Armas, Germes e Aço

jared diamond
Jared Diamond tem uma larga experiência académica e também junto de comunidades remotas, nomeadamente na Nova Guiné.

Por que razão o mundo está estruturado (grosso modo) desta maneira: um Ocidente desenvolvido, um Oriente em desenvolvimento e um “terceiro mundo”, em África? As razões prendem-se quase exclusivamente com questões ambientais, e muito pouco com a genética. Há razões climáticas, geográficas, demográficas, geológicas, para que as primeiras civilizações tivessem nascido numa determinada zona do globo (Mediterrâneo e Levante) e, por isso, permitissem que os povos da Eurásia tivessem ganhado uma vantagem inicial, importante e significativa, relativamente a povos de outras zonas (como a Austrália, o continente africano ou as Américas). Essa vantagem inicial veio a refletir-se na colonização moderna. Não foi por acaso que os povos da Eurásia colonizaram outros povos, dando origem à globalização, em vez de ocorrer o inverso.

Civilizações avançadas, como os aztecas ou os incas, foram exterminadas por um punhado de europeus porque, além de não possuírem armas de fogo, estavam indefesas relativamente a armas muito mais mortíferas – os vírus de doenças epidémicas, como as varíola e sarampo, aos quais os europeus eram imunes. Porquê? Porque já tinham sido vítimas de vírus do mesmo tipo e ganhado imunidade (pelo menos até que uma nova estirpe surgisse). Na verdade, os povos da Eurásia reuniram as duas condições básicas para que tal tivesse acontecido: a) convívio com animais domesticados dos quais receberam os vírus; b) populações suficientemente grandes para que, apesar de uma percentagem muito grande de mortes, muitos, ainda assim, ganhassem imunidade.

E este convívio com os animais só foi possível porque na Eurásia existiam espécies domesticáveis (ao contrário do que as pessoas podem pensar, a maioria não o é), na fauna local, mas também na flora, o que não ocorria em outras zonas do globo. A Eurásia tinha também (ainda tem, mas isso hoje é irrelevante) outra vantagem relativamente aos restantes continentes: estende-se em longitude e não em latitude como acontece em África e na América (onde existem diferenças climáticas extremas, desde o Equador aos Pólos). Essa extensão longitudinal, permitiu que as deslocações humanas se realizassem com maior facilidade e, através delas, o intercâmbio e a difusão, não apenas de produtos materiais, mas, o que é mais importante, de conhecimentos científicos e técnicos.

Diamond conclui, assim, que as diferenças de desenvolvimento se prendem com as vantagens e desvantagens iniciais determinadas pelo ambiente, num período histórico de grande transformação (agricultura–> sedentarização–> crescimento e concentração populacionais–> cidades–> cultura) e não com quaisquer diferenças entre as potencialidades genéticas de povos ou raças, as quais, em termos cognitivos, são insignificantes. E esta talvez seja a principal conclusão deste excelente livro (vencedor de um Prémio Pulitzer, em 1998) do não menos excelente Jared Diamond.

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A nossa edição:

“Armas, Germes e Aço – Os Destinos das Sociedades Humanas”, Jared Diamond, Editora Temas e Debates – Círculo de Leitores, 1ª edição, Lisboa, 2015.

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