Um fim de semana no Piauí

Mirante do Gritador.

A nossa última viagem ao Brasil (que incluiu várias viagens pelo interior deste imenso país) durou dois meses e meio. Estivemos em cinco estados nordestinos — Pernambuco, Paraíba, Maranhão, Ceará e Piauí, onde, em qualquer um deles, já tínhamos estado por várias vezes. Hoje vamos destacar uma pequena viagem que fizemos, em família, durante um fim de semana no Piauí.

Saímos da capital, Teresina, em direção a Piripiri, onde pernoitámos, no Hotel Imperial, simples em todos os aspetos, incluindo no café da manhã servido, mas limpo e com uma boa relação qualidade-preço. O melhor da noite, porém, aconteceu ainda antes de nos recolhermos. Refiro-me ao excelente jantar que fruímos no Espaço Castanhola, um restaurante de boa qualidade, em Piripiri. Esta região é famosa pela carne de sol, e a que saboreámos no Castanhola estava divinal.

No Espaço Castanhola.

No dia seguinte saímos de manhã cedo em direção ao Parque Natural de Sete Cidades, numa viagem muito curta, de uns 20 quilómetros. A entrada no parque é gratuita (tem de se preencher e assinar um pequeno formulário no portão de entrada) e a visita pode ser realizada por conta própria, mas nós tínhamos acordado com uma guia credenciada, de seu nome Janaína Sousa, o nosso passeio pelo Parque. Pagámos, na totalidade, 300 reais por um passeio com a duração de quatro horas, que incluiu todas as “cidades”, sendo que o nosso grupo era constituído por quatro adultos e duas crianças. (Há passeios com duração mais curta e, consequentemente, mais baratos).

Do portão-sul, por onde entrámos, até ao centro de visitantes, onde Janaína nos esperava, distam uns cinco quilómetros em estrada de terra batida, bem preservada. Este parque, criado em 1961, é muito grande, cobre uma área de cerca de 6.221 hectares, pelo que as distâncias maiores — entre as cidades e nas entradas e saídas do parque — são percorridas de carro (os carros dos próprios visitantes) e as distâncias menores (dentro das cidades) são percorridas a pé. Constitui um bom exercício percorrer as trilhas, subir as escadas que conduzem aos miradouros, transpor os desníveis dos caminhos, pelo que uma condição física razoável é indispensável, bem como o uso de chapéu, ténis (ou outro tipo de calçado adequado), roupas leves e muita água.

Entre pedras. Aqui qualquer sombra é bem-vinda.

O melhor deste parque é o seu ambiente bem preservado. As “cidades”, que são conjuntos de formações rochosas de formatos mais ou menos curiosos, as inscrições rupestres, que ainda não estão cientificamente datadas, mas que se presume terem até 4 mil anos, e os miradouros bem construídos, apesar de interessantes, não fazem esquecer o encanto da paisagem viva, antes se integram harmoniosamente nela. A algumas rochas, ou conjunto de rochas, foram atribuídas denominações, pelos habitantes locais (ainda antes de se ter criado o parque) ou por visitantes, mas isso não é seguramente o mais importante.

O mais importante do parque é a sua biodiversidade. Quando ali estivemos ainda praticamente não tinha chovido, pelo que as várias nascentes do parque não se prolongavam ainda em volumosos caudais. Mas deu para imaginar que deve ser ainda mais agradável visitar este parque após a época das chuvas, fruindo, num clima muito quente, da frescura da água e da sombra que a paisagem de transição entre o cerrado, caatinga e mata amazónica proporcionam. Convivem no Sete Cidades mais de 250 espécies de aves, macacos, tamanduás, preás e mocós. A flora é também muito rica, com espécimes como sambaíba, chapada, piqui, tingui-de-bola, baratimão, pororoca, entre muitas outras desconhecidas da maior parte dos portugueses e até dos brasileiros.

Num dos miradouros de Sete Cidades.

No que toca a parques naturais no Brasil e, particularmente, no Piauí, temos muita vontade de conhecer o Parque Natural da Serra da Capivara. Não foi possível nesta viagem, mas está planeada para a próxima uma visita, necessariamente, com tempo. Entretanto, queremos agradecer a Janaína Sousa por suas disponibilidade e simpatia, e pelo seu profissionalismo. Janaína é uma excelente guia e quem quiser visitar o Parque de Sete Cidades em boa companhia pode contactá-la pelo whatsapp através do número +55 86 99988-0762.

Saímos do parque e regressámos a Piripiri para almoçar. Desta feita não pudemos ir ao Espaço Castanhola, pois só abre à noite, para jantares, almoçámos numa churrascaria à entrada da cidade e de seguida infletimos para leste, pela nacional 404, em direção a Pedro II, onde estacionámos na parte antiga da cidade, na bonita Praça Domingos Mourão Filho, junto à Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Pedro II é uma cidade muito agradável, com uma temperatura relativamente amena (chamam-lhe a Suíça do Piauí), pois encontra-se situada a uma altitude de 603 metros.

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Pedro II.

Junto a esta praça encontramos as principais atrações da cidade, sobretudo, claro, algumas lojas onde se podem comprar as magníficas opalas preciosas que são consideradas a principal atração da cidade. Não existem jazidas de opala nobre em nenhum outro lugar do Brasil e apenas na Austrália há uma produção maior desta pedra preciosa. É pena não existir um museu dedicado à opala na cidade, mas na joalharia Opalas Pedro II, a 20 metros da praça referida, na rua Tertuliano B. Filho, é possível observar pedras brutas e gemas lapidadas, além de ouvir as explicações da proprietária. As pedras brutas com maior potencial são as mais coloridas, conhecidas por “pedras vivas”, por as cores darem a sensação de se moverem.

Em Pedro II existem garimpeiros e lapidadores (no Brasil conhecidos por lapidários), e graças a eles podemos comprar jóias de opala de todas as cores, cada qual com a sua identidade, não apenas aqui mas também nas joalharias de todo o mundo. Mas como se formou a opala? Há 200 milhões de anos, quando o supercontinente Pangeia começou a dividir-se, grandes quantidades de magma começaram a libertar-se das entranhas da Terra. Ao que parece, nesta zona, o magma não chegou à superfície e começou a aquecer a água subterrânea que atingiu grandes temperatura e pressão acabando por rebentar as rochas em redor e dissolvendo os seus minerais. Com o passar do tempo, quando as temperaturas do magma e da água baixaram, surgiu a opala.

Na FM Imperial com os radialistas Isael Mendes e Ítalo Sousa.

Ainda na Praça Domingos Mourão Filho, descobrimos as instalações da Rádio Imperial, ouvida em três estados — Piauí, Maranhão e Ceará. Fomos convidados a entrar na sala onde um radialista, na companhia de alguns colegas, comandava a emissão, e fomos presenteados, imagine-se, com uma referência à nossa visita, talvez uma hora depois quando já nos encontrávamos no carro, rumo ao Morro dos Gritadores, e sintonizámos a Imperial em 95.5 FM, pelo radialista Ítalo Sousa. Gostaríamos de testemunhar e agradecer a gentileza dos jornalistas da FM Imperial, atitude que muito nos sensibilizou.

O Mirante do Gritador fica num ponto ainda mais alto do que Pedro II, e a vista, para Norte e Nordeste, é soberba. Após as fotos da praxe, percorremos os 12 quilómetros de regresso a Pedro II, onde lanchámos. Quando saímos da cidade era já noite cerrada. Acabámos por jantar e, depois, dormir, em Capitão de Campos, num pequeno hotel de beira da estrada, barato, sem grandes condições, mas que deu para descansar e dormir em segurança. Além disso, o pequeno almoço, no dia seguinte, foi bastante aceitável.

O Raparigueiro.

Tomámos a estrada cedo, como sempre, em direção a Campo Maior, mas poucos quilómetros antes da cidade, infletimos para a esquerda e entrámos na estadual 115, rumo ao sítio de Furnas, um conjunto de casas pertencente ao município de Sigefredo Pacheco. Este é um local muito importante para nós. Foi em Furnas que nasceram a avó e a mãe de Fla. Foi emocionante visitar o local onde a minha mulher passava as férias escolares e relembrar aquele, a milhares de quilómetros de distância, noutro país, onde eu próprio passava as férias. As comparações são inevitáveis e o que é fascinante é o tomar consciência das diferenças entre os dois lugares. A paisagem é completamente diferente, o clima idem, a vida, vegetal e animal, substancialmente diferentes também. A surpresa é genuína.

E, no entanto, há uma semelhança fundamental. Estes são espaços de liberdade, aventura e brincadeira; de sonhos, ilusões, medos e esperanças próprios da juventude; de sons, cores, sabores e cheiros que se gravam em nós para sempre; e, seguramente, de episódios, histórias e pessoas que não esqueceremos.

A casa de família é agora habitada por uma tia da Fla e duas crianças. Visitámo-la detalhadamente para a gravarmos na memória. Vimos os animais — equinos, porcos, vacas leiteiras, caprinos, galináceos e um papagaio chamado Raparigueiro — passeámos pelos espaços abertos e fomos a uma ribeira que tinha pouca água (não chovera ainda o suficiente), mas onde, mesmo assim, as crianças se rebolaram no líquido barrento. Estivemos por ali umas horas e foi uma visita que não sei se irá repetir-se, mas sei que não mais esquecerei.

Espaço de liberdade.

Seguimos para Campo Maior, a capital da carne de sol. Comprámos uns quilogramas deste produto de alta qualidade, ainda antes de almoço. As peças de carne penduradas — sobretudo de bovinos e caprinos — são uma imagem de marca de Campo Maior, e são muito fáceis de observar no centro da cidade. Nos restaurantes de Campo Maior, é claro, o prato mais pedido é de carne de sol. E no restaurante buffet onde almoçámos também havia obviamente carne de sol. Outra coisa que sempre há (ou quase sempre) é rapadura. Quadradinhos de rapadura (açúcar de cana em bruto) para acompanhar o café depois das refeições. Estávamos tão habituados a comê-los que se estava a tornar um vício.

Depois de almoço regressámos a casa. Durante as duas horas de viagem recordamos vários dos momentos passados nesta viagem ao Brasil, mais uma de muitas. Fora um fim de semana intenso. No dia seguinte voltaríamos para Portugal.

Foto de família na despedida.

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