
Termina hoje o segundo e último mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto Presidente da República de Portugal. Depois de 60 anos intervindo na vida pública, Marcelo promete remeter-se ao silêncio no que toca à ação política, algo que contraria tudo o que fez até agora.
Eu costumava detestar Marcelo. Assistia aos seus comentários políticos, aos domingos na TVI, da mesma forma que vejo hoje Agostinho Costa, Tiago André Lopes ou Carlos Branco — simplesmente para discordar de quase tudo.
No entanto, paulatinamente, comecei a gostar de Marcelo. O período de viragem definitiva foi durante o ano de 2017, em junho e outubro, quando fogos florestais devastaram áreas enormes do nosso território, provocando centenas de vítimas mortais. Os sobreviventes de familiares mortos, de bens perdidos e de traumas difíceis de avaliar, precisaram de ajuda imediata, ainda que simbólica, de alguém que pudesse confortá-los. O Presidente assumiu exemplarmente esse papel, ao contrário de muitos outros, nomeadamente o então primeiro-ministro, António Costa. O contraste foi chocante e difícil de esquecer.
Não mais esqueci essa comunhão indesmentível de Marcelo com o povo, que continuou até hoje. Entretanto surgiu o chamado “caso das gémeas”, um duro golpe, notório e indisfarçável, ultrapassado com dificuldade, e Marcelo ficou claramente abalado. Foi uma lição para ele, tal como, com ele, eu aprendi várias lições. Somos seres multifacetados, imperfeitos e falíveis, sempre; mas podemos mudar e melhorar se tivermos a humildade genuína dos corações generosos e solidários — como mostrou Marcelo. E isso, seja no Presidente ou no mais humilde cidadão, é, sem dúvida, o mais importante.
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