
A relação do homem com o fogo é ancestral. Sem fogo não existiria humanidade. E a forma como o fogo se propaga depende em muito da forma como as sociedades humanas se organizam. Isto é algo que os homens primitivos já sabiam, mas que, com o desenvolvimento científico e tecnológico tendemos a esquecer. Passámos a domar o fogo e a circunscrevê-lo ao interior de máquinas e utensílios — na indústria, nos transportes, nas nossas fábricas e cozinhas.
Com o abandono dos campos e a concentração das populações nas grandes cidades — e a consequente acumulação de combustíveis (sobretudo combustíveis finos) — os fogos florestais tornaram-se incontroláveis. Criámos uma verdadeira idade do fogo — o Piroceno1 . Urge retomar práticas ancestrais (o que já se faz nas sociedades onde o estudo do fogo está mais avançado) como, entre outras, o fogo prescrito ou controlado e “precisamos de recordar que o fogo não é simplesmente uma ferramenta, uma presença ou um processo a ser manipulado, mas sim uma relação”2.
Temos de compreender que não podemos viver sem o fogo e que, apesar do seu poder destruidor, ele não é nosso inimigo.
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Notas:
1 O termo “Piroceno” foi cunhado pelo próprio Pyne no ensaio The Fire Age, publicado em maio de 2015 na revista Aeon.
2 Ob. cit., p. 181.
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A nossa edição:
Stephen J. Pyne, Piroceno — De como a Humanidade criou uma Idade do Fogo e o que virá a seguir, Livros Zigurate, Lisboa, 2023.
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