Vi-o e ouvi-o várias vezes ao vivo, a primeira das quais no início dos anos 80, na Amadora, e a última no CCB, em outubro de 2018, quando já se lhe notava alguma debilidade. Em 1982, assisti, na companhia do meu querido amigo Branquinho, à peça “Fernão Mentes?”, encenada por Hélder Costa e interpretada pela companhia de teatro “A Barraca”, a qual incluía várias canções do então futuro álbum “Por Este Rio Acima”, baseado, tal como a peça, na obra de Fernão Mendes Pinto, “Peregrinação”.
Nesses anos 70 e 80, eu e alguns amigos muitas vezes cantámos as músicas de Fausto em autocarros, barcos, comboios, nas nossas viagens de fim de semana, divertindo uns e incomodando outros, fazendo jus à nossa juventude irreverente, quando a viola era uma arma que podia ferir tímpanos, mas não matava ninguém. Por todos esses anos e pelos que se seguiram continuei a ouvir Fausto. A canção “O Barco Vai de Saída” foi adotada como uma espécie de hino de Alfama, que cantávamos com vigor e calor sempre que a oportunidade surgia, geralmente em jantaradas no interior do bairro, mas também fora dele.
As letras de Fausto são fabulosas — um facto nem sempre notado. As composições, por seu turno, têm a sua marca indelével: ritmos bem sincopados, com notórias influências da música tradicional portuguesa, um extenso leque de instrumentos de percussão do folclore tradicional, arranjos requintados, interpretações rigorosas, técnica apurada e um timbre de voz único.
Sói dizer-se que os grandes artistas não morrem, mas Fausto Bordalo Dias morreu hoje, aos 75 anos. Vivos continuam os que podem apreciar as suas letras, a sua música e o seu génio.
O Barco Vai de Saída – O início da “Peregrinação”, de Fausto.
A “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto, é uma daquelas obras incontornáveis da cultura portuguesa. Escrita após uma viagem de 21 anos pelo Oriente (Mendes Pinto saiu de Lisboa em 1537 e regressou em 1558), e editada pela primeira vez em 1614 (cerca de 30 anos após a morte do autor), causa, ainda hoje, muita polémica.
Desde logo, pelo longo período que medeia entre as aventuras (e desventuras) da viagem e a entrega do manuscrito (pela filhas de Fernão Mendes) para publicação. Seguramente este (o manuscrito), cujo original está hoje perdido, passou por várias mãos… Teria sido alterado?
Depois, há várias questões que se prendem com o conteúdo da obra: a linguagem, a toponímia, a reconstituição de percursos e personagens. Por exemplo, quem foi esse corsário português chamado António de Faria? (Aquilino Ribeiro aventou a hipótese de que fosse o próprio Fernão Mendes). E o Coja Acem? Não há unanimidade, como seria de esperar, e é, de resto, impossível comprovar ou desmentir cada um dos episódios desta imensa obra. A “Peregrinação” tem 226 capítulos e mais de 800 páginas1. Porém, uma coisa é certa: a maior parte do que Fernão Mendes narra é verdade. Esta é a conclusão a que chegam os investigadores, nacionais e estrangeiros. Há quem diga mesmo que, à medida que se são vão ampliando os estudos, Fernão Mendes mente cada vez menos. Uma alusão evidente ao trocadilho “Fernão, Mentes?”, que alguns dos mais céticos colaram a este aventureiro de Montemor.
Por fim, as questões mais filosóficas. Que tipo de obra é a “Peregrinação”? O que a motivou? Qual a intenção de Mendes Pinto ao escrevê-la? Será uma sátira, como pretende a historiadora americana, Rebbeca Catz? Uma busca interior, um caminho de conversão, como defende o professor da Universidade do Algarve, António Rosa Mendes?
Ciente destas e de outras questões sobre a obra em causa, estaria e estará, seguramente, Fausto Bordalo Dias, que, no entanto, as abordou de uma forma original2. Como? Criando a partir daquela obra-prima uma outra obra-prima. Este autor, ao contrário do primeiro, não saiu de Lisboa – e a sua viagem foi (pelo menos até certo ponto) toda interior. Daí resultou um trabalho que é, sem dúvida, a melhor (re)interpretação da obra de Mendes Pinto. Desta feita, através de sons, viajamos, no espaço e no tempo, como já fizéramos através da “Peregrinação”. E, durante a viagem, podemos nós próprios – se para tal tivermos asas – “voar por cima das águas”…
Não é, de forma alguma, descabido considerar “Por Este Rio Acima”, um álbum de 1982 (no qual se integra a canção aqui apresentada), como “obra-prima”. A criatividade e a competência patentes na música, nas letras, nos arranjos, nos instrumentos e instrumentistas; as vozes, incluindo a voz belíssima do próprio Fausto – tudo se harmoniza num nível muito elevado. Acresce que, tal como a obra que a inspira, esta é uma criação caracteristicamente portuguesa. Mas não seria obra-prima se não fosse universal.
“Por Este Rio Acima” é a primeira obra de uma trilogia, intitulada “Lusitana Diáspora”. A segunda obra foi o álbum “Crónicas da Terra Ardente”, de 1994, baseado na “História Trágico-Marítima”, uma relação de naufrágios, compilados por Bernardo Gomes de Brito, e publicada em dois tomos em 1735 e 1736. A terceira (e última) obra foi o álbum “Em Busca das Montanhas Azuis”, de 2011, o qual já não se baseia nas viagens marítimas dos portugueses, mas na descoberta do interior do continente africano.
Fausto criou doze álbuns de originais ao longo de mais de 40 anos de carreira. A sua vida está desde cedo ligada ao mar e à apetência marítima dos portugueses. Fausto Bordalo Dias nasceu em 1948, no interior do navio “Pátria”, algures no Atlântico, entre Angola e Portugal.
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Notas:
1 Pelo menos no exemplar que possuo da Relógio d’ Água… Acrescente-se que a esmagadora maioria dos historiadores concorda sobre a impossibilidade de decifrar completamente a “Peregrinação” São os casos do holandês Arie Pos e o algarvio Rui Manuel Loureiro (ver a obra Fernão Mendes Pinto e a Projeção de Portugal no Mundo, Editora Húmus, da Universidade do Minho, 2013).
2Fausto já abordara o tema da “Peregrinação” num álbum de 1979 – História de Viageiros – e José Afonso lançou também um álbum, em 1983, dedicado à “Peregrinação”, sendo que as canções desse álbum – Como se Fora seu Filho – foram escritas para integrarem a peça teatral do grupo A Barraca –Fernão Mentes? – (que tive a felicidade de ver ao vivo), por sua vez também inspirada na “Peregrinação”.
There are seven hills in Lisbon, like in Rome. At the top of one of them – perhaps the most beautiful of all – lies São Jorge castle (11th century), which has a spectacular view of Lisbon, the Tagus and the small satellite towns across the river. It is precisely along the slopes of the hill facing the Tagus river that we find the historic district of Alfama. The relationship between Alfama and the river is, therefore, ancestral.
The first to arrive by ship in Alfama came from the Mediterranean, then from the North Seas and later from other parts of the world. In the first half of the 16th century, when Portugal was at the heights of the epic Discoveries, Lisbon was the center of the world and the main port of the most important trade routes. The movement of ships along the Tagus was intense and the people of Alfama were the first to have contact with individuals from faraway lands, namely from Africa, Asia, America, or those who they met in distant lands when they set off on – and survived – their voyage of the Discoveries[1].
Phoenicians, Carthaginians, Romans and Arabs were in Alfama long before the Portuguese Discoveries even began. And it was the Arabs who gave Alfama its unique character, with its narrow streets and alleys, quaint courtyards, picturesque stairways, and its name, which comes from the Arabic, al–hamma, meaning “bath” or “hot springs”.
In addition to the Arab presence, buildings and inscriptions reveal the passage of Jews, Christians and Romans, thus making Alfama a veritable outdoor museum. The historic buildings and layout of the district has remained unchanged for centuries, as if time stood still.
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[1] The great popular Portuguese singer, Fausto Bordalo Dias, in his album “Por Este Rio Acima” (“Up On The River”), from 1982, exemplarily depicts those voyages. Below, the record of one of the songs from that album, “O Barco vai de Saída” (“The Ship Goes Out”), which is for many, including myself, the popular hymn of Alfama.
Amália foi uma cantora de dimensão mundial, ao nível dos melhores intérpretes de todos os géneros musicais.
Muitas músicas foram compostas e interpretadas tendo como referência Alfama – fados, sobretudo. Um deles – “Igreja de Santo Estevão” – interpretado por Fernando Maurício, poderia ser o escolhido por muitos, se tivessem de optar por uma canção para Alfama; os Madredeus lançaram nos anos 90 uma bela canção, precisamente, “Alfama”, digna também de uma representação musical do bairro; “O Barco vai de Saída” (“adeus ó cais d’Alfama”), de Fausto Bordalo Dias, é um tema belíssimo e muito animado que se coaduna com a tradição marítima do bairro, e poderia ser escolhido, também; várias marchas populares poderiam igualmente representar (provavelmente da forma mais bairrista entre todas) a nossa querida Alfama…
Eu, porém, escolhi uma composição, uma letra e uma interpretação que me pareceram as melhores. E um local também. A composição é de Alain Oulman, a letra de Ary dos Santos, a interpretação da grande Amália e o local Tunes, na Tunísia. Não teve influência na minha opção, mas é de realçar o facto de Ary dos Santos ter vivido muitos anos na Rua da Saudade, nos arrabaldes do bairro; e a escolha de um país árabe, como palco desta fabulosa interpretação (como todas) de Amália, é carregada de simbolismo.
Como não podia deixar de ser, o tema em questão intitula-se “Alfama” – e é arrebatador.