Fausto Bordalo Dias

O Barco Vai de Saída — uma canção icónica.

Vi-o e ouvi-o várias vezes ao vivo, a primeira das quais no início dos anos 80, na Amadora, e a última no CCB, em outubro de 2018, quando já se lhe notava alguma debilidade. Em 1982, assisti, na companhia do meu querido amigo Branquinho, à peça “Fernão Mentes?”, encenada por Hélder Costa e interpretada pela companhia de teatro “A Barraca”, a qual incluía várias canções do então futuro álbum “Por Este Rio Acima”, baseado, tal como a peça, na obra de Fernão Mendes Pinto, “Peregrinação”.

Nesses anos 70 e 80, eu e alguns amigos muitas vezes cantámos as músicas de Fausto em autocarros, barcos, comboios, nas nossas viagens de fim de semana, divertindo uns e incomodando outros, fazendo jus à nossa juventude irreverente, quando a viola era uma arma que podia ferir tímpanos, mas não matava ninguém. Por todos esses anos e pelos que se seguiram continuei a ouvir Fausto. A canção “O Barco Vai de Saída” foi adotada como uma espécie de hino de Alfama, que cantávamos com vigor e calor sempre que a oportunidade surgia, geralmente em jantaradas no interior do bairro, mas também fora dele.

As letras de Fausto são fabulosas — um facto nem sempre notado. As composições, por seu turno, têm a sua marca indelével: ritmos bem sincopados, com notórias influências da música tradicional portuguesa, um extenso leque de instrumentos de percussão do folclore tradicional, arranjos requintados, interpretações rigorosas, técnica apurada e um timbre de voz único.

Sói dizer-se que os grandes artistas não morrem, mas Fausto Bordalo Dias morreu hoje, aos 75 anos. Vivos continuam os que podem apreciar as suas letras, a sua música e o seu génio.

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1º Triatlo Sprint Cidade de Tavira

Em época de festas populares, 1º Triatlo de Tavira veio colorir ainda mais o centro da cidade.

Decorreu hoje de manhã o primeiro Triatlo Sprint Cidade de Tavira, organizado pelo Clube de Vela de Tavira, em colaboração com a Federação de Triatlo de Portugal, com o Município desta cidade, com o Instituto Português de Desporto e da Juventude, com a União das Freguesias de Tavira e várias entidades locais. Os participantes de vários escalões femininos, masculinos e mistos, federados e não federados, tiveram de percorrer 750 metros de natação, 20 km de bicicleta e 5 km de corrida para completarem a prova, que foi um sucesso, atendendo ao número de participantes, que quase chegou às duas centenas.

Iniciando os 750 metros de natação no rio Séqua.

A prova foi ganha por João Chagas, do Lusitano Frusoal (escalão M 20-24), com o tempo de 55m e 38 s. João Vilanova, do mesmo clube, foi o primeiro junior a cortar a meta, e o 7º da geral. A prova feminina teve como vencedora Ana Estévez do Vasco da Gama de Sines. (Resultados completos aqui).

Este evento animou bastante o centro da cidade, teve muita gente a assistir e tem tudo para ser apenas a primeira de muitas outras edições, em anos vindouros.

Wheigre Lima avança para a prova de ciclismo, após ter concluído os 750 metros de natação com o tempo de 14′ e 38″.

Os rios Séqua e Gilão têm boas condições (aproveitando as marés) para a realização de vários géneros de provas aquáticas, desportivas e de lazer, mas têm sido mal aproveitados. Esperamos que o sucesso desta prova incentive a edilidade e outras instituições a unirem esforços para a organização de eventos desportivos futuros nas belas águas destes rios, que hoje, por acaso, estavam com uma temperatura ótima — cerca de 20º C.

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A malagueta

Autor de mais de 250 publicações científicas sobre a fisiologia e o comportamento das plantas, Stefano Mancuso é um neurobiólogo renomado, professor na Universidade de Florença. O artigo que se segue é um extrato do seu livro “A Revolução das Plantas”, publicado, em Portugal, em 2019. (Foto retirada de: wonderground.press).

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O nome “malagueta” designa um determinado número de espécies do género Capsicum, o mesmo a que pertence o pimento, e quase todas elas se caracterizam por produzir quantidades consideráveis de capsaicina, a molécula responsável pela sensação de ardor (são poucas as variedades que não são picantes). As cinco espécies mais cultivadas são: Capsicum annuum, C. frutences, C. pubescens, C. baccatum e C. chinense, arbustos perenes que, contudo, dada a sua breve vida, são normalmente tratados como anuais. Originárias do continente americano, onde já eram cultivadas há quase oito mil anos, estas plantas assumiam uma grande importância do ponto de vista médico, além de culinário, para as civilizações nativas. A malagueta chegou à Europa graças a Colombo, quando este regressou das suas primeiras viagens à América Central. Como muitas outras espécies comestíveis provenientes do Novo Mundo, converteu-se rapidamente numa planta de grande consumo, difundindo-se a nível global. Em menos de um século, a malagueta tornou-se parte da cultura gastronómica de países como a Itália, a Hungria (de onde provém a paprica), a Índia, a China, a África ocidental, a Coreia, etc. Uma investida incomparável e incontrastável, à conquista dos lugares mais remotos da Terra.
E é precisamente o seu princípio picante que torna a malagueta um alimento tão procurado. Para medir a intensidade do picante, um químico americano, Wilbur Scoville, inventou em 1912 uma escala: a escala Scoville, justamente. O método de medição na sua base, designado por teste organoléptico de Scoville, consiste em diluir o extrato de malagueta numa solução de água e açúcar: um grupo de provadores continua a diluir a solução até esta não conter quaisquer traços de picante. O número de diluições — quanto mais elevado for, mais picante é a malagueta — corresponde ao valor em Unidades de Calor Scoville (ou Shu: “Scoville Heat Units”). Um pimentão-doce tem zero Shu, enquanto a capsaicina pura tem um valor equivalente a dezasseis milhões Shu. Este último representa o valor máximo absoluto de picante para uma malagueta, um valor que possui o mesmo fascínio das constantes físicas fundamentais, como a velocidade da luz ou o zero absoluto de temperatura. Trata-se de um limite intransponível que representa o Santo Graal dos capsicófagos.
Todos os anos, recorrendo a uma qualquer técnica — legal ou ilegal — conhecida para o melhoramento da planta, produz-se um vasto número de novas variedades ou seleções com um elevadíssimo grau de picante. O objetivo é ultrapassar sempre o limite e aproximar-se o mais possível do inalcançável número perfeito dos dezasseis milhões Shu.
Em 2013, a “Carolina Reaper” (a ceifeira da Carolina; sim, precisamente aquela ceifeira, que habitualmente representamos com uma grande gadanha na mão e que designa um monstro capaz de produzir frutos que contêm mais de dez por cento do seu peso em capsaicina) superou o valor astronómico de dois milhões de unidades Scoville! E, deste modo, suplantou o “Escorpião de Trinidad” e o “Naga Viper” no invejado primado de
Capsicum mais picante do planeta. Todos os anos a fasquia se eleva, novos recordes de picante são alcançados e milhões de pessoas no mundo fazem de tudo para procurar estes campeões, para os provar e difundir. E quanto mais picantes são, mais difundidos se tornam. Aquilo que os capsicófagos exclusivamente procuram é a capsaicina. Em doses crescentes. Nos Estados Unidos está inclusivamente à venda um molho picante (e “picante” é um eufemismo) designando por “16 Million Reserve”: trata-se de capsaicina pura em cristais, conservada em frascos produzidos em quantidade limitada; o seu preço no mercado pode alcançar milhares de dólares.
Mas o que é exatamente a capsaicina? Trata-se de um alcaloide que, ao entrar em contacto com as terminações nervosas, ativa um recetor conhecido por TRPV1. Este tem a função de sinalizar ao nosso cérebro níveis de calor potencialmente perigosos e costuma ativar-se, com efeito, por volta dos 43º C. Na prática, o TRPV1 foi “projetado” para nos impedir de fazer coisas perigosas, como agarrar com as nossas próprias mãos um ferro de engomar ardente ou engolir um caldo a ferver. Todas essas ações que nos poderiam causar danos corporais. É por isso que a capsaicina provoca dor, e é também por esse motivo que é usada pelas forças policiais de grande parte do mundo como arma, através dos
sprays de gás pimenta. E por causa dessas mesmas características, é igualmente apreciada no papel de condimento. Contudo, pessoas com uma mente saudável não derramam sumo de limão nos olhos, nem batem com as canelas nos cantos dos móveis porque acham agradável a sensação de dor que isso provoca.
Nesse caso, como é possível que um terço da população mundial aprecie colocar sobre a língua — um dos nossos órgãos mais sensíveis — grandes quantidades de um alcaloide que provoca uma terrível sensação de ardência? Nos últimos anos foram elaboradas diversas teorias a esse respeito. A mais conhecida é a que o psicólogo Paul Rozin definiu como “masoquismo benigno”, segundo a qual determinado tipo de pessoas é atraído pelo picante e outras sensações de perigo. Para estas, comer malagueta é uma variante de andar na montanha-russa: em ambos os casos, defende precisamente Rozin, não obstante o corpo se aperceba do risco dessa atividade, a um nível superior sabe que não corre um real perigo e, portanto, não há uma verdadeira necessidade de interromper o estímulo negativo. O mesmo psicólogo conclui que, depois de uma série de exposições ao mesmo estímulo, o mal-estar inicial transforma-se em prazer.
Apesar de valorizar a sua perspicácia, essa teoria nunca me convenceu. Por um lado, porque adoro comida picante mas nunca me senti minimamente atraído por montanhas-russas, pelo “bungee jumping” ou qualquer outra atividade semelhante; por outro lado, porque a minha mulher, que também ama o picante, tapa os olhos com as mãos quando vê filmes de terror e nem sequer anda de baloiço, quanto mais numa montanha-russa; por outro lado ainda, porque muitos dos vorazes capsicófagos que conheci estão entre as pessoas mais tranquilas e menos propensas a procurar sensações perigosas que alguma vez encontrei; e, por fim, porque me pareceu improvável que um terço da população mundial corresponda a essas características que à partida não me parecem assim tão difundidas. Poderei, no entanto, estar enganado. Em defesa da tese de Rozin estão os resultados de uma pesquisa conduzida por dois estudiosos da ciência da alimentação, John Hayes e Nadia Byrnes, junto de noventa e sete indivíduos, a qual estabeleceu uma correlação significativa entre pessoas que “procuravam sensações” e pessoas que gostavam de picante.
Ao invés, a hipótese que coloquei para explicar a razão de tanta gente no mundo adorar o picante da malagueta é a de que a capsaicina provoca uma ação diferente daquela produzida por outros alcaloides que agem diretamente sobre o nosso cérebro (como a cafeína, a nicotina, a morfina, etc.), mas idêntica nos seus fins: induzir dependência. Para esclarecer de uma forma mais precisa o que pretendo dizer, regressemos à sensação de ardência que vai da boca ao cérebro. Quando o corpo perceciona a dor na língua, desencadeia uma miríade de sinais que chegam ao cérebro, o qual, para aliviar o sofrimento, produz endorfinas. Estas últimas pertencem a um grupo de neurotransmissores dotados de propriedades analgésicas e fisiológicas semelhantes às da morfina, mas muito mais poderosas. É através das endorfinas que o nosso corpo alivia a dor; elas são, sobretudo, a chave para compreender o poder arcano que a malagueta exerce sobre as nossas vidas.
A dependência de endorfina é tudo menos um conceito extravagante; é, por exemplo, o mecanismo que está na base do famosos
runner’s high (ou “euforia do corredor”). Se forem amantes de corrida ou tiverem amigos que praticam desportos de resistência, como a maratona, a natação de fundo ou o ciclismo, provavelmente já ouviram falar deste termo: trata-se de um estado particular de euforia que se manifesta a seguir a uma atividade desportiva prolongada e cansativa.
Comparável à euforia induzida por algumas drogas, este estado pode manifestar-se através de uma intensa felicidade ou de uma profunda sensação de bem-estar. Durante muitos anos não houve nenhuma prova científica de que o fenómeno fosse real; considerava-se, aliás, que esta era uma lenda relacionada com a mitologia associada aos amantes da corrida, até que, em 2008, uma investigação realizada na Alemanha em atletas analisados antes e após praticarem uma atividade física intensa demonstrou que havia um fundamento para este mecanismo.
O
runner’s high é, portanto, um fenómeno real e ocorre precisamente na sequência da libertação de endorfina no cérebro. A potência analgésica deste substância permite igualmente explicar a elevada tolerância à dor que se regista com frequência em atletas submetidos a atividades físicas intensas. São numerosos os casos de maratonistas que continuaram a correr não obstante terem sofrido fraturas ou traumas, os quais, noutras condições, teriam provocado dores insuportáveis. É o mesmo mecanismo pelo qual quem ingere elevadas quantidades de malagueta tende a ser menos sensível à dor; com efeito, a capacidade analgésica da capsaicina está bem demonstrada na mais recente literatura científica.
À semelhança de muitas outras plantas produtoras de substâncias que provocam dependência, também a malagueta confiou na química para ligar a si o mais poderoso e versátil dos transportadores animais: o homem. O que na minha opinião torna esta planta ainda mais interessante é o facto de, ao contrário das demais drogas vegetais que também exercem a sua influência no cérebro de outros animais, a capsaicina exercer uma ação exclusiva sobre o homem. Não há registo, efetivamente, de outros mamíferos que gostem de se alimentar dos frutos da pimenta-malagueta.
O inicio da história evolutiva da capsaicina parece estar relacionado com a sua capacidade de promover na planta uma certa resistência às infeções fúngicas. Por conseguinte, nas zonas sujeitas a uma maior quantidade destes ataques, os frutos de
Capsicum começaram a conter de forma natural uma concentração mais elevada deste alcaloide. Em seguida, a feliz coincidência de os pássaros não possuírem o recetor incumbido de desencadear a sensação de ardência nos mamíferos resultou numa ulterior vantagem evolutiva, favorecendo a disseminação das sementes das plantas mais picantes. A capsaicina, com efeito, mantinha à distância os mamíferos, que, através da mastigação, destruíam as sementes contidas nos frutos, não sendo, no entanto, sentida pelas aves, transportadoras muito eficientes porque não mastigavam as sementes e as levavam consigo para locais mais distantes. Contudo, a verdadeira vantagem da capsaicina para a malagueta foi conseguir por intermédio desta ligar a si, através de uma dependência atípica, o homem, ou seja, o transportador perfeito.
Se a minha teoria acerca da condição de escravatura à qual o alcaloide nos reduziu a nós, mamíferos capsicófagos, continua a não vos convencer, é necessário então deslocarem-se a uma dos milhares de “feiras da malagueta” que todos os anos se realizam em qualquer país do mundo. O ambiente no qual se movem os capsicófagos do terceiro milénio é diferente do tradicional com vestes escuras da minha infância; nessas feiras poderão travar conhecimento com os novos acólitos, enquanto estes estudam a molécula da capsaicina — os mais radicais fazem-se tatuar a fórmula da sua estrutura no pescoço — e envergam t-shirts com a expressão “Pain is good” impressa. Se isto não vos parece dependência…
O consumo de malagueta está em contínuo crescimento no mundo. Países tradicionalmente imunes ao dissimulado prazer da cozinha picante consomem-na em quantidades e modos impensáveis até há poucos anos. Enfim, a estratégia que esta espécie implementou para tornar dependente o homem e colocá-lo ao seu serviço já provou ser vitoriosa. Estar associada ao homem permitiu-lhe em poucos séculos propagar-se no planeta inteiro; nenhum outro transportador lhe teria proporcionado algo semelhante em tão pouco tempo. E, futuramente, será sempre melhor: no fim de contas, para se obter uma sensação de euforia proporcionada pela endorfina é mais simples, e muito menos cansativo, entregar-se a um belo prato de piripíri do que a uma corrida de 42,195 quilómetros.

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A nossa edição:

Stefano Mancuso, A Revolução das Plantas, Pergaminho, Lisboa, 2019. pp. 88-94. 

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Sotavento

Praia Verde, Algarve, 19:00 horas. A temperatura do ar rondará os 25, 26 graus; a do mar, uns cinco a menos. Nada que impeça um banho revigorante. O Algarve é a região terrestre mais ocidental (se excetuarmos as ilhas) onde vigora o chamado clima mediterrânico. Se partíssemos daqui em direção a Leste, até ao Crescente Fértil, manter-nos-íamos durante toda a viagem sob a influência deste clima. Poderíamos ir por terra (contornando a costa sul da Europa) ou por mar, entrando pelo Estreito de Gibraltar e cruzando o próprio Mediterrâneo, num trajeto oposto ao que fizeram os fenícios, quando há milhares de anos chegaram pela primeira vez ao Algarve. Ao contrário do que muitos supõem, este clima é pouco comum no mundo e contempla apenas outras quatro (mas muito pequenas) zonas do globo: o sudoeste da Austrália, o sul da Califórnia, o sul da África do Sul e uma parte do Chile. Não existe em mais lado nenhum. O clima mediterrânico — genericamente caracterizado por verões muito quentes e secos, e invernos frios e chuvosos — teve uma importância decisiva na história da humanidade. Não foi por acaso que as primeiras civilizações nasceram no Crescente Fértil: devemo-lo à especificidade do clima e às espécies animais e vegetais que a ele se adaptaram, e que não existiam noutros lugares. Sem o clima mediterrânico não seria possível termos o melhor pão, o melhor azeite, o melhor vinho, as melhores e mais variadas frutas, os melhores queijos e, já agora, a luz mais pura (que o digam os pintores). Para se ter uma ideia, só em Portugal existem mais de 250 castas de uvas, um desafio aceite por cada vez mais enólogos oriundos de longínquas paragens para aqui produzirem alguns dos melhores vinhos do mundo. Mas a Natureza brinda-nos de muitas outras formas. As nossas praias estão entre as mais bonitas e aprazíveis do planeta. Nesta época do ano, quando os dias parecem não ter fim, podemos ficar na praia até mais tarde, para vermos o sol pôr-se para lá das 21:00 horas. Por vezes, na mudança de maré, o vento para, o mar para, os sons param, e temos a sensação de que o tempo e os nossos pensamentos param também. Esta experiência é mais extraordinária quando ficamos sozinhos na praia. Na última vez, que foi hoje, um passarinho de poupa ficou parado na linha d’água, olhando o mar, que era um espelho imenso. Naquele momento eu, a minha companheira e o passarinho de poupa, pareceu-me, podíamos perfeitamente trocar identidades. E pareceu-me também que esta ilusão só é possível aqui, nas praias do Sotavento, onde o tempo não corre, escorre.

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50 anos de Abril

Exposição pública sobre a Guerra da Coreia, em Seul.

Este ano celebramos, mais uma vez, o 25 de Abril em viagem, concretamente na magnífica Coreia do Sul.

Os coreanos são um povo muito antigo que teve a pouca sorte de, a dado momento da sua história, se ver acossado por impérios grandiosos e poderosos, como são os casos russo, chinês e japonês.

A Coreia foi ocupada pelo Japão várias vezes, a última entre 1910 e 1945 e, ainda neste ano, no final da II Guerra Mundial, invadida pelos soviéticos. Com esta invasão iniciava-se a chamada Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, e estavam criadas as condições para que, cinco anos mais tarde, ocorresse uma guerra bem quente, a Guerra da Coreia, um conflito que provocou quase 5 milhões de mortos e reforçou a divisão da nação coreana, mantida até hoje, em dois estados independentes.

O contraste existente entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul é gigantesco, embora estejamos a falar do mesmo povo; e isto, só por si, prova como são importantes os regimes políticos. De facto, não poderia haver melhor exemplo prático como o da Coreia para constatar que há um abismo separando comunismo e democracia, opressão e liberdade.

Os dados são avassaladores e só para se ter um vislumbre da discrepância entre os dois estados, bastará dizer que os sul-coreanos são em média 27 vezes mais prósperos do que os seus vizinhos do norte. A extraordinária progressão da Coreia do Sul contrasta fortemente com a estagnação da Coreia do Norte e mostra-nos como as sociedades abertas se desenvolvem, social, económica e culturalmente, enquanto as sociedades fechadas — de esquerda ou de direita — apenas trazem miséria ao povo.

Pretendemos mostrar a importância das sociedades abertas nestes 50 anos de Abril. E nunca esquecer o quanto somos felizes por viver em Liberdade.

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A Guerra dos Chips

Os circuitos integrados, também conhecidos como semicondutores e, vulgarmente, chips, são a maior inovação tecnológica na transição do século XX para o século XXI, digamos, dos últimos cinquenta anos. Tal como Gordon Moore previu, a capacidade de processamento de cada chip vem duplicando de dois em dois anos — a chamada Lei de Moore. Os chips são utilizados em praticamente tudo, desde a indústria das comunicações — telemóveis, computadores, eletrodomésticos e automóveis — até à indústria da guerra — mísseis, tanques, drones e serviços de espionagem. O nosso modo de vida tornou-se dependente deles, de tal forma que são estrategicamente mais importantes do que qualquer outro produto à escala mundial e a sua produção representa, de longe, a indústria mais valiosa do planeta. Quando falamos em produção englobamos as duas fases fundamentais da mesma: o desenho e o fabrico. O que acontece é que normalmente as empresas (maioritariamente nos Estados Unidos) que desenham os chips são empresas fabless, ou seja, não os fabricam, porque a maquinaria necessária é muito sofisticada e muito cara, requerendo investimentos avultados para que seja mantida válida a Lei de Moore. Taiwan, Japão, Coreia do Sul e Singapura são os países do Leste asiático que fabricam os chips de última geração, com a China a procurar desesperadamente alcançá-los, mas conseguindo apenas — por enquanto — fabricar chips de segunda linha.

A Guerra dos Chips é uma guerra estratégica, com sansões, retaliações, espionagem e querelas comerciais, como comprova o Chips ans Science Act, uma lei assinada em 2022 por Joe Biden com a intenção de proteger a indústria americana. Dado que os circuitos integrados são essenciais na indústria de Defesa, os diferentes estados procuram que a produção se mantenha em mãos amigas. É por isso que os Estados Unidos estão dispostos a defender Taiwan da China — é em Taipé que se localiza a maior fábrica de chips avançados do mundo e onde são fabricados a maior parte dos chips desenhados pelas empresas fabless americanas. A TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company) foi criada por Morris Chang um chinês fugido do regime comunista e anterior diretor executivo da Texas Instruments. É nesta fábrica que se produzem 90% dos chips mais avançados. Além da TSMC, os maiores fabricantes de chips estão igualmente na Ásia Oriental onde se produzem 90% de todos os chips de memória, 75% de todos os microprocessados lógicos e 80% de todas as bolachas de silício.

A indústria dos chips precisa de máquinas especializadas para a sua produção sendo líder mundial neste campo uma empresa dos Países Baixos chamada ASML (Advanced Semiconductor Materials Lithography). Dado a sua reduzidíssima dimensão, os chips só podem ser esculpidos através de uma tecnologia que usa a luz ultravioleta extrema, com comprimentos de onda muito curtos, o único tipo de luz que permite que componentes igualmente minúsculos sejam impressos nos chips. Esta tecnologia é conhecida como EUV (Extreme Ultaviolet Litography) e as máquinas de litografia mais avançadas, usadas para moldar milhões de transístores microscópicos, cada um mais pequeno do que uma célula humana, são maioritariamente fabricadas pela ASML.

Tudo isto e muito mais consta do excelente livro de Chris Miller, “A Guerra dos Chips”. Miller termina o livro interrogando-se se a Lei de Moore continuará válida por muito mais tempo, ou se a capacidade de processamento de um chip vai deixar de duplicar de dois em dois anos. O que parecia impossível tem sido possível até agora, mas ninguém sabe o que vai acontecer no futuro.

Futuro próximo em que — e isto é algo que o livro de Miller não aborda — os chips clássicos vão perder o protagonismo, em favor dos chips quânticos, com uma capacidade de processamento incrivelmente superior.

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A nossa edição:

Christopher Miller, A Guerra dos Chips, Dom Quixote, Lisboa, 2023.

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Dicotomia Esquerda/Direita — um anacronismo

Há muito que vimos advogando o fim da dicotomia esquerda/direita. Nunca fez muito sentido, mas agora — com o crescimento generalizado dos populismos, alavancados pelas redes sociais — essa dicotomia torna-se gritantemente anacrónica.

O que se passa, é que os verdadeiros democratas — os que defendem uma sociedade livre, baseada num estado de direito, com real separação de poderes — têm de lutar não só contra os tradicionais partidos populistas e antidemocráticos, que não param de crescer, mas também contra líderes populistas e antidemocráticos dentro de alguns partidos do próprio espetro político tradicionalmente democrático.

A verdadeira luta é, portanto, entre democratas e antidemocratas e não entre esquerda e direita. Pouco importa se um partido é de esquerda ou de direita se defender a democracia liberal. E pouco importa se é de direita ou de esquerda se for populista e antidemocrático. Um democrata dificilmente se entenderá com um ditador; mas um ditador de esquerda facilmente se entenderá com um ditador de direita, e vice-versa.

Estão desfasados no tempo aqueles que ainda têm o cérebro dividido em dois blocos, o esquerdo e o direito. A verdadeira dicotomia é entre centro e periferia, liberdade e opressão, desprendimento e obsessão pelo poder. É lamentável que alguns líderes tolerem as posições antidemocráticas de alguns partidos apenas porque fazem parte do seu bloco anacrónico. É o caso de Rui Tavares, quando se junta ao Bloco e, sobretudo, ao PCP, sendo o mesmo válido para Pedro Nuno Santos pelos mesmos motivos. E o mesmo seria válido para qualquer partido que tolerasse as posições do Chega.

Compreende-se o cordão sanitário que se constrói em torno deste partido, mas não se compreende a tolerância a partidos antidemocráticos como o PCP, com uma visão de sociedade que conduziria, caso fosse aplicada, a resultados igualmente desastrosos. A ideologia marxista-leninista culmina em resultados tão nefastos quanto o fascismo. E, ao contrário do que muitos advogam, as intenções não servem para nada, apenas os resultados importam.

Dos partidos com assento parlamentar que concorrem às eleições de 10 de março, apenas dois parecem ter ultrapassado a velha dicotomia esquerda/direita: PAN e IL. Já quanto aos dois partidos do centrão político, que concorrem entre si há 50 anos pela maioria na Assembleia da República e pela formação de um governo, o mais radical é sem dúvida o PS, que, através do seu novo líder, diaboliza a cada instante a chamada “direita”, agarrado a uma dicotomia que agoniza no leito da história.

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Personalidade do Ano

Foto retirada de: http://www.poder360.com.br

“Acossado”, pode ser uma das palavras mais adequadas para caracterizar a situação em que se encontra Volodymyr Zelensky desde 24 de fevereiro de 2022. Tendo como principal objetivo do seu mandato, iniciado em maio de 2019, acabar com a guerra no Leste da Ucrânia, viu o seu país ser invadido pelos exércitos de um dos maiores assassinos da Europa pós-Hitler, Vladimir Putin. Como toda a gente sabe, Zelensky teve oportunidade de se pôr a salvo, mas manteve-se no seu posto, sabendo de antemão que procurariam eliminá-lo.

De então para cá, a ação de Zelensky desenrola-se entre dilemas terríveis. Precisa de pedir constantemente ajuda externa, que é sempre pouca, mas não pode exigi-la, sob pena de ser considerado ingrato, arrogante ou irrealista (apesar de os ucranianos estarem a dar a vida não apenas pela integridade e sobrevivência do seu país, mas também pela integridade europeia, pela sobrevivência dos valores de uma Europa livre); tem uma necessidade imperiosa de reconquistar território, mas não pode fazê-lo a todo o custo porque, para ele, — ao contrário do que acontece com o facínora do outro lado — a vida humana é valiosa; sente a dor de cada soldado morto, mas precisa a todo o transe de novos combatentes, sabendo que muitos deles morrerão; tem de manter e melhorar o sistema democrático em funcionamento, combater a corrupção interna, mas não pode desviar a atenção da frente de batalha e da estratégia de guerra; tem que levantar a moral dos combatentes e do povo e não permitir que se instale a descrença e a depressão, o que se torna cada vez mais difícil à medida que a guerra avança e o apoio ocidental tarda, sempre tarda.

Muitos consideram ridículo comparar Zelensky com Churchill; ironizam e desacreditam-no por ser um mero comediante; acusam-no de ser corrupto. Estes são na sua maioria esmagadora extremistas de esquerda ou de direita para quem a Liberdade é relativa. Mas Zelensky tem feito tudo o que é preciso e já provou ser um estadista. A sua luta não é apenas pelos seu povo e seu país; ele bate-se igualmente pela democracia, pela justiça e pela liberdade, valores que são — ou deveriam ser — inegociáveis, também, para cada um de nós.

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Humberto Correia

Humberto Correia já iniciou a corrida que espera vencer em 2026.

Natural de Moncarapacho, viveu em França e viajou por vários países, até que regressou ao Algarve, onde vive atualmente. Depois de se ter candidatado à Câmara de Faro, decidiu dar um salto de gigante e, aos 62 anos, está a angariar assinaturas para se candidatar à Presidência da República, em 2026. Encontrámo-lo no coração de Faro, no Jardim Manuel Bivar, junto à banca onde expõe os seus quadros e vários exemplares do livro autobiográfico, traduzido em várias línguas, As Pulgas da Minha Infância. Foi aí que nos concedeu a pequena entrevista que se segue, entrecortada por abordagens aos transeuntes para angariação de assinaturas.

Humberto Correia (HC): Para conquistar uma assinatura eu tenho de abordar entre 30 a 50 pessoas! É a média…

ilovealfama (ila): Tanto?

HC: Ah, pois! Mas as assinaturas eu vou conseguir. E com um ano de avanço! Já alcancei os 3/4 [das 7500] mas quero chegar às 10 mil para ter margem suficiente. Tenho de conseguir uma média de 150 assinaturas por mês. Então, no dia 15 de janeiro tenho de chegar às 6000 assinaturas. Hoje eu cheguei às 5850. Tenho que manter o objetivo de angariar 150 assinaturas por mês, no mínimo.

ila: Algumas podem ser anuladas, não é?

HC: Não é só isso. As pessoas assinam duas folhas que são a declaração de proponente e um pedido de certidão de eleitor, e eu depois tenho que fazer de cada proponente um pedido de certidão de eleitor. Tenho que entregar no Tribunal Constitucional 24 mil folhas, 3 de cada pessoa. E então o que é que se passa? Quando é um proponente aqui de Faro, vou ali à Junta, entrego o papel, e uma semana depois dão-me a certidão. Mas quando é de Bragança, por exemplo? Tenho de mandar pelo correio: só o trabalho de mandar as cartas, comprar os envelopes e os selos, está a ver?

ila: Isto parece estar mesmo feito para dificultar a vida a quem está fora do sistema. Podemos agora fazer-lhe algumas perguntas sobre o seu trajeto — o senhor é daqui do Algarve?

HC: Eu nasci na freguesia de Moncarapacho. Atualmente estou a viver em Olhão. Tenho 62 anos e só tenho a 4ª classe. Saí da escola para começar a trabalhar aos 10 anos de idade, declarado. Andei em quatro escolas. No Pereiro, que é um sítio por cima de Moncarapacho, depois andei em Olhão, depois andei em Bias (perto da Fuseta) e a última foi em Armação de Pêra.

ila: Ah, então terminou a escola já no Barlavento. E depois, imagino, começou a trabalhar.

HC: Exato. Entrei no mercado de trabalho em 1971.

ila: Muito novo…

HC: Era grume, carregava malas num hotel. Está a ver aqui esta fotografia? Sou eu a trabalhar com dez anos. Aqui já tenho 14 anos. E aqui neste cartão, 10 anos, está a ver?

ila: Qual era o hotel?

HC: Hotel Garbe, hoje chama-se Holiday, Hotel Holiday. Trabalhei de 71 a 72 no Hotel Carmo e uma parte ainda de 73, depois saí e fui mais para cima trabalhar no Hotel do Levante, que hoje é uma escola hoteleira. Trabalhei no Hotel do Levante em 73,74 e 75. Em 1976 fui para França. Comecei a trabalhar em França aos 16 anos numa fábrica de tripas: tripa natural e tripa artificial. Tive sorte porque estava na parte de tripa artificial, porque só o cheiro afastava muita gente!

ila: E ficou por França quanto tempo?

HC: 27 anos. Trabalhei em várias fábricas: essa de tripas, depois numa fábrica de armas, numa filial da Manufrance. Depois trabalhei numa extração de cascalho e areia, à beira de um rio; depois trabalhei a cortar perus à corrente, de 5 em 5 segundos fazia a mesma coisa, durante três anos: eles vinham e eu fazia 3 cortes; depois fui para a construção civil. Regressei definitivamente a Portugal em 2003, tinha eu 42 anos.

ila: Casou, tem filhos?

HC: Casei, a minha ex-mulher é portuguesa, sou divorciado, os meus filhos são franceses, mas lusodescendentes. Tive primeiro uma filha e depois um filho. Fui pai aos 19 anos e assumi.

ila: Eles vivem em França?

HC: Sim. E estão bem, felizmente.

ila: E atualmente o que é que o senhor faz?

HC: Desde que regressei definitivamente a Portugal, dediquei-me a pintar na rua. Vivo da minha pintura há 20 anos. Só faço isto.

ila: Mas entretanto escreveu um livro…

HC: Sim, é um livro sobre a minha infância. O título do livro é “As Pulgas da Minha Infância”. Termina com a minha chegada a França.

ila: São o primeiros 16 anos, digamos assim.

HC: Exatamente.

ila: Quando é que o senhor teve pela primeira vez a ideia ou sentiu vontade de se propor a concorrer à Presidência?

HC: Esta ideia já vem desde a altura em que fui candidato à Câmara de Faro, em 2017. E a seguir às eleições fiquei tão desiludido que pensei: “as próximas é a República”. Esperei quatro anos para me preparar. É preciso preparação, não é fácil…

ila: E quais foram as principais razões que o levaram a candidatar-se?

HC: Três coisas. Primeiro, a política: em relação à minha idade, é uma excelente ocupação; segundo, somos governados por pessoas que vivem fora da realidade; e terceiro, a miséria de muita gente: as pessoas, mesmo a trabalhar, não conseguem pagar uma renda de casa. Vou avançar com uma única proposta: impor o cumprimento do artigo 65 da Constituição. Atualmente este é de longe o maior problema do povo português.

ila: Para além desse problema, com certeza que existem outros, mas essa, digamos, é a sua principal bandeira, é isso?

HC: Sim, quando eu falo com as pessoas eu vejo que esse é o principal problema nacional. As pessoas não têm filhos porque não têm habitação; as pessoas emigram por causa da habitação, porque não conseguem viver aqui; os jovens ficam a morar com os pais porque não têm como pagar casa; as mulheres que sofrem violência doméstica não podem sair de casa sem terem habitação. Praticamente tudo está relacionado com a habitação, pelo menos muita coisa.

ila: Qual o seu posicionamento político-ideológico, se é que tem algum?

HC: Nunca fiz parte de qualquer partido político. Mas não sou de esquerda nem de extremos.

ila: Então considera-se, talvez, do centro-direita?

HC: Por aí.

ila: Candidata-se para ganhar ou apenas para veicular as suas ideias?

HC: “Veicular” é o que eu já faço há 31 meses. Quando eu jogo é para ganhar.

ila: Há alguém que tenha influenciado o seu pensamento político ou nem por isso?

HC: São múltiplas influências. Desde logo, a comunicação com as pessoas ao longo destes 31 meses. E depois a leitura. Eu tenho lido muito sobre a História de Portugal, começando pelo início da nacionalidade, depois os vários períodos dinásticos, e a República. Li a História de Portugal várias vezes. Li muito o Salazar. E vou lendo tudo o que me interessa sobre a História de Portugal e a política portuguesa.

ila: Então, interessa-se sobretudo pela política nacional?

HC: Sim. E sou mais conservador que liberal.

ila: Como é que avalia os mandatos do atual presidente, Marcelo Rebelo de Sousa?

HC: O professor Marcelo vem de uma máquina partidária. E para mim os partidos políticos são farinha do mesmo saco. É por isso que eu defendo o presidencialismo e não o parlamentarismo.

ila: Um regime do tipo francês?

HC: Exatamente.

ila: Mas você sabe que não vai ter poder para alterar a Constituição…

HC: Eu sei, eu sei.

ila: Vai ter que se cingir às regras atuais e jogar dentro do sistema vigente.

HC: Eu vou cumprir a Constituição, mas digo, desde já, que não concordo com ela. Nesse ponto.

ila: Então defenderia igualmente um sistema com duas câmaras no parlamento, à semelhança do que se passa em França e noutros países com uma câmara “alta” e uma câmara “baixa”?

HC: Isso para mim não é importante. Eu acho que há deputados a mais. A minha proposta seria de 20 deputados, não mais.

ila: Vinte!?

HC: Vinte deputados, com o direito de destituírem o presidente. Vinte deputados — um por distrito. É com essa proposta que eu vou avançar.

ila: E depois cada deputado deve ter uma série de assessores, ajudantes, não? Para o necessário trabalho legislativo, acha que vinte deputados chegam?

HC: Há deputados a mais, há políticos a mais em Portugal. Isto é a minha opinião.

ila: Portugal já teve vários presidentes, desde a primeira República. Há algum com o qual o senhor mais se identifique?

HC: Há dois.

ila: Quais?

HC: Óscar Carmona e Ramalho Eanes. Foram dois homens que governaram em épocas muito difíceis. E conseguiram manter o país. Dedicaram-se à nação e não aos partidos políticos. Isso faz toda a diferença.

ila: Em Portugal o presidente não governa, como sabemos. Mas se fosse candidato a primeiro-ministro e a governar o país, quais as 3 ou 4 medidas mais importantes que incluiria num programa eleitoral? A primeira já vimos que se dirigiria à habitação, e as outras?

HC: A segunda seria a educação. Seguiria o modelo francês. Escola obrigatória para todas as crianças a partir dos 3 anos de idade, gratuita e de qualidade. E a terceira seria plantar 500 mil hectares de floresta nativa. A destruição dos ecossistemas e as alterações climáticas vão ser o maior problema da humanidade. Na minha opinião a melhor forma de combater isso é plantando florestas. Florestas nativas, não eucaliptos e pinheiros. Seriam estas as minhas três prioridades, sendo que a habitação é, sem dúvida, a principal.

ila: Como acha que o problema da habitação poderia ser resolvido?

HC: Só há um caminho: o Estado tem que construir e arrendar a preços acessíveis. Seria possível construir em três dimensões: 30m2, 50m2 e 80 m2 , a 3 euros o metro quadrado, o que faria no caso dos 30 m2, 90 euros mensais; no caso dos 50 m2, 150 euros mensais; e quanto aos 80 m2, 240 euros mensais. É a única solução. De outra forma as pessoas, mesmo a ganhar 1000 euros por mês, não conseguem ter uma vida decente. Aqui em Faro você não encontra uma casa para alugar a menos de 700/800 euros por mês. É por isso que somos o segundo país com a taxa de natalidade mais baixa da Europa e o quinto país mais envelhecido do mundo. Morrem três portugueses, nascem dois, e um destes dois vai emigrar. Isto é gravíssimo. Para modificar esta situação é preciso resolver o problema da habitação. A habitação é fundamental para o ser humano.

ila: Sente-se preparado para debater com políticos profissionais de peso que eventualmente podem também candidatar-se às próximas eleições presidenciais, como António Costa e André Ventura?

HC: Quanto mais peso melhor. São mesmo esses que eu quero enfrentar. Quanto mais peso eles tiverem melhor para mim. A rota é para cumprir, custe o que custar.

ila: Qual considera que poderá ser a sua melhor arma para combater a experiência desses potenciais candidatos?

HC: A minha experiência de vida. Eu sou parte do povo português, conheço as suas dificuldades, o seu sofrimento, os seus problemas, por isso sinto-me otimista e muito confiante.

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IRC — O imposto esquecido

As taxas mundiais do imposto sobre o rendimento das empresas — as que estão na média, as que se afastam ligeiramente e as que estão bastante abaixo e bastante acima da média. (Retirado de https://taxfoundation.org/data/all/global/corporate-tax-rates-by-country-2023/)

A Tax Foundation acaba de publicar (geralmente fá-lo em dezembro) os dados mundiais sobre o imposto aplicado aos lucros das empresas, em 2022, que em Portugal tem o título de Imposto sobre o Rendimento de Pessoas Coletivas (IRC), e nos países de língua inglesa se denomina Corporate Income Tax (CIT).

A média mundial deste imposto tem vindo a diminuir drasticamente desde 1980, tendo nos últimos 4,5 anos estabilizado em torno dos 23,5% (25,67%, quando ponderada pelo PIB). Em relação à média, Portugal tem uma taxa máxima deste imposto demasiado alta e está dentro das 20 taxas mundiais mais elevadas. A taxa deste imposto em Portugal está em 31,5% (34% no Brasil), ou seja, é muito pouco competitiva. Apesar de em Portugal se aplicar uma taxa de IRC de 21% aos negócios residentes, a taxa pode ascender aos tais 31,5% (acrescem 1,5% de derrama municipal e 9% de derrama estadual) se os lucros das empresas forem superiores a 35 milhões de euros. No entanto, a taxa efetiva de imposto (ETR, na sigla inglesa), tendo em conta incentivos, benefícios e deduções fiscais vigentes a nível nacional e internacional, ronda os 25%, de acordo com o Banco de Portugal.

Os defensores de altos impostos sobre as empresas argumentam que os mesmos são necessários para financiar os serviços públicos. Mas os economistas da Tax Foundation e da OCDE alertam para a falácia desse argumento. De facto, maiores encargos financeiros implicam menor investimento na tecnologia e nos equipamentos que permitem aumentar a eficiência, logo, a produtividade e os lucros, o que, obviamente, vai prejudicar os trabalhadores, sobretudo aqueles de mais baixas qualificações, bem como as mulheres e os jovens. São sobretudo estes, mais do que os patrões ou os acionistas, que carregam o fardo que o imposto sobre o lucro das empresas impõe à economia.

Por outro lado, a redução da taxa deste imposto proporciona crescimento do investimento (do qual resulta um maior stock de capital), da produção, do emprego e dos salários — um efeito de bola de neve — e evita a transferência de lucros para países com impostos mais baixos, dinamizando as sociedades.

Sendo Portugal um país com anemia persistente no que toca ao crescimento económico, com carência de empresas de média/grande dimensão e com salários baixíssimos, é surpreendente que a descida das taxas do IRC não seja uma prioridade para nenhum partido português. E mais surpreendente ainda é que este tema seja marginalmente debatido aquando de campanhas e pré-campanhas eleitorais, como a que estamos a viver agora.

Ninguém parece muito interessado no assunto. As questões ideológicas continuam a ter demasiado peso, o pragmatismo económico é uma miragem e os factos são frequentemente ignorados. Por exemplo, parece não incomodar ninguém que apenas dezasseis países — e sobretudo estes dezasseis — tenham taxas máximas de imposto sobre o rendimento das empresas superiores a Portugal: Marrocos, Moçambique, Namíbia, Camarões, Venezuela, Brasil, Samoa Americana, Sudão, Malta, Chade, Colômbia, Cuba, Argentina, Suriname, Porto Rico e Comoros.

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