Christopher Sellars, o investigador de Vila Velha

Chris e a Pedra de Itamaracá (foto gentilmente cedida por Christopher Sellars).

Sempre que vamos a Vila Velha (esta é a quarta ou quinta vez) voltamos um pouco mais instruídos. Quase não acreditamos que já se passaram 14 anos desde que escrevemos um pequeno artigo sobre a igreja mais antiga do Brasil e cerca de 17 anos desde que conhecemos Christopher Sellars, em Vila Velha, em 2009! Ele é o único estrangeiro que vive dentro do perímetro que limitava no início do século XVI o povoado de Nossa Senhora da Conceição, atual Vila Velha, na Ilha de Itamaracá, estado do Pernambuco, Brasil. Naquela época, o povoado era todo ocupado por estrangeiros, hoje mora ali um único estrangeiro, mas não um qualquer: alguém que veio demonstrar que a história desta vila está mal contada e, com ela, toda a historiografia oficial sobre a colonização do Brasil, e não só.

Comecemos pelo início. Christopher Sellars, nascido no sul de Inglaterra, há 73 anos, chegou a este pequeno povoado, em 2006, a bordo de um buggy comprado no estado brasileiro do Paraná, depois de ter vivido três décadas no interior da América do Sul, sobretudo na Bolívia, e ter decidido, após esse período, explorar o litoral atlântico do continente. Conduziu o buggy pela costa, desde São Paulo, serpenteando durante meses por estradas litorâneas, até que chegou a Vila Velha. O seu destino era São Luís, no Maranhão, mas ao deparar-se com a soberba vista sobre o braço de mar, cuja designação em tupi foi escolhida para dar nome ao estado do Pernambuco, Chris deslumbrou-se.

Não foi o primeiro nem certamente será o último — a vista deste miradouro é realmente fantástica. A impressão produzida foi de tal ordem que ele decidiu, nas suas próprias palavras, “pendurar os chinelos”. Ali mesmo. Procurou uma casa para morar, comprou-a e, enquanto a reformavam, viveu uns tempos num espaço alugado. A casa que comprou situa-se num estreito parapeito natural, no topo de uma colina que desce, abruptamente, da vila até ao canal de Santa Cruz, que circunda a formosa ilha de Itamaracá. Em 2008, Christopher Sellars teve conhecimento, com espanto, de que a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (FUNDARPE) queria demolir as casas daquele pequeno terraço, com o argumento de que estavam construídas sobre um local histórico onde, supostamente, teriam sido colocados uns canhões…

Foi a partir daí que começou a investigar e não mais parou.

“O que eles foram fazer, mexeram com o inglês, agora vão sofrer as consequências!”, disse-me o meu amigo brasileiro, Ismael Northfleet, descendente de ingleses, enquanto voltávamos da visita que há dias fizemos a Chris, em Vila Velha, e da qual resultou este artigo. Na verdade, Mr. Sellars nunca se convenceu de que essas peças de artilharia estivessem posicionadas naquele local e descobriu que, de facto, os canhões nunca foram carregados até ao topo, antes ficaram estacionados no sopé da colina; e acabou por descobrir algo bem mais importante: a atual Vila Velha foi permanentemente povoada por europeus desde 1503 até hoje — e desse povoamento resultaram variadíssimos acontecimentos ignorados pela historiografia oficial.

O inglês de Vila Velha — deve ser assim que muitos o tratam por aqui — já foi mencionado e entrevistado várias vezes em reportagens televisivas, tem um canal próprio no youtube e já publicou dezenas de artigos relevantes na academia.edu. A pesquisa que vem realizando é por sua conta e risco, pois não é historiador profissional nem tem formação académica. E talvez por isso seja tão ignorado pelas entidades oficiais brasileiras, com algumas honrosas exceções, como seja a do IHAGGO (Instituto Histórico Arqueológico e Geográfico de Goiana). Isso não impede que Christopher Sellars tenha já desbravado o caminho para uma nova e mais fidedigna História da Colonização do Brasil. De acordo com as suas pesquisas, a primeira fortaleza, a primeira igreja e a primeira sinagoga do Brasil foram construídas, progressivamente, na Vila de Nossa Senhora da Conceição, atual Vila Velha, e isto, por si só, choca fortemente com o que é ensinado nas escolas e divulgado na imprensa, nas televisões e até nas redes sociais, no Brasil.

Chris é apaixonado pela descoberta. Em setembro último viajou até a Volta Grande do Rio Xingu para procurar a Pedra de Itamaracá, uma rocha ígnea perdida na selva desde há 140 anos. Encontrou-a (aliás encontrou não apenas essa pedra mas também outra, porque, como veremos, são mais do que uma) e nós fomos encontrá-lo, por nosso turno, ainda muito entusiasmado com essa descoberta. Eis o que resultou da conversa que tivemos há dias em Vila Velha, sendo que este registo e, no fundo, este artigo, constitui também a nossa homenagem a um homem que vem contribuindo, com o seu empenho, para dignificar a História, não apenas do Brasil ou de Portugal, mas, na verdade, de vários outros países envolvidos na colonização do Novo Mundo.

Em torno de um desenho de Vila Velha do século XVII.

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ilovealfama (ILA) – Chris, porquê esse tão grande interesse pela Pedra de Itamaracá?

Christopher Sellers (CS) – É um interesse lógico porque Itamaracá é o nome desta ilha. Desde que aqui cheguei, eu me interrogava sobre o significado do lema que li no Palácio da Prefeitura — “A pedra que canta”. Mas que pedra e que canto? Procurei respostas para esta pergunta e obtive algumas. Mas só na sequência da leitura de um artigo na Revista do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro do ano 1887, que tratava de uma expedição ocorrida no ano 1879 ao Baixo Xingu/PA, mais propriamente à zona da Cachoeira e Rio Itamaracá, se fez luz na minha mente. Pode-se imaginar a minha surpresa quando vi que a meta da expedição fora a Pedra de Itamaracá!    

ILA – E o que descobriste, desde então?

CS – Bom, é preciso dizer, em primeiro lugar, que a pedra de Itamaracá é na realidade um fonolito que, quando percutido com um martelo, ou outra pedra, emite um som forte parecido ao de um sino. E poderíamos dizer que o vocábulo “itamaracá” é, na realidade, sinónimo de “sino”, no sentido em que é um objeto duro que emite um som em tudo idêntico ao de um sino. Itamaracá é uma palavra composta, e geralmente o elemento “ita” é traduzido por “pedra” e “maracá” por “som”. Mas “ita”, que é efetivamente um substantivo, passou a ser também um adjetivo, que significa “duro”, depois da chegada dos europeus. Os índios ainda não tinham conhecimento dos metais usados pelos invasores, como o ferro e o bronze, e usaram o elemento “ita” no sentido de “dureza”. Isso levou-me a deduzir que, face à inexistência de qualquer outro objeto nesta ilha que soasse a quilómetros de distância, além do sino da igreja, fosse este sino a razão pela qual lhe foi dado o nome de Itamaracá.

ILA – Para provares isso quiseste sentir com teus próprios olhos e ouvidos a verdadeira pedra de Itamaracá…

CS –Sim. Há 140 anos que a Pedra de Itamaracá estava esquecida na Volta Grande do Rio Xingu. Em 1676, o padre jesuíta Pedro Poderoso fez uma breve menção à Pedra; e só duzentos anos mais tarde, houve uma verdadeira expedição, comandada por Ferreira Penna (fundador do museu Emílio Goeldi, em Belém) à qual se seguiu, 12 anos depois, uma outra, chefiada pelo francês Henri Coudreau, que fez alguns desenhos. No relato destas expedições são mencionados um rio, uma cascata e uma pedra de Itamaracá, que os indígenas consideravam sagrada. Finalmente, eu próprio redescobri esse complexo de pedras, mal desenhado por Coudreau, pois, na verdade, é de um conjunto de três pedras que se trata — a pedra cajituba, a pedra itamaracá e a pedra itapaúna — e fiz um filme onde apareço a bater com um martelo na pedra, reproduzindo o som de um sino. Há mais de dez anos que eu queria conhecer a Pedra, mas por vicissitudes várias ainda não tinha podido ir. Eu tinha muito receio de que a construção da nova barragem de Belo Monte viesse a inundar a região e eu não tivesse tempo, tinha de pôr-me a caminho. Consegui e, para mim, é fantástico isso!

ILA – E o dia em que chegaste à Pedra foi exatamente qual?

CS – Dia 3 de outubro de 2025.

ILA – Foi fácil lá chegar?

CS – Daqui à Volta Grande do Xingu são três dias de ônibus, e depois de chegar lá ainda demorei mais alguns dias até atingir o local onde estão as pedras. As populações mais próximas desconheciam completamente a existência da Pedra. Quando cheguei procurei os dois homens mais velhos de uma comunidade próxima, um desses anciãos era caçador e conhecia a mata, mas nunca tinha ouvido falar, sequer, da Pedra, ninguém sabia do que eu estava falando, devem ter pensado que era apenas mais um maluco que chegara ali. Pensei em contratar alguém para vir comigo, mas ninguém aceitou, pelo que fui sozinho, com a minha tenda e o meu pequeno fogão a gás… Num primeiro momento, apenas encontrei algumas pedras com gravuras, das quais não há qualquer registo, e não era isso que eu procurava. Continuei, mas foi difícil, pois encontrei mata densa e tive que abrir uma picada, trabalhando durante 4 ou 5 horas para avançar uns 300 metros. Além disso foi preciso transpor rochas enormes do tamanho de casas. Mas consegui. E verifiquei que os desenhos deixados por Coudreau deixam algo a desejar, são pouco rigorosos. Enfim, apesar de tudo tive muita sorte, pois cheguei àquela zona em finais de setembro e não demorei muito tempo até chegar às pedras, e consegui encontrar uma que os meus antecessores não descobriram — a Pedra Itapaúna. Ferreira Penna, Coudreau e, inclusivamente, o jesuíta Pedro Poderoso, há 400 anos, nenhum deles chegou à última pedra — a Itapaúna. Penna e Coudreau referiram que os índios lhes falaram dessa pedra, mas acontece que é extremamente difícil chegar lá, tanto é que eles não foram. Mas os índios não estavam mentindo — isto eu posso afirmar porque eu a encontrei.

ILA – Bom, mas a pedra principal é a de Itamaracá.

CS – Assim é. Mas como já disse há três pedras, sendo que, na verdade há duas mais importantes. Eu deixei escapar uma destas. Os desenhos de Coudreau revelam que à esquerda da Pedra de Itamaracá há uma pedra mais pequena que tem inscrições que parece serem duas letras, mas que na verdade não são letras. Essa pedra eu não encontrei. Mas quando cheguei aqui e comecei a rever as fotos e os vídeos que fiz no local, não é que num dos vídeos eu reconheci essa pedra? Constatei que passei por ela sem a reconhecer! É difícil encontrá-la porque está coberta com líquen, o que dificulta a identificação. Por isso conto viajar até lá de novo dentro de 2 ou 3 semanas. No entanto, a Pedra de Itamaracá está mais preservada porque está numa posição que a protege do sol e da chuva.

ILA – Para percorreres tantos quilómetros e ultrapassares tantos obstáculos, e estares disposto a fazê-lo de novo, só pode ser porque consideras mesmo muito importantes essas pedras…

CS – Sobretudo pelos petróglifos inscritos nelas. Não há dúvida que se trata de instruções ou informações. Pedras com desenhos similares existem por toda a América do Sul e em muitos outros lugares pelo mundo e eu calculo que as inscrições nesta pedra tenham no mínimo quatro mil anos. Além disso, podemos associar esses petróglifos a algo atual — o facto de que essa pedra soa — e isso pode ser o primeiro passo para decifrá-los e, em consequência, conhecermos muito mais sobre a vida dos indígenas sul-americanos de há milhares de anos. Pode ser uma nova Pedra de Roseta e corresponder ao início de uma pesquisa fascinante. E agora vou contar-vos algo que pode soar um pouco estranho, fantástico mesmo, mas essa pedra, a única e verdadeira Pedra de Itamaracá, antes da chegada dos europeus, era conhecida em toda a América do Sul, até às Caraíbas, e é o objeto mais reverenciado entre todas as tribos — é tupã.

ILA – É realmente fantástico, Chris, custa acreditar que realizaste esse sonho, e não há dúvida de que a tua exploração e a tua pesquisa podem (sem dúvida, deveriam) abrir caminho a uma melhor compreensão da vida dos antigos povos indígenas deste continente. Mas voltando um pouco atrás no tempo, meio-século antes desta tua viagem, qual foi o motivo da tua chegada à América do Sul?

CS – Bom, eu sempre fui um pouco aventureiro e sempre gostei de viajar. Habituei-me desde pequeno. Por exemplo, ia com meus pais nas férias anuais para países como as Grécia, Jugoslávia ou Turquia. E quando tinha 17 anos eu já viajava sozinho pelo Norte de África. Então, vir parar aqui foi uma coisa natural para mim, não posso dizer que houve uma motivo específico.

ILA – E ainda tens família em Inglaterra?

CS – Bom, da família próxima, que permaneceu por lá, apenas tenho uma irmã, mais nova que eu. E tenho dois filhos a viver em Inglaterra: a filha mais velha, que nasceu em 1978, precisamente lá, porque viajei com sua mãe desde a Bolívia para que isso acontecesse; e o meu único filho, que nasceu na Bolívia, em 1983. Esta minha filha fez a sua formação académica na Inglaterra e tem um mestrado na área do Ambiente; trabalhou vários anos no Chile numa empresa de controlo da mineração.

ILA – E tiveste mais filhos?

CS – Sim, tenho mais duas filhas brasileiras, de outra relação, que vivem com a mãe, aqui no Brasil.

ILA – E tiveste alguma vez um interesse particular em estudar História? Coloco-te estas questões mais pessoais, apenas para, de outra forma, tentar perceber se a tua decisão de vir para a América do Sul e se o teu percurso até chegares a Vila Velha tem alguma ligação com a investigação histórica que iniciaste.

CS – Não, nada específico. Obviamente, sempre tive uma curiosidade e um interesse gerais sobre o que me rodeia, mas quando cheguei aqui decidi ficar pela vista. A verdade é que eu fiquei mesmo emocionado com esta vista, a tal ponto que comprei uma casinha e decidi terminar aqui meus dias. Mas hoje estou um pouco desiludido. Enfim, eu cheguei aqui de buggy, tinha decidido explorar o litoral brasileiro. Quando cheguei, em 2006, comprei uma choça, que reconstruí, e depois de mais ou menos um ano e meio, a casa já estava habitável e eu fiquei então definitivamente aqui. Qual o meu espanto quando, após uns meses, apareceram uns funcionários da FUNDARPE que queriam demolir a minha casa, aduzindo que a mesma estava construída sobre uma plataforma de artilharia. Ora, eu sabia que nenhum português, nem nenhum holandês, iria colocar canhões num local que não precisava. A 50 metros de altura, os canhões não iam atirar para baixo, eles disparam na horizontal ou ligeiramente para cima; e o ponto branco dos canhões naquela época era de mais ou menos 400 metros. Eles disseram que havia ali uma bateria, mas tal é impossível, é ridículo. Eu mesmo disse isso aqui numa audiência com o Ministério Público. Então, para proteger o investimento que tinha realizado (risos), comecei a investigar e a descobrir mais e mais e mais… e era assombroso!

ILA – De acordo com a tua investigação, foi aqui que começou a colonização portuguesa, certo?

CS – Sim, esta vila era rodeada por um muro de taipa, com 2 metros de espessura por 4 metros de altura, que fechava uma área de mais de 20 hectares, era um assentamento perfeitamente organizado, uma verdadeira cidadela. Para se ter uma ideia, quando os holandeses conseguiram por fim tomar Vila Velha, em 1633, eles não conseguiram guarnecer completamente esse muro, por falta de soldados, e deixaram-no arruinar-se.

ILA – Mas muito antes da chegada dos holandeses, de acordo com a tua investigação, foi aqui que se construíram pela primeira vez várias edificações importantes.

CS –Sim, a primeira igreja, cuja construção em alvenaria eu calculo que se tenha iniciado em 1518, muito antes de Igarassu, S. Vicente ou qualquer outro lugar; a primeira fortaleza; e o primeiro engenho açucareiro. E mais tarde — e isto eu tenho absolutamente comprovado, basta ler um artigo que escrevi no academia.edu, em 2014 — a primeira sinagoga. Este lugar tem a primazia em relação a tudo o que se refere à colonização quinhentista do Brasil. E sabem o que é igualmente interessante (embora isso não pareça interessar aos historiadores)? Em 1636, Nassau foi contratado pela WIC, e os diretores e donos da companhia queriam que fosse aqui, precisamente aqui, instalado o centro administrativo de toda a atividade holandesa no Norte do Brasil. Eu tenho esse documento. O contrato foi celebrado em setembro de 1636 e publicado numa gazeta francesa, em Paris.

ILA – Quer dizer que o primeiro engenho açucareiro não foi montado em S. Vicente (Engenho do Bom Governador), como está amplamente divulgado, mas, antes, aqui?

CS – Essa história de S. Vicente não passa de papo furado. Vou contar-vos como se iniciou a exploração açucareira no Brasil. Em 1515, D. Manuel emitiu dois alvarás. O primeiro convidava seus vassalos a virem cultivar cana para o Brasil, sendo que a coroa pagaria a passagem, as ferramentas necessárias e ainda providenciaria ajuda técnica. O segundo alvará instruía a Casa da Índia a encontrar uma pessoa que tivesse conhecimento sobre plantação de cana de açúcar, e a Casa da Índia indicou o madeirense Pero Capico. Já se produzia açúcar na ilha da Madeira há 50 anos, e antes disso na Sicília — esse conhecimento foi transmitido aos europeus pelos Árabes. E foi Pero Capico quem construiu o primeiro engenho de açúcar no Brasil, aqui mesmo, em Itamaracá. Ele chegou em 1516, trazido por Cristóvão Jacques, um tipo assaz sanguinário e cruel, que alguns acreditam ter sido o fundador da primeira feitoria. Mas ele não fundou nada, antes afundou várias embarcações e se dedicou a enterrar inimigos até ao pescoço e depois matá-los com golpes na cabeça. Era um tipo extremamente belicoso, como era a maioria na época. Por exemplo, o castigo preferido de Sebastião Caboto (que ficou aqui por 3 meses, em 1526) era o corte de orelhas dos marinheiros insubordinados. Seja como for, há evidência de que houve exportação de açúcar daqui para a Europa a partir de 1516. Portanto, o primeiro engenho açucareiro foi construído aqui.

ILA – Por falar em tipos belicosos, lembrei-me do episódio de Pero Lopes com os franceses, sobre o qual já te ouvi falar noutras ocasiões.

CS – Ah, sim, isso envolve o famoso navio La Pèlerine. Havia um nobre francês, de Lyon, o barão de Saint Blanchard, almirante de embarcações que operavam no Mediterrâneo e tinham a sua base em Marselha no sul de França. Esse nobre decidiu meter-se no negócio do pau-Brasil. Então, ele armou uma pequena frota que chegou aqui nas vésperas do Natal de 1530. Os franceses acabaram brigando com os portugueses que aqui estavam, roubaram jóias e outros objetos da igreja, como castiçais de prata maciça, fizeram seis reféns e partiram sem sequer ficarem para o réveillon. Depois dessas escaramuças, viajaram para Sul e refugiaram-se na ilha de Santo Aleixo, onde ergueram uma bateria. Entretanto, em finais de fevereiro, inícios de março, chegaram aqui os irmãos Martim Afonso e Pero Lopes, que haviam saído de Portugal no dia 3 de dezembro de 1530. (Tudo isto está no diário de Pero Lopes, mas muitos historiadores, simplesmente, ignoram!). A propósito, Pero Lopes, em carta enviada ao Rei, atestou que a Vila de Conceição era fortificada, nela havia muitos portugueses, uma igreja, açúcar e pólvora, entre outras coisas, há dezenas de anos. Mas voltando à história que estava contando, algum tempo depois de terem chegado aqui, também os dois irmãos, Afonso e Lopes, se dirigiram para sul, rumo a S. Vicente. Já em 1531, Martim Afonso, que era o irmão mais velho, ofereceu a Pero Lopes uma nau francesa, que eles tinham capturado, e fê-lo comandante do navio. Pero Lopes decidiu regressar a Portugal. Quando chegou perto da ilha de Santo Aleixo e verificou que lá estava uma bateria francesa, bombardeou-a durante 18 dias consecutivos. Os franceses, que eram comandados pelo capitão de La Motte, tendo esgotado as munições, não tiveram alternativa e renderam-se. Lopes havia-lhes prometido clemência, mas a primeira coisa que fez foi enforcar La Motte junto com 20 soldados franceses, prendendo os restantes. Mas o pior pecado que cometeu — Pero Lopes era um cristão assumido — foi ter oferecido dois soldados franceses aos índios, para estes fazerem um churrasco. É por isso que no seu diário, há seis páginas que, apesar de numeradas, estão completamente em branco.

ILA – Quem as branqueou?

CS –Damião de Góis, que era guarda-mor da Torre do Tombo, em Lisboa, recebeu o diário de Pero Lopes, e antes de transcrevê-lo, enviou-o a Martim Afonso para revisão. Foi quando desapareceu o conteúdo das seis páginas. Pero Lopes já tinha morrido e era preciso defender a sua reputação. Foi por isso que o diário foi redatado e foram apagadas as seis páginas comprometedoras. É interessante observar que este episódio recambolesco, entre outros, começou precisamente aqui, em Vila Velha.

ILA – Esta centralidade da Vila de Nossa Senhora da Conceição, atual Vila Velha, nos primórdios do colonialismo português no Brasil, que, podemos dizer, tu desbravaste, indica que o povoamento europeu deste país (que é hoje um dos maiores do mundo) começou neste lugar onde nos encontramos. Que acontecimentos mais importantes revelam essa centralidade, podes enumerá-los cronologicamente?

CS – Bem, Vila Velha é continuamente povoada, pelo menos, desde 1503. Fernão de Loronha (Fernando de Noronha), que era um cristão-novo amigo pessoal de D. Manuel, obteve um contrato com a coroa para explorar os recursos brasileiros, sobretudo pau-Brasil, do qual se extraía um corante vermelho, muito procurado naquela época. (Esta madeira também é valorizada até hoje pelos fabricantes de arcos para instrumentos de cordas). Com esse contrato, Noronha financiou as expedições de Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio, de 1501 e 1503, sendo que, em 1504, D. Manuel outorgou a Fernando de Noronha o arquipélago homónimo, tornando-o capitão hereditário. Estes contratos estavam baseados em Vila Velha, tinham três anos de duração e foram renovados algumas vezes. Em 1512, a coroa estabeleceu este tipo de contrato com Jorge Lopes (Bixorda), o qual, no ano seguinte (1513) levou 3 indígenas Caetés ao rei D. Manuel. Já referi os dois alvarás emitidos em 1515 por D. Manuel e o início da exploração de cana, aqui, por Pero Capico. E talvez possa contar dois outros episódios da década de 1520 que revelam, sem margem para dúvidas, a centralidade desta vila. O primeiro relaciona-se com Sebastião Caboto, que estava encarregado de ir as Molucas com o patrocínio da coroa de Espanha, mas, por peripécias da navegação, veio parar a Vila Velha. Com ele vinha o padre português, Francisco Garcia, que afirmou estar a igreja de Nossa Senhora da Conceição equipada com tudo o que era necessário para a celebração da missa. Isto foi em 1526. Esta expedição, que fora financiada pelo empresário inglês Robert Thorne, residente em Sevilha, e levava na comitiva outros dois ingleses, Roger Barlow e Hugh Latimer, acabou por rumar à Argentina, depois dos habitantes de Vila Velha mencionarem a Caboto as riquezas existentes no rio de Soliz (rio da Prata). Foi ali que levantaram um forte — Sancti Spiritu— o primeiro assentamento europeu em terras argentinas, hoje com o nome de Puerto Gaboto.

ILA – E o segundo episódio?

CS – É uma carta de 1527 dirigida a Carlos V, e escrita em Vila Velha por D. Rodrigo da Cunha. Este espanhol embarcou numa expedição às Molucas, comandada por Loaísa, mas não conseguiu passar para o Pacífico, teve problemas com franceses que o lançaram ao mar numa chalupa (há uns baixios na região sul de Alagoas que ainda têm o seu nome), acabando por chegar a Vila Velha, com 12 membros da tripulação, onde pensava encontrar compatriotas, mas acabou por encontrar portugueses. Esse foi o motivo de uma segunda carta ao bispo de Osma (Garcia de Loaysa), que era quem tratava dos assuntos ultramarinos do imperador, Carlos V, queixando-se de estar aqui retido, em Vila Velha, sob controlo de Cristóvão Jacques, sem possibilidade de regressar à Europa.

ILA – A evidência sobre o papel central de Vila Velha nesse período histórico parece, de facto, esmagadora.

CS – E há mais documentos que o comprovam. Eu apresentei, num artigo publicado no academia.edu, cópias de cinco documentos manuscritos da década de 1530, relacionados com Diogo Vaz, que foi artilheiro-chefe da fortaleza de Vila Velha. Este reclamava, em carta datada de 15 de junho de 1535, ao chefe e aos funcionários das Lojas do Reino, por falta de salário. E a sua reclamação foi atendida. Mas o que estes documentos revelam é a existência de uma comunidade colonial em pleno funcionamento já no ano de 1531, quando os irmãos Martim Afonso e Pero Lopes aqui chegaram. A administração da vila tinha um capitão-mor e um escriba oficial; havia infraestruturas e uma fortaleza com pessoal suficiente para garantir o emprego de um chefe de artilharia — emprego que era bem remunerado, pois Diogo Vaz pôde comprar três escravos africanos. Por isso, quando Duarte Coelho chegou à então Vila da Conceição, no dia 9 de março de 1535, já aqui havia toda uma organização pronta para o receber. E, ao contrário do que é dito pela historiografia oficial, Duarte Coelho não estabeleceu a sua base no continente, no local que hoje é conhecido por Sítio dos Marcos, mas aqui mesmo, no local onde nos encontramos.

ILA – Chris, não gostas de falar disto, mas nós sabemos que sentes uma certa desilusão devido a, por um lado, seres ignorado por várias entidades oficiais, enquanto, por outro lado, és frequentemente plagiado. Tens dezenas de artigos publicados, que salvaguardam a titularidade de muitas das tuas investigações, mas a pergunta que se impõe é — para quando a publicação de um livro?

CS – Tenho sido demasiado preguiçoso para escrever, mas agora estou finalmente a pensar nisso. Aliás, tenho algum material inédito que não posso revelar-lhes neste momento, pois estou a pensar usá-lo nesse tal livro.

ILA – Excelentes notícias, Chris. Muito mais teríamos a perguntar-te, sobretudo sobre o período holandês, que, sabemos, tambémdominas muito bem, mas a nossa conversa já vai longa e deixaremos essas questões para uma outra oportunidade. Obrigado por nos receberes em Vila Velha e por nos concederes esta entrevista.

CS – Por nada, foi um prazer. Voltem sempre.

Chris e o nosso grupo de “inquiridores”, em Vila Velha. Voltaremos.

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Humberto Correia

Humberto Correia já iniciou a corrida que espera vencer em 2026.

Natural de Moncarapacho, viveu em França e viajou por vários países, até que regressou ao Algarve, onde vive atualmente. Depois de se ter candidatado à Câmara de Faro, decidiu dar um salto de gigante e, aos 62 anos, está a angariar assinaturas para se candidatar à Presidência da República, em 2026. Encontrámo-lo no coração de Faro, no Jardim Manuel Bivar, junto à banca onde expõe os seus quadros e vários exemplares do livro autobiográfico, traduzido em várias línguas, As Pulgas da Minha Infância. Foi aí que nos concedeu a pequena entrevista que se segue, entrecortada por abordagens aos transeuntes para angariação de assinaturas.

Humberto Correia (HC): Para conquistar uma assinatura eu tenho de abordar entre 30 a 50 pessoas! É a média…

ilovealfama (ila): Tanto?

HC: Ah, pois! Mas as assinaturas eu vou conseguir. E com um ano de avanço! Já alcancei os 3/4 [das 7500] mas quero chegar às 10 mil para ter margem suficiente. Tenho de conseguir uma média de 150 assinaturas por mês. Então, no dia 15 de janeiro tenho de chegar às 6000 assinaturas. Hoje eu cheguei às 5850. Tenho que manter o objetivo de angariar 150 assinaturas por mês, no mínimo.

ila: Algumas podem ser anuladas, não é?

HC: Não é só isso. As pessoas assinam duas folhas que são a declaração de proponente e um pedido de certidão de eleitor, e eu depois tenho que fazer de cada proponente um pedido de certidão de eleitor. Tenho que entregar no Tribunal Constitucional 24 mil folhas, 3 de cada pessoa. E então o que é que se passa? Quando é um proponente aqui de Faro, vou ali à Junta, entrego o papel, e uma semana depois dão-me a certidão. Mas quando é de Bragança, por exemplo? Tenho de mandar pelo correio: só o trabalho de mandar as cartas, comprar os envelopes e os selos, está a ver?

ila: Isto parece estar mesmo feito para dificultar a vida a quem está fora do sistema. Podemos agora fazer-lhe algumas perguntas sobre o seu trajeto — o senhor é daqui do Algarve?

HC: Eu nasci na freguesia de Moncarapacho. Atualmente estou a viver em Olhão. Tenho 62 anos e só tenho a 4ª classe. Saí da escola para começar a trabalhar aos 10 anos de idade, declarado. Andei em quatro escolas. No Pereiro, que é um sítio por cima de Moncarapacho, depois andei em Olhão, depois andei em Bias (perto da Fuseta) e a última foi em Armação de Pêra.

ila: Ah, então terminou a escola já no Barlavento. E depois, imagino, começou a trabalhar.

HC: Exato. Entrei no mercado de trabalho em 1971.

ila: Muito novo…

HC: Era grume, carregava malas num hotel. Está a ver aqui esta fotografia? Sou eu a trabalhar com dez anos. Aqui já tenho 14 anos. E aqui neste cartão, 10 anos, está a ver?

ila: Qual era o hotel?

HC: Hotel Garbe, hoje chama-se Holiday, Hotel Holiday. Trabalhei de 71 a 72 no Hotel Carmo e uma parte ainda de 73, depois saí e fui mais para cima trabalhar no Hotel do Levante, que hoje é uma escola hoteleira. Trabalhei no Hotel do Levante em 73,74 e 75. Em 1976 fui para França. Comecei a trabalhar em França aos 16 anos numa fábrica de tripas: tripa natural e tripa artificial. Tive sorte porque estava na parte de tripa artificial, porque só o cheiro afastava muita gente!

ila: E ficou por França quanto tempo?

HC: 27 anos. Trabalhei em várias fábricas: essa de tripas, depois numa fábrica de armas, numa filial da Manufrance. Depois trabalhei numa extração de cascalho e areia, à beira de um rio; depois trabalhei a cortar perus à corrente, de 5 em 5 segundos fazia a mesma coisa, durante três anos: eles vinham e eu fazia 3 cortes; depois fui para a construção civil. Regressei definitivamente a Portugal em 2003, tinha eu 42 anos.

ila: Casou, tem filhos?

HC: Casei, a minha ex-mulher é portuguesa, sou divorciado, os meus filhos são franceses, mas lusodescendentes. Tive primeiro uma filha e depois um filho. Fui pai aos 19 anos e assumi.

ila: Eles vivem em França?

HC: Sim. E estão bem, felizmente.

ila: E atualmente o que é que o senhor faz?

HC: Desde que regressei definitivamente a Portugal, dediquei-me a pintar na rua. Vivo da minha pintura há 20 anos. Só faço isto.

ila: Mas entretanto escreveu um livro…

HC: Sim, é um livro sobre a minha infância. O título do livro é “As Pulgas da Minha Infância”. Termina com a minha chegada a França.

ila: São o primeiros 16 anos, digamos assim.

HC: Exatamente.

ila: Quando é que o senhor teve pela primeira vez a ideia ou sentiu vontade de se propor a concorrer à Presidência?

HC: Esta ideia já vem desde a altura em que fui candidato à Câmara de Faro, em 2017. E a seguir às eleições fiquei tão desiludido que pensei: “as próximas é a República”. Esperei quatro anos para me preparar. É preciso preparação, não é fácil…

ila: E quais foram as principais razões que o levaram a candidatar-se?

HC: Três coisas. Primeiro, a política: em relação à minha idade, é uma excelente ocupação; segundo, somos governados por pessoas que vivem fora da realidade; e terceiro, a miséria de muita gente: as pessoas, mesmo a trabalhar, não conseguem pagar uma renda de casa. Vou avançar com uma única proposta: impor o cumprimento do artigo 65 da Constituição. Atualmente este é de longe o maior problema do povo português.

ila: Para além desse problema, com certeza que existem outros, mas essa, digamos, é a sua principal bandeira, é isso?

HC: Sim, quando eu falo com as pessoas eu vejo que esse é o principal problema nacional. As pessoas não têm filhos porque não têm habitação; as pessoas emigram por causa da habitação, porque não conseguem viver aqui; os jovens ficam a morar com os pais porque não têm como pagar casa; as mulheres que sofrem violência doméstica não podem sair de casa sem terem habitação. Praticamente tudo está relacionado com a habitação, pelo menos muita coisa.

ila: Qual o seu posicionamento político-ideológico, se é que tem algum?

HC: Nunca fiz parte de qualquer partido político. Mas não sou de esquerda nem de extremos.

ila: Então considera-se, talvez, do centro-direita?

HC: Por aí.

ila: Candidata-se para ganhar ou apenas para veicular as suas ideias?

HC: “Veicular” é o que eu já faço há 31 meses. Quando eu jogo é para ganhar.

ila: Há alguém que tenha influenciado o seu pensamento político ou nem por isso?

HC: São múltiplas influências. Desde logo, a comunicação com as pessoas ao longo destes 31 meses. E depois a leitura. Eu tenho lido muito sobre a História de Portugal, começando pelo início da nacionalidade, depois os vários períodos dinásticos, e a República. Li a História de Portugal várias vezes. Li muito o Salazar. E vou lendo tudo o que me interessa sobre a História de Portugal e a política portuguesa.

ila: Então, interessa-se sobretudo pela política nacional?

HC: Sim. E sou mais conservador que liberal.

ila: Como é que avalia os mandatos do atual presidente, Marcelo Rebelo de Sousa?

HC: O professor Marcelo vem de uma máquina partidária. E para mim os partidos políticos são farinha do mesmo saco. É por isso que eu defendo o presidencialismo e não o parlamentarismo.

ila: Um regime do tipo francês?

HC: Exatamente.

ila: Mas você sabe que não vai ter poder para alterar a Constituição…

HC: Eu sei, eu sei.

ila: Vai ter que se cingir às regras atuais e jogar dentro do sistema vigente.

HC: Eu vou cumprir a Constituição, mas digo, desde já, que não concordo com ela. Nesse ponto.

ila: Então defenderia igualmente um sistema com duas câmaras no parlamento, à semelhança do que se passa em França e noutros países com uma câmara “alta” e uma câmara “baixa”?

HC: Isso para mim não é importante. Eu acho que há deputados a mais. A minha proposta seria de 20 deputados, não mais.

ila: Vinte!?

HC: Vinte deputados, com o direito de destituírem o presidente. Vinte deputados — um por distrito. É com essa proposta que eu vou avançar.

ila: E depois cada deputado deve ter uma série de assessores, ajudantes, não? Para o necessário trabalho legislativo, acha que vinte deputados chegam?

HC: Há deputados a mais, há políticos a mais em Portugal. Isto é a minha opinião.

ila: Portugal já teve vários presidentes, desde a primeira República. Há algum com o qual o senhor mais se identifique?

HC: Há dois.

ila: Quais?

HC: Óscar Carmona e Ramalho Eanes. Foram dois homens que governaram em épocas muito difíceis. E conseguiram manter o país. Dedicaram-se à nação e não aos partidos políticos. Isso faz toda a diferença.

ila: Em Portugal o presidente não governa, como sabemos. Mas se fosse candidato a primeiro-ministro e a governar o país, quais as 3 ou 4 medidas mais importantes que incluiria num programa eleitoral? A primeira já vimos que se dirigiria à habitação, e as outras?

HC: A segunda seria a educação. Seguiria o modelo francês. Escola obrigatória para todas as crianças a partir dos 3 anos de idade, gratuita e de qualidade. E a terceira seria plantar 500 mil hectares de floresta nativa. A destruição dos ecossistemas e as alterações climáticas vão ser o maior problema da humanidade. Na minha opinião a melhor forma de combater isso é plantando florestas. Florestas nativas, não eucaliptos e pinheiros. Seriam estas as minhas três prioridades, sendo que a habitação é, sem dúvida, a principal.

ila: Como acha que o problema da habitação poderia ser resolvido?

HC: Só há um caminho: o Estado tem que construir e arrendar a preços acessíveis. Seria possível construir em três dimensões: 30m2, 50m2 e 80 m2 , a 3 euros o metro quadrado, o que faria no caso dos 30 m2, 90 euros mensais; no caso dos 50 m2, 150 euros mensais; e quanto aos 80 m2, 240 euros mensais. É a única solução. De outra forma as pessoas, mesmo a ganhar 1000 euros por mês, não conseguem ter uma vida decente. Aqui em Faro você não encontra uma casa para alugar a menos de 700/800 euros por mês. É por isso que somos o segundo país com a taxa de natalidade mais baixa da Europa e o quinto país mais envelhecido do mundo. Morrem três portugueses, nascem dois, e um destes dois vai emigrar. Isto é gravíssimo. Para modificar esta situação é preciso resolver o problema da habitação. A habitação é fundamental para o ser humano.

ila: Sente-se preparado para debater com políticos profissionais de peso que eventualmente podem também candidatar-se às próximas eleições presidenciais, como António Costa e André Ventura?

HC: Quanto mais peso melhor. São mesmo esses que eu quero enfrentar. Quanto mais peso eles tiverem melhor para mim. A rota é para cumprir, custe o que custar.

ila: Qual considera que poderá ser a sua melhor arma para combater a experiência desses potenciais candidatos?

HC: A minha experiência de vida. Eu sou parte do povo português, conheço as suas dificuldades, o seu sofrimento, os seus problemas, por isso sinto-me otimista e muito confiante.

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Lúcio Flávio Pinto

Lúcio na Praça da República, em Belém.

Lúcio Flávio Pinto é um jornalista brasileiro que vive em Belém do Pará, no Brasil. Natural de Santarém (também no Pará), a sua vocação jornalística começou cedo: com 15 anos de idade apresentou um programa de rádio considerado subversivo pelas autoridades, e um ano depois trabalhou como repórter no Província do Pará. Aos 18 anos decidiu sair de Belém, acabando por fixar-se em São Paulo (após uma breve passagem pelo jornal carioca Correio da Manhã), trabalhando como repórter em vários jornais e revistas, incluindo na imprensa alternativa, entre 1971 e 1988. Em 1973 formou-se em sociologia pela Universidade de São Paulo1 . Pouco depois retornou a Belém para montar uma rede de sucursais do Estadão, na Amazónia. As suas reportagens conquistaram os leitores do jornal, permitindo o financiamento das longas incursões, quer de avião, quer de navio, que Lúcio realizava na vasta região amazónica.

A carreira de Lúcio Flávio Pinto alterou-se significativamente em 1987, quando, inconformado, rompeu definitivamente com a “grande imprensa” e criou o Jornal Pessoal — uma publicação quinzenal que perduraria por mais de 30 anos — não aceitando publicidade para não depender de ninguém e prosseguir livremente a sua missão: expor a verdade e os factos. No primeiro número deste novo jornal de 12 páginas, Lúcio implicava dois empresários na morte de um parlamentar, divulgando pelos seus próprios meios o que fora impedido de publicar n’ O Liberal, jornal de Belém, com o qual colaborava. O Jornal Pessoal, que, ao que parece, foi inspirado no periódico I.F. Stone’s Weekly, do jornalista americano Isidore Stone, inspirou por sua vez uma aluna da Universidade de São Paulo 2 como tema da sua tese de doutoramento. O JP tornou-se uma referência para muitos que, lendo-o, se interessavam pelo jornalismo independente, pelo que se passava no mundo, no Brasil e, claro, na Amazónia. Efetivamente, nesta nova e longa etapa da sua atividade jornalística, Lúcio Flávio pôde consolidar conhecimentos e ideias que desenvolvera quando fora correspondente do Estadão na Amazónia (e iniciara, pela sua extrema curiosidade, ainda antes), e tornar-se, assim, um dos maiores especialistas, se não o maior, sobre esta região tão importante do nosso planeta, sobre a qual escreveu vinte e um livros.

Hoje, com 74 anos, Lúcio Flávio Pinto já não publica o Jornal Pessoal. Diagnosticado com a doença de Parkinson desde 2018, foi aconselhado pelos médicos a diminuir a sua frenética atividade. Em 8 de julho de 2023, numa mensagem no seu blogue A Agenda Amazônica de um Jornalismo de Combate, ele anunciava o fim da sua “atividade jornalística pública diária”3. Apesar disso, ainda publica no seu blogue vários artigos por dia, pois, como vincou nessa mesma mensagem, continuará “a acompanhar o dia a dia do Pará, da Amazônia, do Brasil e do mundo”.

Vivendo num país onde a profissão de jornalista não deixa de ser uma atividade perigosa, Lúcio Flávio Pinto correu vários riscos em prol da busca da verdade e da sua respetiva divulgação pública. Alvo de processos judiciais, espancamento e ameaças de morte, jamais vacilou na luta contra “o tráfego de droga, o desmatamento e a corrupção”4, e a sua resistência, quiçá obstinação, foi reconhecida por diversas organizações, sendo de destacar: os 4 prémios Esso de Jornalismo e o Prêmio Especial Vladimir Herzog, em 2012, com que foi contemplado no Brasil5; o Colombo d’ Ouro para a Paz (1997)6, que lhe outorgaram em Itália; o prémio Liberdade de Imprensa Internacional (2005)7, que sua filha, Juliana Pinto, recebeu por ele em Nova Iorque; e a distinção atribuída pelos Repórteres sem Fronteiras, ao integrá-lo na lista dos 100 Heróis da Informação (que inclui também o timorense José Belo), em 2014. O secretário-geral desta organização, Christophe Deloire, disse, à época: “Estes heróis da informação são uma fonte de inspiração para todos os homens e mulheres que aspiram à liberdade”8.

A oportunidade de conhecer Lúcio surgiu quando soubemos que nos iríamos deslocar a Belém por motivos familiares. Entrámos em contacto com ele para tentarmos combinar um encontro e isto não se revelou minimamente difícil, pois Lúcio Flávio é realmente despretensioso, afável e simpático. (Há inúmeros testemunhos da sua amabilidade, sobretudo de antigos alunos9). Eu e Fla encontrámo-nos com ele num local do centro de Belém, e logo após as primeiras palavras descobrimos que temos algo em comum: uma admiração quase ilimitada por João Guimarães Rosa, o grande escritor cordisburguense. Lúcio, que possui uma enorme biblioteca (diz-se que mais de 40 mil livros)10, demonstrou ser grande conhecedor das obra e biografia de Guimarães Rosa, e, em poucos minutos, ampliou a forma como eu e Fla víamos ambas.

Quase em cima do acontecimento, pensámos que talvez Lúcio nos concedesse uma pequena entrevista e preparámos algumas perguntas. Ele acedeu de pronto. É essa pequena entrevista que aqui deixamos, buscando, quiçá, o impossível: descobrir alguma nova faceta do já multifacetado e extraordinário ser humano que é Lúcio Flávio Pinto.

***

ILoveAlfama (ILA) — Lúcio, comecemos por uma curiosidade: o senhor tem origens portuguesas?
Lúcio Flávio Pinto (LFP) — Sim, meu avô materno era português.
ILA — Gostaríamos de falar um pouco sobre o seu percurso. Sabemos que ainda jovem foi para São Paulo e se formou lá em sociologia…
LFP — Sociologia política, bacharel em sociologia política.
ILA — E ficou trabalhando por lá depois, não é verdade?
LFP — Eu entrei num programa de mestrado com uma tese de meu orientador, que era o Oliveiros Ferreira, que me disse “essa tese que você vai fazer é uma pós-graduação sanduiche, passa direto para ser doutor. Eu queria escrever isso mas nunca escrevi”. Eu comecei o curso, fiz alguns créditos, mas achei que se eu ficasse em São Paulo iria fazer uma carreira académica e iria me desligar da Amazónia. Então eu decidi voltar para a Amazónia no final de 1974 e larguei o curso. Você tem 8 anos para retomar o curso que você interrompeu. Todo o ano meu orientador que era também meu chefe no Estadão dizia “volte, volte, volte”, aí no último ano ele disse “você vai ser jubilado” (perda de direito à matrícula), e eu disse: “não posso fazer nada”. Acho que essa foi a grande diferença em relação a todos os meus colegas de geração. Todos eles foram embora. Quando você vai embora, você perde o elo da continuidade do processo histórico, você pode ser condicionado por estar num lugar e não ver direito, não ter distanciamento crítico para ver determinadas coisas. Mas eu sempre fazia o seguinte: ia para o exterior e voltava, ia para São Paulo e voltava, para me distanciar e ver o que eu estava fazendo. E o que me distinguiu, a minha carreira dos outros, é que eu estava aqui e tive apoio institucional do jornal e dinheiro para viajar pela Amazónia. Porque viajar pela Amazónia é muito caro.
ILA — A Amazónia é muito grande, não é?
LFP — É. Por exemplo, em 1976 teve uma grande cheia, a maior de todas, que até então a maior tinha sido a de 53. Eu fretei um barco e durante 8 dias andei por todos os rios da Amazónia e o barco era só para mim, um boiadeiro enorme… Hoje ninguém faria mais isso. Às vezes eu estava num lugar e fretava um teco-teco, um aviãozinho, e ia para outro lugar, o jornal pagava, sabia que eu ia dormir com uma boa matéria.
ILA — Que jornal era esse?
LFP — O Estado de S. Paulo.
ILA — Do qual era correspondente?
LFP — Sim, trabalhei lá e fui correspondente aqui. Trabalhei 18 anos nele.
ILA — Quando é que o senhor sentiu vontade de ser jornalista?
LFP — Eu sempre fui jornalista. Eu conto assim como folclore lá na minha família, que aos cinco anos eu comecei a estudar no jardim de infância. No primeiro dia de aula eu fui para a aula e voltei empolgado , cheguei e entrei em casa: “mamãe, mamãe, Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil por 1500 cruzeiros!”
ILA — (risos…)
LFP — Quer dizer, dei uma informação errada, mas já tinha uma informação. Desde então eu fiz jornal escrito à mão, jornal mimeografado, acho que hoje já ninguém mais sabe o que é um mimeógrafo, é uma máquina de imprimir. Então eu fiz dois jornais mimeografados — “O Democrata” e “O Social”. A minha preocupação já era essa. Até que aos 16 anos eu me tornei jornalista profissional.
ILA — Digamos que é uma vocação desde sempre…
LFP — Eu vou dizer o seguinte: o meu pai lá em Santarém, ele foi político, ele foi prefeito, deputado, e ele era uma pessoa que estudou na escola muito pouco, mas ele era muito curioso, falava inglês e era revendedor de livros. Tinha uma sala onde ninguém podia entrar que era a dos livros que ele revendia. Um dia a sala estava aberta e cheia de livros— e o mote do jornalismo é a curiosidade. Aí entrei na sala e me sentei. E foi quando vi minha mãe também entrando. Normalmente ela me ralhava, mas eu estava com o dicionário Lello Universal, em 5 volumes, numa edição de capa dura e cheia de bicos de pena, toda ela cheia de bicos de pena, além de muita abonação, um grande dicionário. Eu era pequenino, mal conseguia virar as páginas do dicionário, e minha mãe sentou e começou a ler. E a primeira coisa que me interessou foi o ábaco, que vem na letra “A” e o primeiro bico de pena era desenhando um ábaco. E eu perguntei “o que é isso?”, e a mamãe me contou que era para calcular, e eu me interessei pelo ábaco e muitos anos depois fui entender o que era o ábaco e o seu significado verdadeiro. Quando foi criado o primeiro computador no MIT, nos Estados Unidos, em 51, um operador de ábaco ficou do lado do computador e fez as operações mais rápidas que o computador, e até hoje é uma matéria de disciplina universitária na China. Há operadores de ábaco até hoje.
ILA — Interessante… Por outro lado, algo que realmente impressiona é a quantidade de matéria que o senhor escreve todos os dias. Como consegue estar tão bem informado?
LFP — Esse é um preço terrível. Até uma certa fase da vida, a minha ansiedade era favorável porque eu fazia muita coisa ao mesmo tempo graças à ansiedade. Hoje, olha, eu tremo, porque eu tenho Parkinson, e a ansiedade ficou terrível. Então eu estou pagando um preço alto na velhice por ter sido uma pessoa tão interessada nas coisas, que escrevia 15, 20 matérias por dia. É uma coisa que é natural em mim.
ILA — E essa eficiência de escrita é desde sempre ou foi adquirida com a experiência?
LFP — Bom, foi melhorando. Perguntaram: por que é que o diabo é tão inteligente? Não é porque ele é o diabo, é porque ele é velho. Aliás, de certa forma, eu tenho uma associação criativa com o diabo: às vezes eu sento na máquina e quero escrever um elogio. Aí o diabo diz “a tua função não é escrever elogio, é escrever crítica”. Aí eu escrevo a crítica. Então é difícil eu elogiar, quando elogio é porque realmente eu considero que é muito bom. E eu não distingo amigo de inimigo. Eu já perdi muitos amigos porque escrevi contra eles. Eu tenho uma máxima: “roubou dinheiro do povo, é meu inimigo”. Mas voltando à questão, eu acho que se escreve bem, lendo muito. A verdadeira atividade intelectual não é escrever, é ler. Então, quem não lê, mal sabe, mal fala e mal vê.
ILA — Sabemos que na área da sua formação há muitas escolas sociológicas, mas parece-nos que hoje o Lúcio é bastante independente em relação a qualquer uma delas. Foi sempre assim?
LFP — Foi sempre assim. Eu sou o típico iconoclasta — o meu objetivo é buscar a verdade. Para mim, a verdade é construída com provas de demonstração. Eu não posso dizer a verdade sem demonstrar que ela é a verdade. Então por isso eu tenho uma formação técnica muito rigorosa, não brigo com os factos. Se os factos me dizem que eu estou errado, eu digo que estou errado. Se os factos dizem que o partido tal está errado, eu digo que está errado. Então eu não penso duas vezes se o que vou escrever é bom ou ruim, favorável ou não. Eu quero demonstrar que o que estou escrevendo é verdade. Por isso é que quando comecei a escrever sobre usinas hidrelétricas, eu fui para os Estados Unidos conhecer as usinas hidrelétricas americanas, e a primeira usina que usou escada de peixe foi no rio Columbia, no estado do Oregon. Fui lá e vi com meus próprios olhos. Então eu sou uma pessoa curiosa, eu sou Tomé, eu quero que me provem que é verdade. Sempre estou exigindo e por isso eu repito sempre a frase do Millôr Fernandes: “jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”.
ILA — A Amazónia é a sua grande luta, parece-nos. Mas para mudar as políticas para a Amazónia teriam que mudar as políticas do próprio Brasil. Como vê a política brasileira, hoje?
LFP — O interessante é que quem teve o projeto mais consolidado, mais sólido sobre a Amazónia foi o estado colonial português, na época de Pombal. Pombal foi o último déspota esclarecido de Portugal. Desde então só tem déspotas, o esclarecimento foi deixado para trás. Então, o que ele fez? Ele investiu dinheiro enorme, criando uma estrutura aqui em Belém, grandes igrejas, palácio do governo, que são prédios e estruturas que não tinham nenhuma coerência com a cidade, que a cidade não tinha condições de manter. Mas ele achava que Portugal ia perder o Brasil, mas não ia perder a Amazónia. Então a Amazónia sempre foi um organismo estranho ao corpo nacional. A integração nacional que o Brasil fez da Amazónia foi a pior de todas. Porque ela negou a autonomia da Amazónia, não ouviu a população e tinha dois princípios: 1- não havia vida inteligente na Amazónia; 2- o espaço amazónico era inútil, era um espaço perdido porque não tinha ocupação humana nem atividade económica. Então se desencadeou um processo de irracionalidade, com a destruição da floresta, a destruição das populações indígenas e a imposição de um modelo de fora para dentro que fez com que a Amazónia fosse hoje uma grande colónia mundial, exportando minério de ferro, manganês, ouro, bauxita para o mundo inteiro. Então ela hoje é uma sub-colónia de um colonialismo, que é exatamente como foi na época da colónia portuguesa. O estado brasileiro não tem nenhuma capacidade de identificar e responder, reconhecer e respeitar a condição amazónica, que é ter muita água e ter muita floresta. Desde então o que tem acontecido? Menos água e menos floresta. Então o caminho da Amazónia é a destruição. Inexorável.
ILA — Não vê alternativa?
LFP — Haveria. Eu tenho uma proposta que eu venho apresentando há muitos anos, mas ninguém leva em consideração. Seria o seguinte: criar o kibutz científico. Você está na área da floresta, coloca lá um curso de engenharia florestal, no meio da mata. Esses estudantes, eles vão entrar para a graduação, mas eles só vão sair se se formarem doutores em engenharia florestal, por exemplo, ou silvicultura. Mas ele vai ser doutor não só pelo estudo académico teórico, ele vai ter que ter um projeto que ele vai ter de provar que o que ele pensa é verdade. Então ele implanta um projeto de regeneração natural, de reflorestamento, de espécies nativas, exatamente o contrário do que tem sido a forma de ocupação da Amazónia. E se ele conseguir provar que aquilo é viável economicamente, ele recebe o título de propriedade da terra e o título de doutor, senão ele não recebe coisa nenhuma. Então ao invés da ciência vir no rasto das frentes económicas, ela vem na frente, dizendo: “Não pode fazer isso, não pode fazer isso porque é contra a ciência”. E hoje o cientista é mero académico, não tem poder de transformação. Só acredito nisso hoje, o resto eu não acredito mais.
ILA — Não tem experiência no terreno…
LFP — Não, não tem. Seria inteiramente novo. Os projetos que eles realizariam seriam avaliados permanentemente pelos melhores cérebros do mundo que viriam para cá. Se é um projeto de manejo de água, chamam os australianos, chamam os canadenses, chamam os holandeses, ele vai ter que fazer um projeto coerente com aquela região onde ele está e dialogar com a população nativa, não com uma atitude paternalista, mas com a atitude de um colega de experiência, de atividade económica, e ao mesmo tempo tem de responder à ciência mais avançada do mundo. Nós temos a maior bacia hidrográfica do mundo, mas nós não conhecemos quase água. Quem conhece são os holandeses, que vivem de domar o mar.
ILA — Uma última pergunta. Sabemos que tem uma grande biblioteca. Poderia indicar algum ou alguns autores que o tenham verdadeiramente influenciado?
LFP — Bom, eu comecei cedo lendo Marx. E aprendi a ler o Marx sem considerar o marxismo uma teoria científica e sem o considerar também o abc da revolução. Toda a parte voluntariosa do marxismo, de fazer a revolução através da ditadura do proletariado, isso não vale nada. Isso aí é profecia que não deu certo e virou tirania em todas as partes em que foi aplicada.
ILA — Uma religião…
LFP — É, uma religião. Porque ela é fechada, ela é dogmática, ela tem o seu catecismo, e isso eu detesto, eu aprendi a respeitar a liberdade como o bem maior do ser humano, e não tem liberdade nesses países, tanto que eles não chamam de socialismo eles chamam de socialismo real porque nunca existiu socialismo nesses países, só tirania. Mas ele [Marx] como um grande filósofo e economista é inevitável. Só se pode entender o mundo atual passando por ele, mas não ficando nele. Marx foi uma influência boa porque não me tornou marxista, continuei a ser uma pessoa independente. Eu li também um grande historiador daqui da região chamado Domingos Antônio Raiol que escreveu sobre a cabanagem, um livrão, “Motins Políticos”. Isso me identificou. Eu também li o padre Bettendorf, que é um holandês que foi quem começou a colonização da minha terra, onde nasci, Santarém. E cada vez que eu me sinto fraco em relação à Amazónia eu releio o padre João Daniel. Padre João Daniel era um jesuíta que o Pombal expulsou, como a todos os jesuítas, naquela época. Ele ficou preso em Lisboa. Eu sou tão curioso que fui ver que livros ele leu quando estava na prisão — ele morreu na prisão — livros que foram editados em Portugal quando ele estava preso. Como é que ele leu? Aí eu fui ler a correspondência dele que fora liberada. Imagine a cena: ele na prisão escreveu o livro “O Tesouro Descoberto no Rio Amazonas”. Você tem que ler o padre João Daniel. Esse livro é uma enciclopédia sobre a Amazónia até o século XVIII. Uma enciclopédia completa: peixes, plantas, árvores, tudo, a antropologia a arqueologia, e aí cita dados precisos, e a mitologia dizia que ele escreveu isso de memória na prisão. Eu não acreditei. Então, na verdade o Pombal lia as cartas dele, e o Pombal liberava as cartas ou não, e liberava os livros para ele e se informava com ele porque tinha uma admiração intelectual de déspota esclarecido, esclarecido suficiente para saber o valor do padre e ao mesmo tempo déspota que não podia libertá-lo porque mandara prender todos os jesuítas. Então é uma coisa fantástica e nunca ninguém escreveu sobre isso.
ILA — Interessante…
LFP — É uma coisa interessantíssima sobre o papel da inteligência. Eu comparo mais ou menos com o Gramsci, Antonio Gramsci. Ele ficou preso 9 anos e o Mussolini de certa forma deixou que ele escrevesse as “Cartas de Cárcere”, que é um dos documentos mais importantes, que também tem uma influência enorme para mim. Eu li várias vezes todas as cartas dele. Nessas cartas, tem uma carta em que a mulher dele lhe disse: “o nosso filho Giulio já sabe escrever da direita para a esquerda e debaixo para cima”. Aí ele da prisão, sofrendo que só, deprimido, diz: “que bom, tem uma tribo no Tibete que é a única no mundo que escreve debaixo para cima e da direita para esquerda, vai ser muito útil para o nosso filho saber disso”. O princípio pedagógico que ele tinha!… Então, na verdade o Mussolini como déspota esclarecido que era, um fascista, mas um fascista com projeto, que não era um projeto de mero poder, na verdade queria ser o príncipe do fascismo, no conceito de Maquiavel. Quando estava morrendo ele disse “não vão dizer que o Gramsci vai sobreviver a mim, nem que morreu na minha prisão”. Então ele liberta-o, e o Gramsci morre fora da prisão.
ILA — Lúcio, muito obrigado.
LFP — Por nada, foi um prazer.

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Fontes:

1https://somostodoslucioflaviopinto.files.wordpress.com/2012/02/arq2_miolo_dossic2ac.pdf

2 https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27153/tde-27042009-115830/publico/4846515.pdf

3 https://lucioflaviopinto.wordpress.com/2023/07/08/e-continuamos/

4 https://www.reporter-ohne-grenzen.de/fileadmin/Redaktion/Downloads/Helden_der_Pressefreiheit/ROG-Helden_der_Pressefreiheit_2014.pdf

5 https://vladimirherzog.org/34-premio-vladimir-herzog-vencedores/

6 https://www.archiviodisarmo.it/premio-colombe-d-oro-per-la-pace.html

7 https://cpj.org/awards/awards-release-05/

8 https://rsf.org/en/rwb-publishes-profiles-100-information-heroes

9 https://dedemesquita.com.br/?p=6932

10 https://www.publico.pt/2011/08/16/jornal/lucio-flavio-pinto-o-rebelde-com-causa-de-belem-22698340

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