São Miguel das Missões

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O que resta da igreja de São Miguel.

São Miguel das Missões, antigo povoado de São Miguel Arcanjo, integra-se no chamado território missionário, uma vasta zona que inclui parte dos atuais Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil. As aldeias, fundadas pelos jesuítas espanhóis,  chamavam-se Reduções[1] e, das trinta que foram criadas, podemos encontrar sete no Brasil: São Miguel, Santo Ângelo, São Nicolau, São João Batista, São Lourenço, São Luís Gonzaga e São Francisco de Borja – os Sete Povos das Missões, situados na margem oriental do rio Uruguai.

O que ainda resta da Igreja de São Miguel, cuja construção se iniciou em 1735, bem como o Museu das Missões, erguido na área da antiga Redução, em 1940, estão classificados como Património Mundial, pela UNESCO, desde 1983. San Ignacio Miní, na Argentina, e Trinidad, no Paraguai, são outras Missões classificadas como Património Mundial. Todas elas se situavam, no início das construções, na província jesuítica do Paraguay, território pertencente à coroa espanhola. [2]

Apesar do abandono a que foi votada durante muitos anos e aos saques de que foram alvo as Missões no decorrer da Campanha Cisplatina, a Igreja de São Miguel é a única, das três classificadas como património mundial, que mantém a fachada completamente preservada. O projeto da igreja, em estilo barroco tardio, é atribuído ao arquiteto jesuíta Gian Battista Primoli e foi, provavelmente, inspirado na igreja central da Ordem dos Jesuítas, a Igreja de Gesú, em Roma.

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Onça pintada e coruja. Os índios ganham algum dinheiro vendendo artesanato aos poucos turistas que visitam São Miguel das Missões.

No museu podemos encontrar esculturas, a maioria em madeira, reunidas pelo seu primeiro zelador, Hugo Machado, que muitas vezes se apresentou como beato, para as conseguir recolher das mãos de particulares, constituindo, este conjunto, a maior coleção pública missioneira. Há obras de escultores europeus, mas a maior parte foi executada pelos índios guarani, como se pode comprovar pelos traços dos rostos, pelos detalhes dos cabelos, pelas vestes, etc. [3]

Ainda hoje os guarani continuam esculpindo a madeira, como tivemos oportunidade de comprovar, em toda a região. A uma linda menina guarani compramos, em São Miguel da Missões, duas miniaturas – uma de onça pintada e outra de coruja.

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[1] Reduções, precisamente, por reduzirem o espaço de circulação dos índios ao território da Missão.

[2] Só em 1801 os sete Povos das Missões foram conquistados pelos luso-brasileiros e, desde então, fazem parte do Rio Grande do Sul. Os territórios da América do Sul foram sempre muito disputados pelas coroas portuguesa e espanhola e, em 1750, através do Tratado de Madrid, ficaram quase completamente definidas as fronteiras atuais do Brasil, com grande vantagem para os luso-brasileiros, que perdiam Colónia del Sacramento, no atual Uruguai, cidade fundada pelos portugueses, em1680, na margem esquerda do Rio da Prata, mas ganhavam os sete Povos das Missões e, no fundo, todo o Rio Grande do Sul, todo o atual estado se Santa Catarina e ainda a Amazónia e mais alguns territórios que estavam na parte espanhola definida pelo Tratado de Tordesilhas, revogado pelo Tratado de Madrid. O rio Uruguai seria a fronteira entre Brasil e Argentina.Tratado tão desvantajoso não foi bem aceite pelos espanhóis e novos tratados foram firmados. Em 1761, o Tratado de El Pardo, que estipulava o regresso à situação anterior a 1750, e, em 1777, o Tratado de Santo Ildefonso onde foram criados os “campos neutrais”, faixa de terra onde nenhum dos impérios teria jurisdição. Era esta a situação dos sete Povos das Missões, território neutro, em 1801, quando os luso-brasileiros, a pretexto da guerra que a Espanha declarou a Portugal, por pressão dos franceses (invasões napoleónicas da Península Ibérica), decidiram conquistá-los.  José Borges do Canto, filho de pai açoriano e mãe de Colónia del Sacramento, e Gabriel Ribeiro de Almeida, filho de português e índia, que viviam na zona, falavam o idioma guarani e conheciam bem os índios, foram os homens a quem geralmente é atribuída a conquista das Missões, para o que contaram com a colaboração de um pouco número de homens e dos próprios índios guarani. Tratou-se, portanto, de uma conquista local. Sobre estes episódios pode ler-se o excelente texto de Elisa Frühauf Garcia, aqui:

[3] Fonte: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Brasil).

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Cataratas do Iguaçu/Iguazú (Brasil/Argentina)

O volume de água que cai a cada segundo é assombroso. Chega a atingir 11,3 mil metros cúbicos.

O primeiro europeu a chegar às Cataratas do Iguaçu foi o espanhol Álvar Núñez Cabeza de Vaca, no século XVI. Situadas na zona onde os jesuítas fundaram as missões, um território vasto, onde viviam índios dos atuais Paraguai, Brasil e Argentina, as Cataratas do Iguaçu são constituídas por mais de 250 quedas de água, o que lhes confere o título de “maiores do mundo”.

É possível subir o rio de barco e tomar um banho debaixo de uma das quedas de água.

Foi precisamente aqui que foi rodado grande parte do filme, “A Missão” (1986), com realização do britânico Roland Joffé, interpretações de Jeremy Irons, Liam Neeson e Robert de Niro, e música do grande Ennio Morricone [1].

As cataratas de Iguaçu são o maior conjunto de quedas de água do planeta.

As Cataratas de Iguaçú estão classificadas como Património da Humanidade e são uma das sete maravilhas da natureza. O som da água tombando ouve-se a grande distância e, quando chegamos suficientemente perto,  ficamos encharcados pela água que vem com o vento. Para além dos passeios a pé, vale a pena fazer uma viagem de barco pelo rio Iguaçu e tomar um duche gigante debaixo de uma das quedas de água. Isso é possível fazer, tanto do lado brasileiro quanto do argentino. Os passeios pelo rio são muito idênticos e bastante divertidos. Na moeda europeia, ao câmbio atual, o preço a pagar por pessoa rondará os 25 euros.

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Natureza em estado puro.

Os parques naturais (argentino e brasileiro) estão muito bem organizados e estruturados, proporcionando bons serviços ao visitante. Ali bem perto podemos também visitar uma das maiores barragens do mundo, Itaipu, no rio Paraná, entre o Brasil e o Paraguai, e também o local da união entre aquele rio e o Iguaçu, onde se observam, em cada um dos lados do “T”, os três países: Brasil, Paraguai e Argentina.

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Deste lado a Argentina, em frente o Brasil, à esquerda o Paraguai.

As cidades de Puerto Iguazú (Argentina), Ciudad del Este (Paraguai) e Foz do Iguaçu (Brasil) distam entre si apenas alguns minutos de carro e valem também uma visita, a primeira pela boa carne argentina, a segunda pela possibilidade de fazer compras baratas, e a terceira por ser um polo de acesso a toda a região, com boas pousadas, como seja a Pousada do Alemão, onde nos hospedamos nesta segunda visita às Cataratas.

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[1] Aqui fica o registo de uma interpretação do tema principal da banda sonora de “A Missão”, dirigida pelo próprio Morricone. Belíssima.

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Brasil e protecionismo

A atual política económica brasileira é claramente protecionista. Esta política defende as empresas e indústrias brasileiras – sobrecarregando com impostos os produtos importados — e visa manter baixa a taxa de desemprego. Porém, há que considerar algumas consequências perniciosas do protecionismo, dado que as empresas:

– acomodam-se e não investem na formação e qualificação dos seus quadros, tornando-se obsoletas;

– contratam funcionários em número excessivo, de baixa produtividade e auferindo baixos salários;

– praticam preços elevados para cobrirem o custo da ineficiência e obterem, ainda assim, lucros chorudos, face à ausência de verdadeira concorrência;

– prestam, em geral, serviços de baixa qualidade [1].

Quem paga esta ineficiência é o consumidor. Porém, quem tem muito dinheiro não tem problema, mesmo que o preço a pagar seja exorbitante, e pode até dar-se ao luxo de comprar mais barato no exterior, quando viaja pela Europa ou pelos EUA. Do outro lado da moeda ficam os menos abastados, que compram a prestações (parcelado) e que, para pagarem carro, celular, etc, têm de muitas vezes cortar em bens de consumo básicos[2]. A estes, chamam aqui no Brasil, “classe média”, mas a verdade é que – em comparação com os países mais desenvolvidos – se tratam de pobres encapotados[3]. O Brasil ainda é, em larga medida, um país de (poucos) ricos e (muitos) pobres.

No protecionismo não existe uma justa concorrência de preços e o ambiente económico torna-se pernicioso para os mais pobres dado que, com o aumento dos preços, é inevitável a subida da inflação. Assim, mesmo com programas destinados a acabar com a pobreza extrema, o fosso entre ricos e pobres não diminui[4]; ou diminui apenas aparentemente, pois, como se sabe, a inflação afeta sobretudo os mais desfavorecidos. Um outro efeito desta política protecionista é que ela se torna viciosa, difícil de eliminar a curto prazo, a não ser com elevado custo social (sobretudo, desemprego).

Com a deterioração do tecido empresarial, cai enormemente a taxa de exportação de produtos de maior valor acrescentado, permanecendo o Brasil um exportador de matérias-primas, como sempre foi no passado, vulnerável às grandes flutuações dos preços nos mercados internacionais, vivendo quase em exclusivo, nos outros setores, do consumo interno.

Talvez o protecionismo alguma vez tenha feito sentido. Mas o Brasil — este extenso, rico e belo país — precisa criar as condições para abandoná-lo, caso queira finalmente dar o salto para a modernidade.

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Notas:

[1] É o caso, por exemplo, das empresas de comunicação (telefonia), particularmente daquelas que prestam serviços de internet: caros e muito longe dos padrões dos países desenvolvidos. Porém, quando as empresas brasileiras têm de se abrir à concorrência as coisas melhoram, como é o caso do mercado da aeronáutica, só para citar outro exemplo.

[2] A classe média no Brasil tem renda per capita entre R$ 291 e R$ 1.019 e representa 54% da população do país: http://g1.globo.com/economia/noticia/2012/05/classe-media-tem-renda-entre-r-291-e-r-1019-diz-governo.html

[3] Para se ter uma ideia, compare-se os salários desta “classe média” brasileira e os das suas congéneres norte-americanas ou europeias. Verificar-se-á que no Brasil os salários são muitíssimo menores e que o custo de vida – que há meia-dúzia de anos era, generalizadamente, bem menor aqui – é hoje, em vários bens, mais caro no Brasil do que naqueles países.

[4] A desigualdade entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres, no Brasil, é de 50 para 1. Maior do que a mais elevada entre os países da OCDE: http://economia.uol.com.br/ultimas-noticias/infomoney/2011/12/05/desigualdade-entre-ricos-e-pobres-no-brasil-e-maior-do-que-a-mais-alta-da-ocde.jhtm

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Frevo

Quem passar pelo Carnaval do Recife jamais esquecerá o frevo.

O frevo nasceu há mais de cem anos, no Pernambuco, ao que parece por influência das marchas militares. O  frevo-de-rua não é vocalizado, ao contrário do frevo-canção, de ritmo mais lento, e também do frevo-de-bloco. Estes são os três tipos de frevo, assim classificados desde os anos 30 do século XX.

Quem já tenha passado o Carnaval no Recife certamente conhece o frevo, o principal ritmo que ali se ouve nessa quadra festiva, além do maracatu, a ciranda, o caboclinho, entre tantos outros.

Até 2010, mais propriamente até fevereiro de 2010, eu nunca tinha ouvido falar de frevo. Foi quando segui durante horas o bloco Escuta Levino pelas ruas do Recife, quando ouvi “Último Dia”, de Levino Ferreira, balançando o esqueleto sem parar, que fiquei adepto incondicional. Gostei tanto que repeti a dose, com outros blocos, tanto no Recife como em Olinda.

Qualquer pessoa pode criar um bloco de Carnaval. Basta juntar um grupo de músicos, inventar um nome, inscrevê-lo num estandarte e já está – quem quiser vá atrás. Há blocos para todos os gostos, como seria de esperar. O tipo de frevo que se ouve nos blocos de Carnaval é chamado frevo-de-rua e subdivide-se em frevo-coqueiro, frevo-ventania e frevo-abafo.

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Durante o desfile do Galo da Madrugada, no Recife.

Outra característica do frevo-de-rua é a dança. Os bailarinos, normalmente com uma sombrinha na mão, executam passes complicados, com os pés sempre em movimento,  executando coreografias que, em geral, contêm uma boa dose de improviso. Quando os executantes são de qualidade, é muito, muito bonito (ver vídeo acima).  Outros, como eu, limitam-se a agitar o corpo da forma que podem, pois uma coisa é certa: ninguém consegue ficar parado.

É por isso que a origem do nome frevo vem do verbo ferver, uma vez que a dança parece implicar a existência de uma superfície quente debaixo dos pés dos dançarinos, impedindo-os de parar.

Fiquei fã incondicional. Frevo para toda a vida.

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São Francisco do Sul, Santa Catarina, Brasil

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O acesso a São Francisco faz-se, normalmente, por Joinville, uma cidade próspera, ordenada, limpa e a maior, em número de habitantes, do estado catarinense. Um exemplo que os prefeitos de todas as cidades brasileiras deveriam seguir. A influência alemã faz-se sentir fortemente aqui, nas pessoas, nas edificações e nos costumes.

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Ao chegar ao centro de São Francisco, após uns 30 kms, tem-se aquela sensação que experimentamos em cidades como Colónia del Sacramento, Olinda, Parati ou João Pessoa – as ruas empedradas, as sacadas, os telhados, às vezes um rio fazem lembrar Alfama (Lisboa e Portugal, também). Na verdade, São Francisco do Sul é mais um dos irmãos que Alfama tem por esse mundo fora.

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O casario colonial estende-se ao longo da baía da Babitonga e guarda um dos últimos núcleos açorianos do país (tal como Ribeirão da Ilha ou Santo Antônio de Lisboa, em Florianópolis). Aqui encontramos o Museu Nacional do Mar, que reúne embarcações de todo o Brasil. O acesso pode fazer-se de carro, mas é mais bonito quando se realiza pelas balsas ou lanchas que asseguram a ligação ao continente.

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São Francisco do Sul é uma vila belíssima e merece visita detalhada. Restaurantes e cafés, no centro histórico, permitem matar a fome. Um deles, São Francisco Panificadora, serve umas sopas consistentes que reconfortam o estômago e animam o espírito para a viagem de regresso. Experimentámos a sopa de costela com aipim e a de frutos do mar, já de noite, olhando, de quando em vez, pelo vidro embaciado, para vultos ondulantes e indecifráveis na baía da Babitonga.

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Gravatal, Santa Catarina, Brasil

Sai-se da BR 101, em Tubarão, correm-se 17 quilómetros para o interior, no sentido NW, e chega-se a Gravatal. Nesta cidade tudo gira em torno das águas termais, que aqui jorram a uma temperatura média de 36º, 40 litros por segundo. Dizem que a água termal de Gravatal é a segunda melhor do mundo em propriedades terapêuticas, superada apenas pela do complexo de Aux-Les-Thermes, em França.

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Mera propaganda? Não sabemos. O que é certo é que  a água mineral do Gravatal é captada e aproveitada por três hotéis. Nós estivemos num deles: da rotunda central da cidade (que logo se percebe onde fica) viramos à direita e, depois de uma pequena estrada de terra batida e uma alameda verdejante, chegamos. Não tem engano possível e, se tiver, toda a gente conhece o Hotel Internacional…

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Dois conjuntos edificados desde logo se destacam: um, térreo, com cobertura ondulada, onde se encontram a receção, salas de convívio e de jogos, um bar, um amplo salão de refeições e uma sala infantil; outro, com quatro pisos e de linhas direitas, com os quartos de alojamento (118), as salas de sauna, de terapias, de banhos e de consultas.

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Água é um bem que não falta por aqui. Além de duas piscinas exteriores, o hotel possui também uma piscina interior, vários tanques de hidromassagem, salas com enormes banheiras e, nos próprios quartos, piscinas ou banheiras de imersão, tudo com água termo mineral. As torneiras são gigantes, mais parecem bocas de incêndio, e delas jorra tal quantidade de água que uma banheira grande enche-se em três minutos.

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No espaço envolvente predomina o verde, cortado por trilhas, de onde avistamos pássaros, patos e até macacos de popa! Estão disponíveis campos de ténis e de futebol. Durante a nossa estadia, um simpático galo, que apelidámos de Zeca, rondava pela porta do hotel e pelas redondezas do restaurante, debicando aqui e ali, convivendo com os hóspedes, fazendo as delícias da Rafaela.

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Aqui descansa-se e, verdadeiramente, relaxa-se; e corre-se sério risco de abalar com mais uns quilinhos; o conforto é total, tanto nos quartos como nas outras instalações; a comida é excelente; o ar estimula o apetite; e a água termal puríssima serve para nos lavarmos por fora e por dentro: dado que ela jorra a uma temperatura tépida, bebe-se com gelo feito da mesma, única e abundante água do Gravatal.

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O Hotel Internacional e sua envolvente são ideais para umas pequenas férias em família e uma boa alternativa à praia, sobretudo em dias de chuva (o que não é nada raro no sul do Brasil), como foi o caso. Alojamento, café da manhã, almoço e jantar, para um casal com filho, menor de 5 anos, ficou por 330 reais/dia (cerca de 140 euros). Valeu cada centavo!

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São Luís e Lençóis Maranhenses, Brasil

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Vista aérea da região de São Luís.

Apesar do Maranhão ser, tradicionalmente, uma das regiões mais pobres do Brasil, as edificações do centro histórico de São Luís mostram que a cidade já foi importante. No último quartel do século XVIII, o Marquês de Pombal ajudou os colonos maranhenses a verem-se livres dos jesuítas. Criou uma companhia de comércio altamente capitalizada, aproveitando as alterações no mercado mundial do algodão, cuja procura crescia intensamente: essas alterações deveram-se sobretudo à Guerra da Independência dos EUA e à Revolução Industrial inglesa. Foi uma empresa muito bem sucedida. Porém, ultrapassadas as condições de anormalidade que prevaleciam no mercado mundial de produtos tropicais, não só o Maranhão mas o próprio Brasil regressariam a um sistema económico precário, que mantêm até hoje.

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Centro histórico de S. Luís.

Essa precariedade é notória em São Luís, “a ilha do amor”, mas que bem poderia chamar-se “da pobreza”, “do desmazelo” ou “da corrupção”. Com efeito, a experiência ensina-nos a reconhecer o cheiro corrupto quando este paira no ar. Em São Luís ele brota dos buracos das ruas, dos edifícios degradados, dos semblantes resignados das pessoas comuns. Aqui, a população é sobretudo negra ou mestiça, prova de que a escravatura no Maranhão, embora tardia, foi bastante intensa.

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Rio Preguiças, em Barreirinhas.

Escapam da degradação geral do centro histórico de São Luís alguns oásis, quase sempre geridos pelo governo do Estado e não pela Prefeitura, como são os casos dos Teatro Artur Azevedo, Museu Histórico e, sobretudo, o conjunto edificado do bairro Praia Grande. Neste último é agradável passear à noite, ouvir música ao vivo, tomar um copo e associar-se aos transeuntes, turistas e locais. Atravessando o rio Anil, pela ponte José Sarney (a família Sarney é omnipresente no Maranhão), chega-se à parte mais moderna da cidade, onde encontramos praias consideradas impróprias para banhos e edifícios recentes, porém sem a vitalidade de outras capitais nordestinas.

Se a convivência com São Luís ficou aquém das expectativas, a chegada a Barreirinhas, para compensar, foi uma agradável surpresa. Aqui, o turismo e a pesca são as principais atividades económicas, e parecem chegar para que se respire um ar mais puro. O autocarro demora umas cinco horas para percorrer os cerca de 300 kms que medeiam entre as duas cidades. O bilhete custa 30 reais, mas é preferível pagar 40 e viajar numa “van” que transporta os passageiros até a porta dos hotéis ou das pousadas das duas cidades. Dado que o autocarro estaciona nas estações rodoviárias, além do trajeto mais rápido, poupa-se também no custo do táxi entre estas e o hotel. Existem várias empresas que fazem o transporte por “van”, o qual pode ser comprado em qualquer um dos hotéis ou pousadas de Barreirinhas e São Luís.

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Pequenos Lençóis.

Barreirinhas é banhada pelo rio Preguiças, que é lindo de verdade. O nome advém do serpentear calmo e lânguido do rio. Dado que o seu curso é praticamente plano, as correntes são fracas, facto que pudemos testemunhar ao atravessá-lo a nado, nos dois sentidos, em Barreirinhas. A água é morna, deliciosa, e a praia é sobretudo frequentada pela população local; os turistas ficam espalhados pelas pousadas da periferia, cada qual com seu espaço privativo. Face à qualidade da água e às tranquilidade e beleza desses lugares ao longo do Preguiças, é altamente recomendável pagar um pouco mais e ficar numa dessas pousadas à beira-rio, em vez de ficar alojado no centro da cidade.

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Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses.

Em Barreirinhas existem agências especializadas nos diversos passeios possíveis, entre os quais se destacam o dos Grandes lençóis Maranhenses, feito de jipe e depois a pé, e o da descida do Preguiças até Caburé (margem direita) ou Atins (margem esquerda), povoados que se situam na foz do rio, junto ao mar. A melhor época para visitar os Lençóis é em julho (mês da “Vaquejada”) e agosto, quando já não chove e as lagoas estão cheias pelas chuvas de inverno (janeiro a junho). Uma vez que 2012 foi um ano pouco chuvoso, agora apenas uma lagoa tem água (Lagoa do Peixe), todas as outras estão secas por força da evaporação. Mesmo assim, vale a pena caminhar naquele meio desértico, sentir a imensidão do espaço de areia branca e fina, ver o pôr do sol por trás das dunas, viajar aos solavancos nos potentes veículos “todo terreno”, cruzar o Preguiças de balsa e comer uma deliciosa tapioca, feita por uma das vendedoras do outro lado do rio.

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Rio Preguiças.

Já os passeios no Preguiças não dependem da chuva e são, em qualquer época, muito interessantes. Desde logo, pela beleza do próprio rio, mas também pela interessante fauna e flora, pela vida das populações semi-isoladas, pelas já referidas tranquilidade e beleza dos lugares, e pelo seu exotismo. De Barreirinhas a Atins demoramos cerca de quatro horas de lancha rápida. Isto porque paramos em vários povoados pelo caminho: Vassouras, uma localidade minúscula, que dá acesso aos Pequenos Lençóis, na margem direita do Preguiças, e onde alguns macacos vêm ter com os visitantes, em busca de comida; Mandacarú, na margem esquerda, onde se situa o Farol Preguiças, com os seus 160 degraus e 35 metros de altura, e uma vista magnífica sobre a região; e, finalmente, Caburé, situado numa língua de areia entre o rio e o mar, na margem direita, onde podemos desfrutar de um delicioso banho e almoçar um belo robalo no restaurante Península de Caburé.

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Vista que se observa do Farol das Preguiças.

A paisagem onde quer que estejamos e para onde quer que olhemos é deslumbrante. Palmeiras de buriti, açaí e carnaúba; manguezais, como os mangue-vermelho, mangue-branco e mangue-siriúba; capim-de-areia, alecrim-da-praia, pimenteira e carrapicho-da-praia, que crescem perto do mar, onde, nas praias quase desertas, podemos observar tartarugas marinhas e várias espécies de caranguejos; e, na restinga (terreno arenoso e salino), a erva-de-cascavel, a orquídea da restinga e o cipó-de-leite, entre outros. Nos manguezais podemos encontrar o jacaré-tingá, a paca e o veado-mateiro; e também aves migratórias, como o maçarico-rasteirinho, as marrecas-de-asa-azul e o trinta-réis-boreal.

Um dado muito curioso sobre o Parque Nacional do Lençóis Maranhenses (fundado em 1981) é que, para além dos 155.000 hectares de dunas e mais dunas de areia branca e fina e dos oásis de lagoas coloridas, existe ali um povo nómada, cuja vida é regida pelo ciclo das chuvas e das areias. Dentro do parque vivem diversas famílias, em alguns pequenos povoados de pescadores, como são os casos de Canto de Atins, Baixa Grande ou Queimada dos Britos. A mobilidade das dunas, provocada pelo vento, provoca muitas vezes o soterramento de casas e utensílios, obrigando ao deslocamento dos pescadores.

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Mandacaru.

Na costa do Maranhão o vento predominante é de leste, como pudemos comprovar, literalmente, na pele. Este vento está na origem da criação de uma colónia, independente do Brasil, em 1621, dado que o vento de leste dificultava a navegação entre a costa norte do território e as demais capitanias. Assim, foi decidido criar uma colónia diretamente ligada a Lisboa, compreendida entre o Ceará e o Amazonas, precisamente, o Estado do Maranhão. Isto (e também as informações sobre o mercado de algodão a que aludimos no início do texto) pudemos conhecer através do clássico Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado, que afortunadamente transportámos na mochila. Apesar disto, não se pense que o clima aqui é agreste, bem pelo contrário: é generoso, suave, doce, refletindo-se nas pessoas.

Os Lençóis Maranhenses, mais que São Luís, são um destino que vale a pena. Lá cada um pode optar, todos os dias, por fazer algo diferente. Ou, simplesmente, não  fazer. É bom preguiçar no Preguiças.

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João e Maria

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Talvez a maioria não saiba, quando ouve Chico Buarque interpretando-a, que esta canção não foi feita por ele. Muitos menos imaginarão que a melodia em causa tem a bonita idade de 65 anos, ou seja, foi composta em 1947! O autor desta valsinha – que foi a sua primeira composição – chamava-se Severino Dias de Oliveira, mas ficou mundialmente conhecido como Sivuca. A letra, sim, é da autoria de Chico Buarque e, segundo o próprio, baseia-se numa conversa de crianças. Chico, na época (1976), compunha algumas canções infantis, e parece ter sido influenciado por esse facto.

Fica o registo desta canção interpretada precisamente por Sivuca e Chico Buarque. Curiosidade: A técnica de Sivuca é tão boa no violão, que, logo após o início, Chico se concentra apenas na interpretação vocal…

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Fortaleza, Brasil

Os Falcões.

Fortaleza é definitivamente uma cidade musical. Seja no Mercado dos Pinhões, na Praça dos Mártires, no Centro Cultural Dragão do Mar, em Juracema ou mesmo na praia, todos os dias a música paira no ar, gratuita e harmoniosamente. Às sextas à noite o Mercado dos Pinhões enche-se de alegres convivas (sobretudo acima dos quarenta) para ouvirem e dançarem o choro. Uma vez por mês — tivemos a sorte de ser no dia da nossa visita — uma banda interpretando êxitos dos anos sessenta e setenta, os Falcões, entra em cena, após a actuação do grupo de choro, e, posso testemunhá-lo, leva o ambiente ao rubro. O vocalista, um misto de Del Shannon com Paul Anka, deixa-se fotografar com senhoras eufóricas que não resistem a subir ao palco, e atira pelas potentes colunas sonoras uma voz surpreendente. A alegria, regada com muito álcool, é contagiante — e o velho mercado bombeia música.

Trio de David Calandrine.

No sábado, durante o almoço no jardim da Praça dos Mártires (a mais antiga praça de Fortaleza, também conhecida por Passeio Público e um dos lugares mais bonitos da cidade), num restaurante/buffet, onde aliás se come muito bem, assistimos à actuação do excelentíssimo trio do guitarrista David Calandrine. Músicas cujo repertório vai de Villas-Lobos a Milton Nascimento, passando por composições próprias, tudo interpretado com um toque distinto e profissional,  que poderíamos designar, genericamente, por “jazz”. Ao fundo o mar verde-azulado transmite sua beleza ao nosso olhar, como que concorrendo com a beleza que aquela música é para os nossos ouvidos. Tudo é sensualidade. E neste jardim refrescante o que apetece mesmo é ficar, esquecer o relógio e fruir.

Centro Cultural Dragão do Mar.

No domingo fomos ao Dragão do Mar. Este centro cultural é constituído por auditórios, salas de espectáculos, pracinhas ao ar livre e  vários edifícios estilo arte-deco, que funcionam como restaurantes e bares. Aqui pode-se assistir a música ao vivo, teatro, cinema, exposições, conferências e é possível também jantar ou simplesmente tomar um copo ou um sorvete numa das esplanadas. Jantámos no Alma Gêmea: uma bela galinha, ao molho tártaro, e uma excelentíssima torta de limão gelada, como sobremesa, desta vez acompanhados pela Orquestra de Sopros de Mulungu. Seguiu-se a peça “História de São Francisco segundo Dona Cremilda”, um conto de José Mapurunga, adaptado, encenado e interpretado pela actriz Katiana Monteiro. Tudo sem sair da mesa do jantar…

Praia de Meireles.

Além de cidade virada para as artes, Fortaleza é também uma cidade desportiva. Iracema e Beira-Mar, locais quase desertos durante o dia, enchem-se, ao crepúsculo, com praticantes de jogging, patinadores, ciclistas, ginastas e todo o tipo de transeuntes. Milhares e milhares de pessoas. Talvez as mesmas, ou pelo menos algumas delas, que mais tarde enchem as barracas de praia e os bares circundantes; vendedores de tudo e mais alguma coisa tentam também retirar o melhor deste espaço, onde o mar está sempre presente e o frio nunca vem.

E tal como o mar vai e volta, também o vento sopra forte e recolhe, numa sequência perpétua: Fortaleza respira! Este bafo quente dá-nos até coragem para um mergulho na praia de Meireles, embora saibamos que tanto aqui, como em Iracema, as águas não são as melhores para banhos. A praia do Futuro, que a Deus pertence, e, sobretudo, outras das redondezas cumprem bem melhor essa função. Porém, em Fortaleza, mesmo não lavando o corpo, pode sempre lavar-se a vista – e a alma. É o que acontece na Beira-Mar quando, de repente, na mesa ao lado, debaixo das castanholas (árvores muito comuns aqui), duas mulheres e um homem fazem maravilhas com um simples cavaquinho que passa de mão em mão.

Vista de Fortaleza.

Por fim, e como não podia deixar de ser, o Pirata. O espaço e a maioria das pessoas são bonitos. A música, se tivermos em conta que serve, ali, essencialmente para dançar, é excelente e a quadrilha junina que se apresenta a rigor é deslumbrante – a sua actuação foi uma agradabilíssima surpresa. E apesar da ordem ser dançar, dançar, dançar, ainda se pode petiscar ali com qualidade: a carne de sol que degustámos estava mesmo muito boa! A gastronomia popular não é, porém, maravilhosa nem muito diversificada em Fortaleza, e não difere muito da de outras zonas do Nordeste: peixe frito, arroz, feijão (aqui é comum o “baião-de-dois”: o feijão vem já misturado no arroz, aos que se acrescentam ainda queijo, creme de leite salgado e salsa ), carne de sol, água de coco, paçoca, tapioca, mandioca, lagosta, camarão. Pena que algum do camarão seja de viveiro (aqui dizem “cativeiro”) e que, apesar de por vezes ser grande e de bom aspecto, não tenha sabor a mar, o que é, de facto, bastante frustrante. Não se compreende também como, com tanto mar à volta, a maioria dos restaurantes serve tilápia, um peixe de rio, e, ainda por cima, a preços exorbitantes. Isto acontece, porém, sobretudo nos locais mais turísticos; comemos muito bem quando deambulámos pelos restaurantes frequentados pelos residentes.

Teatro José de Alencar.

Fortaleza é ainda uma cidade onde se pode passear agradavelmente pelo centro histórico. Aqui estão localizadas as construções mais bonitas, as principais praças e jardins, e o comércio tradicional, como naturalmente seria expectável. As pessoas são simpáticas, acessíveis e alegres. Construções como a Catedral Metropolitana, o Mercado dos Pinhões, o conjunto do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, o Mercado Central e, sobretudo, o lindíssimo teatro José de Alencar, entre outros, valem bem uma visita.

Numa semana os sentidos saciam-se plenamente em Fortaleza, uma das mais interessantes cidades no Nordeste do Brasil.

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