Alfama descobriu o mundo. O mundo descobre Alfama.
Autor: Jorge Costa
Fez percursos académicos nas áreas das Filosofia, Comunicação Social, Economia, Gestão dos Transportes Marítimos e Gestão Portuária, e estuda outras disciplinas científicas. Interessa-se igualmente por Arte, nas suas diversas manifestações, e também por viagens. Gosta de jogar xadrez. O seu autor preferido, desde que se lembra, é Karl Popper. Viveu em locais diversos, sobretudo em Portugal e no Brasil, pelo que se considera um cidadão do mundo. Atualmente vive em Cabanas, no Sotavento algarvio. Gosta de revisitar, sempre que pode, a bela cidade de Lisboa e, nela, o bairro onde nasceu, Alfama, o mais popular da capital, de traça árabe, debruçado sobre o Tejo — esse rio mítico, imortalizado por Camões e Pessoa, poetas maiores da Língua Portuguesa. Não é, porém, um bairrista, característica que deplora, a par dos clubismo, partidarismo e nacionalismo. Ama a Liberdade.
Quem passar pelo Carnaval do Recife jamais esquecerá o frevo.
O frevo nasceu há mais de cem anos, no Pernambuco, ao que parece por influência das marchas militares. O frevo-de-rua não é vocalizado, ao contrário do frevo-canção, de ritmo mais lento, e também do frevo-de-bloco. Estes são os três tipos de frevo, assim classificados desde os anos 30 do século XX.
Quem já tenha passado o Carnaval no Recife certamente conhece o frevo, o principal ritmo que ali se ouve nessa quadra festiva, além do maracatu, a ciranda, o caboclinho, entre tantos outros.
Até 2010, mais propriamente até fevereiro de 2010, eu nunca tinha ouvido falar de frevo. Foi quando segui durante horas o bloco Escuta Levino pelas ruas do Recife, quando ouvi “Último Dia”, de Levino Ferreira, balançando o esqueleto sem parar, que fiquei adepto incondicional. Gostei tanto que repeti a dose, com outros blocos, tanto no Recife como em Olinda.
Qualquer pessoa pode criar um bloco de Carnaval. Basta juntar um grupo de músicos, inventar um nome, inscrevê-lo num estandarte e já está – quem quiser vá atrás. Há blocos para todos os gostos, como seria de esperar. O tipo de frevo que se ouve nos blocos de Carnaval é chamado frevo-de-rua e subdivide-se em frevo-coqueiro, frevo-ventania e frevo-abafo.
Durante o desfile do Galo da Madrugada, no Recife.
Outra característica do frevo-de-rua é a dança. Os bailarinos, normalmente com uma sombrinha na mão, executam passes complicados, com os pés sempre em movimento, executando coreografias que, em geral, contêm uma boa dose de improviso. Quando os executantes são de qualidade, é muito, muito bonito (ver vídeo acima). Outros, como eu, limitam-se a agitar o corpo da forma que podem, pois uma coisa é certa: ninguém consegue ficar parado.
É por isso que a origem do nome frevo vem do verbo ferver, uma vez que a dança parece implicar a existência de uma superfície quente debaixo dos pés dos dançarinos, impedindo-os de parar.
Nenhuma História da Alfama dos últimos 50 anos ficará completa sem uma referência aos personagens mais conhecidos do bairro, cidadãos ilustres, míticos, mais ainda porque nenhum deles teve consciência do seu estatuto de alfamense imortal.
Entre todos, o maior era o Mata-Gatos. Bom rapaz, mas… que não se metessem com ele! A malta cumprimentava “bom dia Zé”, “boa tarde Zé” – e o Zé sempre sorria e cumprimentava também. E se havia alguém que, escondido num beco ou dissimulado num grupo, gritava “ó Mata-Gatos!”, aí era certinho, voavam os pombos sem asas que o Zé levava nos bolsos do casaco! Às vezes acontecia quebrar uma cabeça ou o vidro de um carro, mas o mal do Zé era batatas…
Grande Mata-Gatos! Era uma figura – daquelas que não se fazem mais!
Outro personagem – o único que pode ainda estar vivo – é o Vítor Beatas, que continuava a apanhar restos de cigarros (“beatas” ou “grilas”) do chão, há cerca de um ano, a última vez que o vimos, em Alfama. Nunca comprou tabaco. E durou, pelo menos, até os 85 anos, sempre a fumar beatas. Espero que esteja ainda vivo, e revê-lo a apanhar beatas, como sempre, desde há cinquenta anos, quando voltar em breve a Alfama.
Os demais ilustres – sobretudo na Alfama de Cima, onde mais convivemos – eram o Teófilo Borda d’Água, o Augusto Galinha (também conhecido por Augusto É Bom), o Magala, o Esticó Braço, o Rei do Sebo e o Doutor Maluco.
Creio, primeiro, que o mundo em nada nos melhora, que nascemos estrelas de ímpar brilho, o que quer dizer, por um lado, que nada na vida vale o homem que somos, por outro lado que homem algum pode substituir a outro homem. Penso, portanto, que a natureza é bela na medida em que reflete a nossa beleza, que o amor que temos pelos outros é o amor que temos pelo que neles de nós se reflete, como o ódio que lhes sintamos é o desagrado por nossas próprias deficiências, e que afinal Deus é grande na medida em que somos grandes nós mesmos: o tempo que vivemos, se for mesquinho, amesquinha o eterno. E penso, quanto à segunda parte, que todo o homem é diferente de mim, e único no universo; que não sou eu, por conseguinte, quem tem de refletir por ele, não sou eu quem sabe o que é melhor para ele, não sou eu quem tem de lhe traçar o caminho; com ele só tenho o direito, que é ao mesmo tempo um dever: o de o ajudar a ser ele próprio.
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Foto retirada de: kdfrases.com
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A nossa edição:
Agostinho da Silva, Educação de Portugal, Editora Ulmeiro, Lisboa, 1970.
Uma das questões mais debatidas da ciência e da filosofia é a questão do Homem. Sobre ela se debruçam biólogos, antropólogos, psicólogos, sociólogos, filósofos e, no fundo, todos os seres pensantes. O homem como sujeito e objeto de si próprio. Talvez a problemática mais atual sobre esta questão seja a de saber-se até que ponto o ser humano é realmente um animal diferente. Por outras palavras: tudo o que é especificamente humano – e podemos, talvez, substituir este “tudo” pela termo “cultura” – é suficiente para nos considerarmos uma espécie à parte, radicalmente diferente das outras, ou, pelo contrário, temos muito mais em comum com as outras espécies do que, à primeira vista, poderíamos suspeitar? No nosso comportamento, o que é “animal” e o que é humano? Os 97 % do genoma que partilhamos com os chimpanzés significam que somos muito parecidos ( e na verdade com os outros animais e mesmo plantas, dado que partilhamos grande parte do genoma com eles também) ou os restantes 3% fazem toda a diferença e significam uma especificidade radical?
Quanto à primeira hipótese, a saber, a de que não diferimos assim tanto dos outros seres vivos, não conheço abordagem mais acutilante do que a dos sociobiólogos. Quanto à segunda hipótese, a defendida pelos que afirmam sermos muito diferentes dos outros animais, talvez seja subscrita sobretudo por alguns filósofos e pelos antropólogos culturais mas também pelo senso comum. Dado que esta posição é a mais familiar para a grande maioria de nós, vou debruçar-me sobre a que é mais incomum – a versão sociobiológica.
Tudo começou quando um biólogo alemão, August Weismann, nos anos 80 do século XIX, reparou que, nas criaturas sexuadas, as células sexuais – óvulos e esperma – permaneciam segregadas do resto do corpo desde o nascimento1, o que contrariava as ideias de Lamarck e do próprio Darwin, os quais pensavam que os filhos herdavam as alterações físicas que os pais haviam sofrido durante a vida. O exemplo clássico é o do filho do ferreiro, que herda os braços musculosos do pai. Ora, isto não acontece, e, apesar de Weismann ter sido ridicularizado por suas ideias, elas revelar-se-iam corretas: com a descoberta do gene, do ADN a partir do qual este é feito e do código em que a mensagem do ADN está escrita, verificou-se que a linha germinativa é mantida efetivamente separada do corpo.
As consequências mais radicais seriam retiradas apenas nos anos 70 do século XX por Richard Dawkins2: uma vez que os corpos não se replicam a eles próprios, apenas crescem, enquanto os genes se replicam, a conclusão que se tira é a de que os corpos são meros veículos evolutivos para o gene, e não vice-versa. Esta corrente desembocou, assim, numa visão peculiar, estranha, mas também extremamente sedutora, que revolucionou a teoria da evolução: pouco importa se somos humanos ou não, porque o que conta não é a espécie ou o indivíduo, o que importa são os genes. De facto, são os genes que se perpetuam no tempo, não os indivíduos e, de acordo com esta teoria, os indivíduos, os organismos, os corpos não passam de “máquinas de sobrevivência” que os genes utilizam para passarem de geração em geração.
Assim, Richard Dawkins, na linha de Williams, afirmou que a unidade de seleção natural – que desde Darwin era o indivíduo – deveria de ser o gene. As características de “longevidade, fecundidade e fidelidade da cópia”3, garantiram-lhe esse estatuto. Em consequência disto, os sociobiólogos começaram a falar em “seleção sexual” em vez de seleção natural: o objetivo de um animal não é apenas sobreviver, mas sobretudo reproduzir-se. Dado que os genes utilizam4 os organismos e os indivíduos para passarem de geração em geração e se perpetuarem no tempo, a principal função destes só pode ser a reprodução. Os indivíduos com sucesso reprodutor passarão os seus genes às gerações seguintes, ao contrário dos genes dos indivíduos que não se reproduzem, que se extinguirão5. A reprodução é, pois, a característica fundamental da evolução: os genes constroem organismos para se perpetuarem e os organismos, – humanos, outros animais ou plantas – agem em prol da reprodução, perpetuando os genes.
A seleção sexual é uma consequência da reprodução. Trata da forma como machos e fêmeas se relacionam para partilhar os genes e os passarem à descendência6. Os interesses de machos e fêmeas, homens e mulheres, são comuns mas também diferentes. Existe conflito e cooperação entre ambos. O macho procura distribuir seus genes pelo maior número de fêmeas possível e estas procuram machos capazes de as ajudar a criar os filhos, pois de nada lhes servirá terem filhos se não forem capazes de criá-los. Esta é a razão das mulheres preferirem homens poderosos e dos homens preferirem mulheres saudáveis e bonitas.
Se a função principal dos seres vivos é reproduzirem-se para que os genes se perpetuem, todas as características dos seres vivos, incluindo as especificamente humanas, devem favorecer a reprodução. De facto, a própria inteligência humana tem como principal finalidade servir de uma forma mais adequada a reprodução7. Tudo, aliás, deve favorecer a reprodução – ou não existiria, pois os genes que não favorecem a reprodução (e que não são reproduzidos) acabam por se extinguir.
Assim, os argumentos sociobiológicos são do tipo circular, “pescadinha de rabo na boca”, e levam-me a pensar que talvez estejamos perante uma daquele género de teorias que Karl Popper considerou como pseudo-científicas, por seus defensores utilizarem sempre argumentos no sentido de confirmar a teoria e não de refutá-la. Popper dava os exemplos clássicos da psicanálise e do marxismo, e acredito que fizesse o mesmo com a sociobiologia, caso tivesse tido tempo de ter escrito sobre ela. Uma das características comuns a todas estas teorias é a sua extrema sedução na forma como se apresentam: definitivas, absolutas, irrefutáveis. Porém, esta sedução, que constitui aparentemente a sua força, constitui também o seu principal ponto fraco – a razão, segundo Popper, para não as considerarmos, precisamente, aquilo que seus adeptos afirmam que elas são: científicas8.
Esta é também a razão pela qual eu próprio duvido delas. Embora a teoria da evolução sociobiológica contenha, sem dúvida, um fundo de verdade, não deverá conter, porém, a verdade toda.
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Notas:
1Weismann (1889).
2 Curiosamente, Dawkins é hoje um dos mais destacados opositores do “pai” da sociobiologia, Edward O. Wilson. Este, hoje com 83 anos, em entrevista publicada por uma revista brasileira, diz o seguinte: “Richard Dawkins não é um cientista. É um escritor de divulgação científica. Ele só escreve sobre o que os outros descobrem… ao criticar minha teoria ele mostra seu total desconhecimento da teoria evolutiva”, in “Época”, 11 de março 2013.
3 “Gene Egoísta”, Richard Dawkins, 1976.
4Claro que inconscientemente: estão para isso “programados” pela natureza.
5Logicamente, todos nós somos descendentes de indivíduos que tiveram sucesso reprodutor; e herdámos deles os genes que os levaram a esse sucesso.
6Os sociobiólogos estudam a forma como várias espécies acasalam, inclusive a humana. Neste caso, existem sociedades monogâmicas e poligâmicas, quase em proporções idênticas (existe apenas uma pequena sociedade poliândrica, na região do Tibete, onde as mulheres têm dois homens, mas apenas por questões económicas). Porém, mesmo nas sociedades monogâmicas, a infidelidade é enorme, sobretudo por parte dos homens. Por outro lado, só recentemente (no Ocidente) os homens poderosos deixaram de ter muitas mulheres; em todas as civilizações antigas o sexo estava relacionado com o poder masculino e todos os poderosos tinham haréns. Os estudos mostram, ainda, que, em geral, o homem tem mentalidade poligâmica e a mulher, monogâmica. Uma evidência deste facto são as indústrias da pornografia (quase exclusivamente dirigida aos homens) e da literatura “cor de rosa” (quase exclusivamente dirigida a mulheres).
7 “A própria inteligência humana é produto da seleção sexual, e não da seleção natural. A maioria dos antropólogos evolutivos acredita agora que os cérebros grandes contribuíram para o sucesso reprodutor, quer porque permitiram que os homens fossem mais espertos ou enganassem outros homens (e que as mulheres fossem mais espertas ou enganassem outras mulheres), quer porque foram originalmente utilizados para cortejar e seduzir membros do sexo oposto”, in “A Rainha de Copas”, Matt Ridley, Gradiva, Lisboa, 2004.
8Curiosamente a posição de Popper sobre a evolução tem algumas semelhanças com a da sociobiologia. Para ele, “da amiba a Einstein vai apenas um pequeno passo”, in “Um Mundo de Propensões”, Karl Popper, Editorial Fragmentos, 1989.
Amália foi uma cantora de dimensão mundial, ao nível dos melhores intérpretes de todos os géneros musicais.
Muitas músicas foram compostas e interpretadas tendo como referência Alfama – fados, sobretudo. Um deles – “Igreja de Santo Estevão” – interpretado por Fernando Maurício, poderia ser o escolhido por muitos, se tivessem de optar por uma canção para Alfama; os Madredeus lançaram nos anos 90 uma bela canção, precisamente, “Alfama”, digna também de uma representação musical do bairro; “O Barco vai de Saída” (“adeus ó cais d’Alfama”), de Fausto Bordalo Dias, é um tema belíssimo e muito animado que se coaduna com a tradição marítima do bairro, e poderia ser escolhido, também; várias marchas populares poderiam igualmente representar (provavelmente da forma mais bairrista entre todas) a nossa querida Alfama…
Eu, porém, escolhi uma composição, uma letra e uma interpretação que me pareceram as melhores. E um local também. A composição é de Alain Oulman, a letra de Ary dos Santos, a interpretação da grande Amália e o local Tunes, na Tunísia. Não teve influência na minha opção, mas é de realçar o facto de Ary dos Santos ter vivido muitos anos na Rua da Saudade, nos arrabaldes do bairro; e a escolha de um país árabe, como palco desta fabulosa interpretação (como todas) de Amália, é carregada de simbolismo.
Como não podia deixar de ser, o tema em questão intitula-se “Alfama” – e é arrebatador.
O acesso a São Francisco faz-se, normalmente, por Joinville, uma cidade próspera, ordenada, limpa e a maior, em número de habitantes, do estado catarinense. Um exemplo que os prefeitos de todas as cidades brasileiras deveriam seguir. A influência alemã faz-se sentir fortemente aqui, nas pessoas, nas edificações e nos costumes.
Ao chegar ao centro de São Francisco, após uns 30 kms, tem-se aquela sensação que experimentamos em cidades como Colónia del Sacramento, Olinda, Parati ou João Pessoa – as ruas empedradas, as sacadas, os telhados, às vezes um rio fazem lembrar Alfama (Lisboa e Portugal, também). Na verdade, São Francisco do Sul é mais um dos irmãos que Alfama tem por esse mundo fora.
O casario colonial estende-se ao longo da baía da Babitonga e guarda um dos últimos núcleos açorianos do país (tal como Ribeirão da Ilha ou Santo Antônio de Lisboa, em Florianópolis). Aqui encontramos o Museu Nacional do Mar, que reúne embarcações de todo o Brasil. O acesso pode fazer-se de carro, mas é mais bonito quando se realiza pelas balsas ou lanchas que asseguram a ligação ao continente.
São Francisco do Sul é uma vila belíssima e merece visita detalhada. Restaurantes e cafés, no centro histórico, permitem matar a fome. Um deles, São Francisco Panificadora, serve umas sopas consistentes que reconfortam o estômago e animam o espírito para a viagem de regresso. Experimentámos a sopa de costela com aipim e a de frutos do mar, já de noite, olhando, de quando em vez, pelo vidro embaciado, para vultos ondulantes e indecifráveis na baía da Babitonga.
Sai-se da BR 101, em Tubarão, correm-se 17 quilómetros para o interior, no sentido NW, e chega-se a Gravatal. Nesta cidade tudo gira em torno das águas termais, que aqui jorram a uma temperatura média de 36º, 40 litros por segundo. Dizem que a água termal de Gravatal é a segunda melhor do mundo em propriedades terapêuticas, superada apenas pela do complexo de Aux-Les-Thermes, em França.
Mera propaganda? Não sabemos. O que é certo é que a água mineral do Gravatal é captada e aproveitada por três hotéis. Nós estivemos num deles: da rotunda central da cidade (que logo se percebe onde fica) viramos à direita e, depois de uma pequena estrada de terra batida e uma alameda verdejante, chegamos. Não tem engano possível e, se tiver, toda a gente conhece o Hotel Internacional…
Dois conjuntos edificados desde logo se destacam: um, térreo, com cobertura ondulada, onde se encontram a receção, salas de convívio e de jogos, um bar, um amplo salão de refeições e uma sala infantil; outro, com quatro pisos e de linhas direitas, com os quartos de alojamento (118), as salas de sauna, de terapias, de banhos e de consultas.
Água é um bem que não falta por aqui. Além de duas piscinas exteriores, o hotel possui também uma piscina interior, vários tanques de hidromassagem, salas com enormes banheiras e, nos próprios quartos, piscinas ou banheiras de imersão, tudo com água termo mineral. As torneiras são gigantes, mais parecem bocas de incêndio, e delas jorra tal quantidade de água que uma banheira grande enche-se em três minutos.
No espaço envolvente predomina o verde, cortado por trilhas, de onde avistamos pássaros, patos e até macacos de popa! Estão disponíveis campos de ténis e de futebol. Durante a nossa estadia, um simpático galo, que apelidámos de Zeca, rondava pela porta do hotel e pelas redondezas do restaurante, debicando aqui e ali, convivendo com os hóspedes, fazendo as delícias da Rafaela.
Aqui descansa-se e, verdadeiramente, relaxa-se; e corre-se sério risco de abalar com mais uns quilinhos; o conforto é total, tanto nos quartos como nas outras instalações; a comida é excelente; o ar estimula o apetite; e a água termal puríssima serve para nos lavarmos por fora e por dentro: dado que ela jorra a uma temperatura tépida, bebe-se com gelo feito da mesma, única e abundante água do Gravatal.
O Hotel Internacional e sua envolvente são ideais para umas pequenas férias em família e uma boa alternativa à praia, sobretudo em dias de chuva (o que não é nada raro no sul do Brasil), como foi o caso. Alojamento, café da manhã, almoço e jantar, para um casal com filho, menor de 5 anos, ficou por 330 reais/dia (cerca de 140 euros). Valeu cada centavo!
Aguarda-se com muita expectativa o documentário Zappa, de Alex Winter.
Todos nós somos influenciados pela música que ouvimos com nossos amigos na adolescência. É muito comum esse ser o tipo de música que acaba por se tornar o nosso preferido pela vida fora. O mesmo se passou comigo, claro, mas não por muito tempo. Cedo percebi que, como outra qualquer expressão artística, a música, quando de qualidade, é intemporal. Hoje ouço alguma música do tempo da minha adolescência, de vez em quando, mas está longe de ser o tipo de música que ouço mais e, sobretudo, o tipo de música de que gosto mais. Na verdade, gosto de tanta coisa, que acaba por ser bastante difícil dizer do que gosto mais — depende muito do humor de cada momento. Há, porém, um músico cujos trabalhos ouvi muitas e muitas vezes durante a minha adolescência e por quem, mais do que gostar, sinto uma espécie de veneração, Francis Vincent Zappa.
A carreira musical de Zappa estende-se por pouco mais de trinta anos. Infelizmente ele morreu ainda bastante novo, aos 52 anos de idade, em dezembro de 1993. Apesar disso, o seu legado é enorme e está registado em mais de noventa álbuns gravados ao vivo ou em estúdio! Não conheço a totalidade da sua obra. A partir de 1976/77, Zappa enveredou paulatinamente por um estilo heterodoxo, explorando novas sonoridades, alargando o leque instrumental, produzindo música para orquestra, formando outro tipo de bandas, já sem o contributo dos músicos carismáticos que o ajudaram a construir os seus maiores êxitos como, por exemplo, George Duke, Napoleon Murphy Brock, Ruth Underwood ou Jean Luc-Ponty. O período de ouro de Frank — aquele em que, como costumo dizer, Zappa esteve em comunicação com os deuses — vai do fim dos anos 60 até 1975. Um período de pouco mais de cinco anos em que ele produziu músicas para uma dúzia de LPs, todos eles geniais1. Assim, é-me difícil ouvir os trabalhos dos anos oitenta, por exemplo, quando Zappa enveredou por um caminho mais experimental ou orquestral, porque sempre os comparo com aquele período de ouro, ao qual regresso sempre.
Penso, por isso, que é preciso dar alguma orientação a quem, pela primeira vez, contacta com a música de Frank Zappa. Muitas vezes as pessoas começam por ouvir as obras dos anos oitenta e não gostam, não estão preparadas, desistem. É preciso encaminhá-las para o “período de ouro”, para a produção clássica de Zappa, que é, sem dúvida, uma melhor introdução. Um trabalho altamente recomendado para o efeito é Overnite Sensation, álbum que contém, provavelmente, o leque de canções mais conhecido e mais comercializado de Frank que, como se sabe, não era um músico comercial, embora, na minha opinião tenha tudo para (ainda) vir a sê-lo, infelizmente, apenas após a sua morte. (Nada que não tenha acontecido com outros génios da música). Um outro trabalho, este gravado ao vivo, que pode ombrear com o atrás referido, idealmente, complementá-lo, embora talvez mais difícil de ouvir numa primeira vez, seria Roxy & Elsewhere — ambos verdadeiras obras-primas.
Obviamente, muito foi dito já sobre a música de Frank e será difícil acrescentar alguma coisa. Ficam apenas quatro pequenas pontos.
A música de Zappa, para além de genial, é originalíssima, incatalogável, não é rock, nem jazz, nem blues, nem música clássica e, simultaneamente, é tudo isso e muito mais. Tudo o que se pode dizer, para não errar, e parafraseando Ruth Underwood, é que é Zappa.
Frank Zappa tocou com inúmeros músicos desconhecidos até então (as suas bandas mudaram frequentemente ao longo do tempo); sob sua orientação, todos se revelariam instrumentistas extraordinários, o que demonstra a grande capacidade de liderança de Frank. Ele conseguia extrair dos músicos aquilo que estes pensavam ser impossível.
Talvez por influência de Edgard Varèse, a percussão tem grande destaque na música de Zappa, que muitas vezes alinha com vários percussionistas, incluindo dois bateristas; uma das características da sua música é que os percussionistas estão sempre em grande atividade.
Para além de criador de génio, Frank era também um exímio guitarrista, um excelente vocalista e um grande maestro, bem como um entertainer muito especial. Sem dúvida, o músico mais extraordinário da segunda metade do século XX e, quiçá, o mais inovador de todo o século.
Por vezes, comparo Frank Zappa a Fernando Pessoa: Pessoa deixou uma arca cheia de poemas, que ainda hoje estão a ser selecionados, e Zappa deixou uma cave cheia de músicas, que ainda hoje estão a ser interpretadas. Ambos eram geniais e prolíficos e, por isso mesmo, os seus trabalhos e biografias são universalmente estudados, apreciados, venerados, discutidos e reinterpretados. Por outras palavras: ganharam o direito a figurar na restrita galeria dos imortais.
No que toca a Zappa, para além dos inúmeros documentários já realizados e a realizar — como o de Alex Winter, que foi autorizado pela família de Frank a vasculhar a célebre cave —, as biografias em livro, os artigos, efemérides e celebrações, destacaríamos as bandas que se dedicam à música de Zappa, desde logo a liderada pelo seu filho Dweezil, a Berklee Frank Zappa Tribute, os Treacherous Cretins, entre muitas outras, incluindo as que, desde 1990, comparecem no Zappanale, um festival exclusivamente dedicado à música de Frank Zappa, que se realiza em Bad Doberan, na Alemanha, onde se reúnem, todos os anos, muitos dos seus inúmeros fãs.
Criada em 2002 por Gail Zappa, A Zappa Family Trust detém os direitos autorais e de imagem de Frank. Em 2015, pouco antes da morte de Gail, o fundo foi doado ao seu filho Ahmet.
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1Álbuns “clássicos” de Zappa:
Uncle Meat (1969)
Hot Rats (1969)
Weasels Ripped My Flesh (1970)
Chunga’s Revenge (1970)
Filmore East (1971)
200 Motels (1971)
Just Another Band from L.A. (1972)
Waka/Jawaka (1972)
The Grand Wazoo (1972)
Over-Nite Sensation (1973)
Apostrophe (1974)
Roxy and Elsewhere (1974)
Montana, uma canção do álbum Overnite Sensation, aqui interpretada ao vivo no Roxy de Hollywood, Califórnia.
No tempo da minha infância, nos anos sessenta do século XX, ainda circulavam machos e burros puxando carroças com legumes e outras mercadorias pelas ruas de Alfama. Havia poucos carros. Tudo se comprava em avulso, pesado e embalado no comércio local: 500 gramas de açúcar, 250 gramas de azeitonas, um litro de feijão (sim, era um litro e não um quilo), meio-quilo de café; sete e meio de branco ou tinto na taberna do Zé Gordo, onde hoje é a Mesa de Frades. Não se usava plástico nem Tetra Pak. Sou do tempo da Fonte das Ratas e lembro-me de ver — ainda! — os vendedores de água, conhecidos por aguadeiros, apregoando “aú”! Eu próprio vendia leite avulso de porta em porta, ajudando os meus pais, o que me custou a alcunha de Norma Leiteiro, que eu detestava. As pessoas colocavam colchões nos becos e nos pátios e dormiam ao ar livre, nas noites quentes. Muitos criavam galinhas, coelhos, patos e outros animais que andavam com seus filhotes pelo empedrado do bairro. Algumas crianças tomavam banho nos chafarizes e alguns adultos também. Muitas habitações não tinham casa de banho. Aos sábados à noite ia-se ao café ver o Bonanza na televisão a preto-e-branco, como hoje se vai ao cinema; e aos domingos, sempre às três da tarde, ouviam-se no rádio os relatos do futebol. Ninguém pensava em ganhar dinheiro com os Santos Populares: as pessoas ofereciam sardinhas, pão e vinho a quem passava; cantava-se, dançava-se e saltava-se a fogueira: cada beco fazia a sua festa — e era muito, muito mais bonito que agora! Naquele tempo havia mais gente, mais atividades, mais pregões, mais cheiros. E tudo era maior porque eu era mais pequeno. Havia também as Casas da Malta, onde se amontoavam imigrantes, em geral do Norte, que vinham trabalhar para Lisboa. Muitas das profissões — estivadores, conferentes, fiéis de armazém, pescadores, armadores, manobradores, timoneiros, mestres, arrais, marinheiros, entre muitas outras — estavam ligadas ao porto e ao rio, para além de várias atividades ilícitas, em geral, complementares àquelas. Era comum encontrar-se — sobretudo de manhã, bem cedo, para o “mata-bicho” e, ao fim do dia, para o “copo-de-três” — muitos destes trabalhadores, distribuídos pelas tabernas do bairro. Trabalhadores e tabernas em vias de extinção. A ancestral relação entre Tejo e Alfama perdeu força nas últimas três, quatro décadas, até se extinguir, e esta foi a maior transformação, não apenas dos últimos cinquenta anos, mas desde sempre: o fim de uma relação milenar! Terminou um ciclo, no qual Alfama descobriu o mundo, e inaugurou-se outro, em que o mundo descobre Alfama. O turismo cresceu bastante nos últimos anos, ao mesmo tempo que o cais e o rio se esvaziaram. A Doca da minha infância, repleta de fragatas e varinos, onde tantos, como eu, aprenderam a nadar, foi aterrada; o Tejo ficou mais distante, inacessível; Alfama, sem ele, divorciada, perdeu vivacidade e alegria: entrou num processo de transformação e aos poucos foi-se adaptando e regenerando. Agora, os hábitos e a maioria dos habitantes são outros: muita gente, de muitos lugares, veio morar para Alfama. Há mais diversidade profissional, social, cultural; multiplica-se o pequeno comércio de chineses, cingaleses, indianos; a vida noturna animou-se com a proliferação de casas de fado e bares diversos. Enfim, o bairro revitaliza-se, renova-se, mas não perde a identidade. Isto percebe-se melhor quando subimos a colina e alargamos a vista, primeiro em Santo Estevão e, depois, em Santa Luzia: lá está o Tejo, afinal, com sua corrente forte; o casario e o traçado árabe parecem eternos; e as andorinhas continuam a chegar no fim dos dias longos, em grande algazarra, anunciando o Verão. Alfama ainda é a minha aldeia.
Face à classificação de há 5 meses (29/10/2012), releva o seguinte: entradas de António José Seguro, Nuno Crato, Vítor Gaspar e Marques Mendes; manutenção incontestável do primeiro lugar, desde o início das “sondagens”, de “O Conspirador”; saída de cena de Francisco Louçã, “O Moralista”.