Marcelo

Fla e Marcelo na praia de Monte Gordo, Algarve.

Termina hoje o segundo e último mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto Presidente da República de Portugal. Depois de 60 anos intervindo na vida pública, Marcelo promete remeter-se ao silêncio no que toca à ação política, algo que contraria tudo o que fez até agora.

Eu costumava detestar Marcelo. Assistia aos seus comentários políticos, aos domingos na TVI, da mesma forma que vejo hoje Agostinho Costa, Tiago André Lopes ou Carlos Branco — simplesmente para discordar de quase tudo.

No entanto, paulatinamente, comecei a gostar de Marcelo. O período de viragem definitiva foi durante o ano de 2017, em junho e outubro, quando fogos florestais devastaram áreas enormes do nosso território, provocando centenas de vítimas mortais. Os sobreviventes de familiares mortos, de bens perdidos e de traumas difíceis de avaliar, precisaram de ajuda imediata, ainda que simbólica, de alguém que pudesse confortá-los. O Presidente assumiu exemplarmente esse papel, ao contrário de muitos outros, nomeadamente o então primeiro-ministro, António Costa. O contraste foi chocante e difícil de esquecer.

Não mais esqueci essa comunhão indesmentível de Marcelo com o povo, que continuou até hoje. Entretanto surgiu o chamado “caso das gémeas”, um duro golpe, notório e indisfarçável, ultrapassado com dificuldade, e Marcelo ficou claramente abalado. Foi uma lição para ele, tal como, com ele, eu aprendi várias lições. Somos seres multifacetados, imperfeitos e falíveis, sempre; mas podemos mudar e melhorar se tivermos a humildade genuína dos corações generosos e solidários — como mostrou Marcelo. E isso, seja no Presidente ou no mais humilde cidadão, é, sem dúvida, o mais importante.

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Christopher Sellars, o investigador de Vila Velha

Chris e a Pedra de Itamaracá (foto gentilmente cedida por Christopher Sellars).

Sempre que vamos a Vila Velha (esta é a quarta ou quinta vez) voltamos um pouco mais instruídos. Quase não acreditamos que já se passaram 14 anos desde que escrevemos um pequeno artigo sobre a igreja mais antiga do Brasil e cerca de 17 anos desde que conhecemos Christopher Sellars, em Vila Velha, em 2009! Ele é o único estrangeiro que vive dentro do perímetro que limitava no início do século XVI o povoado de Nossa Senhora da Conceição, atual Vila Velha, na Ilha de Itamaracá, estado do Pernambuco, Brasil. Naquela época, o povoado era todo ocupado por estrangeiros, hoje mora ali um único estrangeiro, mas não um qualquer: alguém que veio demonstrar que a história desta vila está mal contada e, com ela, toda a historiografia oficial sobre a colonização do Brasil, e não só.

Comecemos pelo início. Christopher Sellars, nascido no sul de Inglaterra, há 73 anos, chegou a este pequeno povoado, em 2006, a bordo de um buggy comprado no estado brasileiro do Paraná, depois de ter vivido três décadas no interior da América do Sul, sobretudo na Bolívia, e ter decidido, após esse período, explorar o litoral atlântico do continente. Conduziu o buggy pela costa, desde São Paulo, serpenteando durante meses por estradas litorâneas, até que chegou a Vila Velha. O seu destino era São Luís, no Maranhão, mas ao deparar-se com a soberba vista sobre o braço de mar, cuja designação em tupi foi escolhida para dar nome ao estado do Pernambuco, Chris deslumbrou-se.

Não foi o primeiro nem certamente será o último — a vista deste miradouro é realmente fantástica. A impressão produzida foi de tal ordem que ele decidiu, nas suas próprias palavras, “pendurar os chinelos”. Ali mesmo. Procurou uma casa para morar, comprou-a e, enquanto a reformavam, viveu uns tempos num espaço alugado. A casa que comprou situa-se num estreito parapeito natural, no topo de uma colina que desce, abruptamente, da vila até ao canal de Santa Cruz, que circunda a formosa ilha de Itamaracá. Em 2008, Christopher Sellars teve conhecimento, com espanto, de que a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (FUNDARPE) queria demolir as casas daquele pequeno terraço, com o argumento de que estavam construídas sobre um local histórico onde, supostamente, teriam sido colocados uns canhões…

Foi a partir daí que começou a investigar e não mais parou.

“O que eles foram fazer, mexeram com o inglês, agora vão sofrer as consequências!”, disse-me o meu amigo brasileiro, Ismael Northfleet, descendente de ingleses, enquanto voltávamos da visita que há dias fizemos a Chris, em Vila Velha, e da qual resultou este artigo. Na verdade, Mr. Sellars nunca se convenceu de que essas peças de artilharia estivessem posicionadas naquele local e descobriu que, de facto, os canhões nunca foram carregados até ao topo, antes ficaram estacionados no sopé da colina; e acabou por descobrir algo bem mais importante: a atual Vila Velha foi permanentemente povoada por europeus desde 1503 até hoje — e desse povoamento resultaram variadíssimos acontecimentos ignorados pela historiografia oficial.

O inglês de Vila Velha — deve ser assim que muitos o tratam por aqui — já foi mencionado e entrevistado várias vezes em reportagens televisivas, tem um canal próprio no youtube e já publicou dezenas de artigos relevantes na academia.edu. A pesquisa que vem realizando é por sua conta e risco, pois não é historiador profissional nem tem formação académica. E talvez por isso seja tão ignorado pelas entidades oficiais brasileiras, com algumas honrosas exceções, como seja a do IHAGGO (Instituto Histórico Arqueológico e Geográfico de Goiana). Isso não impede que Christopher Sellars tenha já desbravado o caminho para uma nova e mais fidedigna História da Colonização do Brasil. De acordo com as suas pesquisas, a primeira fortaleza, a primeira igreja e a primeira sinagoga do Brasil foram construídas, progressivamente, na Vila de Nossa Senhora da Conceição, atual Vila Velha, e isto, por si só, choca fortemente com o que é ensinado nas escolas e divulgado na imprensa, nas televisões e até nas redes sociais, no Brasil.

Chris é apaixonado pela descoberta. Em setembro último viajou até a Volta Grande do Rio Xingu para procurar a Pedra de Itamaracá, uma rocha ígnea perdida na selva desde há 140 anos. Encontrou-a (aliás encontrou não apenas essa pedra mas também outra, porque, como veremos, são mais do que uma) e nós fomos encontrá-lo, por nosso turno, ainda muito entusiasmado com essa descoberta. Eis o que resultou da conversa que tivemos há dias em Vila Velha, sendo que este registo e, no fundo, este artigo, constitui também a nossa homenagem a um homem que vem contribuindo, com o seu empenho, para dignificar a História, não apenas do Brasil ou de Portugal, mas, na verdade, de vários outros países envolvidos na colonização do Novo Mundo.

Em torno de um desenho de Vila Velha do século XVII.

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ilovealfama (ILA) – Chris, porquê esse tão grande interesse pela Pedra de Itamaracá?

Christopher Sellers (CS) – É um interesse lógico porque Itamaracá é o nome desta ilha. Desde que aqui cheguei, eu me interrogava sobre o significado do lema que li no Palácio da Prefeitura — “A pedra que canta”. Mas que pedra e que canto? Procurei respostas para esta pergunta e obtive algumas. Mas só na sequência da leitura de um artigo na Revista do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro do ano 1887, que tratava de uma expedição ocorrida no ano 1879 ao Baixo Xingu/PA, mais propriamente à zona da Cachoeira e Rio Itamaracá, se fez luz na minha mente. Pode-se imaginar a minha surpresa quando vi que a meta da expedição fora a Pedra de Itamaracá!    

ILA – E o que descobriste, desde então?

CS – Bom, é preciso dizer, em primeiro lugar, que a pedra de Itamaracá é na realidade um fonolito que, quando percutido com um martelo, ou outra pedra, emite um som forte parecido ao de um sino. E poderíamos dizer que o vocábulo “itamaracá” é, na realidade, sinónimo de “sino”, no sentido em que é um objeto duro que emite um som em tudo idêntico ao de um sino. Itamaracá é uma palavra composta, e geralmente o elemento “ita” é traduzido por “pedra” e “maracá” por “som”. Mas “ita”, que é efetivamente um substantivo, passou a ser também um adjetivo, que significa “duro”, depois da chegada dos europeus. Os índios ainda não tinham conhecimento dos metais usados pelos invasores, como o ferro e o bronze, e usaram o elemento “ita” no sentido de “dureza”. Isso levou-me a deduzir que, face à inexistência de qualquer outro objeto nesta ilha que soasse a quilómetros de distância, além do sino da igreja, fosse este sino a razão pela qual lhe foi dado o nome de Itamaracá.

ILA – Para provares isso quiseste sentir com teus próprios olhos e ouvidos a verdadeira pedra de Itamaracá…

CS –Sim. Há 140 anos que a Pedra de Itamaracá estava esquecida na Volta Grande do Rio Xingu. Em 1676, o padre jesuíta Pedro Poderoso fez uma breve menção à Pedra; e só duzentos anos mais tarde, houve uma verdadeira expedição, comandada por Ferreira Penna (fundador do museu Emílio Goeldi, em Belém) à qual se seguiu, 12 anos depois, uma outra, chefiada pelo francês Henri Coudreau, que fez alguns desenhos. No relato destas expedições são mencionados um rio, uma cascata e uma pedra de Itamaracá, que os indígenas consideravam sagrada. Finalmente, eu próprio redescobri esse complexo de pedras, mal desenhado por Coudreau, pois, na verdade, é de um conjunto de três pedras que se trata — a pedra cajituba, a pedra itamaracá e a pedra itapaúna — e fiz um filme onde apareço a bater com um martelo na pedra, reproduzindo o som de um sino. Há mais de dez anos que eu queria conhecer a Pedra, mas por vicissitudes várias ainda não tinha podido ir. Eu tinha muito receio de que a construção da nova barragem de Belo Monte viesse a inundar a região e eu não tivesse tempo, tinha de pôr-me a caminho. Consegui e, para mim, é fantástico isso!

ILA – E o dia em que chegaste à Pedra foi exatamente qual?

CS – Dia 3 de outubro de 2025.

ILA – Foi fácil lá chegar?

CS – Daqui à Volta Grande do Xingu são três dias de ônibus, e depois de chegar lá ainda demorei mais alguns dias até atingir o local onde estão as pedras. As populações mais próximas desconheciam completamente a existência da Pedra. Quando cheguei procurei os dois homens mais velhos de uma comunidade próxima, um desses anciãos era caçador e conhecia a mata, mas nunca tinha ouvido falar, sequer, da Pedra, ninguém sabia do que eu estava falando, devem ter pensado que era apenas mais um maluco que chegara ali. Pensei em contratar alguém para vir comigo, mas ninguém aceitou, pelo que fui sozinho, com a minha tenda e o meu pequeno fogão a gás… Num primeiro momento, apenas encontrei algumas pedras com gravuras, das quais não há qualquer registo, e não era isso que eu procurava. Continuei, mas foi difícil, pois encontrei mata densa e tive que abrir uma picada, trabalhando durante 4 ou 5 horas para avançar uns 300 metros. Além disso foi preciso transpor rochas enormes do tamanho de casas. Mas consegui. E verifiquei que os desenhos deixados por Coudreau deixam algo a desejar, são pouco rigorosos. Enfim, apesar de tudo tive muita sorte, pois cheguei àquela zona em finais de setembro e não demorei muito tempo até chegar às pedras, e consegui encontrar uma que os meus antecessores não descobriram — a Pedra Itapaúna. Ferreira Penna, Coudreau e, inclusivamente, o jesuíta Pedro Poderoso, há 400 anos, nenhum deles chegou à última pedra — a Itapaúna. Penna e Coudreau referiram que os índios lhes falaram dessa pedra, mas acontece que é extremamente difícil chegar lá, tanto é que eles não foram. Mas os índios não estavam mentindo — isto eu posso afirmar porque eu a encontrei.

ILA – Bom, mas a pedra principal é a de Itamaracá.

CS – Assim é. Mas como já disse há três pedras, sendo que, na verdade há duas mais importantes. Eu deixei escapar uma destas. Os desenhos de Coudreau revelam que à esquerda da Pedra de Itamaracá há uma pedra mais pequena que tem inscrições que parece serem duas letras, mas que na verdade não são letras. Essa pedra eu não encontrei. Mas quando cheguei aqui e comecei a rever as fotos e os vídeos que fiz no local, não é que num dos vídeos eu reconheci essa pedra? Constatei que passei por ela sem a reconhecer! É difícil encontrá-la porque está coberta com líquen, o que dificulta a identificação. Por isso conto viajar até lá de novo dentro de 2 ou 3 semanas. No entanto, a Pedra de Itamaracá está mais preservada porque está numa posição que a protege do sol e da chuva.

ILA – Para percorreres tantos quilómetros e ultrapassares tantos obstáculos, e estares disposto a fazê-lo de novo, só pode ser porque consideras mesmo muito importantes essas pedras…

CS – Sobretudo pelos petróglifos inscritos nelas. Não há dúvida que se trata de instruções ou informações. Pedras com desenhos similares existem por toda a América do Sul e em muitos outros lugares pelo mundo e eu calculo que as inscrições nesta pedra tenham no mínimo quatro mil anos. Além disso, podemos associar esses petróglifos a algo atual — o facto de que essa pedra soa — e isso pode ser o primeiro passo para decifrá-los e, em consequência, conhecermos muito mais sobre a vida dos indígenas sul-americanos de há milhares de anos. Pode ser uma nova Pedra de Roseta e corresponder ao início de uma pesquisa fascinante. E agora vou contar-vos algo que pode soar um pouco estranho, fantástico mesmo, mas essa pedra, a única e verdadeira Pedra de Itamaracá, antes da chegada dos europeus, era conhecida em toda a América do Sul, até às Caraíbas, e é o objeto mais reverenciado entre todas as tribos — é tupã.

ILA – É realmente fantástico, Chris, custa acreditar que realizaste esse sonho, e não há dúvida de que a tua exploração e a tua pesquisa podem (sem dúvida, deveriam) abrir caminho a uma melhor compreensão da vida dos antigos povos indígenas deste continente. Mas voltando um pouco atrás no tempo, meio-século antes desta tua viagem, qual foi o motivo da tua chegada à América do Sul?

CS – Bom, eu sempre fui um pouco aventureiro e sempre gostei de viajar. Habituei-me desde pequeno. Por exemplo, ia com meus pais nas férias anuais para países como as Grécia, Jugoslávia ou Turquia. E quando tinha 17 anos eu já viajava sozinho pelo Norte de África. Então, vir parar aqui foi uma coisa natural para mim, não posso dizer que houve uma motivo específico.

ILA – E ainda tens família em Inglaterra?

CS – Bom, da família próxima, que permaneceu por lá, apenas tenho uma irmã, mais nova que eu. E tenho dois filhos a viver em Inglaterra: a filha mais velha, que nasceu em 1978, precisamente lá, porque viajei com sua mãe desde a Bolívia para que isso acontecesse; e o meu único filho, que nasceu na Bolívia, em 1983. Esta minha filha fez a sua formação académica na Inglaterra e tem um mestrado na área do Ambiente; trabalhou vários anos no Chile numa empresa de controlo da mineração.

ILA – E tiveste mais filhos?

CS – Sim, tenho mais duas filhas brasileiras, de outra relação, que vivem com a mãe, aqui no Brasil.

ILA – E tiveste alguma vez um interesse particular em estudar História? Coloco-te estas questões mais pessoais, apenas para, de outra forma, tentar perceber se a tua decisão de vir para a América do Sul e se o teu percurso até chegares a Vila Velha tem alguma ligação com a investigação histórica que iniciaste.

CS – Não, nada específico. Obviamente, sempre tive uma curiosidade e um interesse gerais sobre o que me rodeia, mas quando cheguei aqui decidi ficar pela vista. A verdade é que eu fiquei mesmo emocionado com esta vista, a tal ponto que comprei uma casinha e decidi terminar aqui meus dias. Mas hoje estou um pouco desiludido. Enfim, eu cheguei aqui de buggy, tinha decidido explorar o litoral brasileiro. Quando cheguei, em 2006, comprei uma choça, que reconstruí, e depois de mais ou menos um ano e meio, a casa já estava habitável e eu fiquei então definitivamente aqui. Qual o meu espanto quando, após uns meses, apareceram uns funcionários da FUNDARPE que queriam demolir a minha casa, aduzindo que a mesma estava construída sobre uma plataforma de artilharia. Ora, eu sabia que nenhum português, nem nenhum holandês, iria colocar canhões num local que não precisava. A 50 metros de altura, os canhões não iam atirar para baixo, eles disparam na horizontal ou ligeiramente para cima; e o ponto branco dos canhões naquela época era de mais ou menos 400 metros. Eles disseram que havia ali uma bateria, mas tal é impossível, é ridículo. Eu mesmo disse isso aqui numa audiência com o Ministério Público. Então, para proteger o investimento que tinha realizado (risos), comecei a investigar e a descobrir mais e mais e mais… e era assombroso!

ILA – De acordo com a tua investigação, foi aqui que começou a colonização portuguesa, certo?

CS – Sim, esta vila era rodeada por um muro de taipa, com 2 metros de espessura por 4 metros de altura, que fechava uma área de mais de 20 hectares, era um assentamento perfeitamente organizado, uma verdadeira cidadela. Para se ter uma ideia, quando os holandeses conseguiram por fim tomar Vila Velha, em 1633, eles não conseguiram guarnecer completamente esse muro, por falta de soldados, e deixaram-no arruinar-se.

ILA – Mas muito antes da chegada dos holandeses, de acordo com a tua investigação, foi aqui que se construíram pela primeira vez várias edificações importantes.

CS –Sim, a primeira igreja, cuja construção em alvenaria eu calculo que se tenha iniciado em 1518, muito antes de Igarassu, S. Vicente ou qualquer outro lugar; a primeira fortaleza; e o primeiro engenho açucareiro. E mais tarde — e isto eu tenho absolutamente comprovado, basta ler um artigo que escrevi no academia.edu, em 2014 — a primeira sinagoga. Este lugar tem a primazia em relação a tudo o que se refere à colonização quinhentista do Brasil. E sabem o que é igualmente interessante (embora isso não pareça interessar aos historiadores)? Em 1636, Nassau foi contratado pela WIC, e os diretores e donos da companhia queriam que fosse aqui, precisamente aqui, instalado o centro administrativo de toda a atividade holandesa no Norte do Brasil. Eu tenho esse documento. O contrato foi celebrado em setembro de 1636 e publicado numa gazeta francesa, em Paris.

ILA – Quer dizer que o primeiro engenho açucareiro não foi montado em S. Vicente (Engenho do Bom Governador), como está amplamente divulgado, mas, antes, aqui?

CS – Essa história de S. Vicente não passa de papo furado. Vou contar-vos como se iniciou a exploração açucareira no Brasil. Em 1515, D. Manuel emitiu dois alvarás. O primeiro convidava seus vassalos a virem cultivar cana para o Brasil, sendo que a coroa pagaria a passagem, as ferramentas necessárias e ainda providenciaria ajuda técnica. O segundo alvará instruía a Casa da Índia a encontrar uma pessoa que tivesse conhecimento sobre plantação de cana de açúcar, e a Casa da Índia indicou o madeirense Pero Capico. Já se produzia açúcar na ilha da Madeira há 50 anos, e antes disso na Sicília — esse conhecimento foi transmitido aos europeus pelos Árabes. E foi Pero Capico quem construiu o primeiro engenho de açúcar no Brasil, aqui mesmo, em Itamaracá. Ele chegou em 1516, trazido por Cristóvão Jacques, um tipo assaz sanguinário e cruel, que alguns acreditam ter sido o fundador da primeira feitoria. Mas ele não fundou nada, antes afundou várias embarcações e se dedicou a enterrar inimigos até ao pescoço e depois matá-los com golpes na cabeça. Era um tipo extremamente belicoso, como era a maioria na época. Por exemplo, o castigo preferido de Sebastião Caboto (que ficou aqui por 3 meses, em 1526) era o corte de orelhas dos marinheiros insubordinados. Seja como for, há evidência de que houve exportação de açúcar daqui para a Europa a partir de 1516. Portanto, o primeiro engenho açucareiro foi construído aqui.

ILA – Por falar em tipos belicosos, lembrei-me do episódio de Pero Lopes com os franceses, sobre o qual já te ouvi falar noutras ocasiões.

CS – Ah, sim, isso envolve o famoso navio La Pèlerine. Havia um nobre francês, de Lyon, o barão de Saint Blanchard, almirante de embarcações que operavam no Mediterrâneo e tinham a sua base em Marselha no sul de França. Esse nobre decidiu meter-se no negócio do pau-Brasil. Então, ele armou uma pequena frota que chegou aqui nas vésperas do Natal de 1530. Os franceses acabaram brigando com os portugueses que aqui estavam, roubaram jóias e outros objetos da igreja, como castiçais de prata maciça, fizeram seis reféns e partiram sem sequer ficarem para o réveillon. Depois dessas escaramuças, viajaram para Sul e refugiaram-se na ilha de Santo Aleixo, onde ergueram uma bateria. Entretanto, em finais de fevereiro, inícios de março, chegaram aqui os irmãos Martim Afonso e Pero Lopes, que haviam saído de Portugal no dia 3 de dezembro de 1530. (Tudo isto está no diário de Pero Lopes, mas muitos historiadores, simplesmente, ignoram!). A propósito, Pero Lopes, em carta enviada ao Rei, atestou que a Vila de Conceição era fortificada, nela havia muitos portugueses, uma igreja, açúcar e pólvora, entre outras coisas, há dezenas de anos. Mas voltando à história que estava contando, algum tempo depois de terem chegado aqui, também os dois irmãos, Afonso e Lopes, se dirigiram para sul, rumo a S. Vicente. Já em 1531, Martim Afonso, que era o irmão mais velho, ofereceu a Pero Lopes uma nau francesa, que eles tinham capturado, e fê-lo comandante do navio. Pero Lopes decidiu regressar a Portugal. Quando chegou perto da ilha de Santo Aleixo e verificou que lá estava uma bateria francesa, bombardeou-a durante 18 dias consecutivos. Os franceses, que eram comandados pelo capitão de La Motte, tendo esgotado as munições, não tiveram alternativa e renderam-se. Lopes havia-lhes prometido clemência, mas a primeira coisa que fez foi enforcar La Motte junto com 20 soldados franceses, prendendo os restantes. Mas o pior pecado que cometeu — Pero Lopes era um cristão assumido — foi ter oferecido dois soldados franceses aos índios, para estes fazerem um churrasco. É por isso que no seu diário, há seis páginas que, apesar de numeradas, estão completamente em branco.

ILA – Quem as branqueou?

CS –Damião de Góis, que era guarda-mor da Torre do Tombo, em Lisboa, recebeu o diário de Pero Lopes, e antes de transcrevê-lo, enviou-o a Martim Afonso para revisão. Foi quando desapareceu o conteúdo das seis páginas. Pero Lopes já tinha morrido e era preciso defender a sua reputação. Foi por isso que o diário foi redatado e foram apagadas as seis páginas comprometedoras. É interessante observar que este episódio recambolesco, entre outros, começou precisamente aqui, em Vila Velha.

ILA – Esta centralidade da Vila de Nossa Senhora da Conceição, atual Vila Velha, nos primórdios do colonialismo português no Brasil, que, podemos dizer, tu desbravaste, indica que o povoamento europeu deste país (que é hoje um dos maiores do mundo) começou neste lugar onde nos encontramos. Que acontecimentos mais importantes revelam essa centralidade, podes enumerá-los cronologicamente?

CS – Bem, Vila Velha é continuamente povoada, pelo menos, desde 1503. Fernão de Loronha (Fernando de Noronha), que era um cristão-novo amigo pessoal de D. Manuel, obteve um contrato com a coroa para explorar os recursos brasileiros, sobretudo pau-Brasil, do qual se extraía um corante vermelho, muito procurado naquela época. (Esta madeira também é valorizada até hoje pelos fabricantes de arcos para instrumentos de cordas). Com esse contrato, Noronha financiou as expedições de Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio, de 1501 e 1503, sendo que, em 1504, D. Manuel outorgou a Fernando de Noronha o arquipélago homónimo, tornando-o capitão hereditário. Estes contratos estavam baseados em Vila Velha, tinham três anos de duração e foram renovados algumas vezes. Em 1512, a coroa estabeleceu este tipo de contrato com Jorge Lopes (Bixorda), o qual, no ano seguinte (1513) levou 3 indígenas Caetés ao rei D. Manuel. Já referi os dois alvarás emitidos em 1515 por D. Manuel e o início da exploração de cana, aqui, por Pero Capico. E talvez possa contar dois outros episódios da década de 1520 que revelam, sem margem para dúvidas, a centralidade desta vila. O primeiro relaciona-se com Sebastião Caboto, que estava encarregado de ir as Molucas com o patrocínio da coroa de Espanha, mas, por peripécias da navegação, veio parar a Vila Velha. Com ele vinha o padre português, Francisco Garcia, que afirmou estar a igreja de Nossa Senhora da Conceição equipada com tudo o que era necessário para a celebração da missa. Isto foi em 1526. Esta expedição, que fora financiada pelo empresário inglês Robert Thorne, residente em Sevilha, e levava na comitiva outros dois ingleses, Roger Barlow e Hugh Latimer, acabou por rumar à Argentina, depois dos habitantes de Vila Velha mencionarem a Caboto as riquezas existentes no rio de Soliz (rio da Prata). Foi ali que levantaram um forte — Sancti Spiritu— o primeiro assentamento europeu em terras argentinas, hoje com o nome de Puerto Gaboto.

ILA – E o segundo episódio?

CS – É uma carta de 1527 dirigida a Carlos V, e escrita em Vila Velha por D. Rodrigo da Cunha. Este espanhol embarcou numa expedição às Molucas, comandada por Loaísa, mas não conseguiu passar para o Pacífico, teve problemas com franceses que o lançaram ao mar numa chalupa (há uns baixios na região sul de Alagoas que ainda têm o seu nome), acabando por chegar a Vila Velha, com 12 membros da tripulação, onde pensava encontrar compatriotas, mas acabou por encontrar portugueses. Esse foi o motivo de uma segunda carta ao bispo de Osma (Garcia de Loaysa), que era quem tratava dos assuntos ultramarinos do imperador, Carlos V, queixando-se de estar aqui retido, em Vila Velha, sob controlo de Cristóvão Jacques, sem possibilidade de regressar à Europa.

ILA – A evidência sobre o papel central de Vila Velha nesse período histórico parece, de facto, esmagadora.

CS – E há mais documentos que o comprovam. Eu apresentei, num artigo publicado no academia.edu, cópias de cinco documentos manuscritos da década de 1530, relacionados com Diogo Vaz, que foi artilheiro-chefe da fortaleza de Vila Velha. Este reclamava, em carta datada de 15 de junho de 1535, ao chefe e aos funcionários das Lojas do Reino, por falta de salário. E a sua reclamação foi atendida. Mas o que estes documentos revelam é a existência de uma comunidade colonial em pleno funcionamento já no ano de 1531, quando os irmãos Martim Afonso e Pero Lopes aqui chegaram. A administração da vila tinha um capitão-mor e um escriba oficial; havia infraestruturas e uma fortaleza com pessoal suficiente para garantir o emprego de um chefe de artilharia — emprego que era bem remunerado, pois Diogo Vaz pôde comprar três escravos africanos. Por isso, quando Duarte Coelho chegou à então Vila da Conceição, no dia 9 de março de 1535, já aqui havia toda uma organização pronta para o receber. E, ao contrário do que é dito pela historiografia oficial, Duarte Coelho não estabeleceu a sua base no continente, no local que hoje é conhecido por Sítio dos Marcos, mas aqui mesmo, no local onde nos encontramos.

ILA – Chris, não gostas de falar disto, mas nós sabemos que sentes uma certa desilusão devido a, por um lado, seres ignorado por várias entidades oficiais, enquanto, por outro lado, és frequentemente plagiado. Tens dezenas de artigos publicados, que salvaguardam a titularidade de muitas das tuas investigações, mas a pergunta que se impõe é — para quando a publicação de um livro?

CS – Tenho sido demasiado preguiçoso para escrever, mas agora estou finalmente a pensar nisso. Aliás, tenho algum material inédito que não posso revelar-lhes neste momento, pois estou a pensar usá-lo nesse tal livro.

ILA – Excelentes notícias, Chris. Muito mais teríamos a perguntar-te, sobretudo sobre o período holandês, que, sabemos, tambémdominas muito bem, mas a nossa conversa já vai longa e deixaremos essas questões para uma outra oportunidade. Obrigado por nos receberes em Vila Velha e por nos concederes esta entrevista.

CS – Por nada, foi um prazer. Voltem sempre.

Chris e o nosso grupo de “inquiridores”, em Vila Velha. Voltaremos.

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Trump e Putin

Foto retirada de https://ilovealfama.wordpress.com/wp-admin/post.php?post=26392&action=edit

Trump e Putin são dois ditadores, amigos de conveniência, que não hesitam em derrubar chefes de estado de outros países para ampliarem o seu poder. Mas enquanto Trump acaba de fazê-lo cirurgicamente na Venezuela, sem a perda de um único soldado americano, Putin está a tentá-lo há quatro anos na Ucrânia, à custa de centenas de milhares de baixas russas (há quem fale em mais de um milhão) sem obter o resultado pretendido.

E porque Putin sacrifica estupidamente a vida de tantos jovens compatriotas (uma geração inteira) e Trump não?

Por três razões fundamentais.

Em primeiro lugar, porque pode. A Rússia é uma sociedade intoxicada, sem liberdade, onde somente a narrativa oficial conta, enquanto a América, apesar de Trump, ainda tem meios de comunicação livres.

Em segundo lugar, porque em termos económicos e tecnológicos, logo militares, a Rússia está a anos-luz dos Estados Unidos.

Em terceiro lugar, porque Putin já demonstrou que é um assassino para quem a vida humana não tem qualquer valor (ele vem da tradição em que “uma morte é uma tragédia, um milhão é uma estatística”), enquanto Trump, neste campo, é ainda um aprendiz.

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O Nobel da Paz

Medalha criada pelo escultor norueguês Gustav Vigeland. Patente no Centro Nobel da Paz, em Oslo.

O homem é um animal violento, tal como a maioria dos seus primos primatas, sendo que a agressividade humana ultrapassa largamente tudo o que qualquer outro animal é capaz de fazer. Graças às suas linguagem e inteligência, o homem é o único ser vivo que mata membros da sua própria espécie por puro sadismo e até por mera diversão.

A velha questão sobre a origem da violência humana — se é inata ou adquirida — está há bastante tempo resolvida. Somos, sim, naturalmente violentos — e os genes da agressividade estão inscritos no nosso ADN. Vários estudos convergem para este diagnóstico: a observação de outros primatas, a descoberta de ossadas e utensílios com milhares de anos, o acompanhamento de povos que vivem em regiões isoladas do globo, e a investigação levada a cabo por várias disciplinas científicas, com o uso de tecnologias de ponta, incluindo a que permite a observação da atividade cerebral, como sejam as imagens obtidas por ressonância magnética funcional (RMf).

Aceitar a realidade da nossa natureza não nos deve impedir de lutar contra ela, antes pelo contrário. A luta pelo controlo da Natureza faz parte da nossa história — é sobretudo para isso que serve a Ciência — e a luta contra a nossa própria natureza é talvez a mais difícil e a mais desafiadora.

No entanto, na esperança de que escapemos ao que os rousseauianos consideram um “determinismo biológico”, há quem negue o caráter evolutivo da nossa agressividade. Esta perspetiva tem-nos conduzido a tentativas radicais de mudança da sociedade, mesmo que para isso seja preciso uma revolução (e muita violência), uma vez que destruindo as instituições que tornam o homem mau, emergirá o homem naturalmente bom.

Uma perspetiva completamente diferente é a dos que reconhecem a violência humana, e por isso destacam o papel das intituições liberais e democráticas no seu controlo, em particular no que toca à violência mais letal — a guerra que vem ceifando a vida de milhões e milhões de seres humanos inocentes. Um homem que mate outro é justamente condenado, mas um ditador que mate milhões passa frequentemente impune. Isto é possível porque só o homem é capaz de se associar em coligações de agressão proativa, nas palavras de Richard Wrangham.

Só reconhecendo que estamos sempre sujeitos ao surgimento de líderes violentos e criminosos capazes de arregimentar e comandar essas coligações, poderemos prevenir-nos, zelando todos os dias pelas instituições capazes de controlá-los e afastá-los do poder.

Os rousseauianos, mas também os marxistas, que em geral são as mesmas pessoas, tendem a desvalorizar o papel das instituições democráticas no que diz respeito à prevenção da violência e da guerra, referindo, com razão, que muitas democracias liberais também são belicistas.

Esquecem-se, porém, de que o caminho para a paz é longo, árduo e tortuoso (faz parte da luta referida acima). Nesse processo há países mais avançados, com os estados do Norte da Europa à cabeça, mas também há, além disso, uma correlação direta e positiva entre democracia e paz: os países mais democráticos são igualmente os mais pacíficos.

Esta correlação está sempre presente no espírito dos membros do Comité Nobel Norueguês e corresponde a uma posição pragmática e tanto quanto possível objetiva que, obviamente, não agrada à maioria dos crentes das ideologias radicais.

Aqueles que admitiam ser possível a atribuição do Nobel da Paz a um pseudodemocrata como Donald Trump não conhecem os critérios de decisão, nem o espírito que norteia a ação, do Comité Nobel Norueguês.

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Democracia e Poder

A democracia caracteriza-se, em termos práticos, pela dispersão e, através desta, pelo controlo do poder. Quanto mais efetiva for essa dispersão, mais efetivo será também o controlo, e melhor será a qualidade da democracia. O poder disperso por muitas mãos é, portanto, a mais importante característica da democracia e todos os itens que medem a qualidade democrática se relacionam, de uma maneira ou outra, com essa característica.

Por exemplo, um sistema onde os membros do Supremo Tribunal sejam nomeados pelo poder político e tenham um mandato vitalício (Estados Unidos) é menos democrático que outro onde os membros do Supremo Tribunal sejam nomeados por uma comissão independente do poder político e cujo mandato tenha prazo de validade (Dinamarca). Esta não é uma questão menor: a independência judicial está em causa nos Estados Unidos (Trump), mas é muito mais estável nos países escandinavos, os mais democráticos do mundo.

A qualidade das instituições democráticas, proporcionada pela dispersão do poder, corporiza, nos países escandinavos, três vantagens evidentes: dignidade de tratamento concedido aos mais desvaforecidos (presos, doentes mentais, idosos em fim de vida), corrupção limitada, e uma atitude pacífica nas relações internacionais. Além disso, há maior igualdade e coesão social: é normal os políticos escandinavos se deslocarem, nas cidades, em transportes públicos ou de bicicleta e não se considerarem acima dos cidadãos comuns. Por isso não se apegam ao poder.

Se isto acontecesse noutras paragens, indivíduos aparentemente afáveis e simpáticos — Hitler era vegetariano, adorava animais e tinha um feitio afável e paternal; Pol Pot era um simpático e cordial professor de História Francesa; Estaline era um indivíduo extremamente calmo e raramente gritava ou se irava — não se teriam transformado em ditadores sanguinários.

Todos eles teriam continuado a ser fofinhos, e milhões de seres humanos teriam sido poupados, se não tivessem tido a possibilidade de concentrar em si todo o poder.

O poder é um mal necessário. Só a sua dispersão pelo maior número de mãos possível pode impedir que cause demasiado dano. É para isso que se criou a democracia; é por isso que temos de zelar por ela.

Celebra-se amanhã o Dia Internacional da Democracia. Porém, num mundo onde 72% da população mundial vive sob regimes autocráticos1, o tempo é menos de celebração e mais de combate. Lutar pela democracia liberal é não só um dever cívico, mas também um ato de solidariedade e resistência.

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1 https://www.eiu.com/n/global-themes/democracy-index/

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O antiamericanismo

O antiamericanismo em esquema.

Os Estados Unidos vêm intervindo militarmente um pouco por todo o mundo pelo menos desde a Primeira Guerra Mundial, sem contar com o período expansionista anterior. Além disso, os Estados Unidos intervieram também em variadíssimos países através da espionagem, do apoio político e financeiro a governos ou oposições com eles alinhados, incluindo a eliminação de políticos considerados inconvenientes. O rol é extenso e a América é considerada por muitos o pior país do mundo, o maior financiador de guerras e o mais letal, sendo o único que até hoje utilizou sobre populações indefesas duas bombas atómicas.

A ação dos americanos na Guerra Fria, de facto, uma guerra escaldante e terrível, motivada pelo medo, foi também muito negativa. O medo do comunismo fez com que os Estados Unidos fomentassem golpes militares, financiassem grupos armados e permitissem que se instalasse internamente um período negro que ficou conhecido por macarthismo. Uma verdadeira paranóia. A ação americana na Guerra Fria constitui, por isso, uma das principais razões do antiamericanismo. E embora a luta dos Estados Unidos fosse compreensível e, para aqueles que acreditam na liberdade, inteiramente justa, os meios usados, como acontece na maioria das guerras, foram um verdadeiro desastre.

Esse desastre provocou uma justificada hostilidade à América e, tendo em conta que os Estados Unidos são uma democracia liberal, houve quem desenvolvesse uma injustificada hostilidade ao sistema democrático, à ordem liberal e, amiúde, a todo o Ocidente. Esta hostilidade mais radical levou alguns a considerarem que todas as guerras em que os Estados Unidos se involvem são injustas, logo, é sempre justo estar do lado de quem se opõe aos americanos. Para quem adota, por princípio, este tipo de postura pouco importa o monstro que tenha de engolir: Estaline, Mao, Fidel, Putin ou Khamenei. Quando confrontados com tais personagens, os antiamericanos usam invaravelmente os termos do relativismo: alguns desses ditadores até podem ser maus, mas os americanos são ainda piores.

Isto equivale a dizer que a América é o mal absoluto, a fonte de todos os problemas do mundo, enquanto todo o restante mal, que também o há, claro, é relativo: eis o antiamericanismo primário. Mas serão os Estados Unidos, de facto, o pior país do mundo?

Ao longo da História sempre houve povos mais poderosos que outros. Por diversas razões, esses povos sempre exerceram o poder da força: ou porque eram atacados, ou porque queriam conquistar território, ou porque queriam impor a sua cultura aos demais, ou porque eram ambiciosos ou, simplesmente, porque podiam. Também houve alguns líderes poderosos pacíficos, mas isso só aconteceu em períodos em que o mundo estava ainda segmentado, não havia outros povos igualmente poderosos por perto, e o governante podia dedicar-se em exclusivo ao seu próprio povo. Mas nunca houve, que se saiba, um período de paz que abrangesse o mundo inteiro, sendo que a situação se agravou com o desenvolvimento dos transportes, com a facilidade de movimentar a máquina de guerra de um ponto do globo para outro.

Desde pelo menos a época dos Assírios que sempre houve impérios poderosos. Romanos, Árabes, Mongóis, Otomanos, Espanhóis, Holandeses, Franceses, Britânicos — todos foram expansionistas e dominadores nas suas zonas de influência. A partir da Grande Guerra (1914-18), os países, os chamados estados-nação, substituíram-se aos impérios. As grandes potências militares que emergiram da Primeira Guerra Mundial iriam confrontar-se na Segunda: Estados Unidos e Japão — hoje aliados.

Nunca houve, portanto, um período histórico sem potências dominantes. No último século, o papel de potência dominante (excetuando, talvez, o período da Guerra Fria) tem cabido aos Estados Unidos. E dado que a História nos mostra que não há vazios de poder, qual a potência alternativa seria melhor para o mundo? A resposta tem de ser procurada entre os potenciais inimigos dos americanos: Rússia, China, Coreia do Norte, Irão?

Desde logo, há que ter em conta que nestes países — todos autocracias — é muito mais fácil mobilizar o povo para a guerra. Com a comunicação social e as redes sociais controladas, bem como os tribunais e o sistema educativo, é fácil doutrinar toda a população contra o inimigo: previsivelmente, o malévolo Ocidente e o seu representante máximo, os Estados Unidos. A guerra poderia ser feita sem contestação.

Nos regimes democráticos, pelo contrário, os líderes políticos necessitam de aprovação de diversos tipos para fazer a guerra — desde maiorias parlamentares até à adesão da opinião pública. Apesar de ser desvalorizado por muitos, o tipo de regime está intimamente ligado à política externa e não é teoricamente aceitável, nem está experimentalmente comprovado, que uma Autocracia seja mais pacífica, pelo menos no longo prazo, que uma Democracia. Quem oprime os seus em casa não pode libertar os vizinhos.

Os Estados Unidos vieram em socorro da Europa nas duas guerras mundiais e na última Administração Biden fizeram frente ao ditador Putin, ajudando os ucranianos. Não são uma democracia perfeita, mas, embora com oscilações (e que grande “oscilação” é Trump!), têm melhorado continuamente. Apesar dessas melhorias são serem suficientes, enquanto se mantiverem uma democracia continuam a ter condições para melhorarem. O que não acontece com as outras superpotências militares, enquanto se mantiverem ditaduras. É por isso que os Estados Unidos são, por ora, a potência menos nociva para o Mundo.

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Migrações

A imigração é um tema atual nas sociedades mais desenvolvidas, sobretudo nos Estados Unidos e na União Europeia. Líderes populistas, como Trump, Le Pen ou Ventura, insurgem-se contra os imigrantes, acusando-os de sobrecarregarem os serviços públicos, receberem subsídios indevidos e contribuirem para o aumento da criminalidade. Tudo falso, como mostra Hein de Haas, através dos dados estatísticos publicados no seu livro Como Funciona Realmente a Migração.

De Haas baseia-se em dados quantitativos para desmontar aquilo a que chama de mitos — que políticos e comunicação social propagam sobre as migrações. Já Douglas Murray analisa o problema de um ponto de vista muito mais qualitativo. A questão que se coloca é a da identidade europeia: manterá a Europa as suas matrizes religiosa, cultural, civilizacional? Ou a presença muçulmana — com as suas misoginia e homofobia, o seu aproveitamento do liberalismo europeu — acabará por prevalecer?

Alarmismo injustificado, dirão alguns. Mas muitos muçulmanos atuais encontram-se, de facto, num mundo semelhante ao dos cristãos de outrora, quando lutar contra os infiéis era a mais importante ocupação de um homem de honra. (Cliff, 2011). E tal como acontecia com o cristianismo medieval, no mundo islâmico da atualidade a independência e a capacidade de iniciativa da sociedade civil podem ser medidas de forma mais adequada, não pela sua relação com o estado, mas pela sua relação com a religião, da qual, na percepção dos muçulmanos, o próprio estado é manifestação e instrumento. (Lewis, 2002).

A análise qualitativa de Murray, mostra-nos que as migrações não são todas iguais. É este o grande contraste com o livro de De Haas. Não faz sentido falar em guerra santa, quando as sociedades liberais em que vivemos desistiram de evangelizar o mundo. Mas o que devemos fazer quando o outro lado não desistiu de lutar e insiste num proselitismo por meios violentos? A resposta a esta importante questão não é unívoca, pelo contrário, é marcadamente ideológica, e é por isso que o livro de Murray é tão polémico. No entanto, ele alerta-nos para um problema que, ao contrário de De Haas, não deveríamos ignorar.

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Referências:

  • Cliff, Nigel, Guerra SantaComo as Viagens de Vasco da Gama Transformaram o Mundo, Globo Livros, São Paulo, 2012 (ed. orig. 2011).
  • De Haas, Hein, Como Funciona Realmente a Migração, Temas e Debates, Lisboa, 2024 (ed. orig. 2023).
  • Lewis, Bernard, O Médio Oriente e o Ocidente — O que Correu Mal?, Gradiva, Lisboa, 2003 (ed. orig. 2002).
  • Murray, Douglas, A Estranha Morte da Europa, Desassossego, Porto Salvo, 2018 (ed. orig. 2017).

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Vargas Llosa

Uma boa síntese do pensamento político de Llosa.

Morreu Mário Vargas Llosa, um escritor com uma clara faceta política, à semelhança de alguns colegas de profissão, seus contemporâneos, como García Márquez ou José Saramago. Não lemos muitos livros de Llosa (a lista pode ser consultada aqui), mas os que lemos são suficientes para percebermos que em todos eles, de ficção ou não-ficção, há uma defesa intransigente da liberdade. É isso que o distingue, por exemplo, de José Saramago, escritor que, do ponto de vista político, está nos antípodas de Llosa.

Estivemos há poucos meses na casa-museu José Saramago, em Lanzarote, e foi bastante interessante a visita (relatada aqui), inclusive por termos ficado a saber que, já perto do final da sua existência, Saramago recebeu, naquela bela moradia, Vargas Llosa. Não sabemos sobre o que conversaram. Mas sabemos que ambos os autores, sobretudo após receberem os respetivos prémios Nobel, percorreram o mundo dando entrevistas e conferências. Essas intervenções tinham um forte pendor político, e, sobretudo através delas, ambos se consolidaram como famosos ativistas políticos.

Dado que José Saramago era um típico pensador comunista, há uma tendência, nos seus apoiantes, de empurrar Llosa para a direita (ou mesmo para a extrema-direita), mas a verdade é que Vargas Llosa era um liberal clássico, inspirado em autores como Karl Popper, Isaiah Berlin ou Raymond Aron, amiudamente citados nas suas intervenções (por exemplo, aqui). Como temos dito, a liberdade não é de esquerda nem de direita — é a condição para que existam todas as gradações de direita e esquerda, inclusive aquelas que ameaçam a própria liberdade.

Liberdade nas suas mais variadas facetas: liberdade de expressão, liberdade de comércio, liberdade económica, liberdade de associação, reunião e manifestação, liberdade contratual, liberdade religiosa e, sobretudo, liberdade individual — a liberdade de cada um fazer da sua vida aquilo que lhe aprouver. É isto que é o liberalismo clássico, defendido por Mario Vargas Llosa: a emancipação do indivíduo relativamente a todas as formas de abuso do poder.

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O menino Toneca

Foto retirada de CNN Portugal.

Desde que começou a Guerra da Ucrânia, em fevereiro de 2022, passámos a conhecer uma série de comentadores e comentadoras, supostamente especialistas em relações internacionais, geopolítica, conflitos bélicos e indústrias de defesa. E se há coisa que esta guerra veio confirmar, é que mesmo os especialistas — talvez até sobretudo estes — não estão imunes aos preconceitos e às crenças em que estão imbuídos.

A CNN é a estação televisiva onde aparecem os mais acérrimos especialistas ideologicamente pró-russos. Dois deles, o major-general Agostinho Costa e o major-general Carlos Branco, são-no inequivocamente: Agostinho Costa antevê o colapso ucraniano em cada comentário e Carlos Branco aponta frequentemente a suposta intervenção americana na Ucrânia como a causa principal da invasão russa.

Mas há um terceiro comentador que não é tão explicitamente pró-russo quanto os acima referidos — embora acene afirmativamente a cabeça quando Agostinho Costa intervem e negativamente quando o comentário é de alguém pró-ocidental. Esse comentador, sobre quem recaiu uma notícia recente e pouco abonatória de um conhecido diário nacional (aqui), é o menino Toneca.

Toneca, que usa um anel proeminente numa das mãos papudas, gosta de puxar dos galões de historiador e professor universitário, não hesitando nos argumentos de autoridade, enquanto pontapeia sem piedade a gramática e a postura dos estadistas europeus, que, em sua opinião, não consideram devidamente a representatividade dos partidos populistas que se opõem ao apoio à Ucrânia.

Quando Zelensky foi atacado na sala oval, o menino Toneca disse que Trump tinha uma personalidade fleumática, não sendo, por isso, conveniente, para Zelensky, irritá-lo. Não surpreende que alguém que diz “deiam” e “intervido” se confunda com o significado de “fleumático”. Bem como não nos deve surpreender o apoio, quando não a admiração, que algumas pessoas nutrem por personagens deste calibre. O mundo está a passar por uma daquelas fases disruptivas onde vale tudo, desde as mentiras descaradas até as posições relativistas típicas dos radicais envergonhados, ou seja, dos sonsos. Entre estes, destaca-se, domesticamente, o menino Toneca.

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Três Anos de Guerra

Foto do portão de um armazém numa rua de Cabanas, Tavira.

Voltaram a transformar a Rússia no que ela

sempre foi: uma enorme prisão.

Giuliano da Empoli, O Mago do Kremlin.

Completam-se hoje três anos sobre a invasão russa em larga escala da Ucrânia. Não se conhece exatamente o número de vítimas, a não ser que ascendem, pelo menos, às muitas centenas de milhar. Quem conhece minimamente o percurso de Putin sabe que os que perecem sob as suas ações não são apenas vítimas de guerras — seja na Chechénia, na Ingúchia, na Ossétia, na Síria ou na Ucrânia. São também os seletivamente assassinados sob as suas ordens, diretas ou indiretas: oligarcas, opositores políticos, jornalistas, gente comum executada como exemplo ou morta em atentados de falsa bandeira (Satter, 2016) e recrutas sujeitos à disciplina imposta pelos avozinhos — militares mais velhos que torturam e assassinam barbaramente qualquer jovem que ponha em causa a lei das casernas (Politkovskaya, 2004).

O célebre campeão mundial de xadrez, Garry Kasparov, descreve assim os governos de Putin: a hierarquia rígida, a extorsão, a intimidação, uma imagem de duro, uma longa sequência de mortes convenientes entre os principais críticos, eliminação de traidores, o código de sigilo e lealdade, e, acima de tudo, um mandato para manter a entrada de receitas. Por outras palavras, uma máfia (Kasparov, 2015).

A liderança assassina da Rússia pode, portanto, considerar-se a causa próxima da invasão da Ucrânia pelo exército russo. No entanto, há uma causa mais profunda: a convicção de que a Ucrânia pertence e há-de sempre pertencer à Rússia. A tentativa de controlo da Ucrânia pela Rússia (e quando não é possível o controlo, a tentativa de destruição) é muito antiga, tem séculos, vem ocorrendo desde o tempo dos czares, passando pelos sovietes, até hoje. Após o colapso da União Soviética, os ucranianos manifestaram fortemente em referendo (mais de 92% dos votos), o seu desejo de independência, mas, mais de três décadas depois, foram de novo atacados. A propaganda oficial russa, para contentar o povo e justificar a invasão internacionalmente, diz-nos que a Rússia está a responder a uma ameaça da NATO. Mas os ideólogos e pseudo-historiadores em que Putin se inspira consideram a Ucrânia uma pequena Rússia, invocam a origem comum dos dois povos, e olham para qualquer tentativa de emancipação ucraniana como uma traição à Rússia. É esta a razão profunda desta guerra.

Porém, a ideia de que ucranianos e russos são o mesmo povo não corresponde aos factos — é um mito incutido há muito na sociedade russa com o intuito de dominar a Ucrânia. Os historiadores independentes referem que o Rus de Kyiv, que já existia no século X, se dividiu em vários estados semi-independentes. Os mais importantes desses estados eram a Galícia-Volínia, hoje parte de território ucraniano e parte do sul da Bielorrússia; a Grande Novgorod, a noroeste do antigo reino de Kyiv; e o principado de Vladimir — a nordeste do que viria a ser Moscovo — o núcleo da moderna Rússia.

Os russos podem, pois, considerar que as suas religião, linguagem escrita, literatura e arte tiveram origem no Rus de Kyiv, mas os viajantes de São Petersburgo e de Moscovo deparavam-se na região de Kyiv — ainda antes de esta ser invadida pelos mongóis, no século XIII — com língua, canções e cultura diferentes daquelas que conheciam nas suas terras. Mais tarde, já no último quartel do século XV, Ivan, o Grande, declarou-se herdeiro dos príncipes de Kyiv para reivindicar o direito de governar Novgorod — e assim nascia o mito da origem russa em Kyiv, que nunca mais abandonaria o imaginário russo. Para os russos a Ucrânia não existe porque Kiev e, logo, os ucranianos são russos (Plokhy, 2023).

É por isso que o objetivo primordial de Putin quando invadiu a Ucrânia em grande escala há três anos (como se sabe, as intervenções na Ucrânia já tinham começado muito antes) não era a conquista de território, mas a destruição da identidade ucraniana, visando ocupar Kiev e colocar no poder um presidente pró-russo que implementasse as políticas favoráveis a Moscovo. A narrativa do Kremlin, segundo a qual a invasão da Ucrânia foi uma resposta ao avanço da NATO, não passa, pois, de propaganda que não colhe entre os que conhecem a realidade histórica, mas se replica entre os inimigos das sociedades abertas.

Esta tentativa de destruição da identidade dos povos subjugados pelos russos tem uma longa tradição e é conhecida por russificação. Aconteceu na Estónia, na Letónia e na Lituânia, durante o período soviético, e acontece nos territórios que Putin vem anexando desde 2008, seja na Geórgia, na Crimeia ou no Donbass. O instrumento principal da russificação é obrigar as pessoas a falarem russo, proibindo as línguas locais. Uma língua diferente é considerada língua dos porcos e os que se opõem à russificação são considerados nacionalistas, fascistas ou, simplesmente, nazis. (Oksanen, 2024).

Daí não ser de todo surpreendente que os russos considerem o governo em Kiev como nazi — o que é verdadeiramente surpreendente é o número de pessoas que nas sociedades livres e democráticas replicam a narrativa russa. Claro que há nazis na Ucrânia. Há até ucranianos-nazis celebrados (Stepan Bandera é o exemplo mais citado), não tanto por serem nazis, mas sobretudo por terem lutado pelas independência e identidade do país. Também é verdade que houve elementos da extrema-direita na linha da frente da revolução EuroMaiden, por exemplo, quando os ucranianos obrigaram o presidente pró russo, Yanukovitch, compadre de Putin, a fugir para Moscovo. Mas isso não quer dizer que o governo ucraniano seja nazi, muito pelo contrário. Nem sequer quer dizer que a ideologia nazi tenha grande representação na sociedade ucraniana, uma vez que o partido Liberdade, de extrema-direita, obteve apenas 1,62% dos votos nas ultimas eleições. (Yekelchyk, 2020).

Se há um governo nacionalista, fascista e nazi no mundo, esse governo é o russo. Os nazis procuraram o extermínio dos judeus; Putin procura exterminar os ucranianos. As evidências de tentativa de genocídio do povo ucraniano são inequívocas, consubstanciadas em atos de terror, como os bombardeamentos deliberados sobre a população civil ou a deportação forçada de mais de meio milhão de crianças, e é por isso que recai sobre Putin um mandado de captura emitido pelo Tribunal Penal Internacional. A agressão russa é apoiada por grande parte do povo, por inúmeros intelectuais e por ideólogos como Alexander Dugin, que considera a Ucrânia uma ficção venenosa, Eduard Limonov, para quem a Ucrânia precisa de ser aniquilada, e Yegor Kholmogorov que advoga, simplesmente, o desmembramento e a destruição da Ucrânia. (Finkel, 2024).

A luta da Ucrânia é, pois, existencial. É uma luta para manter as suas fronteiras, mas sobretudo as suas língua, cultura e capacidade de decidir sobre o próprio destino, enfim, uma luta por uma identidade que remonta ao Rus de Kyiv e ao aparecimento daquele conjunto de aventureiros, homens livres e guerreiros a quem chamaram cossacos. Ameaçada ancestralmente por um país que a considera a Pequena Rússia, a Ucrânia só poderia reagir a esta nova invasão como reage um animal acossado: lutar ou fugir. O líder ucraniano, apoiado pela população, optou pela primeira possibilidade — e o custo dessa ousadia tem sido, como se sabe, muito elevado.

Ao contrário de Putin, a vida humana é valiosa para Zelensky. Tendo sobrevivido a dez atentados desde o início da guerra (Rudenko, 2022), a sua preocupação principal é evitar ao máximo a perda de vidas humanas. É por isso que é tão difícil admitir que tenha de ceder território, depois de tanta gente ter morrido a defendê-lo, enquanto, por outro lado, a continuação da luta implica ainda mais mortes. É este o terrível dilema com que Zelensky se confronta. Inevitavelmente, embora sem poder verbalizá-lo publicamente, Zelensky deplora o apoio a conta-gotas que recebeu de um Joe Biden, sempre temeroso, que apenas em final de mandato permitiu que os ucranianos usassem os mísseis de longo alcance em território russo. As hesitações americanas e europeias ficarão para sempre ligadas ao desfecho deste conflito.

Agora, com o ressurgimento de Trump, Putin tem finalmente uma oportunidade de salvar a face, e Zelensky tem de ultrapassar as suas ambições maximalistas, esquecer a recuperação total de território e agarrar-se ao fundamental: obter garantias de segurança para que a Federação Russa não volte a atacar, depois de alcançado uma acordo de paz, e assim manter a independência e a identidade ucranianas. Não sabemos até que ponto ele pode trocar as terras raras por um acordo que não lhe seja totalmente desfavorável, uma vez que Trump quer essas terras em troca da ajuda que os Estados Unidos já deram à Ucrânia durante estes três anos de guerra, e não em troca de garantias de segurança para o futuro. Trump pode pressionar Zelensky ameaçando-o com o corte de material militar, sendo crítico aquele que é necessário para as baterias que protegem as principais cidades ucranianas e, sobretudo, ameaçando cortar as informações disponibilizadas pelo sistema de telecomunicações Starlink, cruciais para as operações do exército ucraniano. Zelensky poderá mesmo não resistir a uma eventual pressão americana para o afastar do poder.

Seja como for, os líderes ocidentais, sejam europeus ou americanos, deveriam garantir a segurança da Ucrânia, depois do monumental falhanço do Memorando de Budapeste sobre Garantias de Segurança, assinado em 5 de dezembro de 1994. É um dever moral básico, implicitamente reconhecido por Bill Clinton, quando, em 2023, se mostrou arrependido por ter pressionado a Ucrânia a entregar as armas nucleares à Rússia. Os subscritores do memorando não garantiram a segurança da Ucrânia, traindo-a, e, com Trump, os ucranianos são traídos duplamente. Trump — cuja ligação à Rússia remonta ao início dos anos 90, quando oligarcas oriundos do KGB o salvaram da falência (Belton, 2020) — é uma desgraça para o mundo, para a América, e particularmente para a Ucrânia.

O Ocidente nunca entendeu o problema ucraniano. Fechou os olhos às atrocidades internas e externas de Putin, na esperança de uma normalização de relações, não percebendo que estava a lidar com o líder de uma máfia. Quando, finalmente, há três anos, reagiu, fê-lo timidamente. Agora, com Donald Trump, a esperança da Ucrânia — e de outros povos ameaçados pela Federação Russa, como os georgianos, os moldavos e os países bálticos — talvez não resida apenas numa Europa que acordou demasiado tarde. Há que ter em conta países influentes como o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália, o Canadá e a Turquia. Não sabemos se conseguirão pressionar o imprevisível Trump para que este garanta à Ucrânia, num volte-face pouco provável, a segurança ou a ajuda de que ela tanto necessita, assim como não sabemos, sequer, se Trump conseguirá acabar com a guerra, como tanto deseja.

Mas sabemos que é sobretudo nestes países que recai a esperança ucraniana. Os europeus, com o apoio de outras democracias, são os únicos que podem ajudar a Ucrânia se a esta não restar outra alternativa a não ser continuar a luta armada. Este apoio será necessário, mesmo contra a vontade de Trump. Muitos consideram que é um erro enfrentar e irritar um egocêntrico como Trump. Nós pensamos o contrário. É necessário enfrentar as personalidades autoritárias logo que possível, pois será mais difícil e custoso fazê-lo mais tarde. Isto revelou-se verdadeiro relativamente a Putin, que subiu a parada face à inércia dos líderes ocidentais, e continua a ser verdadeiro em relação a Trump, que não deixará de fazer o que quiser, se lho permitirem. As reiteradas mentiras, as tentativas de extorsão e a declarada intenção de saquear matérias primas e territórios, provam-no.

Trump, eleito depois de ter tentado destruir a democracia americana — e, só por isso, o pior presidente da História da América —, acusado em casos de falsificação, obstrução à justiça e conspiração, procura chantagear o mundo para tornar a “América grande de novo”. O que não é novo é a predileção que os autoritários como ele têm pelos verdadeiros autocratas. Trump admira homens fortes à custa dos mais desprotegidos, seja na Ucrânia ou em Gaza. E é por isso que é preciso enfrentá-lo. Mas, como? Desde logo, denunciando as mentiras que diga a nosso respeito, rejeitando firmemente as interferências na forma como nos governamos e, sobretudo, não alimentando qualquer ilusão a respeito do seu comportamento. Devemos preparar-nos para o pior e contar apenas com nós próprios. A Europa deve, desde já, investir na criação de condições para se defender sozinha.

Isto é possível, se houver vontade política. E como a defesa da Europa está intimamente ligada à defesa da Ucrânia, teremos inevitavelmente que ajudar os ucranianos, enquanto estes quiserem resistir. Teremos de acreditar que a identidade ucraniana prevalecerá, pois são os próprios ucranianos que nos provam que tal é possível, todos os dias. Uma Ucrânia, mesmo que diminuída em território (veremos até que ponto) mas reforçada em identidade e independência, constituirá uma derrota para os russos, pois sempre foi a identidade e a independência da Ucrânia que eles procuraram destruir. Claro que nunca irão dizê-lo, irão sempre cantar vitória, mas era esse o objetivo, frustrado pelos valorosos ucranianos, que Putin visava com a invasão iniciada em 24 de fevereiro de 2022. Os ucranianos poderão ser felizes, mesmo perdendo 20% do território, desde que saibam que os deixarão viver em paz. Isso só será possível se a Ucrânia obtiver garantias de segurança — e é por elas que Zelensky se baterá até ao limite das suas forças.

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Referências:

  • Anna Politkovskaya, A Rússia de Putin, Elsinore, Lisboa, 2022. (Ed. orig., 2004).
  • Anna Politkovskaya, Um Diário Russo, Temas e Debates, Lisboa, 2022. (Ed. orig., 2007).
  • Catherine Belton, Os Homens de PutinComo o KGB se apoderou da Rússia e depois atacou o Ocidente, Ideias de Ler, Lisboa, 2022. (Ed. orig., 2020).
  • Christopher Miller, The War Came to Us — Life and death in Ukraine, Bloomsbury, Londres, 2023.
  • David Satter, Quanto Menos Soubermos Melhor Dormimos, Zigurate, Lisboa, 2022. (Ed. orig., 2016).
  • Eugene Finkel, Intent to Destroy — Russia’s Two-Hundred-Year Quest to Dominate Ukraine, Basic Book, Londres, 2024.
  • Garry Kasparov, O Inimigo que vem do Frio — A liderança de Putin e a grande ameaça à paz mundial, Clube do Autor, Lisboa, 2022. (Ed. orig., 2015).
  • Giuliano da Empoli, O Mago do Kremlin, Gradiva, Lisboa, 2022.
  • Michel Eltchaninoff, Na Cabeça de Putin, Zigurate, Lisboa, 2022 (Ed. orig., 2015).
  • Sofi Oksanen, A Guerra de Putin contra as Mulheres — uma história antiga de violência e opressão, Objetiva, Lisboa, 2024.
  • Sergii Rudenko, Volodymyr Zelensky — Biografia, Casa das Letras, Alfragide, 2022.
  • Serhii Plokhy, The Russo-Ukrainian War, Allen Lane, Dublin, 2023
  • Serhy Yekelchyk, Ucrânia — O que toda a gente precisa de saber, Edições 70, Lisboa, 2020. (Ed. orig., 2015).

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