e no crescimento, isto deixou de ser assim. Para alguém ficar mais rico não é necessário que outrém fique mais pobre. A principal característica do capitalismo é o reinvestimento dos lucros da produção em mais produção. Podemos caracterizar esquematicamente da seguinte forma o capitalismo: confiança –> crédito –> crescimento.
  20. Os primeiros grandes especialistas em crédito foram os holandeses. Criaram companhias por ações, como a VOC, no Oriente, e a WIC, no Ocidente[6], as quais só perderam as imensas riquezas quando a Holanda se viu envolvida na “complacência” e em dispendiosas guerras continentais. O lugar vago de motor financeiro da Europa foi então disputado por França e Inglaterra. Face ao comportamento da coroa francesa, bem patente no episódio que ficou conhecido por “A Bolha do Mississipi”[7], quem aproveitou este lugar vago foi a Inglaterra. A decadência francesa, o elevado pagamento de juros, haveria de ser a principal causa da revolução de 1789. Tal como aconteceu como os holandeses, também as colónias britânicas foram financiadas por investidores privados, os quais, mesmo depois das nacionalizações das colónias, quer pelo estado holandês, quer pelo estado britânico, continuaram, na prática, a controlar a situação e a deter a maioria das ações nas bolsas de Londres e de Amesterdão, podendo contar com o Estado para defender os seus interesses.
  21. Exemplos dessa defesa são incontáveis: a Guerra do Ópio (1840-1842), quando a China foi obrigada pela Inglaterra a abrir os seus portos aos comerciantes de droga britânicos e, no final do século XIX, acabou com 10% da sua população viciada no ópio; a invasão do Egito pelos ingleses em 1882, para controlo do Canal de Suez, que durou até depois da II Guerra Mundial; a intervenção da armada britânica na guerra entre gregos e turcos, derrotando os otomanos na batalha de Navarino, em 1827; e tantos outros acontecimentos semelhantes, que reforçaram o papel imperial da Grã-Bretanha no século XIX. Foram, portanto, os próprios Estados que protegeram e difundiram o credo capitalista.
  22. O motor do capitalismo é a confiança no futuro. Mas o que acontecerá quando os recursos do planeta (matérias-primas e energia) se esgotarem?
  23. Antes da Revolução Industrial todos os seres vivos eram abastecidos pela energia solar captada pelas plantas. A grande revolução foi, na verdade, a da conversão da energia, a qual praticamente não conhece limites, a não ser a nossa ignorância. Mas onde a Revolução Industrial mais se fez sentir foi na agricultura, libertando as pessoas da terra e aumentando exponencialmente as produções agrícola e pecuária. O homem começou a selecionar as espécies, privilegiando os animais domésticos e a si próprio, e provocando a extinção de muitas outras espécies. No entanto, as mudanças provocadas pelo homem no planeta poderão conduzir à extinção da sua própria espécie. Será que as grandes transformações provocadas pelo homem têm contribuído para uma maior felicidade humana?
  24. A felicidade não depende de fatores externos a nós, mas da bioquímica de cada indivíduo, dos níveis de serotonina, dopamina e oxitocina. O budismo, porém, vai mais longe: a felicidade não depende fatores externos, mas também não depende de fatores internos. Depende de não buscarmos nada, nem interna nem externamente; de não criarmos qualquer expectativa. No entanto, a busca por uma vida melhor e mais longa levou-nos a usar a engenharia genética, e corremos o risco de transformar o sapiens numa espécie até agora desconhecida, através de tecnologias como a engenharia ciborgue, combinando a vida orgânica com a vida inorgânica. A tecnologia pode levar-nos ao desconhecido, transformando-nos em deuses criadores, algo inimaginável até há muito pouco tempo. É muito duvidoso que estejamos preparados para essa tarefa divina.

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Notas:

[1] O nosso género é o “homo”.

[2] A nossa família é a dos “grandes símios”. Todos os membros de cada família têm um ancestral comum.

[3] Para Yuval Noah Harari, um dos maiores mitos do sapiens, criado já na época capitalista, é a sociedade anónima limitada.

[4] Embora entendamos a intenção de Harari, dado que certas ideologias são verdadeiras religiões criadas pelo Homem, apelidá-las de “humanistas” parece-nos, se não incorreto, pelo menos desnecessário.

[5] E também toltecas e maias.

[6] VOC- Vereenigde Oostindische Compagnie; WIC- West-Indische Compagnie.

[7] A “Bolha do Mississipi” ocorreu em França e constituiu a maior crise financeira na Europa do século XVIII. A Companhia do Mississipi, uma sociedade por ações, fez correr a notícia de que havia riquezas imensas no Vale do Mississipi e rapidamente o preço das ações atingiu níveis astronómicos, formando uma enorme bolha. Quando alguns especuladores perceberam o problema procuraram vender, o que induziu muitos outros a fazer o mesmo. O preço das ações caiu a pique, provocando uma avalanche. Numa tentativa para estabilizar os preços, o banco central francês começou a comprar ações, mas a derrocada total já era inevitável. No fim, as ações perderam todo o valor. Os grandes investidores haviam vendido a tempo, mas o pequenos perderam tudo e muitos suicidaram-se. 

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Foto retirada de youtube.com.

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A nossa edição:

Yuval Noah Harari, Sapiens: História Breve da Humanidade, Editora Elsinore, 9ª impressão, Amadora, 2017.

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Cruzeiro de reposicionamento (Itália, Grécia, Egito, Jordânia, Omã, Qatar, Emirados Árabes Unidos)

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O Splendida, no Dubai, já com os caracteres apropriados à nova temporada na China.

Os cruzeiros de reposicionamento são cruzeiros mais longos (há uma tipologia de cruzeiros com duração ainda mais longa, denominada “volta ao mundo”) e servem para os navios se deslocarem para zonas do globo (por exemplo do Mediterrâneo para as Caraíbas ou vice-versa) onde operam durante alguns meses, normalmente em condições climatéricas (e, claro, económicas) favoráveis à sua atividade. Daí a expressão: reposicionamento. São cruzeiros com menos procura e, por isso, mais baratos (se tivermos em consideração o custo unitário/dia). O principal problema é a época em que se realizam: em geral, quando as pessoas não estão de férias. Mas, desde que se tenha disponibilidade, valem a pena. O cruzeiro que aqui resumidamente relatamos teve origem em Génova, no dia 6 de dezembro, e terminou no Dubai, 18 dias depois, contemplando sete países. Vejamos os principais lugares por onde passámos.

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Génova. Chegámos à cidade de comboio, vindos de Milão. Optámos por um voo de Lisboa para Milão, onde dormimos uma noite, por ser muitíssimo mais barato do que para Génova. Na manhã do dia seguinte visitámos Milão (deu tempo para entrar no Alla Scala e tudo) e depois do almoço partimos para a estação de Génova-Principe, que fica muito perto do porto, pelo que passámos do comboio para o navio a pé. Este partiu já de noite, às 18:00 horas.
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No dia seguinte, às sete da manhã, acostámos em Civitavecchia, onde apanhámos o comboio até Roma (e volta), numa pequena viagem de cerca de uma hora até a estação de Roma-Termini. Estivéramos em Roma há dois anos e encontráramos alguma degradação. A situação agravou-se: a cidade está suja, esburacada, cheia de mendigos e sem-abrigo, pontuada de obras por todo o lado, um tanto ou quanto caótica. Isto está relacionado com a crise dos refugiados, com a qual a Itália (país muito sobrecarregado, a par das Grécia e Turquia), sem uma efetiva política solidária europeia, dificilmente poderá lidar.
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Saímos de Civitavecchia no segundo dia do cruzeiro e chegámos a Heraklion, em Creta, quase dois dias depois, às 12:00 horas do quarto dia. Ficámos apenas seis horas em Heraklion e optámos por vaguear pela cidade. Aqui pudemos captar (pelos menos, assim nos pareceu) o pulsar económico desta mítica ilha mediterrânica: pesca, turismo e serviços. A foto mostra um aspeto curioso das montanhas de Creta, que denominámos “O Homem que Dorme”. Creta – a quinta maior ilha do Mediterrâneo, com mais de 600.000 habitantes – é muito montanhosa e avistámos do navio (que percorreu toda a costa norte da ilha) vários cumes cobertos de neve.
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Um dia depois, já à noite (19:00 horas), chegámos à entrada do Canal do Suez, que percorremos em cerca de 18 horas. No início (descendente) do canal encontra-se a cidade de Port Said e, no final, a cidade de Suez, já em pleno Mar Vermelho. Pelo caminho, vimos pescadores, barcos tradicionais, ferries de transporte entre margens, pontes, postos de patrulhamento, comboios, transeuntes e cidades inteiras, como Ismailia (na foto), a cidade natal de um dos maiores burlões de arte de sempre – Fernand Legros. Os navios passam pelo Suez em comboios alternados, descendentes ou ascendentes, acompanhados por rebocadores e pilotos egípcios, a uma velocidade reduzida para não provocarem o assoreamento do canal.
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No sétimo dia, às 08:00 horas, depois de descermos o Golfo de Suez e subirmos o de Aqaba, chegámos à cidade com este nome, na Jordânia. Cidade imortalizada pela película de David Lean, “Lawrence da Arábia”, na qual se mostra como Thomas Lawrence (22 cms mais pequeno que o igualmente genial Peter O’Toole, que o representou no filme), à frente de um  pequeno exército de tribos árabes, tomou Aqaba aos Turcos, em plena Grande Guerra, chegando pelo caminho menos esperado – o deserto.
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A viagem de Aqaba até Petra faz-se cruzando uma região semi-árida, quase desértica, com muitos quilómetros quadrados de calhaus e pó. Mas vale a pena. O turismo em Petra está a ser aproveitado para desenvolver a região e, tanto quanto pudemos ver, os locais estão a fazê-lo bem. Agradou-nos muito perceber que a Jordânia, apesar do fervor religioso, bem presente nas inúmeras mesquitas que vimos, é um país diferente de todos os outros desta conturbada região – e para melhor. É um país surpreendentemente tolerante, que privilegia a paz, em larga medida devido à orientação política dos seus monarcas – descendentes diretos do profeta Maomé – que governam o país desde 1921.
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Os cinco dias seguintes foram passados a navegar. Descemos o Mar Vermelho, até entrarmos no Golfo de Aden, e, pouco depois, no Mar Arábico (onde tirámos esta foto), já em pleno Oceano Índico. Apesar dos divertimentos a bordo, cinco dias no mar são de mais, pelo que há que gerir bem o tempo, aproveitando ginásio e piscinas para exercitar um pouco o corpo, não abusando dos momentos de descanso e relax, como este, em que assistimos, da nossa cabina, ao pôr-do-sol. Embora esta seja uma zona de atuação dos piratas somalis, passámo-la, felizmente, sem qualquer problema.
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E assim chegámos, na manhã do 13º dia, à vila e porto de Muttrah, que se insere na província de Muscat, capital de Omã. O centro de Muttrah (na foto) e o de Muscat distam uns 3 kms um do outro. No primeiro encontra-se o comércio local (encontrámos no mercado muitos peixes nossos conhecidos, incluindo sardinhas), e no segundo os serviços administrativos, bem como alguns museus e monumentos interessantes. As pessoas são simpáticas, apesar de muito poucas falarem inglês. Como de costume, partimos às 18 horas.
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O dia seguinte foi passado entre poços de petróleo, em ambas as margens do Golfo Pérsico, à direita os xiitas do Irão e à esquerda os sunitas dos Emirados, até atingirmos, no 15º dia, Doha (na foto), capital do Qatar. São notórios os efeitos do petróleo, desde os arranha-céus aos carros de alta cilindrada, passando pelas fotos omnipresentes dos membros (masculinos) da família real e os edifícios públicos de grandes dimensões, como o magnífico e imponente Museu de Arte Islâmica, que vale, sem dúvida, uma visita.
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O Golfo Pérsico alberga, assim, alguns dos países mais ricos do mundo (Irão, Iraque, Bahrain, Kuwait, Qatar, Emirados Árabes Unidos), graças ao “ouro negro”. De noite é possível ver-se, um pouco por todo o lado, a chama dos poços de petróleo. O Splendida zarpou de Doha, como de costume às 18:00 horas e navegou muito lentamente (cerca de 10 nós) para chegar à ilha de Sir Bani Yas – pertencente aos Emirados Árabes Unidos, e com uma praia privativa (na foto) para os passageiros de algumas companhias de cruzeiro, incluindo a MSC – às 8:00 horas do dia seguinte.
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E depois de um dia de praia, rumámos a uma nova grande metrópole, destino final do nosso cruzeiro: o Dubai. O “petromoney” tornou-a uma cidade de fachada. Arranha- céus (pediram-nos o equivalente a 300 euros para subirmos ao edifício mais alto do mundo!), grandes avenidas, veículos potentes, uma larga maioria de trabalhadores estrangeiros – sobretudo indianos, paquistaneses e africanos – e poucas ruas onde se possa circular naturalmente, a pé. Ao 18º dia regressámos, de avião, a casa. A melhor parte do cruzeiro foi o primeiro terço.

O navio (MSC Splendida) ficará agora cerca de três meses e meio no Golfo Pérsico até partir para o Mar da China, onde cumprirá mais uma temporada, circulando entre países como o Japão, a Coreia do Sul e, claro, a própria China. Nessa nova viagem de reposicionamento, de Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos) a Yokohama (Japão), durante 26 dias, visitará mais nove países – do Médio ao Extremo-Oriente. Mais um cruzeiro de reposicionamento muito atrativo para quem tiver disponibilidade de viajar em abril, mês em que decorrerá a viagem.

Entretanto, seria muito interessante que uma indústria tão próspera quanto o é a dos cruzeiros marítimos e fluviais, mostrasse uma maior (e efetiva) preocupação ambiental. Um grande navio de cruzeiro (e há que ter em conta que eles são cada vez maiores) polui o equivalente a mais de 100.000 automóveis, algo inconcebível numa época em que as questões ambientais constituem uma prioridade a nível mundial.

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O Centenário da Revolução Bolchevique

Comemoram-se um pouco por todo o mundo os cem anos da Revolução Russa de 1917, que se completam precisamente hoje, dia 7 de novembro (de acordo com o calendário gregoriano, que a Rússia só adotou em 1918). As análises publicadas sobre tão importante efeméride refletem inevitavelmente posições ideológicas vincadas, de acordo com o apoio ou a rejeição (é difícil um meio-termo), mais ou menos explícitos, à doutrina de Marx. Tendo em conta que através da revolução na Rússia, bem como noutros lugares, se procurou pôr em prática as ideias daquele sociólogo alemão, a nossa análise, aqui e agora, não se baseará exclusivamente numa perspetiva histórica (relatar o que aconteceu e, por vezes, divagar sobre o que poderia ter acontecido), como as que, em geral, têm sido veiculadas, mas também numa crítica ao materialismo dialético de Marx, base dos inúmeros marxismos que povoam a Esquerda Radical. Será uma crítica sintética, assente em dez pontos, como se segue.

  1. A teoria de Marx é uma profecia histórico-económica. Decreta o fim do capitalismo, mas esse fim nunca ocorreu nem se vislumbra como possa ocorrer. O máximo que se conseguiu foi a transferência dos meios de produção das mãos dos capitalistas para as mãos do novo poder instituído – o capitalismo de Estado.
  2. Dado que, de acordo com a teoria, o capitalismo não é mais do que uma etapa no processo histórico que culminará no comunismo, a sua eliminação só será possível se houver uma regressão no tempo. O fim do lucro, o fim do juro, o fim do dinheiro, o fim do comércio, o fim das trocas, e assim sucessivamente até à vida fechada da tribo. É isso que, precisamente, quer dizer “comunismo” – a integração da produção e do consumo, sem intermediários, no mesmo espaço fechado.
  3. Por isso (por não ser possível com um estalar de dedos voltar ao comunismo), Marx não tinha qualquer proposta económica para o tempo pós-revolução, para a vida dos operários após a conquista do poder: tudo teria de começar do zero. Por essa razão, Lenine não sabia o que fazer quando o poder lhe caiu nas mãos. Nada na teoria de Marx lhe indicava um caminho. Como o próprio Lenine admitiu, dificilmente se encontra na obra de Marx uma palavra sobre a economia do socialismo. Não admira, portanto, que, do ponto de vista económico, os regimes marxistas, um a um, tivessem falhado.
  4. A profecia de Marx aponta para o fim das classes, logo que a “classe operária” vença a burguesia (de acordo com a teoria de Marx todas as outras classes desaparecem) e tome o poder. Ora, não é logicamente possível provar que, após a vitória do proletariado, persista para sempre uma única classe e que, com ela, acabe a exploração. Será muito mais provável que se formem (ou se mantenham) sub-classes dentro da classe operária, (ou que outras classes, ou sub-classes, não sejam absorvidas por ela), com interesses diversos, que logo entrarão em conflito entre si. E, mais uma vez, teríamos de recuar no tempo, provavelmente até à época em que Marx viveu (ao contrário do que Marx previra a revolução não se deu num país onde o capitalismo estava desenvolvido, mas numa Rússia pouco industrializada), para que a revolução proletária fosse possível, uma vez que hoje, e mais ainda no futuro, o número de operários e a correspondente classe é (será) cada vez menor no mundo desenvolvido. As classes sociais estão em constante transformação. Mas, além do argumento lógico, há também o teste empírico: não ocorreu, de facto, o fim das classes, como prevê a teoria, após a revolução: antes se formou uma classe dirigente, com todos os privilégios, e uma massa enorme, sem privilégio algum. Portanto, a profecia do fim das classes também falhou.
  5. A teoria marxiana só pode ser entendida e explicável como uma resposta humanitária à subjugação terrível a que foi submetido o operariado daquele tempo (sobretudo mulheres e crianças), vítima de um capitalismo selvagem. É por isso, mais do que muitas outras, uma teoria datada. E apesar de ser uma resposta justa e humanitária, querer validá-la por “mil anos”, constitui, por si só, uma demonstração do espírito determinista, da inconsistência científica e da arrogância intelectual de Marx.
  6. Karl Marx e o seu amigo Engels concluíram que o Estado, através das instituições políticas, não seria capaz de reformar a sociedade e evitar que os operários fossem tratados como escravos. A única forma de libertar os trabalhadores do jugo capitalista seria a revolução, dado que a estrutura do Estado e o enquadramento legal eram controlados pela burguesia. Ora, o que aconteceu foi precisamente o contrário. As sociedades capitalistas foram capazes de reformar-se (criando, por exemplo, o welfare state)  e as sociedades revolucionárias transformaram-se em tiranias: repressão aos opositores e notória decadência social, com todo o tipo de carências materiais, mas sobretudo com a carência de liberdade.
  7. O foco exclusivo da filosofia marxiana nas questões económicas é claramente exorbitado. Segundo Marx, é a condição económica que determina quer a pertença a uma classe, quer a consciência dessa pertença. O próprio pensamento humano é, assim, condicionado pela consciência de classe. Acontece que, neste aspeto, pese embora o contributo para uma visão mais apurada sobre a importância da condição material da humanidade, o “economismo” de Marx é demasiado redutor. O pensamento humano, mais concretamente o pensamento social humano, não pode ser reduzido à consciência de classe, é muito mais do que isso. O altruísmo ou o egoísmo não dependem da consciência de classe. E é muito curioso observar que na Rússia revolucionária foi precisamente uma ideia – a crença no marxismo – que manteve o regime, uma vez que a miséria era mais que muita, contrariando, assim, mais uma vez, a teoria de Marx.
  8. O caráter profético da doutrina de Marx cria nos espíritos mais desavisados a ideia de inevitabilidade: se é certo que a revolução chegará (o que é legitimado pelo estatuto “científico” da teoria), nada mais resta do que tudo fazer para que chegue o mais depressa possível. Como é evidente, qualquer profecia histórica (e esta não foge à regra) tem um claro fundo religioso. E é o caráter religioso do marxismo que inevitavelmente o conduz a contradições internas – por uma lado é necessário lutar por uma melhoria da situação dos trabalhadores, mas por outro tem de se desejar o pior para precipitar a revolução – como se pode verificar pela atuação dos partidos marxistas de hoje, visível sobretudo nos países socialmente mais atrasados, uma vez que nos países desenvolvidos o peso específico do marxismo é cada vez menor (facto que, como vimos no ponto 4, mais uma vez, contradiz as previsões de Marx).
  9. Mas o efeito mais nefasto da profecia marxiana tem que ver com a forma como se dará a revolução. Há duas hipóteses: a) os trabalhadores podem simplesmente aproveitar o colapso da estrutura capitalista para tomarem o poder, que cairá de maduro, praticamente sem derramamento de sangue ou b) podem ter que precipitar uma revolução violenta. Marx não é claro sobre isto, e a sua ambiguidade permite todo o tipo de leituras. É, em grande parte, graças a esta ambiguidade que existem tantos marxismos (radicais e moderados), alguns adeptos ou, pelo menos, tolerantes face à violência. (Relacionado com isto está, evidentemente, a ideia de que só através da luta nas ruas se garantirão os direitos dos trabalhadores). A teoria de Marx, como outras teorias radicais, revela-se um claríssimo obstáculo à paz social.
  10. Marx não acreditava no poder político para transformar a sociedade. Para ele, o poder efetivo dependia da evolução das máquinas e do sistema das relações económicas de classe. É significativo que se comemorem os cem anos da revolução russa quando se realiza mais um congresso da Web Summit em Lisboa. Hoje também muitos falam do poder da tecnologia; em contraponto, caberá, aos que acreditam na política, impor o primado da política. É certo que vivemos um período histórico complicado (houve algum que não o fosse?). Tal como aconteceu no período da revolução industrial, também a revolução digital produzirá (já está produzindo) problemas sociais graves. Mas tal como a revolução industrial vingou, também vingará a revolução digital. Muitos reclamarão, certamente. Mas os países que mais rapidamente se adaptarem à nova era ganharão vantagem sobre os que não o fizerem. Que a humanidade seja capaz de fazer as reformas necessárias para enfrentar esta revolução tecnológica, sem necessidade (mesmo que seja uma necessidade meramente teórica) de recorrer a uma revolução política violenta. Que tenhamos aprendido alguma coisa com as tragédias desencadeadas pela revolução bolchevique de há cem anos.

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Foto retirada de marxismo.org.br.

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