Viagem pela Ásia

Planear uma viagem de um mês através de 10 países não é tarefa fácil. Há que reservar voos, tratar de vistos, fazer um seguro de viagem, procurar hospedagens e transportes de vários tipos, para além de levar a cabo as sempre convenientes pesquisas sobre os locais a visitar. Esta é a primeira fase de qualquer viagem — a preparação. Como temos referido, as viagens têm sempre três fases, normalmente de duração decrescente — preparação, viagem (propriamente dita) e registo. Decorridas as duas primeiras, chegámos agora à última fase.

Saímos de Lisboa num voo da KLM que saiu muito atrasado devido ao mau tempo no aeroporto de Amsterdão, onde tínhamos escala antes de seguirmos para Seul, num segundo voo da mesma companhia aérea, que acabámos por perder. Chegámos a Amsterdão já de madrugada, com todos os balcões e escritórios fechados, e ficámos no aeroporto até de manhã, à espera que abrisse o escritório da KLM e nos reservassem um novo voo para Seul. O apoio ao cliente foi péssimo e ainda hoje estamos em litígio com a KLM, pois marcaram-nos um voo alternativo que posteriormente cancelaram, e agora não querem assumir a devida indemnização1. Só conseguimos um voo da Korean Air quase 24 horas depois de chegarmos a Amsterdão, pelo que tivemos tempo mais do que suficiente para apanharmos um comboio até à cidade e passearmos um pouco por lá. Nada de especial, o tempo estava péssimo, chovia e fazia bastante frio.

Rua de Amsterdão.

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Seul, Coreia do Sul

Três dias depois de sairmos de Lisboa, chegámos estoirados ao aeroporto de Incheon, a meio da tarde, com duas noites de sono perdidas. Os portugueses não precisam de K-ETA para entrarem na Coreia do Sul, os brasileiros, sim. De qualquer forma, é vantajoso obter o K-ETA online por apenas 7€ e não ter de preencher o formulário de entrada no aeroporto, ganhando tempo e paciência após um voo cansativo. Foi o que fizemos. Depois dos procedimentos necessários e da recolha da bagagem (se for o caso), a primeira coisa a fazer é comprar o cartão T-Money (pouco mais de 3€) e carregá-lo para se poder apanhar o comboio AREX, que segue direto para o centro da cidade de Seul. Pode comprar-se o cartão ainda no aeroporto, numa loja de conveniência dentro do terminal ou nas máquinas de venda, junto do acesso à estação dos comboios. O T-Money só se pode carregar com dinheiro, pelo que convém ter algum para o efeito. Depois é só usar o cartão no comboio, no metro, nos autocarros, no táxi e numa miríade de outros produtos e serviços. Há ATMs no aeroporto e lojas de câmbio onde se pode obter dinheiro coreano. Aconselhamos viajar munido com um cartão Revolut, ou similar.

Tínhamos reservado, estrategicamente, um apartamento muito perto da estação central de Seul, pelo que bastou uma caminhada de menos de 5 minutos até tomarmos um duche, deitarmo-nos e dormirmos umas 4 horas para recuperarmos alguma energia. Só saímos já bem de noite para comermos qualquer coisa e fazermos um pequeno passeio a pé pelo bairro de Myeongdong antes de regressarmos ao apartamento.

No dia seguinte estávamos como novos e acordámos cedo. Fizemos uma longa caminhada até ao palácio de Gyeongbokgung. (Quem nos conhece sabe que somos grandes caminhantes; é normal, quando viajamos, fazermos 20, e às vezes mais, quilómetros por dia). Pelo caminho vimos e visitámos detalhadamente uma interessante exposição de rua, na avenida Sejong Daero, sobre a Guerra da Coreia. No palácio assistimos ao render da guarda, um evento claramente dirigido aos turistas (que podem participar alugando, no local, roupas para o efeito), mas, ainda assim, coreograficamente bem realizado.

Palácio de Gyeongbokgung.

Na volta passámos por Cheongyeggeon e apanhámos o metro no City Hall até à estação de Hapjeong, a mais perto do mercado Mangwon que queríamos visitar. Aqui provámos várias comidinhas típicas, acabando por entrar num dos poucos restaurantes que se situam dentro do mercado, onde comem os feirantes e moradores locais, e aí almoçando. Optámos pelo mercado Mangwon em detrimento do mais turístico Gyeongdong, pois queríamos misturar-nos com os seulitas e comer com, e como, eles. Depois do almoço regressámos a pé até à estação de metro de Hapjeong, na linha 2, com intenção de visitarmos a livraria Starfield. Vale a pena realçar a peculiaridade da linha 2 (verde) do metro de Seul: é uma linha circular que funciona nos dois sentidos, confina em vários pontos com as outras oito linhas, e passa ou dá acesso aos principais pontos turísticos e locais de interesse da cidade. A livraria Starfield, por exemplo, fica num centro comercial onde se situa a estação de Samseong, precisamente da linha 2. Nós usámos e abusámos da linha 2. Tendo o cartão T-Money sempre carregado, torna-se extremamente fácil circular em Seul, uma cidade imensa em que a utilização do transporte público se revela necessária.

A livraria Starfield é grande, alta, imponente e fotogénica. É já um símbolo de Seul, e também um ponto de encontro entre residentes e turistas; veem-se por todo o interior pessoas fotografando e filmando com os telemóveis em punho. Perto dali, duas estações de metro depois, é possível visitar o Lotte World Tower, uma altíssima torre que observámos só por fora, preferindo circular por um parque adjacente, em torno do lago Seokchon. Muito bonito. De novo entrámos no metro desta feita para visitarmos a Torre de Seul, situada no topo do monte Namsan. Havia longas filas para apanhar o teleférico, pelo que fomos a pé, subindo largas centenas de degraus. (Quem quiser saber como pode chegar à Seoul Tower pode fazê-lo aqui.) A vista desde o topo da torre é de facto impressionante, mas na altura em que ali estivemos estava um pouco prejudicada pela sujeira das vidraças e também (sobretudo para quem gosta de fotografia) pelas luzes do interior do edifício, que se refletem nos vidros, e esta situação impediu-nos de conseguir as fotos que idealizáramos.

Livraria Starfield.

Quando descemos o Namsan, chegados ao sopé, o movimento era do tipo formigueiro, com pessoas circulando em todas as direções. Fez-nos lembrar bastante o que observámos em alguns pontos de Tóquio e de Hong Kong. Depois disto, apenas tivemos tempo de comer qualquer coisa (já estávamos com pressa), tomar um duche no apartamento, fazer as malas e apanhar o AREX rumo ao aeroporto. Ficámos com pena de não termos mais um dia ou dois para passarmos em Seul.

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Palawan, Filipinas

Chegámos a Puerto Princesa, na ilha de Palawan, por volta das 2 pm, depois de uma noite passada em aeroportos — Incheon e Ninoy Aquino. Um motorista esperava-nos para nos conduzir à Casa Belina, um pequeno hostel agradável e limpo, com um jovem funcionário muito simpático. Aproveitámos para dormir bastante, apenas saindo do quarto para comer qualquer coisa, e sem chegarmos a sair do hotel. Descanso, depois de mais uma noite perdida, foi a palavra de ordem. Este hostel foi perfeito para isso.

No dia seguinte, o sexto após a saída de Portugal, logo depois de um bom pequeno almoço na Casa Belina, chegou o pessoal do rent a car com o “nosso” carro, e pouco tempo depois já estávamos na estrada a caminho de El Nido, uma viagem que durou cerca de seis horas. A maioria das pessoas desloca-se até El Nido, a zona mais badalada, no norte da ilha. Dado que esta tem uma extensão considerável (mais de 500 kms), os turistas escolhem uma zona para passarem as férias, aí permanecendo durante todo o período — e essa zona é normalmente El Nido. Até porque Palawan não é apenas uma ilha, são muitas ilhas em torno da ilha principal que dá o nome a este deslumbrante arquipélago. É, assim, aliás, nas Filipinas como um todo. Milhares de ilhas deslumbrantes.

De modo que, uma vez em El Nido, o visitante tem mil e uma maneiras de fruir das praias da região. Claro que há inúmeros passeios de barco que se podem fazer às várias pequenas (e não assim tão pequenas) ilhas que pululam ao longo da costa — passeios exclusivos e passeios coletivos, destacando-se entre estes os já célebres tours “A”, “B”, “C”, e “D”, cada um deles com a duração de 7 a 8 horas, ou seja, praticamente um dia inteiro, com almoço incluído. O custo de cada passeio varia entre os 1100 e os 1400 pesos filipinos, ou seja, em torno de 25€/30€, por pessoa.

Mas antes de chegarmos a El Nido, que nem era o nosso destino final, embora tivéssemos de passar por lá, parámos num pequeno restaurante na estrada para almoçarmos. Um restaurante para os habitantes locais, não para turistas. Desde logo ficámos com boa impressão da comida filipina.

No caminho de volta, de Nacpan para Puerto Princesa, haveríamos de regressar a este simpático restaurante, mesmo ao lado da estrada.

Umas duas horas depois do almoço chegámos a El Nido que, como dissemos, não era o nosso destino. Por isso não parámos e seguimos para Nacpan, 15 quilómetros para norte, onde se situa a Amarav Pension, nosso alojamento durante 5 dias. Com estacionamento para o nosso carro alugado, esta pensão está muitíssimo bem localizada, a apenas 5 minutos a pé da praia de Nacpan, uma das mais bonitas da região. As funcionárias bem como a gerente foram extremamente simpáticas e prestáveis durante toda a nossa estadia. O quarto onde ficámos não era o suprassumo do conforto, mas tinha ar condicionado (embora de vez em quando a energia faltasse), era espaçoso e dava diretamente para um varandim onde podíamos sentar-nos e fruir do ar mais fresco da noite, depois de jantarmos no nosso restaurante favorito. Referimo-nos ao Combine, um pequeno bar-restaurante familiar, em plena praia de Nacpan. Ali as comidas são muito bem confecionadas: grelhados (peixe fresco, porco, frango, polvo), caranguejos e camarões confecionados de várias formas, sopas deliciosas (de porco, camarão, peixe, cogumelos e galinha) para além de diversos pratos de fritos. Também servem pequenos almoços, embora não os tivéssemos provado. Mas durante a nossa estadia jantámos sempre no Combine.

No dia seguinte ao da nossa chegada a Nacpan, fomos até El Nido para fazermos o passeio “C”, que havíamos reservado através da mesma empresa que nos alugou o carro. Queríamos fazer um desses tours para vermos se é tão interessante como se diz na internet. E valerá a pena fazer mais do que um dos quatro tours marítimos mais famosos desde El Nido? Depende. Se não se for rico e não se gostar de “excursões”, aconselhamos a fazer-se apenas um circuito como experiência. Ou pode até não se fazer nenhum e optar-se por praias igualmente paradisíacas quase vazias (ou mesmo vazias) e exclusivas. Isto consegue-se alugando um kayak, o que nós fizemos dias depois de termos integrado um dos tours “C”.

O snorkeling é uma atividade apetecível nas Filipinas.

O tour “C” e o tour “A” são considerados os melhores dos quatro, mas como queríamos em princípio fazer só um, optámos pelo”C”, que nos pareceu (pela pesquisa na internet) melhor. Este tour passa por Helicopter Island, Matinloc Shrine, Secret Beach, Talisay Beach e Hidden Beach. São todos locais maravilhosos, com águas cristalinas e mornas, paisagens deslumbrantes, mas tem sempre o inconveniente de parecer (e sê-lo efetivamente) uma excursão, com muitas pessoas, não apenas da nossa embarcação, mas de muitas outras das inúmeras empresas que realizam os mesmos passeios todos os dias. É por isso que, para nós, um tour é mais do que suficiente.

Regressados a El Nido fomos dar uma volta pela cidade. Há uma pastelaria — El Nido Bakery — bem no centro, que vende bolos e pastéis doces de qualidade a peços incrivelmente baixos. Estamos a falar de preços que equivalem, na nossa moeda, a 10, 15 cêntimos. De tal forma, que fomos várias vezes tomar o pequeno almoço a esta pastelaria situada na rua Rizal.

Nos restantes dias em Palawan não fizemos mais excursões. Num deles fomos explorar a costa imediatamente a sul de El Nido, onde topámos com magníficas praias, entre elas Vanilla Beach, realmente bonita. Por perto há a praia de Corong Corong, onde, em outro desses dias, alugámos um kayak e partimos à descoberta de outras praias belíssimas. De Corong Corong fomos até a praia de Lapus Lapus, desta seguimos até Papaya e, por sua vez, desta seguimos até Seven Commandos Beach, uma praia que faz parte do tour “A”, mas que estava pouco movimentada graças a termos lá chegado fora das horas em que as embarcações do tour “A” ali chegam. Eu e Fla nunca tínhamos andado de kayak, pelo que esta experiência foi ainda mais incrível. Pelo caminho vimos imensos peixes voadores e um deles chocou a alta velocidade com a Fla.

Fomos de kayak desde Corong Corong até Seven Commandos, e voltámos.

Em Lapus Lapus estivemos sozinhos na praia. Banhámo-nos, descansámos, secámos um pouco os corpos ao sol e recuperámos energia para nova etapa. Em Seven Commandos banhámo-nos de novo, enquanto o nosso kayak descansava na areia. A água é de uma transparência incrível. Esta é mais uma praia magnífica, desse conjunto constituído por milhares de praias magníficas que são as ilhas filipinas.

Aconselhamos vivamente um passeio de kayak na região de El Nido. Há pessoas em várias praias que alugam kayaks a preços módicos. Este passeio entre Corong Corong e Seven Commandos é um dos mais recomendados. Outro, bem interessante, é o que sai da praia de El Nido rumo à ilha em frente, Cadlao. Logo à “entrada” da ilha encontra-se a Paradise Beach — e o nome diz tudo. Embora os passeios de kayak não sejam à partida perigosos, há que ter em atenção o tempo, sobretudo o vento forte que, se soprar contra, pode dificultar muito a deslocação para o destino desejado.

Em outro dos dias em Palawan decidimos dar uma volta de carro pelo extremo norte da ilha. Passámos por locais remotos, vimos pequenas aldeias, falámos com habitantes locais e apreciámos as vistas magníficas sobre o mar e a linha de costa, desde alguns pontos montanhosos, miradouros naturais com que topámos durante o percurso. A ilha no topo norte é muito estreita, pelo que se passa da costa oeste à costa leste em poucos minutos.

Fla e o nosso kayak na praia Seven Commandos.

Noutra ocasião fizemos um passeio mais curto com intenção de conhecer as praias mais próximas a norte de Nacpan. Tivemos de circular com muito cuidado por estradas secundárias, pois o nosso carro era baixo e nada adaptado a terrenos acidentados. Mas, devagar, lá fomos e, no final, valeu a pena. Estivemos na Duli Beach, uma praia extensa, magnífica, quase deserta. Fomos de manhã e, no regresso, parámos num pequeno restaurante de comida local, que vende sobretudo para fora, bem baratinho, mas bom, o Llancel Food House, na pequena povoação de Bucana. Comprovámo-lo quando começámos a comer e, não fora termos encontrado este lugar apenas na véspera da nossa partida, teríamos ido lá comer mais vezes. Os donos quiseram, e conseguiram, surpreender-nos com uma sobremessa deliciosa: halo-halo shai, um batido de frutas gelado. Este restaurante, todo em madeira, tem a particularidade de ter sido construído em torno de uma árvore e é gerido por uma pequena família, um casal com uma filha adolescente.

Convém dizer que é perfeitamente possível passar uma temporada em Palawan comendo nos restaurantes aonde vão os habitantes locais. A comida é em geral boa e nós fomos a vários restaurantes não-turísticos e com essa opção não só comemos bem como poupámos muito dinheiro e ficámos a conhecer uma boa parte da gastronomia da ilha. É preciso estar atento, observar, cheirar, ter os sentidos despertos para se escolher os melhores locais para comer. Também ajuda ser-se simpático, falar com as pessoas, mostrar-se interessado, elogiar se a oportunidade surgir. Por vezes uma atitude positiva faz a diferença entre ser-se bem ou mal atendido.

No interior do Llancel Food House com a família proprietária. Nas Filipinas veem-se muitas crianças e jovens. A taxa de natalidade deve ser muito elevada.

Foi pois com alguma nostalgia que partimos de Nacpan, cinco dias após a nossa chegada. É um local magnífico, longe da confusão de El Nido, mas suficientemente perto para, se quisermos, irmos lá rapidamente de moto ou de carro — são apenas 15 quilómetros. As praias de Nacpan e Twin Beach são alcançáveis facilmente a pé desde a Amarav Pension, onde ficámos hospedados; o alojamento naquela zona é mais em conta; a comida é boa; e todos os dias o pôr do sol enche a praia de Nacpan daqueles relaxantes tons rosados e alaranjados, enquanto podemos desfrutar de um banho morninho…

Quando chegámos de novo a Puerto Princesa, depois de mais um almoço na estrada e de termos entregado o carro, estávamos no nosso décimo dia de viagem. Estava um calor insuportável. Era o dia 25 de abril, para nós, o Dia da Liberdade.

Jamais esqueceremos a bela Nacpan.

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Bali, Indonésia

Chegámos a Bali no dia 26 de abril, de manhã, para ficarmos seis dias e meio. À nossa espera estava o motorista de um táxi que previamente reserváramos através do Booking. Chegámos ao Bali Bobo Hostel, no bairro de Jimbaran, ainda antes do horário do check-in. Foi quando conhecemos o grande (não tanto em estatura, mas de coração) Agust Raphael. Agust é o rececionista principal do Bali Bobo (propriedade de um alemão) e um ser humano extraordinário. Dado que quando chegámos o nosso quarto ainda estava ocupado, ficámos um pouco à conversa com ele. A viagem do aeroporto para o hostel havia sido caótica, o trânsito estava infernal, o calor também, e as nossas primeiras impressões de Bali não foram as melhores. (É preciso dizer que tínhamos vindo das Filipinas, logo, com expectativas altas). Por isso estranhámos um pouco, embora depois nos tivéssemos lembrado várias vezes, como agora, quando Agust nos disse que “não somos nós que escolhemos Bali, é Bali que nos escolhe”.

Com o calor, esta cama fresca convida ao sono.

De facto, fomos gostando de Bali um pouco mais a cada dia, e isso foi ao encontro da frase de Agust. Após a pequena conversa com ele, deixámos as malas, fomos almoçar e quando finalmente regressámos e entrámos no quarto para tomarmos um banho e descansarmos um pouco, ficámos encantados. Que belíssimo quarto! Enorme, fresco, limpo, bem equipado, com ar condicionado ligado e com uma espaçosa cama com dossel, ali estava um convite implícito para o relax total. É impossível não ser feliz num quarto daqueles. Apesar disso, nós que não conseguimos estar quietos, ainda saímos… desta vez de scooter. De facto, a melhor maneira de circular em Bali é de moto. O carro pode revelar-se um pesadelo, sobretudo para quem não está habituado ao trânsito caótico. Felizmente, o aluguer de motos é comum em Bali, e no Bali Bobo havia várias para alugar.

E lá fomos nós, palpando terreno, tentando ambientar-nos àquelas condições de trânsito, o que não foi fácil. Nesse dia fomos até uma praia de surfistas, a Uluwatu Beach, sempre com um tráfico compacto, tentando, aos poucos, passar entre os carros, imitando os locais, ou tentando, não conseguindo evitar alguns sustos. Logo nesse dia aprendemos uma lição importante: não conduzir de chinelos! Com a primeira lição assimilada, aventurámo-nos, no dia seguinte, a fazer um trajeto maior. Nada mais nada menos que uma viagem até Ubud, ou seja, mais de 100 kms no total, ida e volta.

Sem moto (ou bicicleta) é uma tortura circular em Bali. Imagino que o mesmo se passe na maioria das ilhas indonésias. Este vídeo foi filmado da nossa moto, no regresso ao Bali Bobo, desde Ubud.

Em primeiro lugar visitámos um campo de arroz em Tegalalang — Ceking Rice Terrace — e depois fomos à Floresta dos Macacos (Monkey Forest). Muita vegetação em ambos os locais e também muito calor. Na Floresta dos Macacos tem de se ter cuidado com os ditos cujos que tentam roubar a nossa comida. Não nos pareceu nada de extraordinário, além do grande número de espécimes vegetais, mas valeu pelo passeio. À noite, já em Jimbaran, fomos jantar ao Gacoan, um restaurante de massas com comida muito picante. O nível de picante vai de 1 a 10 e nós pedimos o nível 1. No entanto, estava bastante picante. No dia seguinte pedimos nível zero, ou seja, sem picante, mas veio picante na mesma.

Mais tarde, na Índia, a coisa haveria de ser pior. (É incrível como os asiáticos gostam de malagueta!).

Os próximos dias aproveitámo-los para curtir as praias. Tínhamos ficado com a ideia, primeiro ainda no avião e depois pela primeira praia que visitámos, de que as praias de Bali não eram muito boas. E, de facto, se as compararmos com as praias filipinas, estas são em geral muito melhores. Mas há boas praias em Bali, algumas mesmo excelentes. Uma das melhores é a Thomas Beach, uma praia realmente bela, de acesso um pouco difícil, pois fica sob uma escarpa relativamente alta, tendo de se descer (e, na volta, subir) muitos degraus. Mas vale muito a pena visitá-la. Quando lá estivemos, de manhã cedo, havia poucas pessoas na praia.

Thomas, uma das praias mais belas não apenas de Bali, nem apenas da Indonésia, mas do mundo.

Além desta, visitámos mais duas praias que, pela pesquisa que fizemos, nos pareceram as melhores nesta zona de Bali. E de facto não desiludiram. A primeira foi a Melasti Beach e a segunda a Pandawa Beach, ambas no extremo sul da ilha. A Melasti Beach é a mais bonita das duas. Convém dizer que a Fla se encarrega sempre de baixar o google maps durante as nossas viagens, pelo que podemos deslocar-nos pelos próprios meios sem complicações de maior. Em Bali eu conduzia a moto e a Fla, com o telemóvel na mão, atrás de mim, dava as indicações sobre o caminho a seguir.

Durante a nossa estadia no Bali Bobo aconselhámo-nos várias vezes com Agust sobre locais interessantes a visitar e sobre restaurantes com boa relação qualidade-preço para comer. Foi através de uma dica de Agust que fomos na nossa motoca até o mercado de peixe de Kedonganan. Aí, após uma volta pelo interior do mercado, onde apreciámos uma variedade imensa de peixes e mariscos, escolhemos um peixinho, ou melhor, um “peixão”, que de seguida transportámos até um restaurante situado mesmo no largo anexo ao mercado, em frente ao mar. Neste restaurante, Warung Bu Wiwin, frequentado por habitantes locais, é possível mandar grelhar o peixe por um preço irrisório. As bebidas e os acompanhamentos são pagos à parte.

Comida de qualidade a preços módicos é algo que só se consegue quando interagimos com as pessoas. Esta dica deve seguir na bagagem de qualquer viajante que se preze.

O peixe prontinho para degustação depois de ter sido comprado no mercado.

Neste dia, depois do almoço, seguimos mais uma sugestão de Agust e fomos visitar o templo Pura Luhur Uluwatu, situado no topo de uma falésia e onde se realiza um espetáculo de dança tradicional. Quem quiser assistir terá de chegar pelo menos uma hora antes do espetáculo, que se realiza às seis da tarde, por forma a garantir o bilhete, uma vez que a lotação se esgota todos os dias. Foi o que fizemos, chegámos cedo. O local é muito bonito e o facto do Kecak Ramayana, assim se chama o espetáculo, constituído por cinco atos, se realizar ao pôr-do-sol, torna tudo ainda mais belo. Trata-se de uma lenda contada através da dança que culmina numa batalha final onde o exército de macacos derrota o exército de gigantes e Rama, o herói, derrota Rhawana, salvando a sua esposa Sita.

No dia seguinte decidimos ir mais longe e visitar a ilha de Nusa Penida. Foi difícil encontrar o cais de onde partem os navios para esta ilha porque pensávamos que estes partiam todos do mesmo local, mas não. As embarcações para Nusa Penida saem de um cais exclusivo. Como tínhamos acordado bem cedo, descobrimos a tempo que o cais de embarque é o de Sanur, um dos vários que existem na ilha de Bali onde acostam os ferrys que vão para as outras ilhas. Deixámos a scooter no parque de estacionamento e quando chegámos a Nusa Penida alugámos outra scooter numa loja junto ao cais. O nosso objetivo era irmos a kelingking beach e, munidos do google maps, lá fomos nós. Subidas, descidas, estradas estreitas e esburacadas, uma scooter diferente, mais pesada — tudo isto constituiu mais um desafio.

Kelingking é sem qualquer dúvida um lugar cénico. E perigoso. Já conteceram aqui muitos acidentes. Uma placa no local avisa que não há vigilância e que, portanto, os turistas estão por sua conta e risco. Os perigos são vários. As altíssimas escarpas sobre o mar não têm, em muitas zonas, proteção (vimos pessoas a tirarem fotos à beira do precipício); a descida para a praia é perigosa e demora bastante mais de uma hora para superar a curta distância que separa o topo da colina da praia, quer para subir quer para descer, e o sol não ajuda; a praia lá em baixo tem correntes perigosas, cruzadas, e o mar é forte.

A praia de Kelingking, ao fundo — nós fomos lá.

Como é que nós sabemos isto? Porque tomámos a decisão um tanto arriscada de descer até à praia. E subir, claro. É preciso estar em boa forma para fazer isso e o nosso conselho é o de que, se alguém ainda assim decidir descer, por favor não se aventure a nadar naquele mar. Claro que há sempre quem se aventure e provavelmente ver-se-ão pessoas na água. A maioria tem sorte, felizmente, mas o número de mortes que já ocorreram naquela praia é assustador. Basta ter alguma familiaridade com o mar, e observá-lo, para perceber como ele ali é perigoso. As correntes cruzadas são imprevisíveis e vimos várias pessoas (todas jovens) em dificuldades para sairem da água.

A subida desde a praia, nas horas de calor, é extenuante. Tive de descansar várias vezes pelo caminho. É imprescindível levar água para beber, e nós não levámos, o que foi um erro. Em suma, é preciso uma certa dose de loucura para ir àquela praia.

Mais de três horas depois de iniciarmos a descida, regressámos ao topo. Foi um alívio. Por um lado estávamos felizes por termos superado o desafio, mas por outro sentimo-nos desconfortáveis por termos corrido um risco, que embora calculado, tinha para todos os efeitos sido desnecessário. Mal chegámos ao topo da colina, procurámos um lugar à sombra na esplanada de um café e pedimos uma água de coco — uma benção. Pouco depois, estávamos a almoçar. Aos poucos recuperámos as forças e a energia. Estávamos prontos para mais uma etapa em Nusa Penida.

Crystal Bay tem boas condições para banhos de mar.

Rumámos a Crystal Bay, uma bela praia de águas mornas, bastante frequentada. Relaxámos, banhámo-nos e voltámos satisfeitos para o cais de embarque. Nusa Penida é sem dúvida uma ilha inesquecível. Linda, desafiante e perigosa. Após a travessia de cerca de uma hora, chegámos a Bali ao anoitecer. A nossa velhinha scooter esperava-nos no parque de estacionamento, e pouco depois voava para o Bali Bobo Hostel.

Contámos o sucedido a Agust que nos disse que ele próprio nunca tinha descido até a praia de Kelingking. Ficou surpreendido por o termos feito. Fomos tomar um duche relaxante e depois fomos jantar de novo ao Gacoan, pois este fica relativamente perto do Bali Bobo. Normalmente íamos a pé e cruzávamos um pequeno bairro onde as pessoas, que nos viam passar várias vezes, nos cumprimentavam.

No dia seguinte optámos por descansar e evitar correrias. Estivemos bastante tempo no hostel depois do pequeno almoço. E quando chegou a fome fomos almoçar ao Menega Cafe, na praia de Jimbaran, apenas a 4 quilómetros de distância. Peixe grelhado, lagosta, camarão, bivalves — não estava mau, mas o nosso marisco é melhor e a forma como o tratamos também. Depois do almoço, a Fla quis provar uma durian pancake num café chamado Durian Tanpa Ribet; realizámos esse desejo.

Era o dia de deixarmos o Bali Bobo, mas não ainda Bali. Optáramos por ficar a última noite num hotel bem perto do aeroporto para facilitar a nossa partida. Despedimo-nos de Agust, esse simpático e querido indonésio que o destino colocou no nosso caminho, e apanhámos um táxi até o Tirtasuci House, em Kuta, onde dormiríamos a nossa última noite em Bali.

A melhor parte das viagens são os amigos que fazemos. Fla e Agust à porta do Bali Bobo Hostel.

O Tirtasuci fica na zona mais movimentada e turística de Bali, bem perto do aeroporto. Passámos a tarde na praia, a Jerman Beach, tomando banho, observando os enormes e coloridos papagaios (pipas) que os miúdos lançavam no ar, passeando até depois do sol se pôr, relaxando e descansando, já em contagem decrescente para a partida de Bali e mais uma longa viagem até o próximo destino.

No dia seguinte, de manhã, fomos tranquilamente a pé até o aeroporto. Tínhamos pela frente uma viagem dupla rumo ao Nepal, com escala em Kuala Lumpur. Para trás, mas não esquecida, ficava Bali, a ilha dos deuses.

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Kathmandu, Nepal

Chegámos à capital do Nepal à noite, por volta das 21 horas. À nossa espera estava um taxista contratado pelo hotel onde iríamos ficar; o transfer estava incluído na nossa reserva. Durante o trajeto deu para perceber que estávamos numa cidade aonde a modernidade não tinha chegado ainda, uma cidade diferente de todas as que já tínhamos conhecido. O núcleo central de Kathmandu é uma zona demarcada, conhecida como Thamel, a parte mais comercial e turística da cidade. O Magnificent Hotel, onde ficámos, está localizado dentro dessa zona.

Buddha Stupa.

O budismo é a religião prevalecente no Nepal. Trata-se de uma religião tolerante e isso faz-se sentir no quotidiano das pessoas. No segundo dia em Kathmandu fomos visitar o templo Buddha Stupa, a 7 kms do nosso hotel, trajeto que fizemos a pé, como é nosso timbre, para irmos palpando o terreno e o pulsar da cidade.

Na volta apanhámos um táxi até Thamel para visitarmos o centro da cidade. Depois seguimos a pé até o templo de Swayambhunath, do outro lado (oeste) da cidade. Trata-se de um templo onde os macacos abundam, convivendo com as pessoas e tentando sempre tirar alguma vantagem; é preciso saber lidar com eles e não lhes dar muita confiança. Regressámos, descendo a longa escadaria que já tínhamos subido (o templo fica no topo de uma colina), a Thamel e ao hotel. Depois de um duche revigorante e uns momentos de descanso, fomos jantar a um restaurante típico nepalês de que gostámos muito. A comida era excelente, com várias opções vegetarianas, e a decoração é muito bonita. O restaurante fica num primeiro andar, e tem duas salinhas pequenas com janelas grandes através das quais chegam os sons do bulício e as luzes dos néons, próprios do centro da cidade.

No Paleti Bhanchha Ghar.

No terceiro dia no Nepal partimos de Kathmandu num voo curto até Nova Deli. Ficámos surpreendidos pelo tamanho do avião, um 747, e pela refeição servida num voo de hora e meia. Parabéns à Royal Nepal Airlines.

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Nova Deli, Jaipur e Agra, Índia

Tínhamos uma expectativa muito alta em relação à Índia. Planeámos visitar as três cidades constituintes do badalado triângulo dourado, de modo que pormenorizámos muito bem a nossa estadia. Mas nada podia falhar, porque estava tudo muito apertado. O nosso plano era chegar a Nova Deli, apanhar o metro para o centro da cidade, tomar um duche rápido no hotel, e voltar para o aeroporto para apanhar o avião até Jaipur. Dado que os hotéis na Índia são relativamente baratos, pensáramos em reservar um hotel em Nova Deli por forma a termos um lugar onde deixar as malas maiores e partirmos só com uma pequena bagagem para Jaipur e Agra antes de regressarmos a Nova Deli. Decidimos ir para Jaipur de avião, uma vez que os preços baratos compensam, depois seguirmos para Agra de comboio, e não tínhamos ainda decidido como voltar de Agra para Nova Deli. O plano pareceu-nos bom, mas o voo que apanhámos em Kathmandu atrasou e pensámos que provavelmente não conseguiríamos apanhar o voo para Jaipur. Começámos a pensar num plano B…

Foi uma correria. Quando deixámos as malas no hotel em Nova Deli e voltámos a correr para o aeroporto, pensámos que perderíamos o voo para Jaipur. Mas tentar não custa, e o muito suor que gastámos foi compensado: o voo para Jaipur também estava bastante atrasado, e lá apanhámos o avião. Quando chegámos, o motorista do nosso “táxi” (um tuk tuk) estava há mais de três horas à nossa espera para nos levar ao Gypsy Monkey, o hostel que havíamos previamente reservado. Comemos qualquer coisa no hostel, tomámos um duche e fomos dormir.

Fla no magnífico Palácio da Cidade, em Jaipur.

Entretanto o motorista do tuk tuk fizera uma proposta para nos levar no dia seguinte aos locais mais emblemáticos, e nós aceitámos. Assim, bem cedo na manhã seguinte saímos à descoberta de Jaipur. Nesta cidade não há hipótese de percorrer longas distâncias a pé a não ser quando o sol se esconde porque o calor é infernal, pelo que foi uma decisão sensata termos aceitado a proposta do condutor do tuk tuk.

Fomos em primeiro lugar ao Hawa Majal e de seguida ao Palácio da Cidade, onde vive o jovem rei do Estado de Jaipur, Padmanabh Singh. As entradas pagas já incluem guia e as visitas são demoradas, cerca de duas horas. O nosso guia era excelente, falando um inglês correto. Explicou-nos a história da família real, ocidentalizada e culta, e através dela a história de Jaipur. É, sem dúvida, a melhor, e a indispensável, visita que se pode fazer na cidade.

Depois fomos almoçar. A comida é um problema na Índia. Dificilmente se consegue comida sem picante, seja onde for. A seguir ao almoço num restaurante sofrível, visitámos os outros locais previstos: Forte Amber, Stepwell e Jal Mahal.

No dia seguinte, cedo, apanhámos o comboio para Agra. Fomos na terceira classe, pois quisemos ver como é. Tem ar condicionado — forte de mais — e o mais curioso é que uns lugares são sentados, outros deitados. Eu fui num dos primeiros, a Fla num dos segundos, por cima de mim.

Chegados a Agra, pouco depois do meio-dia, apanhámos um tuk tuk para o nosso alojamento, estrategicamente situado junto à entrada leste para o Taj Mahal. Foi a melhor surpresa na Índia. Uma belíssima casa transformada em alojamento local. A decoração é de muito bom gosto e o quarto é realmente mimoso. Os jardins dão um toque de frescura, o que é sempre bem vindo num país demasiado quente. Mas o problema continuou a ser a comida. Na Índia há muita comida vegetariana, mas mesmo esta é picante. Foi o que aconteceu ao jantar: mais uma dose descomunal de picante. Enfim, tentámos animar-nos com a perspetiva da visita ao Taj Mahal.

Nós e o Taj Mahal.

De manhã bem cedo, no dia seguinte, antes ainda do nascer do sol, lá fomos nós. Fomos dos primeiros a entrar. O Taj Mahal é realmente imponente mas, talvez pela nossa alta expectativa, desiludiu um pouco. Arquitetonicamente não é muito elaborado, o interior é pobre e falta qualquer coisa no entorno, talvez mais verde e mais água. Ainda assim, dado o simbolismo do local, talvez, não se consegue ficar indiferente quando o vemos pela primeira vez. Seja como for, e dado que era um objetivo de longa data, sobretudo para a Fla,”está feito”.

Regressámos ainda nesse dia a Nova Deli, de táxi. É tão barato (descobrimos isso já em Agra) que não se justifica outro meio de transporte. Descansámos um pouco no hotel, que se situa bem perto da Estação Central Ferroviária de Nova Deli, antes de sairmos para uma volta a pé pela zona mais movimentada da cidade. A confusão é grande: os pequenos negócios de rua, as lojas minúsculas, os tuk tuk, os milhares de transeuntes, os odores intensos. Ao passarmos numa rua sentimos um cheiro fortíssimo a urina: olhámos para o lado e vimos vários indivíduos, lado a lado, urinando para o chão, que era um lago.

A Índia é seguramente um país espetacular com uma história fabulosa e uma cultura grandiosa, mas aquilo que vimos e sentimos não foi nada disso. Como não somos hipócritas, temos de dizer que não gostámos daquela cultura tão influenciada pela religião. Embora não pareça haver intolerância religiosa, pois a diversidade de culto é visível nas ruas, as pessoas são extremamente preconceituosas. Se a Fla vestisse uns calções ou um vestido curto, era certo e sabido que os olhares sobre ela se tornavam tão frequentes e intensos que eram impossíveis de ignorar. As mulheres olhavam com reprovação e indignação, os homens com espanto (para não lhe chamar outra coisa).

Uma rua de Nova Deli, com o Forte Vermelho ao fundo.

As pobreza e sujidade na Índia fazem doer o coração. Vimos de facto muita pobreza, incluindo crianças a catarem lixo à procura de comida, mas também muita sujeira. Vimos pessoas a deitarem todo o tipo de coisas para o chão, inclusive nos aviões, sem qualquer necessidade. As ruas são incrivelmente sujas e mal cheirosas. Sinceramente, foi com certo alívio que deixámos a Índia. No dia 8 de maio, ao início da noite, partimos rumo a Baku, Azerbeijão.

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Baku, Azerbeijão

Era suposto estar um motorista à nossa espera no aeroporto de Baku, mas ninguém compareceu. É sempre um prejuízo (não apenas monetário) quando algo no planeamento falha. Tivemos de apanhar um táxi e o Booking não nos devolveu o valor que pagámos por esta corrida, mas o que tínhamos pago previamente ainda em Lisboa, pelo que ficámos duplamente prejudicados (monetariamente e pelo atraso de duas horas com que chegamos ao “nosso” alojamento). Não é justo, mas não há muito mais a fazer para além de denunciar estas situações.

As Flame Towers veem-se quase de todo o lado, em Baku.

Pelo caminho entre o aeroporto e o hostel já dava para perceber que Baku é uma cidade moderna; iríamos confirmar isso nos dias seguintes. Ficámos no Cth Baku Hostel, bem localizado no centro da cidade. Pela primeira vez ficámos num hostel com casa de banho partilhada, mas isso não constituiu problema. E este hostel tem algo que compensa tudo: um soberbo e variado pequeno-almoço. Depois desta refeição ficávamos com energia para várias horas. E nós usámos bastante energia ao palmilharmos dezenas e dezenas de quilómetros na surpreendente Baku — uma cidade limpa, organizada, moderna, bela, com alguns edifícios icónicos.

Entre eles, há dois que nenhum turista em Baku pode deixar de visitar.

Referimo-nos às Flame Towers e ao Centro Cultural Heydar Aliyev. As primeiras, localizadas numa colina sobre a baía de Baku, veem-se de quase todo o lado e foram, por isso, concebidas para se olharem à distância. Já o Centro Heydar Aliyev — desenhado pelo arquiteto iraquiano-britânico Zaha Hadid — é para se ver de perto, quer o exterior, quer o interior. Foi o que fizemos. Passámos uma tarde inteira, até o fecho de portas, apreciando esta magnífico edifício e as várias exposições patentes no seu seio.

Centro Cultural Heydar Aliyev. Em memória de um alto dirigente da União Soviética que se tornou Presidente do Azerbaijão e o governou com mão de ferro. Tal como acontece, hoje, com seu filho

Além do edifício propriamente dito, a envolvente é também muito interessante, pois inclui o Centro de Convenções de Baku e largos relvados onde as pessoas se reunem para fazer piqueniques, praticar desporto, descansar e conviver, em suma, um espaço simultaneamente grandioso e harmonioso, uma síntese, na verdade, de toda Baku.

Mas além da componente arquitetónica, há que realçar a vertente urbanística. As ruas são bem desenhadas, perfeitamente adaptadas para a circulação a pé, com um pormenor bastante curioso: os peões (pedrestes, para os amigos brasileiros) cruzam as grandes avenidas sempre por debaixo do chão, em segurança. O número de túneis, onde por vezes se encontra algum tipo de comércio ou um ou outro artista de rua, é impressionante. E há algo mais que também impressiona: o luxo patente em lojas, hotéis, edifícios e automóveis. É preciso não esquecer que o Azerbaijão tem petróleo e gás natural.

Apesar da riqueza e da boa organização evidentes em Baku, o mesmo não se passa seguramente no resto do país. Embora abundante em combustíveis fósseis, o PIB per capita do Azerbaijão é equivalente ao do Brasil e bastante inferior ao português. Além disso, o país é governado desde 1993 pela mesma família, os Aliyev, que se mantêm no poder através de um sistema pseudo-democrático, a que alguns chamam de Partido Dominante; isso significa que há partidos na oposição, mas nunca chegam ao poder. Por outras palavras, as eleições são fraudulentas. Além disso, o atual presidente, Ilham Aliyev, filho de Heydar Aliyev (um antigo oficial de elevada patente do KGB), pode manter-se indefinidamente no cargo graças a uma alteração à Constituição, aprovada pela Assembleia Nacional após um controverso referendo, realizado em março de 2009.

Museu de Tapeçaria do Azerbaijão.

Há duas personalidades nascidas no Azerbaijão que merecem o nosso destaque. Uma delas é Garry Kasparov, que apesar de ter nascido em Baku, viveu grande parte da sua vida na União Soviética e na Rússia, primeiro como membro do Partido Comunista, depois como opositor ao regime de terror implantado por Putin. Hoje vive no estrangeiro, exilado, tendo escrito um excelente livro — O Inimigo que Vem do Frio — onde previne o Ocidente livre sobre a necessidade de travar Putin a tempo, algo que nunca foi feito, permitindo que a ameaça russa crescesse da Geórgia para a Crimeia e depois para a Ucrânia. Kasparov mostra grande lucidez e compara o regime de Putin a uma verdadeira máfia. Além da atividade política desenvolvida, Garry Kasparov foi um exímio jogador de xadrez, um dos melhores de todos os tempos, e também por isso — nós que tanto apreciamos esse jogo — o admiramos.

A outra personalidade é Gubad Ibadoghlu, um economista que fundou o Movimento de Democracia e Prosperidade do Azerbaijão, em 2014, e que viu o seu registo como Partido da Democracia e Prosperidade, várias vezes rejeitado pelas autoridades. Na prática, a atividade política de Gubad — que denunciava a corrupção governamental e o desvio para benefício pessoal dos Aliyev das receitas do gás e do petróleo — foi ilegalizada. Perseguido, foi obrigado a sair do país. Em 2023 regressou com a mulher ao Azerbaijão para visitar a mãe doente, mas o carro em que seguiam foi albaroado e ambos foram agredidos e presos, tendo a mulher sido libertada depois. Doente, Gubad Ibadoghlu foi colocado em prisão domiciliária, mas é-lhe negado o tratamento necessário para a diabetes, pressão alta e problemas renais de que padece.

Apesar de ser um república democrática no papel, não existem eleições livres no Azerbaijão e o número de presos políticos tem vindo a crescer. A mulher do presidente do país é a atual vice-presidente.

Seja como for, e apesar da grande maioria da população azeri ser muçulmana (mais de 97%), Baku é uma cidade moderna, onde as pessoas andam à vontade e a larga maioria se veste dentro dos padrões ocidentais.

Celebrámos o 12º aniversário do nosso namoro no Dolma, em Baku.

Na última noite em Baku fomos jantar a um restaurante tradicional da cidade, o Dolma, que também é o nome de uma iguaria tradicional ali confecionada: carne moída enrolada em folhas de videira. Além disso, comemos cabrito no forno com puré de batata, frango, salada — e tudo estava realmente delicioso.

No dia seguinte fomos de autocarro para o aeroporto e despedimo-nos de Baku. Ao contrário do que acontecera com a Índia — quando as expectativas eram elevadas e de certa forma foram frustradas — em relação ao Azerbeijão as expectativas não eram elevadas, mas foram superadas no que toca à vida na capital, embora não possamos dizer o mesmo relativamente à vida das pessoas em todo o país, privadas de liberdade por mais um ditador despótico. Porque há tantos no poder e porque há tanta gente a apoiá-los — eis a questão que nos inquieta, sempre.

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Geórgia e Arménia

A nossa intenção inicial era visitar os três pequenos países entre o Mar Cáspio e o Mar Negro: Azerbaijão, Geórgia e Arménia, ficando alguns dias em cada um deles. A Geórgia teria de ser sempre o país do meio porque devido ao conflito entre a Arménia e o Azerbeijão (em Nagorno Karabakh) não é conveniente viajar (e muitas vezes nem há ligação) entre estes dois países. Mas depois descobrimos que há passeios de um dia à Arménia, desde a Geórgia, com guia. Assim, reservámos ainda em Portugal um desses tours, que incluía um almoço em casa de uma família local.

Apesar de haver autocarros do aeroporto para o centro de Tbilisi, optámos pelo táxi que nos deixou à porta do apartamento que tínhamos alugado para os nossos 6 dias na Geórgia, via Airbnb. Este apartamento está muito bem localizado e equipado, e foi uma excelente opção para a nossa estadia em Tbilisi. Assim pudemos fazer os pequenos almoços em casa e algumas outras refeições, poupando bastante dinheiro, pois a vida em Tbilisi, ao contrário do que se pensa geralmente, não é nada barata.

A caminho da Praça da Europa, na noite de 11 de maio de 2024, em Tbilisi.

Já sabíamos que havia grandes manifestações na Geórgia que, na época em que chegámos, estavam no auge. Em causa estava uma lei — que haveria de ser aprovada no parlamento durante o período em que estivemos em Tbilisi—, que ficou conhecida como “lei russa”, pois visava limitar a liberdade de imprensa, à semelhança de uma lei de 2012 vigente desde então no regime putinista. O que constatámos na Geórgia foi uma enorme vontade das gerações mais novas de se livrarem da pressão russa. Para tal, os georgianos só veem uma possibilidade: a entrada do país na União Europeia e, eventualmente, na NATO. Ora, esta “lei dos agentes estrangeiros” é um entrave às ambições dos georgianos de aderirem à UE (viola as condições de adesão), e é por isso que a presidente do país, Salome Zourabichvilli, uma europeísta convicta, tão veementemente se lhe opõe. O veto da presidente, porém, não foi suficiente para travar a lei, face à maioria dos deputados do partido Sonho Georgiano, no poder.

Tínhamos conhecimento desta situação quando chegámos à Geórgia e estávamos ansiosos por nos juntarmos às manifestações, que eram constantes. Logo no dia da nossa chegada, dia 11 de maio, sábado, assistimos a uma manifestação gigantesca que se concentrou na Praça da Europa. As pessoas empunhavam ou colocavam pelas costas bandeiras da Geórgia e da União Europeia. Estivemos horas, ali, e no dia seguinte comprámos uma bandeira da União Europeia para participar nas manifestações. Chovia bastante naquela noite, mas ninguém arredou pé.

A maioria das manifestações ocorre em frente ao Parlamento.

A nossa vida em Tbilisi foi, pois, passada nas manifestações. Claro que também deambulámos pela cidade, palminhámos o centro histórico, mas o nosso pensamento estava sempre nas manifestações que eram diárias e constantes. O nosso apartamento situava-se mesmo em frente ao parlamento, mas do outro lado do rio, numa colina. À noite ouvíamos perfeitamente os sons que vinham de lá, pois as manifestações nunca paravam, os georgianos faziam turnos para manterem os protestos durante o máximo de tempo possível.

Zezva, o guia que nos conduziu à Arménia, era também um dos manifestantes. Ele conduziu o carro sempre debaixo de chuva enquanto nos explicava — a nós e a um casal inglês, que éramos os seus clientes — a situação na Geórgia, o contexto histórico, a luta dos georgianos para se verem livres da influência russa. Recordo uma frase de Zezva que ficou gravada no meu cérebro: desde pequeno que ouço constantemente “não podemos irritar os russos, não podemos irritar os russos”, estou farto!

Ao ouvi-lo fiz interiormente uma pergunta que de vez enquanto me assalta. Como é possível termos nos nossos países livres gente que apoia ou tolera o regime de Putin? Não consigo compreender. Esses que ativa ou discretamente toleram Putin são os mesmos que deploram a União Europeia, o maior espaço de liberdade do mundo. E é a este espaço que os georgianos querem desesperadamente pertencer.

Haghpat, Arménia.

Visitámos alguns mosteiros na Arménia. Akhtala, e o complexo de Haghpat e Sanahin. No final estivemos em Sarahart, nas instalações de um teleférico, desativado há pouco tempo, que servia para transportar os trabalhadores das suas casas, cá em cima, para as minas de cobre, lá em baixo, ao lado da cidade mineira de Alaverdi. Esta região já foi georgiana, depois soviética e agora é arménia.

Junto ao mosteiro de Haghpat — uma obra-prima da arquitetura religiosa arménia, classificada como Património Mundial pela UNESCO, construído no século X —fica a casa onde almoçámos. Foi um almoço muito agradável e saboroso. Voltámos a provar o dolma, esse petisco tão difundido pela região do antigo império otomano, entre outras iguarias: um frango bem confecionado e uma salada que fez as delícias da Fla, queijos, pastéis e bom pão caseiro. Além disso pudemos conviver um pouco com uma família local e fruir de uma paisagem deslumbrante, pois esta casa situa-se ao lado do mosteiro, no topo de uma colina.

Depois do almoço em Haghpat. Nós, Zezva e o casal inglês.

Regressámos a Tbilisi e fomos diretamente para a porta do Parlamento onde ocorria mais uma manifestação. Zezva juntou-se-nos pouco depois. Ele traduziu para inglês muito do que se dizia por lá em georgiano, quer nos discursos dos oradores, quer nas palavras de ordem dos manifestantes. Os estudantes universitários estavam todos mobilizados, bem como muitos professores, e as universidades estavam fechadas. Já era bem de noite quando fomos para o apartamento. Continuámos a ouvir os sons da música, dos slogans, das ovações até adormecermos. Ainda hoje nos é impossível manter-nos indiferentes a esta luta.

É justo dizer que de vez em quando a polícia carregava sobre os manifestantes. Várias pessoas foram presas. Tivemos sorte em nunca termos estado num desses momentos, mas o grande aparato policial, com carros, carrinhas, canhões de água e centenas de elementos, deixava bem claro que os agentes do estado poderiam intervir a qualquer momento. Apesar disso ninguém desmobilizava, e muitos estavam protegidos com máscaras contra o gás lacrimogéneo.

Corte de rua pelos agentes da polícia junto ao parlamento de Tbilisi..

No dia seguinte, apesar de termos ido de novo ao Parlamento, fomos visitar a Galeria Nacional da Geórgia, que por acaso, fica muito perto, na mesma avenida. Vimos várias exposições, com destaque para as obras do mais conhecido artista plástico georgiano, Niko Pirosmani.

Fomos também à Academia de Arte de Tbilisi, na Avenida Rustaveli, mas, pelo caminho, à porta do Coliseu, tivemos uma agradável surpresa que comprova como o mundo é pequeno. Deparámos com o jornalista português, que muito admiramos, Henrique Monteiro. Conversámos um pouco e ficámos a saber que o Henrique tinha sido convidado para ir a Tbilisi dar uma palestra numa universidade. Aproveitando o ensejo, ele haveria de produzir uma belíssima reportagem, publicada no jornal Expresso do dia 24 de maio, sobre os acontecimentos que naquela altura ocorriam na cidade. Escreve Henrique nessa reportagem:

Olho pela última vez para jovens com bandeiras do seu país e da Europa, a lutar pela liberdade, e comparo-os, mentalmente, com os jovens dos EUA e da Europa a lutar pela Palestina, numa equação em que liberdade não entra, pelo contrário. Os primeiros têm esperança; os segundos apenas raiva. (aqui)

Foi um encontro feliz para nós, no qual pudemos constatar não sermos os únicos portugueses genuinamente sensibilizados com a determinação do povo georgiano na sua luta pela liberdade.

Fla e Henrique Monteiro à porta do Coliseu de Tbilisi.

À noite fomos jantar a um restaurante tradicional georgiano, o Mafshalia. Estávamos no dia da partida e quase no final da nossa viagem. Aproveitámos para provar alguns pratos típicos (carne de porco com batatas assadas, um frango com um molho um tanto ou quanto esquisito para o nosso gosto, saladas e pastéis) e um vinho branco caseiro muito agradável. Os preços são em conta, as doses bem servidas e o restaurante é típico, com uma sala comum e pequenos compartimentos privativos. Vale a pena.

De seguida fomos ao apartamento tomar um duche e pegar as malas para seguirmos, de autocarro, para o aeroporto. Despedimo-nos de Tbilisi com o desejo de que o povo georgiano alcance a liberdade. Em outubro há eleições na Geórgia e a oposição quer que estas sejam monitorizadas por observadores independentes. Mas a “lei russa”, entretanto aprovada, é um obstáculo à vinda de observadores estrangeiros. Tal como refere Henrique Monteiro, se os Estados Unidos e a União Europeia não pressionarem Putin, a Geórgia estará perdida.

Os nossos corações permanecem com Zezva e com os dois terços de georgianos que almejam a liberdade.

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Ankara, Turquia

O nosso regresso a Portugal fez-se via Turquia, e ficámos 14 horas em Ankara, aonde chegámos cerca das 5 e meia da manhã. Apanhámos um autocarro para o centro e fomos visitar alguns lugares da cidade. Pensávamos que o autocarro ia até o centro da cidade, e que aí seria a última paragem, mas a última paragem afinal era depois do centro, num terminal rodoviário fora da cidade. Tivemos, portanto, de comprar novo bilhete para apanharmos outro autocarro em sentido inverso para descermos no centro da cidade como pretendíamos. Lá chegados, o motorista abriu a porta da frente para entrarem os passageiros mas não abriu a porta de trás por onde era suposto sairmos. Pedimos para ele abrir a porta e ele começou a falar muito alto e percebemos que não queria abrir a porta; pelos gestos que fazia, entendemos que, segundo ele, teríamos de continuar a viagem até o aeroporto! Rapidamente furamos por entre as pessoas que estavam a entrar e conseguimos sair pela porta da frente, enquanto o motorista gritava enfurecido qualquer coisa para nós ininteligível. Ficámos abismados com este comportamento.

Vista sobre a cidade de Ankara.

Lá seguimos a pé até ao castelo de Ankara, de onde se avista quase toda a cidade. Ao redor fica a cidadela ou Cidade Antiga, bem preservada, com lojas de antiguidades, de artigos típicos e souvenirs, bares e restaurantes. Na volta parámos no Bogazici Lokantasi para almoçar. Trata-se de um excelente restaurante muito frequentado pelos locais mas também por alguns estrangeiros, como nós. Lá dentro tem uma montra enorme cheia de travessas de comida, e é só chegar e apontar para o que se pretende comer. A comida é mesmo muito boa. Um prato típico muito requisitado é um arroz com carne chamado Ankara Tava.

E nada mais há a registar digno de nota sobre Ankara. Apenas que aquele episódio com o motorista do autocarro nos fez pensar que a Turquia é talvez o país onde se manifesta mais abertamente o dilema muçulmano. De um lado os que hostilizam os estrangeiros ocidentais e se refugiam na tradição, na religião; e do outro os que desejam um estado laico, aberto e democrático, na linha protagonizada pelo fundador da Turquia moderna, Kemal Atatürk.

No Bogaziçi Lokantasi.

Um pouco antes da meia-noite aterrámos em Lisboa. Assim se concluía mais uma grande aventura e mais uma grande viagem. Em novembro está programada mais uma viagem de um mês, desta vez pela África.

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1 Nós perdemos a ligação para Seul porque o nosso voo que saiu de Lisboa para Amsterdão atrasou devido ao mau tempo neste aeroporto. Chegados a Amsterdão o nosso voo para Seul já tinha saído. Então a KLM enviou-nos um SMS e um e-mail a marcar novo voo que sairia às 9 da manhã. Dado que chegámos ao aeroporto de Amsterdão por volta das 2 da madrugada, ficámos pelo aeroporto mesmo. Por volta das 4 da manhã recebemos novo e-mail e SMS dizendo que o novo voo tinha sido cancelado “por motivos técnicos”. Tivemos de esperar até às 8 da manhã, hora em que abriu o balcão da KLM para que nos fosse remarcado novo voo. As filas eram enormes e tivemos horas à espera. No balcão só conseguiram marcar-nos voo para as 21 horas através da Korean Air.

Quando chegámos a Lisboa reclamámos junto da KLM mas responderam-nos que não tínhamos direito a indemnização. Primeiro disseram-nos que não tínhamos direito a receber indemnização porque o nosso voo desde Lisboa tinha atrasado devido ao mau tempo; depois, quando pacientemente voltamos a explicar que não era esse o voo em causa, mas o que eles tinham remarcado para as 9 da manhã do dia seguinte e depois cancelado, responderam-nos que ainda assim não tínhamos direito a indemnização porque os bilhetes não tinham sido emitidos. Reclamámos para a ANAC. Preenchemos o formulário indicado, enviamos os documentos solicitados, fizemos um breve descrição do ocorrido. Passadas três semanas recebemos um e-mail da KLM a dizer que iam enviar 1200,00€ para a nossa conta — e cumpriram.

Moral da história: nunca desistam de reivindicar os vossos direitos. Se a companhia aérea não concordar em indemnizar-vos, reclamem para a ANAC (Autoridade Nacional de Aviação Civil) ou para alguma congénere de outro país. Tratem diretamente com eles e não recorram a nenhuma das inúmeras empresas que existem na internet porque qualquer delas vai cobrar-vos cerca de metade do valor a que têm direito.

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1º Triatlo Sprint Cidade de Tavira

Em época de festas populares, 1º Triatlo de Tavira veio colorir ainda mais o centro da cidade.

Decorreu hoje de manhã o primeiro Triatlo Sprint Cidade de Tavira, organizado pelo Clube de Vela de Tavira, em colaboração com a Federação de Triatlo de Portugal, com o Município desta cidade, com o Instituto Português de Desporto e da Juventude, com a União das Freguesias de Tavira e várias entidades locais. Os participantes de vários escalões femininos, masculinos e mistos, federados e não federados, tiveram de percorrer 750 metros de natação, 20 km de bicicleta e 5 km de corrida para completarem a prova, que foi um sucesso, atendendo ao número de participantes, que quase chegou às duas centenas.

Iniciando os 750 metros de natação no rio Séqua.

A prova foi ganha por João Chagas, do Lusitano Frusoal (escalão M 20-24), com o tempo de 55m e 38 s. João Vilanova, do mesmo clube, foi o primeiro junior a cortar a meta, e o 7º da geral. A prova feminina teve como vencedora Ana Estévez do Vasco da Gama de Sines. (Resultados completos aqui).

Este evento animou bastante o centro da cidade, teve muita gente a assistir e tem tudo para ser apenas a primeira de muitas outras edições, em anos vindouros.

Wheigre Lima avança para a prova de ciclismo, após ter concluído os 750 metros de natação com o tempo de 14′ e 38″.

Os rios Séqua e Gilão têm boas condições (aproveitando as marés) para a realização de vários géneros de provas aquáticas, desportivas e de lazer, mas têm sido mal aproveitados. Esperamos que o sucesso desta prova incentive a edilidade e outras instituições a unirem esforços para a organização de eventos desportivos futuros nas belas águas destes rios, que hoje, por acaso, estavam com uma temperatura ótima — cerca de 20º C.

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Sotavento

Praia Verde, Algarve, 19:00 horas. A temperatura do ar rondará os 25, 26 graus; a do mar, uns cinco a menos. Nada que impeça um banho revigorante. O Algarve é a região terrestre mais ocidental (se excetuarmos as ilhas) onde vigora o chamado clima mediterrânico. Se partíssemos daqui em direção a Leste, até ao Crescente Fértil, manter-nos-íamos durante toda a viagem sob a influência deste clima. Poderíamos ir por terra (contornando a costa sul da Europa) ou por mar, entrando pelo Estreito de Gibraltar e cruzando o próprio Mediterrâneo, num trajeto oposto ao que fizeram os fenícios, quando há milhares de anos chegaram pela primeira vez ao Algarve. Ao contrário do que muitos supõem, este clima é pouco comum no mundo e contempla apenas outras quatro (mas muito pequenas) zonas do globo: o sudoeste da Austrália, o sul da Califórnia, o sul da África do Sul e uma parte do Chile. Não existe em mais lado nenhum. O clima mediterrânico — genericamente caracterizado por verões muito quentes e secos, e invernos frios e chuvosos — teve uma importância decisiva na história da humanidade. Não foi por acaso que as primeiras civilizações nasceram no Crescente Fértil: devemo-lo à especificidade do clima e às espécies animais e vegetais que a ele se adaptaram, e que não existiam noutros lugares. Sem o clima mediterrânico não seria possível termos o melhor pão, o melhor azeite, o melhor vinho, as melhores e mais variadas frutas, os melhores queijos e, já agora, a luz mais pura (que o digam os pintores). Para se ter uma ideia, só em Portugal existem mais de 250 castas de uvas, um desafio aceite por cada vez mais enólogos oriundos de longínquas paragens para aqui produzirem alguns dos melhores vinhos do mundo. Mas a Natureza brinda-nos de muitas outras formas. As nossas praias estão entre as mais bonitas e aprazíveis do planeta. Nesta época do ano, quando os dias parecem não ter fim, podemos ficar na praia até mais tarde, para vermos o sol pôr-se para lá das 21:00 horas. Por vezes, na mudança de maré, o vento para, o mar para, os sons param, e temos a sensação de que o tempo e os nossos pensamentos param também. Esta experiência é mais extraordinária quando ficamos sozinhos na praia. Na última vez, que foi hoje, um passarinho de poupa ficou parado na linha d’água, olhando o mar, que era um espelho imenso. Naquele momento eu, a minha companheira e o passarinho de poupa, pareceu-me, podíamos perfeitamente trocar identidades. E pareceu-me também que esta ilusão só é possível aqui, nas praias do Sotavento, onde o tempo não corre, escorre.

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De Timon a Belém — e volta

Antes da partida e da esquerda para a direita: Fernanda foi de ônibus para Belém e Luan ficou em Timon. Os cinco restantes fizeram a viagem, a que se refere este artigo, de ida e volta, de carro, entre Timon e Belém.

Esta viagem enquadra-se numa mais ampla que fizemos (eu e Fla) ao Brasil, entre 22 de setembro e 24 de outubro de 2023. Estivemos em seis estados (Piauí, Maranhão, Pernambuco, Paraíba, Pará e Ceará) e cinco capitais (Teresina, Recife, João Pessoa, Belém e Fortaleza). O centro desta viagem foi a casa onde vive a mãe da Fla, em Timon, no Maranhão, aonde regressámos sempre, após visitarmos outros estados e cidades, até voltarmos a Portugal. Dado que Teresina fica do outro lado do rio Parnaíba, fomos também muitas vezes à capital do Piauí enquanto estivemos em Timon. A nossa viagem de carro a Belém — e volta — aconteceu entre os dias 15 e 22 de outubro.

Desde logo, uma informação aos automobilistas que queiram fazer este trajeto: excetuando uns 50 quilómetros na zona de Zé Doca e uns 30 antes de chegar (ou depois de sair) de Belém, devido a reformas, a estrada está boa e perfeitamente transitável. O nosso pequeno Hyundai i20 (na verdade, não era nosso mas sim emprestado por Fernanda, irmã de Fla) foi e voltou cheio, com três adultos e duas crianças: os nossos sobrinhos Benjamim e Frederico, a avó deles, a filha da avó que é a minha mulher, Flávia, e eu. O objetivo da nossa ida a Belém, para lá de conhecermos a cidade, era o de nos encontrarmos com Fernanda, que vive na capital do Pará, após ter iniciado funções como auditora no Tribunal de Contas dos Municípios do Estado do Pará. Saímos de Timon às 10:30 da manhã e só parámos para almoçar na Churrascaria do Genival, em Alto Alegre do Maranhão, seguindo de imediato para Zé Doca, aonde chegámos por volta das cinco da tarde, para pernoitarmos. No dia seguinte, após dormirmos e tomarmos o café da manhã em casa de amigos da Fernanda, regressámos à estrada. Algumas horas depois atravessámos o rio Gurupi, que separa os estados do Maranhão e do Pará, almoçámos em Santa Maria do Pará (no restaurante Bom Gosto) e chegámos a Belém às três e meia da tarde.

Porto do Ver-o-Peso.

Em Belém ficámos instalados num excelente apartamento, na Avenida Nossa Senhora da Nazaré, a uma quadra da basílica homónima. O alojamento é suficientemente espaçoso, com dois quartos, cada qual com seu banheiro, totalmente equipado, estacionamento no subsolo e, além disso, muitíssimo bem localizado. O preço por cinco dias foi de €357,85. O primeiro dia serviu para nos instalarmos, encontrar-nos com Fernanda, irmos ao supermercado, darmos uma pequena volta de carro pela cidade, e pouco mais. No dia seguinte, de manhã, cirandámos pelo bairro de Campina: visitámos demoradamente o mercado Ver-o-Peso, fomos ao mercado Francisco Bolonha, andámos pela Praça do Relógio e terminámos o nosso passeio na Praça da República, antes do regresso ao apartamento. Depois do almoço, já com Fernanda, visitámos a Basílica de Nossa Senhora da Nazaré, passeámos um pouco e fomos lanchar ao Point do Açaí, no Blvd. Castilhos França, em Campina.

Já comêramos inúmeras vezes açaí noutras partes do Brasil, e até em Portugal, ou assim o pensáramos até então, mas só em Belém comemos pela primeira vez açaí verdadeiro — puro. Tem um sabor muito forte e amargo, difícil para quem não está habituado, o que não é o caso dos paraenses que acompanham praticamente tudo com açaí, desde pratos de peixe ou carne até sobremesas.

No Point do Açaí, em Belém.

No terceiro dia em Belém, logo de manhã, antes do calor apertar, fomos com os meninos ao Parque Urbano Belém Porto Futuro. Trata-se de um parque desportivo bem equipado, onde se pode estar em lazer ou praticando exercício físico. Benjamim (9anos) e Frederico (7 anos) divertiram-se bastante percorrendo os diversos aparelhos, correndo, escalando, pulando e baloiçando. Ainda da parte da manhã, depois de deixarmos os meninos e a avó Joana em casa, eu e Fla fomos a uma visita guiada ao Teatro da Paz. (Por pura sorte era quarta-feira e a visita foi gratuita). Construído à imagem do La Scala, em Milão, este teatro situado na Praça da República é seguramente um dos mais belos do Brasil, se não o mais belo mesmo.

Fundado em 1878, o Teatro da Paz tem uma acústica perfeita, lustres em cristal, piso de madeiras nobres, frescos nas paredes e teto, além de obras de arte de indiscutível valor, pintadas ou esculpidas, entre outros elementos decorativos. A sua escadaria de entrada é de mármore italiano e a imponente fachada foi reformada em 1905 para reproduzir fielmente o estilo neoclássico, importado de Itália. Já estivemos no Teatro alla Scala e podemos assegurar que o Teatro da Paz é, de facto, muito parecido com a mítica sala milanesa, sem deixar de ser original.

Teatro da Paz, na Praça da República, em Belém.

Felizes por termos visitado o Da Paz fomos almoçar ao restaurante Avenida, que fica muito perto do apartamento onde estávamos hospedados, na mesma avenida, quase em frente à Basílica da Nazaré, pelo que podemos deixar o carro no estacionamento do “nosso” prédio. Tinham-nos dito que no Avenida — inaugurado por um português já falecido (Fernando José de Oliveira) e continuado pelos seus filhos — se comia o melhor pato no tucupi de Belém, e fomos experimentar. Não podemos dizer que adorámos, mas comemos sem reclamar. Como já ficou dito, a cozinha paraense é forte e é preciso tempo para absorvê-la. O tucupi é um molho amarelo fermentado, extraído da raiz da mandioca brava, que acompanha vários pratos tradicionais do Pará, assim como o jambu, uma erva que lembra o agrião, mas muito mais amarga, que, claro, também entra no pato no tucupi. Sinceramente, não tivemos tempo suficiente para assimilar todo o esplendor da gastronomia paraense, mas podemos dizer que topámos-lhe o potencial.

Após o almoço fomos todos (os 6) ao bosque Rodrigues Alves, no bairro do Marco, já bem afastado do centro da cidade. Trata-se de um espaço verde zoobotânico (assim referido no local), exuberante, com espécies típicas da Amazónia, onde o ar verde nos envolve em ondas de frescura. A meio da nossa visita caiu uma carga de água diluviana e tivemos de esperar que abrandasse para podermos fugir para o carro. Apesar disto, valeu muito a pena a visita interrompida a este parque.

Benjamim no Museu das Ilusões, Belém.

No quarto dia, de manhã, decidimos regressar ao mercado Ver-o-Peso para comprarmos um peixe para o almoço. Escolhemos um tambaqui, peixe de água doce que, para nossa surpresa, não tinha o sabor a terra que muitos dos que comêramos antes apresentavam. Dona Joana temperou-o a preceito e cozinhou-o na panela, em leite de coco. Comemo-lo acompanhado por arroz branco, e estava, de facto, delicioso. Depois do almoço fomos todos ao Museu das Ilusões, um espaço inserido num centro comercial, bem perto do aeroporto internacional de Belém. As crianças divertiram-se bastante com as inúmeras ilusões — e a alegria delas fez também a nossa.

Mais para o fim da tarde ainda tivemos tempo para irmos à Estação das Docas comer um sorvete na famosa Cairu, enquanto o sol pousava no horizonte. Aqui é possível encontrar sabores pouco comuns, mas deliciosos, como bacuri, murucí, cupuaçu, araçá, além, claro, do próprio açaí. A Estação das Docas é um espaço bem recuperado, onde para lá da traça original dos antigos armazéns portuários se mantêm também os vistosos guindastes amarelos, desativados no cais. Restaurantes, lojas, esplanadas, um teatro, uma fábrica de cerveja, entre outros equipamentos, são motivos de atração para habitantes e turistas, que ali se reúnem a partir do final do dia.

Fla e Pinduca, o rei do Carimbó.

Mas esta jornada bem preenchida ainda não estava completa. À noite, eu e Fla, agora acompanhados com Fernanda, voltámos ao Teatro da Paz, desta feita para assistirmos ao primeiro dia do 30º FIDA — Festival Internacional de Dança da Amazônia. Quando chegámos pudemos constatar que a iluminação externa do teatro destaca-o da envolvente e realça ainda mais a sua beleza quando é noite. O espetáculo foi interessante, com muitos intervenientes e, no final, tivemos a sorte de encontrar Pinduca, o rei do Carimbó, com quem tivemos a oportunidade de conversar um pouco.

O quinto dia em Belém, sexta-feira, 20 de outubro, foi muito importante para mim e Fla, pois foi o dia em que conhecemos Lúcio Flávio Pinto. Combinámos encontrar-nos com ele na Banca do Alvino, em plena Praça da República, às 8:30 da manhã. Assim, logo após o café da manhã seguimos para lá. Após uma agradável troca de impressões, Lúcio concedeu-nos uma entrevista, que pode ser lida em https://ilovealfama.com/2023/10/31/lucio-flavio-pinto/.

O grande Lúcio Flávio Pinto com Fla, na Praça da República, em Belém.

Depois deste inesquecível encontro, fomos ao apartamento para levarmos connosco D. Joana e os meninos a uma visita ao Parque Zoobotânico e Museu Emílio Goeldi, não muito longe do local em que estávamos alojados, no bairro de Nazaré. Infelizmente, devido às fortes chuvadas que tinham caído, o museu estava encerrado, pelo que só tivemos oportunidade de percorrer o parque. Mais uma vez, pudemos observar espécimes representativos da Amazónia, mas não só. Uma linda onça pintada — que fora confundida com um gato e adotada por um habitante que posteriormente a entregou ao IBAMA — encantou Benja e Derico. Neste dia, o último completo em Belém, decidimos ainda provar mais alguns pratos locais, tipicamente paraenses. Em frente ao Avenida — o restaurante onde provámos o pato no tucupi — há um quiosque muito frequentado que nos disseram servir as melhores comidas típicas de Belém. Fomos lá almoçar. Provámos o Tacacá, o Cururu e o Vatapá. Os sabores destes pratos são tão diferentes em relação ao que estamos habituados que não nos surpreende o título conquistado por Belém de Cidade Criativa da Gastronomia, pela UNESCO.

À tarde Fernanda veio connosco (ela só podia juntar-se-nos depois do trabalho) a outro parque, este mesmo ao lado da Cidade Velha — Mangal das Garças. Menos densificado e mais aberto do que os anteriores, este parque tem mais relvados e lagos, bem como árvores de menor porte. Destacam-se também as aves aquáticas e diversos tipos de papagaios.

No Mangal das Garças.

No centro do parque fica o Farol de Belém, uma estrutura em ferro que podemos subir de elevador (por 5 reais) e desfrutar das melhores vistas sobre a cidade. Quando saímos do Mangal das Garças continuámos o nosso passeio pela Cidade Velha, visitando a Igreja do Carmo, a Praça D. Pedro II, a Catedral Metropolitana e o Espaço Cultural Casa das Onze Janelas. A nossa visita a Belém estava chegando ao seu termo. À noite percorremos, de carro, uma vez mais algumas das ruas de Belém, já em jeito de despedida. No dia seguinte, o sexto em Belém, saímos cedo para percorrermos de novo a BR 316, agora no sentido inverso, em direção a Timon. Ao fim e ao cabo, limitámos a nossa visita à cidade propriamente dita, não saímos de Belém, não visitámos nenhuma ilha, não fomos a Marajó nem a nenhuma praia, mas, dentro do tempo limitado, conhecemos locais e pessoas bastante interessantes da cidade. No entanto, queremos fazer nova visita para visitarmos os locais referidos e, eventualmente, outros, até porque, sem dúvida, há algo que podemos desde já dizer: O Pará é um estado fantástico, por isso, sim, voltaremos.

Uma das vistas do topo do Farol de Belém.

A saída de Belém por estrada está muito condicionada devido a obras. Os primeiros 30, 40 quilómetros são extremamente lentos, pelo que se recomenda sair o mais cedo possível. Não foi o nosso caso, e por isso apanhámos muito trânsito. Almoçámos em Santa Luzia do Pará num restaurante familiar, pequeno, mas com comida boa. Fica do lado esquerdo da estrada. Mais uma vez, pernoitamos em Zé Doca, na Pousada do Farol, aonde chegámos por volta das 4 da tarde. Este alojamento tem quartos razoavelmente confortáveis, com ar condicionado, serve café da manhã aceitável e não cobra caro: 260 reais para os cinco (um quarto de casal e um quarto para 3 pessoas). No domingo, 22 de outubro, completámos a nossa viagem a Belém, e volta, chegando a Timon por volta das 14 horas, depois do almoço em Peritoró, no Espetinho do Paraibano. Tínhamos percorrido, no total, cerca de 2.000 quilómetros de carro. Valeu!

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Arte em Alte

Renata e Daniel interpretando uma canção tradicional.

Alte é uma aldeia inserida no concelho de Loulé, em pleno coração do Algarve. É considerada, com justiça, uma ilustre representante das aldeias tradicionais portuguesas, com casas brancas de chaminés trabalhadas, ruas floridas, uma bela igreja matriz, e o alvo casario cravado na colina ocre e verde, dentro de uma paisagem tipicamente mediterrânica.

Alte sempre teve uma atividade cultural própria, destacando-se o artesanato local, a música e dança (com os 75 anos de atividade do Rancho Folclórico da Casa do Povo), e atividades desportivas ao ar livre, como o percursos pedestres e ciclismo.

Por tudo isto, e muito mais, vale a pena visitar Alte. E o “muito mais” é mesmo muito: estamos a pensar, por exemplo, em dois ateliês na praça central da aldeia, frente-a-frente, tão bem localizados que é impossível não os encontrar. Um pertence a Daniel Vieira e o outro a Renata Pawelec. Daniel é natural de Alte, Renata é polaca, e ambos são artistas plásticos e músicos.

Renata Violetta interpretando um fado clássico.

Assim, para lá de se inteirar dos trabalhos plásticos destes artistas, o visitante pode ter a sorte de assistir a um intimista espetáculo musical dentro do próprio ateliê de Renata. Apaixonada pelo fado, após uma noite passada no Clube de Fado, em Lisboa, ela passou desde aí a cantá-lo, lutando por ultrapassar o sotaque e conseguindo chegar a várias finais de concursos dedicados à arte fadista. A voz de Renata é doce, harmoniosa e intimista e ela sabe colocá-la na perfeição, tal como tivemos a sorte de constatar aquando da nossa última passagem por esta tradicional aldeia algarvia.

Além da parceria artística, uma amizade quase tangível liga Daniel e Renata. Também isto, para lá das pinturas e das músicas, nos tocou.

Voltaremos.

Jamais esqueceremos esta passagem por Alte. Nesta foto estão, da esquerda para a direita, uma polaca, dois portugueses e três brasileiros.

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Cruzeiro nas Caraíbas

Este artigo, além de servir o nosso desejo de registar a viagem que fizemos pelas Pequenas Antilhas, no Caribe Oriental, pretende ser também um guia orientador para quem queira fazer um cruzeiro naquele que é, provavelmente, o destino turístico mais popular do planeta para este modo de viajem. Ele será tanto mais útil quanto mais próximo do nosso for o conceito de viagem (em cruzeiro) do leitor. Devemos dizer que fizemos já mais de doze cruzeiros e que, naturalmente, o nosso conceito de viagem em navio de cruzeiro foi-se alterando com o tempo. Não nos interessa tanto usufruir das mordomias do navio, mas muito mais conhecer os locais onde o navio aporta com o máximo de profundidade que conseguirmos. Claro que isto depende muito do itinerário. Se o navio passar muitos dias no mar, sem paragens, então aí não teremos alternativa à fruição no navio. Já fizemos algumas viagens assim, mas esta, de 15 dias, com apenas dois deles a navegar, não se enquadrava nesse tipo. O que nós queríamos ao reservarmos este cruzeiro era prioritariamente conhecer as 10 ilhas do itinerário.

Maho Beach, em São Martinho.

Como temos disponibilidade para viajar quando quisermos, pudemos conjugar os voos com as datas de início e de fim do cruzeiro mais favoráveis, que, no caso vertente do MSC Seaside, ocorreria, de acordo com as opções disponíveis, em uma de três ilhas do itinerário: São Martinho, Guadalupe ou Martinica. Aproveitámos também para fazer a reserva num período em que a Logitravel estava a fazer um desconto de 5% nas viagens de cruzeiro. Claro que antes de optarmos por esta agência, analisámos os preços em outras agências, sobretudo as que já conhecemos por praticarem bons preços, nomeadamente a cruisedirect.com (uma companhia canadiana e americana que pratica preços muito competitivos), com a qual já contratámos outras viagens. Analisando tudo isto, chegámos à conclusão de que a melhor opção era a de viajarmos para São Martinho no dia 12 de março e regressarmos no dia 28. (Havia a opção de um cruzeiro mais curto, de apenas 7 dias, mas nós optámos pelo cruzeiro mais longo de 15 dias). O preço final do nosso cruzeiro para duas pessoas (já com todas as taxas, também as de hotelaria, incluídas) foi de €2.868,10. Os voos de ida e volta (Air France), igualmente para duas pessoas, ficaram em €1.194,30.

Depois destas despesas, calculámos gastar, durante a viagem propriamente dita, mais €800,00. Isto deveria incluir tudo: aluguer de carros, transporte de e para aeroportos, comida, bebidas, souvenirs, etc. Conseguimos cumprir o orçamento previamente estabelecido. Assim, após a compra do cruzeiro e das passagens aéreas, iniciámos a nossa pesquisa sobre aluguer de veículos. Como se verá de seguida, alugámos carro em 5 das 10 ilhas onde estivemos. Entretanto, durante este tempo todo (ainda antes de comprarmos o cruzeiro — o que fizemos com uma antecedência de mais de 3 meses do início da viagem — e depois de o termos feito) pesquisámos exaustivamente sobre as ilhas que iríamos visitar, para termos um ideia, o mais aproximada possível, dos pontos aonde queríamos ir durante a viagem propriamente dita. Tudo isto implica tempo. Como costumamos dizer, uma viagem tem três fases, todas elas importantes e, pelo menos para nós, prazerosas: a preparação da viagem, a viagem propriamente dita, o registo.

Ultrapassadas as duas primeiras fases, iniciamos agora a terceira — aquela que garante que uma viagem não acaba nunca!

Dias 1 e 2 — Saint Martin/ Sint Maarten

Mullet Bay Beach.

A nossa viagem começou bem. Saímos de casa ainda antes da meia-noite (poderíamos considerar, portanto, um dia 0), deixámos o carro com um amigo em Lisboa e apanhámos um uber para o aeroporto. Os voos de Lisboa (5:30) e de Paris (10:30) saíram a horas, apesar dos constrangimentos derivados da greve geral em França, face à nova lei do governo que passa a idade normal de reforma dos 62 para os 64 anos. Pois é. Estava a correr bem de mais, estávamos a andar depressa de mais. A nossa mala de porão não conseguiu acompanhar-nos no voo de Paris para St. Maarten, e isso atrapalhou o início do nosso cruzeiro. Só recuperámos a mala no final do 3º dia do cruzeiro, em St. Kitts e Nevis. Entretanto, tivemos de comprar alguma roupa e produtos de higiene pessoal, guardando os respetivos recibos para mais tarde sermos ressarcidos pela Air France. Esperemos.

À parte disso, e como nem tudo é mau, fomos brindados com um upgrade do camarote no navio, algo que compensou largamente o transtorno do transvio da bagagem. A nossa cabina prévia era a 9020, com vista de mar, mas sem varanda, e o novo camarote que nos atribuíram foi a 9071, não apenas com varanda, mas também com jacuzzi, um quarto enorme, com muita arrumação, e casa de banho com banheira, ou seja, um camarote da categoria Aurea. O rapaz da receção tivera razão ao dizer-nos para estarmos descansados que o novo aposento não era inferior ao previamente acordado.

Assim, os nossos dois primeiros em Saint Martin foram um pouco atribulados. Ficámos hospedados num excelente apartamento em Marigot, no lado francês da ilha, com vista para a marina, mas difícil de encontrar. Felizmente com a ajuda de alguns residentes locais lá chegámos. No primeiro dia, com a perda de tempo à espera e a reclamar (eram muitas pessoas em situação idêntica e o serviço lentíssimo) sobre a mala extraviada, só tivemos tempo para levantar o carro alugado, comer e dormir, mais nada.

Ffryes Beach, em Antígua.

No segundo dia, manhã cedo, iniciámos a nossa visita à ilha. Fomos a Oriente Beach, Mullet Bay Beach e Maho Beach — a célebre praia onde os aviões rasam as nossas cabeças. A parte da tarde foi perdida, pois fomos de novo ao aeroporto na esperança (vã) de que a mala chegasse, depois tivemos de entregar o carro e logo de seguida seguir para o navio para fazermos o check-in. O upgrade da cabina, já relatado foi a agradável surpresa do final do dia. Interrogámo-nos sobre isto, porquê nós, aventamos várias hipóteses que não vamos expor aqui porque são especulativas e o facto é que não sabemos, não procurámos saber — decidimos, tão-só, fruir.

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Dia 3 — Antígua

Em Antígua também alugámos carro. A primeira coisa que se faz quando se sai do navio é ir levantá-lo. Talvez seja importante fazer aqui um parêntesis para dizer o seguinte. Na maioria das Pequenas Antilhas (excluindo as francesas, holandesas, britânicas e americanas, mas, até certo ponto, mesmo nestas) a informação nas estradas, quanto a direções a tomar, é escassa ou nula. Assim, é absolutamente necessário gravar os mapas das ilhas no Google Maps e depois, nos locais, inscrever os nomes dos pontos aonde queremos ir — o Google Maps indicará o trajeto no telemóvel, mesmo offline. Ter os dados móveis ligados nos países fora da Europa custa os olhos da cara!

Em Antígua e Barbuda circula-se pela esquerda. É interessante constatar que conduzir pelo lado contrário da estrada só representa uma verdadeira dificuldade da primeira vez. É um pouco como nadar ou andar de bicicleta: depois da primeira vez, podem passar anos, adaptamo-nos com relativa facilidade. Dado que já tínhamos conduzido pela esquerda, foi o que aconteceu connosco.

O nosso percurso em Antígua. Com todas as paragens, fizemo-lo numas seis horas.

Saímos da capital em direção a Hermitage Bay, deixando, uns 15 minutos depois, a estrada principal para percorrermos uma estrada secundária de terra batida de vários quilómetros, até à grande baía. A praia de águas claras é bonita. Tomámos banho e usufruímos do local durante uns 45 minutos. De volta à estrada, rumámos a Ffryes Beach, mais uma (dizem que Antígua tem 365 — uma para cada dia do ano) praia lindíssima onde aproveitámos para descansar, refrescar e tirar algumas fotos. As praias seguintes foram as Turners Beach (onde banhámos) e a Morris Bay. Era nossa intenção seguirmos até Shirley Heights, e desfrutarmos da vista privilegiada para English Harbour, mas, ao subirmos a colina, deparámos com um posto de controlo onde nos disseram que estávamos a entrar num parque natural e que teríamos de pagar 15USD por pessoa. Decidimos não o fazer e voltámos para trás. Tínhamos ainda que comprar roupa e procurar um sítio com internet para ver se tínhamos notícias da Air France, pelo que entregámos o carro mais cedo que o previsto. Mesmo assim corremos um espaço geográfico que corresponde a cerca de um terço desta pequena ilha; o dia valeu a pena e gostámos imenso das praias de Antígua.

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Dia 4 — St. Kitts and Nevis

St. Kitts é, aparentemente, a ilha menos atrativa das que visitámos nesta viagem. As três praias mais conhecidas são todas a sul da capital, Basseterre. Tudo nesta cidade está virado para o turismo e não há como escapar (a menos que se queira ficar por ali sem fazer nada) aos transportadores locais que levam os cruzeiristas, em grupos que podem chegar às 20 pessoas e talvez mais, até Cockleshell Beach por 20USD cada, ida e volta (o mesmo montante é aceite em euros), marcando um horário consensual para o regresso à cidade. No nosso caso, ficámos cerca de 4 horas na praia, um tempo exagerado, mas, na verdade, também não tínhamos mais nada para fazer. Lêramos anteriormente que a Turtle Beach — muito perto da Cockleshell — era muito bonita, com areia cor-de-rosa, pelo que pedimos ao motorista para aí nos deixar, que depois seguiríamos a pé para Cockleshell. Apesar dos avisos de que a praia estava impraticável, insistimos em ficar. De facto, a praia todinha, água e areia, estava inundada por algas e limos, e era completamente impossível ir a banhos. Estávamos sós na praia.

Cockleshell Beach.

Finalmente em Cockleshell, uma bonita praia em frente à ilha de Nevis, podemos banhar-nos à vontade. A outra praia ainda não referida do trio das melhores praias do sul é Frigate Bay. O motorista do minibus, Melrose Cooper, era um personagem interessante. Disse-nos que antes de Colombo (supostamente o descobridor da ilha) já tinham estado em St. Kitts portugueses, franceses e britânicos, o que é comprovado por alguns artefatos e objetos encontrados perto de Basseterre. Cooper disse-nos que uma das suas avós era portuguesa e que na povoação onde vive, no norte da ilha, há uma pequena comunidade portuguesa. Ele também nos disse que o governo de St. Kitts and Nevis está a apostar fortemente no turismo, vendendo terrenos para grandes empreendimentos estrangeiros. Mostrou-nos várias casas que podem atingir os 5 milhões USD. St. Kitts pareceu-nos também a ilha mais pobre, pois ainda não aproveitou todo o potencial turístico, e a agricultura pareceu-nos incipiente, com terrenos mais áridos do que os das ilhas circundantes (apesar de, enquanto colónia britânica, St Kitts — até ao século XIX separada de Nevis — ter sido a mais rica per capita do Caribe, graças ao cultivo da cana-de-açúcar).

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Dia 5 — Dominica

Dominica é uma ilha fantástica. Verde, montanhosa — com uma pérola escondida: uma das praias mais bonitas do mundo — Dominica foi a última ilha das Caraíbas a ser colonizada, face à feroz resistência dos nativos caribenhos. Foi igualmente a última ilha a formar-se no Caribe, há cerca de 26 milhões de anos, e está situada a meio do arco das ilhas vulcânicas das Pequenas Antilhas, que se estende desde a ilha de Saba, no norte, até Grenada, a sul. Dos 16 vulcões incluídos neste arco, 5 estão em Dominica. Esta é, portanto, uma ilha explosiva e, a condizer com a natureza em geral, as pessoas são igualmente fantásticas. Aqui o turista é tratado como outra pessoa qualquer, com simpatia mas sem subserviência, e ninguém tenta tirar partido, aumentando preços, esperando gratificações ou aproveitando-se de alguma desatenção. Sentimo-nos completamente seguros em Dominica, tal como nas outras ilhas que visitámos.

A caminho de Calibishie.

Quisemos reservar previamente uma viatura para nos deslocarmos a Batibou Beach (a tal pérola escondida), que fica no norte da ilha, a cerca de 70 quilómetros do terminal de cruzeiros, mas isso não foi possível porque as principais agências de aluguer de automóveis ficam na zona do aeroporto, precisamente no nordeste, e as agências perto de Rouseau já não tinham viaturas disponíveis. Decidimos ir pelos meios locais, ou seja, numa das vans que saem da cidade, bem perto da saída do terminal de cruzeiros. Mas antes tivemos de ir a um banco trocar dinheiro (50 EUR deu 129XCD) pois não conseguimos levantar dólares caribenhos nos ATM, não sei porquê (o mesmo aconteceu em Santa Lúcia). Tivemos de ir para uma fila e demorou quase uma hora até que conseguíssemos cambiar os €50. Se se quiser andar sempre em lugares turísticos não vamos provavelmente precisar de cambiar euros, mas temos de fazê-lo se quisermos usar os transportes locais. De qualquer forma, estes 129XCD chegaram até ao fim da viagem: usámo-los ainda em Santa Lúcia, Grenada e São Vicente e Granadinas.

Descida para Batibou.

Já passava bastante das 10 da manhã quando saímos do banco e a nossa viagem começava a ficar em risco. Mesmo assim decidimos arriscar, e fomos. A nossa meta era Calibishie, bem no norte da ilha, a cerca de 3,5 kms da praia de Batibou. Há duas formas de chegar a Calibishie: pela costa oeste, via Portsmouth, ou pelo centro da ilha, sempre por estradas apertadas e sinuosas (Dominica é a ilha mais montanhosa das Pequenas Antilhas), e um troço final pela costa leste. Se se for pela costa oeste pode pedir-se ao motorista para parar no ponto da estrada onde fica a entrada para Batibou, pois esta praia fica antes de Calibishie quando se vai por Portsmouth: neste caso basta descer o caminho de terra batida até a praia — uns 15 minutos a pé. Se, pelo contrário, se for pela estrada do centro/leste temos de sair em Calibishie e fazer o resto do percurso a pé (dá para apanhar uma van que vá para Portsmouth, mas nós não quisemos esperar e fomos a pé) — os tais (acidentados) 3,5 kms. Somos bons caminhantes, pelo que isso não constituiu problema.

A praia de Batibou fica numa propriedade privada e existem seguranças que controlam as entradas e cobram 5 USD por cabeça. Em contrapartida oferecem instalações sanitárias, bancos e mesas de madeira à sombra, e um bar/restaurante igualmente em madeira (perfeitamente integrado no ambiente circundante) que, ouvimos dizer, tem à frente uma excelente cozinheira — mas que, infelizmente, estava fechado. Mal chegámos à praia percebemos que estávamos num lugar incomparável, de singularidade e exclusividade invulgares. Além de dois seguranças, só estavam na praia, quando chegámos, um casal e um guia que ali o tinha transportado. A praia era praticamente só para nós. Rodeada por uma imensidade de coqueiros e outras plantas e árvores, com águas transparentes e calmas, esta baía é, de facto, maravilhosa. O relógio marcava a primeira hora da tarde quando viemos embora. A nossa ideia era a de regressarmos a Rouseau via Portsmouth para não termos de fazer mais uma caminhada até Calibishie e também porque a viagem é mais rápida pela costa oeste. Por sorte, mal tínhamos acabado de chegar à estrada asfaltada passou uma van em direção a Portsmouth que parou ao nosso sinal. Chegados a Portsmouth, mal tínhamos posto os pés no chão já estava alguém a perguntar se íamos para Rouseau (e outro alguém a perguntar se queríamos weed), pelo que também não esperámos tempo nenhum para seguir viagem (embora as vans só partam quando estão cheias, nos pontos principais enchem depressa).

Já no paraíso.

As viagens são pagas no final, quando saímos pagamos ao motorista ou ao ajudante deste. Muitas vezes temos de levantar-nos para outros passageiros saírem e é comum transportar-se todo o tipo de mercadorias debaixo dos bancos e, por vezes, ter de retirá-las e voltar a colocá-las, consoante as necessidades. Alguns motoristas circulam a velocidades incríveis, tendo em conta as condições das estradas, sobretudo as frequentes curvas fechadas (apesar de tudo as estradas não estão tão más como seria de supor, após a grande devastação provocada pelo furacão Maria em setembro de 2017). Seja como for, adorámos viajar de van em Dominica. De Rouseau a Calibishie pagámos 12,5 XCD cada; de Batibou a Portsmouth, 8 XCD; e de Portsmouth a Rouseau, 10 XCD.

Uma vez que ainda chegámos cedo, fomos dar uma volta pela cidade. Comprámos duas garrafas de bebidas frescas a um vendedor de rua: uma de água de coco e outra de sumo de tamarindo. Ambas estavam deliciosas. Fomos ao navio comer qualquer coisa, mas decidimos regressar à cidade e procurar o rapaz das bebidas. Desta feita comprámos um sumo de goiaba para a Fla e outro de um fruto de que não recordo o nome (mas era vermelho), que continha também gengibre. Estavam, de novo, deliciosos. Terminámos a nossa visita a Dominica deambulando pelas ruas de Rouseau, cheias de vendedores ambulantes, música caribenha, casa típicas, fumo de maconha, gente simpática e muitos movimento e alegria.

O nosso percurso nas vans locais em Dominica — Rouseu-Calibishie-Portsmouth-Rouseau, em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio.

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Dia 6 — Martinica

Quando chegámos a Fort de France o dia estava cinzento e chuvoso. Nesta ilha também alugámos um carro, pelo que a primeira coisa que fizemos foi procurar a pessoa que no-lo veio trazer à saída do terminal de cruzeiros. A agência com quem contratámos (Twenté) em Martinica trabalha bem, já tínhamos tratado das principais formalidades previamente pela internet, e assim o levantamento do carro (como posteriormente a entrega) foi rápida. Devidamente instalados na viatura, dirigimo-nos para sul, ao encontro da primeira praia que havíamos selecionado — Anse Mitan. O tempo continuava chuvoso e fechado, e talvez por isso não achámos na praia nada de especial, tirámos duas fotos, e viemos embora.

Continuámos a descer até encontrarmos o desvio para a Anse Noire, uma belíssima praia de areia negra, encravada entre duas colinas, lá no fundo, acessível após pisarmos 130 degraus. Vale a pena. Mesmo a chover a praia pareceu-nos lindíssima, pena que não estivessem as melhores condições meteorológicas para mergulharmos nas suas águas. Quando vínhamos a meio da subida dos 130 degraus começou a chover mais intensamente, pelo que tivemos de correr para o carro para nos abrigarmos.

Anse Noire.

Seguimos viagem, sempre para sul, até ao Memorial aos Escravos de Anse Cafard, um conjunto de estátuas evocando a escravatura negra, da autoria de Laurent Valère, um artista local. Gostámos bastante deste trabalho realizado em frente a um rochedo no mar que, devido à sua forma, lhe deram o nome de Le Diamand. A zona costeira em frente ao rochedo ganhou o mesmo nome.

Tendo já atingido o sul da ilha, contornámo-la para leste, em direção à nossa próxima paragem — Anse Figuier. Nesta altura já o tempo tinha melhorado bastante e o sol brilhava lá no alto, tornando tudo mais vivo, colorido e alegre: as nuvens mais brancas, o céu mais azul, as águas mais turquesas. Anse Figuier é uma praia familiar, com uma zona arborizada onde as pessoas almoçam, fazem churrascos, enquanto as crianças brincam nas águas tranquilas, quase paradas. A praia é linda de verdade e ali ficámos algum tempo a apreciá-la. Continuando viagem, passámos por Sainte Anne, uma belíssima vila marítima, até atingirmos aquela que dizem ser a praia mais badalada de Martinica — a bela Grand Anse des Salines.

Grand Anse des Salines.

Esta praia é bastante grande, no seio de uma larga baía, e é, de facto, bonita. Banhámo-nos, passeámos, comprámos umas tiras de coco e uns bolinhos de frango, para enganar a fome, a uma vendedora de rua, e viemos embora. Finalmente, fomos ainda à ponta sudeste da ilha, a uma praia chamada Anse Michel, mas foi uma desilusão. Tal como acontecera em Turtle Beach (em St. Kitts), a praia estava cheia de algas e limos, cheirava mal, pelo que demos de imediato meia-volta.

Regressámos diretamente ao terminal de cruzeiros, ainda a tempo de almoçar (há almoço até as 4 da tarde). Depois descansámos um pouco e saímos de novo com intenção de irmos a Saint Pierre, metermos gasolina e entregarmos o carro, mas, face ao trânsito, verificámos que não tínhamos tempo para isso, pelo que fomos apenas até uma praia que fica 10 quilómetros a norte de Forte de France para vermos o pôr do sol. Devolvemos o carro no terminal às 19 horas e fomos para o navio já de noite.

O nosso percurso de carro em Martinica.

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Dia 7 — Guadalupe

O primeiro dia em Guadalupe não foi nada de especial. Tínhamos planeado ir à ilha Terre de Hault, mas sabíamos que era muito apertado dado que o navio chegava às 8:00 e o ferry para Terre de Hault partia às 8:30. Às 8:00 já estávamos junto ao portaló, mas logo por azar o desembarque atrasou uns 15 minutos. Ainda corremos (o terminal do ferry dista uns 800 metros do terminal de cruzeiros) mas, claro, já não deu, faltavam 2 minutos para o barco partir e as portas já estavam fechadas. Aos domingos os transportes públicos de Guadalupe praticamente não funcionam. Na paragem de autocarros, aonde nos deslocámos na esperança de apanharmos um para a zona das praias, estava um casal francês e a mulher disse-nos que a tinham informado de que havia autocarro. Mas não passava nenhum. Esta senhora, já de certa idade, começou, expedita, a pedir boleia. E quando, quase de imediato, um carro parou, disse à motorista que ia para Goisier e que a boleia era para quatro! E lá fomos para Goisier.

Ilet Goisier.

O casal francês ficou antes, mas a condutora fez questão que nós seguíssemos mais um pouco, porque lhe dissemos que íamos apanhar o barco para a Ilet de Goisier e, segundo ela, o ponto mais próximo era mais além e ela queria deixar-nos o mais perto possível do barco. Para cúmulo quis dar-nos o seu número de telefone para lhe ligarmos quando quiséssemos regressar a Pointe-a-Pitre, que ela nos transportaria de volta. Agradecemos muito, mas dissemos que era de mais, que iríamos pelos nossos meios. E, assim, rapidamente apanhámos o barco para a Ilet Goisier, uma pequena ilha a uns 800 metros da praia de Goisier, a qual, estava bastante suja com limos.

Talvez seja altura de referir que, além das praias já mencionadas inundadas com limos ou algas, vimos outras onde ocorria o mesmo fenómeno e vimos também muitas zonas de limos ou algas no mar das Caraíbas enquanto o navio navegava. Pensando sobre isto, parece-me que este fenómeno está relacionado com a temperatura das águas, que aqui é relativamente elevada, e com as correntes que posteriormente levam a vegetação para as praias.

Painel em Pointe-a-Pitre.

No ilhéu a água estava radiante, tomámos banho e por ali ficámos cerca de hora e meia. O percurso de barco — ida e volta — custa 5 euros por pessoa. E lá fizemos mais uma grande caminhada de 7,5 quilómetros até à capital, sob um sol inclemente, para regressarmos ao navio. Já tinha dito que somos bons caminhantes.

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Dia 8 — Santa Lúcia

Em Santa Lúcia já tínhamos carro reservado. Tal como acontecera em Antígua, foi necessário pagar 20USD (ou 20EUR — é sempre possível a equivalência) para termos uma licença de condução local, uma forma clara de sacarem mais dinheiro ao turista. É sempre necessário apresentar um cartão de crédito para que as agências retirem uma caução provisória (em Santa Lúcia foram 1.150 USD) como precaução para qualquer eventualidade. Arrumada a papelada e a inspeção ao veículo — o que sempre gasta uma preciosa meia hora — lá partimos para a nossa aventura em Santa Lúcia. Rumo a sul.

Anse Chastanet.

A primeira paragem foi em Marigot Bay. Apreciámos a baía, tirámos algumas fotos e seguimos viagem por Anse La Raye e Canaries, até a pitoresca cidade de Soufrière, antecâmara da região das Pitons. Aqui fizemos um pequeno desvio para visitarmos a Anse Chastanet Beach, através de uma pequena estrada litoral muito difícil, esburacada, estreita, cheia de pedras soltas, que transpusemos, durante uns 2 quilómetros, a passo de caracol. A praia é bonita, parte dela pertence a um resort privado de luxo, mas o tempo chuvoso não ajudou. Durante todo o tempo em que permanecemos em Santa Lúcia, o tempo alternou entre chuvadas fortes, aguaceiros rápidos, e boas abertas. Percorrida a estrada difícil de volta a Soufrière, com extremo cuidado para não danificarmos o carro, seguimos viagem em direção a Sugar Beach, já na região das Pitons. Tivemos de subir uma longa colina até atingirmos um ponto em que é sempre a descer até à praia. Para aqui chegarmos temos de passar pelas instalações do hotel Viceroi (dizem que há um caminho alternativo, mas nós não o vimos) que é, em suma, todo o espaço visível desde o pórtico da entrada até à praia. A distância entre um e outra é considerável, tal como o declive.

Passámos uma primeira cancela onde o guarda nos avisa que, antes da segunda cancela, devemos virar à direita e estacionar o carro no pequeno parque que logo se encontra poucos metros à frente. Depois, tivemos de continuar a pé. O espaço está muito bem organizado, com belos relvados, arbustos, plantas e flores arranjados, estrada bem asfaltada. A praia é, de facto, bonita, mas os equipamentos para satisfação dos turistas — cadeiras, toldos, boias, pontões, kayaks, veleiros, barcos a motor, funcionários, hotel, restaurante e até uma rede, onde quem quiser se pode deitar sobre a água a ler um livro, por exemplo — roubam-lhe, sem dúvida, alguma beleza que ela, por si só, seguramente teria.

Sugar Beach.

Em compensação, a água nesta praia é de uma transparência dificilmente igualável, e não é por acaso que muitos amantes do mergulho vêm de propósito a Sugar Beach. A maioria das praias em Santa Lúcia é de areia negra, de origem vulcânica, mas Sugar Beach tem areia branca, importada da Guiana: nada mais nada menos que 7.500 toneladas.

Depois do banho da praxe não nos sobrou tempo para muito mais. Tínhamos planeado ir até ao extremo sul da ilha, mas verificámos que não dava tempo. Decidimos regressar a Castries e aí avaliar se ainda poderíamos ir até Reduit Beach, uma grande praia de 8 kms, um pouco a norte da cidade. Tivemos de fazer todo o caminho de volta subindo e descendo várias montanhas e enfrentando por vezes chuva intensa, o que nos obrigou a refrear a velocidade. Chegados a Castries, quisemos ir a Reduit Beach (ainda tínhamos duas horas até entregarmos o carro) mas uns poucos quilómetros depois apanhámos tanto trânsito, com longas filas, que decidimos voltar. Assim, não conseguimos fazer tudo o que planeáramos, por falta de tempo, mas fizemos o principal. Para compensar, ligámos o jacuzzi na varanda do nosso quarto — e saímos de Santa Lúcia relaxando, enquanto o sol pousava no Mar das Caraíbas.

O nosso percurso em Santa Lúcia.

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Dia 9 — Barbados

Eu tinha dito que somos bons caminhantes? Mentira, nós somos grandes caminhantes! Hoje fizemos, a pé, 20,890 quilómetros. De manhã fomos para sul do terminal de cruzeiros, e à tarde fomos ver o pôr-do-sol (e banhar-nos) a Brandons Beach, a norte. Começámos, então, de manhã bem cedo, a nossa caminhada até Carlisle Bay. São três, as praias (de facto, é um areal contínuo mas os habitantes locais decidiram atribuir-lhe várias designações — como acontece, por exemplo, nas praias da Costa da Caparica até à Fonte da Telha), calmas, abrigadas, contidas na larga baía: Bayshore Beach, Pebbles Beach e Brownes Beach. No entanto, não parámos por aqui. No final da Brownes Beach há um passadiço de madeira sobre a praia — The Richard Haynes Boardwalk — que segue até Accra Beach, uma linda praia já com alguma ondulação suave, ótima para “jacarés”. Foi aqui que decidimos tomar um banho revigorante, após a primeira caminhada de 6,6 quilómetros. Decorrido o merecido descanso, voltámos a percorrer, agora em sentido contrário, o Richard Haynes Boardwalk, aproveitando para apreciar as muitas obras ali expostas — pinturas e fotografias de diversos autores, todas em grandes quadrados de igual formato, portanto, altamente “instagramáveis”. Bem pensado — e, de facto, há ali obras de inegável valor!

Carlisle Bay.

Toda a costa sudoeste de Barbados está impregnada de praias, algumas pequeninas, protegidas, sem qualquer tipo de ondulação. Uma delas, inserida numa zona que é Património Mundial da Unesco, é Sugar Beach, uma praia ideal para quem gosta de estar numa enorme “piscina” de água salgada. Pouco tempo depois estávamos de novo em Carlisle Bay, e a tomar banho em Pebbles Beach. Para recuperarmos as energias necessárias ao resto da viagem, a Fla tomou uma água de coco e eu bebi uma limonada, que comprámos num quiosque pelo preço de 5 dólares de Barbados cada. A forma de conseguirmos dólares de Barbados foi a seguinte. Quando saímos do navio após a chegada a Barbados, passámos pelo terminal e deparámo-nos com várias bancas de vendedores locais (sempre há lojas e bancas de vendedores locais nos terminais de cruzeiros); dirigimo-nos a uma delas e perguntei à vendedora quanto custava um boné de Barbados, ao que ela respondeu “10 USD” (já se sabe que dólares americanos ou euros por estas bandas são a mesma coisa), eu disse-lhe que dava 20 euros e queria receber o troco em dólares de Barbados (BBD). A senhora disse que não podia fazer isso, que não estava autorizada a cambiar dinheiro, e eu calmamente retorqui que “tudo bem”, então ia comprar noutro lado. A senhora então concordou em dar-me os 10 euros de troco em moeda local. É sempre bom ter alguma moeda local para podermos andar nos transportes públicos e também para comprarmos água engarrafada que, no navio, custa uma exorbitância.

Brandons Beach.

Depois de refrescados por dentro e por fora regressámos a Bridgtown e ao navio, protegidos do sol, com toalhas finas a cobrir-nos a cabeça , o pescoço e os membros superiores, que o astro-rei, aqui, não é para brincadeiras. Almoçámos e descansámos. Ao final do dia, como já referimos, fomos banhar-nos e ver o pôr-do-sol a Brandons Beach. Ao longo da praia sentia-se o cheiro a maconha. Passámos perto de duas moças que fumavam um charro e dissemos-lhe que cheirava bem. Elas riram bastante. Quando saíamos da praia começo a chover. Abrigámo-nos debaixo das árvores e a Fla reconheceu um pé de tamarindo.

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Dia 10 — Navegando

  • Acordámos e tomámos o pequeno almoço.
  • Depois procurámos um local sossegado (para dar tempo ao camareiro de limpar o quarto) onde comecei este relato da viagem e a Fla leu o seu livro.
  • Viemos deixar as coisas ao quarto e fomos almoçar.
  • Almoçámos.
  • A Fla fez uma sesta e eu continuei o meu relato.
  • Ao fim da tarde fomos para o nosso jacuzzi privado.
Relaxando a bordo.
  • É de referir que as ilhas das Pequenas Antilhas ficam todas perto umas das outras. Então o navio não passa de uma ilha para outra ilha logo a seguir — o navio salta ilhas e anda para baixo e para cima a uma velocidade muito baixa, poupando muito em combustível. Para passar um dia no mar (o que convém para que as pessoas façam mais gastos a bordo) é necessário dar voltas grandes, contornando ilhas mais distantes, e andar a passo de caracol. Neste dia, para irmos de Barbados a Grenada, contornámos as ilhas de Martinica e Santa Lúcia, completamente fora de rota.

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Dia 11 — Granada

Tínhamos programado ir às duas praias mais conhecidas de Grenada, quase ao lado uma da outra: Grand Anse e BBC Beach. E assim aconteceu. Mesmo ao lado do terminal de cruzeiros (os passageiros forçosamente têm de passar por um funcionário que os encaminha para o local certo) há um pequeno pontão onde atracam os táxis marítimos que nos levam diretamente à Grand Anse. Cada bilhete — ida e volta — custa 10 euros (ou 10 USD) mas nós não queríamos voltar no “water taxi”, por isso só pagámos 5 euros cada. O pontão de desembarque na Grand Anse fica na extremidade mais próxima, mas a praia é grande e para chegar à outra ponta tem de se andar bastante. Foi o que fizemos, devagarinho, pela borda d’água. Era relativamente cedo, havia pouca gente e o sol ainda não incomodava, pelo que pudemos apreciar com calma o trajeto. A praia é, de facto, linda, merece a fama que tem de ser uma das mais bonitas do Caribe.

Saint George.

No fim da praia há uma escadaria que segue até à estrada asfaltada. Depois é só subir um pequeno troço (talvez uns 150 metros) até encontrarmos um caminho à direita, que conduz à BBC Beach. Esta praia é muito mais pequena que a Grand Anse e não é tão frequentada, mas é igualmente muito boa para banhos. Pudemos comprová-lo, nadando à-vontade na baía protegida sem que sentíssemos alguma dificuldade provocada por ondulação ou corrente. Algum tempo depois, fizemos o caminho inverso. Na Grand Anse há um espaço comercial com wifi aberto e a estrada que leva a Saint George é mesmo ali. Decidimos procurar uma paragem de van, o que foi muito fácil. Na paragem estava um senhor que nos informou logo que deveríamos pagar 2,5 XCD por pessoa, e nada mais, pela passagem até Saint George. Disse-nos que era taxista e que podíamos ir tomar uma cervejinha mais barata ao bar dos taxistas que fica à saída do terminal de cruzeiros. Era facilmente alcançável, bastava estar atento aos homens de polos azuis que sempre estavam reunidos por lá. Perguntei-lhe se ele era natural de Grenada e como era viver ali e ele respondeu “homem, isto é o paraíso!”

Grand Anse.

No meio da conversa apareceu uma van e ele próprio mandou o motorista parar e ao ajudante (o motorista tem sempre um ajudante que colabora na acomodação de pessoas e mercadorias, e também pode receber o dinheiro das passagens) que seguíamos para Saint George. Saímos uma paragem antes do centro para podermos andar mais um pouco pela cidade. As pessoas aqui — em todas as ilhas, mas notámos isso mais em Dominica, Grenada e Saint Vincent — são de uma amabilidade extraordinária. Se, por exemplo, perguntarmos a alguém onde fica determinado lugar, a pessoa vai dizer-nos, suponhamos, para virarmos mais à frente à esquerda, mas vai posicionar-se de forma a verificar se realmente viramos no sítio certo. Se não o fizermos, ela gesticulará, ou gritará, se não estivermos a olhar, até se certificar que, de facto, tomámos o caminho adequado. Se, por exemplo, desejarmos “bom dia” a uma pessoa na rua, ela não se limitará a retribuir, vai querer saber como estamos hoje, como está a ser o nosso dia, se estamos a gostar do passeio, etc.

Depois do almoço no navio, saímos de novo para mais uma volta por Saint George. No porto de pesca subi para a amurada de uma embarcação de pesca que estava acostada e pedi à Fla para me tirar uma foto. Esta demorou um pouco, pois estava a falar com uma moças que passavam por ali e, entretanto, imperceptivelmente, o barco começou a afastar-se do cais. Fiquei longe de mais para poder saltar para terra firme. A Fla puxou um dos cabos que amarrava o barco, mas este, teimosamente, não se aproximava da terra.. Pelo canto do olho eu via algumas pessoas num barco ao lado a observarem a cena. Foi quando um senhor vindo de lá veio ajudar a Fla e eu pude saltar para o cais. A Fla disse-lhe que ele era forte e ele respondeu “não, tu é que és forte!” Agradeci-lhe e ele disse, com um largo sorriso, que não havia problema, estava tudo bem. Junto ao mercado comprámos um coco; a Fla bebeu o suco e eu comi a polpa. Uma das coisas que adorámos em Dominica, Grenada e Saint Vincent foi termos andado nos transportes locais, juntos com a população. Tanto quanto nos apercebemos, mais ninguém no navio fez isto, mas para nós constituiu um enorme privilégio.

Saint George.

De acordo com a nossa experiência, é não só muito mais barato, mas também mais seguro e interessante, viajar nas vans locais do que nos táxis ou outro tipo de transporte similar. Vimos vários turistas a regatear preços com motoristas de táxis, mas isso nunca aconteceu connosco.

Grenada ficará nos nossos corações.

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Dia 12 — São Vicente e Granadinas

Já o tínhamos dito. São Vicente é outra ilha muito especial. Chegámos sob chuva intensa, tudo cinzento, mas já dera para perceber que por estas bandas nada é definitivo no que toca ao tempo: a chuva vai alternando com o tempo seco e o céu passa de cinzento a azul sem percebermos como. Foi o que aconteceu neste dia. Tomámos a van (primeiro, claro, temos sempre de conversar com as pessoas para saber onde ir, e há sempre alguém disposto a ajudar) em direção a Indian Bay sob forte chuvada e chegámos ao nosso destino com o sol a inundar tudo à nossa volta. Outro pormenor interessante sobre a amabilidade local fica patente no exemplo seguinte. Quando descemos na paragem, ficámos à espera que a van seguisse viagem para depois atravessarmos a estrada, mas o motorista não avançou, fez questão de que atravessássemos à sua frente, enquanto os motoristas dos carros em sentido contrário fizeram o mesmo. Isto aconteceu-nos mais vezes, sempre que tínhamos de atravessar a estrada: todos esperam para que sigamos em segurança.

Indian Bay.

Posto isto, descemos até Indian Bay, uma pequena baía pouco turística, quase deserta, talvez porque a praia tenha muitas rochas submersas, mas a água, essa, é de uma transparência invejável. Com algum cuidado e escolhendo um bom local é possível banharmo-nos, e foi o que fizemos. A distância desta praia até Villa Beach cobre-se com uma breve caminhada (uns 15 minutos) e esta sim, é uma praia turística, com muitos banhistas estrangeiros. Em frente, a uns 300 metros, fica uma pequena ilha — Young Island — e vários barqueiros levam e trazem turistas de volta por 5 USD/EUR. A praia da ilha é na sua maior parte privada, pertence a um resort, e ninguém nos avisa previamente, o que torna ainda mais desagradável ficar confinado a um canto da praia. Para nós isto não constituiu um problema porque não pretendíamos ficar estendidos numa toalha a estorricar, o nosso objetivo eram os banhos de mar, mais do que os de sol.

Young Island.

A água nesta praia é simplesmente deliciosa — transparente, calma, termicamente perfeita, e com uma textura sedosa, como se tivesse misturado um óleo natural hidratante. Banhámo-nos várias vezes e quando vimos os barqueiro na outra margem a embarcar mais passageiros para trazer para a ilha, preparámos as nossas coisas para irmos embora. Chegados à costa dirigimo-nos à estrada (que é logo ali) para tomarmos uma van para Kingstown, a capital de São Vicente, onde estava o navio. Por vezes há poucos lugares e temos de ficar separados nas vans, mas isso nunca foi problema nenhum. Uma das coisas em que reparei foi que a Fla podia ficar sentada apertadinha entre dois passageiros que estas jamais tentariam tirar proveito da situação. Não eram apenas a simpatia e a solidariedade que estavam presentes — o respeito também. A música é outro ingrediente sempre presente neste tipo de transporte. Música caribenha, suponho, com o volume sempre alto. A viagem custou-nos os mesmo 5 XCD da ida (para ambos).

Villa Beach.

Depois do almoço no navio — e como nós comíamos nestes almoços no navio depois das caminhadas da manhã! — voltámos a Kingstown para conhecermos melhor a cidade. Pessoal de todas as idades e géneros a enrolar e fumar charros é algo bastante comum nestas ilhas, mas mais ainda em São Vicente, onde nos pareceu particularmente generalizado. Perguntámos a um jovem polícia, que foi connosco para nos indicar o caminho para o mercado central, se o consumo da cannabis era livre e ele respondeu-nos que, fora dos edifícios públicos e dos transportes, sim, era livre. Este polícia não se limitou, afinal, a indicar-nos o caminho, ele fez questão de fazer connosco o caminho e, já com o mercado à vista, quis acompanhar-nos a uma das portas. Quando lhe agradecemos e perguntámos se podíamos tirar uma foto com ele, acedeu com um sorriso feliz e cativante.

Nestas ilhas há muitas crianças e algumas, vendo-nos com as câmaras, quiseram tirar fotos connosco. Quando havia adultos por perto perguntávamos se podíamos tirar fotos, mas nunca ninguém se opôs, ninguém tem problemas com isso. As crianças são naturalmente alegres e os adultos, que mais parecem crianças grandes, são alegres também. Não parece haver grande diferenciação social, embora haja com certeza — mas parece que ninguém liga muito a isso. As pessoa parecem viver bem com o pouco que têm e é da sua natureza serem felizes. Pelo caminho continuámos a sentir o cheiro intenso da maconha. Comprámos uma garrafa de água de coco a uma vendedora de rua (de manhã tínhamos comprado também duas garrafas de suco — uma de tamarindo e outra daquele fruto vermelho de que nunca lembro o nome — será beterraba? — com gengibre) e um pouco mais à frente, num local junto ao porto de pesca, onde há vários bares, deparámos com uma multidão — uns enrolando ou fumando charros, outros jogando às cartas ou ao dominó, outros bebendo cerveja, outros apenas observando, alguns dormitando, muitos gritando ou falando alto para se sobreporem à música — que se estendia ao longo do cais, com gente amontoada dentro e fora dos bares.

Jogo de dominó em Kingstown.

A algazarra era tanta que nos lembrámos do som das andorinhas quando chegam na primavera e se afadigam nas tarefas de arrumação das casas para mais uma temporada. Um chilrear intenso. Todos ficavam felizes quando reparavam em nós, pediam fotos, queriam que tomássemos uma cerveja, e uma moça que jogava dominó batendo com as pedras na mesa sorria-nos satisfeita por ter assistência estrangeira. E lá viemos para o navio, satisfeitos por mais uma jornada rica em calor — solar e humano. Um e outro mesclam-se em São Vicente de uma forma que nos deixou saudades ainda antes da partida.

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Dia 13 — Martinica

Já tínhamos estado em Martinica, pelo que desta feita decidimos ficar no navio durante grande parte do dia, a descansar. Saímos apenas às 4 da tarde, quando o sol descia mais veloz e o calor era mais suportável. Demos uma volta por Fort-de-France, batemos o centro da cidade, fotografámos alguns edifícios interessantes até que nos sentámos numa esplanada com wi-fi a tomar uma cerveja local e uma água.

Fla e Daniel.

Já mais para o fim da tarde fomos andando em direção ao mar, até uma zona com um parque e uma pequena praia onde os habitantes locais se reúnem aos fins de semana. Avistámos um pequeno grupo que participava de um casamento: os noivos e, provavelmente, uns 7 ou 8 convidados, Destes, dois ou três eram crianças. O mais pequeno era um rapaz dos seus 3 ou 4 anos, que se chama Daniel. Metemo-nos com ele e logo interagiu connosco, não parando de sorrir. Um dos convidados tinha uma câmara muito rudimentar, dessas pequeninas, tipo go-pro, e quando nos viu por ali pediu-me para fotografar o grupo todo. Acedi com prazer, corrigi um pouco o posicionamento por causa do sol que estava a pôr-se, e fiz várias fotografias com a pequena câmara deles. Entretanto, a Fla conversou com a mãe do Daniel e perguntou-lhe se ela queria que tirássemos fotos com as nossas câmaras e depois as remetêssemos para ela através do whatsapp. E assim tirámos várias fotos do casamento, mais um episódio inesperado que enriqueceu o nosso dia. Voltámos satisfeitos para o navio.

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Dia 14 — Guadalupe

Martinica e Guadalupe foram as duas únicas ilhas que repetimos neste cruzeiro. No primeiro dia em Guadalupe, tal como já dissemos, não conseguimos apanhar o ferry que pretendíamos, e desta feita também não. No entanto, já no primeiro dia (que também foi um domingo) tínhamos reparado que junto ao terminal de ferrys há um parque com viaturas de aluguer e vários contentores que servem de escritórios para as respetivas agências. Assim, neste dia, partimos logo para o plano B e alugámos um carro (um Kia Pikanto) por 42€. A ilha de Guadalupe, em forma de borboleta (a Fla diz que lhe lembra uns pulmões), são na realidade duas ilhas, separadas por um estreito canal: Basse-Terre e Grand-Terre. Nós andámos pelas ruas e, provavelmente, fomos às melhores praias de ambas.

La Caravelle.

De manhã fomos à bonita praia La Caravelle, em Grand-Terre, e depois, ainda nesta ilha, visitámos as praias de Souffleur, em Port-Louis (muito movimentada), onde a Fla comprou uma garrafa de água de coco muito barata, apenas 2€, e a praia de La Chapelle, na Anse-Bertrand. Da parte da tarde fomos a Basse-Terre, onde visitámos Sainte-Rose, Deshaies e a magnífica praia de Grand Anse, grande realmente, bonita e muito frequentada. Foi bastante difícil estacionar, tivemos de deixar o carro bem longe e, por causa disso, não chegámos a banhar-nos nesta praia, apenas tirámos fotos, tivemos algum receio em demorar-nos porque o carro estava mal estacionado. Isto não nos incomodou minimamente, pois banhos foi algo que nunca nos faltou durante esta viagem, portanto, mais um menos um, não teria nunca qualquer importância. Aliás, o banho relaxante de fim do dia já estava à nossa espera na varanda do nosso quarto.

No entanto, antes de entrarmos no navio, fomos a um quiosque que existe já dentro da zona reservada do porto, onde pedi um punch, uma bebida que ainda não tivera oportunidade de provar. O rapaz de serviço sacou de um bidão de plástico que estava dentro de um armário e encheu um copo alto que posou em cima do balcão à minha frente. Dispensei a palhinha, mostrando-me profissional. Logo ao primeiro gole senti que a coisa era forte, e a meio copo senti perfeitamente os “vapores” do álcool subirem ao cérebro. Quando terminei, estava com calor. Perguntei ao moço a receita daquilo e, então, é assim: rum velho, rum branco, sumo de manga, sumo de maracujá, sumo de abacaxi e xarope de limão. Poderoso. Valeu os 10€.

O nosso percurso em Guadalupe.

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Dia 15 — Navegando

Hoje, véspera do nosso desembarque em Saint Martin/Sint Maarten, foi dia de descansar. Dormir bem, aproveitar o sossego do nosso quarto e da nossa varanda, relaxar no jacuzzi, namorar: ter o dia todo só para nós. Antes do jantar foi tempo de fazer a mala, pois temos que a deixar à porta da cabina até à meia-noite.

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Dia 16 — Saint Martin/Sint Maarten

Chegados a Saint Martin, os nossos passaportes (tal como os dos outros passageiros que iam desembarcar) ainda estavam retidos pelas autoridades, pelo que aproveitámos para dar uma volta por Philipsburg. O nosso voo para Paris era só às 15:30, pelo que estávamos descansados em relação ao tempo. Assim, quando saímos do navio, não tivemos de esperar muito tempo, foi só apanhar um táxi (não há outra forma de chegar ao aeroporto, com malas grandes), fazer o check-in e, pouco tempo depois, entrar no avião. Durante o voo assistimos a um excelente filme: Elvis. Muitíssimo bem realizado.

A bela baía de Philipsburg.

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Dia 17 — Paris, Lisboa e Conceição de Tavira

Por volta das 6 e meia da manhã estávamos no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. Tivemos uma espera de mais de três horas até apanharmos o avião para Lisboa (assim a mala de porão, provavelmente, não ficaria para trás) aonde chegámos às 11:30. Fomos buscar o nosso carro que tinha ficado com o nosso amigo, almoçámos e viemos para casa. Pelo caminho comprámos o necessário para fazermos uma refeição leve antes de dormirmos: uma salada com sardinhas de conserva. A nossa viagem chegara ao fim. Enquanto comia, pensava em algo inquietante: as ilhas paradisíacas que visitáramos podem num minuto transformar-se num inferno; as erupções vulcânicas e os furacões são uma ameaça permanente. Ou seja, o inferno e o paraíso podem não estar em lugares separados como por vezes pensamos, mas juntos neste planeta de incrível diversidade.

No entanto, navegaria durante um ano assim…

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Cacela Velha

Este ano o Verão de São Martinho veio com tanta força, e a água do mar estava tão apetecível no Sotavento Algarvio, que, durante quatro dias seguidos (10, 11, 12, 13 de novembro) fomos à praia, banhámo-nos, ao sol e no mar, e fizemos longas caminhadas pelos areais de Manta Rota e Cacela Velha. Quatro dias consecutivos com tempo super agradável não é assim tão comum em novembro, por isso quisemos que este magnífico período ficasse registado, para mais tarde o recordarmos.

A praia de Cacela Velha é pouco frequentada. Tem de se fazer uns 500 metros a pé, a partir da bela aldeia de Cacela Velha (onde se tem vistas fantásticas sobre a ria, o mar e toda a zona costeira, incluindo o litoral fronteiriço de Espanha), descer uma longa escadaria e atravessar a Ria Formosa — o que nem sempre é fácil porque a maré pode não estar vazia — para se alcançar a praia. Também se pode aceder à praia de Cacela Velha via Manta Rota, localidade onde já não é preciso cruzar a Ria Formosa para chegar ao mar, caminhando ao longo da praia uns 20 minutos para oeste e atravessando um pequeno canal que une o mar e a ria (canal constantemente em mudança face a ventos e marés, mas que se ultrapassa facilmente sobretudo na baixa mar), e alcançando assim a praia de Cacela Velha. No verão há alguns barqueiros que levam as pessoas à praia, nomeadamente no sítio da Fábrica. Uma vez chegados, estamos no paraíso.

Além de pouco frequentada, a praia é enorme, a areia dourada e a água límpida. Temperaturas em torno da que consideramos ideal (23,5º) são bastante comuns no verão, estação em que a água do mar chega a atingir os 26º. As mais altas temperaturas ocorrem quando o vento está do quadrante leste, o que proporciona uma tipologia de tempo que aqui se chama levante. É quando o mar tipicamente calmo do sotavento se torna agitado com ondulação mais ou menos significativa. A temperatura do mar fica então mais alta e assim se mantém por alguns dias, mesmo depois de o levante passar. A temperatura média do mar no sotavento, ao longo do ano, ronda os 18º/19º, o que permite banhos de mar praticamente em qualquer mês do calendário. Nestes quatro dias de São Martinho a temperatura da água do mar rondou os 20º.

É muito difícil dizer qual a melhor praia do sotavento algarvio. Cabanas, Ilha de Tavira, Terra Estreita, Barril, Fuzeta, as ilhas de Armona, Farol e Faro são todas elas (sobretudo, para nós, a Terra Estreita) praias magníficas. Mas se tivéssemos de escolher uma, essa seria Cacela Velha. Sem quaisquer apoios de praia, principalmente sem gente na maior parte do ano, na praia de Cacela Velha podemos relaxar, sentir a natureza em estado puro e, se nos apetecer, tirar a roupa toda e mergulhar num mundo azul.

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MUNCH

A câmara fotográfica não pode competir

com o pincel e a paleta

— não pode ser usada no céu ou no inferno.

Edvard Munch

Depois de mais de dez anos de reformulação, abriu finalmente ao público o Munch, um dos maiores museus do mundo dedicados a um único pintor.

Bem no centro de Oslo, a dez minutos a pé da Estação Central, encontramos, muito perto da Casa da Ópera de Oslo, talvez o mais moderno, arrojado, icónico e, também, controverso1 edifício da capital norueguesa — o museu MUNCH. Uma manhã inteira (ou uma tarde) não é de mais para uma visita a este magnífico museu de doze andares (incluindo um restaurante no terraço), onde além da exposição permanente das obras de Edvard Munch, é possível apreciar trabalhos de outros pintores, como Van Gogh, Salvador Dali, Auguste Rodin ou Pablo Picasso. Pelo menos foi o que aconteceu quando ali estivemos, em abril de 2022. Este espaço museológico é enorme, por isso não surpreende que, apesar de ser dedicado a um único artista, os seus responsáveis possam organizar, em paralelo, exposições com obras vindas do exterior.

Edvard Munch foi extremamente produtivo. Ele manteve a sua atividade artística durante mais de seis décadas — desde os anos oitenta do século dezanove até ao ano da sua morte, em 1944 — e é considerado um dos autores mais importantes do modernismo. No início do seu percurso artístico, destacou-se como membro integrante do simbolismo2 e tornar-se-ia um pioneiro da arte expressionista a partir do início do século XX. A incansável persistência na experimentação de diferentes motivos e técnicas garantiu-lhe um lugar de destaque na História da Arte norueguesa, e também mundial.

Cavalo Galopante (1910-1912), óleo sobre tela, de Edvard Munch.

Essa característica experimental da obra de Munch não permite que encaixemos o seu trabalho num único movimento ou estilo. Mais conhecido como simbolista e, sobretudo, expressionista, ele fez também incursões pelo universo surrealista3. Em 1930, sofreu um acidente que lhe provocou uma lesão ocular, ficando temporariamente cego de uma vista. Durante esse período, Munch produziu vários trabalhos simbólicos e abstratos, derivados das visões que o ferimento lhe tinha provocado na retina. Estes trabalhos podem ser enquadrados na ideia então contemporânea de “olho interno”, algo que o próprio Munch definiu da seguinte forma: “A natureza não é apenas aquilo que é visível pelo olho, é também o que é reproduzido pelas imagens internas da alma — imagens da parte de trás do olho”. Em 1944, o biógrafo de Munch, Rolf Stenersen, sustentou que as obras produzidas por Edvard, quando estava parcialmente cego, poderiam ser interpretadas como representações do inconsciente. Stenersen defendeu que esses trabalhos eram surrealistas, pois resultavam de impulsos do inconsciente.

O Assassino (1910), óleo sobre tela, de Edvard Munch.

Edvard Munch viveu em vários lugares, mas a maior parte do tempo na Noruega natal, num raio de poucos quilómetros em torno da capital, Oslo, onde também viveu e se formou, na Escola de Artes e Ofícios. Tendo nascido em Löten (em 12 de dezembro de 1863), 120 quilómetros a norte de Oslo, Munch veio estudar para a capital, onde foi bastante influenciado pelo Kristiania Bohème, um círculo cultural de escritores e artistas, particularmente por um dos seus membros mais antigos, o pintor Christian Krohg, que incentivou e orientou o jovem Edvard Munch. A estética naturalista deste movimento foi rapidamente ultrapassada por Munch quando, aos 26 anos, fez uma viagem a Paris e passou a conhecer de perto o impressionismo francês, sobretudo através dos trabalhos de Paul Gaughin e Henri de Toulouse-Lautrec.

Apesar de ter vivido em Berlim (1892-95) e Paris (1896-97), os locais onde Munch mais pintou foram na sua Noruega natal. Ele passou vários verões em Åsgårdstrand, cerca de 100 quilómetros a sul de Oslo. O primeiro verão que passou em Åsgårdstrand foi em 1889, e, em 1897, Munch comprou uma pequena cabana de pescadores, à qual passou a referir-se como o seu “lugar feliz”. As linhas costeiras desta pequena e tranquila localidade logo atraíram a atenção de Munch e ainterpretação estilizada dessas margens, muitas vezes combinada com o luar, tornou-se um elemento recorrente do seu grande projeto existencial O Friso da Vida.

Em 1909, após um longo período de doença, Munch foi viver para  Kragerø, na margem ocidental do fiorde de Oslo, onde alugou uma casa com vista para o mar. Foi nesta localidade que passou um dos períodos mais alegres e produtivos da sua vida artística.

O Sol (1910-1911) é um quadro gigante exposto no sexto andar do museu, que é consagrado às obras monumentais de Munch. Esta obra, produzida originalmente para os murais da Universidade de Oslo é especialmente importante porque é também um marco da aceitação tardia do trabalho de Munch na Noruega.

A natureza de Kragerø inspirou Munch a pintar o grande mural vitalista O Sol — o nascimento do astro-rei, símbolo mais puro da força da vida, retratado com pinceladas ousadas e vigorosas. Outros temas de Kragerø, que também aparecem na arte de Munch, são as ruas pitorescas, a alternância das estações, e cenas do dia-a-dia dos habitantes.

Em 1913, ainda dentro do Fiorde da Noruega, Munch subiu para Jeløya, nos arredores de Moss, onde morou durante três anos, até 1916. Os anos em Jeløya foram altamente produtivos e intensos, e Munch trabalhou avidamente com pinturas e xilogravuras coloridas. Uma das pinturas mais famosas de Munch, Trabalhadores a Caminho de Casa, foi produzida em Moss. Munch também representou, neste período, as belas paisagens culturais de Jeløya.

Mais tarde, já em Oslo, onde cresceu e se iniciou como jovem artista, Munch desenvolveu uma relação tensa com a cidade, tendo encontrado na capital os seus rivais mais ferozes e também os críticos mais severos da sua obra4.

Trabalhadores a Caminho de Casa (1915), óleo sobre tela, de Edvard Munch.

Mas os problemas de Munch já vinham de longe. Ele foi atormentado por doenças persistentes e também por uma infância difícil — com lutos e doenças mentais na família5 — as quais tiveram grande influência no seu trabalho artístico. Desde o ultrafamoso O Grito, até aos muitos milhares de esboços que produziu, a obra de Munch está repleta de emoções e traumas psicológicos. Várias versões de O Grito6 estão guardadas no MUNCH, incluindo desenhos, uma versão posterior pintada, e seis litografias.

O Grito é, sem dúvida, a obra mais famosa de Munch, um trabalho incrivelmente intemporal. Trata-se de uma narrativa aberta, em que o principal protagonista é estranhamente enigmático — não pertencendo a nenhuma classe, ou género, ou cultura, ou raça. O tema resulta de um passeio que Munch fez com amigos, num fim de tarde de 1891, quando o sol caía sobre o fiorde de Oslo. Todas as versões de O Grito são diferentes, mas igualmente poderosas. Há quem diga, provavelmente com razão, que O Grito manifesta a angústia do artista, provocada por decepções na sua vida pessoal, quer no que diz respeito ao amor, quer no que toca aos amigos. O quadro mostra-nos uma criatura enigmática em pânico — cuja forma pode sugerir, de algum modo, um feto, ou mesmo um espermatozoide (símbolos da extrema fragilidade da vida) — e cujos contornos se projetam no fundo avermelhado do horizonte; dois transeuntes seguem o seu caminho, indiferentes.

A célebre pintura O Grito (têmpera e óleo sobre cartão, provavelmente de 1910). Munch criou todas as versões desta obra em cartão ou papel, tornando-as mais frágeis do que seriam se tivessem sido produzidas em óleo sobre tela. É por isso que as três versões7 patentes na sala do museu dedicada a O Grito — uma pintura (na foto), um desenho a pastel (1893) e uma litografia (1895) — são apresentadas rotativamente, uma de cada vez, apenas por uma hora, sendo depois encerradas numa câmara escura até nova apresentação.8 Ou seja, há sempre uma das versões exposta, enquanto as outras duas permanecem no escuro.

É de notar que a estrada onde esses homens estão segue em linha reta para o infinito, o que torna ainda mais notória a distância que os separa do protagonista. Isto reforça a ideia de que a angústia e o desespero de uma pessoa pode ser completamente indiferente para outras. Embora o próprio Munch tenha escrito sobre a sua obra mais famosa9, O Grito continua, apesar de tudo, a ser um enigma, tanto no conteúdo como na forma. Não há uma interpretação única sobre a obra, antes inúmeras interpretações. Uma delas, verdadeiramente surpreendente, foi publicada em 2003, na revista Sky and Telescope por um grupo de professores de Física e Astronomia da Universidade Estadual do Texas, que se deslocaram até Oslo para perceberem onde teria sido o local exato onde Munch observara o tal céu vermelho-sangue. Depois de determinada a localização, os investigadores americanos concluíram que um céu semelhante ao descrito por Munch pode de facto ter sido observado naquela zona do globo, resultante da grande erupção do vulcão da ilha de Krakatoa, na Indonésia, em 1883 — uma das mais terríveis erupções vulcânicas registadas, que provocou o desaparecimento da ilha. Os investigadores concluíram assim que Munch estaria a olhar para sudoeste, exatamente o quadrante onde o clarão do Krakatoa apareceu, naquele inverno de 1883-1884. Isto parece vir ao encontro das próprias palavras de Munch (ver nota 9) quando este refere que sentiu um imenso grito infinito através da natureza.

Todas as versões de O Grito são diferentes. Mas todas são igualmente poderosas. Na foto, a litografia de 1895.

É, pois, impressionante como uma pequena obra pode dizer-nos tanto. E seja qual for a interpretação que tenhamos, nenhuma vai retirar o lugar que O Grito conquistou na História da Arte, um dos mais altos, senão o mais elevado, da corrente conhecida como Expressionismo.

Uma das características da arte de Munch é a atenção que dedica ao movimento, criando drama e intensidade nas suas obras: as linhas diagonais chamam a nossa atenção, puxando-nos, e provocando um movimento das figuras na nossa direção, gerando um confronto. Podemos reconhecer tais recursos desde os primeiros tempos da fotografia e do cinema — novos meios de imagem que ganharam destaque no tempo de Munch. Ele próprio experimentou a fotografia10e deslocava-se com certa frequência ao cinema, tendo além disso realizado pequenos filmes em torno de Oslo e no jardim da sua casa. Por isso se pensa que estas novas tecnologias influenciaram a sua arte. Porém, é preciso dizer que, com Munch, o movimento está sempre associado à emoção. Ele procura agarrar o espectador, imprimindo ao seu trabalho uma carga intensa e dramática. Munch pinta para criar a sensação de movimento dentro do próprio espectador.

A intensa produção de artes gráficas de Edvard Munch — gravuras, xilografias, litogravuras — começou em 1894. No MUNCH, os visitantes podem experimentar algumas técnicas utilizadas pelo pintor. Munch não tinha grande experiência gráfica, o que constituiu o principal motivo para a criação de técnicas inovadoras.

De acordo com Gray F. Watson, professor da Wimbledon School of Art, de Londres, Munch foi um líder na revolta contra os ditames naturalistas da pintura académica do século XIX e também foi além do naturalismo ainda inerente ao impressionismo. A sua concentração nos fundamentos emocionais levava-o por vezes a simplificações radicais da forma e a uma abordagem expressiva, em vez de descritiva, da cor. Estas tendências foram a dotadas por artistas mais jovens, nomeadamente os principais proponentes do expressionismo alemão. Talvez a sua influência formal mais direta na arte posterior possa ser vista na área da xilogravura. Mas o seu legado mais profundo para a arte moderna estava no seu propósito de abordar aspetos universais da experiência humana. Munch herdou o misticismo tradicional e a ansiedade da pintura do norte da Europa, que recriou numa arte altamente pessoal. O seu trabalho continua a expressar a situação tipicamente moderna do indivíduo diante da incerteza de um mundo contemporâneo em rápida mudança.11

A exposição patente no MUNCH está dividida em doze temas, que podem ser visitados pela ordem que se quiser — Só; Morrer; O Grito; Amor; Género; Outdoors; Nu; Outros; O Eu; Em Movimento; À Superfície; Variações.

Terminamos com uma frase retirada da exposição que tivemos a felicidade de visitar seis meses após a inauguração deste novo museu:

Não existe uma verdade única sobre Edvard Munch e o seu trabalho. A obra de Munch e a nossa compreensão da mesma podem ser consideradas infinitas.

No terraço do icónico e controverso edifício que acolhe e é, ele próprio, o museu MUNCH.

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Notas:

1 A fase mais recente do projeto de renovação da zona ribeirinha de Oslo, que já dura há décadas, tem sido, de facto, controversa. O projeto do Munch, de autoria do renomado estúdio de arquitetos Herreros, com sede em Madrid, foi também criticado por alguns moradores nos meios de comunicação locais, sobretudo devido à forma “vertical” incomum e à fachada cinza do edifício. Os arquitetos disseram que se inspiraram, sobretudo, nas impressionantes torres do edifício da Câmara Municipal de Oslo.

2 O termo “simbolismo” foi cunhado pela primeira vez pelo crítico francês Jean Moréas, em 1886, e rapidamente usado para caracterizar artistas e escritores que rejeitavam as representações realísticas do mundo exterior, em favor da exploração da vida interior da alma humana. O objetivo destes artistas era o de expressarem as ideias que estão por trás da realidade visível, ou, tal como o autor Knut Hamsun referiu em 1890, “mostrar a vida inconsciente da alma”. O movimento representava uma nova e radical compreensão do “eu”, que em vez de ser algo estável e constante, era visto como fluído e fragmentado. Na década de 1890, o simbolismo desenvolveu-se como um movimento cultural abrangente, que incluía Arthur Rimbaud, Paul Gauguin, Auguste Rodin, James Ensor, August Strindberg, Vincent Van Gogh e Edvard Munch.

3 O surrealismo surgiu na ressaca da Primeira Guerra Mundial, após milhões de mortos e uma Europa em ruínas. Simultaneamente, Sigmund Freud e a psicanálise aportaram uma visão inovadora sobre a mente humana. Dedicando-se às questões do inconsciente — sonhos, desejos e impulsos inconscientes — os artistas, na opinião de André Breton, deveriam liderar o caminho para uma nova ordem mundial. Durante os anos 20 e 30 do século XX, Breton atraiu um vasto conjunto de escritores, artistas plásticos e realizadores cinematográficos, disposto a desafiar a moralidade, a tradição e a própria racionalidade. Entre estes estavam Max Ernst, Dora Maar, René Magritte, Leonora Carrington, Claude Cahun, Salvador Dalí e Luis Buñuel.

4 Munch esteve várias vezes envolvido em polémicas com outros autores. Uma luta física com um pintor rival obrigou-o a ausentar-se da Noruega durante 4 anos. Vários dos seus quadros refletem estas disputas.

5 A mãe e a irmã de Munch faleceram de tuberculose quando ele tinha, respetivamente, 5 e 14 anos. O pai e o irmão também morreram quando ele era jovem. A única irmã sobrevivente desenvolveu uma doença mental pouco depois. Munch foi várias vezes hospitalizado entre 1905 e 1909 por problemas de alcoolismo, depressão e comportamento suicida.

6 Quando abordamos as obras de Munch, geralmente não falamos de uma imagem, mas de várias. Ao longo de toda a sua carreira artística, Munch regressa aos mesmos temas para abordá-los de uma nova forma. Ele produzia uma versão, depois outra, e depois outra ainda. Ao revisitar os temas, novas possibilidades se revelam. Por vezes eles capta-as com um simples desenho ou, ocasionalmente, com uma escultura. Apesar de Munch nem sempre estar contente com o resultado, ele preservava todas as tentativas. Para ele não havia uma forma certa ou errada de pintar, apenas formas novas de o fazer.

7 Edvard Munch produziu quatro versões coloridas de “O Grito” — duas pinturas com têmpera e dois desenhos com pastel e lápis de cera. Dois deles permaneceram na sua posse e estão hoje na coleção do Museu MUNCH. Das duas versões restantes do famoso motivo, uma faz parte da coleção do Museu Nacional da Noruega e a outra é de propriedade privada (foi comprada em leilão pelo investidor e colecionador de arte norte-americano Leon Black, em 2012, por 119,9 milhões de dólares). Munch também criou uma litografia de “O Grito”. Não se sabe quantas litografias foram impressas, mas estima-se que existam cerca de 30 impressões. Seis destas — incluindo uma colorida à mão por Munch — estão hoje na coleção do Museu MUNCH.

8 Além do cuidado necessário com os fatores climáticos, como os níveis de temperatura, humidade e oxigénio, a exposição à luz tem de ser evitada. A luz afeta os pigmentos coloridos e danifica o papel e a cartolina ao longo do tempo.

9 Em 1892, na Riviera francesa, mais propriamente em Nice, Munch escreveu um poema no seu diário, descrevendo uma caminhada com os seus amigos. Ele sentiu-se cativado pela visão das nuvens flamejantes e da cidade e da água azul-negras. Escreveu Munch: “Eu estava a andar por uma estrada com dois amigos quando o sol se pôs. Senti uma rajada de melancolia e de repente o céu ficou vermelho-sangue. Eu parei, encostei-me ao gradeamento, cansado de morte, enquanto os céus flamejantes pendiam sobre o fiorde azul e negro e sobre a cidade. Os meus amigos continuaram, eu permaneci ali a tremer de ansiedade e senti um imenso grito infinito através da natureza.” Nesse mesmo ano, Munch traduziu a experiência relatada no diário visualmente. Assim nascia “O Grito”.

10 Foi um dos primeiros artistas a explorar o auto-retrato fotográfico, após ter comprado uma câmara Kodak, em 1902.

11 https://www.britannica.com/biography/Edvard-Munch.

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Luta contra a Morte (1915), óleo sobre tela, de Edvard Munch.

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Fontes:

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House on Fire, Eswatini

House on Fire, em Eswatini. Um espaço magnífico, quer na parte coberta, quer nas zonas ao ar livre.

Eswatini é um pequeno reino situado no sudeste africano, um enclave sem acesso ao mar, envolvido por dois países bastante maiores, Moçambique e África do Sul. O porto mais próximo, que permite ao país importar e exportar produtos por via marítima, é o de Maputo, na capital moçambicana. Eswatini chamava-se antes de 2018 Suazilândia, mas o rei Mswati III decidiu nesse ano alterar o nome do país, que queria dizer “terra dos zwazis”, os descendentes de povos que vieram do norte, em vagas sucessivas.

Desde que começaram a praticar a agricultura até hoje, passando pela autonomia (finais do século XIX) e a independência (1968) ambas concedidas pelos britânicos, esta foi sempre a principal atividade económica dos habitantes do atual Eswatini (se a ela juntarmos a criação de gado), embora se note uma crescente aposta em algumas pequenas indústrias, sobretudo na construção (obras públicas) e no turismo. Embora Eswatini e Moçambique sejam dois dos países mais pobres do planeta, nota-se um diferença considerável entre ambos, sendo Eswatini palpavelmente mais desenvolvido que Moçambique, embora este tenha condições naturais, geográficas e dimensionais para ser mais desenvolvido do que aquele.

House on Fire é uma instalação que se enquadra numa tentativa de desenvolvimento do país, impulsionado pelo turismo, uma aposta dos responsáveis de Eswatini, embora seja uma iniciativa privada. Situada 20 kms a sudeste da capital, Mbabane, aqui se realizam eventos diversos, incluindo, anualmente, em finais de maio, o MTN Bushfire, um dos mais conceituados festivais de música africanos. (https://youtu.be/nYhCAy9xZUE).

Idealizado pelos irmãos, Jiggs Thorne e Sholto Thorne, a House of Fire foi construída numa exploração de cana-de-açúcar e inaugurada no ano 2000. As suas esculturas ao ar livre refletem influências da Owl House, em Neiu Bethesda (África do Sul), e do Rock Garden, em Chandigarh (Índia). Apesar das diferenças, fez-nos lembrar Casapueblo, de Carlos Páez Vilaró (nosso artigo aqui).

Pormenor de um ponto de iluminação no espaço interior da House on Fire. (Foto: Fla).

A primeira das construções — o teatro — foi projetada com a colaboração da arquiteta sul-africana Sarah Calburn, tendo as posteriores evoluído para um espaço multifuncional em constante evolução, onde artistas locais, com destaque para Noah Mduli, continuam a dar asas à criatividade.

A intenção é a de apresentar uma filosofia de “harmonia em contraste”, com ícones e símbolos de todo o mundo. Um exemplo, bem interessante, sobretudo para nós, é o de um pequeno mural, erguido no jardim, onde se pode observar, por cima de uma frase de Einstein, uma imagem de Fernando Pessoa.

Aldeia em Eswatini.

A prova de que a House on Fire não para, é o último grande evento organizado pela sua equipa: o Festival conhecido como Standard Bank Luju Food & Lifestyle Festival, iniciado em 2018, que dedica dois dias às comida, moda e música, apresentando os melhores chefes gastronómicos da região.

House on Fire, independentemente dos eventos que ali se realizam (http://www.house-on-fire.com), é um espetáculo por si só.

Paisagem do Eswatini profundo.

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Fontes:

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Centro Nobel da Paz, Oslo

O Centro Nobel da Paz, no coração de Oslo.

Alfred Nobel foi um empresário, inventor e cientista sueco que acumulou uma fortuna considerável ao longo da sua vida de 63 anos. Para lá dos bens materiais, como dinheiro, títulos e imóveis, Alfred possuía igualmente bens que ultrapassavam o puro valor material; o seu amor pela literatura1 compelia-o a comprar muitos livros, pelo que possuía uma biblioteca vasta e valiosa. Parece que Alfred Nobel era um indivíduo empreendedor e confiante, mas simultaneamente reservado e tímido; de acordo com as suas próprias palavras, “misantropo e idealista”. É consensual que tinha um feitio difícil e não se sabe se por isso mesmo, ou por excesso de trabalho, nunca teve vontade ou oportunidade de constituir família. Alfred não teve filhos e não deixou herdeiros diretos.

Em 27 de novembro de 1895, um ano e 13 dias antes de morrer, Alfred Nobel assinou, em Paris, o último testamento. Logo após a sua morte, um número considerável de pessoas, familiares e amigos, aguardavam ansiosamente por conhecerem o teor desse documento, uma vez que todos tinham consciência de que era possuidor de uma das maiores fortunas mundiais privadas. Para grande desapontamento de muitos deles, declarava o seguinte na sua última vontade:

A totalidade do meu património remanescente realizável será alienada da seguinte forma: o capital, investido em títulos seguros pelos meus testamenteiros, constituirá um fundo, cujos juros serão atribuídos anualmente a título de prémio àqueles que, durante o ano anterior, terão conferido o maior benefício à humanidade. Os juros serão divididos em cinco partes iguais, a serem repartidos da seguinte forma: uma parte à pessoa que tiver feito a descoberta ou invenção mais importante no campo da física; uma parte à pessoa que tiver feito a descoberta ou invenção química mais importante; uma parte para a pessoa que tiver feito a descoberta mais importante no domínio da fisiologia ou medicina; uma parte à pessoa que no campo da literatura tenha produzido a obra mais destacada de tendência idealista; e uma parte à pessoa que tiver feito mais ou melhor trabalho pela fraternidade entre as nações e pela abolição ou redução dos exércitos permanentes e pela formação e difusão de congressos de paz. Os prémios de física e química serão concedidos pela Academia Sueca de Ciências; para trabalhos fisiológicos ou médicos pelo Instituto Caroline, em Estocolmo; para a literatura pela Academia em Estocolmo, e para os defensores da paz por um comité de cinco pessoas a serem selecionadas pelo parlamento norueguês. É meu desejo expresso que na atribuição dos prémios não seja dada qualquer consideração a filiações nacionais de qualquer tipo, para que o mais digno receba o prémio, seja escandinavo ou não.2

Alguns dos familiares de Alfred Nobel solicitaram a invalidade do testamento e nessa luta conseguiram o apoio de rei Oscar II, que considerou “fantasiosas” as pretensões de Alfred. Além destes, também muitos conservadores desejavam impedir a realização do testamento, considerado “antipatriótico”, uma vez que os prémios deveriam ter sido reservados para os suecos. Só após longas e difíceis negociações, que envolveram o governo, os executores Ragnar Sohlman e Rudolf Lilljequist conseguiram desatar os nós jurídicos envolvidos. Finalmente, em 29 de junho de 1900, os estatutos da recém criada Fundação Nobel foram aprovados pelo relutante rei Oscar II; e em 10 de dezembro de 1901 foram concedidos em Estocolmo e Oslo os primeiros prémios Nobel.3

O que teria levado um cientista e inventor da dinamite a uma decisão tão altruísta em favor da espécie humana, ao expressar a sua vontade de que fossem premiados anualmente os mais destacados no benefício da humanidade, incluindo quem “fez mais ou melhor para promover a comunhão entre as nações, a abolição ou redução de exércitos permanentes e o estabelecimento e promoção de congressos de paz”? Os biógrafos indicam que por trás dos ideais pacifistas de Alfred Nobel estava uma mulher. Não uma mulher com quem ele tivesse uma relação amorosa, mas uma amiga com quem se correspondeu durante anos e que, sendo ela própria pacifista, teve uma forte influência sobre o empreendedor sueco. Essa mulher chamava-se Bertha von Sutnner4 e, curiosamente, conheceu Nobel ao responder a um anúncio de jornal de “um senhor muito culto, rico e idoso, morando em Paris, que deseja encontrar uma senhora também de idade madura, familiarizada com idiomas, como secretária”.5

Não se conhece exatamente a razão pela qual Alfred Nobel optou, no seu testamento, pela criação de um comité, designado pelo parlamento norueguês (Storting), para a atribuição do prémio da paz. Trata-se de um facto e não adianta muito especular sobre ele. No entanto, Geir Lundestad, ex-secretário do Comité Nobel Norueguês e diretor do Instituto Nobel, resume no seu artigo O Prémio Nobel da Paz, 1901-2000, as suposições mais frequentes e melhor fundamentadas: Nobel, que escreveu o testamento no Clube Sueco-Norueguês de Paris, pode ter sido influenciado pelo facto de que, até 1905, a Noruega ter estado em união com a Suécia; ele pode também ter considerado a Noruega um país mais orientado para a paz e mais democrático que a Suécia; finalmente, Nobel pode ter sido influenciado pela sua admiração pela ficção norueguesa, particularmente por Bjornstjerne Bjornson, conhecido ativista da paz na década de 1890; ou pode ter sido uma combinação destes três fatores.6

A verdade é que os noruegueses levaram essa incumbência muito a sério, e o Nobel da Paz é um prémio com significado e importância muito especiais. Em Oslo há dois locais onde podemos perceber isto, e nós visitámos ambos na nossa mais recente visita. Falamos do Instituto Nobel Norueguês e do Centro Nobel da Paz. O primeiro é onde trabalham os membros do Comité Nobel Norueguês7 e o seu secretariado; o segundo é um museu onde podemos percorrer, através da exposições ali patentes, partes das vidas e dos pensamentos quer de Alfred Nobel, quer dos muitos laureados com o Nobel da Paz, com destaque lógico para os últimos ganhadores8: uma ala do museu estava no momento da nossa visita dedicada aos laureados com o Nobel da Paz de 2021, o russo Dmitry Moratov e a filipina Maria Ressa.

Dmitry Moratov e Maria Ressa são jornalistas e ambos vivem em países onde não há liberdade de imprensa. Tal como outros colegas, arriscam a vida por exercerem uma profissão incómoda para o poder. O caso russo é mais grave que o filipino e, além disso, tem relação direta com a guerra que Vladimir Putin decidiu fazer à Ucrânia. É por isso que, nesta ala do museu, o enfoque está todo na falta de liberdade que se vive na Rússia, onde vigora um regime autocrático que piorou muito ao longo dos últimos vinte anos. Há uma relação inequívoca entre paz e liberdade, e os responsáveis pela exposição quiseram realçá-la, conduzindo o visitante a uma importante conclusão: não pode haver paz onde não há liberdade. Este é o primeiro ponto a considerar em relação à paz.

O segundo ponto, que também tem relação direta com a atual guerra iniciada por Putin, tem a ver com a grave ameaça que representam para a humanidade as armas nucleares. Cabe aqui dizer que em 2017 a ICAN – International Campaign to Abolish Nuclear Weapons (Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares), uma organização fundada em 2007 em Melbourne, na Austrália, ganhou o Prémio Nobel da Paz de 2017. A ICAN é uma organização global, composta por mais de 600 ONGs, com presença em 108 países. Por razões óbvias, é natural que o Comité Norueguês do Nobel e o Centro do Nobel da Paz dediquem uma especialíssima atenção à verdadeira espada de Dâmocles que pende sobre a cabeça de todos os seres humanos — as armas nucleares.

Em 7 de junho de 2017, após uma década de intensos trabalhos da ICAN e seus parceiros, a maioria das nações do mundo adotou um acordo global histórico para proibir as armas nucleares conhecido oficialmente como Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares9. Entrou em vigor em 22 de janeiro de 2021. No sítio da organização, numa página cujo título é Porquê um banimento?, a ICAN explica porque se bate não apenas pela proibição, mas pelo banimento completo das armas nucleares: As armas nucleares são as armas mais desumanas e indiscriminadas jamais criadas. Têm consequências humanitárias e ambientais catastróficas que se estendem por décadas e atravessam gerações; geram medo e desconfiança entre as nações, já que alguns governos podem ameaçar destruir cidades inteiras num piscar de olhos; o alto custo da sua produção, manutenção e modernização desvia fundos públicos da saúde, educação, socorro em desastres e outros serviços vitais. Proibir essas armas imorais e desumanas sob a lei internacional foi um passo crítico no caminho para exterminá-las, antes que elas acabem connosco.10

A guerra infligida à Ucrânia é uma das maiores calamidades deste século, bem como a chantagem nuclear de Putin. Trata-se de uma ameaça muito séria à paz na Europa e no mundo. Nas bibliotecas e livrarias que visitámos na Noruega, as obras destacadas são todas sobre os temas do momento: a Ucrânia, a Rússia, as relações internacionais e, sobretudo, Putin. As cores da bandeira ucraniana são visíveis nas cidades da Noruega (e da Dinamarca). O apoio do povo norueguês à Ucrânia e à liberdade sente-se não apenas no Centro Nobel da Paz e no Instituto Nobel Norueguês, mas, podemos constatá-lo, um pouco por todo o lado.

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Fontes:

  • nobelpeacecenter.org
  • nobelprize.org
  • Biblioteca do Instituto Nobel Norueguês
  • Centro Nobel da Paz
  • icanw.org

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Notas:

1 Alfred Nobel escreveu poemas durante juventude.

2 nobelpeacecenter.org.

3 Embora a maioria das pessoas pense que existem 6 diferentes prémios Nobel, a área da Economia não foi, como vimos, contemplada no testamento de Alfred Nobel. Só em 1968 o Banco da Suécia instituiu o “Prémio de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel”. A atribuição deste prémio segue todos os critérios de atribuição dos prémios Nobel, por isso é muitas vezes confundido e considerado como tal, mas é, na realidade, um prémio similar, mas diferente à sua criação e ao seu financiamento.

4 Bertha von Suttner era escritora e ela própria ganhou o Nobel da Paz em 1902.

5 nobelpeacecenter.org.

6 nobelprize.org

7 Como se disse, os cinco membros do comité são designados pelo parlamento. Embora sejam normalmente políticos, não podem estar na política ativa, isto é, não podem ser deputados ou membros do governo.

8 Podemos dividir as exposições do museu em quatro partes: o historial do Nobel da Paz; a vida de Alfred Nobel (passamos por uma réplica do interior da casa onde morreu, em San Remo, na Riviera Italiana); os laureados; os últimos contemplados com o Nobel da Paz. Há também, como em quase todos os museus, uma loja onde se podem comprar artigos alusivos ao Nobel da Paz.

9 O teor do tratado, em português, pode ser consultado em: https://d3n8a8pro7vhmx.cloudfront.net/tectodevms/pages/2417/attachments/original/1571248142/Portugues.pdf?1571248142

10 https://www.icanw.org/why_a_ban

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