Trump

Inicia-se hoje mais um mandato de Donald Trump. Por razões várias e evidentes, este simples facto constitui uma desgraça para o mundo e questionamo-nos sobre quantos, dos milhões que elegeram o novo presidente americano, terão alguma vez consciência disto. No entanto, há razões para admitir que não é apenas o mundo, mas também a velhinha democracia americana que corre sérios riscos. É apenas sobre esta que nos vamos debruçar neste pequeno artigo.

A liberdade (como fim) e a democracia (como meio) nunca estão garantidas. A democracia é caracterizada pela separação de poderes, pela diluição do poder entre o maior número de mãos possível, mas é precisamente o contrário disto que agora acontece na América, com a tomada de posse de Trump. O perigo para as democracia e liberdade advém de resultados eleitorais que concentraram o poder no Partido Republicano e no seu chefe, que dominam as principais instituições democráticas: Presidência, Senado, Câmara dos Representantes e, indiretamente, o Supremo Tribunal Federal.

O maior perigo vem, precisamente, do mais alto tribunal do país. Tribunais superiores independentes são vitais para as democracias liberais, garantindo os direitos das minorias e o funcionamento dos mecanismos democráticos. É por isso que os juízes dos tribunais supremos não deveriam ser nomeados e confirmados por políticos, como acontece nos Estados Unidos, no Brasil e, embora de uma forma diferente, em Portugal; deveriam, antes, ser propostos por corpos profissionais do sistema judicial e da sociedade civil, como acontece, por exemplo, na Dinamarca, na Suécia, na Noruega, na Nova Zelândia ou no Reino Unido, entre outros, onde são dadas mais fortes garantias da sua independência.

Os tribunais são o último reduto da democracia, e a sua autonomia não pode ser desvalorizada. Um supremo tribunal independente teria colocado Donald Trump na prisão; um tribunal politizado colocou Trump no poder. A velhinha democracia americana corre risco de morte.

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Personalidade do Ano

Dr. Gubad Ibadoghlu. (Foto retirada de: https://amnesty.ca/).

Gubad Ibadoghlu nasceu em 1971, no distrito de Fuzuli, na República Socialista Soviética do Azerbaijão. No ano 2000 concluiu o doutoramento em Economia, na Universidade Estatal do Azerbaijão. Trabalhou como investigador na Escola Superior de Economia de Varsóvia (1999), na Universidade da Europa Central, em Budapeste (2004), e na Universidade da Carolina do Norte (2008), além de ter colaborado com outras prestigiadas instituições académicas mundiais. É, desde 2021, pesquisador da London School of Economics. Em 2023, deveria tornar-se professor da Universidade de Tecnologia de Dresden, mas não conseguiu assumir o cargo, porque foi preso neste mesmo ano, no dia 23 de julho.

O Dr. Ibadoghlu já não vivia no Azerbaijão, mas nesse dia viajava de carro, clandestinamente, na companhia da mulher, para visitar a mãe doente. Foi detetado e perseguido pelas autoridades do regime, que o seguiam em vários carros, e acabaram abalroando a sua viatura pela retaguarda e pela frente. Foi detido, juntamente com a mulher, e ambos foram agredidos. A mulher foi libertada pouco depois, mas Gubad Ibadoghlu ficou preso até hoje, primeiro num centro de detenção, e depois numa residência domiciliar.

A perseguição a Ibadoghlu foi uma reação das autoridades à sua luta contra a corrupção, consubstanciada em vários artigos que escreveu e em várias organizações políticas e sociais que fundou. Em diversas ocasiões, ele denunciou esquemas que implicavam diretamente o presidente, dando exemplos de eventos internacionais, como é o caso do Grande Prémio de Fórmula 1, organizado por empresas detidas por familiares ou amigos de Aliyev. Denunciou, igualmente, a corrupção associada à exploração de gás e petróleo, cujas receitas, ou parte delas, revertem sem qualquer controlo, mais uma vez, para o presidente e indivíduos do seu círculo próximo; e mostrou como elementos dentro desse círculo e o próprio Aliyev, através de algumas empresas, se apropriaram das terras mais férteis conquistadas na segunda guerra com a Arménia, na região do Alto Karabakh.

Em 2014, Ibadoghlu criou o Movimento para a Democracia e Prosperidade do Azerbaijão, cujo registo nunca foi aceite pelas autoridades, não podendo, por isso, transformar-se num partido político e, em 2023, um mês antes da sua detenção, criou no Reino Unido uma instituição de caridade para ajudar jovens estudantes do Azerbaijão no exterior.

Gubad Ibadoghlu tem graves problemas de saúde, mas as autoridades têm-lhe negado os tratamentos médicos adequados, apesar dos apelos de vários governos e ONGs. A sua luta pela liberdade e contra a corrupção tem tido custos muito elevados não só para ele, como para a sua família. É a personalidade que destacamos — sabendo que a nossa escolha poderia recair sobre outras que continuam a sacrificar-se pelo amor à liberdade — no final deste ano de 2024.

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Viagem de Lisboa à Cidade do Cabo

Sou essencialmente um otimista. Se isso

provém da minha natureza ou da educação

que recebi, não faço ideia. Um otimista

tem sempre o rosto virado para o sol e

um pé em movimento para diante. Houve

muitos momentos negros em que a minha

fé nos seres humanos foi duramente posta

à prova, mas nunca me entreguei ao desespero.

Desse lado só estavam a derrota e a morte.

Nelson Mandela.

Alfama e o Norwegian Sky, antes da partida.

Esta viagem foi programada com bastante antecedência, logo quando a companhia americana de navios de cruzeiro, Norwegian Sky, começou a vender os primeiros bilhetes, com 50% de desconto, há cerca de oito meses. Atendendo a essa oportunidade e também ao itinerário — apresentado na tabela incluída no final deste artigo — que seguia, grosso modo, a descida progressiva da costa ocidental de África, iniciada pelos portugueses há mais de cinco séculos, concordámos em como seria uma viagem que valeria muito a pena realizar.

Pesquisámos sobre os voos de regresso e também sobre o alojamento na Cidade do Cabo, e só depois fizemos a reserva do cruzeiro. Decidimos que ainda ficaríamos mais três dias na região da Cidade do Cabo, na África do Sul, depois de terminado o cruzeiro. No total, estaríamos fora 25 dias. Aqui fica o relatório da viagem.

16 de novembro de 2024

Entrámos no Norwegian Sky por volta das três da tarde. É o navio de cruzeiro mais pequeno entre todos em que viajámos, com uma capacidade máxima de 1944 passageiros. É também bastante antigo, digamos, mesmo velho, remontando o seu lançamento a 1996. Nitidamente, está a precisar de remodelação ou de ser reconvertido para outra atividade, talvez até de ser desmantelado, atendendo à idade útil das embarcações de cruzeiro. Como o que nos importa são as atividades fora do navio — sendo que este, para nós, apenas serve para comer e dormir — isso não nos incomoda por aí além, desde que a comida seja razoável e encontremos um espaço sossegado para ler. Veremos.

O salão Spinnaker é um local abrigado e confortável, situado à proa, no deck 11 do Norwegian Sky.

17 de novembro

Hoje vamos a navegar rumo ao Funchal, em pleno Atlântico Norte. O tempo está fresco e ventoso. Há uma ondulação moderada que faz com que o navio oscile um pouco — e há ruídos estranhos na nossa cabine, vindos não se sabe bem de onde. A comida, já deu para perceber, é pouco variada. Mas nem tudo é mau. Agrada-me a liberdade que se dá aos passageiros: ninguém anda atrás de nós para consumirmos seja o que for, ao contrário do que acontece noutras companhias; e a taxa de serviço diária é facultativa, só pagamos se quisermos. Além disso, descobrimos um salão no deck 11, à proa, onde podemos sentar-nos a ler e a escrever. É bastante agradável. Ninguém vem incomodar-nos a perguntar se queremos tomar algo — e temos chá e café à disposição.

Gosto de estar neste espaço, tranquilamente, com a pessoa que amo e me ampara. Ela torna a minha vida mais doce e mais pacífica… e la nave va!

Agora são 18:07 e já percorremos mais de dois terços do percurso entre Lisboa e Funchal. Em Portugal continental já anoiteceu, seguramente, mas no ponto onde nos encontramos — 34º 16,06’N e 014º 44,86’W — ainda é de dia. O navio segue a uma velocidade de cruzeiro de 13,7 nós.

Praia do Porto do Seixal.

18 de novembro

Tanto na Madeira como nas quatro ilhas das Canárias aonde acostará o nosso navio, reservámos carro. Na Madeira viajámos num carro da classe “B” pelo preço de 51€ (mais 16€ de combustível). A empresa é a Auto Rent a Car e situa-se na Rua da Casa Branca, 33. O serviço é decente. Quando chegámos ao Funchal não pude deixar de recordar-me das outras duas vezes em que estivera na Madeira, a primeira há uns 25 anos, e a segunda uns 4 anos depois. Nessa altura já se notava um desenvolvimento muito razoável na ilha, nomeadamente ao nível das infraestruturas, com boas estradas e uma quantidade impressionante de túneis. Tudo confirmado agora.

Dado que tínhamos poucas horas, o nosso tour foi pequeno. Começámos por ir ver a Cascata dos Anjos, uma queda de água sobre uma estrada, perto da Ponta do Sol. A estrada está cortada mas pode-se chegar perto da cascata de carro, bastando depois fazer uns 100 metros a pé. Quando chegámos estava um casal debaixo daquele imenso chuveiro, visivelmente, a divertir-se, e nós pensámos que poderíamos fazer o mesmo… se não nos tivéssemos esquecido dos fatos de banho. Sentimos uma certa inveja. E para afastar esse sentimento negativo, não nos demorámos muito por ali e rumámos a São Vicente, onde acabámos por almoçar num restaurante que o funcionário da empresa que nos alugou o carro havia indicado — Panoramic Ocean. O serviço de buffet é muito aceitável, dá para comer o que se quiser e repetir pelo preço simpático de 8€. Com bebidas, sobremesa e café pagámos, para os dois, 25€, já com gorjeta.

Câmara de Lobos, a vila de Churchil, dos pescadores e das castanholas.

Seguimos para o Porto de Seixal. A praia é fixe, abrigada, dentro de um quadrado que tem, no lado direito, uma enorme encosta verde; no lado esquerdo, um molhe de pedra e cimento; no lado da praia, por trás, sucessivamente, um paredão, a estrada e o casario da vila; e do quadrante em frente à praia, o imenso oceano. A areia é preta, vulcânica, mas a água é clara, límpida. Mas não nos banhámos.

Continuámos o nosso trajeto, em direção a Porto Moniz. As piscinas naturais são bonitinhas e perfeitamente adequadas para crianças. As vistas são espetaculares e o mar é intenso, com cambiantes que vão do azul profundo ao turquesa. Uma senhora, funcionária do parque de estacionamento, disse-nos que Porto Moniz era o melhor lugar do mundo para se viver… — e quem somos nós para duvidar? Regressámos praticamente pelas mesmas estradas, até fazermos um pequeno desvio para Câmara de Lobos, uma simpática povoação de pescadores. Os pequenos barcos amontoam-se na exígua praia de calhaus. Quando as ondas desfeitas regressam ao mar, enrolam os calhaus que emitem um som característico, semelhante a milhares de castanholas trinando em conjunto. De tanto rolarem, os calhaus mais parecem seixos, cada dia mais redondinhos.

Reparámos que há alojamentos e bares que adotaram o nome de Churchill. Só depois soubemos que Winston Churchill pintou um quadro em Câmara de Lobos, e isso bastou para que aqui lhe erguessem uma estátua, à porta de um hotel. Churchill apresenta-se sentado com um pincel numa mão, o charuto ao canto da boca e a tela em frente. Câmara de Lobos é realmente uma terra simpática onde os turistas se misturam com os pescadores locais (alguns no ativo e outros reformados). A atmosfera é amena, mesmo em novembro, e convida ao langor.

Foi uma boa maneira de nos despedirmos da Madeira — ao som das castanholas.

À chegada a Santa Cruz de la Palma.

19 de novembro

Desde o início que La Palma nos encantou. Vista do mar, ao longe, Santa Cruz de La Palma, a capital, parece prestes a ser engolida pelas eminentes montanhas que a ameaçam pelas costas. Mais de perto, porém, começamos a vislumbrar belos edifícios, com sacadas de madeira, de cores diversas. Sob uma delas, na Avenida Marítima, fica a empresa Autos Dirpalma, onde alugámos uma viatura pelo preço de 45€.

Depois de recebermos o nosso Hyundai alugado, subimos pela costa oriental rumo à praia de Nogales. Não chegámos propriamente à praia, porque da estrada onde estacionámos o carro teríamos de descer a pique por um caminho de cerca de 1 quilómetro — e depois subir, claro. Tendo em conta o tempo disponível e os lugares que ainda queríamos visitar, não era sensato metermo-nos numa aventura que nos tomaria, no mínimo dos mínimos, duas horas. Mas ficámos com pena, pois, vista cá de cima, a praia de Nogales é mesmo muito bonita. Continuámos a nossa viagem, e a paragem seguinte foi no Charco Azul, umas piscinas naturais muito atrativas, à semelhança das congéneres que visitámos meia dúzia de quilómetros depois — La Fajana. Aqui não resistimos e demos uns mergulhos. Durante o trajeto até este ponto, vimos, por todo o lado, dominando em absoluto a paisagem, uma imensidão de bananeiras. Bonitas, ordenadas, cuidadas. Toneladas e toneladas de bananas.

Nadando nas piscinas de La Fajana.

O nosso próximo destino não ficava muito longe, uns 40 quilómetros, mas demorámos quase duas horas a lá chegar. Estávamos a contornar a ilha no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, e a paisagem ia cambiando. Depois das bananeiras, pinheiros altíssimos, eretos, e, a partir de certo ponto, vinhas. Estávamos na região de Las Tricias. As folhas das videiras ainda não tinham caído e apresentavam aqueles tons ocres de outono, muito bonitos. Parámos várias vezes para fotografar.

Finalmente, quando saímos da estrada principal para descermos até Poris de Candelaria, que era o nosso destino, começámos a ficar um pouco apreensivos. Os cinco quilómetros que ainda tínhamos de percorrer não estavam à nossa frente, estavam literalmente abaixo de nós. Uma placa no local indica uma inclinação de 23%. Além disso, a estrada não é a melhor, com muita gravilha, o que não facilita a aderência. Mas lá fomos, bem devagar, um pouco receosos de tamanho declive.

Entre as vinhas de Las Tricias, no noroeste de La Palma.

Após estacionarmos o carro ainda tivemos de descer a pé mais uns 600 metros. Lá em baixo, uma minúscula enseada que o mar escavou nas rochas de lava e, sob estas, umas casinhas cravadas, algumas habitadas, ainda que ocasionalmente. Não sabemos como tudo isto começou, mas é impressionante: é difícil entender porque alguém quereria habitar num lugar tão inóspito e tão pouco acessível — por terra e por mar.

Já se sabe, o caminho que se desce tem de se subir, e lá fomos nós, vislumbrando mais céu do que estrada. O Hyundai portou-se bem, esteve à altura do desafio. Antes de completarmos o círculo que fizemos em La Palma, com o retorno a Santa Cruz, parámos ainda no mirador El Time, apenas para vermos a imensa área de lava solidificada, proveniente da erupção de 2021, e tirarmos algumas fotos.

Nas Canárias, o pessoal das empresas que alugam carros não se preocupa muito com o estado dos veículos. Não precisamos de verificar os riscos e os “toques” que os carros apresentam quando vamos recebê-los, e também ninguém vem verificar se há mais algum dano nos veículos quando os entregamos. Em Santa Cruz de La Palma há um parque de estacionamento junto à entrada para o terminal de cruzeiros, e disseram-nos para deixarmos aí o carro, metermos as chaves dentro do porta-luvas, e irmos com Deus.

Poris de Candelaria, La Palma. (Foto da Fla).

Chegámos a esse parque de estacionamento uns 20 minutos antes do horário de todos a bordo, mas o percurso a pé até ao navio é de cerca de mil metros, e parámos ainda numa loja de conveniência para comprar um souvenir, de modo que faltavam uns 5 minutos para o horário limite ser atingido e uns 300 metros para chegarmos ao navio. Nesse momento, a Fla exclamou:

— Esquecemos do seu fato de banho no carro!

E desatou a correr. Fiquei ali petrificado, sem reação, olhando alternadamente para ela a afastar-se e para o portaló do navio. A partir de certa altura, cada minuto que passava parecia uma eternidade. Já ultrapassáramos o limite de todos a bordo em cinco minutos. Um tripulante veio ter comigo para perguntar-me o que se passava. Expliquei. Através de um walkie-talkie ele comunicava com alguém no navio. Finalmente, vi a Fla lá ao fundo. Corria e andava, corria e andava. O marinheiro percebeu e informou pelo walkie-talkie:

— Ela já está no cais.

A Fla chegou quase a rebentar e lá entrámos no Sky, com mais de dez minutos de atraso. Um pequeno susto, mas correu tudo bem. Ainda comentámos que não seria tão mau assim perdermos o navio e ficarmos na Isla Bonita

20 de novembro

Em Lanzarote a Cicar (empresa de aluguer de automóveis) atribuiu-nos um Fiat 500. O escritório da empresa ainda é longe do cais onde o navio atracou, mas uma carrinha estava à nossa espera para nos conduzir até lá, o que facilitou a nossa vida. Cumpridas as formalidades, seguimos no sentido sul. O tempo estava encoberto, pelo que optámos por não nos banharmos em nenhuma das praias que visitámos, ao contrário do que prevíramos. Para chegarmos às praias mais conhecidas de Lanzarote temos de seguir até Playa Blanca e depois percorrer uns cinco ou seis quilómetros de estrada de terra batida, já dentro do Parque Natural de Los Ajaches. À entrada do parque cobraram-nos uma taxa de 3€ pela viatura.

Playa Mujeres, em Lanzarote.

Tínhamos algumas expectativas sobre as praias de Lanzarote, mas, in loco, estas não são, sob nenhum aspeto, tão interessantes como estávamos à espera. A praia do Papagaio é muito pequena, tem um areal pouco atraente, e com a maré vazia parece mais um charco… Ainda assim, a praia mais bonita é a Playa Mujeres, ocupada na sua maior parte por nudistas.

Playa Blanca, que é a localidade mais perto do parque, não apresenta nenhum motivo de interesse. Está nitidamente virada para o turismo, mas o turismo, aqui, é dos mais fracos das Canárias.

Apesar disso, Lanzarote tem, sem dúvida, os seus encantos. A paisagem, praticamente desértica, é exótica e inigualável, embora se torne bastante monótona quando comparada com a diversidade das outras ilhas canárias. O homem, porém, vai-se encarregando de transformar a paisagem e isso aconteceu não só em La Geria, uma adega que visitámos após sairmos do Parque de Los Ajaches, com suas videiras protegidas por pedras vulcânicas dispostas em círculo, mas também em Tías — onde José Saramago e Pilar del Río viveram durante 18 anos — que visitámos depois.

Vinhas de La Geria.

Para entrar na Casa-Museu José Saramago, e aí permanecer durante cerca de uma hora (o tempo que demora a visita), paga-se a quantia de 12€/pessoa. O nosso grupo fez a visita das 12:00 às 13:00 e era composto por umas 15 pessoas, incluindo um casal português que viajava connosco no navio, Jorge Camarneiro e Piedade. Depois desta visita passámos a conviver com eles durante o resto da viagem. A casa onde viveram Pilar e José é bonita, construída, equipada e decorada com muito bom gosto. Está recheada de pinturas, esculturas e outros objetos, com muitas obras de artistas renomados. Além das fotografias, onde aparece por vezes acompanhada por Saramago, a presença de Pilar del Río resume-se a um canto da biblioteca, onde se reúnem, por sua vontade, obras literárias exclusivamente femininas. Talvez o desenho da casa tenha alguma coisa a ver com ela. Não sabemos.

No exterior do edifício, no jardim, há algumas oliveiras — as árvores de que Saramago mais gostava — umas trazidas de Portugal outras da Andaluzia, um olmo, um sobreiro, marmeleiros, palmeiras, pinheiros canários e uma romãzeira; e também uma piscina coberta onde o ganhador do Nobel da Literatura de 1998 nadava para manter a forma. A biblioteca reúne cerca de 13.000 volumes de obras adquiridas por Saramago e Pilar, na sua esmagadora maioria, obras de ficção.

Na Casa-Museu José Saramago.

Goste-se ou não de Saramago, é quase impossível não sentir alguma emoção ao estar num espaço por onde passaram tantos artistas, políticos e muitas personalidades ilustres, e onde o escritor português, auto-exilado em Lanzarote, produziu várias das suas obras.

Por outro lado, não podemos deixar de refletir sobre como este grande defensor de camponeses e operários soube apreciar a vida boa — física e espiritual — que a produção literária lhe proporcionou. Na verdade, ainda não conhecemos nenhum ilustre defensor dos camponeses e operários que decida abdicar do conforto material que os detestáveis dinheiro, lucro e, em geral, o capitalismo proporcionam. E a fundação, sediada em Lisboa, bem como a casa-museu, em Pías, continuam a dar lucro, com apetecíveis benefícios fiscais, em prol de ideias velhas que supostamente trarão um mundo novo… A vida é plena de ironia.

Após a visita à Casa-Museu José Saramago, fomos almoçar ao navio. Depois, ainda houve tempo para darmos uma voltinha por algumas ruas de Arrecife, antes de deixarmos o Fiat 500. Estacionámos no local combinado, num parque mesmo à entrada do porto, deixámos as chaves do carro debaixo do banco do condutor, tal como nos haviam instruído, e percorremos tranquilamente os 400 ou 500 metros que nos separavam do Norwegian Sky.

21 de novembro

Já tínhamos estado em Tenerife (bem como em Lanzarote), mas não tínhamos ido além da capital e de La Laguna. Fora quando fizéramos o nosso primeiro cruzeiro, em 2013, entre Lisboa e Santos (no Brasil), e desde então, até hoje, há toda uma experiência acumulada. Agora, sobretudo em ilhas, sempre alugamos um carro. Desta feita escolhemos a empresa Jocar, na Rua Miraflores, e alugámos um Renault Megane, um compacto da classe “C”, pelo módico preço de 32€. Tratou-se de um veículo com alguma potência, pois subia as íngremes estradas de montanha com relativa facilidade. O aluguer de carros nas Canárias (provavelmente, em toda a Espanha) é muito facilitado e os preços são realmente competitivos. É uma excelente opção para o visitante em férias, sem stress, pois ninguém liga a pormenores, não se faz sequer, como já dissemos, qualquer inspeção ao veículo.

Vista sob o Teide, em Orotava.

E lá saímos, então, de Santa Cruz, por volta das 9:00, em direção a Puerto de La Cruz. Não encontrámos nada de especial nesta localidade, pelo que infletimos para o interior da ilha e entrámos em Orotava. Esta, sim, é sem dúvida uma cidade interessante, com a Igreja de Nossa Senhora da Conceição (Señora de la Concepcíon), muito bonita e bem preservada, as paredes interiores ornadas com cruzes páteas dos Templários (adotadas depois pela Ordem de Cristo); casas senhoriais imponentes, com as tradicionais sacadas de madeira avançando dos edifícios; museus, praças, jardins e parques públicos bem cuidados. Percorremo-la demoradamente, tendo deixado o carro num parque subterrâneo, pois o estacionamento à superfície é simplesmente impossível. Pagámos €2,50 pelo estacionamento, mas esta é sempre a melhor opção porque poupa tempo, algo que para o visitante é sempre precioso. Antes de sairmos da cidade comprámos uvas, mirtilos e água para, juntando às sandes que trazíamos do navio, mais tarde almoçarmos.

De Orotava seguimos para Garachico, uma vila junto ao mar, com edifícios religiosos — igrejas e seminário — cercando a bela praça central, e uma excelente praia de areia vulcânica, abrigada e convidativa para banhos. O clima é, na maior parte do tempo, amigo e tudo parece decorrer dessa languidez, que cai do céu, nestas localidades junto ao mar. O nosso próximo destino era Masca, e para lá chegarmos tivemos de subir, subir, subir. A única estrada de acesso (TF-436) é estreita, e quando dois carros passam um pelo outro é preciso abrandar bastante. No entanto, tal como todas as outras em Tenerife, a rodovia está em bom estado. O principal problema prende-se com alguns condutores ou condutoras que sentem mais dificuldade em medir as distâncias. Isto é natural: a maioria das pessoas que circulam por aqui são turistas com carros alugados, tal como nós.

Masca — cravada na montanha.

Mas por falar em problemas, no que toca a Masca, o maior de todos é o estacionamento. Masca é uma aldeia cravada na montanha, que só tem a estrada referida a passar-lhe por cima. Não há mais nada, nem sequer parques de estacionamento de superfície. De modo que os carros têm de ficar em certos pontos da estrada um pouco mais largos, desenhados para algum tipo de imprevisto (estão espalhados regularmente ao longo da rodovia para facilitar a trafegabilidade), mas que ali servem de estacionamento. Assim, é preciso alguma sorte e muita paciência para conseguir um lugar para o carro. Mas lá conseguimos. Masca não tem muitos atrativos para além da envolvente natural onde se insere, o que lhe confere um certo exotismo, derivado do seu isolamento. Um lugar bom para comer ao ar livre, tal como comprovámos, degustando as sanduíches, os mirtilos e as uvas que transportávamos.

Daqui seguimos para o extenso planalto central que serve de base ao Teide, em pleno Parque Nacional del Teide, Património Mundial. Vistas amplas, rochas de formatos exóticos, paisagem vulcânica, quase sem vegetação. Estávamos a mais de 2 mil metros de altura e mesmo assim o pico do Teide encontrava-se lá em cima, imponente, no alto dos seus 3715 metros — o ponto mais alto de Espanha. Seguindo pela TF-21, chegámos ao Parador de Cañadas del Teide, um hotel, com restaurante, loja comercial e instalações sanitárias. Aproveitámos para fazer algumas compras. Como não vínhamos preparados para o frio (estávamos de calções e t-shirts), não nos detivemos por muito tempo ao ar livre, apenas o suficiente para tirarmos umas fotos.

Parque Natural do Teide.

Depois de cruzarmos todo o planalto, começámos a descer para San Cristóbal de La Laguna. Aqui, estacionámos o carro num parque subterrâneo e passeámos um pouco pela cidade. Depois, descemos para Santa Cruz de Tenerife e devolvemos a viatura. Passavam poucos minutos das seis da tarde. Pelo caminho, que fizemos a pé até ao navio, vimos imensa gente. Santa Cruz, como todas as cidades espanholas, é animada e as pessoas gostam de andar na rua. Depois de jantarmos no navio voltámos a sair (o navio só partiria às 23:00 horas). Era noite já, mas a temperatura estava surpreendentemente quente, tendo em conta o período do ano. Visitámos o auditório Adán Martin, um edifício icónico situado na zona portuária; vagueámos mais um pouco pelas ruas apinhadas de gente. Finalmente, despedimo-nos de Santa Cruz e de Tenerife.

22 de novembro

Hoje chegámos a Gran Canária. Tivemos de acordar ainda mais cedo, pois tínhamos combinado que um funcionário da Auto Sansu estaria à nossa espera à saída do porto com a viatura que tínhamos reservado. Calhou-nos em sorte um Seat Ibiza novo em folha, acabado de sair do stand, marcando 5 quilómetros no contador, por €52. E lá fomos fazer a rodagem da viatura.

Partimos em direção a Teror, onde visitámos o centro histórico, muito bonito, com as sacadas de madeira a sobressaírem dos edifícios, como já observáramos em outras cidades canárias. Vagueámos um pouco pela vila, e depois tivemos de regressar à auto-estrada que liga Las Palmas ao Sul, para seguirmos rumo ao nosso próximo destino, Maspalomas.

Maspalomas, uma miniatura do que haveríamos de encontrar na Namíbia.

Aqui visitámos as dunas, visualmente belas, mas desconfortáveis, pela quantidade de areia que entra no calçado e, mesmo que se esteja descalço, pela areia que entra por todos os orifícios da roupa e do corpo, sobretudo se estiver vento. As dunas devem ser muitíssimo interessantes de visitar ao nascer do sol quando a temperatura de cor é melhor para fotografar e, normalmente, há menos vento. Por causa dele, não nos demorámos muito.

Continuámos a nossa viagem, agora em direção à praia de Mogán. O pequeno povoado em torno da praia é incrivelmente movimentado e torna-se quase impossível estacionar à superfície. Por isso tomámos aquela que é sempre a melhor opção em lugares hiper movimentados: estacionámos num parque subterrâneo. Esta zona sul-sudeste da Gran Canaria é aquela onde ficam as melhores praias de todo o arquipélago e, consequentemente, é também uma zona turística por excelência. Os alojamentos turísticos são demasiados para tão pouco espaço, por isso vão subindo as encostas, montados uns em cima dos outros como peças de lego. A praia de Mogán, como todas as outras que visitámos, estavam cheias de gente, e os restaurantes estavam igualmente apinhados. Se isto é assim em novembro, imagine-se em julho!

Praia de Anfí del Mar: fomos ao banho.

Seguimos, desta feita para Anfí del Mar. O ar estava quente, talvez uns 27, 28 graus, pelo que decidimos provar as águas da Gran Canaria. A temperatura do mar pareceu-nos um pouco fresca, mas não excessivamente: depois de todo o corpo submergir, até que estava bastante agradável. Água, diga-se, impecavelmente limpa e transparente. Demorámo-nos pouco mais de uma hora em Anfí del Mar, e depois encetámos o nosso percurso de regresso a Las Palmas. A auto-estrada, com três faixas de rodagem em cada sentido, estava incrivelmente movimentada, com alguns troços de trânsito lento. Ficámos com a clara noção de que esta é a ilha mais turística das Canárias.

O porto de Las Palmas fica um pouco afastado do centro histórico, pelo que não conseguimos visitar o casco viejo e optámos, em alternativa, por um passeio a pé até à praia de Las Canteras depois de devolvermos o carro, agora com mais de 200 quilómetros registados no contador. Las Canteras, uma praia extensa, estava igualmente repleta de gente, enquanto o sol poente a inundava com a sua luz de fogo…

Não surpreende que a Gran Canaria seja a ilha mais procurada do arquipélago. Nós também gostámos dela.

23 de novembro

Depois de quatro dias nas Ilhas Afortunadas, hoje passámos mais um dia no mar, por isso acordámos mais tarde. “Tarde”, quando se viaja num navio, quer dizer 8:30, um horário que, em terra, quando se está de férias, significa “cedo”. Após o pequeno-almoço viemos para o nosso salão da proa, no décimo primeiro deck, o Spinnaker. Aqui temos poltronas confortáveis, mesas, chá e café, música ambiente, vista privilegiada sobre o oceano — tudo o que precisamos para ler ou escrever. Nesta viagem, a Fla trouxe cinco livros, e eu três. Espero poder falar um pouco mais sobre eles à medida que vamos descendo ao longo da costa africana, “descida” que os marinheiros portugueses iniciaram há mais de 500 anos e completaram em várias viagens, e nós vamos fazer agora em uma viagem só.

Navegamos em águas calmas, apesar do vento. De acordo com informação prestada pelo comandante, que sempre acontece às 11:00 em ponto, quando estamos no mar, encontramo-nos a esta hora na posição 24º 44’N e 16º 27’W, e navegavamos a uma velocidade de 14 nós; a temperatura é de 22º C.

O dia decorreu tranquilamente. À noite, ainda durante o jantar, estivemos um longo tempo à conversa com o amigo de José Saramago, Jorge Camarneiro, e com sua mulher, Piedade.

Na cabine 9336 do Norwegian Sky.

24 de novembro

Mais um dia no mar. Depois do pequeno-almoço, fomos fazer uma caminhada no deck 6. É possível fazer jogging ou uma caminhada em torno do deck 6, sem interrupções, e uma volta completa são 460 metros. Demos apenas cinco voltas, porque havia um exercício só para a tripulação e a “pista” esteve inoperacional por alguns minutos. Entretanto, tivemos de ir à receção porque, supostamente, houve um problema com o meu cartão de crédito: o banco não autorizou a companhia a retirar da minha conta, numa primeira tentativa, 200 dólares e, numa segunda tentativa, 100 dólares. Ridículo. Hoje é domingo e estamos no mar, onde as comunicações através da MEO são proibitivas, por isso tenho de contactar o banco quando chegarmos a Dakar, amanhã, segunda-feira — vejamos o SMS que a MEO me remeterá com as tarifas aplicáveis no Senegal para ter uma ideia de quanto me custará uma chamada para o banco. Fiquei irritado com isto.

De modo que o melhor é distrair-me. Viemos até ao Spinnaker, onde escrevo este “diário de bordo” e irei ler de seguida O Manifesto Capitalista, do sueco Johan Norberg. O comandante acabou de informar (por isso já sabemos que estamos perto das 11:00) que já percorremos 562 milhas náuticas desde que deixámos Las Palmas e estamos a 320 milhas náuticas de Dakar, aonde aportaremos amanhã, segunda-feira, por volta das 7 da manhã.

A caminho de Gorée.

25 de novembro

Hoje levantámo-nos bem cedo. O relógio atrasou uma hora mas nós não tomámos a devida nota, de modo que nos levantámos às 5 da manhã. Só nos apercebemos da mudança horária quando saímos da cabine, e então, face ao muito tempo disponível, fomos à receção (aberta 24 horas por dia) para tentarmos resolver o problema com o banco. Só estava uma funcionária columbiana muito simpática a atender, e nós éramos os únicos clientes. Prontamente disponibilizou-se a partilhar o sinal de internet do telemóvel dela connosco, e assim pude entrar na aplicação do meu banco e verificar que não havia qualquer problema, pelo que fiquei descansado (muito provavelmente, o problema tem que ver com a companhia e não com o banco) e fomos tomar o pequeno-almoço satisfeitos . E assim continuámos, mesmo quando soubemos que o desembarque estava atrasado um hora e, por isso, não teríamos hipóteses de apanhar o barco das 7:30 para a ilha Gorée, tal como havíamos planeado.

A ilha de Gorée é um pedaço de terra minúsculo com cerca de 600 metros de comprimento que vive quase exclusivamente do turismo e, suplementarmente, da pesca. A curta ligação ao continente é feita por embarcações regulares, normalmente carregadas de turistas.

Apesar de termos chegado a horas, acabámos também por perder o barco das 10:00, devido ao enorme fluxo de passageiros, mas lá conseguimos apanhar o das 11:00. Havia muita gente a querer visitar Gorée, entre elas um jovem brasileiro que trabalha para a ONG Save the Children e que estava na fila mesmo à nossa frente. Agora no Senegal, ele já tinha trabalhado em vários países africanos. Explicou-nos como é difícil o seu trabalho em regiões em guerra, com governos autoritários, corruptos, e onde existe imensa pobreza. Falámos sobre vários países, entre eles Cabo Verde — que fica mesmo em frente a Dakar, praticamente à mesma latitude — uma democracia que, a par de poucas outras, é um exemplo para África e, infelizmente, pouco seguido. Maurício, assim se chamava o jovem, concordou. Cabo Verde é, de facto, um exemplo, apesar da vida ser tão difícil naquele arquipélago, com problemas naturais muito sérios, como seja a falta de água, e onde mais de 2/3 da população emigrou. E eu fiquei a pensar que talvez seja por isso mesmo — por haver tantos cabo-verdianos a viverem em democracias ocidentais — que a pressão sobre os políticos, para que ali se tivesse instituído uma verdadeira democracia liberal, tivesse sido mais efetiva.

Porta do Não Retorno na Casa dos Escravos (ilha de Gorée).

Às 11:00 lá embarcámos para Gorée. Esta pequena ilha foi descoberta em 1444 pelo português Dinis Dias, que lhe atribuiu o nome de Ilha de Palma. Trata-se de uma ilha bonitinha, rendilhada com casinhas coloniais coloridas, com a cor ocre prevalecendo nas fachadas. Mal desembarcámos, encontrámos à esquerda do pequeno terreiro, que faz de praça do povoado, o edifício da Polícia, no preciso local onde os portugueses ergueram, em 1482, uma capela. É difícil imaginar que seja preciso, num lugar tranquilo e pacato como este, um posto da Polícia.

O motivo pelo qual Gorée — Património Mundial da UNESCO desde 1978 — tem tantos visitantes, prende-se sobretudo com a Casa dos Escravos, de onde muitos partiram para as Américas. Encontramo-nos em face de uma história pesada, que contrasta com a paz que se sente no local — ou se sentiria se não soubéssemos desta triste história. É significativo que “gorée” signifique “dignidade”, algo que só foi possível alcançar após o longo e sinistro período da escravatura.

O ponto mais simbólico da Casa dos Escravos é sem dúvida a Porta do Não Retorno, o preciso local de onde os escravos partiam para uma travessia do Atlântico plena de sofrimento. É impossível não pensarmos na dor que sentiram os inúmeros escravos carregados à força para os navios negreiros quando olhamos o mar através desta porta. Cyril James, um escritor e historiador negro de Trinidade e Tobago, descreve assim a travessia, no seu livro, Os Jacobinos Negros:

Fla com uma simpática habitante de Gorée.

Nos navios, os escravos eram amontoados no porão em galerias umas sobre as outras. A cada um era dado um máximo de metro e meio de arrumação de largo por menos de um metro de altura, de modo que não pudessem deitar-se nem sentar-se totalmente. Contrariamente às falsidades tão perniciosamente espalhadas acerca da docilidade dos negros, as revoltas no embarcadouro e a bordo eram intermináveis, de tal maneira que era preciso agrilhoar os escravos, mão direita com perna direita, mão esquerda com perna esquerda, acorrentando-os em falanges a grandes barras de ferro. Enfrentavam nesta posição a viagem, subindo uma vez por dia para se exercitarem e permitir aos marinheiros “limpar os baldes”. Mas, quando o carregamento se mostrava rebelde ou o estado do tempo agreste, lá em baixo permaneceriam semanas a fio. A proximidade de tantos corpos humanos despidos, a sua carne ferida e ulcerosa, faziam destes porões um inferno. Durante as tempestades, reforçavam-se as escotilhas com travessas, e nas trevas inclementes e repugnantes eram arremessados de um lado para o outro da embarcação agitada, mantidos no lugar por correntes sobre as suas feridas abertas. Nenhum lugar na terra, observou um cronista um dia, concentrava tanta miséria como o porão de um navio negreiro. (James, 1938).

Foi a única coisa que fizemos em Dakar: visitar a mimosa ilha Gorée, com a sua história trágica. Custou-nos €20, contando com os dois bilhetes de barco e as duas taxas camarárias. (As centenas de pessoas que compraram uma excursão no navio para visitarem a ilha pagaram 139 dólares, cada uma delas, e viram o mesmo que nós, ou talvez menos — e com menos liberdade). A viagem para a ilha (que está muito próxima do continente) demora cerca de 20 minutos.

Quando o nosso navio partiu, ao fim da tarde, passámos junto a Gorée e acenámos na direção da ilha, em jeito de despedida. Os próximos dois dias iriam ser, de novo, passados no mar.

Rua típica de Gorée.

26 de novembro

Hoje acordámos às 10:00. Notámos que o navio navega mais rapidamente e o comandante confirmou isso mesmo na sua comunicação habitual das 11:00. Seguimos a uma velocidade de 20 nós. Gostamos da voz tranquila deste comandante que comunica num inglês com sotaque… grego ou italiano?

Está calor. Ainda de acordo com o comandante, 28 graus. Aproximamo-nos da linha do Equador e continuamos ao longo da costa ocidental africana, seguindo muito provavelmente a rota de muitas caravelas e naus portuguesas. O nosso navio inflete agora ligeiramente para leste, cortornando a enorme curvatura da costa, e entra no Golfo da Guiné. Neste momento são 21:04 e estamos 7º 12.33N e 13º 25.31W. O navio segue a uma velocidade de 19,5 nós.

27 de novembro

Já nos encontramos em pleno Golfo da Guiné e aproximamo-nos cada vez mais de Abidjan, onde atracaremos amanhã às 7:30. Hoje acabei de ler O Manifesto Capitalista, um livro muito bem escrito, apelativo, convincente, e muito bem fundamentado. O título sugere um livro altamente ideológico, mas parece-me, acima de tudo, um livro pragmático: baseia-se na demonstração — com factos mensuráveis — de que as sociedades abertas, democráticas e liberais são mais ricas, mais felizes, mais justas e mais sustentáveis do que todas as outras. Irei compará-lo daqui a dois ou três dias com o Futuro do Capitalismo, de Paul Collier, que comecei agora a ler.

Diz-se muitas vezes que ler é importante, e eu concordo, mas tão importante ou mais do que ler, é ler os livros certos. No campo da filosofia política, podemos só comprar livros que reforcem as nossas convicções — e certamente haverá milhares que o fazem — mas essa é uma estratégia pouco produtiva, pois se queremos aprender algo temos, precisamente, de pôr em causa e de testar o nosso convencimento; para além de ler os grandes teóricos clássicos (pelo menos alguns), temos de insistir, persistir e continuar sempre testando as nossas convicções mais profundas. Ou seja, podemos e devemos ler livros que reforcem as nossas ideias, desde que conheçamos em profundidade as posições contrárias. Isto implica uma multiplicidade de leituras.

À chegada a Abidjan.

28 de novembro

Dizem que Abidjan é a Paris de África, mas, sinceramente, de Paris não vimos nada. Ainda na aproximação ao cais, pudemos observar uma água poluída, suja, cheia de lixo; e a qualidade do ar, como viemos a comprovar, não é melhor do que a da água, há demasiado fumo flutuando.

Tivemos algum tempo à espera para desembarcarmos. Começámos a ver muitos autocarros no cais, uns maiores outros mais pequenos, e percebemos que uns eram para transportar o pessoal das excursões e outros eram os shuttles para levar as pessoas até ao centro da cidade. Só não percebemos para que seriam aquelas motos da polícia, alinhadas a um canto do cais, seguramente, mais de uma dúzia. Fomos dos primeiros a sair do navio e a entrar num dos pequenos autocarros que formavam fila no cais; uns quatro ou cinco à nossa frente já estavam cheios.

Passado pouco tempo, o nosso autocarro arrancou, integrado num comboio de sete ou oito. Qual o nosso espanto quando nos demos conta de que, à frente do comboio ia um batedor da polícia desviando o trânsito. Por vezes, colocava-se em pé na moto e fazia gestos para os condutores se desviarem para a esquerda ou para a direita, ou ordenando que parassem. Finalmente constatámos que os batedores não estavam no cais ao serviço de alguma autoridade que tivesse vindo visitar o navio ou fazer qualquer outra coisa ao cais, como pensáramos, mas sim para abrir caminho aos veículos que nos transportavam. Nunca tínhamos visto nada assim!

Conferência de imprensa no estádio Félix Houphouët-Boigny, em Abidjan.

Após sairmos do autocarro, quatro brasileiros (um casal e duas amigas), ao se aperceberem que falávamos francês, e de que tínhamos o mesmo objetivo de visitarmos a pé os principais pontos da cidade, juntou-se-nos — e lá fomos os seis, caminhando, através da poluidíssima Abidjan, em direção ao Plateau, o bairro mais desenvolvido da cidade. Durante grande parte do percurso não havia passeios seguros para caminharmos, pelo que tínhamos de pisar o asfalto da estrada.

Já no Plateau, quase uma hora de caminhada depois, chegámos a um local onde se situa o estádio de futebol Félix Houphouët-Boigny. O casal de Santarém do Pará tinha ficado um pouco para trás e fez-nos sinal para seguirmos. O grupo reduziu-se para quatro pessoas: um português e três brasileiras. Entretanto, a Fla encontrou um grupo de oito miúdos e pediu para tirar uma foto com eles. Depois disto, os miúdos entraram por um portão do estádio e nós perguntámos se este estava aberto e se podíamos visitá-lo. Os miúdos foram chamar um segurança e este pediu para esperarmos um pouco. Passados uns minutos voltou, disse-nos para o acompanharmos e encaminhou-nos a um gabinete do estádio onde estavam alguns funcionários. Atrás de uma grande secretária estava o membro do staff responsável pela gestão e manutenção do estádio, de seu nome, Esmel Joel.

Fla e as meninas da escola.

Juntaram quatro cadeiras para que nos sentássemos, e o senhor Joel disse-nos que sim, era possível visitar o interior do estádio, mas isso tinha um custo. Respondi que tudo bem, mas nós não tínhamos francos costa-marfinenses, só tínhamos euros. Perguntei em quanto é que ficaria o valor da visita em euros (se eles aceitassem) para quatro pessoas. Joel pediu uma máquina de calcular que prontamente lhe trouxeram. Após uns minutos de muitos cálculos que não percebemos, disse: são 34 euros. Informei as duas amigas brasileiras e estas disseram que não estavam interessadas. Traduzi para o francês. Então perguntaram-nos quanto poderíamos pagar. Tentei um desconto de €10 que foi aceite. Dei €30 para pagar os €24 acordados e recebi o troco em francos da Costa do Marfim: 4.500.

A visita foi exaustiva e começou com uma breve introdução sobre a remodelação e ampliação do estádio, concluídas a tempo deste ser um dos palcos da Taça Africana das Nações (CAN 2023), inclusive da final, conquistada pela Costa do Marfim. E quem foi a construtora que fez as obras? A Mota Engil. Quando Joel nos deu esta informação, dissemos a brincar — “então, enquanto portugueses (generalizei abusivamente), não deveríamos pagar visita nenhuma” — ao que ele retorquiu — “vocês realizaram a reconstrução, mas nós pagámo-la até ao último cêntimo!”

A catedral de São Paulo, em Abidjan. Arrojada.

Dito isto, subimos por um elevador e saímos diretamente num salão que dá acesso ao camarote central do estádio, onde ficam os VIPs. A vista sobre o relvado é, de facto, magnífica. Tirámos várias fotos, não apenas ali, mas também nos outros pontos mais importantes que visitámos a seguir: balneários, vestiários, salas de massagens, gabinetes dos técnicos, bancos de suplentes, relvado, parque de estacionamente reservado aos jogadores e, finalmente, a sala de imprensa. Aqui foi ligada a instalação sonora e pudemos brincar fazendo de treinadores e treinadoras, respondendo às perguntas dos “jornalistas”. Foi bastante divertido e as amigas brasileiras adoraram.

Terminada a visita, agradecemos e seguimos para a Catedral de São Paulo, que tem, de facto, uma arquitetura arrojada. O bilhete de entrada custa 1000 francos por pessoa. A par da Pirâmide, um edifício projetado pelo arquiteto italiano Rinaldo Olivieri, que visitamos de seguida, são os imóveis mais atrativos de Abidjan, uma cidade sob todos os pontos de vista, e também este, bastante pobre. Após estas visitas continuámos a pé em direção ao porto, e encontrámos um arrumador de rua com uma camisola do Sporting.

Começou a cair uma chuva miúda, que em breve engrossou. As amigas brasileiras traziam uma sombrinha cada uma, mas manifestamente, para aquela carga de água, nenhuma das sombrinhas dava para uma, quanto mais para duas pessoas. Abrigámo-nos um pouco debaixo de um viaduto, mas algum tempo depois, vendo que a chuva não parava, decidimos continuar. Já estávamos bastante molhados, mas também já perto do porto, quando um shuttle, que vinha vazio em sentido contrário (certamente para ir buscar passageiros aos pontos combinados), parou, recolheu-nos, deu meia-volta e foi levar-nos ao navio. Agradecemos muito e dei mil francos ao jovem motorista. Mal chegámos à cabine tomámos um duche morno e, assim, não houve tempo para os nossos corpos arrefecerem demasiado e apanharem um resfriado. Ao fim e ao cabo, correu tudo bem.

A “Pirâmide”.

Só resta dizer que os costa-marfinenses são muito simpáticos e educados. Além disso, sentimo-nos sempre seguros. Um rapaz que envergava um colete refletor onde, nas costas, se lia “Mota Engil África”, e com quem conversámos quando passámos de novo à porta do estádio Félix Houphouët-Boigny, apontou na direção de duas mulheres que conversavam uns 20 metros à nossa frente, no passeio, e disse “aquela é a minha patroa”. Quando chegámos junto das senhoras percebemos que eram ambas portuguesas e responsáveis da Mota Engil, e tivemos uns minutos à conversa. À despedida, disse-nos a “patroa”: “Como veem, os portugueses estão em todo o lado”.

29 de novembro

Depois da Costa do Marfim passámos mais um dia a navegar. Mas ainda antes de ser dia, de madrugada, por volta das 3:30, ouvimos pelos altifalantes do navio a comunicação BRAVO e um código qualquer de que não lembramos o conteúdo. Passados poucos minutos repetiram a mensagem, e eis que ouvimos no corredor passos pesados e acelerados, e vozes agitadas. Abrimos a porta e vimos vários bombeiros e dois deles a empurrarem o que nos parecia ser uma maca com rodas, tipo aquelas que se usam para colocar os doentes nas ambulâncias, em cima da qual estava estava um volume tapado com um oleado e preso com cordas. De repente, pensámos que fosse um cadáver, mas quando passaram pela porta da nossa cabine, verificámos que o volume era demasiado pequeno e não tinha a forma de um corpo. Deveria ser material de combate a incêndio, mas não faço ideia do quê.

Havia várias pessoas, tal como nós, à porta das cabines. Perguntei a um dos bombeiros que passou se havia fogo e ele respondeu que “não”, era só fumo. Disse isto mesmo a um “vizinho” de outra cabine que me perguntou se eu sabia o que se passava e ele respondeu: “mas, onde há fumo, há fogo!” Pois. Só que parece que não houve mesmo fogo… Entretanto, apareceram várias pessoas da tripulação a tentar acalmar as pessoas, a dizer que estava tudo bem e que poderíamos ir dormir descansados. Alguns minutos depois ouvimos nos altifalantes alguém dizer que a operação BRAVO estava concluída. Tivemos dificuldade em voltar a dormir.

Na habitual comunicação das 11:00, o comandante informou que o incidente desta madrugada se devera ao sobre-aquecimento dos aparelhos que alimentam o ar condicionado, o que provocou algum fumo, fez acionar os sensores de incêndio e despoletou todo um procedimento que tem de ser cumprido. Daí o aparato, mas nada de especial, portanto. Ainda assim este era o tema de várias conversas, a par da perda do navio por parte de quatro passageiros no dia anterior, em Abidjan.

Um italiano que estava numa mesa ao lado da nossa, no Spinnaker, falava ao telefone com algum familiar ou amigo, e resumia bem a nossa vida a bordo: si dorme, si mangia, si legge.

A foto desta viagem de que mais gostamos. Meninas da aldeia piscatória do Pantufo, São Tomé.

30 de novembro

Hoje chegámos a São Tomé. É a única cidade nesta viagem onde o navio não acosta. Ficámos, portanto, ao largo e viajámos até ao cais de lancha. Este processo foi caótico, com pessoas a esperarem mais de três horas. Nós não esperámos tanto porque fomos à receção reclamar, dizendo que tínhamos reservado um carro e precisávamos de estar na cidade até às 11:00, sob o risco de, se isso não acontecesse, perdermos não apenas o carro, mas também o dinheiro que fora pago previamente. Fomos encaminhados por um atalho até uma das lanchas e esta foi a forma de sairmos ainda com possibilidade de vermos o que tínhamos planeado, em São Tomé.

À saída do porto encontrámos o responsável da empresa de aluguer de viaturas à nossa espera. Os nosso amigos Jorge e Piedade acompanharam-nos, de forma que entrámos os quatro num Suzuki Jimny preto, já com alguns anos. A primeira coisa que fizemos foi meter gasolina, e foi também a primeira estupidez do dia. O depósito do carro estava quase vazio e eu quis atestá-lo com €50 de combustível, sendo que, quando devolvemos o veículo, nem €15, muito provavelmente, teríamos consumido. Mas, tudo bem. Lá fomos com o carro atestado em direção à cascata de São Nicolau. Desde a cidade de São Tomé até lá, é sempre a subir. O Jimny era velhote, mas aguentou-se bem.

No interior da casa-museu Almada Negreiros.

Ao contrário do que pensáramos, a estrada está em boas condições, excetuando o último quilómetro e meio, já fora da estrada principal, um caminho muito esburacado. A cascata é profusa e vigorosa, mas perde um pouco do encanto devido ao elevado número de visitantes. A floresta circundante, sim, é magnífica.

Para regressarmos à cidade de São Tomé tivemos de fazer o percurso inverso. No entanto, fizemos dois pequenos desvios: o primeiro para visitarmos a Casa-Museu Almada Negreiros, e o segundo para visitarmos a roça Monte Café. Na verdade, a casa onde nasceu e viveu até aos 3 anos de idade Almada Negreiros, também está inserida numa roça — a roça da Saudade. A associação privada, sem apoio público, que gere o espaço, parece estar a fazer um bom trabalho. As instalações em madeira, assentes em pilares de betão, foram construídas com critérios estético e funcional de qualidade, e deve valer muito a pena almoçar no restaurante, cercado por uma vegetação exuberante. A Casa-Museu Almada Negreiros, que inclui terrenos à volta de mais de cinco hectares, é gerida por jovens entusiastas. O que nos recebeu e acompanhou na nossa visita, chama-se Joaquim. Eu e Jorge contribuímos com algum valor pecuniário para ajudar a associação.

Saboreando um cafezinho na roça Monte Café.

Voltando à estrada principal, descemos mais um pouco até fazermos o segundo, e igualmente curto, desvio para visitarmos a Roça Monte Café. A visita custa apenas €3 por pessoa e é deveras interessante. A nossa guia chamava-se Marlene, uma jovem tímida mas muito simpática e competente. Ela explicou-nos detalhadamente todo o processo que envolve a produção do café, ou melhor, dos cafés. No final da visita provámos o arábica e o robusta, diferentes, mas ambos bons. Três euros por tudo isto é um preço muito barato, e o meu conselho aos responsáveis do Monte Café é que estabeleçam como preço um valor mais “redondo”: pelo menos €5.

Em todos os lugares turísticos de África há sempre alguém à espera de alguma gorjeta, sobretudo os jovens e as crianças. E pelo que observámos, a taxa de natalidade em São Tomé é muito elevada, de modo que, em todo o lado, fomos rodeados por muitas crianças. Apesar de a pobreza ser evidente, sentimo-nos absolutamente seguros, e as pessoas, em geral, são muito afáveis e educadas. A esmagadora maioria dos adultos e jovens masculinos são adeptos do Benfica, seguramente muitos mais do que os do Sporting e do Porto juntos.

É pena que São Tomé e Príncipe, um país lindíssimo e com um potencial turístico enorme, seja economicamente tão pobre, com uma taxa de desemprego bastante elevada (cerca de 15%). A falta de infraestruturas é gritante: no que toca a instalações portuárias, foram construídos até agora dois pequeníssimos portos (o comércio marítimo é muito reduzido); e quanto às estradas, não chega a 500 quilómetros a extensão das rodovias asfaltadas. Isto prejudica o turismo, setor que poderia impulsionar um maior crescimento económico e aumentar o emprego, mas que padece ainda da falta de alojamentos de qualidade, bem como do elevado preço das passagens aéreas, sobrecarregado pelo aumento exponencial das taxas aeroportuárias, decretado pelo governo.

Fla e Marlene na Roça Monte Café.

Em resultado da má gestão e da falta de investimento, mais de metade da população (55%) vive abaixo da linha-padrão de pobreza e a inflação é elevada. A indústria é praticamente inexistente. E depois, claro, há a doença endémica africana chamada corrupção. A percepção da corrupção tem aumentado em São Tomé e Príncipe nos últimos anos. Entretanto, em abril de 2024, o governo fez um acordo técnico-militar com a Federação Russa, por tempo indeterminado, que prevê formação, “utilização de armas e equipamentos militar, e visitas de aviões, navios de guerra e embarcações russas ao arquipélago”.

A Rússia estende os seus tentáculos em África. Vários países africanos firmaram acordos com Moscovo — entre eles Mali, Níger e Burkina Faso, que cancelaram os acordos de defesa que tinham com a França. A Guiné-Bissau é mais um exemplo de um país lusófono com acordos militares com a Rússia, ao contrário de Cabo Verde — como referimos acima, um dos poucos países verdadeiramente democráticos em África — que tem uma posição de princípio de apoio à Ucrânia na guerra contra a Federação Russa.

Continuámos a nossa descida para a capital, após a despedida da roça Monte Café, mas, já na orla marítima, fizemos ainda um último desvio para visitarmos a aldeia piscatória do Pantufo, apenas 3 quilómetros ao lado da cidade de São Tomé. É quase impossível circular incógnito pela aldeia, pelo que não pudemos passear sem entraves, como desejaríamos. Por todo o lado, mais do que em qualquer outro lugar, havia miúdos pedindo-nos “erro, erro” (euro), o que se compreende mas se torna difícil, pois não podemos contemplar todos.

Não é preciso andar muito para dar um bom mergulho em São Tomé e Príncipe.

Voltámos à cidade de São Tomé, onde deixámos Jorge e Piedade, que queriam dar uma volta a pé. Nós continuámos em direção à praia do Tamarindo, mas a meio do caminho achámos que talvez não desse tempo, e voltámos para trás, mas por outro trajeto, mais próximo da costa. Passámos por uma pequena baía, onde fica a praia Emília e, depois, por outra baía que, afinal, tem o mesmo nome da anterior — ambas se incluem na baía Ana Chaves. Esta segunda baía já se encontra em frente ao centro da cidade. Nesta, visitámos a catedral e depois dirigimo-nos ao forte onde se situa o Museu Nacional. Aqui estacionámos o carro.

Mesmo ao lado há uma pequenina praia abrigada, conhecida simplesmente por PM, e a Fla decidiu ir ao banho. Foi a forma de nos despedirmos de São Tomé, uma ilha que nos surpreendeu positivamente. O destaque vai todo para a deslumbrante Natureza, aqui quase pura, e para a afetuosidade do Povo, que também faz parte dela.

1 de dezembro

Em que é que a ciência contrasta com a ideologia? A resposta é que, enquanto a ideologia brota do cérebro de um único homem, a ciência é o produto de um número enorme de cabeças. É por isso que muitos cérebros tentam constantemente ultrapassar a produção científica conhecida e muitas outras cabeças tentam constantemente confirmar a ideologia estabelecida.

Navegamos em direção a Luanda, aonde chegaremos amanhã.

Bailarina angolana.

2 de dezembro

Hoje chegámos a Luanda, Angola. O desembarque foi difícil devido ao reduzido número dos autocarros, já de si pequenos, que transportavam as pessoas até o exterior do porto. A espera de quase uma hora em pleno cais, ao calor, com insetos rondando, sob um cheiro desagradável (para dizer o mínimo), que provavelmente era devido à proximidade de uns silos de cereais, foi exasperante. Um grupo folclórico local e o pessoal do navio esforçavam-se por minimizar o evidente desconforto, o primeiro cantando e dançando, e o segundo distribuindo água. Desta vez, a responsabilidade não pode ser assacada à Norwegian, mas antes à resposta inadequada dos meios em terra, manifestamente ineficientes. A distância até a saída do porto era relativamente curta; se os responsáveis tivessem estabelecido um corredor pedonal controlado, poderiam ter poupado imenso tempo aos passageiros e facilitado a vida a si próprios.

Enfim, lá chegámos à cidade, propriamente dita. Quisemos levantar algum dinheiro num ATM, mas o primeiro que encontrámos tinha uma fila grande e decidimos seguir. Logo depois, perguntámos a um senhor que saía de um edifício se havia outros ATMs por perto, ao que ele respondeu sugerindo que o seguíssemos, pois ia na mesma direção que nós e poderia ajudar-nos. É sempre bom conversar com as pessoas locais e este senhor revelou-se um “guia” excelente. Explicou-nos que o tratamento por “tu” ou “você”, usado pelos portugueses, é desrespeitoso entre os angolanos. Mesmo os mais velhos devem ser tratados por “senhor” ou “mano”. Assim, passei a tratá-lo por mano Galvão e ele, por ter tido um bisavô chamado Jorge, passou a tratar-me por avô Jorge.

Luanda, um musseque.

Mano Galvão trabalha no Ministério do Interior e faz ação social nas prisões angolanas. Pertenceu às FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola), onde foi oficial do exército (mostrou-nos o cartão com a sua foto, fardado). Apesar do seu cargo de alguma relevância no ministério, mano Galvão vive num musseque, e o seu vencimento mal chega para alimentar a família. Nota-se muito desencanto na avaliação política que faz sobre o seu país. Ele até compreende que haja um certo grau de corrupção dentro do poder estabelecido (as expectativas são, à partida, muito baixas), mas não consegue entender porquê tanta! Não aceita esse abismo tão grande que separa o imenso povo da pequena elite constituída por membros do Partido e das Forças Armadas.

“Então e João Lourenço, ele não veio trazer alguma esperança à sociedade?” — perguntámos. Mano Galvão considera que a vida do povo não melhorou em nada, antes pelo contrário. Algumas reformas foram realizadas, mas são manifestamente insuficientes; até porque, queiramos ou não, João Lourenço está condicionado pela pertença ao Partido, tem de manter privilégios para manter lealdades, e com isso manter a sua própria sobrevivência política e a sua liderança. A situação angolana transparece nas principais ruas e avenidas da capital. Imagine-se como será nos bairros pobres. A própria Marginal de Luanda está esburacada, com edifícios degradados, cheia de pedintes, e com um forte cheiro a urina, um pouco por todo o lado. É por isso que gostamos de circular a pé — ficamos com uma noção mais precisa dos locais que visitamos.

Fortaleza de São Miguel, Luanda.

Mano Galvão encaminhou-nos a um edifício espelhado, governamental, onde no interior havia um ATM exclusivo para os funcionários. Mal entrámos apareceu um segurança, e percebemos que não podíamos estar ali. O nosso amigo puxou da carteira e sacou um cartão com duas listras oblíquas, que era a sua identificação como funcionário do Ministério do Interior. O segurança foi irredutível, não podíamos estar ali, vestidos daquela maneira. Mano Galvão ficou desolado. Percebemos o quanto seria gratificante para ele proporcionar-nos o acesso a um ATM sem filas, num ambiente refrescante, com ar condicionado. Tentámos tranquilizá-lo: dissemos-lhe que a culpa não era dele, nem sequer do segurança que estava a cumprir a sua tarefa, e que, no fundo, o que contava era a sua boa intenção e que lhe agradecíamos por isso. Levou uns segundos a recompor-se da desilusão, mas lá seguimos caminho.

Continuámos para a Igreja da Nazaré, onde entrámos por breves minutos, e depois para o Palácio de Ferro, que observámos apenas do exterior, pois não tínhamos kuanzas (a moeda local). Mano Galvão queria pagar os mil kuanzas dos dois bilhetes (o equivalente a mais ou menos €1), mas rejeitámos, dissemos que voltaríamos mais tarde. Depois disso, dissemos-lhe delicadamente que precisávamos de nos separar; ele tinha de regressar ao trabalho e nós tínhamos de andar mais depressa, porque o nosso tempo era bastante limitado. Mano Galvão disse-nos que, se não tivesse que trabalhar, teria todo o prazer em ir connosco. Agradecemos e despedimo-nos com uma foto dos três no Largo Saydi Mingas, e trocámos números de telefone.

Praia Miami, na ilha de Luanda.

Galvão não estivera connosco por interesse. Ele não procurava nenhuma compensação pela sua ajuda, a não ser, talvez, reconhecimento, consubstanciado em simpatia e admiração. Talvez por isso esquecemo-nos completamente de lhe dar algum dinheiro em euros, que certamente lhe daria muito jeito. Recriminámo-nos por isso, quando demos conta. Em parte, isto aconteceu porque um outro funcionário público, que também nos mostrou um cartão, nos interpelou por causa da câmara fotográfica que colocáramos em cima de um pequeno muro para tirarmos a foto com o temporizador. Avisou-nos para nunca fazermos isso, nunca largarmos a câmara.

O novo funcionário foi-nos acompanhando e dando recomendações, e tivemos de pedir-lhe que nos deixasse continuar sozinhos porque queríamos andar mais depressa e já estávamos cientes de todas as precauções a tomar. Mesmo assim, ele ainda nos seguiu à distância durante alguns minutos. Seguimos pela Marginal e apercebemo-nos de alguns jovens suspeitos que observavam as nossa câmaras fotográficas e mochilas; mas já temos alguma experiência destas coisas e desenvencilhámo-nos bem. Entrámos no Centro Comercial Fortaleza, e apesar de esperarmos uns 15 minutos na fila, conseguimos levantar dinheiro num ATM situado no 4º andar. Todos os ATMs têm filas. Não há dinheiro suficiente disponível e os locais de levantamente são poucos. Levantámos apenas 15.000 kuanzas (cerca de €15).

Ilha do Cabo, mais conhecida por Ilha de Luanda.

De seguida visitámos a Fortaleza de São Miguel, onde se situa o Museu Militar. As armas não são o nosso forte, por isso dispensámos o museu. Circundámos apenas a fortaleza pelo exterior. Vários símbolos exaltam o povo angolano armado. Cá de cima tem-se uma vista privilegiada sobre a baía de Luanda. Descemos. Continuámos a pé e entrámos na Ilha do Cabo, mais conhecida por Ilha de Luanda, passando mesmo ao lado de um musseque. Estávamos preparados para darmos um mergulho, mas reparámos que a água no início da ilha continha alguns detritos — sacos, recipientes e garrafas de plástico, entre outros objetos flutuantes — pelo que decidimos mudar de estratégia.

A Fla teve a ideia de apanharmos um candongueiro (vans azuis e brancas de transporte de passageiros), apanhámos um, sentámo-nos ao lado do motorista, que se chamava Valdemar, e fomos ilha adentro até a paragem final. Valdemar era muito prestável e respondeu com disponibilidade a todas as nossas perguntas de turistas novatos ali; e quando alguém atrás de nós nos pediu dinheiro, impôs-se dizendo: “Então, que é isso!?” Poucos minutos depois parámos num local aprazível, com zonas verdes e restaurantes, muito diferente do início da ilha. Para aceder à praia tivemos de entrar num restaurante, e um funcionário disse-nos que não havia problema podíamos ir para a praia e tomarmos banho à vontade.

Palácio de Ferro, o edifício mais bonito de Luanda.

Foi precisamento o que fizemos, e em boa hora, no pico do calor, quando as nuvens se tinham dispersado, permitindo que o sol brilhasse livremente. Se não nos tivessemos banhado em Angola, não saberíamos o que tínhamos perdido! A temperatura da água é perfeita (apostaria nos 24º), o mar tem aquela textura macia e é limpo, transparente, com umas ondinhas suaves, sem correntes perigosas. Que maravilha! Depois do banho, dois simpáticos rapazes vieram informar-nos de que podíamos tomar um duche de água doce, mas nós já estávamos nos vestindo, pelo que apenas agradecemos o convite. A Fla sempre usa a sua técnica de levar uma garrafa para encher com água do mar e assim lavarmos os pés… São muitos anos disto!

De volta à paragem do candongueiro, vimos muitas pessoas à espera. Disseram-nos que, devido à visita do presidente Biden (que, no entanto, só chegaria ao aeroporto às 5:00 da tarde e ainda eram 3:00), estavam a cortar a Marginal de Luanda ao trânsito. Candongueiros, nem vê-los! Em contrapartida, havia carros particulares a fazer o transporte: carros pequenos e velhos, onde cinco pessoas viajam bastante apertadas. Deveria ser horrível com aquele calor, mas começámos a habituar-nos à ideia. O último shuttle para o navio era às 17:15… Nisto, pára um veículo completamente diferente dos anteriores, um SUV da marca Kia, de onde saem algumas pessoas. Entre os que esperavam, alguns pediram transporte ao condutor, mas este acenava que “não”, que não levava ninguém.

Despedida.

A Fla reagiu com rapidez, quando o carro já circulava, precipitou-se a correr e bateu no vidro da janela. O motorista parou o carro e eu corri também e expliquei-lhe a nossa situação; pedi, por favor, se ele não nos poderia levar até à Marginal (o nome que dão à estrada que circunda a baía de Luanda). O motorista disse para entrarmos. O carro era excelente, com ar condicionado e bancos confortáveis. Pelo caminho soubemos que o proprietário e condutor tem um emprego diferente, mas já tinha terminado a jornada de trabalho e, depois do almoço, veio fazer este biscate para ganhar mais alguma coisa. Pelos vistos não é o único, pois a vida em Angola é difícil, tal como nos confirmou. O salário mínimo em 2024 não chega a €70 e, no entanto, Luanda é, em vários itens, a cidade mais cara do mundo. Foi-nos dito que muita gente não tem que comer e cata o que pode no lixo.

A economia angolana está enormemente dependente do petróleo, embora o país também possua gás natural, diamantes, minério de ferro, fosfatos, feldspato, bauxite, urânio e ouro. Apesar das riquezas naturais, a pobreza é generalizada entre a população (mais de um terço abaixo do limiar); a inflação é alta e a moeda desvaloriza; as instituições públicas são altamente corruptas; o nível de desigualdade é o décimo maior do mundo (coeficiente de Gini) e a esperança de vida à nascença é das mais baixas do planeta — Angola ocupa a 214ª posição.

Esta realidade é dura de aceitar, mesmo para quem, como nós, é turista, mas é infelizmente uma situação comum e maioritária em África, de onde fogem 200 mil milhões de dólares em capitais todos os anos (Collier, 2019). Torna-se um pouco incompreensível como algumas pessoas podem apoiar estes regimes despóticos. (As exceções são talvez o Botswana, as Seychelles, as Maurícias e Cabo Verde). As ideologias são resquícios do tribalismo e são, a par das religiões (é por demais conhecido o caráter religioso das ideologias) as principais responsáveis pela maior tragédia da humanidade — o sofrimento evitável.

Saímos do carro no início da Marginal e fizemos o restante percurso a pé. Fomos ainda visitar o Palácio de Ferro, o edifício mais bonito de Luanda, sem margem para dúvidas, e provavelmente o imóvel antigo mais bem preservado. A tendência é fotografá-lo de todos os ângulos possíveis. Quando nos cansámos, completámos o curto percurso que nos separava da entrada do porto em poucos minutos. Ainda comprámos umas lembranças na feira de artesanato que decorria numa praça em frente ao porto, antes de apanharmos o shuttle. Chegámos ao navio por volta das 17:00. A visita a Luanda foi curta e intensa, alegre e triste, quente mas também refrescante.

A caminho de Sandwich Harbour, Namíbia.

3 de dezembro

Hoje foi mais um dia passado no mar. Às 6 da manhã o telemóvel tocou. Acordei e vi que era o mano Galvão a ligar-me pelo whatsapp. Rejeitei a chamada e tentei dormir de novo, o que me custou algum tempo. Mais tarde vi que tinha várias mensagens dele, incluindo um vídeo em que aparece com a mulher a tomar o pequeno-almoço (mata-bicho, assim lhe chamam). Há pessoas naturalmente boas, e mano Galvão é uma delas.

Hoje terminei o segundo livro desta viagem, O Futuro do Capitalismo, de Paul Collier. Antes lera o Manifesto Capitalista, de Johan Norberg. Como se pode deduzir dos títulos, ambos tratam do mesmo assunto, o capitalismo, e ambos concordam que o sistema capitalista é o único capaz de criar riqueza; no entanto, discordam quanto à melhor forma desse sistema se desenvolver e ser gerador de bem estar social para o maior número possível de indivíduos. Tudo tem que ver com maior ou menor intervenção do Estado. Face à crise política mundial e local (em muitos países), em relação à qual as respostas populistas (ideológicas e nativistas, como lhes chama Collier), atraem mais e mais pessoas. Paul Collier reclama correções estatais para as assimetrias sociais contemporâneas, enquanto Norberg deseja mais liberdade e menos Estado.

Uma imensidão de areia.

No fundo, Collier é um social-democrata e Norberg um liberal. Suspeito que nem um nem outro obterão definitivamente aquilo que querem. A democracia é como uma navegação à bolina — temos de bordejar para a esquerda e para a direita rumo ao nosso objetivo. Desde que este se enquadre dentro dos princípios do estado de direito democrático, está tudo bem. Nada a temer, portanto, das diversas visões democráticas, quando estas concordam na identificação dos principais inimigos — os populistas ideólogos e os nativistas — embora discordem na forma de os combater. O espírito crítico é parte fundamental da democracia.

4 de dezembro

Mais um dia a navegar. Estamos em pleno Atlântico Sul e, desde ontem à tarde, o tempo arrefeceu bastante. Se, por um lado, é natural, pois vamos nos afastando do Equador, por outro, não esperávamos uma descida de temperatura tão abrupta. Além disso, as temperaturas nos próximos portos que visitaremos — Walvis Bay e Cidade do Cabo — estão igualmente baixas, tendo em conta que estamos a três semanas do início do Verão no hemisfério sul.

O vento também não ajuda — frio e forte. Fazemos todas as refeições no Garden Cafe, no deck 11, e o vento gelado entra de rompante sempre que as portas automáticas se abrem, provocando correntes de ar desagradáveis. Já por mais de uma vez tivemos de vestir uma camisola mais quentinha.

“Animais” adaptados ao deserto.

Talvez por causa deste tempo, o salão Spinnaker estava hoje lotado. Em contrapartida descobrimos um cantinho confortável no Sugarcane, um bar no deck 5, de onde escrevo estas linhas, e onde vou a seguir iniciar a leitura do terceiro livro que trouxe para esta viagem, uma autobiografia de Nelson Mandela, Um Longo Caminho para a Liberdade. Amanhã chegaremos a Walvis Bay, sendo que prefazem hoje, precisamente, 537 anos, desde que Bartolomeu Dias e seus companheiros lá desembarcaram, em 1487.

5 de dezembro

Walvis Bay, cujo nome significa “baía das baleias”, é uma cidade cercada pelo deserto e o mar. Tendo em conta que a cidade em si não tem muito interesse, as principais atrações turísticas são mesmo o deserto e o mar. Nós fomos visitar um local onde, precisamente, o deserto se encontra com o mar — Sandwich Harbour. Os passeios a Sandwich Harbour, local situado a cerca de 50 quilómetros, para sul, de Walvis Bay, são provavelmente o melhor a fazer para alguém que, como aconteceu connosco e com o casal Jorge e Piedade (viajámos no mesmo 4×4), tem apenas algumas horas para passar na região. E foi o que fizemos, através da empresa Way Way Safaris and Tours.

Vários veículos Toyota, de empresas diversas, estavam à espera de passageiros que saíam do navio. Os motoristas comunicam uns com os outros por walkietalkies. Iniciado o passeio, cedo começámos a ver grandes “montanhas” de sal, uma das principais produções locais. Passámos junto a rias e lagoas onde nos deparámos com milhares e milhares de flamingos, de duas espécies diferentes, e, pouco depois, nas praias, impróprias para banhos (devido à corrente fria de Benguela, mas também às correntes marítimas e ventos muito fortes), milhares e milhares de corvos marinhos, em formação, focas, patos bravos, gaivotas, andorinhas do mar e muitas aves migratórias. O nosso amigo Jorge Camarneiro, que trabalha na área da aquacultura, referiu que os corvos marinhos são uma verdadeira praga, devorando, só na Europa, mais de 300 mil toneladas de peixe por ano.

Descer a duna é muito mais fácil que subi-la.

Sandwich Harbour é um local único no mundo. Vimos ao longo da viagem alguns animais adaptados a este rigoroso clima desértico: chacais, órixes e uma minúscula espécie de lagarto. Os seres vivos adaptados a este deserto conseguem sobreviver graças aos nevoeiros característicos desta região, causados pelo afloramento da corrente de Benguela, que transporta as águas frias do fundo do mar para a superfície, e que são a única fonte de água disponível. Além destes seres vivos, nós andámos também num dos modernos “animais”, também eles perfeitamente adaptados a este clima e terreno peculiares — os veículos 4×4 que sobem e descem as enormes dunas com espantosa facilidade, além de as percorrerem lateralmente em ângulos incríveis, exponenciando a adrenalina dos passageiros.

Num ponto a meio do percurso, os veículos pararam e experimentámos subir a pé uma duna, que até nem parecia muito alta — uns 15,20 metros. Superámo-la com dificuldade, devido, sobretudo, à forma como os pés (descalçámo-nos para facilitar a tarefa) se enterravam na areia. Imagine-se a dificuldade de caminhar um quilómetro neste terreno arenoso!

O deserto do Namibe tem pelo menos 55 milhões de anos, sendo um dos mais antigos do mundo (se não o mais antigo — não há consenso científico sobre isso) e o único fronteiro ao mar. Com uma área de mais de 30.000 kms2 , este mar de areia do Namibe foi reconhecido como Património Natural pela UNESCO, em 2013.

Almoço no deserto. Jorge e Piedade.

O nosso tour custou 110 dólares (americanos) por pessoa e incluiu um almoço-volante em pleno deserto. Valeu cada cêntimo que pagámos. Quando regressámos, o nosso motorista, Michael, percorreu ainda algumas ruas da cidade de Walvis Bay, completamente plana, e deixou-nos numa pequena zona comercial junto ao porto, onde fizemos algumas compras. Regressámos ao navio muito contentes com tudo o que passámos nesta região da Namíbia.

6 de dezembro

O livro de Mandela é muito bom e lê-se como um romance. Está escrito de uma forma clara, simples, atraente, sedutora, empolgante. É muito interessante constatar como a formação do jovem Mandela influenciou de sobremaneira o seu pensamento político: a forma democrática como se vivia no seio da sociedade xossa, com grande debate interno; e a educação formal em escolas inglesas de índole liberal. Talvez devido à sua educação, e embora seduzido pelo marxismo, Mandela nunca se reconheceu marxista. Ele acabou por aceitar e defender as regras do jogo democrático e liberal, não escondendo a sua admiração pelo parlamentarismo britânico.

A hesitação de Mandela em relação ao marxismo pode, talvez, tornar-se mais clara, através das palavras de James Baldwin, expressas num dos livros (Notas de um Filho Nativo) que trouxemos:

A relação entre Negro e Trabalhador não pode ser resumida, nem mesmo explicada, de modo suficiente dizendo-se que seus objetivos são os mesmos. Isso só é verdade na medida em que ambos desejam melhores condições de trabalho, e só é relevante na medida em que eles juntas forças como trabalhadores para alcançar esses fins. Se formos honestos, não podemos ir além disso.

Num trilho do Cabo da Boa Esperança.

A maior luta de Nelson Mandela, no entanto, foi pela libertação do povo negro sul-africano do jugo do apartheid, a qual viria a conseguir com enorme sacrifício. Tal como o título indica — Um Longo Caminho para a Liberdade — esse é o tema fundamental do livro. Hoje concluí 2/3 das 600 páginas desta magnífica obra, que conto terminar antes do final da viagem. Continuamos a aproveitar todos os locais possíveis do navio onde é possível lermos sossegados, inclusive, em última instância, a nossa cabine.

Para além dos livros que eu transportei nesta viagem, a Fla também trouxe cinco livros, e já os leu todos. Aqui fica a lista dos livros dela.

  • Mishima, Yukio, Confissões de uma Máscara, Companhia das Letras, S. Paulo, 2022.
  • Nguyen, Viet Thanh, O Simpatizante, Alfaguara, Rio de Janeiro, 2017.
  • Gary, Romain, As Pipas, Todavia, S. Paulo, 2021
  • Gurnah, Abdulrazak, Sobrevidas, Companhia das Letras, S. Paulo, 2022.
  • Baldwin, James, Notas de um Filho Nativo, Companhia das Letras, S. Paulo, 2020.

Depois deste dia de navegação, chegaremos amanhã à Cidade do Cabo, onde termina o nosso cruzeiro mas não, ainda, a nossa viagem.

Padrão de Vasco da Gama.

7 de dezembro

Fomos dos primeiros a sair do navio na Cidade do Cabo. Tínhamos reservado um carro a levantar no aeroporto, e apanhámos o shutlle que a Norwegian disponibilizou (37,5 dólares/pessoa) para lá chegarmos. Alugámos o carro no aeroporto para que depois, quando iniciássemos o regresso a Portugal, fosse facilitada a entrega do carro num local onde não tivéssemos, depois disso, de carregar a bagagem durante muito tempo.

O carro foi alugado por três dias: das 11:00 do dia 7 de dezembro às 11:00 do dia 10 de dezembro. Atribuíram-nos um Suzuki automático, praticamente novo, com menos de 500 kms. Uma vez instalados no seu interior, seguimos para Fish Hoek, a cerca de 40 kms, onde fica o pequeno apartamento que alugámos. Chegámos umas duas horas antes do horário do check-in, que era às 14 h., pelo que fomos dar uma volta de reconhecimento pelos arredores. Circulámos na estrada marginal ao mar, passámos por Simon’s Town, fomos à Bolders Beach e regressámos ao apartamento.

Quando David, o anfitrião, abriu a porta, e entrámos no alojamento, ficámos agradavelmente surpreendidos. Embora tivéssemos visto fotos, surpreendeu-nos a limpeza, a luminosidade e a vista espetacular sobre a baía de Fish Hoek e as montanhas, para além do cuidado da decoração e a funcionalidade dos equipamentos. Outra coisa que nos agradou foi o estacionamento para o carro, num espaço privado, com um portão automático que abríamos com um comando que nos foi atribuído. Excelente. Recomendamos vivamente este alojamento para quem passe alguns dias de férias na região do Cabo e, por isso, aqui deixamos o contacto: Room With a View for Two, 1 Marmion Avenue Clovelly, 7975 Cidade Do Cabo, África do Sul (telf: +27 83 434 4034).

Em pleno cabo.

Para aproveitarmos o tempo, fomos ainda nesse dia ao Cabo da Boa Esperança. Uns 15 kms antes do cabo, propriamente dito, fica a entrada do parque, onde tivemos de pagar os respetivos bilhetes de acesso, no valor de 455 rands/pessoa (cerca de 25€). O Parque do Cabo da Boa Esperança é, digamos assim, um parque mais pequeno integrado no Parque Nacional da Montanha da Mesa (Table Mountain National Park), que se estende por toda a península do Cabo e é Património Mundial pela UNESCO. No Parque da Boa Esperança há vários trilhos para percorrer a pé (fizemos alguns deles), dois padrões (Vasco da Gama e Bartolomeu Dias), várias praias, um centro interpretativo e vários pontos de observação. Percorremos os pontos principais e subimos ao topo do cabo através de um trilho íngreme e difícil.

Em frente ao promontório do Cabo da Boa Esperança fica o promontório do Farol do Cabo, aonde também fomos. O mar em redor é violento e não surpreende que Tormentas tenha sido o nome que os portugueses, através de Bartolomeu Dias, primeiramente atribuíram a este local: mais de 650 naufrágios foram registados ao longo dos tempos nas águas verdadeiramente tumultuosas da península do Cabo. Quando saímos do parque, o sol desaparecia no horizonte e chegámos já de noite ao Room for Two with a View, o pequeno apartamento onde estávamos alojados. Tínhamos almoçado no Dixies, em Glencairn, mas jantámos em casa, omelete de frango com batatas e cenouras, e uvas de sobremesa. Desde aí decidimos comer em casa, pois mesmo que as refeições sejam mais simples, ainda é onde se come melhor.

V&A Waterfront.

8 de dezembro

No dia seguinte levantámo-nos cedo pois tínhamos de apanhar o barco das 8:30 que sai de um pequeno cais da V&A Waterfront para a ilha de Robben. Conseguimos dois bilhetes virtuais através da empresa Giraffe Horizons, que deram direito à viagem até à ilha (e volta) e uma visita guiada à mesma, incluindo ao estabelecimento prisional onde Nelson Mandela esteve detido durante 18 anos. (Se considerarmos todos os encarceramentos, Mandela esteve preso mais de 27 anos, em diversos locais). A única forma de conseguir os bilhetes é através da internet, e há várias empresas que os vendem, bastando, para contactá-las, fazer uma pequena pesquisa em qualquer motor de busca.

Quando chegámos à V&A Waterfront estacionámos num parque subterrâneo que nos tinham indicado e tudo decorreu perfeitamente, de modo que saímos do parque com tempo bastante para darmos uma volta pela Waterfront antes de embarcarmos para a ilha. Este pequeno bairro portuário é um exemplo de como uma cidade e o seu porto podem conviver harmoniosamente. O espaço é recente e pleno de equipamentos modernamente recuperados ou construídos: hotéis, restaurantes, centros comerciais, pontes pedonais, lojas, marinas — tudo integrado num conjunto homogéneo, extremamente atrativo e movimentado a qualquer hora do dia.

Pormenor do antigo estabelecimento prisional, onde esteve detido durante 18 anos (dos 27 em que esteve preso) Nelson Mandela.

O trajeto até a ilha de Robben faz-se percorrendo a baía da Mesa (Table Bay) durante uns 12 quilómetros. Há sempre alguma ondulação e, por vezes, devido às condições do tempo, não é possível realizar a travessia. Pelo caminho vimos muitas aves, focas (“Robben” quer dizer “foca” em neerlandês) e golfinhos que brincavam com o barco, saltando da água e cruzando a frente da embarcação com incrível agilidade. Demorámos uns 45 minutos a chegar a Robben — uma ilha que já pertenceu ao continente e é, de facto, nada mais do que o topo de uma montanha, cuja maior parte está submersa. É também um santuário para 132 espécies de aves.

À nossa espera estavam vários guias, cada qual em seu autocarro, num dos quais viajámos até aos pontos mais importantes da ilha — o cemitério dos leprosos, a pedreira de cal onde os presos eram forçados a trabalhar, os bunkers do exército e da marinha, entre outros — que são símbolos atuais de uma história longa, que contrasta com a sua dimensão tão pequena. De facto, já nos séculos XVII e XVIII, os holandeses enviaram prisioneiros políticos das ilhas orientais holandesas para a ilha de Robben; e os ingleses também enviaram prisioneiros para a ilha quando tomaram o controlo do Cabo. Na segunda metade do século XIX, a ilha tornou-se uma colónia de leprosos. De início, os leprosos habitavam aqui de forma voluntária, mas, a partir de uma lei de 1882, foram forçados a viver na ilha sem hipótese de retorno. Durante a Segunda Guerra Mundial, Robben foi usada como base militar. Voltaria a albergar prisioneiros políticos até 1991 e reclusos comuns até 1996, ano em que a prisão de alta segurança foi desativada e a ilha passou a ser um lugar de importância histórica e natural, registado na lista de Património Mundial da UNESCO.

A cela onde Nelson Mandela esteve preso.

O último e principal ponto de paragem durante a visita à ilha é junto ao antigo estabelecimento prisional de segurança máxima, onde um novo guia, desta vez um antigo prisioneiro, nos encaminhou pelo seu interior, explicando como era a vida de presos e guardas nos anos sessenta e setenta do século XX, quando Mandela ali esteve detido. (Mandela não foi o único preso político famoso da ilha de Robben. Kgalema Motlanthe e Jacob Zuma, que foram presidentes sul-africanos, também passaram por lá, entre muitos outros ilustres opositores ao apartheid). Visitámos a cela nº4 da Secção B, algo que toda a gente aguarda com expectativa, apesar desta ser rigorosamente igual a todas as outras da mesma secção. Mas dado que foi a cela de Mandela, todos querem vê-la e fotografá-la. E, claro, nós não fugimos à regra.

Devido à distância que a separa do continente (no seu ponto mais próximo, cerca de 7,4 kms), mas sobretudo devido às correntes fortes e às águas frígidas da corrente de Benguela, era quase impossível escapar a nado da ilha. Quase, mas não totalmente: o primeiro episódio de fuga a nado remonta a 1690 e o nome registado é o de Jan Rykman. Em 1909, um homem que não era prisioneiro tentou fazer a travessia: Henry Charteris Hooper nadou durante 7 horas entre a ilha de Robben e o antigo porto da Cidade do Cabo. A partir daí, vários foram os homens e as mulheres que livremente se aventuraram nesta modalidade de águas abertas, desafiando as águas geladas da baía da Mesa. Hoje em dia realizam-se anualmente várias provas entre Robben e o continente, sendo esta travessia considerada uma das mais exigentes do mundo.

Com Ntozelizwe Talakumeni, ex presidiário, em Robben Island.

O vento também é um obstáculo, e sopra quase sempre fortemente na baía da Mesa. Comprovámo-lo quando fizemos a viagem de volta, agora num barco mais rápido que saltava por cima das ondas como um cavalo. É permitido ir à proa, no exterior da embarcação, mas isso só é possível se nos agarrarmos bem. (Vimos um senhor cair, apesar dos esforços dos dois tripulantes que ajudavam as pessoas a se manterem em pé). Como tinha a máquina fotográfica numa mão, só me restava outra para me agarrar, pelo que não tive hipótese de segurar o boné que tinha na cabeça antes deste voar a alta velocidade em direção ao mar, sem felizmente atingir ninguém. Mas mantivemo-nos firmes na frente da embarcação, observando o mar e absorvendo o vento, e tudo à nossa volta, para gravarmos em nós este momento único.

Quando desembarcámos na V&A Waterfront o sol estava a pique e o número de pessoas que circulavam era muito superior ao que tínhamos visto de manhã cedo. Desta vez demos uma volta maior para explorarmos mais a fundo este bairro, fizemos umas pequenas compras (comprei um novo cap) e confirmámos a impressão que já trazíamos desde o primeiro encontro: este é, sem dúvida, um dos locais do mundo onde a cidade e o seu porto se conjugam da forma mais harmoniosa, um exemplo de recuperação de antigas instalações portuárias, colocadas ao serviço da população local e dos visitantes, nos quais nos incluíamos, e que são muitos. Um caso de sucesso. Depois disto, fomos pagar o estacionamento do carro e ficámos deveras surpreendidos: 40 rands (cerca de €2, 13) para 6 horas de estacionamento num parque com excelentes condições de segurança.

Regresso de Robben Island. Ao fundo a montanha da Mesa.

Da V&A Waterfront seguimos para o bairro Ba-Koop, onde se encontram casas coloridas e habitantes, na sua maioria, de origem muçulmana. Vimos muitas bandeiras da Palestina, palavras de ordem escritas nas paredes dos prédios, mesquitas, e pessoas com roupas típicas da religião islâmica. Por cima das nossas cabeças, a imponente Montanha da Mesa. Fotografámos algumas destas casas coloridas em diversas ruas e seguimos em direção à montanha, que pensávamos ser acessível por estrada. Enganámo-nos. A estrada estava cortada e só poderíamos atingir o topo da Table Mountain por teleférico ou a pé. Decidimos dar meia volta e dirigirmo-nos à zona costeira para ver as praias e descermos ao longo da costa até Noordhoek.

Estacionámos o carro na estrada marginal (M6), e visitámos as pequenas praias Clifton (1ª,2ª,3ª,e 4ª). O mar estava picado e as poucas pessoas que tocavam a água tentavam que esta não lhes passasse acima da cintura. No entanto, muitas outras estendiam-se nas toalhas, tomando banhos de sol. Pouco depois, em Camps Bay, uma praia bastante maior do que qualquer uma das quatro Clifton, e muito mais popular, pudemos observar muitos negros fazendo piqueniques, famílias inteiras com muitas crianças. Um nadador-salvador, também negro, apitava frequentemente para manter as pessoas longe de uma formação rochosa e de outras zonas perigosas. Notoriamente, na zona do Cabo, continua a haver uma separação, ditada por condições sócio-económicas, entre brancos e negros. Lembrámo-nos da autobiografia de Mandela, onde ele refere que, nas primeiras eleições livres, o seu partido (ANC) apenas não tinha vencido numa cidade: precisamente, a Cidade do Cabo.

Camps Bay.

A riqueza desta região está bem patente, de facto, em tudo que nos rodeia: boas infraestruturas, casas de elevado padrão, equipamentos, móveis e imóveis, de nível europeu ou norte-americano. É evidente que não é assim em toda a África do Sul, um país onde grande parte da população vive na pobreza. A principal causa do atraso sul-africano deve-se à chegada ao poder de políticos da ala esquerda do ANC, nomeadamente Jacob Zuma, que aumentaram a despesa pública, favorecendo o consumo e a corrupção em detrimento do investimento. Ao contrário do que acontecera com Nelson Mandela e o seu sucessor, Thabo Mbeki, que praticaram políticas de reconciliação, liberalizaram a economia, democratizaram o país, controlaram a inflação, reduziram para metade a dívida pública e conseguiram crescimento económico na ordem dos 5%, estima-se que Zuma e os seus comparsas tenham saqueado o equivalente a 20% do PIB; a divida pública voltou a aumentar, o PIB tornou-se negativo e a pobreza extrema também aumentou (Norberg, 2024). Além disso, a África do Sul é o país mais desigual do mundo.

Em Camps Bay fomos ao supermercado comprar sanduíches, fruta e água, e almoçámos mesmo ali, na praia, juntando-nos às muitas pessoas que ali faziam piqueniques. Continuámos para sul pela M6, sempre junto à costa, subindo, descendo, serpenteando pelas enormes escarpas sobranceiras ao mar. As vistas são magníficas em muitos pontos do percurso. Não demorámos muito a chegar a uma enorme baía — Hout Bay. Parámos, visitámos o porto de pesca, observámos a enorme praia em forma de concha e seguimos o nosso caminho, sempre para Sul. Pouco depois a estrada entra num parque natural, à entrada do qual pagámos uma taxa no valor de 64 rands (€3,40). Continuámos junto à costa e chegámos a Noordhoek, uma vila plena de belas vivendas, numa região vinícola.

Vista do nosso apartamento, junto à baía de Fish Hoek. (Foto da Fla).

A partir daqui infletimos para leste, afastando-nos da costa, rumo ao nosso alojamento. Queríamos chegar ainda a tempo de fazermos compras para o jantar e, com a inestimável ajuda do Google Maps, conseguimos. A Fla fez umas deliciosas sobrecoxas de frango fritas, acompanhadas por esparguete sem glúten, temperado com coentros; de sobremesa comemos mirtilos, uvas e morangos. Hummm — a Fla faz milagres com pouco! Nesta noite decidimos que no dia seguinte não iríamos andar a correr. Queria terminar a leitura da autobiografia do Mandela e também desfrutar do espaço onde estávamos instalados, por isso era necessário reservar algum tempo para tal. Dormimos como uns anjinhos.

9 de dezembro

Acordámos um pouco mais tarde hoje e, depois de um saudável pequeno almoço em casa, fomos até Boulders Beach para vermos os pinguins. Tínhamos passado lá no primeiro dia, apenas para fazermos tempo até o check-in no alojamento, mas não tínhamos entrado no parque. Desta vez fizemo-lo, pagando para o efeito 430 rands (cerca de €23 para duas pessoas). Os pinguins africanos estão em perigo de extinção: estima-se terem existido 1,5 milhões em 1910, e apenas 10% desse número no final do século XX. A colónia de Boulders é, por isso, muito importante na preservação desta espécie: de dois casais reprodutores em 1982, a população cresceu até os atuais 2.200 indivíduos.

Boulders Beach. A praia dos pinguins.

Dedicámos bastante tempo à observação destas curiosas aves que não voam, antes usam as asas para nadarem debaixo de água, como peixes, e fazem os seus ninhos em terra, acasalando com o mesmo parceiro para o resto da vida. A praia onde vivem está protegida, sem acesso aos humanos, havendo apenas dois varandins de madeira, elevados, e uma passadeira entre eles, por onde as pessoas podem circular. Como é óbvio, fartámo-nos de fotografar. No final, passámos pela loja de souvenirs para comprarmos algumas lembranças deste lugar tão especial.

Não queríamos sair da África do Sul sem provarmos a água do mar. Isso seria impensável! Quando saímos de Boulders íamos com a intenção de encontrarmos uma praia onde pudéssemos dar um mergulho. Encontrámo-la em Simon’s Town. Fronteira a esta pequena cidade, há uma praia chamada Long Beach, onde o mar é calmo, a água transparente e, ao contrário do que pensávamos, não tão fria assim. De modo que, apesar do vento, tomámos um banho delicioso em Long Beach.

Ainda em Boulders.

Da parte da tarde fomos para uma zona mais a leste da False Bay, até a praia de Monwabisi, e voltámos percorrendo a estrada junto à costa. As praias nesta zona são mais batidas e, logo, menos propícias a banhos, do que as da zona oeste da baía, mais abrigadas. Isso nota-se nas próprias estradas, fustigadas pela areia transportada pelo vento. Passámos pela praia de Muizenberg, frequentada sobretudo por negros, onde existem umas casinhas coloridas que pedem aos visitantes para serem fotografadas. Continuámos pela estrada costeira, vimos várias localidades bonitas, piscinas naturais, mais casinhas coloridas nas praias. Fizemos compras para o jantar — umas latas de atum e mais fruta — e voltámos ainda cedo para casa, cumprindo o nosso desejo de usufruirmos, sem pressa, do magnífico ambiente e também terminarmos a leitura da autobiografia de Mandela. A fruta nos supermercados é variada, de boa qualidade e relativamente barata. O mesmo se pode dizer da maioria dos produtos. Depois do jantar começámos a fazer as malas. No dia seguinte partiríamos da África do Sul.

10 de dezembro

Hoje acordámos com aquela sensação de despedida. Tomámos banho e o pequeno almoço, retiramos o lixo, verificámos tudo e transportámos as malas para o carro. Por volta das 9 horas despedimo-nos de David (o proprietário do alojamento) e entregámos-lhe as chaves de casa. Partimos. Fomos a uma estação de serviço para nos encherem o depósito de gasolina e lavarem o carro. Antes das onze estávamos a devolvê-lo à Woodford, empresa de aluguer de viaturas. Tinha corrido tudo bem e eles aceitaram o carro sem reparos. Estávamos à porta do aeroporto e seguimos tranquilamente a pé até ao seu interior para cumprirmos as formalidades de embarque.

Long Beach — o nosso primeiro mergulho na África do Sul.

O resto não tem muita história. Voámos pela TAAG até Luanda e depois apanhámos outro avião da mesma companhia aérea até Lisboa. Os aviões são muito fracos, os serviços a bordo também. O aeroporto de Luanda é dececionante. Mas lá chegámos à capital portuguesa, no dia seguinte, às 6:30 da manhã, onde o meu filho Gil nos esperava com o nosso carro.

Ainda nos faltava fazer uma viagem de cerca de 300 quilómetros até casa. Almoçámos em Faro, no restaurante Os Manos, cavalas e salmonetes grelhados, que estavam divinais; e depois conduzimos, muito devagar, até Conceição de Tavira. Chegara ao fim a nossa última grande viagem de 2024.

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Alguns números desta viagem:

5.900milhas náuticasdistância percorrida em navio.
1.150quilómetrosdistância percorrida de carro.
183,57quilómetrosdistância percorrida a pé.
2.654páginasdos 8 livros lidos.
8.611quilómetrosdistância percorrida de avião.

Itinerário do cruzeiro:

DataLocalizaçãoChegadaPartida
16 nov.Lisboa7:00 pm
17 nov.navegação
18 nov.Funchal7:00 am6:00 pm
19 nov.Sª Cruz La Palma9:00 am5:00 pm
20 nov.Arrecife7:00 am5:00 pm
21 nov.Sta. Cruz Tenerife7:00 am11:00 pm
22 nov.Las Palmas7:00 am7:00 pm
23 nov.navegação
24 nov.navegação
25 nov.Dakar7:00 am4:00 pm
26 nov.navegação
27 nov.navegação
28 nov.Abidjan7:30 am4:00 pm
29 nov.navegação
30 nov.São Tomé9:00 am5:00 pm
1 dez.navegação
2 dez.Luanda8:00 am6:00 pm
3 dez.navegação
4 dez.navegação
5 dez.Walvis Bay7:00 am4:00 pm
6 dez.navegação
7 dez.Cidade de Cabo8:00 am
Muizenberg.

Referências:

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A Filosofia é a aspiração do homem à racionalidade

A Filosofia é a aspiração do homem à racionalidade. Isto pode ser deveras surpreendente, pois muitos poderão perguntar: “Mas, afinal, o homem não é o animal racional por excelência!?”

A resposta simples é: não. Todos somos influenciados pelo menos por alguns dos mais variados fatores, genéticos ou adquiridos pela experiência, que afetam a nossa racionalidade: medos, anseios, traumas, mitos, crenças, sonhos, ambições, invejas, esperanças, ressentimentos, megalomanias e, sobretudo, claro, as visões do mundo que dão pelo nome de ideologias — esses medicamentos fora de prazo, como tantas vezes as apelidei.

Melhor rótulo que o de animal racional, seria o de animal religioso. Pelo menos, por enquanto.

De facto, se fôssemos seres essencialmente racionais, todos seguiríamos o mesmo rumo da razão, da paz e do pragmatismo, ainda que por caminhos diferentes.

Apesar de tudo isto — de ter perfeita consciência da impossibilidade de alcançar a racionalidade absoluta — o verdadeiro filósofo assume o dever de trazer ao mundo o máximo de racionalidade possível, em busca de um mundo melhor.

Foi isso que fizeram os maiores filósofos da história humana (que não são, necessariamente — muito pelo contrário — os que têm mais adeptos), destacando-se, entre eles, Sócrates, Kant e Popper, os três desconstrutores de castelos.

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The Importance of Critical Discussion

Churchill once said something like this: Democracy is the worst form of government except for all other known forms of government. I think this is excellently put. Yes I still prefer to say that there are two kinds of government, those you cannot get rid of without bloodshed and those you can get rid of without bloodshed. I am an adherent os this second kind, whatever beautiful names you give to the first and whatever ugly names you give to the second.

The second kind of govenment — for brevity’s sake, let us call it democracy — is certainly not a method to ensure the rule of the wisest or the best; and it has often been criticized for this reason. But only a very unwise person can believe that any method exists that ensures the rule of the wisest or the best. At any rate, Socrates was certainly right that wisdom consists in realizing our own lack of wisdom.

Democracies have serious drawbacks. They certainly are not better than they ought to be. But corruption can occur under any kind og government. And I think that every serious student of history will agree, upon consideration, that our Western democracies are not only the most prosperous societies in history — that is important, but not so very important — but the freest, the most tolerant, and the least repressive large societies of which we have historical knowledge.

I have said this before, of course. It would be almost criminal not to say it if one believes it. One must fight those who make so many young people unhappy by telling them that we live in a terrible world, in a kind of capitalist hell. The truth is that we live in a wonderful world, in a beautiful world, and in an astonishingly free and open society. Of course it is fashionable, it is expected, and it is almost demanded from a Western Intellectual to say the opposite, to lament loudly about the world we live in, about our social ills, about the inherent injustice of our society, and especially about the the alleged terrible inequalities, and the impending day of reckoning.

I do not think that any of this is true. It is true that there are a few people who are very rich. What does it matter to me or to you? It is almost certainly not true that anyone suffers because a few are very rich, not to mention that quite a few of the few who are rich spend much of their money on such things as founding universities and lectureships and on scholarships and cancer research.

The truth is that Western democracies are the only societies in which there is much freedom, much welfare, and much equality before the law. Of course our society is very far from perfect. There is much misuse of drugs, of tobacco, and of alcohol. But from our experiment with prohibition we know that these things are difficult to combat; especially if we cherish freedom. It will be answered: “But these are just symptoms of people’s unhapiness. They are unhappy about such things as social inequality and unemployment.” If by social inequality is meant that some people have more money than others, then I should say that, as long as those others can live reasonably well, I don’t care. Unemployment is of course a very different matter.

I am very much aware of the fact that unemployment is a terrible thing, a real social ill, the most terrible of all our social problems. I certainly do not know how to cure it, but of one thing I am sure: it is an ill that every democratic government would not only wish to cure but would make great sacrifices to cure if it only knew how.

Our Western democratic societies are far from being perfect. Bu discussion of their faults is welcome in all of them; and practical steps to remedy matters are constantly being searched for, and being taken — certainly more than ever before and certainly more than anywhere else.

Our Western democracies are the most flexible, the most anxious for reforms: the reforms I have witnessed in my life time amount to several social revolutions. Of course we have made great mistakes, and some of them have not yet been corrected. Obviously, democratic public opinion is not always very wise. But there is an infinit amount of goodwill about. Peace on earth and goodwill toward men: this is the hope of millions. I know nothing and can prove nothing, but I believe that millions on both sides of the Iron Curtain would willingly give their lives if they knew that by doing so they could establish peace.

(…)

Immanuel Kant, a philosopher venerated by many, and also by Karl Marx, foresaw the possibility of such a development. He discussed it in his marvellous essay “On Eternal Peace”. “No state”, Kant writes, “ought to allow itself to commit those kinds of hostile acts that are likely to undermine mutual confidence in future peace”. This, Kant shows, is a sheer commonsense principle of self-interest: since the future is never fully predictable, the violation of this principle can easily become suicidal for the transgressor. So wrote Kant in 1795, before wars had become national wars (with Napoleon); or total wars (with Hitler); or nuclear wars (with our own destruction of Hiroshima and Nagasaki).

The disappearance in the West of trust in Russia’s word was a lengthy process. The process was lenghty not only because of the typical inclination of a democracy to believe in words of peace and to disbelieve or discount acts that belie these words, but also for more rational reasons. It takes some time to convince oneself that rational people are acting against their own obvious self-interest. Now the self-interest of all parties to avoid common suicide by universal extermination is obvious; and so is the self-interest of acting in accordance with Kant’s principle.

There is a school of utilitarians that says taht morality is nothing but enlightened self-interest. I do not believe this; in fact, I think it is blatantly untrue. But in the present world situation it is blatantly true that morality and the rational self-interest of the great powers do coincide with the establishment of mutual trust in each other’s signatures.

Two events led to the collapse of our trust in both the sincerity and the rationality of the rulers of Russia: the complete disregard of the Helsinki agreement on human rights and the invasion of Afghanistan.

After the invasion of Afghanistan, it was felt by ereryone in the West that Russia’s talk of peaceful coexistence and her solemnly signed agreements were parallel to Hitler’s announcement that the Rhineland — then Czechoslovakia, then Poland — was definitely the last demand.

I do not know anyone in the West who is any longer interested in what happens at the Madrid conference. Treaties are no longer taken seriously. If Russia wishes a reversal of this terrible situation (which did not arise in Lenin’s or even in Stalin’s days), only her acts — drastically different acts will be able to achieve it.

I think that Russia ought to have learned from Hitler’s error, and the West ought to have learned from our own errors. The West gave in to Hitler many, many times: we wanted to convince him that we were ready, without hypocrisy, for what is now called peaceful coexistence. He took it for weakness — a fatal error, as it turned out: fatal for millions, fatal for him. So Hitler proceeded, like the Kaiser, from victory to victory ande from treachery to treachery. He had failed to learn from their mistakes.

The Russians, like Hitler’s Germany, refused to be convinced of our sincerity concerning peaceful coexistence. They took it for weakness. This was a great mistake, and they are now on a dangerous path. A first turn away from this path — a turn that they should take in any case, not only in the interest of humanity but in their own self-interest — would be to fulfil what they had promised and signed im Moscow and in Helsinki and reverse their policy toward the valuable and constructive criticism of the so-called dissenters, and stop the violation of human rights.

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Our edition: Karl Popper, “After the Open Society, Routledge, New York, 2012, pp. 334-8.

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A guerra de Putin contra as mulheres

“Os Cossacos de Zaporíjia escrevendo uma Carta ao Sultão Turco”, de Ilya Efimovich Repin (imagem retirada de: https://www.meisterdrucke.pt/).

Transcrevemos abaixo um trecho do livro A Guerra de Putin contra as Mulheres, da escritora estonia-finlandesa Sofi Oksanen. O livro é de 2024, em ambas as edições — a portuguesa e a original.

Quando a minha avó estónia ia às compras na cidade, era atendida por vendedoras que falavam russo. Na União Soviética era uma profissão muito prezada pois dava acesso a bons negócios por baixo da mesa. Nos grandes armazéns, em particular, estes empregos eram exercidos por russófonos. Como o self-service só chegou bastante mais tarde, e apenas em certas lojas, era preciso pedir à vendedora os produtos pretendidos para que ela os fosse buscar à prateleira. A minha avó cresceu na Estónia independente e, por isso, não tinha aprendido russo na escola. Se um cliente falasse estónio era repreendido: “Fala a língua dos humanos!” A humilhação e o rebaixar ao nível animal daqueles que não falavam russo tornava-se assim o dia a dia dos estónios.

Hoje em dia, na Ucrânia, os torturadores dirigem-se às suas vítimas ucranianas em russo: “Não fales a língua dos porcos!”

Na União Soviética e na Rússia, a língua dos humanos é o russo. As outras são as dos animais.

No seu livro Humanity, o filósofo e historiador Jonathan Glover analisou os fatores que conduzem à violência extrema. Quer se trate de Mao, Hitler ou Putin, os mecanismos que propiciam atos de brutalidade são surpreendentemente semelhantes. Tanto na União Soviética como na Alemanha de Hitler, as populações a liquidar foram desumanizadas. Com isto, enfraquecia-se uma atitude de compaixão e respeito reservada à humanidade, aquilo que Glover chama “recursos morais”. A ideia é minar estas qualidades humanas enquanto tudo corre bem no país empenhado na via dos crimes de guerra, remover a barreira moral que existe em relação aos crimes de sangue, construindo e difundindo uma imagem denegrida do inimigo através dos feeds de notícias, de tomadas de posição e de histórias. O grupo visado começa a sofrer medidas opressivas, é desumanizado, reduzido à categoria de animal, depois de inseto e, por fim, de mera abstração. Matar civis não constitui um problema quando não existe a obrigação de tratá-los como seres humanos. O genocídio é a fase final. Nas valas comuns, as pessoas deixam de ter direito ao seu nome e à sua identidade.

Os genocídios, os crimes de guerra e os crimes contra a humanidade partilham um denominador comum: o Estado genocida prepara o terreno antes de passar à ação. O genocídio e os crimes de guerra começam através de palavras que criam uma realidade. A linguagem populista, polarizada, é a principal matéria-prima. Embora o discurso de ódio nem sempre conduza ao genocídio, o genocídio é sempre precedido por um discurso de ódio, que se inflama passo a passo, e que é geralmente misógino. A violência sexual genocida cometida na Ucrânia é um exemplo extremo daquilo que o populismo autoritário é capaz e do seu objetivo: a destruição total de um povo e de um Estado. Neste sentido, a propaganda russa é um fator crucial na viabilização dos crimes de guerra. No Ruanda, uma estação de rádio muito popular desempenhou um papel determinante na preparação do genocídio e na sua execução. Os diretores da Radio Télévision Libre des Mille Collines (RTLM) foram condenados a prisão perpétua por genocídio. A mesma pena foi aplicada a um apresentador e ao editor da revista Kangura, que incitava ao ódio contra os Tutsis.

A propaganda interna russa move-se da mesma forma há décadas. Encontra eco nos velhos estereótipos acerca do inimigo que perduram. As gerações anteriores estavam habituadas a ver os não russos como fascistas, nazis, indivíduos doentes devido ao seu “nacionalismo”. A utilização de termos estigmatizantes era habitual e moralmente aceite há várias gerações. Repetidas pelas autoridades, pelo sistema educativo, pelos meios de comunicação social e pela justiça, estas mentiras tornaram-se uma verdade comummente aceite. Em 2014, quando o ultranacionalista Aleksandr Dugin exortou os seus concidadãos a matarem todos os ucranianos, mesmo na Rússia a sua posição foi considerada demasiado radical, resultando no seu despedimento da Universidade de Moscovo. Em 2022, com a grande ofensiva, muitos políticos retomaram o seu apelo de outras formas. Em menos de dez anos, declarações deste tipo banalizaram-se no discurso político russo.

O vocabulário desumanizante tem uma longa tradição na Rússia, a vários níveis da sociedade. No jargão oficial da URSS, os membros de um grupo humano colonizado eram designados pelo termo genérico “elementos”. Nos vários documentos dos serviços de segurança que tive a oportunidade de ler, o que mais me surpreendeu talvez tenha sido a linguagem utilizada: as construções são quase todas passivas. As ordens, recomendações e comunicados são assinados com nomes, mas o corpo do texto é sempre redigido na voz passiva, o que minimiza a responsabilidade do signatário. Não existe a sensção de que se está a dar ordens ou a executar medidas opressivas. Apenas se obedece a instruções superiores. Não é surpreendente que, aquando do colapso da URSS, os funcionários dos serviços de segurança não tenham publicado memórias nas quais lamentavam os seus atos ou o facto de terem participado na opressão. Não se arrependeram da forma como tinham tratado os “elementos”, pois enquanto “elementos” era como se de blocos de cimento se tratassem.

A pesada burocracia que dilui a responsabilidade individual nas cadeias de comando e nas reorganizações era bem conhecida na Alemanha de Hitler, tal como a progressiva desumanização dos judeus destinada a pôr em marcha o Holocausto. Desde a Segunda Guerra Mundial tem havido um extenso e cuidadoso estudo do percurso que levou ao Holocausto, e as obras que todos os anos são publicadas sobre o tema mostram que as pessoas querem saber mais. Pergunto, porém, quantos livros foram publicados no Ocidente sobre a retórica desumanizadora através da qual a URSS justificava os seus crimes contra os direitos humanos no Bloco de Leste? Será que faz parte do currículo escolar de um único país ocidental?

O KGB comandou os autores do revisionismo histórico soviético, fornecendo todo um léxico, a partir de diretórios e dicionários atualizados com regularidade e onde cosntavam, nomeadamente, epítetos. Os termos associados aos “Estados liquidados” eram altamente estigmatizantes e falaciosos. Em contrapartida, os adjetivos associados à União Soviética serviam para realçar a grandeza, o poder, a invencibilidade e outras características heroicas. Os olhares dos censores era inescapável, e este jargão não surgiu de forma espontânea: as instruções do KGB e o uso repetitivo de atributos eram fundamentais. As reações de caráter emocional eram importantes e induzidas através de epítetos: quando se associam apenas palavras negativas a certas coisas, as pessoas acabam por sentir repugnância por elas. O jargão oficial tornou a linguagem soviética redundante, pesada e difícil de compreender.

O poeta Lev Rubinstein afirmou que a propaganda era “a morte do significado”. Parece-me uma excelente formulação. Uma vez que pensamos através de palavras, só quando forem devolvidos os significados que correspondem à realidade é que a linguagem poderá despertar e, ao mesmo tempo, iluminar o pensamento. Foi por esta razão que os Estados bálticos aboliram as expressões soviéticas após a restauração da independência. A linguagem da URSS era um idioma ideologicamente puro cujos significados não correspondiam à realidade. Descrevia uma utopia na qual certos “elementos” deixavam de existir, tornando-a real.

A linguagem soviética permitia proceder às deportações, interrogatórios e perseguições. Deste modo, todos os russos tinham o direito de tratar os estónios como tratavam a minha avó, que não merecia ser atendida na loja porque não falava “a língua dos humanos”. Este jargão passou para o novo milénio, e através do exército de trolls da Rússia tem silenciado aqueles que denunciaram os crimes da Rússia contra os direitos humanos, durante mais de dez anos, nas redes sociais. A mesma linguagem foi utilizada para justificar o bombardeamento de barragens e hospitais ucranianos, e justificou o massacre de Bucha.

Na Rússia, a linguagem da era soviética nunca foi condenada. Enquanto o debate pós-colonial aboliu o vocabulário pejorativo nas outras antigas potências imperiais, nada disso teve lugar na Federação Russa, apesar da breve recuperação democrática no início da década de 1990, que tornou possível falar do passado e investigar de forma mais livre e menos censurada. Não sei se a retórica fascista que estigmatiza e demoniza o inimigo se teria dissipado espontaneamente sem o governo de Putin, mas o discurso de ódio e a linguagem do Estado totalitário não podem coexistir com os valores democráticos, tal como os retratos de Estaline e a admiração pelos símbolos que personifica não podem coexistir com os ideais democráticos. Não há coexistência possível.

Os teóricos do Partido Comunista compreendiam que a língua era um instrumento do pensamento, por isso o enfraqueciemnto das línguas nacionais era uma missão importante em toda a URSS. Aqueles que dominavam o russo começaram a pensar como os russos, o ponto de partida étnico do Homo sovieticus. Como resultado da russificação iniciada durante a era czarista, o russo era já a língua de ensino em muitas regiões. Na Ucrânia, por exemplo, o ucraniano foi várias vezes proibido. Estaline chegou mesmo a banir os carateres ucranianos que não constavam do alfabeto russo. O fraco conhecimento e implantação da língua russa na região do Báltico incomodava e dava dores de cabeça ao Partido. Era também uma forma de resistência passiva por parte das populações ocupadas.

Embora os Estados bálticos tenham encetado a descolonização na década de 1990, o processo foi mais prolongado na Ucrânia, tendo, contudo, a Revolução da Dignidade conduzido às leis da descomunização. Posteriormente, a grande ofensiva russa levou a uma desrussificação, a ponto de os autores que escreviam em russo terem passado a fazê-lo em ucraniano: a língua russa é um instrumento de opressão e supremacia russa.

Até agora, e ao contrário da antiga URSS, a propaganda da Federação Russa não teve um objetivo ideológico. No entanto, além da construção de estereótipos acerca do inimigo, ambas partilham o hábito de alterar o significado das palavras. A ocupação era chamada “amizade” e “libertação”; a resistência, “loucura”, “doença” ou “crime”. No início da guerra no leste da Ucrânia, a Rússia falava do “genocídio do Donbass”, cometido contra os russos e russófonos da região, o que não era verdade. O nacionalismo russo é descrito como “patriotismo”, quando se trata de nacionalismo. À guerra na Ucrânia chama-se “operação especial”, quando se trata de uma guerra. A escolha das palavras mostra que Moscovo tem consciência da relutância das pessoas em relação à guerra. Putin está, por isso, empenhado em mantê-la fora da Rússia. Assim, a grande ofensiva começou por se chamar “operação especial”, tendo sido criminalizada a utilização de termos diferentes dos oficiais a fim de transmitir a imagem de uma pequena operação, longínqua e circunscrita, que não podia, de forma alguma, dizer respeito a toda a nação. Esta necessidade de manter a guerra à distância dificultou a mobilização, pois as pessoas iriam compreender que se tratava afinal de contas de uma guerra e que todos estavam envolvidos. Na primavera de 2022, os russos estavam longe de imaginar que os seus filhos poderiam ter de matar os primos, pois antes da Ucrânia os combates desenrolaram-se sempre em regiões distantes e a Rússia não levava a cabo uma ofensiva deste género desde a Segunda Guerra Mundial. Uma das missões de Putin é manter a guerra fora da Rússia, física mas também mentalmente, e conseguiu-o manipulando a linguagem.

O Kremlin não esperava que o conflito durasse muito tempo — talvez pelo facto de predominar na Rússia um grande desconhecimento da história da Ucrânia, da qual se conhecia apenas a versão russa, igualmente adotada pelo Ocidente. A forma como a Rússia assimilou a cultura ucraniana alimentou a ideia de que os ucranianos eram “pequenos russos provincianos” sem cultura própria.

Antes da grande ofensiva, uma exposição de Ilya Repin (1884-1930) percorreu a Europa, tendo sido a maior exposição alguma vez apresentada fora da Rússia. No Museu de Arte do Ateneu, na Finlândia, assim como nas notas explicativas no Petit Palais, em Paria, o artista foi a presentado como um pintor da alma russa. Quando eu estava a escrever um artigo sobre este assunto em 2022, o Google também informava que Repin era russo, embora o próprio, nascido na Ucrânia, se considerasse descendente de cossacos ulanos de origem polaca, sendo a expressão da ucranianidade central na sua obra.

A exposição continha um dos seus quadros mais conhecidos, Os Cossacos da Zaporíjia Escrevendo uma Carta ao Sultão da Turquia (1880-1891), emprestado pelo Museu Russo de São Petersburgo. Os visitantes talvez pensassem que estavam a apreciar uma pintura russa, como indicavam as notas explicativas. Na realidade, o quadro refere-se à Ucrânia. Para os zapórogos, a ambição de alcançar independência em relação à Rússia era essencial, e o quadro representa o hetmanato cossaco. A história deste Estado autónomo é importante para o nascimento dos ideais democráticos na Ucrânia porque, ao contrário da Rússia, não existia um regime de servidão e os seus governantes eram eleitos por uma assembleia geral. A Ucrânia de hoje baseia-se nas ideias dos cossacos. Ao longo dos séculos, chegaram ao território ucraniano imigrantes e refugiados provenientes dos vários impérios: austríaco, austro-húngaro, otomano e russo. Rory Finnin, professor de Estudos Ucranianos em Cambridge, descreve a identidade nacional ucraniana como a história de vários indivíduos que se unem em torno de um ideal anti-imperialista. Foi justamente isso que atraiu as pessoas durante séculos, e é isso que faz da Ucrânia a antítese da Rússia.

Na primavera de 2022, circulou na Internet uma fotografia que recria a composição de Repin no campo de batalha: os soldados ucranianos mandavam assim um recado a Moscovo.

Definir Ilya Repin como um pintor russo é um exemplo típico de apropriação cultural por parte da Rússia, segundo a qual a história cultural da Ucrânia não constituiu um todo independente. Note-se que os museus ocidentais têm apoiado esta política colonial. Quando vista através dos olhos do colonizador, a identidade de um povo e a sua luta pela independência tornam-se invisíveis. O racismo russo em relação aos ucranianos e o tratamento inferiorizante de que são alvo reforçaram a imagem que Moscovo tinha dos ucranianos como seres submissos e incapazes de resistir. No imaginário russo, a Ucrânia, mas também a Polónia e os outros países bálticos, são considerados invensões de povos pequenos, emotivos e histéricos. Daí a surpresa perante a resistência ucraniana, também sentida no Ocidente.

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A nossa edição:

Sofi Oksanen, A Guerra de Putin contra as Mulheres, Objetiva, Lisboa, 2024 (pp. 67-73).

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Povo marítimo

Praia da Terra Estreita, Algarve.

Somos, por excelência, um povo marítimo. Não sei se herdámos esta ligação ao mar dos hábeis navegadores fenícios; se tem que ver com a barreira espanhola que nos empurrou para o Atlântico; se se deve ao facto de este espaço a que chamamos Portugal ter sido durante muitos anos encruzilhada marítima entre o Norte da Europa e o Mediterrâneo; ou se é algum gene específico que determina esta nossa apetência para o mar, agora reduzida, quase exclusivamente e por razões várias, a uma invasão das praias durante a época estival.
Pode ser tudo isso e mais alguma coisa, mas a última hipótese é, afinal, bastante plausível, pois está demonstrado que o ambiente influencia os genes (e vice-versa).
Não será por acaso que temos um cão de água — por sinal, algarvio — que não apenas nada, mas também mergulha, trabalha e tem tanta alegria no mar quanto um golfinho (aqui). Os que pensam que exagero talvez um dia se surpreendam quando nascer o primeiro bebé português com membranas interdigitais…

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O ocaso

Entramos naquele período da vida em que o sol já se pôs e em breve dormiremos o sono dos justos. Não um sono comum, reflexo da vida quotidiana, com seus sonhos e pesadelos, mas o sono eterno, em que sensações, sentimentos, dores e alegrias se nivelam numa linha reta, sem acidentes — na paz verdadeira e total. Calor e frio, dor e prazer, euforia e tristeza, são faces da mesma moeda e transformam as nossas vidas numa montanha russa. Quem nunca desejou parar esses desequilíbrios, esvaziar cérebro, coração e pulmões, não sentir nada e atingir a paz eterna? Não é para alcançar esse estádio vazio e, no entanto, pleno, que os seres humanos mais felizes se alheiam e isolam do mundo em busca do equilíbrio total? Não tenhamos medo, pois, e vivamos com alegria enquanto não alcançamos esse sono profundo e reparador!

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X Feira da Dieta Mediterrânica

O Mar Mediterrâneo é o maior mar interior do planeta, e une três continentes: Europa, África e Ásia. A sua superfície líquida abrange uma área de 3 milhões de quilómetros quadrados, onde pululam cerca de 2000 ilhas, dentro de um perímetro costeiro de 47000 quilómetros. A influência do clima mediterrânico estende-se por 25 países, onde habitam quase 500 milhões de pessoas. Como seria de esperar, o clima influencia, através das matérias primas locais e da proximidade dos povos, uma cultura comum nesta importante região, berço das primeiras civilizações humanas e da cultura ocidental, que estão aquém das divergências políticas e religiosas. Como é evidente, uma das componentes dessa cultura é a dieta, e a mediterrânica é justamente considerada uma das melhores do mundo.

Além dos Cara de Espelho (na foto), atuaram, no palco da Lota, Júlio Pereira, Brigada Vítor Jara e José Manuel David.

Assim, a Dieta Mediterrânica foi declarada Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, em 2013, na capital do Azerbaijão, Baku. Tavira foi a cidade representante de Portugal. E foi precisamente em Tavira que, ainda nesse ano, se realizou a primeira Feira da Dieta Mediterrânica. Desde aí, esta feira realiza-se anualmente durante quatro dias, no primeiro fim de semana de setembro, de quinta a domingo, sendo que, no presente ano, a X Feira da Dieta Mediterrânica ocorreu entre os dias 5 e 8 de setembro.

Na foto, o berbere Kel Assouf, líder do grupo marroquino Tarwa N-Tiniri. Para além destes, atuaram no palco do Castelo os andaluzes Duquenque, os italianos Kalàscima e os macedónios Kocani Orkestar.

Foram quatro dias intensos, como foram todos os dias dos certames anteriores, com uma considerável diversidade de expositores (incluindo bancas e tendas de comida), mostras, atividades desportivas, demonstrações gastronómicas com degustação, bailes tradicionais, oficinas e ateliês, atividades infantis, visitas a locais de interesse e, claro, espetáculos musicais — com destaque para os palcos da Lota, do Castelo e da Praça da República. Ao longo destes onze anos (a feira não se realizou em 2020 devido à pandemia da covid-19), temos assistido a atuações de agrupamentos de vários países mediterrânicos, algumas delas de excelente qualidade.

Fernando Daniel fechou a feira com um concerto que deliciou os muitos adolescentes presentes na Praça da República. Nos dias anteriores atuaram, no mesmo palco, Rui Veloso, Amália Hoje e Sara Correia.

A Feira da Dieta Mediterrânica é já o maior evento de Tavira, e atrai à cidade, todos os anos no final do verão, milhares de visitantes que em muito contribuem para animar a mais bela urbe algarvia.

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Viagem pela Ásia

Planear uma viagem de um mês através de 10 países não é tarefa fácil. Há que reservar voos, tratar de vistos, fazer um seguro de viagem, procurar hospedagens e transportes de vários tipos, para além de levar a cabo as sempre convenientes pesquisas sobre os locais a visitar. Esta é a primeira fase de qualquer viagem — a preparação. Como temos referido, as viagens têm sempre três fases, normalmente de duração decrescente — preparação, viagem (propriamente dita) e registo. Decorridas as duas primeiras, chegámos agora à última fase.

Saímos de Lisboa num voo da KLM que saiu muito atrasado devido ao mau tempo no aeroporto de Amsterdão, onde tínhamos escala antes de seguirmos para Seul, num segundo voo da mesma companhia aérea, que acabámos por perder. Chegámos a Amsterdão já de madrugada, com todos os balcões e escritórios fechados, e ficámos no aeroporto até de manhã, à espera que abrisse o escritório da KLM e nos reservassem um novo voo para Seul. O apoio ao cliente foi péssimo e ainda hoje estamos em litígio com a KLM, pois marcaram-nos um voo alternativo que posteriormente cancelaram, e agora não querem assumir a devida indemnização1. Só conseguimos um voo da Korean Air quase 24 horas depois de chegarmos a Amsterdão, pelo que tivemos tempo mais do que suficiente para apanharmos um comboio até à cidade e passearmos um pouco por lá. Nada de especial, o tempo estava péssimo, chovia e fazia bastante frio.

Rua de Amsterdão.

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Seul, Coreia do Sul

Três dias depois de sairmos de Lisboa, chegámos estoirados ao aeroporto de Incheon, a meio da tarde, com duas noites de sono perdidas. Os portugueses não precisam de K-ETA para entrarem na Coreia do Sul, os brasileiros, sim. De qualquer forma, é vantajoso obter o K-ETA online por apenas 7€ e não ter de preencher o formulário de entrada no aeroporto, ganhando tempo e paciência após um voo cansativo. Foi o que fizemos. Depois dos procedimentos necessários e da recolha da bagagem (se for o caso), a primeira coisa a fazer é comprar o cartão T-Money (pouco mais de 3€) e carregá-lo para se poder apanhar o comboio AREX, que segue direto para o centro da cidade de Seul. Pode comprar-se o cartão ainda no aeroporto, numa loja de conveniência dentro do terminal ou nas máquinas de venda, junto do acesso à estação dos comboios. O T-Money só se pode carregar com dinheiro, pelo que convém ter algum para o efeito. Depois é só usar o cartão no comboio, no metro, nos autocarros, no táxi e numa miríade de outros produtos e serviços. Há ATMs no aeroporto e lojas de câmbio onde se pode obter dinheiro coreano. Aconselhamos viajar munido com um cartão Revolut, ou similar.

Tínhamos reservado, estrategicamente, um apartamento muito perto da estação central de Seul, pelo que bastou uma caminhada de menos de 5 minutos até tomarmos um duche, deitarmo-nos e dormirmos umas 4 horas para recuperarmos alguma energia. Só saímos já bem de noite para comermos qualquer coisa e fazermos um pequeno passeio a pé pelo bairro de Myeongdong antes de regressarmos ao apartamento.

No dia seguinte estávamos como novos e acordámos cedo. Fizemos uma longa caminhada até ao palácio de Gyeongbokgung. (Quem nos conhece sabe que somos grandes caminhantes; é normal, quando viajamos, fazermos 20, e às vezes mais, quilómetros por dia). Pelo caminho vimos e visitámos detalhadamente uma interessante exposição de rua, na avenida Sejong Daero, sobre a Guerra da Coreia. No palácio assistimos ao render da guarda, um evento claramente dirigido aos turistas (que podem participar alugando, no local, roupas para o efeito), mas, ainda assim, coreograficamente bem realizado.

Palácio de Gyeongbokgung.

Na volta passámos por Cheongyeggeon e apanhámos o metro no City Hall até à estação de Hapjeong, a mais perto do mercado Mangwon que queríamos visitar. Aqui provámos várias comidinhas típicas, acabando por entrar num dos poucos restaurantes que se situam dentro do mercado, onde comem os feirantes e moradores locais, e aí almoçando. Optámos pelo mercado Mangwon em detrimento do mais turístico Gyeongdong, pois queríamos misturar-nos com os seulitas e comer com, e como, eles. Depois do almoço regressámos a pé até à estação de metro de Hapjeong, na linha 2, com intenção de visitarmos a livraria Starfield. Vale a pena realçar a peculiaridade da linha 2 (verde) do metro de Seul: é uma linha circular que funciona nos dois sentidos, confina em vários pontos com as outras oito linhas, e passa ou dá acesso aos principais pontos turísticos e locais de interesse da cidade. A livraria Starfield, por exemplo, fica num centro comercial onde se situa a estação de Samseong, precisamente da linha 2. Nós usámos e abusámos da linha 2. Tendo o cartão T-Money sempre carregado, torna-se extremamente fácil circular em Seul, uma cidade imensa em que a utilização do transporte público se revela necessária.

A livraria Starfield é grande, alta, imponente e fotogénica. É já um símbolo de Seul, e também um ponto de encontro entre residentes e turistas; veem-se por todo o interior pessoas fotografando e filmando com os telemóveis em punho. Perto dali, duas estações de metro depois, é possível visitar o Lotte World Tower, uma altíssima torre que observámos só por fora, preferindo circular por um parque adjacente, em torno do lago Seokchon. Muito bonito. De novo entrámos no metro desta feita para visitarmos a Torre de Seul, situada no topo do monte Namsan. Havia longas filas para apanhar o teleférico, pelo que fomos a pé, subindo largas centenas de degraus. (Quem quiser saber como pode chegar à Seoul Tower pode fazê-lo aqui.) A vista desde o topo da torre é de facto impressionante, mas na altura em que ali estivemos estava um pouco prejudicada pela sujeira das vidraças e também (sobretudo para quem gosta de fotografia) pelas luzes do interior do edifício, que se refletem nos vidros, e esta situação impediu-nos de conseguir as fotos que idealizáramos.

Livraria Starfield.

Quando descemos o Namsan, chegados ao sopé, o movimento era do tipo formigueiro, com pessoas circulando em todas as direções. Fez-nos lembrar bastante o que observámos em alguns pontos de Tóquio e de Hong Kong. Depois disto, apenas tivemos tempo de comer qualquer coisa (já estávamos com pressa), tomar um duche no apartamento, fazer as malas e apanhar o AREX rumo ao aeroporto. Ficámos com pena de não termos mais um dia ou dois para passarmos em Seul.

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Palawan, Filipinas

Chegámos a Puerto Princesa, na ilha de Palawan, por volta das 2 pm, depois de uma noite passada em aeroportos — Incheon e Ninoy Aquino. Um motorista esperava-nos para nos conduzir à Casa Belina, um pequeno hostel agradável e limpo, com um jovem funcionário muito simpático. Aproveitámos para dormir bastante, apenas saindo do quarto para comer qualquer coisa, e sem chegarmos a sair do hotel. Descanso, depois de mais uma noite perdida, foi a palavra de ordem. Este hostel foi perfeito para isso.

No dia seguinte, o sexto após a saída de Portugal, logo depois de um bom pequeno almoço na Casa Belina, chegou o pessoal do rent a car com o “nosso” carro, e pouco tempo depois já estávamos na estrada a caminho de El Nido, uma viagem que durou cerca de seis horas. A maioria das pessoas desloca-se até El Nido, a zona mais badalada, no norte da ilha. Dado que esta tem uma extensão considerável (mais de 500 kms), os turistas escolhem uma zona para passarem as férias, aí permanecendo durante todo o período — e essa zona é normalmente El Nido. Até porque Palawan não é apenas uma ilha, são muitas ilhas em torno da ilha principal que dá o nome a este deslumbrante arquipélago. É, assim, aliás, nas Filipinas como um todo. Milhares de ilhas deslumbrantes.

De modo que, uma vez em El Nido, o visitante tem mil e uma maneiras de fruir das praias da região. Claro que há inúmeros passeios de barco que se podem fazer às várias pequenas (e não assim tão pequenas) ilhas que pululam ao longo da costa — passeios exclusivos e passeios coletivos, destacando-se entre estes os já célebres tours “A”, “B”, “C”, e “D”, cada um deles com a duração de 7 a 8 horas, ou seja, praticamente um dia inteiro, com almoço incluído. O custo de cada passeio varia entre os 1100 e os 1400 pesos filipinos, ou seja, em torno de 25€/30€, por pessoa.

Mas antes de chegarmos a El Nido, que nem era o nosso destino final, embora tivéssemos de passar por lá, parámos num pequeno restaurante na estrada para almoçarmos. Um restaurante para os habitantes locais, não para turistas. Desde logo ficámos com boa impressão da comida filipina.

No caminho de volta, de Nacpan para Puerto Princesa, haveríamos de regressar a este simpático restaurante, mesmo ao lado da estrada.

Umas duas horas depois do almoço chegámos a El Nido que, como dissemos, não era o nosso destino. Por isso não parámos e seguimos para Nacpan, 15 quilómetros para norte, onde se situa a Amarav Pension, nosso alojamento durante 5 dias. Com estacionamento para o nosso carro alugado, esta pensão está muitíssimo bem localizada, a apenas 5 minutos a pé da praia de Nacpan, uma das mais bonitas da região. As funcionárias bem como a gerente foram extremamente simpáticas e prestáveis durante toda a nossa estadia. O quarto onde ficámos não era o suprassumo do conforto, mas tinha ar condicionado (embora de vez em quando a energia faltasse), era espaçoso e dava diretamente para um varandim onde podíamos sentar-nos e fruir do ar mais fresco da noite, depois de jantarmos no nosso restaurante favorito. Referimo-nos ao Combine, um pequeno bar-restaurante familiar, em plena praia de Nacpan. Ali as comidas são muito bem confecionadas: grelhados (peixe fresco, porco, frango, polvo), caranguejos e camarões confecionados de várias formas, sopas deliciosas (de porco, camarão, peixe, cogumelos e galinha) para além de diversos pratos de fritos. Também servem pequenos almoços, embora não os tivéssemos provado. Mas durante a nossa estadia jantámos sempre no Combine.

No dia seguinte ao da nossa chegada a Nacpan, fomos até El Nido para fazermos o passeio “C”, que havíamos reservado através da mesma empresa que nos alugou o carro. Queríamos fazer um desses tours para vermos se é tão interessante como se diz na internet. E valerá a pena fazer mais do que um dos quatro tours marítimos mais famosos desde El Nido? Depende. Se não se for rico e não se gostar de “excursões”, aconselhamos a fazer-se apenas um circuito como experiência. Ou pode até não se fazer nenhum e optar-se por praias igualmente paradisíacas quase vazias (ou mesmo vazias) e exclusivas. Isto consegue-se alugando um kayak, o que nós fizemos dias depois de termos integrado um dos tours “C”.

O snorkeling é uma atividade apetecível nas Filipinas.

O tour “C” e o tour “A” são considerados os melhores dos quatro, mas como queríamos em princípio fazer só um, optámos pelo”C”, que nos pareceu (pela pesquisa na internet) melhor. Este tour passa por Helicopter Island, Matinloc Shrine, Secret Beach, Talisay Beach e Hidden Beach. São todos locais maravilhosos, com águas cristalinas e mornas, paisagens deslumbrantes, mas tem sempre o inconveniente de parecer (e sê-lo efetivamente) uma excursão, com muitas pessoas, não apenas da nossa embarcação, mas de muitas outras das inúmeras empresas que realizam os mesmos passeios todos os dias. É por isso que, para nós, um tour é mais do que suficiente.

Regressados a El Nido fomos dar uma volta pela cidade. Há uma pastelaria — El Nido Bakery — bem no centro, que vende bolos e pastéis doces de qualidade a peços incrivelmente baixos. Estamos a falar de preços que equivalem, na nossa moeda, a 10, 15 cêntimos. De tal forma, que fomos várias vezes tomar o pequeno almoço a esta pastelaria situada na rua Rizal.

Nos restantes dias em Palawan não fizemos mais excursões. Num deles fomos explorar a costa imediatamente a sul de El Nido, onde topámos com magníficas praias, entre elas Vanilla Beach, realmente bonita. Por perto há a praia de Corong Corong, onde, em outro desses dias, alugámos um kayak e partimos à descoberta de outras praias belíssimas. De Corong Corong fomos até a praia de Lapus Lapus, desta seguimos até Papaya e, por sua vez, desta seguimos até Seven Commandos Beach, uma praia que faz parte do tour “A”, mas que estava pouco movimentada graças a termos lá chegado fora das horas em que as embarcações do tour “A” ali chegam. Eu e Fla nunca tínhamos andado de kayak, pelo que esta experiência foi ainda mais incrível. Pelo caminho vimos imensos peixes voadores e um deles chocou a alta velocidade com a Fla.

Fomos de kayak desde Corong Corong até Seven Commandos, e voltámos.

Em Lapus Lapus estivemos sozinhos na praia. Banhámo-nos, descansámos, secámos um pouco os corpos ao sol e recuperámos energia para nova etapa. Em Seven Commandos banhámo-nos de novo, enquanto o nosso kayak descansava na areia. A água é de uma transparência incrível. Esta é mais uma praia magnífica, desse conjunto constituído por milhares de praias magníficas que são as ilhas filipinas.

Aconselhamos vivamente um passeio de kayak na região de El Nido. Há pessoas em várias praias que alugam kayaks a preços módicos. Este passeio entre Corong Corong e Seven Commandos é um dos mais recomendados. Outro, bem interessante, é o que sai da praia de El Nido rumo à ilha em frente, Cadlao. Logo à “entrada” da ilha encontra-se a Paradise Beach — e o nome diz tudo. Embora os passeios de kayak não sejam à partida perigosos, há que ter em atenção o tempo, sobretudo o vento forte que, se soprar contra, pode dificultar muito a deslocação para o destino desejado.

Em outro dos dias em Palawan decidimos dar uma volta de carro pelo extremo norte da ilha. Passámos por locais remotos, vimos pequenas aldeias, falámos com habitantes locais e apreciámos as vistas magníficas sobre o mar e a linha de costa, desde alguns pontos montanhosos, miradouros naturais com que topámos durante o percurso. A ilha no topo norte é muito estreita, pelo que se passa da costa oeste à costa leste em poucos minutos.

Fla e o nosso kayak na praia Seven Commandos.

Noutra ocasião fizemos um passeio mais curto com intenção de conhecer as praias mais próximas a norte de Nacpan. Tivemos de circular com muito cuidado por estradas secundárias, pois o nosso carro era baixo e nada adaptado a terrenos acidentados. Mas, devagar, lá fomos e, no final, valeu a pena. Estivemos na Duli Beach, uma praia extensa, magnífica, quase deserta. Fomos de manhã e, no regresso, parámos num pequeno restaurante de comida local, que vende sobretudo para fora, bem baratinho, mas bom, o Llancel Food House, na pequena povoação de Bucana. Comprovámo-lo quando começámos a comer e, não fora termos encontrado este lugar apenas na véspera da nossa partida, teríamos ido lá comer mais vezes. Os donos quiseram, e conseguiram, surpreender-nos com uma sobremessa deliciosa: halo-halo shai, um batido de frutas gelado. Este restaurante, todo em madeira, tem a particularidade de ter sido construído em torno de uma árvore e é gerido por uma pequena família, um casal com uma filha adolescente.

Convém dizer que é perfeitamente possível passar uma temporada em Palawan comendo nos restaurantes aonde vão os habitantes locais. A comida é em geral boa e nós fomos a vários restaurantes não-turísticos e com essa opção não só comemos bem como poupámos muito dinheiro e ficámos a conhecer uma boa parte da gastronomia da ilha. É preciso estar atento, observar, cheirar, ter os sentidos despertos para se escolher os melhores locais para comer. Também ajuda ser-se simpático, falar com as pessoas, mostrar-se interessado, elogiar se a oportunidade surgir. Por vezes uma atitude positiva faz a diferença entre ser-se bem ou mal atendido.

No interior do Llancel Food House com a família proprietária. Nas Filipinas veem-se muitas crianças e jovens. A taxa de natalidade deve ser muito elevada.

Foi pois com alguma nostalgia que partimos de Nacpan, cinco dias após a nossa chegada. É um local magnífico, longe da confusão de El Nido, mas suficientemente perto para, se quisermos, irmos lá rapidamente de moto ou de carro — são apenas 15 quilómetros. As praias de Nacpan e Twin Beach são alcançáveis facilmente a pé desde a Amarav Pension, onde ficámos hospedados; o alojamento naquela zona é mais em conta; a comida é boa; e todos os dias o pôr do sol enche a praia de Nacpan daqueles relaxantes tons rosados e alaranjados, enquanto podemos desfrutar de um banho morninho…

Quando chegámos de novo a Puerto Princesa, depois de mais um almoço na estrada e de termos entregado o carro, estávamos no nosso décimo dia de viagem. Estava um calor insuportável. Era o dia 25 de abril, para nós, o Dia da Liberdade.

Jamais esqueceremos a bela Nacpan.

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Bali, Indonésia

Chegámos a Bali no dia 26 de abril, de manhã, para ficarmos seis dias e meio. À nossa espera estava o motorista de um táxi que previamente reserváramos através do Booking. Chegámos ao Bali Bobo Hostel, no bairro de Jimbaran, ainda antes do horário do check-in. Foi quando conhecemos o grande (não tanto em estatura, mas de coração) Agust Raphael. Agust é o rececionista principal do Bali Bobo (propriedade de um alemão) e um ser humano extraordinário. Dado que quando chegámos o nosso quarto ainda estava ocupado, ficámos um pouco à conversa com ele. A viagem do aeroporto para o hostel havia sido caótica, o trânsito estava infernal, o calor também, e as nossas primeiras impressões de Bali não foram as melhores. (É preciso dizer que tínhamos vindo das Filipinas, logo, com expectativas altas). Por isso estranhámos um pouco, embora depois nos tivéssemos lembrado várias vezes, como agora, quando Agust nos disse que “não somos nós que escolhemos Bali, é Bali que nos escolhe”.

Com o calor, esta cama fresca convida ao sono.

De facto, fomos gostando de Bali um pouco mais a cada dia, e isso foi ao encontro da frase de Agust. Após a pequena conversa com ele, deixámos as malas, fomos almoçar e quando finalmente regressámos e entrámos no quarto para tomarmos um banho e descansarmos um pouco, ficámos encantados. Que belíssimo quarto! Enorme, fresco, limpo, bem equipado, com ar condicionado ligado e com uma espaçosa cama com dossel, ali estava um convite implícito para o relax total. É impossível não ser feliz num quarto daqueles. Apesar disso, nós que não conseguimos estar quietos, ainda saímos… desta vez de scooter. De facto, a melhor maneira de circular em Bali é de moto. O carro pode revelar-se um pesadelo, sobretudo para quem não está habituado ao trânsito caótico. Felizmente, o aluguer de motos é comum em Bali, e no Bali Bobo havia várias para alugar.

E lá fomos nós, palpando terreno, tentando ambientar-nos àquelas condições de trânsito, o que não foi fácil. Nesse dia fomos até uma praia de surfistas, a Uluwatu Beach, sempre com um tráfico compacto, tentando, aos poucos, passar entre os carros, imitando os locais, ou tentando, não conseguindo evitar alguns sustos. Logo nesse dia aprendemos uma lição importante: não conduzir de chinelos! Com a primeira lição assimilada, aventurámo-nos, no dia seguinte, a fazer um trajeto maior. Nada mais nada menos que uma viagem até Ubud, ou seja, mais de 100 kms no total, ida e volta.

Sem moto (ou bicicleta) é uma tortura circular em Bali. Imagino que o mesmo se passe na maioria das ilhas indonésias. Este vídeo foi filmado da nossa moto, no regresso ao Bali Bobo, desde Ubud.

Em primeiro lugar visitámos um campo de arroz em Tegalalang — Ceking Rice Terrace — e depois fomos à Floresta dos Macacos (Monkey Forest). Muita vegetação em ambos os locais e também muito calor. Na Floresta dos Macacos tem de se ter cuidado com os ditos cujos que tentam roubar a nossa comida. Não nos pareceu nada de extraordinário, além do grande número de espécimes vegetais, mas valeu pelo passeio. À noite, já em Jimbaran, fomos jantar ao Gacoan, um restaurante de massas com comida muito picante. O nível de picante vai de 1 a 10 e nós pedimos o nível 1. No entanto, estava bastante picante. No dia seguinte pedimos nível zero, ou seja, sem picante, mas veio picante na mesma.

Mais tarde, na Índia, a coisa haveria de ser pior. (É incrível como os asiáticos gostam de malagueta!).

Os próximos dias aproveitámo-los para curtir as praias. Tínhamos ficado com a ideia, primeiro ainda no avião e depois pela primeira praia que visitámos, de que as praias de Bali não eram muito boas. E, de facto, se as compararmos com as praias filipinas, estas são em geral muito melhores. Mas há boas praias em Bali, algumas mesmo excelentes. Uma das melhores é a Thomas Beach, uma praia realmente bela, de acesso um pouco difícil, pois fica sob uma escarpa relativamente alta, tendo de se descer (e, na volta, subir) muitos degraus. Mas vale muito a pena visitá-la. Quando lá estivemos, de manhã cedo, havia poucas pessoas na praia.

Thomas, uma das praias mais belas não apenas de Bali, nem apenas da Indonésia, mas do mundo.

Além desta, visitámos mais duas praias que, pela pesquisa que fizemos, nos pareceram as melhores nesta zona de Bali. E de facto não desiludiram. A primeira foi a Melasti Beach e a segunda a Pandawa Beach, ambas no extremo sul da ilha. A Melasti Beach é a mais bonita das duas. Convém dizer que a Fla se encarrega sempre de baixar o google maps durante as nossas viagens, pelo que podemos deslocar-nos pelos próprios meios sem complicações de maior. Em Bali eu conduzia a moto e a Fla, com o telemóvel na mão, atrás de mim, dava as indicações sobre o caminho a seguir.

Durante a nossa estadia no Bali Bobo aconselhámo-nos várias vezes com Agust sobre locais interessantes a visitar e sobre restaurantes com boa relação qualidade-preço para comer. Foi através de uma dica de Agust que fomos na nossa motoca até o mercado de peixe de Kedonganan. Aí, após uma volta pelo interior do mercado, onde apreciámos uma variedade imensa de peixes e mariscos, escolhemos um peixinho, ou melhor, um “peixão”, que de seguida transportámos até um restaurante situado mesmo no largo anexo ao mercado, em frente ao mar. Neste restaurante, Warung Bu Wiwin, frequentado por habitantes locais, é possível mandar grelhar o peixe por um preço irrisório. As bebidas e os acompanhamentos são pagos à parte.

Comida de qualidade a preços módicos é algo que só se consegue quando interagimos com as pessoas. Esta dica deve seguir na bagagem de qualquer viajante que se preze.

O peixe prontinho para degustação depois de ter sido comprado no mercado.

Neste dia, depois do almoço, seguimos mais uma sugestão de Agust e fomos visitar o templo Pura Luhur Uluwatu, situado no topo de uma falésia e onde se realiza um espetáculo de dança tradicional. Quem quiser assistir terá de chegar pelo menos uma hora antes do espetáculo, que se realiza às seis da tarde, por forma a garantir o bilhete, uma vez que a lotação se esgota todos os dias. Foi o que fizemos, chegámos cedo. O local é muito bonito e o facto do Kecak Ramayana, assim se chama o espetáculo, constituído por cinco atos, se realizar ao pôr-do-sol, torna tudo ainda mais belo. Trata-se de uma lenda contada através da dança que culmina numa batalha final onde o exército de macacos derrota o exército de gigantes e Rama, o herói, derrota Rhawana, salvando a sua esposa Sita.

No dia seguinte decidimos ir mais longe e visitar a ilha de Nusa Penida. Foi difícil encontrar o cais de onde partem os navios para esta ilha porque pensávamos que estes partiam todos do mesmo local, mas não. As embarcações para Nusa Penida saem de um cais exclusivo. Como tínhamos acordado bem cedo, descobrimos a tempo que o cais de embarque é o de Sanur, um dos vários que existem na ilha de Bali onde acostam os ferrys que vão para as outras ilhas. Deixámos a scooter no parque de estacionamento e quando chegámos a Nusa Penida alugámos outra scooter numa loja junto ao cais. O nosso objetivo era irmos a kelingking beach e, munidos do google maps, lá fomos nós. Subidas, descidas, estradas estreitas e esburacadas, uma scooter diferente, mais pesada — tudo isto constituiu mais um desafio.

Kelingking é sem qualquer dúvida um lugar cénico. E perigoso. Já conteceram aqui muitos acidentes. Uma placa no local avisa que não há vigilância e que, portanto, os turistas estão por sua conta e risco. Os perigos são vários. As altíssimas escarpas sobre o mar não têm, em muitas zonas, proteção (vimos pessoas a tirarem fotos à beira do precipício); a descida para a praia é perigosa e demora bastante mais de uma hora para superar a curta distância que separa o topo da colina da praia, quer para subir quer para descer, e o sol não ajuda; a praia lá em baixo tem correntes perigosas, cruzadas, e o mar é forte.

A praia de Kelingking, ao fundo — nós fomos lá.

Como é que nós sabemos isto? Porque tomámos a decisão um tanto arriscada de descer até à praia. E subir, claro. É preciso estar em boa forma para fazer isso e o nosso conselho é o de que, se alguém ainda assim decidir descer, por favor não se aventure a nadar naquele mar. Claro que há sempre quem se aventure e provavelmente ver-se-ão pessoas na água. A maioria tem sorte, felizmente, mas o número de mortes que já ocorreram naquela praia é assustador. Basta ter alguma familiaridade com o mar, e observá-lo, para perceber como ele ali é perigoso. As correntes cruzadas são imprevisíveis e vimos várias pessoas (todas jovens) em dificuldades para sairem da água.

A subida desde a praia, nas horas de calor, é extenuante. Tive de descansar várias vezes pelo caminho. É imprescindível levar água para beber, e nós não levámos, o que foi um erro. Em suma, é preciso uma certa dose de loucura para ir àquela praia.

Mais de três horas depois de iniciarmos a descida, regressámos ao topo. Foi um alívio. Por um lado estávamos felizes por termos superado o desafio, mas por outro sentimo-nos desconfortáveis por termos corrido um risco, que embora calculado, tinha para todos os efeitos sido desnecessário. Mal chegámos ao topo da colina, procurámos um lugar à sombra na esplanada de um café e pedimos uma água de coco — uma benção. Pouco depois, estávamos a almoçar. Aos poucos recuperámos as forças e a energia. Estávamos prontos para mais uma etapa em Nusa Penida.

Crystal Bay tem boas condições para banhos de mar.

Rumámos a Crystal Bay, uma bela praia de águas mornas, bastante frequentada. Relaxámos, banhámo-nos e voltámos satisfeitos para o cais de embarque. Nusa Penida é sem dúvida uma ilha inesquecível. Linda, desafiante e perigosa. Após a travessia de cerca de uma hora, chegámos a Bali ao anoitecer. A nossa velhinha scooter esperava-nos no parque de estacionamento, e pouco depois voava para o Bali Bobo Hostel.

Contámos o sucedido a Agust que nos disse que ele próprio nunca tinha descido até a praia de Kelingking. Ficou surpreendido por o termos feito. Fomos tomar um duche relaxante e depois fomos jantar de novo ao Gacoan, pois este fica relativamente perto do Bali Bobo. Normalmente íamos a pé e cruzávamos um pequeno bairro onde as pessoas, que nos viam passar várias vezes, nos cumprimentavam.

No dia seguinte optámos por descansar e evitar correrias. Estivemos bastante tempo no hostel depois do pequeno almoço. E quando chegou a fome fomos almoçar ao Menega Cafe, na praia de Jimbaran, apenas a 4 quilómetros de distância. Peixe grelhado, lagosta, camarão, bivalves — não estava mau, mas o nosso marisco é melhor e a forma como o tratamos também. Depois do almoço, a Fla quis provar uma durian pancake num café chamado Durian Tanpa Ribet; realizámos esse desejo.

Era o dia de deixarmos o Bali Bobo, mas não ainda Bali. Optáramos por ficar a última noite num hotel bem perto do aeroporto para facilitar a nossa partida. Despedimo-nos de Agust, esse simpático e querido indonésio que o destino colocou no nosso caminho, e apanhámos um táxi até o Tirtasuci House, em Kuta, onde dormiríamos a nossa última noite em Bali.

A melhor parte das viagens são os amigos que fazemos. Fla e Agust à porta do Bali Bobo Hostel.

O Tirtasuci fica na zona mais movimentada e turística de Bali, bem perto do aeroporto. Passámos a tarde na praia, a Jerman Beach, tomando banho, observando os enormes e coloridos papagaios (pipas) que os miúdos lançavam no ar, passeando até depois do sol se pôr, relaxando e descansando, já em contagem decrescente para a partida de Bali e mais uma longa viagem até o próximo destino.

No dia seguinte, de manhã, fomos tranquilamente a pé até o aeroporto. Tínhamos pela frente uma viagem dupla rumo ao Nepal, com escala em Kuala Lumpur. Para trás, mas não esquecida, ficava Bali, a ilha dos deuses.

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Kathmandu, Nepal

Chegámos à capital do Nepal à noite, por volta das 21 horas. À nossa espera estava um taxista contratado pelo hotel onde iríamos ficar; o transfer estava incluído na nossa reserva. Durante o trajeto deu para perceber que estávamos numa cidade aonde a modernidade não tinha chegado ainda, uma cidade diferente de todas as que já tínhamos conhecido. O núcleo central de Kathmandu é uma zona demarcada, conhecida como Thamel, a parte mais comercial e turística da cidade. O Magnificent Hotel, onde ficámos, está localizado dentro dessa zona.

Buddha Stupa.

O budismo é a religião prevalecente no Nepal. Trata-se de uma religião tolerante e isso faz-se sentir no quotidiano das pessoas. No segundo dia em Kathmandu fomos visitar o templo Buddha Stupa, a 7 kms do nosso hotel, trajeto que fizemos a pé, como é nosso timbre, para irmos palpando o terreno e o pulsar da cidade.

Na volta apanhámos um táxi até Thamel para visitarmos o centro da cidade. Depois seguimos a pé até o templo de Swayambhunath, do outro lado (oeste) da cidade. Trata-se de um templo onde os macacos abundam, convivendo com as pessoas e tentando sempre tirar alguma vantagem; é preciso saber lidar com eles e não lhes dar muita confiança. Regressámos, descendo a longa escadaria que já tínhamos subido (o templo fica no topo de uma colina), a Thamel e ao hotel. Depois de um duche revigorante e uns momentos de descanso, fomos jantar a um restaurante típico nepalês de que gostámos muito. A comida era excelente, com várias opções vegetarianas, e a decoração é muito bonita. O restaurante fica num primeiro andar, e tem duas salinhas pequenas com janelas grandes através das quais chegam os sons do bulício e as luzes dos néons, próprios do centro da cidade.

No Paleti Bhanchha Ghar.

No terceiro dia no Nepal partimos de Kathmandu num voo curto até Nova Deli. Ficámos surpreendidos pelo tamanho do avião, um 747, e pela refeição servida num voo de hora e meia. Parabéns à Royal Nepal Airlines.

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Nova Deli, Jaipur e Agra, Índia

Tínhamos uma expectativa muito alta em relação à Índia. Planeámos visitar as três cidades constituintes do badalado triângulo dourado, de modo que pormenorizámos muito bem a nossa estadia. Mas nada podia falhar, porque estava tudo muito apertado. O nosso plano era chegar a Nova Deli, apanhar o metro para o centro da cidade, tomar um duche rápido no hotel, e voltar para o aeroporto para apanhar o avião até Jaipur. Dado que os hotéis na Índia são relativamente baratos, pensáramos em reservar um hotel em Nova Deli por forma a termos um lugar onde deixar as malas maiores e partirmos só com uma pequena bagagem para Jaipur e Agra antes de regressarmos a Nova Deli. Decidimos ir para Jaipur de avião, uma vez que os preços baratos compensam, depois seguirmos para Agra de comboio, e não tínhamos ainda decidido como voltar de Agra para Nova Deli. O plano pareceu-nos bom, mas o voo que apanhámos em Kathmandu atrasou e pensámos que provavelmente não conseguiríamos apanhar o voo para Jaipur. Começámos a pensar num plano B…

Foi uma correria. Quando deixámos as malas no hotel em Nova Deli e voltámos a correr para o aeroporto, pensámos que perderíamos o voo para Jaipur. Mas tentar não custa, e o muito suor que gastámos foi compensado: o voo para Jaipur também estava bastante atrasado, e lá apanhámos o avião. Quando chegámos, o motorista do nosso “táxi” (um tuk tuk) estava há mais de três horas à nossa espera para nos levar ao Gypsy Monkey, o hostel que havíamos previamente reservado. Comemos qualquer coisa no hostel, tomámos um duche e fomos dormir.

Fla no magnífico Palácio da Cidade, em Jaipur.

Entretanto o motorista do tuk tuk fizera uma proposta para nos levar no dia seguinte aos locais mais emblemáticos, e nós aceitámos. Assim, bem cedo na manhã seguinte saímos à descoberta de Jaipur. Nesta cidade não há hipótese de percorrer longas distâncias a pé a não ser quando o sol se esconde porque o calor é infernal, pelo que foi uma decisão sensata termos aceitado a proposta do condutor do tuk tuk.

Fomos em primeiro lugar ao Hawa Majal e de seguida ao Palácio da Cidade, onde vive o jovem rei do Estado de Jaipur, Padmanabh Singh. As entradas pagas já incluem guia e as visitas são demoradas, cerca de duas horas. O nosso guia era excelente, falando um inglês correto. Explicou-nos a história da família real, ocidentalizada e culta, e através dela a história de Jaipur. É, sem dúvida, a melhor, e a indispensável, visita que se pode fazer na cidade.

Depois fomos almoçar. A comida é um problema na Índia. Dificilmente se consegue comida sem picante, seja onde for. A seguir ao almoço num restaurante sofrível, visitámos os outros locais previstos: Forte Amber, Stepwell e Jal Mahal.

No dia seguinte, cedo, apanhámos o comboio para Agra. Fomos na terceira classe, pois quisemos ver como é. Tem ar condicionado — forte de mais — e o mais curioso é que uns lugares são sentados, outros deitados. Eu fui num dos primeiros, a Fla num dos segundos, por cima de mim.

Chegados a Agra, pouco depois do meio-dia, apanhámos um tuk tuk para o nosso alojamento, estrategicamente situado junto à entrada leste para o Taj Mahal. Foi a melhor surpresa na Índia. Uma belíssima casa transformada em alojamento local. A decoração é de muito bom gosto e o quarto é realmente mimoso. Os jardins dão um toque de frescura, o que é sempre bem vindo num país demasiado quente. Mas o problema continuou a ser a comida. Na Índia há muita comida vegetariana, mas mesmo esta é picante. Foi o que aconteceu ao jantar: mais uma dose descomunal de picante. Enfim, tentámos animar-nos com a perspetiva da visita ao Taj Mahal.

Nós e o Taj Mahal.

De manhã bem cedo, no dia seguinte, antes ainda do nascer do sol, lá fomos nós. Fomos dos primeiros a entrar. O Taj Mahal é realmente imponente mas, talvez pela nossa alta expectativa, desiludiu um pouco. Arquitetonicamente não é muito elaborado, o interior é pobre e falta qualquer coisa no entorno, talvez mais verde e mais água. Ainda assim, dado o simbolismo do local, talvez, não se consegue ficar indiferente quando o vemos pela primeira vez. Seja como for, e dado que era um objetivo de longa data, sobretudo para a Fla,”está feito”.

Regressámos ainda nesse dia a Nova Deli, de táxi. É tão barato (descobrimos isso já em Agra) que não se justifica outro meio de transporte. Descansámos um pouco no hotel, que se situa bem perto da Estação Central Ferroviária de Nova Deli, antes de sairmos para uma volta a pé pela zona mais movimentada da cidade. A confusão é grande: os pequenos negócios de rua, as lojas minúsculas, os tuk tuk, os milhares de transeuntes, os odores intensos. Ao passarmos numa rua sentimos um cheiro fortíssimo a urina: olhámos para o lado e vimos vários indivíduos, lado a lado, urinando para o chão, que era um lago.

A Índia é seguramente um país espetacular com uma história fabulosa e uma cultura grandiosa, mas aquilo que vimos e sentimos não foi nada disso. Como não somos hipócritas, temos de dizer que não gostámos daquela cultura tão influenciada pela religião. Embora não pareça haver intolerância religiosa, pois a diversidade de culto é visível nas ruas, as pessoas são extremamente preconceituosas. Se a Fla vestisse uns calções ou um vestido curto, era certo e sabido que os olhares sobre ela se tornavam tão frequentes e intensos que eram impossíveis de ignorar. As mulheres olhavam com reprovação e indignação, os homens com espanto (para não lhe chamar outra coisa).

Uma rua de Nova Deli, com o Forte Vermelho ao fundo.

As pobreza e sujidade na Índia fazem doer o coração. Vimos de facto muita pobreza, incluindo crianças a catarem lixo à procura de comida, mas também muita sujeira. Vimos pessoas a deitarem todo o tipo de coisas para o chão, inclusive nos aviões, sem qualquer necessidade. As ruas são incrivelmente sujas e mal cheirosas. Sinceramente, foi com certo alívio que deixámos a Índia. No dia 8 de maio, ao início da noite, partimos rumo a Baku, Azerbeijão.

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Baku, Azerbeijão

Era suposto estar um motorista à nossa espera no aeroporto de Baku, mas ninguém compareceu. É sempre um prejuízo (não apenas monetário) quando algo no planeamento falha. Tivemos de apanhar um táxi e o Booking não nos devolveu o valor que pagámos por esta corrida, mas o que tínhamos pago previamente ainda em Lisboa, pelo que ficámos duplamente prejudicados (monetariamente e pelo atraso de duas horas com que chegamos ao “nosso” alojamento). Não é justo, mas não há muito mais a fazer para além de denunciar estas situações.

As Flame Towers veem-se quase de todo o lado, em Baku.

Pelo caminho entre o aeroporto e o hostel já dava para perceber que Baku é uma cidade moderna; iríamos confirmar isso nos dias seguintes. Ficámos no Cth Baku Hostel, bem localizado no centro da cidade. Pela primeira vez ficámos num hostel com casa de banho partilhada, mas isso não constituiu problema. E este hostel tem algo que compensa tudo: um soberbo e variado pequeno-almoço. Depois desta refeição ficávamos com energia para várias horas. E nós usámos bastante energia ao palmilharmos dezenas e dezenas de quilómetros na surpreendente Baku — uma cidade limpa, organizada, moderna, bela, com alguns edifícios icónicos.

Entre eles, há dois que nenhum turista em Baku pode deixar de visitar.

Referimo-nos às Flame Towers e ao Centro Cultural Heydar Aliyev. As primeiras, localizadas numa colina sobre a baía de Baku, veem-se de quase todo o lado e foram, por isso, concebidas para se olharem à distância. Já o Centro Heydar Aliyev — desenhado pelo arquiteto iraquiano-britânico Zaha Hadid — é para se ver de perto, quer o exterior, quer o interior. Foi o que fizemos. Passámos uma tarde inteira, até o fecho de portas, apreciando esta magnífico edifício e as várias exposições patentes no seu seio.

Centro Cultural Heydar Aliyev. Em memória de um alto dirigente da União Soviética que se tornou Presidente do Azerbaijão e o governou com mão de ferro. Tal como acontece, hoje, com seu filho

Além do edifício propriamente dito, a envolvente é também muito interessante, pois inclui o Centro de Convenções de Baku e largos relvados onde as pessoas se reunem para fazer piqueniques, praticar desporto, descansar e conviver, em suma, um espaço simultaneamente grandioso e harmonioso, uma síntese, na verdade, de toda Baku.

Mas além da componente arquitetónica, há que realçar a vertente urbanística. As ruas são bem desenhadas, perfeitamente adaptadas para a circulação a pé, com um pormenor bastante curioso: os peões (pedrestes, para os amigos brasileiros) cruzam as grandes avenidas sempre por debaixo do chão, em segurança. O número de túneis, onde por vezes se encontra algum tipo de comércio ou um ou outro artista de rua, é impressionante. E há algo mais que também impressiona: o luxo patente em lojas, hotéis, edifícios e automóveis. É preciso não esquecer que o Azerbaijão tem petróleo e gás natural.

Apesar da riqueza e da boa organização evidentes em Baku, o mesmo não se passa seguramente no resto do país. Embora abundante em combustíveis fósseis, o PIB per capita do Azerbaijão é equivalente ao do Brasil e bastante inferior ao português. Além disso, o país é governado desde 1993 pela mesma família, os Aliyev, que se mantêm no poder através de um sistema pseudo-democrático, a que alguns chamam de Partido Dominante; isso significa que há partidos na oposição, mas nunca chegam ao poder. Por outras palavras, as eleições são fraudulentas. Além disso, o atual presidente, Ilham Aliyev, filho de Heydar Aliyev (um antigo oficial de elevada patente do KGB), pode manter-se indefinidamente no cargo graças a uma alteração à Constituição, aprovada pela Assembleia Nacional após um controverso referendo, realizado em março de 2009.

Museu de Tapeçaria do Azerbaijão.

Há duas personalidades nascidas no Azerbaijão que merecem o nosso destaque. Uma delas é Garry Kasparov, que apesar de ter nascido em Baku, viveu grande parte da sua vida na União Soviética e na Rússia, primeiro como membro do Partido Comunista, depois como opositor ao regime de terror implantado por Putin. Hoje vive no estrangeiro, exilado, tendo escrito um excelente livro — O Inimigo que Vem do Frio — onde previne o Ocidente livre sobre a necessidade de travar Putin a tempo, algo que nunca foi feito, permitindo que a ameaça russa crescesse da Geórgia para a Crimeia e depois para a Ucrânia. Kasparov mostra grande lucidez e compara o regime de Putin a uma verdadeira máfia. Além da atividade política desenvolvida, Garry Kasparov foi um exímio jogador de xadrez, um dos melhores de todos os tempos, e também por isso — nós que tanto apreciamos esse jogo — o admiramos.

A outra personalidade é Gubad Ibadoghlu, um economista que fundou o Movimento de Democracia e Prosperidade do Azerbaijão, em 2014, e que viu o seu registo como Partido da Democracia e Prosperidade, várias vezes rejeitado pelas autoridades. Na prática, a atividade política de Gubad — que denunciava a corrupção governamental e o desvio para benefício pessoal dos Aliyev das receitas do gás e do petróleo — foi ilegalizada. Perseguido, foi obrigado a sair do país. Em 2023 regressou com a mulher ao Azerbaijão para visitar a mãe doente, mas o carro em que seguiam foi albaroado e ambos foram agredidos e presos, tendo a mulher sido libertada depois. Doente, Gubad Ibadoghlu foi colocado em prisão domiciliária, mas é-lhe negado o tratamento necessário para a diabetes, pressão alta e problemas renais de que padece.

Apesar de ser um república democrática no papel, não existem eleições livres no Azerbaijão e o número de presos políticos tem vindo a crescer. A mulher do presidente do país é a atual vice-presidente.

Seja como for, e apesar da grande maioria da população azeri ser muçulmana (mais de 97%), Baku é uma cidade moderna, onde as pessoas andam à vontade e a larga maioria se veste dentro dos padrões ocidentais.

Celebrámos o 12º aniversário do nosso namoro no Dolma, em Baku.

Na última noite em Baku fomos jantar a um restaurante tradicional da cidade, o Dolma, que também é o nome de uma iguaria tradicional ali confecionada: carne moída enrolada em folhas de videira. Além disso, comemos cabrito no forno com puré de batata, frango, salada — e tudo estava realmente delicioso.

No dia seguinte fomos de autocarro para o aeroporto e despedimo-nos de Baku. Ao contrário do que acontecera com a Índia — quando as expectativas eram elevadas e de certa forma foram frustradas — em relação ao Azerbeijão as expectativas não eram elevadas, mas foram superadas no que toca à vida na capital, embora não possamos dizer o mesmo relativamente à vida das pessoas em todo o país, privadas de liberdade por mais um ditador despótico. Porque há tantos no poder e porque há tanta gente a apoiá-los — eis a questão que nos inquieta, sempre.

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Geórgia e Arménia

A nossa intenção inicial era visitar os três pequenos países entre o Mar Cáspio e o Mar Negro: Azerbaijão, Geórgia e Arménia, ficando alguns dias em cada um deles. A Geórgia teria de ser sempre o país do meio porque devido ao conflito entre a Arménia e o Azerbeijão (em Nagorno Karabakh) não é conveniente viajar (e muitas vezes nem há ligação) entre estes dois países. Mas depois descobrimos que há passeios de um dia à Arménia, desde a Geórgia, com guia. Assim, reservámos ainda em Portugal um desses tours, que incluía um almoço em casa de uma família local.

Apesar de haver autocarros do aeroporto para o centro de Tbilisi, optámos pelo táxi que nos deixou à porta do apartamento que tínhamos alugado para os nossos 6 dias na Geórgia, via Airbnb. Este apartamento está muito bem localizado e equipado, e foi uma excelente opção para a nossa estadia em Tbilisi. Assim pudemos fazer os pequenos almoços em casa e algumas outras refeições, poupando bastante dinheiro, pois a vida em Tbilisi, ao contrário do que se pensa geralmente, não é nada barata.

A caminho da Praça da Europa, na noite de 11 de maio de 2024, em Tbilisi.

Já sabíamos que havia grandes manifestações na Geórgia que, na época em que chegámos, estavam no auge. Em causa estava uma lei — que haveria de ser aprovada no parlamento durante o período em que estivemos em Tbilisi—, que ficou conhecida como “lei russa”, pois visava limitar a liberdade de imprensa, à semelhança de uma lei de 2012 vigente desde então no regime putinista. O que constatámos na Geórgia foi uma enorme vontade das gerações mais novas de se livrarem da pressão russa. Para tal, os georgianos só veem uma possibilidade: a entrada do país na União Europeia e, eventualmente, na NATO. Ora, esta “lei dos agentes estrangeiros” é um entrave às ambições dos georgianos de aderirem à UE (viola as condições de adesão), e é por isso que a presidente do país, Salome Zourabichvilli, uma europeísta convicta, tão veementemente se lhe opõe. O veto da presidente, porém, não foi suficiente para travar a lei, face à maioria dos deputados do partido Sonho Georgiano, no poder.

Tínhamos conhecimento desta situação quando chegámos à Geórgia e estávamos ansiosos por nos juntarmos às manifestações, que eram constantes. Logo no dia da nossa chegada, dia 11 de maio, sábado, assistimos a uma manifestação gigantesca que se concentrou na Praça da Europa. As pessoas empunhavam ou colocavam pelas costas bandeiras da Geórgia e da União Europeia. Estivemos horas, ali, e no dia seguinte comprámos uma bandeira da União Europeia para participar nas manifestações. Chovia bastante naquela noite, mas ninguém arredou pé.

A maioria das manifestações ocorre em frente ao Parlamento.

A nossa vida em Tbilisi foi, pois, passada nas manifestações. Claro que também deambulámos pela cidade, palminhámos o centro histórico, mas o nosso pensamento estava sempre nas manifestações que eram diárias e constantes. O nosso apartamento situava-se mesmo em frente ao parlamento, mas do outro lado do rio, numa colina. À noite ouvíamos perfeitamente os sons que vinham de lá, pois as manifestações nunca paravam, os georgianos faziam turnos para manterem os protestos durante o máximo de tempo possível.

Zezva, o guia que nos conduziu à Arménia, era também um dos manifestantes. Ele conduziu o carro sempre debaixo de chuva enquanto nos explicava — a nós e a um casal inglês, que éramos os seus clientes — a situação na Geórgia, o contexto histórico, a luta dos georgianos para se verem livres da influência russa. Recordo uma frase de Zezva que ficou gravada no meu cérebro: desde pequeno que ouço constantemente “não podemos irritar os russos, não podemos irritar os russos”, estou farto!

Ao ouvi-lo fiz interiormente uma pergunta que de vez enquanto me assalta. Como é possível termos nos nossos países livres gente que apoia ou tolera o regime de Putin? Não consigo compreender. Esses que ativa ou discretamente toleram Putin são os mesmos que deploram a União Europeia, o maior espaço de liberdade do mundo. E é a este espaço que os georgianos querem desesperadamente pertencer.

Haghpat, Arménia.

Visitámos alguns mosteiros na Arménia. Akhtala, e o complexo de Haghpat e Sanahin. No final estivemos em Sarahart, nas instalações de um teleférico, desativado há pouco tempo, que servia para transportar os trabalhadores das suas casas, cá em cima, para as minas de cobre, lá em baixo, ao lado da cidade mineira de Alaverdi. Esta região já foi georgiana, depois soviética e agora é arménia.

Junto ao mosteiro de Haghpat — uma obra-prima da arquitetura religiosa arménia, classificada como Património Mundial pela UNESCO, construído no século X —fica a casa onde almoçámos. Foi um almoço muito agradável e saboroso. Voltámos a provar o dolma, esse petisco tão difundido pela região do antigo império otomano, entre outras iguarias: um frango bem confecionado e uma salada que fez as delícias da Fla, queijos, pastéis e bom pão caseiro. Além disso pudemos conviver um pouco com uma família local e fruir de uma paisagem deslumbrante, pois esta casa situa-se ao lado do mosteiro, no topo de uma colina.

Depois do almoço em Haghpat. Nós, Zezva e o casal inglês.

Regressámos a Tbilisi e fomos diretamente para a porta do Parlamento onde ocorria mais uma manifestação. Zezva juntou-se-nos pouco depois. Ele traduziu para inglês muito do que se dizia por lá em georgiano, quer nos discursos dos oradores, quer nas palavras de ordem dos manifestantes. Os estudantes universitários estavam todos mobilizados, bem como muitos professores, e as universidades estavam fechadas. Já era bem de noite quando fomos para o apartamento. Continuámos a ouvir os sons da música, dos slogans, das ovações até adormecermos. Ainda hoje nos é impossível manter-nos indiferentes a esta luta.

É justo dizer que de vez em quando a polícia carregava sobre os manifestantes. Várias pessoas foram presas. Tivemos sorte em nunca termos estado num desses momentos, mas o grande aparato policial, com carros, carrinhas, canhões de água e centenas de elementos, deixava bem claro que os agentes do estado poderiam intervir a qualquer momento. Apesar disso ninguém desmobilizava, e muitos estavam protegidos com máscaras contra o gás lacrimogéneo.

Corte de rua pelos agentes da polícia junto ao parlamento de Tbilisi..

No dia seguinte, apesar de termos ido de novo ao Parlamento, fomos visitar a Galeria Nacional da Geórgia, que por acaso, fica muito perto, na mesma avenida. Vimos várias exposições, com destaque para as obras do mais conhecido artista plástico georgiano, Niko Pirosmani.

Fomos também à Academia de Arte de Tbilisi, na Avenida Rustaveli, mas, pelo caminho, à porta do Coliseu, tivemos uma agradável surpresa que comprova como o mundo é pequeno. Deparámos com o jornalista português, que muito admiramos, Henrique Monteiro. Conversámos um pouco e ficámos a saber que o Henrique tinha sido convidado para ir a Tbilisi dar uma palestra numa universidade. Aproveitando o ensejo, ele haveria de produzir uma belíssima reportagem, publicada no jornal Expresso do dia 24 de maio, sobre os acontecimentos que naquela altura ocorriam na cidade. Escreve Henrique nessa reportagem:

Olho pela última vez para jovens com bandeiras do seu país e da Europa, a lutar pela liberdade, e comparo-os, mentalmente, com os jovens dos EUA e da Europa a lutar pela Palestina, numa equação em que liberdade não entra, pelo contrário. Os primeiros têm esperança; os segundos apenas raiva. (aqui)

Foi um encontro feliz para nós, no qual pudemos constatar não sermos os únicos portugueses genuinamente sensibilizados com a determinação do povo georgiano na sua luta pela liberdade.

Fla e Henrique Monteiro à porta do Coliseu de Tbilisi.

À noite fomos jantar a um restaurante tradicional georgiano, o Mafshalia. Estávamos no dia da partida e quase no final da nossa viagem. Aproveitámos para provar alguns pratos típicos (carne de porco com batatas assadas, um frango com um molho um tanto ou quanto esquisito para o nosso gosto, saladas e pastéis) e um vinho branco caseiro muito agradável. Os preços são em conta, as doses bem servidas e o restaurante é típico, com uma sala comum e pequenos compartimentos privativos. Vale a pena.

De seguida fomos ao apartamento tomar um duche e pegar as malas para seguirmos, de autocarro, para o aeroporto. Despedimo-nos de Tbilisi com o desejo de que o povo georgiano alcance a liberdade. Em outubro há eleições na Geórgia e a oposição quer que estas sejam monitorizadas por observadores independentes. Mas a “lei russa”, entretanto aprovada, é um obstáculo à vinda de observadores estrangeiros. Tal como refere Henrique Monteiro, se os Estados Unidos e a União Europeia não pressionarem Putin, a Geórgia estará perdida.

Os nossos corações permanecem com Zezva e com os dois terços de georgianos que almejam a liberdade.

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Ankara, Turquia

O nosso regresso a Portugal fez-se via Turquia, e ficámos 14 horas em Ankara, aonde chegámos cerca das 5 e meia da manhã. Apanhámos um autocarro para o centro e fomos visitar alguns lugares da cidade. Pensávamos que o autocarro ia até o centro da cidade, e que aí seria a última paragem, mas a última paragem afinal era depois do centro, num terminal rodoviário fora da cidade. Tivemos, portanto, de comprar novo bilhete para apanharmos outro autocarro em sentido inverso para descermos no centro da cidade como pretendíamos. Lá chegados, o motorista abriu a porta da frente para entrarem os passageiros mas não abriu a porta de trás por onde era suposto sairmos. Pedimos para ele abrir a porta e ele começou a falar muito alto e percebemos que não queria abrir a porta; pelos gestos que fazia, entendemos que, segundo ele, teríamos de continuar a viagem até o aeroporto! Rapidamente furamos por entre as pessoas que estavam a entrar e conseguimos sair pela porta da frente, enquanto o motorista gritava enfurecido qualquer coisa para nós ininteligível. Ficámos abismados com este comportamento.

Vista sobre a cidade de Ankara.

Lá seguimos a pé até ao castelo de Ankara, de onde se avista quase toda a cidade. Ao redor fica a cidadela ou Cidade Antiga, bem preservada, com lojas de antiguidades, de artigos típicos e souvenirs, bares e restaurantes. Na volta parámos no Bogazici Lokantasi para almoçar. Trata-se de um excelente restaurante muito frequentado pelos locais mas também por alguns estrangeiros, como nós. Lá dentro tem uma montra enorme cheia de travessas de comida, e é só chegar e apontar para o que se pretende comer. A comida é mesmo muito boa. Um prato típico muito requisitado é um arroz com carne chamado Ankara Tava.

E nada mais há a registar digno de nota sobre Ankara. Apenas que aquele episódio com o motorista do autocarro nos fez pensar que a Turquia é talvez o país onde se manifesta mais abertamente o dilema muçulmano. De um lado os que hostilizam os estrangeiros ocidentais e se refugiam na tradição, na religião; e do outro os que desejam um estado laico, aberto e democrático, na linha protagonizada pelo fundador da Turquia moderna, Kemal Atatürk.

No Bogaziçi Lokantasi.

Um pouco antes da meia-noite aterrámos em Lisboa. Assim se concluía mais uma grande aventura e mais uma grande viagem. Em novembro está programada mais uma viagem de um mês, desta vez pela África.

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1 Nós perdemos a ligação para Seul porque o nosso voo que saiu de Lisboa para Amsterdão atrasou devido ao mau tempo neste aeroporto. Chegados a Amsterdão o nosso voo para Seul já tinha saído. Então a KLM enviou-nos um SMS e um e-mail a marcar novo voo que sairia às 9 da manhã. Dado que chegámos ao aeroporto de Amsterdão por volta das 2 da madrugada, ficámos pelo aeroporto mesmo. Por volta das 4 da manhã recebemos novo e-mail e SMS dizendo que o novo voo tinha sido cancelado “por motivos técnicos”. Tivemos de esperar até às 8 da manhã, hora em que abriu o balcão da KLM para que nos fosse remarcado novo voo. As filas eram enormes e tivemos horas à espera. No balcão só conseguiram marcar-nos voo para as 21 horas através da Korean Air.

Quando chegámos a Lisboa reclamámos junto da KLM mas responderam-nos que não tínhamos direito a indemnização. Primeiro disseram-nos que não tínhamos direito a receber indemnização porque o nosso voo desde Lisboa tinha atrasado devido ao mau tempo; depois, quando pacientemente voltamos a explicar que não era esse o voo em causa, mas o que eles tinham remarcado para as 9 da manhã do dia seguinte e depois cancelado, responderam-nos que ainda assim não tínhamos direito a indemnização porque os bilhetes não tinham sido emitidos. Reclamámos para a ANAC. Preenchemos o formulário indicado, enviamos os documentos solicitados, fizemos um breve descrição do ocorrido. Passadas três semanas recebemos um e-mail da KLM a dizer que iam enviar 1200,00€ para a nossa conta — e cumpriram.

Moral da história: nunca desistam de reivindicar os vossos direitos. Se a companhia aérea não concordar em indemnizar-vos, reclamem para a ANAC (Autoridade Nacional de Aviação Civil) ou para alguma congénere de outro país. Tratem diretamente com eles e não recorram a nenhuma das inúmeras empresas que existem na internet porque qualquer delas vai cobrar-vos cerca de metade do valor a que têm direito.

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