Entramos naquele período da vida em que o sol já se pôs e em breve dormiremos o sono dos justos. Não um sono comum, reflexo da vida quotidiana, com seus sonhos e pesadelos, mas o sono eterno, em que sensações, sentimentos, dores e alegrias se nivelam numa linha reta, sem acidentes — na paz verdadeira e total. Calor e frio, dor e prazer, euforia e tristeza, são faces da mesma moeda e transformam as nossas vidas numa montanha russa. Quem nunca desejou parar esses desequilíbrios, esvaziar cérebro, coração e pulmões, não sentir nada e atingir a paz eterna? Não é para alcançar esse estádio vazio e, no entanto, pleno, que os seres humanos mais felizes se alheiam e isolam do mundo em busca do equilíbrio total? Não tenhamos medo, pois, e vivamos com alegria enquanto não alcançamos esse sono profundo e reparador!
O Mar Mediterrâneo é o maior mar interior do planeta, e une três continentes: Europa, África e Ásia. A sua superfície líquida abrange uma área de 3 milhões de quilómetros quadrados, onde pululam cerca de 2000 ilhas, dentro de um perímetro costeiro de 47000 quilómetros. A influência do clima mediterrânico estende-se por 25 países, onde habitam quase 500 milhões de pessoas. Como seria de esperar, o clima influencia, através das matérias primas locais e da proximidade dos povos, uma cultura comum nesta importante região, berço das primeiras civilizações humanas e da cultura ocidental, que estão aquém das divergências políticas e religiosas. Como é evidente, uma das componentes dessa cultura é a dieta, e a mediterrânica é justamente considerada uma das melhores do mundo.
Além dos Cara de Espelho (na foto), atuaram, no palco da Lota, Júlio Pereira, Brigada Vítor Jara e José Manuel David.
Assim, a Dieta Mediterrânica foi declarada Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, em 2013, na capital do Azerbaijão, Baku. Tavira foi a cidade representante de Portugal. E foi precisamente em Tavira que, ainda nesse ano, se realizou a primeira Feira da Dieta Mediterrânica. Desde aí, esta feira realiza-se anualmente durante quatro dias, no primeiro fim de semana de setembro, de quinta a domingo, sendo que, no presente ano, a X Feira da Dieta Mediterrânica ocorreu entre os dias 5 e 8 de setembro.
Na foto, o berbere Kel Assouf, líder do grupo marroquino Tarwa N-Tiniri. Para além destes, atuaram no palco do Castelo os andaluzes Duquenque, os italianos Kalàscima e os macedónios Kocani Orkestar.
Foram quatro dias intensos, como foram todos os dias dos certames anteriores, com uma considerável diversidade de expositores (incluindo bancas e tendas de comida), mostras, atividades desportivas, demonstrações gastronómicas com degustação, bailes tradicionais, oficinas e ateliês, atividades infantis, visitas a locais de interesse e, claro, espetáculos musicais — com destaque para os palcos da Lota, do Castelo e da Praça da República. Ao longo destes onze anos (a feira não se realizou em 2020 devido à pandemia da covid-19), temos assistido a atuações de agrupamentos de vários países mediterrânicos, algumas delas de excelente qualidade.
Fernando Daniel fechou a feira com um concerto que deliciou os muitos adolescentes presentes na Praça da República. Nos dias anteriores atuaram, no mesmo palco, Rui Veloso, Amália Hoje e Sara Correia.
A Feira da Dieta Mediterrânica é já o maior evento de Tavira, e atrai à cidade, todos os anos no final do verão, milhares de visitantes que em muito contribuem para animar a mais bela urbe algarvia.
Planear uma viagem de um mês através de 10 países não é tarefa fácil. Há que reservar voos, tratar de vistos, fazer um seguro de viagem, procurar hospedagens e transportes de vários tipos, para além de levar a cabo as sempre convenientes pesquisas sobre os locais a visitar. Esta é a primeira fase de qualquer viagem — a preparação. Como temos referido, as viagens têm sempre três fases, normalmente de duração decrescente — preparação, viagem (propriamente dita) e registo. Decorridas as duas primeiras, chegámos agora à última fase.
Saímos de Lisboa num voo da KLM que saiu muito atrasado devido ao mau tempo no aeroporto de Amsterdão, onde tínhamos escala antes de seguirmos para Seul, num segundo voo da mesma companhia aérea, que acabámos por perder. Chegámos a Amsterdão já de madrugada, com todos os balcões e escritórios fechados, e ficámos no aeroporto até de manhã, à espera que abrisse o escritório da KLM e nos reservassem um novo voo para Seul. O apoio ao cliente foi péssimo e ainda hoje estamos em litígio com a KLM, pois marcaram-nos um voo alternativo que posteriormente cancelaram, e agora não querem assumir a devida indemnização1. Só conseguimos um voo da Korean Air quase 24 horas depois de chegarmos a Amsterdão, pelo que tivemos tempo mais do que suficiente para apanharmos um comboio até à cidade e passearmos um pouco por lá. Nada de especial, o tempo estava péssimo, chovia e fazia bastante frio.
Rua de Amsterdão.
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Seul, Coreia do Sul
Três dias depois de sairmos de Lisboa, chegámos estoirados ao aeroporto de Incheon, a meio da tarde, com duas noites de sono perdidas. Os portugueses não precisam de K-ETA para entrarem na Coreia do Sul, os brasileiros, sim. De qualquer forma, é vantajoso obter o K-ETA online por apenas 7€ e não ter de preencher o formulário de entrada no aeroporto, ganhando tempo e paciência após um voo cansativo. Foi o que fizemos. Depois dos procedimentos necessários e da recolha da bagagem (se for o caso), a primeira coisa a fazer é comprar o cartão T-Money (pouco mais de 3€) e carregá-lo para se poder apanhar o comboio AREX, que segue direto para o centro da cidade de Seul. Pode comprar-se o cartão ainda no aeroporto, numa loja de conveniência dentro do terminal ou nas máquinas de venda, junto do acesso à estação dos comboios. O T-Money só se pode carregar com dinheiro, pelo que convém ter algum para o efeito. Depois é só usar o cartão no comboio, no metro, nos autocarros, no táxi e numa miríade de outros produtos e serviços. Há ATMs no aeroporto e lojas de câmbio onde se pode obter dinheiro coreano. Aconselhamos viajar munido com um cartão Revolut, ou similar.
Tínhamos reservado, estrategicamente, um apartamento muito perto da estação central de Seul, pelo que bastou uma caminhada de menos de 5 minutos até tomarmos um duche, deitarmo-nos e dormirmos umas 4 horas para recuperarmos alguma energia. Só saímos já bem de noite para comermos qualquer coisa e fazermos um pequeno passeio a pé pelo bairro de Myeongdong antes de regressarmos ao apartamento.
No dia seguinte estávamos como novos e acordámos cedo. Fizemos uma longa caminhada até ao palácio de Gyeongbokgung. (Quem nos conhece sabe que somos grandes caminhantes; é normal, quando viajamos, fazermos 20, e às vezes mais, quilómetros por dia). Pelo caminho vimos e visitámos detalhadamente uma interessante exposição de rua, na avenida Sejong Daero, sobre a Guerra da Coreia. No palácio assistimos ao render da guarda, um evento claramente dirigido aos turistas (que podem participar alugando, no local, roupas para o efeito), mas, ainda assim, coreograficamente bem realizado.
Palácio de Gyeongbokgung.
Na volta passámos por Cheongyeggeon e apanhámos o metro no City Hall até à estação de Hapjeong, a mais perto do mercado Mangwon que queríamos visitar. Aqui provámos várias comidinhas típicas, acabando por entrar num dos poucos restaurantes que se situam dentro do mercado, onde comem os feirantes e moradores locais, e aí almoçando. Optámos pelo mercado Mangwon em detrimento do mais turístico Gyeongdong, pois queríamos misturar-nos com os seulitas e comer com, e como, eles. Depois do almoço regressámos a pé até à estação de metro de Hapjeong, na linha 2, com intenção de visitarmos a livraria Starfield. Vale a pena realçar a peculiaridade da linha 2 (verde) do metro de Seul: é uma linha circular que funciona nos dois sentidos, confina em vários pontos com as outras oito linhas, e passa ou dá acesso aos principais pontos turísticos e locais de interesse da cidade. A livraria Starfield, por exemplo, fica num centro comercial onde se situa a estação de Samseong, precisamente da linha 2. Nós usámos e abusámos da linha 2. Tendo o cartão T-Money sempre carregado, torna-se extremamente fácil circular em Seul, uma cidade imensa em que a utilização do transporte público se revela necessária.
A livraria Starfield é grande, alta, imponente e fotogénica. É já um símbolo de Seul, e também um ponto de encontro entre residentes e turistas; veem-se por todo o interior pessoas fotografando e filmando com os telemóveis em punho. Perto dali, duas estações de metro depois, é possível visitar o Lotte World Tower, uma altíssima torre que observámos só por fora, preferindo circular por um parque adjacente, em torno do lago Seokchon. Muito bonito. De novo entrámos no metro desta feita para visitarmos a Torre de Seul, situada no topo do monte Namsan. Havia longas filas para apanhar o teleférico, pelo que fomos a pé, subindo largas centenas de degraus. (Quem quiser saber como pode chegar à Seoul Tower pode fazê-lo aqui.) A vista desde o topo da torre é de facto impressionante, mas na altura em que ali estivemos estava um pouco prejudicada pela sujeira das vidraças e também (sobretudo para quem gosta de fotografia) pelas luzes do interior do edifício, que se refletem nos vidros, e esta situação impediu-nos de conseguir as fotos que idealizáramos.
Livraria Starfield.
Quando descemos o Namsan, chegados ao sopé, o movimento era do tipo formigueiro, com pessoas circulando em todas as direções. Fez-nos lembrar bastante o que observámos em alguns pontos de Tóquio e de Hong Kong. Depois disto, apenas tivemos tempo de comer qualquer coisa (já estávamos com pressa), tomar um duche no apartamento, fazer as malas e apanhar o AREX rumo ao aeroporto. Ficámos com pena de não termos mais um dia ou dois para passarmos em Seul.
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Palawan, Filipinas
Chegámos a Puerto Princesa, na ilha de Palawan, por volta das 2 pm, depois de uma noite passada em aeroportos — Incheon e Ninoy Aquino. Um motorista esperava-nos para nos conduzir à Casa Belina, um pequeno hostel agradável e limpo, com um jovem funcionário muito simpático. Aproveitámos para dormir bastante, apenas saindo do quarto para comer qualquer coisa, e sem chegarmos a sair do hotel. Descanso, depois de mais uma noite perdida, foi a palavra de ordem. Este hostel foi perfeito para isso.
No dia seguinte, o sexto após a saída de Portugal, logo depois de um bom pequeno almoço na Casa Belina, chegou o pessoal do rent a car com o “nosso” carro, e pouco tempo depois já estávamos na estrada a caminho de El Nido, uma viagem que durou cerca de seis horas. A maioria das pessoas desloca-se até El Nido, a zona mais badalada, no norte da ilha. Dado que esta tem uma extensão considerável (mais de 500 kms), os turistas escolhem uma zona para passarem as férias, aí permanecendo durante todo o período — e essa zona é normalmente El Nido. Até porque Palawan não é apenas uma ilha, são muitas ilhas em torno da ilha principal que dá o nome a este deslumbrante arquipélago. É, assim, aliás, nas Filipinas como um todo. Milhares de ilhas deslumbrantes.
De modo que, uma vez em El Nido, o visitante tem mil e uma maneiras de fruir das praias da região. Claro que há inúmeros passeios de barco que se podem fazer às várias pequenas (e não assim tão pequenas) ilhas que pululam ao longo da costa — passeios exclusivos e passeios coletivos, destacando-se entre estes os já célebres tours “A”, “B”, “C”, e “D”, cada um deles com a duração de 7 a 8 horas, ou seja, praticamente um dia inteiro, com almoço incluído. O custo de cada passeio varia entre os 1100 e os 1400 pesos filipinos, ou seja, em torno de 25€/30€, por pessoa.
Mas antes de chegarmos a El Nido, que nem era o nosso destino final, embora tivéssemos de passar por lá, parámos num pequeno restaurante na estrada para almoçarmos. Um restaurante para os habitantes locais, não para turistas. Desde logo ficámos com boa impressão da comida filipina.
No caminho de volta, de Nacpan para Puerto Princesa, haveríamos de regressar a este simpático restaurante, mesmo ao lado da estrada.
Umas duas horas depois do almoço chegámos a El Nido que, como dissemos, não era o nosso destino. Por isso não parámos e seguimos para Nacpan, 15 quilómetros para norte, onde se situa a Amarav Pension, nosso alojamento durante 5 dias. Com estacionamento para o nosso carro alugado, esta pensão está muitíssimo bem localizada, a apenas 5 minutos a pé da praia de Nacpan, uma das mais bonitas da região. As funcionárias bem como a gerente foram extremamente simpáticas e prestáveis durante toda a nossa estadia. O quarto onde ficámos não era o suprassumo do conforto, mas tinha ar condicionado (embora de vez em quando a energia faltasse), era espaçoso e dava diretamente para um varandim onde podíamos sentar-nos e fruir do ar mais fresco da noite, depois de jantarmos no nosso restaurante favorito. Referimo-nos ao Combine, um pequeno bar-restaurante familiar, em plena praia de Nacpan. Ali as comidas são muito bem confecionadas: grelhados (peixe fresco, porco, frango, polvo), caranguejos e camarões confecionados de várias formas, sopas deliciosas (de porco, camarão, peixe, cogumelos e galinha) para além de diversos pratos de fritos. Também servem pequenos almoços, embora não os tivéssemos provado. Mas durante a nossa estadia jantámos sempre no Combine.
No dia seguinte ao da nossa chegada a Nacpan, fomos até El Nido para fazermos o passeio “C”, que havíamos reservado através da mesma empresa que nos alugou o carro. Queríamos fazer um desses tours para vermos se é tão interessante como se diz na internet. E valerá a pena fazer mais do que um dos quatro tours marítimos mais famosos desde El Nido? Depende. Se não se for rico e não se gostar de “excursões”, aconselhamos a fazer-se apenas um circuito como experiência. Ou pode até não se fazer nenhum e optar-se por praias igualmente paradisíacas quase vazias (ou mesmo vazias) e exclusivas. Isto consegue-se alugando um kayak, o que nós fizemos dias depois de termos integrado um dos tours “C”.
O snorkeling é uma atividade apetecível nas Filipinas.
O tour “C” e o tour “A” são considerados os melhores dos quatro, mas como queríamos em princípio fazer só um, optámos pelo”C”, que nos pareceu (pela pesquisa na internet) melhor. Este tour passa por Helicopter Island, Matinloc Shrine, Secret Beach, Talisay Beach e Hidden Beach. São todos locais maravilhosos, com águas cristalinas e mornas, paisagens deslumbrantes, mas tem sempre o inconveniente de parecer (e sê-lo efetivamente) uma excursão, com muitas pessoas, não apenas da nossa embarcação, mas de muitas outras das inúmeras empresas que realizam os mesmos passeios todos os dias. É por isso que, para nós, um tour é mais do que suficiente.
Regressados a El Nido fomos dar uma volta pela cidade. Há uma pastelaria — El Nido Bakery — bem no centro, que vende bolos e pastéis doces de qualidade a peços incrivelmente baixos. Estamos a falar de preços que equivalem, na nossa moeda, a 10, 15 cêntimos. De tal forma, que fomos várias vezes tomar o pequeno almoço a esta pastelaria situada na rua Rizal.
Nos restantes dias em Palawan não fizemos mais excursões. Num deles fomos explorar a costa imediatamente a sul de El Nido, onde topámos com magníficas praias, entre elas Vanilla Beach, realmente bonita. Por perto há a praia de Corong Corong, onde, em outro desses dias, alugámos um kayak e partimos à descoberta de outras praias belíssimas. De Corong Corong fomos até a praia de Lapus Lapus, desta seguimos até Papaya e, por sua vez, desta seguimos até Seven Commandos Beach, uma praia que faz parte do tour “A”, mas que estava pouco movimentada graças a termos lá chegado fora das horas em que as embarcações do tour “A” ali chegam. Eu e Fla nunca tínhamos andado de kayak, pelo que esta experiência foi ainda mais incrível. Pelo caminho vimos imensos peixes voadores e um deles chocou a alta velocidade com a Fla.
Fomos de kayak desde Corong Corong até Seven Commandos, e voltámos.
Em Lapus Lapus estivemos sozinhos na praia. Banhámo-nos, descansámos, secámos um pouco os corpos ao sol e recuperámos energia para nova etapa. Em Seven Commandos banhámo-nos de novo, enquanto o nosso kayak descansava na areia. A água é de uma transparência incrível. Esta é mais uma praia magnífica, desse conjunto constituído por milhares de praias magníficas que são as ilhas filipinas.
Aconselhamos vivamente um passeio de kayak na região de El Nido. Há pessoas em várias praias que alugam kayaks a preços módicos. Este passeio entre Corong Corong e Seven Commandos é um dos mais recomendados. Outro, bem interessante, é o que sai da praia de El Nido rumo à ilha em frente, Cadlao. Logo à “entrada” da ilha encontra-se a Paradise Beach — e o nome diz tudo. Embora os passeios de kayak não sejam à partida perigosos, há que ter em atenção o tempo, sobretudo o vento forte que, se soprar contra, pode dificultar muito a deslocação para o destino desejado.
Em outro dos dias em Palawan decidimos dar uma volta de carro pelo extremo norte da ilha. Passámos por locais remotos, vimos pequenas aldeias, falámos com habitantes locais e apreciámos as vistas magníficas sobre o mar e a linha de costa, desde alguns pontos montanhosos, miradouros naturais com que topámos durante o percurso. A ilha no topo norte é muito estreita, pelo que se passa da costa oeste à costa leste em poucos minutos.
Fla e o nosso kayak na praia Seven Commandos.
Noutra ocasião fizemos um passeio mais curto com intenção de conhecer as praias mais próximas a norte de Nacpan. Tivemos de circular com muito cuidado por estradas secundárias, pois o nosso carro era baixo e nada adaptado a terrenos acidentados. Mas, devagar, lá fomos e, no final, valeu a pena. Estivemos na Duli Beach, uma praia extensa, magnífica, quase deserta. Fomos de manhã e, no regresso, parámos num pequeno restaurante de comida local, que vende sobretudo para fora, bem baratinho, mas bom, o Llancel Food House, na pequena povoação de Bucana. Comprovámo-lo quando começámos a comer e, não fora termos encontrado este lugar apenas na véspera da nossa partida, teríamos ido lá comer mais vezes. Os donos quiseram, e conseguiram, surpreender-nos com uma sobremessa deliciosa: halo-halo shai, um batido de frutas gelado. Este restaurante, todo em madeira, tem a particularidade de ter sido construído em torno de uma árvore e é gerido por uma pequena família, um casal com uma filha adolescente.
Convém dizer que é perfeitamente possível passar uma temporada em Palawan comendo nos restaurantes aonde vão os habitantes locais. A comida é em geral boa e nós fomos a vários restaurantes não-turísticos e com essa opção não só comemos bem como poupámos muito dinheiro e ficámos a conhecer uma boa parte da gastronomia da ilha. É preciso estar atento, observar, cheirar, ter os sentidos despertos para se escolher os melhores locais para comer. Também ajuda ser-se simpático, falar com as pessoas, mostrar-se interessado, elogiar se a oportunidade surgir. Por vezes uma atitude positiva faz a diferença entre ser-se bem ou mal atendido.
No interior do Llancel Food House com a família proprietária. Nas Filipinas veem-se muitas crianças e jovens. A taxa de natalidade deve ser muito elevada.
Foi pois com alguma nostalgia que partimos de Nacpan, cinco dias após a nossa chegada. É um local magnífico, longe da confusão de El Nido, mas suficientemente perto para, se quisermos, irmos lá rapidamente de moto ou de carro — são apenas 15 quilómetros. As praias de Nacpan e Twin Beach são alcançáveis facilmente a pé desde a Amarav Pension, onde ficámos hospedados; o alojamento naquela zona é mais em conta; a comida é boa; e todos os dias o pôr do sol enche a praia de Nacpan daqueles relaxantes tons rosados e alaranjados, enquanto podemos desfrutar de um banho morninho…
Quando chegámos de novo a Puerto Princesa, depois de mais um almoço na estrada e de termos entregado o carro, estávamos no nosso décimo dia de viagem. Estava um calor insuportável. Era o dia 25 de abril, para nós, o Dia da Liberdade.
Jamais esqueceremos a bela Nacpan.
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Bali, Indonésia
Chegámos a Bali no dia 26 de abril, de manhã, para ficarmos seis dias e meio. À nossa espera estava o motorista de um táxi que previamente reserváramos através do Booking. Chegámos ao Bali Bobo Hostel, no bairro de Jimbaran, ainda antes do horário do check-in. Foi quando conhecemos o grande (não tanto em estatura, mas de coração) Agust Raphael. Agust é o rececionista principal do Bali Bobo (propriedade de um alemão) e um ser humano extraordinário. Dado que quando chegámos o nosso quarto ainda estava ocupado, ficámos um pouco à conversa com ele. A viagem do aeroporto para o hostel havia sido caótica, o trânsito estava infernal, o calor também, e as nossas primeiras impressões de Bali não foram as melhores. (É preciso dizer que tínhamos vindo das Filipinas, logo, com expectativas altas). Por isso estranhámos um pouco, embora depois nos tivéssemos lembrado várias vezes, como agora, quando Agust nos disse que “não somos nós que escolhemos Bali, é Bali que nos escolhe”.
Com o calor, esta cama fresca convida ao sono.
De facto, fomos gostando de Bali um pouco mais a cada dia, e isso foi ao encontro da frase de Agust. Após a pequena conversa com ele, deixámos as malas, fomos almoçar e quando finalmente regressámos e entrámos no quarto para tomarmos um banho e descansarmos um pouco, ficámos encantados. Que belíssimo quarto! Enorme, fresco, limpo, bem equipado, com ar condicionado ligado e com uma espaçosa cama com dossel, ali estava um convite implícito para o relax total. É impossível não ser feliz num quarto daqueles. Apesar disso, nós que não conseguimos estar quietos, ainda saímos… desta vez de scooter. De facto, a melhor maneira de circular em Bali é de moto. O carro pode revelar-se um pesadelo, sobretudo para quem não está habituado ao trânsito caótico. Felizmente, o aluguer de motos é comum em Bali, e no Bali Bobo havia várias para alugar.
E lá fomos nós, palpando terreno, tentando ambientar-nos àquelas condições de trânsito, o que não foi fácil. Nesse dia fomos até uma praia de surfistas, a Uluwatu Beach, sempre com um tráfico compacto, tentando, aos poucos, passar entre os carros, imitando os locais, ou tentando, não conseguindo evitar alguns sustos. Logo nesse dia aprendemos uma lição importante: não conduzir de chinelos! Com a primeira lição assimilada, aventurámo-nos, no dia seguinte, a fazer um trajeto maior. Nada mais nada menos que uma viagem até Ubud, ou seja, mais de 100 kms no total, ida e volta.
Sem moto (ou bicicleta) é uma tortura circular em Bali. Imagino que o mesmo se passe na maioria das ilhas indonésias. Este vídeo foi filmado da nossa moto, no regresso ao Bali Bobo, desde Ubud.
Em primeiro lugar visitámos um campo de arroz em Tegalalang — Ceking RiceTerrace — e depois fomos à Floresta dos Macacos (Monkey Forest). Muita vegetação em ambos os locais e também muito calor. Na Floresta dos Macacos tem de se ter cuidado com os ditos cujos que tentam roubar a nossa comida. Não nos pareceu nada de extraordinário, além do grande número de espécimes vegetais, mas valeu pelo passeio. À noite, já em Jimbaran, fomos jantar ao Gacoan, um restaurante de massas com comida muito picante. O nível de picante vai de 1 a 10 e nós pedimos o nível 1. No entanto, estava bastante picante. No dia seguinte pedimos nível zero, ou seja, sem picante, mas veio picante na mesma.
Mais tarde, na Índia, a coisa haveria de ser pior. (É incrível como os asiáticos gostam de malagueta!).
Os próximos dias aproveitámo-los para curtir as praias. Tínhamos ficado com a ideia, primeiro ainda no avião e depois pela primeira praia que visitámos, de que as praias de Bali não eram muito boas. E, de facto, se as compararmos com as praias filipinas, estas são em geral muito melhores. Mas há boas praias em Bali, algumas mesmo excelentes. Uma das melhores é a Thomas Beach, uma praia realmente bela, de acesso um pouco difícil, pois fica sob uma escarpa relativamente alta, tendo de se descer (e, na volta, subir) muitos degraus. Mas vale muito a pena visitá-la. Quando lá estivemos, de manhã cedo, havia poucas pessoas na praia.
Thomas, uma das praias mais belas não apenas de Bali, nem apenas da Indonésia, mas do mundo.
Além desta, visitámos mais duas praias que, pela pesquisa que fizemos, nos pareceram as melhores nesta zona de Bali. E de facto não desiludiram. A primeira foi a Melasti Beach e a segunda a Pandawa Beach, ambas no extremo sul da ilha. A Melasti Beach é a mais bonita das duas. Convém dizer que a Fla se encarrega sempre de baixar o google maps durante as nossas viagens, pelo que podemos deslocar-nos pelos próprios meios sem complicações de maior. Em Bali eu conduzia a moto e a Fla, com o telemóvel na mão, atrás de mim, dava as indicações sobre o caminho a seguir.
Durante a nossa estadia no Bali Bobo aconselhámo-nos várias vezes com Agust sobre locais interessantes a visitar e sobre restaurantes com boa relação qualidade-preço para comer. Foi através de uma dica de Agust que fomos na nossa motoca até o mercado de peixe de Kedonganan. Aí, após uma volta pelo interior do mercado, onde apreciámos uma variedade imensa de peixes e mariscos, escolhemos um peixinho, ou melhor, um “peixão”, que de seguida transportámos até um restaurante situado mesmo no largo anexo ao mercado, em frente ao mar. Neste restaurante, Warung Bu Wiwin, frequentado por habitantes locais, é possível mandar grelhar o peixe por um preço irrisório. As bebidas e os acompanhamentos são pagos à parte.
Comida de qualidade a preços módicos é algo que só se consegue quando interagimos com as pessoas. Esta dica deve seguir na bagagem de qualquer viajante que se preze.
O peixe prontinho para degustação depois de ter sido comprado no mercado.
Neste dia, depois do almoço, seguimos mais uma sugestão de Agust e fomos visitar o templo Pura Luhur Uluwatu, situado no topo de uma falésia e onde se realiza um espetáculo de dança tradicional. Quem quiser assistir terá de chegar pelo menos uma hora antes do espetáculo, que se realiza às seis da tarde, por forma a garantir o bilhete, uma vez que a lotação se esgota todos os dias. Foi o que fizemos, chegámos cedo. O local é muito bonito e o facto do Kecak Ramayana, assim se chama o espetáculo, constituído por cinco atos, se realizar ao pôr-do-sol, torna tudo ainda mais belo. Trata-se de uma lenda contada através da dança que culmina numa batalha final onde o exército de macacos derrota o exército de gigantes e Rama, o herói, derrota Rhawana, salvando a sua esposa Sita.
No dia seguinte decidimos ir mais longe e visitar a ilha de Nusa Penida. Foi difícil encontrar o cais de onde partem os navios para esta ilha porque pensávamos que estes partiam todos do mesmo local, mas não. As embarcações para Nusa Penida saem de um cais exclusivo. Como tínhamos acordado bem cedo, descobrimos a tempo que o cais de embarque é o de Sanur, um dos vários que existem na ilha de Bali onde acostam os ferrys que vão para as outras ilhas. Deixámos a scooter no parque de estacionamento e quando chegámos a Nusa Penida alugámos outra scooter numa loja junto ao cais. O nosso objetivo era irmos a kelingking beach e, munidos do google maps, lá fomos nós. Subidas, descidas, estradas estreitas e esburacadas, uma scooter diferente, mais pesada — tudo isto constituiu mais um desafio.
Kelingking é sem qualquer dúvida um lugar cénico. E perigoso. Já conteceram aqui muitos acidentes. Uma placa no local avisa que não há vigilância e que, portanto, os turistas estão por sua conta e risco. Os perigos são vários. As altíssimas escarpas sobre o mar não têm, em muitas zonas, proteção (vimos pessoas a tirarem fotos à beira do precipício); a descida para a praia é perigosa e demora bastante mais de uma hora para superar a curta distância que separa o topo da colina da praia, quer para subir quer para descer, e o sol não ajuda; a praia lá em baixo tem correntes perigosas, cruzadas, e o mar é forte.
A praia de Kelingking, ao fundo — nós fomos lá.
Como é que nós sabemos isto? Porque tomámos a decisão um tanto arriscada de descer até à praia. E subir, claro. É preciso estar em boa forma para fazer isso e o nosso conselho é o de que, se alguém ainda assim decidir descer, por favor não se aventure a nadar naquele mar. Claro que há sempre quem se aventure e provavelmente ver-se-ão pessoas na água. A maioria tem sorte, felizmente, mas o número de mortes que já ocorreram naquela praia é assustador. Basta ter alguma familiaridade com o mar, e observá-lo, para perceber como ele ali é perigoso. As correntes cruzadas são imprevisíveis e vimos várias pessoas (todas jovens) em dificuldades para sairem da água.
A subida desde a praia, nas horas de calor, é extenuante. Tive de descansar várias vezes pelo caminho. É imprescindível levar água para beber, e nós não levámos, o que foi um erro. Em suma, é preciso uma certa dose de loucura para ir àquela praia.
Mais de três horas depois de iniciarmos a descida, regressámos ao topo. Foi um alívio. Por um lado estávamos felizes por termos superado o desafio, mas por outro sentimo-nos desconfortáveis por termos corrido um risco, que embora calculado, tinha para todos os efeitos sido desnecessário. Mal chegámos ao topo da colina, procurámos um lugar à sombra na esplanada de um café e pedimos uma água de coco — uma benção. Pouco depois, estávamos a almoçar. Aos poucos recuperámos as forças e a energia. Estávamos prontos para mais uma etapa em Nusa Penida.
Crystal Bay tem boas condições para banhos de mar.
Rumámos a Crystal Bay, uma bela praia de águas mornas, bastante frequentada. Relaxámos, banhámo-nos e voltámos satisfeitos para o cais de embarque. Nusa Penida é sem dúvida uma ilha inesquecível. Linda, desafiante e perigosa. Após a travessia de cerca de uma hora, chegámos a Bali ao anoitecer. A nossa velhinha scooter esperava-nos no parque de estacionamento, e pouco depois voava para o Bali Bobo Hostel.
Contámos o sucedido a Agust que nos disse que ele próprio nunca tinha descido até a praia de Kelingking. Ficou surpreendido por o termos feito. Fomos tomar um duche relaxante e depois fomos jantar de novo ao Gacoan, pois este fica relativamente perto do Bali Bobo. Normalmente íamos a pé e cruzávamos um pequeno bairro onde as pessoas, que nos viam passar várias vezes, nos cumprimentavam.
No dia seguinte optámos por descansar e evitar correrias. Estivemos bastante tempo no hostel depois do pequeno almoço. E quando chegou a fome fomos almoçar ao Menega Cafe, na praia de Jimbaran, apenas a 4 quilómetros de distância. Peixe grelhado, lagosta, camarão, bivalves — não estava mau, mas o nosso marisco é melhor e a forma como o tratamos também. Depois do almoço, a Fla quis provar uma durian pancake num café chamado Durian Tanpa Ribet; realizámos esse desejo.
Era o dia de deixarmos o Bali Bobo, mas não ainda Bali. Optáramos por ficar a última noite num hotel bem perto do aeroporto para facilitar a nossa partida. Despedimo-nos de Agust, esse simpático e querido indonésio que o destino colocou no nosso caminho, e apanhámos um táxi até o Tirtasuci House, em Kuta, onde dormiríamos a nossa última noite em Bali.
A melhor parte das viagens são os amigos que fazemos. Fla e Agust à porta do Bali Bobo Hostel.
O Tirtasuci fica na zona mais movimentada e turística de Bali, bem perto do aeroporto. Passámos a tarde na praia, a Jerman Beach, tomando banho, observando os enormes e coloridos papagaios (pipas) que os miúdos lançavam no ar, passeando até depois do sol se pôr, relaxando e descansando, já em contagem decrescente para a partida de Bali e mais uma longa viagem até o próximo destino.
No dia seguinte, de manhã, fomos tranquilamente a pé até o aeroporto. Tínhamos pela frente uma viagem dupla rumo ao Nepal, com escala em Kuala Lumpur. Para trás, mas não esquecida, ficava Bali, a ilha dos deuses.
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Kathmandu, Nepal
Chegámos à capital do Nepal à noite, por volta das 21 horas. À nossa espera estava um taxista contratado pelo hotel onde iríamos ficar; o transfer estava incluído na nossa reserva. Durante o trajeto deu para perceber que estávamos numa cidade aonde a modernidade não tinha chegado ainda, uma cidade diferente de todas as que já tínhamos conhecido. O núcleo central de Kathmandu é uma zona demarcada, conhecida como Thamel, a parte mais comercial e turística da cidade. O Magnificent Hotel, onde ficámos, está localizado dentro dessa zona.
Buddha Stupa.
O budismo é a religião prevalecente no Nepal. Trata-se de uma religião tolerante e isso faz-se sentir no quotidiano das pessoas. No segundo dia em Kathmandu fomos visitar o templo Buddha Stupa, a 7 kms do nosso hotel, trajeto que fizemos a pé, como é nosso timbre, para irmos palpando o terreno e o pulsar da cidade.
Na volta apanhámos um táxi até Thamel para visitarmos o centro da cidade. Depois seguimos a pé até o templo de Swayambhunath, do outro lado (oeste) da cidade. Trata-se de um templo onde os macacos abundam, convivendo com as pessoas e tentando sempre tirar alguma vantagem; é preciso saber lidar com eles e não lhes dar muita confiança. Regressámos, descendo a longa escadaria que já tínhamos subido (o templo fica no topo de uma colina), a Thamel e ao hotel. Depois de um duche revigorante e uns momentos de descanso, fomos jantar a um restaurante típico nepalês de que gostámos muito. A comida era excelente, com várias opções vegetarianas, e a decoração é muito bonita. O restaurante fica num primeiro andar, e tem duas salinhas pequenas com janelas grandes através das quais chegam os sons do bulício e as luzes dos néons, próprios do centro da cidade.
No Paleti Bhanchha Ghar.
No terceiro dia no Nepal partimos de Kathmandu num voo curto até Nova Deli. Ficámos surpreendidos pelo tamanho do avião, um 747, e pela refeição servida num voo de hora e meia. Parabéns à Royal Nepal Airlines.
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Nova Deli, Jaipur e Agra, Índia
Tínhamos uma expectativa muito alta em relação à Índia. Planeámos visitar as três cidades constituintes do badalado triângulo dourado, de modo que pormenorizámos muito bem a nossa estadia. Mas nada podia falhar, porque estava tudo muito apertado. O nosso plano era chegar a Nova Deli, apanhar o metro para o centro da cidade, tomar um duche rápido no hotel, e voltar para o aeroporto para apanhar o avião até Jaipur. Dado que os hotéis na Índia são relativamente baratos, pensáramos em reservar um hotel em Nova Deli por forma a termos um lugar onde deixar as malas maiores e partirmos só com uma pequena bagagem para Jaipur e Agra antes de regressarmos a Nova Deli. Decidimos ir para Jaipur de avião, uma vez que os preços baratos compensam, depois seguirmos para Agra de comboio, e não tínhamos ainda decidido como voltar de Agra para Nova Deli. O plano pareceu-nos bom, mas o voo que apanhámos em Kathmandu atrasou e pensámos que provavelmente não conseguiríamos apanhar o voo para Jaipur. Começámos a pensar num plano B…
Foi uma correria. Quando deixámos as malas no hotel em Nova Deli e voltámos a correr para o aeroporto, pensámos que perderíamos o voo para Jaipur. Mas tentar não custa, e o muito suor que gastámos foi compensado: o voo para Jaipur também estava bastante atrasado, e lá apanhámos o avião. Quando chegámos, o motorista do nosso “táxi” (um tuk tuk) estava há mais de três horas à nossa espera para nos levar ao Gypsy Monkey, o hostel que havíamos previamente reservado. Comemos qualquer coisa no hostel, tomámos um duche e fomos dormir.
Fla no magnífico Palácio da Cidade, em Jaipur.
Entretanto o motorista do tuk tuk fizera uma proposta para nos levar no dia seguinte aos locais mais emblemáticos, e nós aceitámos. Assim, bem cedo na manhã seguinte saímos à descoberta de Jaipur. Nesta cidade não há hipótese de percorrer longas distâncias a pé a não ser quando o sol se esconde porque o calor é infernal, pelo que foi uma decisão sensata termos aceitado a proposta do condutor do tuk tuk.
Fomos em primeiro lugar ao Hawa Majal e de seguida ao Palácio da Cidade, onde vive o jovem rei do Estado de Jaipur, Padmanabh Singh. As entradas pagas já incluem guia e as visitas são demoradas, cerca de duas horas. O nosso guia era excelente, falando um inglês correto. Explicou-nos a história da família real, ocidentalizada e culta, e através dela a história de Jaipur. É, sem dúvida, a melhor, e a indispensável, visita que se pode fazer na cidade.
Depois fomos almoçar. A comida é um problema na Índia. Dificilmente se consegue comida sem picante, seja onde for. A seguir ao almoço num restaurante sofrível, visitámos os outros locais previstos: Forte Amber, Stepwell e Jal Mahal.
No dia seguinte, cedo, apanhámos o comboio para Agra. Fomos na terceira classe, pois quisemos ver como é. Tem ar condicionado — forte de mais — e o mais curioso é que uns lugares são sentados, outros deitados. Eu fui num dos primeiros, a Fla num dos segundos, por cima de mim.
Chegados a Agra, pouco depois do meio-dia, apanhámos um tuk tuk para o nosso alojamento, estrategicamente situado junto à entrada leste para o Taj Mahal. Foi a melhor surpresa na Índia. Uma belíssima casa transformada em alojamento local. A decoração é de muito bom gosto e o quarto é realmente mimoso. Os jardins dão um toque de frescura, o que é sempre bem vindo num país demasiado quente. Mas o problema continuou a ser a comida. Na Índia há muita comida vegetariana, mas mesmo esta é picante. Foi o que aconteceu ao jantar: mais uma dose descomunal de picante. Enfim, tentámos animar-nos com a perspetiva da visita ao Taj Mahal.
Nós e o Taj Mahal.
De manhã bem cedo, no dia seguinte, antes ainda do nascer do sol, lá fomos nós. Fomos dos primeiros a entrar. O Taj Mahal é realmente imponente mas, talvez pela nossa alta expectativa, desiludiu um pouco. Arquitetonicamente não é muito elaborado, o interior é pobre e falta qualquer coisa no entorno, talvez mais verde e mais água. Ainda assim, dado o simbolismo do local, talvez, não se consegue ficar indiferente quando o vemos pela primeira vez. Seja como for, e dado que era um objetivo de longa data, sobretudo para a Fla,”está feito”.
Regressámos ainda nesse dia a Nova Deli, de táxi. É tão barato (descobrimos isso já em Agra) que não se justifica outro meio de transporte. Descansámos um pouco no hotel, que se situa bem perto da Estação Central Ferroviária de Nova Deli, antes de sairmos para uma volta a pé pela zona mais movimentada da cidade. A confusão é grande: os pequenos negócios de rua, as lojas minúsculas, os tuk tuk, os milhares de transeuntes, os odores intensos. Ao passarmos numa rua sentimos um cheiro fortíssimo a urina: olhámos para o lado e vimos vários indivíduos, lado a lado, urinando para o chão, que era um lago.
A Índia é seguramente um país espetacular com uma história fabulosa e uma cultura grandiosa, mas aquilo que vimos e sentimos não foi nada disso. Como não somos hipócritas, temos de dizer que não gostámos daquela cultura tão influenciada pela religião. Embora não pareça haver intolerância religiosa, pois a diversidade de culto é visível nas ruas, as pessoas são extremamente preconceituosas. Se a Fla vestisse uns calções ou um vestido curto, era certo e sabido que os olhares sobre ela se tornavam tão frequentes e intensos que eram impossíveis de ignorar. As mulheres olhavam com reprovação e indignação, os homens com espanto (para não lhe chamar outra coisa).
Uma rua de Nova Deli, com o Forte Vermelho ao fundo.
As pobreza e sujidade na Índia fazem doer o coração. Vimos de facto muita pobreza, incluindo crianças a catarem lixo à procura de comida, mas também muita sujeira. Vimos pessoas a deitarem todo o tipo de coisas para o chão, inclusive nos aviões, sem qualquer necessidade. As ruas são incrivelmente sujas e mal cheirosas. Sinceramente, foi com certo alívio que deixámos a Índia. No dia 8 de maio, ao início da noite, partimos rumo a Baku, Azerbeijão.
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Baku, Azerbeijão
Era suposto estar um motorista à nossa espera no aeroporto de Baku, mas ninguém compareceu. É sempre um prejuízo (não apenas monetário) quando algo no planeamento falha. Tivemos de apanhar um táxi e o Booking não nos devolveu o valor que pagámos por esta corrida, mas o que tínhamos pago previamente ainda em Lisboa, pelo que ficámos duplamente prejudicados (monetariamente e pelo atraso de duas horas com que chegamos ao “nosso” alojamento). Não é justo, mas não há muito mais a fazer para além de denunciar estas situações.
As Flame Towers veem-se quase de todo o lado, em Baku.
Pelo caminho entre o aeroporto e o hostel já dava para perceber que Baku é uma cidade moderna; iríamos confirmar isso nos dias seguintes. Ficámos no Cth Baku Hostel, bem localizado no centro da cidade. Pela primeira vez ficámos num hostel com casa de banho partilhada, mas isso não constituiu problema. E este hostel tem algo que compensa tudo: um soberbo e variado pequeno-almoço. Depois desta refeição ficávamos com energia para várias horas. E nós usámos bastante energia ao palmilharmos dezenas e dezenas de quilómetros na surpreendente Baku — uma cidade limpa, organizada, moderna, bela, com alguns edifícios icónicos.
Entre eles, há dois que nenhum turista em Baku pode deixar de visitar.
Referimo-nos às Flame Towers e ao Centro Cultural Heydar Aliyev. As primeiras, localizadas numa colina sobre a baía de Baku, veem-se de quase todo o lado e foram, por isso, concebidas para se olharem à distância. Já o Centro Heydar Aliyev — desenhado pelo arquiteto iraquiano-britânico Zaha Hadid — é para se ver de perto, quer o exterior, quer o interior. Foi o que fizemos. Passámos uma tarde inteira, até o fecho de portas, apreciando esta magnífico edifício e as várias exposições patentes no seu seio.
Centro Cultural Heydar Aliyev. Em memória de um alto dirigente da União Soviética que se tornou Presidente do Azerbaijão e o governou com mão de ferro. Tal como acontece, hoje, com seu filho
Além do edifício propriamente dito, a envolvente é também muito interessante, pois inclui o Centro de Convenções de Baku e largos relvados onde as pessoas se reunem para fazer piqueniques, praticar desporto, descansar e conviver, em suma, um espaço simultaneamente grandioso e harmonioso, uma síntese, na verdade, de toda Baku.
Mas além da componente arquitetónica, há que realçar a vertente urbanística. As ruas são bem desenhadas, perfeitamente adaptadas para a circulação a pé, com um pormenor bastante curioso: os peões (pedrestes, para os amigos brasileiros) cruzam as grandes avenidas sempre por debaixo do chão, em segurança. O número de túneis, onde por vezes se encontra algum tipo de comércio ou um ou outro artista de rua, é impressionante. E há algo mais que também impressiona: o luxo patente em lojas, hotéis, edifícios e automóveis. É preciso não esquecer que o Azerbaijão tem petróleo e gás natural.
Apesar da riqueza e da boa organização evidentes em Baku, o mesmo não se passa seguramente no resto do país. Embora abundante em combustíveis fósseis, o PIB per capita do Azerbaijão é equivalente ao do Brasil e bastante inferior ao português. Além disso, o país é governado desde 1993 pela mesma família, os Aliyev, que se mantêm no poder através de um sistema pseudo-democrático, a que alguns chamam de Partido Dominante; isso significa que há partidos na oposição, mas nunca chegam ao poder. Por outras palavras, as eleições são fraudulentas. Além disso, o atual presidente, Ilham Aliyev, filho de Heydar Aliyev (um antigo oficial de elevada patente do KGB), pode manter-se indefinidamente no cargo graças a uma alteração à Constituição, aprovada pela Assembleia Nacional após um controverso referendo, realizado em março de 2009.
Museu de Tapeçaria do Azerbaijão.
Há duas personalidades nascidas no Azerbaijão que merecem o nosso destaque. Uma delas é Garry Kasparov, que apesar de ter nascido em Baku, viveu grande parte da sua vida na União Soviética e na Rússia, primeiro como membro do Partido Comunista, depois como opositor ao regime de terror implantado por Putin. Hoje vive no estrangeiro, exilado, tendo escrito um excelente livro — O Inimigoque Vem do Frio — onde previne o Ocidente livre sobre a necessidade de travar Putin a tempo, algo que nunca foi feito, permitindo que a ameaça russa crescesse da Geórgia para a Crimeia e depois para a Ucrânia. Kasparov mostra grande lucidez e compara o regime de Putin a uma verdadeira máfia. Além da atividade política desenvolvida, Garry Kasparov foi um exímio jogador de xadrez, um dos melhores de todos os tempos, e também por isso — nós que tanto apreciamos esse jogo — o admiramos.
A outra personalidade é Gubad Ibadoghlu, um economista que fundou o Movimento de Democracia e Prosperidade do Azerbaijão, em 2014, e que viu o seu registo como Partido da Democracia e Prosperidade, várias vezes rejeitado pelas autoridades. Na prática, a atividade política de Gubad — que denunciava a corrupção governamental e o desvio para benefício pessoal dos Aliyev das receitas do gás e do petróleo — foi ilegalizada. Perseguido, foi obrigado a sair do país. Em 2023 regressou com a mulher ao Azerbaijão para visitar a mãe doente, mas o carro em que seguiam foi albaroado e ambos foram agredidos e presos, tendo a mulher sido libertada depois. Doente, Gubad Ibadoghlu foi colocado em prisão domiciliária, mas é-lhe negado o tratamento necessário para a diabetes, pressão alta e problemas renais de que padece.
Apesar de ser um república democrática no papel, não existem eleições livres no Azerbaijão e o número de presos políticos tem vindo a crescer. A mulher do presidente do país é a atual vice-presidente.
Seja como for, e apesar da grande maioria da população azeri ser muçulmana (mais de 97%), Baku é uma cidade moderna, onde as pessoas andam à vontade e a larga maioria se veste dentro dos padrões ocidentais.
Celebrámos o 12º aniversário do nosso namoro no Dolma, em Baku.
Na última noite em Baku fomos jantar a um restaurante tradicional da cidade, o Dolma, que também é o nome de uma iguaria tradicional ali confecionada: carne moída enrolada em folhas de videira. Além disso, comemos cabrito no forno com puré de batata, frango, salada — e tudo estava realmente delicioso.
No dia seguinte fomos de autocarro para o aeroporto e despedimo-nos de Baku. Ao contrário do que acontecera com a Índia — quando as expectativas eram elevadas e de certa forma foram frustradas — em relação ao Azerbeijão as expectativas não eram elevadas, mas foram superadas no que toca à vida na capital, embora não possamos dizer o mesmo relativamente à vida das pessoas em todo o país, privadas de liberdade por mais um ditador despótico. Porque há tantos no poder e porque há tanta gente a apoiá-los — eis a questão que nos inquieta, sempre.
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Geórgia e Arménia
A nossa intenção inicial era visitar os três pequenos países entre o Mar Cáspio e o Mar Negro: Azerbaijão, Geórgia e Arménia, ficando alguns dias em cada um deles. A Geórgia teria de ser sempre o país do meio porque devido ao conflito entre a Arménia e o Azerbeijão (em Nagorno Karabakh) não é conveniente viajar (e muitas vezes nem há ligação) entre estes dois países. Mas depois descobrimos que há passeios de um dia à Arménia, desde a Geórgia, com guia. Assim, reservámos ainda em Portugal um desses tours, que incluía um almoço em casa de uma família local.
Apesar de haver autocarros do aeroporto para o centro de Tbilisi, optámos pelo táxi que nos deixou à porta do apartamento que tínhamos alugado para os nossos 6 dias na Geórgia, via Airbnb. Este apartamento está muito bem localizado e equipado, e foi uma excelente opção para a nossa estadia em Tbilisi. Assim pudemos fazer os pequenos almoços em casa e algumas outras refeições, poupando bastante dinheiro, pois a vida em Tbilisi, ao contrário do que se pensa geralmente, não é nada barata.
A caminho da Praça da Europa, na noite de 11 de maio de 2024, em Tbilisi.
Já sabíamos que havia grandes manifestações na Geórgia que, na época em que chegámos, estavam no auge. Em causa estava uma lei — que haveria de ser aprovada no parlamento durante o período em que estivemos em Tbilisi—, que ficou conhecida como “lei russa”, pois visava limitar a liberdade de imprensa, à semelhança de uma lei de 2012 vigente desde então no regime putinista. O que constatámos na Geórgia foi uma enorme vontade das gerações mais novas de se livrarem da pressão russa. Para tal, os georgianos só veem uma possibilidade: a entrada do país na União Europeia e, eventualmente, na NATO. Ora, esta “lei dos agentes estrangeiros” é um entrave às ambições dos georgianos de aderirem à UE (viola as condições de adesão), e é por isso que a presidente do país, Salome Zourabichvilli, uma europeísta convicta, tão veementemente se lhe opõe. O veto da presidente, porém, não foi suficiente para travar a lei, face à maioria dos deputados do partido Sonho Georgiano, no poder.
Tínhamos conhecimento desta situação quando chegámos à Geórgia e estávamos ansiosos por nos juntarmos às manifestações, que eram constantes. Logo no dia da nossa chegada, dia 11 de maio, sábado, assistimos a uma manifestação gigantesca que se concentrou na Praça da Europa. As pessoas empunhavam ou colocavam pelas costas bandeiras da Geórgia e da União Europeia. Estivemos horas, ali, e no dia seguinte comprámos uma bandeira da União Europeia para participar nas manifestações. Chovia bastante naquela noite, mas ninguém arredou pé.
A maioria das manifestações ocorre em frente ao Parlamento.
A nossa vida em Tbilisi foi, pois, passada nas manifestações. Claro que também deambulámos pela cidade, palminhámos o centro histórico, mas o nosso pensamento estava sempre nas manifestações que eram diárias e constantes. O nosso apartamento situava-se mesmo em frente ao parlamento, mas do outro lado do rio, numa colina. À noite ouvíamos perfeitamente os sons que vinham de lá, pois as manifestações nunca paravam, os georgianos faziam turnos para manterem os protestos durante o máximo de tempo possível.
Zezva, o guia que nos conduziu à Arménia, era também um dos manifestantes. Ele conduziu o carro sempre debaixo de chuva enquanto nos explicava — a nós e a um casal inglês, que éramos os seus clientes — a situação na Geórgia, o contexto histórico, a luta dos georgianos para se verem livres da influência russa. Recordo uma frase de Zezva que ficou gravada no meu cérebro: desde pequeno que ouço constantemente “não podemos irritar os russos, não podemos irritar os russos”, estou farto!
Ao ouvi-lo fiz interiormente uma pergunta que de vez enquanto me assalta. Como é possível termos nos nossos países livres gente que apoia ou tolera o regime de Putin? Não consigo compreender. Esses que ativa ou discretamente toleram Putin são os mesmos que deploram a União Europeia, o maior espaço de liberdade do mundo. E é a este espaço que os georgianos querem desesperadamente pertencer.
Haghpat, Arménia.
Visitámos alguns mosteiros na Arménia. Akhtala, e o complexo de Haghpat e Sanahin. No final estivemos em Sarahart, nas instalações de um teleférico, desativado há pouco tempo, que servia para transportar os trabalhadores das suas casas, cá em cima, para as minas de cobre, lá em baixo, ao lado da cidade mineira de Alaverdi. Esta região já foi georgiana, depois soviética e agora é arménia.
Junto ao mosteiro de Haghpat — uma obra-prima da arquitetura religiosa arménia, classificada como Património Mundial pela UNESCO, construído no século X —fica a casa onde almoçámos. Foi um almoço muito agradável e saboroso. Voltámos a provar o dolma, esse petisco tão difundido pela região do antigo império otomano, entre outras iguarias: um frango bem confecionado e uma salada que fez as delícias da Fla, queijos, pastéis e bom pão caseiro. Além disso pudemos conviver um pouco com uma família local e fruir de uma paisagem deslumbrante, pois esta casa situa-se ao lado do mosteiro, no topo de uma colina.
Depois do almoço em Haghpat. Nós, Zezva e o casal inglês.
Regressámos a Tbilisi e fomos diretamente para a porta do Parlamento onde ocorria mais uma manifestação. Zezva juntou-se-nos pouco depois. Ele traduziu para inglês muito do que se dizia por lá em georgiano, quer nos discursos dos oradores, quer nas palavras de ordem dos manifestantes. Os estudantes universitários estavam todos mobilizados, bem como muitos professores, e as universidades estavam fechadas. Já era bem de noite quando fomos para o apartamento. Continuámos a ouvir os sons da música, dos slogans, das ovações até adormecermos. Ainda hoje nos é impossível manter-nos indiferentes a esta luta.
É justo dizer que de vez em quando a polícia carregava sobre os manifestantes. Várias pessoas foram presas. Tivemos sorte em nunca termos estado num desses momentos, mas o grande aparato policial, com carros, carrinhas, canhões de água e centenas de elementos, deixava bem claro que os agentes do estado poderiam intervir a qualquer momento. Apesar disso ninguém desmobilizava, e muitos estavam protegidos com máscaras contra o gás lacrimogéneo.
Corte de rua pelos agentes da polícia junto ao parlamento de Tbilisi..
No dia seguinte, apesar de termos ido de novo ao Parlamento, fomos visitar a Galeria Nacional da Geórgia, que por acaso, fica muito perto, na mesma avenida. Vimos várias exposições, com destaque para as obras do mais conhecido artista plástico georgiano, Niko Pirosmani.
Fomos também à Academia de Arte de Tbilisi, na Avenida Rustaveli, mas, pelo caminho, à porta do Coliseu, tivemos uma agradável surpresa que comprova como o mundo é pequeno. Deparámos com o jornalista português, que muito admiramos, Henrique Monteiro. Conversámos um pouco e ficámos a saber que o Henrique tinha sido convidado para ir a Tbilisi dar uma palestra numa universidade. Aproveitando o ensejo, ele haveria de produzir uma belíssima reportagem, publicada no jornal Expresso do dia 24 de maio, sobre os acontecimentos que naquela altura ocorriam na cidade. Escreve Henrique nessa reportagem:
Olho pela última vez para jovens com bandeiras do seu país e da Europa, a lutar pela liberdade, e comparo-os, mentalmente, com os jovens dos EUA e da Europa a lutar pela Palestina, numa equação em que liberdade não entra, pelo contrário. Os primeiros têm esperança; os segundos apenas raiva.(aqui)
Foi um encontro feliz para nós, no qual pudemos constatar não sermos os únicos portugueses genuinamente sensibilizados com a determinação do povo georgiano na sua luta pela liberdade.
Fla e Henrique Monteiro à porta do Coliseu de Tbilisi.
À noite fomos jantar a um restaurante tradicional georgiano, o Mafshalia. Estávamos no dia da partida e quase no final da nossa viagem. Aproveitámos para provar alguns pratos típicos (carne de porco com batatas assadas, um frango com um molho um tanto ou quanto esquisito para o nosso gosto, saladas e pastéis) e um vinho branco caseiro muito agradável. Os preços são em conta, as doses bem servidas e o restaurante é típico, com uma sala comum e pequenos compartimentos privativos. Vale a pena.
De seguida fomos ao apartamento tomar um duche e pegar as malas para seguirmos, de autocarro, para o aeroporto. Despedimo-nos de Tbilisi com o desejo de que o povo georgiano alcance a liberdade. Em outubro há eleições na Geórgia e a oposição quer que estas sejam monitorizadas por observadores independentes. Mas a “lei russa”, entretanto aprovada, é um obstáculo à vinda de observadores estrangeiros. Tal como refere Henrique Monteiro, se os Estados Unidos e a União Europeia não pressionarem Putin, a Geórgia estará perdida.
Os nossos corações permanecem com Zezva e com os dois terços de georgianos que almejam a liberdade.
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Ankara, Turquia
O nosso regresso a Portugal fez-se via Turquia, e ficámos 14 horas em Ankara, aonde chegámos cerca das 5 e meia da manhã. Apanhámos um autocarro para o centro e fomos visitar alguns lugares da cidade. Pensávamos que o autocarro ia até o centro da cidade, e que aí seria a última paragem, mas a última paragem afinal era depois do centro, num terminal rodoviário fora da cidade. Tivemos, portanto, de comprar novo bilhete para apanharmos outro autocarro em sentido inverso para descermos no centro da cidade como pretendíamos. Lá chegados, o motorista abriu a porta da frente para entrarem os passageiros mas não abriu a porta de trás por onde era suposto sairmos. Pedimos para ele abrir a porta e ele começou a falar muito alto e percebemos que não queria abrir a porta; pelos gestos que fazia, entendemos que, segundo ele, teríamos de continuar a viagem até o aeroporto! Rapidamente furamos por entre as pessoas que estavam a entrar e conseguimos sair pela porta da frente, enquanto o motorista gritava enfurecido qualquer coisa para nós ininteligível. Ficámos abismados com este comportamento.
Vista sobre a cidade de Ankara.
Lá seguimos a pé até ao castelo de Ankara, de onde se avista quase toda a cidade. Ao redor fica a cidadela ou Cidade Antiga, bem preservada, com lojas de antiguidades, de artigos típicos e souvenirs, bares e restaurantes. Na volta parámos no Bogazici Lokantasi para almoçar. Trata-se de um excelente restaurante muito frequentado pelos locais mas também por alguns estrangeiros, como nós. Lá dentro tem uma montra enorme cheia de travessas de comida, e é só chegar e apontar para o que se pretende comer. A comida é mesmo muito boa. Um prato típico muito requisitado é um arroz com carne chamado Ankara Tava.
E nada mais há a registar digno de nota sobre Ankara. Apenas que aquele episódio com o motorista do autocarro nos fez pensar que a Turquia é talvez o país onde se manifesta mais abertamente o dilema muçulmano. De um lado os que hostilizam os estrangeiros ocidentais e se refugiam na tradição, na religião; e do outro os que desejam um estado laico, aberto e democrático, na linha protagonizada pelo fundador da Turquia moderna, Kemal Atatürk.
No Bogaziçi Lokantasi.
Um pouco antes da meia-noite aterrámos em Lisboa. Assim se concluía mais uma grande aventura e mais uma grande viagem. Em novembro está programada mais uma viagem de um mês, desta vez pela África.
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1 Nós perdemos a ligação para Seul porque o nosso voo que saiu de Lisboa para Amsterdão atrasou devido ao mau tempo neste aeroporto. Chegados a Amsterdão o nosso voo para Seul já tinha saído. Então a KLM enviou-nos um SMS e um e-mail a marcar novo voo que sairia às 9 da manhã. Dado que chegámos ao aeroporto de Amsterdão por volta das 2 da madrugada, ficámos pelo aeroporto mesmo. Por volta das 4 da manhã recebemos novo e-mail e SMS dizendo que o novo voo tinha sido cancelado “por motivos técnicos”. Tivemos de esperar até às 8 da manhã, hora em que abriu o balcão da KLM para que nos fosse remarcado novo voo. As filas eram enormes e tivemos horas à espera. No balcão só conseguiram marcar-nos voo para as 21 horas através da Korean Air.
Quando chegámos a Lisboa reclamámos junto da KLM mas responderam-nos que não tínhamos direito a indemnização. Primeiro disseram-nos que não tínhamos direito a receber indemnização porque o nosso voo desde Lisboa tinha atrasado devido ao mau tempo; depois, quando pacientemente voltamos a explicar que não era esse o voo em causa, mas o que eles tinham remarcado para as 9 da manhã do dia seguinte e depois cancelado, responderam-nos que ainda assim não tínhamos direito a indemnização porque os bilhetes não tinham sido emitidos. Reclamámos para a ANAC. Preenchemos o formulário indicado, enviamos os documentos solicitados, fizemos um breve descrição do ocorrido. Passadas três semanas recebemos um e-mail da KLM a dizer que iam enviar 1200,00€ para a nossa conta — e cumpriram.
Moral da história: nunca desistam de reivindicar os vossos direitos. Se a companhia aérea não concordar em indemnizar-vos, reclamem para a ANAC (Autoridade Nacional de Aviação Civil) ou para alguma congénere de outro país. Tratem diretamente com eles e não recorram a nenhuma das inúmeras empresas que existem na internet porque qualquer delas vai cobrar-vos cerca de metade do valor a que têm direito.
Passam hoje 122 anos sobre o nascimento de Karl Raimund Popper, na Viena do início do século XX, em 1902. Popper viveu, por isso, tempos conturbados, tendo sobrevivido a duas guerras mundiais, que inevitavelmente influenciaram o seu pensamento. Este filósofo vienense foi um “revolucionário” das ideias e pode dizer-se, tomando de empréstimo as palavras de Bryan Magee, que a filosofia de Popper é uma “filosofia de ação” — daí que muitos a tenham aproveitado para as suas atividades profissionais. Magee, na biografia que escreveu sobre Popper, em 1973, cita políticos, artistas e cientistas (incluindo vários prémios Nobel) que afirmaram ter transformado as suas vidas profissionais e pessoais graças ao pensamento de Karl Popper1.
No meio século posterior à publicação do livro de Magee, ou seja, desde 1973 até hoje, multiplicam-se os que, de alguma forma, passaram a ver o mundo de forma diferente, após lerem e estudarem a obra do maior filósofo da ciência do século XX. Popper põe quase tudo aquilo que julgamos conhecer de pernas para o ar e ajuda-nos a ver a realidade por uma perspectiva completamente diferente. Ele aborda criticamente as ideias de Platão, Hegel, Marx, Freud, Wittgenstein, Heidegger, Chomsky (só para citar os mais famosos), que tantos consideram monstros sagrados da cultura ocidental, e desconstrói, quando não desmascara, as respetivas doutrinas. E um campo vastíssimo, que vai desde a epistemologia à política, passando pela teoria da evolução e a ética, foi reconstruído por Popper.
(A grande filosofia começa, de facto, pela demolição de castelos).
Comecemos pela epistemologia. Neste campo, Karl Popper resolveu dois problemas. O primeiro, fruto do seu encontro com o marxismo, foi o de estabelecer um claro critério de demarcação entre ciência e pseudociência: uma teoria que não seja passível de ser testada ou refutada não pode ser considerada científica; o segundo foi o problema da indução: não se pode construir uma teoria a partir de observações, não importa em que número, pois há sempre a possibilidade de uma última observação invalidá-la.
Kant já havia mostrado que o conhecimento não começa nos sentidos, mas sim no nosso intelecto (que Kant chama de entendimento), sendo independente daqueles, ou seja, a priori, mas Popper vai mais longe nas consequências: não é possível ter a certeza de que uma teoria é verdadeira, mas é sempre possível que a mesma seja falsa. Os cientistas devem, portanto, tentar falsificar as teorias em presença (daí o método popperiano ser conhecido por falsificasionismo), incluindo as próprias, para desenvolverem outras que melhor correspondam aos factos e possam, assim, ser consideradas provisoriamente verdadeiras. Desta forma se constrói o edifício científico e nos aproximamos da verdade — com a consciência de que nunca podemos ter a certeza de a encontrarmos. Por outras palavras, todo o conhecimento é conjetural.2 O matemático e cosmólogo Sir Hermann Bondi afirmou: nada mais há para a ciência do que o seu método, e nada mais há para o seu método do que o que foi dito por Popper.3
Já no que toca à teoria da evolução, Karl Popper inverte o papel tradicionalmente atribuído aos organismos, na sua relação com o ambiente. Segundo ele, os seres vivos não têm apenas uma capacidade de adaptação, não são seres passivos, pelo contrário, procuram ativamente novos nichos ecológicos, tentando e errando, sempre em busca de melhorarem a sua situação. A própria vida pode ter nascido após milénios de tentativas e erros, até ao aparecimento das primeiras células. Todos os organismos, “desde a amiba a Einstein”, procuram constantemente melhores condições de vida, explorando e transformando o meio ambiente. Os organismos vivos são seres que criam expectativas, capacitados com conhecimento inato por forma a resolverem problemas ambientais diversos. O pica-pau criou o seu bico forte na busca por uma nova fonte de alimento. E todos os organismos exploram o ambiente na busca de um mundo melhor: as formigas constroem formigueiros, os macacos usam pedras como ferramentas, os castores constroem barragens, os seres humanos saem de África para explorar o mundo. A vida toma decisões ousadas e faz escolhas criativas.
Paul Nurse, geneticista e biólogo celular britânico, vencedor do Nobel da Medicina, corrobora no livro O que é a Vida? a visão de Popper: A vida está constantemente a fazer experiências, a inovar e a adaptar-se à medida que vai mudando o mundo e o mundo muda à sua volta.4 Também Ray Noble, que escreveu, em parceira com seu irmão Denis Noble, Understanding Living Systems, publicado em 2023, considera que este livro, escrito a duas mãos, foi fortemente influenciado por Popper.5
Os organismos mais avançados na busca por um mundo melhor são os seres humanos modernos, e isto deve-se à sua linguagem específica. (Os outros seres vivos também têm linguagem, mas não aos níveis descritivo e argumentativo, exclusivo dos humanos). É a linguagem própria do sapiens que permite a criação de uma cultura particular— a religião, a arte, a filosofia e, sobretudo, a ciência — a que Popper apelidou de mundo 3. Isto conduz-nos diretamente aos três mundos de Popper. O mundo 1 é constituído pela totalidade das coisas físicas, vivas ou inanimadas, tudo o que existe, toda a matéria; o mundo 2 é o das consciências humanas individuais, o mundo da subjetividade, do pensamento, da argumentação — através do qual fazemos a ligação, nos dois sentidos, entre o mundo físico (1) e o mundo da cultura (3); e o mundo 3 é o das produções humanas, da ciência, das obras de arte e de engenharia, das ideias registadas em livros, artigos e textos filosóficos. Através do mundo 3, nós transformamos constantemente o mundo 1. Então, qual a consequência do desenvolvimento da linguagem humana e da criação do mundo 3, o mundo da cultura e da ciência? A principal consequência, em termos evolutivos, é a de que os seres que não desenvolveram a linguagem da ciência precisam arriscar as próprias vidas na sua busca por um mundo melhor; em contrapartida, nós podemos testar o mundo com as nossas teorias científicas, e deixá-las morrer por nós. A teoria da evolução de Popper está, assim, estritamente ligada à sua epistemologia.6
Já no que concerne à filosofia política, Karl Popper é o filósofo da liberdade, considerada o mais importante valor social. Popper enfatiza isso mesmo numa passagem da sua autobiografia:
Continuei a ser socialista durante vários anos, mesmo depois da minha rejeição do marxismo; e se pudesse haver um socialismo combinado com a liberdade individual, ainda seria socialista. Porque nada poderia ser melhor do que viver uma vida modesta, simples e livre numa sociedade igualitária. Levou-me algum tempo a reconhecer isto como não sendo mais do que um lindo sonho, a reconhecer que a tentativa para realizar a igualdade põe em perigo a liberdade e que, se a liberdade se perde, nem sequer entre os não livres haverá igualdade.7
Porém, a liberdade só é possível se formos capazes de impor limites ao poder. Uma sociedade saudável deve ter ao seu alcance meios pacíficos para destituir os governantes que querem abusar do poder. É por isso que Popper considera perigoso e infrutífero concentrarmo-nos sobre quem deve governar — questão central para os filósofos sociais, desde Platão a Marx — e defende que devemos antes interrogar-nos sobre qual o sistema político que devemos construir para garantir que poderemos ver-nos livres dos governantes que querem perpetuar-se no poder. A questão tradicional quem deve governar? deu origem a ideologias radicais e à violência, a questão defendida por Popper, de que forma podemos livrar-nos dos governos indesejáveis sem derramamento de sangue?, está na base da democracia liberal e do estado de direito democrático, com a sua tradicional separação de poderes. De facto, não basta ter um sistema em que governe quem foi votado pela maioria, é sobretudo indispensável que os governantes estejam limitados por regras que evitem uma ditadura.
A este propósito, o físico quântico David Deutsch escreveu em O Iníciodo Infinito:
Popper aplica o seu princípio básico “como podemos detectar e eliminar o erro?” à filosofia política sob a forma de “como podemos livrar-nos dos maus governos sem violência?” Da mesma forma que a ciência busca explicações experimentalmente verificáveis, um sistema político racional facilita o mais possível a detecção de um mau líder ou política, e a persuasão de outros de que é esse o caso, e a sua remoção sem violência. Tal como as instituições científicas estão estruturadas de forma a evitar consolidar teorias, mas antes expô-las à crítica e à verificação, também as instituições políticas não deveriam dificultar a oposição pacífica aos governantes e às medidas políticas, personificando antes uma tradição de discussão pacífica e crítica destes e das próprias instituições, e de tudo o resto. Assim, os sistemas de governo devem ser julgados não pela sua capacidade profética de escolher e instalar bons líderes e políticas, mas pela sua capacidade de remover maus líderes já instalados.8
Assim, só a democracia liberal garante a possibilidade de nos vermos livres dos governantes nefastos. E também só ela nos garante a liberdade, a limitação da violência e a esperança da paz. Se a liberdade não fosse o valor mais alto, os tiranos deste mundo não se uniriam contra ela, como sempre acontece. Independentemente dos posicionamentos ideológicos, os ditadores de todos os continentes, sejam de esquerda ou direita, unem-se em torno do companheiro Putin, pois acima das posições ideológicas relativas, está o ódio absoluto ao mundo livre. Popper considerava que a oposição dos liberais ocidentais aos totalitarismos nazi e estalinista do século XX era a continuação da luta travada pela democracia ateniense contra a tirania espartana, na Grécia Antiga. Pois bem, essa luta continua hoje entre extremistas que apoiam ditadores e os democratas que resistem. A mesma luta milenar: opressão versus liberdade.
Mas, independentemente do ramo da filosofia de Karl Popper que abordemos, há que compreender a raíz do seu pensamento filosófico. Mariano Artigas, que foi professor de filosofia na Universidade de Navarra, em Espanha, expôs o caráter humanitário do sistema popperiano — num excelente artigo (aqui), que intitulou, precisamente, As Raízes Éticas da Epistemologia de Karl Popper — raízes fundadas na luta contra a violência. Popper sublinha a urgência de anularmos ou diminuirmos drasticamente o sofrimento evitável causado pelas ideologias utópicas, os nacionalismos, a cultura romântica, o culto do herói, a pseudociência, as profecias históricas, as religiões intolerantes. Escreve Artigas:
Devemos ler Popper e interpretar os seus argumentos à luz de valores éticos, nomeadamente do seu compromisso com a dignidade humana, a liberdade, a razão e a verdade. Caso contrário, corremos o risco de não o compreendermos.9
Karl Popper não gostava de modas e não surpreende que, no mundo cada vez mais polarizado de hoje, ele esteja fora de moda, como, aliás, sempre esteve. Não sabia prever o futuro, falava e escrevia de forma clara e simples, e detestava definições. Era avesso à arrogância intelectual. O seu lema era: posso estarenganado e tu certo, mas, pelo esforço, podemos aproximar-nos daverdade.10 Considerava, ainda, que vivemos no melhor mundo de sempre — o que, de resto, corresponde aos factos11 — pelo que era considerado um otimista ou, como sinteticamente o descreveu Micchelle-Irène Brudny, um filósofo feliz.12
Convenhamos que isto não é empolgante para a maioria. Como é que um filósofo não tem uma ideia sobre o futuro? Bom, para Popper o futuro é aberto, depende de múltiplos fatores imponderáveis, e os profetas de todos os quadrantes, utópicos ou distópicos, são charlatães. A prioridade da nossa ação deve centrar-se no mundo presente, no sofrimento que nele existe, e não num qualquer futuro utópico: é nosso dever lutar pela diminuição drástica da violência e do sofrimento a ela associado. Não permitais que os vossos sonhos de um mundo maravilhoso vos alheiem das reivindicações dos homens que vivem aqui e agora13— eis o ponto de partida do pensamento político de Karl Popper.
— Popper, Karl, Pós-Escrito à Lógica da Descoberta Científica, vol. I, O Realismo e o Objectivo da Ciência, Dom Quixote, Lisboa, 1987 (ed. orig. 1956).
3 Magee, Brian, ob. cit.
4 Nurse, Paul, O que é a Vida? Editora Vogais, Amadora, 2021 (ed. orig. 2020), p. 46.
5 Noble, Raymond & Noble, Denis, Understanding Living Systems, University Press, Cambrigde, 2023.
6 Popper, Karl, Pós-Escrito à Lógica da Descoberta Científica, vol. II, O Universo Aberto, Dom Quixote, Lisboa, 1988 (ed. orig. 1956).
— Popper, Karl, Um Mundo de Propensões, Editorial Fragmentos, Lisboa, 1991.
— Popper, Karl, A Vida é Aprendizagem, Edições 70, Lisboa, 2001 (ed. orig. 1999).
7 Popper, Karl, Busca Inacabada — Autobiografia Intelectual, Esfera do Caos, Lisboa, 2008, p. 57.
— Popper, Karl, Unended Quest — An Intellectual Autobiography, Open Court, Illinois, 1976, p. 36.
— Popper, Karl, In Search of a Better World — Lectures and Essays From Thirty Years, Routledge, London, 1994.
8 Deutsch, David, O Início do Infinito, Gradiva, Lisboa, 2013 (ed. orig. 2011), pp. 310-11.
Vi-o e ouvi-o várias vezes ao vivo, a primeira das quais no início dos anos 80, na Amadora, e a última no CCB, em outubro de 2018, quando já se lhe notava alguma debilidade. Em 1982, assisti, na companhia do meu querido amigo Branquinho, à peça “Fernão Mentes?”, encenada por Hélder Costa e interpretada pela companhia de teatro “A Barraca”, a qual incluía várias canções do então futuro álbum “Por Este Rio Acima”, baseado, tal como a peça, na obra de Fernão Mendes Pinto, “Peregrinação”.
Nesses anos 70 e 80, eu e alguns amigos muitas vezes cantámos as músicas de Fausto em autocarros, barcos, comboios, nas nossas viagens de fim de semana, divertindo uns e incomodando outros, fazendo jus à nossa juventude irreverente, quando a viola era uma arma que podia ferir tímpanos, mas não matava ninguém. Por todos esses anos e pelos que se seguiram continuei a ouvir Fausto. A canção “O Barco Vai de Saída” foi adotada como uma espécie de hino de Alfama, que cantávamos com vigor e calor sempre que a oportunidade surgia, geralmente em jantaradas no interior do bairro, mas também fora dele.
As letras de Fausto são fabulosas — um facto nem sempre notado. As composições, por seu turno, têm a sua marca indelével: ritmos bem sincopados, com notórias influências da música tradicional portuguesa, um extenso leque de instrumentos de percussão do folclore tradicional, arranjos requintados, interpretações rigorosas, técnica apurada e um timbre de voz único.
Sói dizer-se que os grandes artistas não morrem, mas Fausto Bordalo Dias morreu hoje, aos 75 anos. Vivos continuam os que podem apreciar as suas letras, a sua música e o seu génio.
Em época de festas populares, 1º Triatlo de Tavira veio colorir ainda mais o centro da cidade.
Decorreu hoje de manhã o primeiro Triatlo Sprint Cidade de Tavira, organizado pelo Clube de Vela de Tavira, em colaboração com a Federação de Triatlo de Portugal, com o Município desta cidade, com o Instituto Português de Desporto e da Juventude, com a União das Freguesias de Tavira e várias entidades locais. Os participantes de vários escalões femininos, masculinos e mistos, federados e não federados, tiveram de percorrer 750 metros de natação, 20 km de bicicleta e 5 km de corrida para completarem a prova, que foi um sucesso, atendendo ao número de participantes, que quase chegou às duas centenas.
Iniciando os 750 metros de natação no rio Séqua.
A prova foi ganha por João Chagas, do Lusitano Frusoal (escalão M 20-24), com o tempo de 55m e 38 s. João Vilanova, do mesmo clube, foi o primeiro junior a cortar a meta, e o 7º da geral. A prova feminina teve como vencedora Ana Estévez do Vasco da Gama de Sines. (Resultados completos aqui).
Este evento animou bastante o centro da cidade, teve muita gente a assistir e tem tudo para ser apenas a primeira de muitas outras edições, em anos vindouros.
Wheigre Lima avança para a prova de ciclismo, após ter concluído os 750 metros de natação com o tempo de 14′ e 38″.
Os rios Séqua e Gilão têm boas condições (aproveitando as marés) para a realização de vários géneros de provas aquáticas, desportivas e de lazer, mas têm sido mal aproveitados. Esperamos que o sucesso desta prova incentive a edilidade e outras instituições a unirem esforços para a organização de eventos desportivos futuros nas belas águas destes rios, que hoje, por acaso, estavam com uma temperatura ótima — cerca de 20º C.
Autor de mais de 250 publicações científicas sobre a fisiologia e o comportamento das plantas, Stefano Mancuso é um neurobiólogo renomado, professor na Universidade de Florença. O artigo que se segue é um extrato do seu livro “A Revolução das Plantas”, publicado, em Portugal, em 2019. (Foto retirada de: wonderground.press).
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O nome “malagueta” designa um determinado número de espécies do género Capsicum, o mesmo a que pertence o pimento, e quase todas elas se caracterizam por produzir quantidades consideráveis de capsaicina, a molécula responsável pela sensação de ardor (são poucas as variedades que não são picantes). As cinco espécies mais cultivadas são: Capsicum annuum, C. frutences, C. pubescens, C. baccatum e C. chinense, arbustos perenes que, contudo, dada a sua breve vida, são normalmente tratados como anuais. Originárias do continente americano, onde já eram cultivadas há quase oito mil anos, estas plantas assumiam uma grande importância do ponto de vista médico, além de culinário, para as civilizações nativas. A malagueta chegou à Europa graças a Colombo, quando este regressou das suas primeiras viagens à América Central. Como muitas outras espécies comestíveis provenientes do Novo Mundo, converteu-se rapidamente numa planta de grande consumo, difundindo-se a nível global. Em menos de um século, a malagueta tornou-se parte da cultura gastronómica de países como a Itália, a Hungria (de onde provém a paprica), a Índia, a China, a África ocidental, a Coreia, etc. Uma investida incomparável e incontrastável, à conquista dos lugares mais remotos da Terra. E é precisamente o seu princípio picante que torna a malagueta um alimento tão procurado. Para medir a intensidade do picante, um químico americano, Wilbur Scoville, inventou em 1912 uma escala: a escala Scoville, justamente. O método de medição na sua base, designado por teste organoléptico de Scoville, consiste em diluir o extrato de malagueta numa solução de água e açúcar: um grupo de provadores continua a diluir a solução até esta não conter quaisquer traços de picante. O número de diluições — quanto mais elevado for, mais picante é a malagueta — corresponde ao valor em Unidades de Calor Scoville (ou Shu: “Scoville Heat Units”). Um pimentão-doce tem zero Shu, enquanto a capsaicina pura tem um valor equivalente a dezasseis milhões Shu. Este último representa o valor máximo absoluto de picante para uma malagueta, um valor que possui o mesmo fascínio das constantes físicas fundamentais, como a velocidade da luz ou o zero absoluto de temperatura. Trata-se de um limite intransponível que representa o Santo Graal dos capsicófagos. Todos os anos, recorrendo a uma qualquer técnica — legal ou ilegal — conhecida para o melhoramento da planta, produz-se um vasto número de novas variedades ou seleções com um elevadíssimo grau de picante. O objetivo é ultrapassar sempre o limite e aproximar-se o mais possível do inalcançável número perfeito dos dezasseis milhões Shu. Em 2013, a “Carolina Reaper” (a ceifeira da Carolina; sim, precisamente aquela ceifeira, que habitualmente representamos com uma grande gadanha na mão e que designa um monstro capaz de produzir frutos que contêm mais de dez por cento do seu peso em capsaicina) superou o valor astronómico de dois milhões de unidades Scoville! E, deste modo, suplantou o “Escorpião de Trinidad” e o “Naga Viper” no invejado primado de Capsicum mais picante do planeta. Todos os anos a fasquia se eleva, novos recordes de picante são alcançados e milhões de pessoas no mundo fazem de tudo para procurar estes campeões, para os provar e difundir. E quanto mais picantes são, mais difundidos se tornam. Aquilo que os capsicófagos exclusivamente procuram é a capsaicina. Em doses crescentes. Nos Estados Unidos está inclusivamente à venda um molho picante (e “picante” é um eufemismo) designando por “16 Million Reserve”: trata-se de capsaicina pura em cristais, conservada em frascos produzidos em quantidade limitada; o seu preço no mercado pode alcançar milhares de dólares. Mas o que é exatamente a capsaicina? Trata-se de um alcaloide que, ao entrar em contacto com as terminações nervosas, ativa um recetor conhecido por TRPV1. Este tem a função de sinalizar ao nosso cérebro níveis de calor potencialmente perigosos e costuma ativar-se, com efeito, por volta dos 43º C. Na prática, o TRPV1 foi “projetado” para nos impedir de fazer coisas perigosas, como agarrar com as nossas próprias mãos um ferro de engomar ardente ou engolir um caldo a ferver. Todas essas ações que nos poderiam causar danos corporais. É por isso que a capsaicina provoca dor, e é também por esse motivo que é usada pelas forças policiais de grande parte do mundo como arma, através dos sprays de gás pimenta. E por causa dessas mesmas características, é igualmente apreciada no papel de condimento. Contudo, pessoas com uma mente saudável não derramam sumo de limão nos olhos, nem batem com as canelas nos cantos dos móveis porque acham agradável a sensação de dor que isso provoca. Nesse caso, como é possível que um terço da população mundial aprecie colocar sobre a língua — um dos nossos órgãos mais sensíveis — grandes quantidades de um alcaloide que provoca uma terrível sensação de ardência? Nos últimos anos foram elaboradas diversas teorias a esse respeito. A mais conhecida é a que o psicólogo Paul Rozin definiu como “masoquismo benigno”, segundo a qual determinado tipo de pessoas é atraído pelo picante e outras sensações de perigo. Para estas, comer malagueta é uma variante de andar na montanha-russa: em ambos os casos, defende precisamente Rozin, não obstante o corpo se aperceba do risco dessa atividade, a um nível superior sabe que não corre um real perigo e, portanto, não há uma verdadeira necessidade de interromper o estímulo negativo. O mesmo psicólogo conclui que, depois de uma série de exposições ao mesmo estímulo, o mal-estar inicial transforma-se em prazer. Apesar de valorizar a sua perspicácia, essa teoria nunca me convenceu. Por um lado, porque adoro comida picante mas nunca me senti minimamente atraído por montanhas-russas, pelo “bungee jumping” ou qualquer outra atividade semelhante; por outro lado, porque a minha mulher, que também ama o picante, tapa os olhos com as mãos quando vê filmes de terror e nem sequer anda de baloiço, quanto mais numa montanha-russa; por outro lado ainda, porque muitos dos vorazes capsicófagos que conheci estão entre as pessoas mais tranquilas e menos propensas a procurar sensações perigosas que alguma vez encontrei; e, por fim, porque me pareceu improvável que um terço da população mundial corresponda a essas características que à partida não me parecem assim tão difundidas. Poderei, no entanto, estar enganado. Em defesa da tese de Rozin estão os resultados de uma pesquisa conduzida por dois estudiosos da ciência da alimentação, John Hayes e Nadia Byrnes, junto de noventa e sete indivíduos, a qual estabeleceu uma correlação significativa entre pessoas que “procuravam sensações” e pessoas que gostavam de picante. Ao invés, a hipótese que coloquei para explicar a razão de tanta gente no mundo adorar o picante da malagueta é a de que a capsaicina provoca uma ação diferente daquela produzida por outros alcaloides que agem diretamente sobre o nosso cérebro (como a cafeína, a nicotina, a morfina, etc.), mas idêntica nos seus fins: induzir dependência. Para esclarecer de uma forma mais precisa o que pretendo dizer, regressemos à sensação de ardência que vai da boca ao cérebro. Quando o corpo perceciona a dor na língua, desencadeia uma miríade de sinais que chegam ao cérebro, o qual, para aliviar o sofrimento, produz endorfinas. Estas últimas pertencem a um grupo de neurotransmissores dotados de propriedades analgésicas e fisiológicas semelhantes às da morfina, mas muito mais poderosas. É através das endorfinas que o nosso corpo alivia a dor; elas são, sobretudo, a chave para compreender o poder arcano que a malagueta exerce sobre as nossas vidas. A dependência de endorfina é tudo menos um conceito extravagante; é, por exemplo, o mecanismo que está na base do famosos runner’s high (ou “euforia do corredor”). Se forem amantes de corrida ou tiverem amigos que praticam desportos de resistência, como a maratona, a natação de fundo ou o ciclismo, provavelmente já ouviram falar deste termo: trata-se de um estado particular de euforia que se manifesta a seguir a uma atividade desportiva prolongada e cansativa. Comparável à euforia induzida por algumas drogas, este estado pode manifestar-se através de uma intensa felicidade ou de uma profunda sensação de bem-estar. Durante muitos anos não houve nenhuma prova científica de que o fenómeno fosse real; considerava-se, aliás, que esta era uma lenda relacionada com a mitologia associada aos amantes da corrida, até que, em 2008, uma investigação realizada na Alemanha em atletas analisados antes e após praticarem uma atividade física intensa demonstrou que havia um fundamento para este mecanismo. O runner’s high é, portanto, um fenómeno real e ocorre precisamente na sequência da libertação de endorfina no cérebro. A potência analgésica deste substância permite igualmente explicar a elevada tolerância à dor que se regista com frequência em atletas submetidos a atividades físicas intensas. São numerosos os casos de maratonistas que continuaram a correr não obstante terem sofrido fraturas ou traumas, os quais, noutras condições, teriam provocado dores insuportáveis. É o mesmo mecanismo pelo qual quem ingere elevadas quantidades de malagueta tende a ser menos sensível à dor; com efeito, a capacidade analgésica da capsaicina está bem demonstrada na mais recente literatura científica. À semelhança de muitas outras plantas produtoras de substâncias que provocam dependência, também a malagueta confiou na química para ligar a si o mais poderoso e versátil dos transportadores animais: o homem. O que na minha opinião torna esta planta ainda mais interessante é o facto de, ao contrário das demais drogas vegetais que também exercem a sua influência no cérebro de outros animais, a capsaicina exercer uma ação exclusiva sobre o homem. Não há registo, efetivamente, de outros mamíferos que gostem de se alimentar dos frutos da pimenta-malagueta. O inicio da história evolutiva da capsaicina parece estar relacionado com a sua capacidade de promover na planta uma certa resistência às infeções fúngicas. Por conseguinte, nas zonas sujeitas a uma maior quantidade destes ataques, os frutos de Capsicum começaram a conter de forma natural uma concentração mais elevada deste alcaloide. Em seguida, a feliz coincidência de os pássaros não possuírem o recetor incumbido de desencadear a sensação de ardência nos mamíferos resultou numa ulterior vantagem evolutiva, favorecendo a disseminação das sementes das plantas mais picantes. A capsaicina, com efeito, mantinha à distância os mamíferos, que, através da mastigação, destruíam as sementes contidas nos frutos, não sendo, no entanto, sentida pelas aves, transportadoras muito eficientes porque não mastigavam as sementes e as levavam consigo para locais mais distantes. Contudo, a verdadeira vantagem da capsaicina para a malagueta foi conseguir por intermédio desta ligar a si, através de uma dependência atípica, o homem, ou seja, o transportador perfeito. Se a minha teoria acerca da condição de escravatura à qual o alcaloide nos reduziu a nós, mamíferos capsicófagos, continua a não vos convencer, é necessário então deslocarem-se a uma dos milhares de “feiras da malagueta” que todos os anos se realizam em qualquer país do mundo. O ambiente no qual se movem os capsicófagos do terceiro milénio é diferente do tradicional com vestes escuras da minha infância; nessas feiras poderão travar conhecimento com os novos acólitos, enquanto estes estudam a molécula da capsaicina — os mais radicais fazem-se tatuar a fórmula da sua estrutura no pescoço — e envergam t-shirts com a expressão “Pain is good” impressa. Se isto não vos parece dependência… O consumo de malagueta está em contínuo crescimento no mundo. Países tradicionalmente imunes ao dissimulado prazer da cozinha picante consomem-na em quantidades e modos impensáveis até há poucos anos. Enfim, a estratégia que esta espécie implementou para tornar dependente o homem e colocá-lo ao seu serviço já provou ser vitoriosa. Estar associada ao homem permitiu-lhe em poucos séculos propagar-se no planeta inteiro; nenhum outro transportador lhe teria proporcionado algo semelhante em tão pouco tempo. E, futuramente, será sempre melhor: no fim de contas, para se obter uma sensação de euforia proporcionada pela endorfina é mais simples, e muito menos cansativo, entregar-se a um belo prato de piripíri do que a uma corrida de 42,195 quilómetros.
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A nossa edição:
Stefano Mancuso, A Revolução das Plantas, Pergaminho, Lisboa, 2019. pp. 88-94.
Praia Verde, Algarve, 19:00 horas. A temperatura do ar rondará os 25, 26 graus; a do mar, uns cinco a menos. Nada que impeça um banho revigorante. O Algarve é a região terrestre mais ocidental (se excetuarmos as ilhas) onde vigora o chamado clima mediterrânico. Se partíssemos daqui em direção a Leste, até ao Crescente Fértil, manter-nos-íamos durante toda a viagem sob a influência deste clima. Poderíamos ir por terra (contornando a costa sul da Europa) ou por mar, entrando pelo Estreito de Gibraltar e cruzando o próprio Mediterrâneo, num trajeto oposto ao que fizeram os fenícios, quando há milhares de anos chegaram pela primeira vez ao Algarve. Ao contrário do que muitos supõem, este clima é pouco comum no mundo e contempla apenas outras quatro (mas muito pequenas) zonas do globo: o sudoeste da Austrália, o sul da Califórnia, o sul da África do Sul e uma parte do Chile. Não existe em mais lado nenhum. O clima mediterrânico — genericamente caracterizado por verões muito quentes e secos, e invernos frios e chuvosos — teve uma importância decisiva na história da humanidade. Não foi por acaso que as primeiras civilizações nasceram no Crescente Fértil: devemo-lo à especificidade do clima e às espécies animais e vegetais que a ele se adaptaram, e que não existiam noutros lugares. Sem o clima mediterrânico não seria possível termos o melhor pão, o melhor azeite, o melhor vinho, as melhores e mais variadas frutas, os melhores queijos e, já agora, a luz mais pura (que o digam os pintores). Para se ter uma ideia, só em Portugal existem mais de 250 castas de uvas, um desafio aceite por cada vez mais enólogos oriundos de longínquas paragens para aqui produzirem alguns dos melhores vinhos do mundo. Mas a Natureza brinda-nos de muitas outras formas. As nossas praias estão entre as mais bonitas e aprazíveis do planeta. Nesta época do ano, quando os dias parecem não ter fim, podemos ficar na praia até mais tarde, para vermos o sol pôr-se para lá das 21:00 horas. Por vezes, na mudança de maré, o vento para, o mar para, os sons param, e temos a sensação de que o tempo e os nossos pensamentos param também. Esta experiência é mais extraordinária quando ficamos sozinhos na praia. Na última vez, que foi hoje, um passarinho de poupa ficou parado na linha d’água, olhando o mar, que era um espelho imenso. Naquele momento eu, a minha companheira e o passarinho de poupa, pareceu-me, podíamos perfeitamente trocar identidades. E pareceu-me também que esta ilusão só é possível aqui, nas praias do Sotavento, onde o tempo não corre, escorre.
Exposição pública sobre a Guerra da Coreia, em Seul.
Este ano celebramos, mais uma vez, o 25 de Abril em viagem, concretamente na magnífica Coreia do Sul.
Os coreanos são um povo muito antigo que teve a pouca sorte de, a dado momento da sua história, se ver acossado por impérios grandiosos e poderosos, como são os casos russo, chinês e japonês.
A Coreia foi ocupada pelo Japão várias vezes, a última entre 1910 e 1945 e, ainda neste ano, no final da II Guerra Mundial, invadida pelos soviéticos. Com esta invasão iniciava-se a chamada Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, e estavam criadas as condições para que, cinco anos mais tarde, ocorresse uma guerra bem quente, a Guerra da Coreia, um conflito que provocou quase 5 milhões de mortos e reforçou a divisão da nação coreana, mantida até hoje, em dois estados independentes.
O contraste existente entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul é gigantesco, embora estejamos a falar do mesmo povo; e isto, só por si, prova como são importantes os regimes políticos. De facto, não poderia haver melhor exemplo prático como o da Coreia para constatar que há um abismo separando comunismo e democracia, opressão e liberdade.
Os dados são avassaladores e só para se ter um vislumbre da discrepância entre os dois estados, bastará dizer que os sul-coreanos são em média 27 vezes mais prósperos do que os seus vizinhos do norte. A extraordinária progressão da Coreia do Sul contrasta fortemente com a estagnação da Coreia do Norte e mostra-nos como as sociedades abertas se desenvolvem, social, económica e culturalmente, enquanto as sociedades fechadas — de esquerda ou de direita — apenas trazem miséria ao povo.
Pretendemos mostrar a importância das sociedades abertas nestes 50 anos de Abril. E nunca esquecer o quanto somos felizes por viver em Liberdade.
Os circuitos integrados, também conhecidos como semicondutores e, vulgarmente, chips, são a maior inovação tecnológica na transição do século XX para o século XXI, digamos, dos últimos cinquenta anos. Tal como Gordon Moore previu, a capacidade de processamento de cada chip vem duplicando de dois em dois anos — a chamada Lei de Moore. Os chips são utilizados em praticamente tudo, desde a indústria das comunicações — telemóveis, computadores, eletrodomésticos e automóveis — até à indústria da guerra — mísseis, tanques, drones e serviços de espionagem. O nosso modo de vida tornou-se dependente deles, de tal forma que são estrategicamente mais importantes do que qualquer outro produto à escala mundial e a sua produção representa, de longe, a indústria mais valiosa do planeta. Quando falamos em produção englobamos as duas fases fundamentais da mesma: o desenho e o fabrico. O que acontece é que normalmente as empresas (maioritariamente nos Estados Unidos) que desenham os chips são empresas fabless, ou seja, não os fabricam, porque a maquinaria necessária é muito sofisticada e muito cara, requerendo investimentos avultados para que seja mantida válida a Lei de Moore. Taiwan, Japão, Coreia do Sul e Singapura são os países do Leste asiático que fabricam os chips de última geração, com a China a procurar desesperadamente alcançá-los, mas conseguindo apenas — por enquanto — fabricar chips de segunda linha.
A Guerra dos Chips é uma guerra estratégica, com sansões, retaliações, espionagem e querelas comerciais, como comprova o Chips ans Science Act, uma lei assinada em 2022 por Joe Biden com a intenção de proteger a indústria americana. Dado que os circuitos integrados são essenciais na indústria de Defesa, os diferentes estados procuram que a produção se mantenha em mãos amigas. É por isso que os Estados Unidos estão dispostos a defender Taiwan da China — é em Taipé que se localiza a maior fábrica de chips avançados do mundo e onde são fabricados a maior parte dos chips desenhados pelas empresas fabless americanas. A TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company) foi criada por Morris Chang um chinês fugido do regime comunista e anterior diretor executivo da Texas Instruments. É nesta fábrica que se produzem 90% dos chips mais avançados. Além da TSMC, os maiores fabricantes de chips estão igualmente na Ásia Oriental onde se produzem 90% de todos os chips de memória, 75% de todos os microprocessados lógicos e 80% de todas as bolachas de silício.
A indústria dos chips precisa de máquinas especializadas para a sua produção sendo líder mundial neste campo uma empresa dos Países Baixos chamada ASML (Advanced Semiconductor Materials Lithography). Dado a sua reduzidíssima dimensão, os chips só podem ser esculpidos através de uma tecnologia que usa a luz ultravioleta extrema, com comprimentos de onda muito curtos, o único tipo de luz que permite que componentes igualmente minúsculos sejam impressos nos chips. Esta tecnologia é conhecida como EUV (Extreme Ultaviolet Litography) e as máquinas de litografia mais avançadas, usadas para moldar milhões de transístores microscópicos, cada um mais pequeno do que uma célula humana, são maioritariamente fabricadas pela ASML.
Tudo isto e muito mais consta do excelente livro de Chris Miller, “A Guerra dos Chips”. Miller termina o livro interrogando-se se a Lei de Moore continuará válida por muito mais tempo, ou se a capacidade de processamento de um chip vai deixar de duplicar de dois em dois anos. O que parecia impossível tem sido possível até agora, mas ninguém sabe o que vai acontecer no futuro.
Futuro próximo em que — e isto é algo que o livro de Miller não aborda — os chips clássicos vão perder o protagonismo, em favor dos chips quânticos, com uma capacidade de processamento incrivelmente superior.
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A nossa edição:
Christopher Miller, A Guerra dos Chips, Dom Quixote, Lisboa, 2023.